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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Quase Feliz


Ela estava deitada atravessada por cima dele, os dois formando um "X" sobre a cama.
Ele assistia TV, enquanto ela lia um grosso volume encadernado do Superman.
Ela fechou o encadernado após virar as duas ou três últimas páginas de capas alternativas, empurrou o livro pro lado e cruzou os braços sob o queixo. Sem se mover da posição em que estava, ainda na perpendicular sobre ele, encarou a janela e disse:
-Bem bom esse quadrinho, mesmo...
Ele, de olhos colados na TV, respondeu enquanto afagava de leve as nádegas dela:
-Achei que tu fosse gostar. Acho que é uma das minhas preferidas se não for a preferida...
-Tu sempre me fala daquele... - Ela hesitou. Virou a cabeça de modo a conseguir observá-lo com o rabo dos olhos. -Como chama?
Ele sorriu, ainda sem desviar os olhos do televisor:
-Assim fica difícil.
Ela suspirou:
-Ai... Um lance do Beethoven, ou do Mozart...
Ele franziu o cenho... Olhou pra cima. Teve um estalo.
-Ah! As Quatro Estações.
-Isso. As Quatro Estações... É Mozart ou Beethoven? - Ela inquiriu, mordendo o lábio inferior.
-É Vivaldi, eu acho... - Ele respondeu, incerto.
-Não... É Mozart. Tenho quase certeza que é Mozart. - Ela retrucou.
-Deve ser Mozart, então. - Ele aquiesceu, mais pra evitar o conflito do que por realmente concordar com ela.
Ficaram em silêncio, ela ainda sobre ele, as pernas esticadas bem pra fora da cama espaçosa, comprida que era, a claridade da TV tornando azul a fina penugem dourada que ela tinha sobre as nádegas. Estava nua, completamente, e ele vestia uma boxer cor de laranja com motivos de halloween.
Ela tomou fôlego:
-Tu me empresta?
-O quê? - Ele inquiriu.
-As Quatro Estações. - Ela respondeu.
-Empresto, claro. - Ele respondeu.
Continuaram em silêncio. Ela começou a se remexer, esticando os braços longos pra uma escrivaninha sob a janela do quarto. O movimento dela, totalmente nua, sobre ele, o deixou estranhamente envergonhado:
-Que é que tu tá fazendo, criaturinha?
-Quero pegar meu I-Pad... - Ela respondeu, espichando os braços e alcançando o aparelho dentro da capa de couro.
-Pra quê? - Ele perguntou, se encolhendo sob ela.
-Eu quero ver se As Quatro Estações é do Mozart ou do Beethoven...
-Não é de nenhum dos dois, é do Vivaldi. - Ele disse.
Ela largou o aparelho ao lado da cama, e se moveu languidamente por cima dele até estarem cara a cara:
-Ah, é? Então por que foi que, quando eu disse que era do Mozart o senhor concordou? - Ela perguntou agarrando ele pelos cabelos.
Ele fez uma careta, agarrou ela com firmeza pelos pulsos, livrando o cabelo de seus dedos finos, e respondeu:
-Porque tu pode não ser uma loira burra, mas certamente é uma loira teimosa.
Ela rilhou os dentes, franziu o nariz e imitou um som de rosnado, beijando-o na boca em seguida.
Ele correspondeu.
Ela continuou deitada sobre ele, mas se endireitou, deitando a cabeça sobre seu peito.
-Isso é uma ideia de felicidade perfeita? - Perguntou.
-Poderia ser, eu suponho... - Ele conjecturou. - É a tua? - Quis saber.
-É. - Ela respondeu.
Ele afagou os cabelos dela, fazendo rescindir o aroma cítrico que ela sempre trazia em si.
Ela ergueu os olhos, buscando os dele:
-E pra ti? É uma ideia de felicidade perfeita? - Perguntou.
Ele sorriu e a beijou sem dizer nada.
"Quase", pensou.
Acordou sozinho em casa, com As Quatro Estações sobre o peito, envergonhado da própria lascívia onírica.

