Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
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sexta-feira, 14 de março de 2014
Solidariedade
Estavam ela e ele na delegacia, sentados na frente da delegada com mais um policial na sala, parado, com os braços cruzados ameaçadoramente atrás dele.
Ele, o Afrânio, magro, estatura mediana, aparência mediana, cabelos castanho-claros, óculos de grau, camiseta dos Smiths, calça jeans e tênis.
Ela, a Glorinha. Baixinha, bonita, cabelos castanho-escuros pela altura dos ombros, vestido tubinho preto e salto alto.
O policial era grande, bem grande. Era meio barrigudo, mas forte, tinha de braço o que o Afrânio tinha de coxa, e de coxa o que o Afrânio tinha de cintura. Parecia uma fortaleza silente, erigida às costas do Afrânio para oprimi-lo sob a ameaça silenciosa de um bofetão inesperado. Ele usava calça jeans, sapato preto, uma camisa branca de manga curta e o colete da polícia civil por cima. Tinha o óculos de aviador Ray-ban preso no colarinho aberto da camisa, e mascava um palito de dentes. Usasse bigode e seria a epítome do policial civil da ficção.
A delegada era bem diferente do que ele esperaria, porém. Loira, jovem, relativamente bonita, vestia uma jaqueta branca imitando couro, brincos de argola grandes como rodas de bicicleta, uma blusa de lurex cinza por baixo da jaqueta, várias pulseiras e anéis... Era ela quem o repreendia verbalmente.
-Pois então, seu Afrânio... O senhor não sabia que agredir uma mulher é crime? E crime sério. O senhor não está ciente da Lei Maria da Penha? - Ela perguntava, ora olhando os papéis diante de si, ora olhando pro Afrânio.
Ele não disse nada. Continuava olhando pra delegada, mas de vez em quando olhava o policial parado atrás de si, temendo levar um cascudo. Nunca estivera naquela situação. Não sabia se rolaria a rotina de filme americano do good cop/bad cop. Se fosse, estava preocupado, até o momento a delegada só o esculhambara, e o sujeito parado atrás dele não dera um pio, se ele fosse o policial bom, não estava bem no papel se fosse o malvado, o acertaria com um tabefe a qualquer instante, perigando nocauteá-lo, e isso na melhor das hipóteses, na pior, arrancaria-lhe a cabeça com um golpe bem aplicado.
A delegada continuou.
-Um homem do seu tamanho, seu Afrânio, batendo em uma mulher... Em uma mulher miudinha, ainda por cima... Mesmo se o senhor não conhece a lei Maria da Penha, mesmo se o senhor é completamente ignorante a todo o nosso código penal, o senhor não tem um pingo de educação? De polimento? De decência? O senhor não teve mãe? Não teve uma pessoa na sua vida pra lhe dizer que o senhor não deveria agredir uma mulher? Que uma mulher, especialmente uma pequenininha que nem essa moça aí do seu lado, é pra ser bem tratada. Protegida. Guardada... Ninguém lhe ensinou nada disso, seu Afrânio?
O Afrânio não disse nada. Olhou pra delegada, pensando que estava, de fato arrependido pelo que ocorrera, e não apenas pela iminência de ser surrado com uma lista telefônica por aquele mamute que estava ancorado atrás dele feito um transatlântico assassino.
A delegada continuou:
-Ficar mudo não vai adiantar nada, seu Afrânio. Agora o mal já foi feito. O senhor aprontou uma boa, seu Afrânio. Aprontou, mesmo. E vai ter que pagar por isso conforme os trâmites da lei.
Ela ergueu os olhos de modo que ficou claro pro Afrânio que ela estava olhando pro policial tamanho litrão que ficara parado atrás dele. O Afrânio chegou a fechar um olho bem apertado achando que levaria uma tapona no ouvido, mas a delegada apenas disse:
-É ou não é, Oliveira?
E o policial atrás do Afrânio gemeu um "é" grave igual um apito de navio.
A delegada continuou:
-Eu ainda estou tentando convencer essa moça bonita a prestar queixa contra o senhor, seu Afrânio. Ela não quer. Certamente tem medo, já que existem muitos "Afrânios" pelo Brasil afora, e a polícia infelizmente não tem condições de garantir a salvaguarda de todas as moças que estão sob a ameaça de um covarde capaz de bater em uma mulher!
A voz da delegada saiu de tom pela primeira vez. O Afrânio percebeu que ela estava brava. De novo, com a visão periférica, ficou esperando o Oliveira lhe dar um cola-brinco, mas ele não se mexeu.