Rapidinhas do Capita


Que decepção... Mais uma, na verdade.
Segundo a revista Variety, Gal Gadot estará em Batman Vs Superman no papel da Mulher-Maravilha.
A israelense desprovida de bunda ou seios que esteve na série Velozes & Furiosos teria batido a franco cambojana Elodie Yung e a ucraniana Olga Kurylenko na luta pelo papel.
Das três,Gadot era disparado a pior opção, mas após Ben Affleck ter batido Josh Brolin na corrida pelo manto do Batman não dá mais pra duvidar de nada. Ainda assim, me surpreende que escolhas óbvias como Megan Fox e Odette Annable não tenham sido nem mesmo cogitadas, já que o óbvio Henry Cavill foi tão bem no papel de Superman em Homem de Aço...

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Por falar em Gadot e Velozes & Furiosos, registro tardio da morte de Paul Walker.
O Brian O'Conner da série de carros envenenados transformada em série de "heist movies" morreu no final de semana em um controverso acidente de automóvel deixando vários (e principalmente várias) fãs inconsoláveis, uma ONG, a Reach Out Worldwide, envolvida em diversos projetos humanitários ao redor do globo, e um filme em produção órfão de sua co-estrela.
Velozes & Furiosos 7 pode ter que ser todo refeito devido ao fato de que muitas das cenas do ator ainda não haviam sido gravadas.
Ah, a Universal, estúdio do filme, prometeu que parte dos lucros do DVD e BR do filme serão destinadas à ROW, de Walker.

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Mais alguém contando os minutos pra estréia de O Hobbit - A Desolação de Smaug?

Ultimato


Quando a Amélia sentou na frente do Benito e disse, com todas as letras, que ou eles casavam, ou não tinha mais sexo, ele achou que fosse brincadeira.
Não podia ser verdade que ela o faria casar, ou então o privaria de tê-la em sua cama.
Não que o Benito fosse algum ninfomaníaco, tarado, ou que sofresse de priapismo, nada disso, ele era um sujeito bem tranquilo que tinha um apetite sexual bastante razoável e nada além disso. O Benito nem era desses caras que queria transar todo o dia. Não, pro Benito, quatro, cinco vezes na semana estava de bom tamanho.
Ótimo tamanho, na verdade.
Ele inclusive encontrara na Amélia sua parceira ideal, entre tantas outras coisas, também nas atividades de alcova.
A Amélia também era uma pessoa com apetite sexual razoável. Não era dessas moças tímidas que têm vergonha de dizer o que quer na cama. Não se furtava de pedir que o Benito fizesse isso ou aquilo da forma que ela preferia de modo que o Benito não quebrava a cabeça para tentar satisfazê-la, e julgava que, na maior parte das vezes, sucedia nisso.
A Amélia, inclusive fora um achado na vida do Benito.
Não apenas por ser bonita e descolada, mas especialmente por esse comportamento íntimo. Essa atitude de dizer o que queria e como queria entre quatro paredes.
Até conhecer a Amélia, o Benito estivera com outras mulheres, mas em todos os seus relacionamento experimentara percalços no quesito sexo.
Algumas pareciam ter vergonha de falar sobre sexo até mesmo enquanto faziam sexo. Outras, eram tão mais experientes do que Benito que pareciam apenas se conformar com o que ele fazia por conta e serem condescendentes para com ele acerca dos resultados, e outras ainda, pareciam encarar o sexo como um favor para ele, e o faziam de tão má vontade que ele simplesmente não queria mais fazer.
Essa série de eventos desafortunados nos relacionamentos de Benito o haviam tornado num sujeito que não colocava o sexo em segundo plano, nem em terceiro. O sexo, na vida do Benito, estava lá no sexto ou sétimo plano.