A delegada se recompôs, passou a mão no cabelo, pigarreou:
-Bom... Se tudo correr bem, seu Afrânio, o senhor pode esperar um processo judicial. Pode esperar prisão. Pode esperar medida cautelar... Tudo isso. Tudo pra garantir que o senhor não levante nunca mais a sua mão pra uma mulher. Eu só preciso convencer essa moça adorável, de que ela está certa, e o senhor, seu Afrânio, é que é o errado.
A moça ao lado do Afrânio, bonita, pequenininha, mesmo, com uma expressão fechada, olhou de esguelha para a delegada, depois pro Afrânio.
A delegada se levantou, andou até a moça e amparou-a fazendo com que levantasse, e as duas saíram da sala, deixando o Afrânio sozinho com o Oliveira, que parecia muito maior que uma oliveira.
O Afrânio ficou ali sentado, em silêncio, com o Oliveira atrás de si um minuto, dois, dez, vinte...
A respiração do policial, no silêncio da sala, começou a tomar proporções de terremoto na falha de San Andreas. Cada conjunto de inspiração e expiração faziam a cadeira do Afrânio vibrar sob seu corpo.
A tensão foi ficando insuportável pro Afrânio, que, em pânico, temendo uma surra homérica, acabou desatando a falar, falar alto, colando uma frase na outra achando que, se fosse capaz de se explicar, não apanharia:
-Sabe o que é, seu Oliveira? A Glória e eu, Glória é a moça que tava aqui, a que eu agredi, bom, agredi, não. Quer dizer, agredi, mas não do jeito que a delegada disse. A Glória e eu, a gente trabalha junto, sabe? Já tem um tempo, tipo uns quatro meses, quase cinco. A Glória sempre me tratou bem, desde a primeira vez que a gente conversou. A gente tava falando de uns desenhos animados lá da década de oitenta, que ela via e eu também. A gente nem se falava direito nem nada, só estávamos no mesmo lugar, na mesma roda de amigos depois do expediente, happy hour, sabe? E então eu corrigi um lance que ela falou e tal, e a gente meio que começou a se falar dali em diante, saca?
O Oliveira não disse nada. O Afrânio percebeu que ele também não se mexera, mas continuava respirando pesadamente. Em pânico, não conseguiu conter a diarreia verbal, e seguiu:
-Enfim, ela e eu nos tornamos amigos, sabe? Bons amigos. Quer dizer, eu sempre achei que tinha mais entre nós. Uma sugestão de flerte, manja? Nós ficamos íntimos, ela me contava coisas, falava das preferências sexuais dela, imagine? Me contou do ex-crápula que magoou ela e que era mega conservador , me dizia que tinha se tornado mais aventureira, que queria experimentar coisas novas. Eu, claro, acabava falando das minhas intimidades, também, preferências e tal. Nada explícito, sabe? Só pra manter o quid pro quo, e pra sustentar o interesse dela aceso, porque ela parecia interessada, eu não tava imaginando coisas, entende? No meu lugar tu faria a mesma coisa-
Deteve-se. Havia comparado o Oliveira a si próprio, um notório réprobo social. Esse era o momento do safanão. Encolheu-se, mas nada aconteceu. Esperou, encolhido pela raquetada que o derrubaria da cadeira, ou o soco na nuca que faria sua cara se desprender da cabeça, mas nada acontecia. O pavor crescia, sem saber o que mais fazer, seguiu falando sem controle:
-Mas então, ela continuou me provocando, sabe? Me falando coisas, se abrindo, dizendo como eu era perfeito. Até presente de dia dos namorados ela me deu, Oliveira! Imagina uma coisa dessas? O que que eu ia pensar? Claro que eu ia pensar em besteira!
O Oliveira nada. Continuava parado, ameaçadoramente silencioso atrás do Afrânio feito um Colosso de Rodes prestes a esmagar um barco incauto que ousasse passar entre suas pernas colossais.