Mas as pessoas são adaptáveis, e o Benito não era diferente. Ele aprendeu a apreciar outras facetas dos relacionamentos, o passeio de mãos dadas, as conversas, os beijos, o sorvete de casquinha com a mesma colher...
Quando conheceu a Amélia, que tinha todos os predicados que uma moça precisava ter, era bonita, inteligente, meiga, engraçada, parceira pra todas as atividades, puxa, ele se encantou. Mas, ao mesmo tempo, conforme eles criavam intimidade e o Benito descobria que a Amélia além de tudo isso, também gostava de sexo, ele ficou meio sestroso...
Como já foi dito, não que ele não gostasse, mas a ideia de ter uma parceira que gostava e valorizava o ato, o deixavam um pouco apreensivo justamente porque, mesmo tendo alguma rodagem em termos de relacionamentos, em termos de sexo, sua experiência era quase nula.
A questão é que o Benito gostava demais da Amélia, e foi mascarando como pôde aquele nervosismo e aquela sensação de frio na espinha, e, quando as coisas finalmente se encaminharam e eles chegaram a se conhecer em sentido bíblico, tudo foi muito natural, muito bacana, e muito gostoso por causa de todas aquelas coisas que a Amélia fazia, como por exemplo, falar abertamente o que queria e de quê gostava.
As coisas, aliás, foram tão bem, que o Benito acabou se descobrindo como alguém que gostava da coisa. Gostava, mesmo. E não era raro ele se pegar fantasiando com a Amélia. Não era raro ele se flagrar lembrando com um sorriso idiota alguma alegoria que ambos haviam performado na noite anterior. Não era raro o Benito perceber que estava ansioso por chegar em casa e despir a Amélia.
Benito mudara completamente sua postura face aos relacionamentos. Totalmente. Ele podia dizer que se tornara outra pessoa muito além da intimidade.
Mais confiante, mais relaxado, mais seguro, e tudo aquilo, graças à cumplicidade que encontrara em Amélia.
E agora quilo. Ela aparecia na frente dele com um ultimato daqueles.
Não que fosse nenhum absurdo.
Amélia sempre fora uma moça religiosa, sua família toda o era.
Até era de se estranhar que Amélia fosse tão prafrentex em termos de sexo sendo conservadora como ela era em tantas outras frentes.
Ademais, ela já estava chegando aos trinta anos, idade que muitas moças consideram limite pra se encaminhar na vida em termos de relacionamento se esperarem ter filhos, e a Amélia queria ter filhos, além disso, ela e o Benito já estavam juntos fazia coisa de uns quatro anos, o que muitas pessoas também poderiam ver como um período limite pra uma relação ser definida meramente como um namoro.
Mas e o Benito?
O Benito estaria pronto pra dar esse passo?
Julgava que não. Era demasiado cedo pra ele. É fato sabido que homens amadurecem em marcha infinitamente mais lenta que as mulheres, com pouco mais de trinta anos Benito ainda sentia-se um jovem. Pra piorar, ele deixara de experimentar tanta coisa na vida enquanto crescia por conta de sua timidez e das responsabilidades que tivera que assumir por força das consequências que sentia-se um pouco aviltado de certas liberdades que vira seus amigos terem na mesma época, de modo que, pra ele, hoje era importante sentir-se assim, liberado de certas coisas.
Mas o que fazer?
Amélia estabelecera a condição. Na verdade, praticamente lhe impusera um ultimato. Logo a Benito, que não era homem de responder bem a ultimatos...
Como ele responderia a isso?
Diabos.
Nem precisava pensar muito. Responderia que sim. Que se casaria com ela.
E não apenas por causa do sexo.
Longe disso.
Por incontáveis outras coisas antes.
Pela forma como Amélia o fazia sentir. Por ele realmente acreditar que era correspondido em sua afeição. Por ter encontrado nela uma paz que nem sabia existir.
Maldita Amélia...