O Afrânio, já suando de tão assustado, seguiu:
A gente saía juntos. Cinema, teatro, barzinho, tudo bem, eu admito, não tomei uma atitude, mas é que os sinais dela, embora fossem claros, não eram definitivos, Oliveira, eram óbvios, mas não eram um sinal verde. E eu, que sou tímido, fui levando as coisas em banho maria sem partir pro ataque. Aí, ontem ela me liga, diz que queria sair comigo depois do expediente hoje, que precisava falar comigo. Uma coisa muito séria. Eu fui. Tomei banho antes de sair pro trabalho, me lavei de perfume, me preparei pra quê? Pra ela me dizer que gostava de mim e perguntar se eu sentia o mesmo, né, Oliveira? E eu ia dizer que sim. Que gostava. Que na verdade, esse nosso relacionamento semi-platônico, inclusive tinha me dado uma outra percepção das relações homem/mulher, que eu tinha amadurecido e me tornado um homem melhor, mais apto a encarar os percalços de uma relação por causa dela. Aí, na saída do trabalho, fui pegar ela, a gente saiu, ela toda sorridente, meio misteriosa, quase tímida. Eu, felizão, cheguei a ensaiar de pegar na mão dela enquanto a gente andava. Chegamos no bar, o mesmo barzinho onde a gente foi quando saímos juntos a primeira vez. Ela, sorrindo, me olha e diz que precisa me contar uma coisa, que não podia mais guardar aquilo, eu, transbordando de excitação, nervoso, antevendo o beijo que eu ia dar nela, o que é que ela me diz, Oliveira? O que é que ela me diz?
Afrânio se remexeu na cadeira, virando o torso superior e encarando o Oliveira de baixo pra cima, sem levantar. O Oliveira olhou vagamente pra baixo, ainda mascando o palito, sem dizer nada. A expressão dura, o rosto anguloso talhado em pedra. Sem expressão, exceto alguma coisa nos olhos pequenos e fundos em duas cavernas cavadas ao redor do topo do nariz curto. Talvez fosse ódio, o Afrânio não sabia, mas fosse o que fosse, fez o Afrânio conter a verborragia. Ele respirou fundo, ficou em silêncio por algum tempo. Mas suspirou e falou, em tom bem mais baixo e infinitamente mais pausado:
-Ela me disse que tava namorando, Oliveira. Disse que tinha conhecido um cara ótimo. E que eu tinha ajudado ela a romper um mundo de barreiras... Que sem a minha presença na vida dela, ela jamais teria tomado coragem pra convidar o tal do cara pra sair.
Afrânio segurou o rosto entre as mãos.
-Perdi as estribeiras, mesmo. Dei um pedala nela. Mas foi no topo da cabeça. Um tapa, um cascudo. Coisa que se faz em irmão mais novo. Ela até riu na hora, mas um cara viu, tomou as dores, deu discussão, chamaram a polícia... Enfim, eu acabei aqui. De coração partido e prestes a ter minha vida demolida por uma reação intempestiva, toneladas de timidez e um mal-entendido.
Ficou parado, olhando pra frente. Percebeu o Oliveira se mexer, não se encolheu, achou que, se aquela era a hora do bofetão, a merecia. Mas a mão do Oliveira, do tamanho e peso de um cacho de bananas, pousou em seu ombro, silenciosa.
O Oliveira, como todos os tímidos do mundo, mesmo sem aprovar a reação do Afrânio, sabia como ele se sentia.
segunda-feira, 10 de março de 2014
Resenha Blu-Ray: Jogos Vorazes: Em Chamas
Oh, Katniss Everdeen... Só tu, mesmo pra fazer eu assistir Jogos Vorazes e Jogos Vorazes: Em Chamas... Seja pela carinha bonita, pelo corpinho gostoso, a jovem Jennifer Lawrence é a melhor e mais óbvia razão para assistir às adaptações cinematográficas da série literária de Suzanne Collins.
Não me entenda mal. Nada contra Suzanne Collins, seus livros ou adaptações literárias, apenas acho que, por mais interessante que sejam ficções cientificas ambientadas em futuros distópicos, elas perdem um pouco da graça quando são adaptadas pelas razões comerciais erradas.
Todo mundo sabe que Katniss ganhou a cara (e o corpaço) de Jennifer Lawrence por causa do potencial que o triângulo amoroso entre ela Gale (Liam Hemsworth) e Peeta (Josh Hutcherson) tinha para ser o "novo Crepúsculo", e ganhar seu lugarzinho dourado no coração (e nas carteiras) dessa geração de retardados mentais funcionais que são nossos adolescentes.
O texto de Suzanne Collins, no entanto, tem mais do que apenas o triângulo amoroso a oferecer, de modo que o primeiro filme, embora meio sem graça, não era ofensivo, na verdade, tinha qualidades que faziam a gente torcer para que, na iminências de uma continuação, ela enveredasse, não pelo caminho da mocinha dividida entre dois amores, mas pelo lance do futuro distópico e das autoridades arbitrárias que era sugerido no primeiro longa, mas deixado meio de escanteio pra centrar fogo no que atrairia o público, figurinos extravagantes, efeitos visuais maneiros e, claro, a história de amor cheia de desencontros, obstáculos e heroínas divididas.