sábado, 30 de novembro de 2013

A Lição dos Dias Sombrios


Eram dias ruins, aqueles que o Laerte vivia.
O Laerte jamais fora homem de navegar em mar de rosas. Muito antes pelo contrário. A vida do Laerte, via de regra, sempre fora mais dada a caudalosos maremotos de agruras daqui e dali do que a placidez de águas calmas, mas ainda assim, o Laerte julgava que aprendera mais com os percalços do que teria aprendido com sossego.
Para o Laerte era justo pensar que, não fossem as mazelas que experimentara enquanto crescia, hoje ele não seria o homem que era, e, a despeito de ser um homem com seus defeitos (que, vá lá, não eram poucos), o Laerte supunha ser um bom homem.
Nem sempre fora assim.
Na infância Laerte era mimado, reclamão e mal-criado. Na adolescência fora briguento, preguiçoso, relapso e quase um marginal.
Hoje?
Hoje, seus maiores defeitos talvez fossem a rabugice, o transtorno anti-social, a teimosia e a tendência a levar as coisas à ponta de faca, o que, olhando em perspectiva, era um tremendo avanço, já que baseado em seu histórico enquanto tinha sua personalidade moldada, Laerte acreditava que poderia ter terminado muito, mas muito pior.
Era olhando para si mesmo e o processo de crescimento pelo qual passara que Laerte regozijava pelos obstáculos em seu caminho. Não tivesse vivenciado os problemas com alcoolismo de seu pai, as doenças e morte em sua família, os problemas financeiros, todos os pequenos desastres aos quais ele fora exposto enquanto definia quem seria quando fosse, de fato, uma pessoa completa, e talvez Laerte fosse incapaz de valorizar o que tinha, de saber o valor do trabalho, o valor das pessoas a quem amava, as pequenas conquistas.
Não houvesse experimentado privação e derrotas, e talvez, hoje, Laerte não fosse capaz de avaliar com justeza a eventual pujança e as eventuais vitórias, por pouco que durem ou por menores que sejam, então, sim, Laerte sentia-se grato por aquela eventual privação. Por aquelas pequenas derrotas.
Mesmo que na época ele fosse incapaz de entendê-las, haviam sido presentes, dádivas que o ajudaram a melhorar em cada âmbito de sua vida.
Laerte jamais acreditou em um Deus todo-poderosos e benevolente manipulando as esquinas da vida para levá-lo ao melhor caminho.
Não.
Laerte era um incréu, fora tornado incréu, também pela vida. E também por isso agradecia.
Se realizava uma boa ação, ou mantinha reta sua conduta, não era por medo do inferno ou por almejar lugar no céu, era por achar que era melhor tentar ser bom do que aceitar a própria torpeza.
E se estivesse errado e existisse um Deus e um Céu e tudo o mais, então sua conduta, talvez, tivesse mais valia, pois nada do que ele fazia era esperando recompensa ou temendo punição.
Era um bicho simples o Laerte.
De poucas, mas sinceras virtudes, e de vários, porém honestos defeitos. E tudo isso erigido sobre um começo de vida repleto de mazelas, .
Mazelas essas pelas quais Laerte sabia ser grato.
E era a isso que Laerte se agarrava, agora.
Ele olha em volta, respira fundo, e engole em seco, na esperança que amanhã, depois, depois ou daqui a algum tempo, ele seja capaz de enxergar a sabedoria a ser extraída desses dias sombrios.
Há alguma.
Tem que haver...

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Rapidinhas do Capita


Olha que maneiro o banner fotografado por um fã em um cinema de Las Vegas, nos EUA:


A arte mostra o Homem-Aranha (Andrew Garfield) cercado pelo Rhino (Paul Giamatti) e pelo Electro (Jamie Foxx), dois antagonistas que sabidamente estariam no filme, e, surpresa, pelo vilão Duende Verde.
Qual das versões, porém, não se sabe, tanto Harry quanto Norman Osborn estarão no filme, interpretados respectivamente por Dane DeHaan e Chris Cooper, então é possível que seja tanto um quanto o outro no planador da imagem.
O filme, alardeado pelo banner como "O início da maior das batalhas" estreia em 2 de maio do ano que vem, o primeiro trailer vai estar nos cinemas com O Hobbit.

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Após hiato de quase um ano desde Felino Selvagem Psicopata e Homicida, a editora Conrad lançou mais um número das aventuras de Calvin e Haroldo, obra-prima de Bill Waterson.
Existem Tesouros em Todo o Lugar, décimo volume da saga de Calvin, o mais adorável e filosófico moleque hiperativo de seis anos e seu fiel companheiro, o tigre de pelúcia Haroldo, que age como parceiro e consciência do fedelho.
O especial de 176 páginas em formato 30 x 23 cm. custa R$47,00, e vale cada centavo investido. É daqueles quadrinhos pra gente ter sempre à mão pra poder pegar e pelo menos dar uma passada de olhos na certeza de que vai abrir um sorriso, mesmo na pior das estações.

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E a Sony registrou dois domínios relacionados a um possível filme baseado no excelente game The Last of Us.
Os domínios thelasofus-movie.com e thelastofusmovie.net mostram que a empresa japonesa quer garantir os domínios eletrônicos, mas não garante que a produtora vá transformar o game em filme (e se levarmos em conta que a série Resident Evil é da Sony, talvez seja melhor que realmente não o faça.).
Se for rolar, obviamente Ellen Page e Josh Brolin tem que começar a limpar suas agendas, pois são escolhas óbvias para os papéis de Ellie e de Joel.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Crônicas do Observador


O calor era, disparado, a pior parte do dia até ali. Daquele dia em particular. Da vida, de modo geral, o calor provavelmente não estaria nem entre as três piores coisas. Sempre havia algo pior coaxando e pulsando feito um grande batráquio onde antes estivera o coração do Observador.
Andava pra casa, ansiando por tomar um banho frio, vestir roupas confortáveis e se esparramar sob o ventilador. Em seu caminho alternativo, parou à margem da avenida de mão dupla, seis pistas, tráfego frenético, e aguardou o sinal para atravessar.
Fustigado pelo sol inclemente, percebeu o carro que parou junto ao semáforo da avenida movimentada bem sob o viaduto. Acabou intrigado pelo movimento súbito dentro do automóvel e estacou parado enquanto os demais pedestres cruzavam a rua aproveitando o sinal de andar no farol.
Enquanto os automóveis aguardavam a luz verde, a porta do automóvel, um coupé prata de marca alemã, se abriu, e um cachorro médio, um óbvio vira-lata, desses com uma cara simpática, pelo baixo e cinzento que a gente sabe que não tem serventia exceto ser um fiel companheiro, desceu, ganhando o canteiro central.
Foi estranho perceber que após o cachorro descer, mais ninguém saiu do carro. Mais estranho ainda foi perceber que após o sinal abrir, o carro arrancou e seguiu o fluxo, deixando cão para trás.
O animal, de início, não pareceu confuso.
Andou pelo canteiro por alguns metros, e então parou, olhando em volta. Por aflitivos segundos ele ficou num vai, não vai, fazendo arriscadas menções de atravessar a rua em meio ao violento trânsito de veículos do meio da tarde. Seus instintos, porém, lhe foram de valia, e ele soube esperar até que o sinal voltasse a se fechar para cruzar a avenida em direção à uma das calçadas, felizmente a mais larga, onde há um espaço gramado em frente a algumas lojas.
Ali, o cão sentou-se sobre os quartos traseiros, e ficou observando o tráfego por longos minutos.
Quinze ou vinte.
Então deitou-se no gramado, e continuou vigilante, observando a rua na perspectiva de que, quem quer que o tivesse deixado lá, fosse voltar para apanhá-lo.
Isso não aconteceu, porém. Após algumas horas, o cão finalmente se levantou, e saiu andando na direção oposta à seguida pelo automóvel, irremediavelmente sozinho.
Não vamos entrar no mérito do abandono.
O Observador sabe que esse tipo de ação de inominável baixeza é uma ocorrência de certa regularidade. Infelizmente não começa época de veraneio sem que as redes de TV noticiem a quantidade alarmante de abandono de animais em estradas e avenidas.
Apesar de sentir o sapo em seu peito dolorido pelo cão, foi outra coisa que ocupou a mente do Observador.
É lugar comum dizer que em algum momento da vida, todos nós, ou ao menos a maioria, somos esse cachorro.
Que todos nós somos abandonados e descartados em algum ponto de nossa vida e que isso infelizmente é algo pelo qual temos que passar.
Menos óbvio e infinitamente pior, é saber que em algum ponto, todos nós, ou ao menos a maioria, também já foi o ser humano miserável dentro do carro.
E que isso também é algo pelo qual temos que passar, já que ser desprezível e vil e agir de acordo parece ser a faculdade fundamental da condição humana.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Regeneração de Reinaldo