Foi por essas e outras que pulei solenemente Jogos Vorazes: Em Chamas no calendário de lançamentos do ano que passou, e apenas movido pela melancolia de final de férias que me impeliu a procurar algo que fazer na minha última madrugada anterior a uma manhã sem trabalho, foi que aluguei o filme na grade do serviço de aluguel digital da TV a cabo.
O segundo longa da trilogia mostra Katniss ainda tentando descobrir o que quer. Após ferrar geral com as regras dos Jogos Vorazes do ano anterior, e conseguir ser vencedora ao lado de seu vizinho Peeta, ao invés de matá-lo e vencer sozinha, ela vive uma vida de relativo conforto ao lado da mãe e da irmã por quem disputou os jogos um ano antes.
Ela se prepara para o tour dos vencedores, quando viajará pelos doze distritos e a capital com Peeta, quando recebe a visita do presidente Snow (Donald Sutherland), que a aconselha a convencer o mundo de que está loucamente apaixonada pelo seu colega.
Snow teme que, se a farsa de Katniss for descoberta, a imagem do governo será manchada, servindo de combustível à uma nova rebelião que começa a tomar corpo nas sombras.
Durante a viagem, Katniss, dividida entre suas obrigações para com a segurança de sua família, ameaçada por Snow, e a vontade de fugir para viver no ermo com Gale, falha em convencer o presidente, que, emputecido, resolve que é hora de agir.
Com a ajuda do diretor geral Plutarch Heavensbee (O ótimo e falecido Philip Seymour Hoffman), o presidente dá início ao Massacre Quaternário, uma edição especial dos Jogos, disputada pelos vencedores dos jogos anteriores.
Novamente ameaçada de morte, Katniss segue tendo que decidir o que quer, além de ter que lidar com seus sentimentos divididos entre Peeta e Gale, a segurança de sua família e de todos com quem se importa, e o papel de símbolo da resistência e da revolução, algo que ela jamais quis.
É bacana.
O segundo longa envereda bem pelo lado mais interessante da saga, a revolução contra o estado policialesco que explora seus cidadãos.
Embora ainda tenha espaço pra obrigatória melação do romance triplo, e uma nova versão (chaaaaata) dos Jogos, Em Chamas acerta a mão e entrega um filme consideravelmente superior ao anterior (inclusive tecnicamente, já que o orçamento do diretor Francis Lawrence é o dobro do filme anterior.).
Com algumas adições interessantes ao elenco (Hoffman é a melhor, mas há também Jeffrey Right, Sam Clafflin, Amanda Plummer e a gatinha Jena Malone) que mantém os bons nomes já presentes no primeiro filme (Woody Harrelson, Stanley Tucci, Elizabeth Banks), Jogos Vorazes: Em Chamas é um programa bacana, e, quem que se pese que é um filme sem começo nem fim, já que serve de encaixe entre o primeiro capítulo e o vindouro terceiro (que será dividido em duas partes, claro).
Além do mais, não se deve desperdiçar nenhuma oportunidade de ver Jennifer Lawrence em ação. Além de bonitinha e gostosona, ela esbanja talento.
E que venha Jogos Vorazes: A Esperança.
Vou ver no cinema.
"-Desde os últimos Jogos algo está diferente. Eu posso ver.
-O que você vê?
-Esperança."
sábado, 8 de março de 2014
Resenha Cinema: Walt nos Bastidores de Mary Poppins
OK, ok... Eu sei que a hora de traduzir os títulos de filmes, livros e quadrinhos estrangeiros de modo a torná-los mais atraentes e acessíveis ao grande público deve ser um momento tenso. Sei que a ideia geral deve ser sempre fazer o melhor e mais fiel trabalho possível. Por vezes o serviço é feito de maneira tão acertada que superam os originais. Imagine O Poderoso Chefão intitulado "O Padrinho", ou Rastros de ódio sendo chamado de "Os Procuradores", ou Demolidor, o herói cego de Hell's Kitchen, sendo "O Audacioso"... Entretanto, há outras vezes... A maioria das vezes, em que a tradução simples funcionaria a pleno contento...
Essa é uma dessas vezes.