E o Reinaldo?
O Reinaldo havia decidido que seria outra pessoa. Não era época de ano-novo, ainda, quando as pessoas fazem suas resoluções para o novo período que se inicia, mas o Reinaldo achou que uns quarenta e três dias não seriam um mau período pra laboratório.
Se ele se tornaria outra pessoa, era importante que ele ele tivesse tempo pra se habituar a esse novo "eu" já que ele não era nenhum Doctor Who, então, pra poder começar 2014 abafando com sua nova personalidade, ele precisaria de um tempinho.
A ideia deixava Reinaldo mais e mais animado. Imagine só, que beleza, poder se repaginar assim? Retomar sua vida como uma folha em branco e escolher por sua própria conta, o texto que a preencheria? Imagine só, não ser um produto de seu ambiente, mas sim uma pessoa totalmente planejada, alguém único, novo e reluzente que obrigaria seu ambiente a reproduzi-lo e adequar-se à sua personalidade?
Uau...
Isso era algo espetaculoso. Talvez ele até escrevesse um livro a esse respeito em alguns anos. Um livro de auto-ajuda ensinando as pessoas como se transformarem naquilo que queriam ser ao invés de simplesmente se conformarem com o que a vida as havia feito se tornarem.
Não.
Não, não, não.
Esse negócio de escrever era coisa do velho Reinaldo. Esse novo Reinaldo não escreveria. O novo Reinaldo até achava maneiro esse lance de capitalizar em cima das coisas, mas sem muito planejamento. Sem longo prazo, sem pensar a respeito.
O velho Reinaldo pensava. O velho Reinaldo planejava. O velho Reinaldo tergiversava a respeito de tudo. E o que foi que o velho Reinaldo conseguiu?
Nada.
Só tristeza e comiserações.
"Comiserações", não... Palavras rebuscadas eram coisas do velho Reinaldo. O novo Reinaldo não diria "comiserações" e nem "rebuscadas", o novo Reinaldo se comunicaria quase que exclusivamente através de gírias e neologismos, de preferência simples e potencialmente ofensivos.
Sim.
O novo Reinaldo seria um escroto assumido. O velho Reinaldo fazia suas cagadas, e eram muitas, mas a imensa maioria delas era não-intencional, cagadas culposas, poder-se-ia dizer.
"Poder-se-ia" o caralho.
"Dá pra dizer".
Melhor...
O novo Reinaldo não cometeria cagadas culposas, o novo Reinaldo vai foder geral, basta ter a oportunidade. Deu bobeira, o novo Reinaldo te sacaneia. Tá todo mundo fodido na do novo Reinaldo. Tem que usar chuteira pra não escorregar na malandragem do novo Reinaldo. O novo Reinaldo é mau, pega um pega geral.
Mas e os velhos amigos do Reinaldo?
Digo, do velho Reinaldo?
São em sua imensa maioria pessoas boas, gente de boa índole. Não vão gostar de conviver com um tremendo mau-caráter igual o novo Reinaldo...
Bom, paciência, o novo Reinaldo terá seus próprios amigos, totalmente independente dos antigos círculos de amizade do velho Reinaldo. Os novos amigos desse novo Reinaldo serão todos potencialmente escrotos, terão, eles próprios, a faculdade de apunhalar pelas costas. Isso forçará o novo Reinaldo a se manter alerta. A ficar esperto.
O novo Reinaldo vai fazer sexo sem sentimento.
Fazer sexo é o cacete.
O novo Reinaldo vai trepar com elas tudo. Tipo ator pornô, gozada nas teta e pá... O novo Reinaldo vai participar de bacanais, ao menos uma vez por mês o novo Reinaldo vai acordar todo dolorido em meio a um tapete de seios e nádegas, vai se levantar, tomar banho e sair e aquela foda toda não terá significado nada pra ele exceto uma oportunidade de esvaziar o saco.
O novo Reinaldo vai se permitir odiar pessoas.
Mesmo aquelas que ele tenha amado em algum momento, quando era o velho Reinaldo.
O velho Reinaldo tinha disso. Ele amava pessoas.
O que isso trouxe de bom pro velho Reinaldo e pras pessoas que o velho Reinaldo ama?
Amava...
Porra nenhuma.
Talvez o ódio do novo Reinaldo seja infinitamente mais proveitoso para essas pessoas. Talvez as ensine alguma coisa, lhes dê algo sobre a qual edificar uma nova vida de conhecimento, felicidade e paz.
Não que o novo Reinaldo ligue pra isso. O novo Reinaldo quer mais é que essas pessoas se explodam. O novo Reinaldo é escroto assim, mesmo. Vai regular o que puder regular, vai colocar empecilhos a todas as realizações que qualquer pessoa puder ter por pura inveja, por puro despeito e ressentimento.
O velho Reinaldo, não. O velho Reinaldo apoiaria incondicionalmente qualquer oportunidade de crescimento e realização que alguém que lhe é caro pudesse alcançar. Daria a maior força, bastando, para isso, saber se era o que essa pessoa realmente queria e se era vantajoso pra ela, e se fosse, o Reinaldo não teria um "ai" pra dizer em contrário, não importaria o quê.
O velho Reinaldo não era perfeito, mas a imensa maioria do tempo era bem-intencionado. Era apaixonado. Tímido. Distraído. Propenso a se magoar...
O novo Reinaldo não seria assim. Seria assumidamente pérfido. Frio. Expansivo, focado, e não vai ligar pra porra nenhuma.
É.
O novo Reinaldo assume em primeiro de janeiro.
Prepare-se Mundo.
Até lá...
Bom, até lá as pessoas podem continuar contando com o velho Reinaldo. O novo Reinaldo não poderá alterar decisões tomadas pelo antecessor.