Walt nos Bastidores de Mary Poppins, é um título mal escolhido, mal ajambrado e até mesmo mal intencionado para o Saving Mr. Banks do original. Otítulo nacional parece feito para convencer a audiência que Disney e sua luta para tornar o livro de P. L. Travers um filme são os protagonistas da trama.
A verdade é bem o oposto.
O longa de John Lee Hancock (de Um Sonho Possível) é muito mais focado na escritora australo-britânica e na sua relutância em aceitar vender os direitos do seu livro, Mary Poppins, para que Disney fizesse dele um filme, algo que o poderoso animador da Disney tentava a vinte anos.
Travers (Emma Thompson), ameaçada de perder sua casa, acaba aceitando considerar a ideia em 1961, e para isso, é convidada a se encontrar, em Los Angeles, com o produtor do filme, Don DaGrady (Bradley Withford), os roteiristas Richard e Robert Sherman (Jason Schwartzman e B. J. Novak), e o pai do Mickey em pessoa, Walt Disney (Tom Hanks).
Uma pessoa intransigente e difícil de se relacionar, Travers chega à Hollywood francamente disposta a melar a negociação, fazendo toneladas de exigências absurdas e demandando controle criativo sobre a produção de fazer J. K. Rowling se morder de inveja.
Entretanto, enquanto coloca defeito em tudo e é britanicamente fleumática com todos a seu redor, a autora começa a remoer reminiscências de seu passado, e a tornar cada vez mais evidente o paralelo entre o chefe da família de seu livro, o Mr. Banks do título original, e seu próprio pai, o banqueiro fracassado Travers Goff (Colin Farrell), e a ideia de salvar o senhor Banks, e a memória de seu pai, começa a ficar tentadora.
Completamente chapa branca, ignorando os lados mais sombrios dos protagonistas Travers e Disney , e pintando o conflito de ambos com tintas tão leves que tornam o filme quase uma comédia na maior parte do tempo, Walt nos Bastidores de Mary Poppins, ainda consegue agradar.
Carregado de uma ternura quase palpável, o roteiro de Kelly Marcel e Sue Smith caiu nas mãos de um diretor bem intencionado e de um elenco muito mais do que competente.
A interpretação de Emma Thompson é excelente, e apesar da completamente despropositada mudança da personagem ao longo do filme, a inglesa dá nuances e expressões muito verdadeiros à sua Travers, de modo que, graças à atriz, a personagem escapa de se transformar unicamente em um pastiche da voz e do sotaque da autora de verdade (Copiados, diga-se de passagem, à perfeição, conforme atesta um trecho gravado da voz da P. L. Travers original nos créditos de encerramento). Se o texto não faz o mesmo por Tom Hanks, com muito menos chances de tornar seu Walt Disney mais do que meramente camaradão, ajuda Colin Farrell a realizar um ótimo trabalho como o pai da escritora, e Paul Giamatti com seu amigável motorista Ralph.
Longe de ser um documento biográfico acurado de qualquer um dos retratados, Walt nos Bastidores de Mary Poppins é um filme tocante, bonito, divertido, e cheio de bons trabalhos, que vale demais a ida ao cinema.
"Ventos no oeste/ Nevoeiro vai entrando/ Como algo em preparo/ Quase começando/ Não posso apontar/ O que aguarda adiante/ Mas sinto que o quê se avizinha/ Já aconteceu antes."
quinta-feira, 6 de março de 2014
Resenha Cinema: Tudo Por um Furo
Em 2004 um dos personagens cômicos mais engraçados do cinema nas últimas décadas surgiu na comédia O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy.
O personagem título, vivido por Will Ferrell, era o maior âncora do jornalismo televisivo no horário nobre de San Diego na década de 70.
Ron, um completo imbecil, absolutamente chauvinista, convencido, infantil, que era a voz da verdade para o povo da cidade, que aguardava ansiosamente para ouvi-lo, via seu mundo ser sacudido ao ser obrigado a dividir a bancada com a primeira apresentadora feminina de noticiários, Veronica Corningstone (Christina Applegate).
Ron Burgundy fez uma carreira modesta no cinema. Não chega a surpreender. A base de fãs de Will Ferrell não chega a ser enorme nos EUA, e no resto do mundo deve ser desprezível (segunda-feira conheci o fã de Ferrell de Porto Alegre além de meu irmão e eu, vi o sujeito comprando ingressos para O Âncora no cinemark vestindo uma camisa com a cara do ator estampada na frente).
Seus fãs, porém, embora poucos, são fiéis. E, no boca a boca, nos DVDs e na TV a cabo, Ron Burgundy e seus parceiros do noticiário, os igualmente imbecis Brian Fantana (Paul Rudd), Champ Kind (David Koechner) e Brick Tamland (Steve Carell), acabaram conquistando mais pessoas.
Ao longo dos últimos nove anos, a turma do Canal 6 acabou encontrando seu nicho, e formando uma audiência capaz de justificar uma continuação.
Como o filme anterior, que usava a explosão do feminismo e o fim do estilo macho-man de bigodão e peito cabeludo para sustentar uma hora e meia de bobagens da melhor qualidades, a sequência também parte de uma premissa carregada de verossimilhança, mas, infelizmente, de uma verossimilhança muito mais atual.
O execrável título brasileiro, Tudo Por um Furo, feito sob medida para evitar que as pessoas lembrassem do filme anterior, e para ocultar o fato de que se trata de uma sequência de cujo primeiro filme quase ninguém assistiu, faz justiça, porém, ao mote do filme, o momento em que o noticiário virou entretenimento.
Na trama, Ron Burgundy e sua esposa Veronica Cornigstone apresentam um noticiário vespertino em Nova York.
Com a iminente aposentadoria do âncora do mais prestigiado noticiário de horário nobre, Mack Tannem (Harrison Ford), eles esperam ficar com a vaga, o que se comprova fato, mas apenas até certo ponto.
Veronica é aprovada por Mack, mas Ron, não.
Humilhado, ele obriga Veronica a escolher entre ele ou o trabalho.
Alguns meses depois vemos Ron, apresentando os shows aquáticos na Flórida, mergulhado em um espiral de desgraça e ostracismo após perder o emprego e romper com Veronica.
Mas apenas até ser procurado pelo produtor Freddie Shapp (Dylan Baker), que acena com uma nova oferta de trabalho para Ron:
Um emprego como âncora no primeiríssimo canal de notícias 24 horas do mundo, a GNN.
Ron aceita o trabalho contanto que possa recrutar sua antiga equipe, Champ Kind, nos esportes, Brick Tamland na meteorologia, e Brian Fantana como repórter de rua.
Com seus companheiros a seu lado, Ron chega à GNN, mas apenas para descobrir que ficou com o pior horário da emissora, das duas às cinco da madrugada.
Entretanto, disposto a recuperar seu posto como número 1, especialmente motivado após uma rixa com o bamba da emissora, Jack Lyme (o Ciclope James Marsden), Ron e seus colegas começam a pensar em como tornar o noticiário mais atrativo.
Então pensam, por quê, ao invés de mostrar às pessoas o que elas precisam saber, não mostrar apenas aquilo que elas querem ver?
E tome patriotismo barato, perseguições cobertas ao vivo, escândalos envolvendo celebridades e reportagens com animais, lançando a audiência a níveis estratosféricos e colocando o apresentador mais classudo de San Diego no topo do mundo. Mas por quanto tempo essa fama e sucesso manterão Ron no topo antes que ele coloque tudo a perder?
É ótimo.
A fita, novamente co-escrita por Ferrell e o diretor Adam McKay tem duas horas de non-sense non-stop, a profusão de piadas é tão descontrolada e em tons tão variados que é impossível, mesmo para quem não é fã de comédias, não rir de, pelo menos, algumas delas.
O elenco principal segue ótimo. Ferrell e Carell são dois dos melhores comediantes do cinema americano, Paul Rudd também não é nenhum novato na arte de fazer papel de boçal, e David Koechner tem em seu Champ o melhor papel de sua carreira.
O texto carregado de besteirol é um prato cheio para o elenco, engrossado pela presença de Maegan Good (E bota good nisso), Kirsten Wiig, Greg Kinnear, Josh Lawson, além de uma constelação de participações especiais incluindo Liam Neeson, Will Smith, Marion Cotillard, Kirsten Dunst, Tina Fey, Amy Poehler, Sacha Baron Cohen, Jim Carrey, John C. Rilley, Kanye West e Vince Vaughn.
Em suma?
Assista no cinema, Ron Burgundy e sua equipe não merecem passar mais dez anos longe. E nem a audiência.
"-O quê? Nos colocaram no horário do cemitério!
-Eu não tenho medo de fantasma."
terça-feira, 4 de março de 2014
Quadrinhos: Planetary - Deixando o Século 20
Maldito seja, Warren Ellis. Maldito seja por ter escrito Planetary. Maldito seja por se juntar a John Cassaday, Laura Martin e David Baron e ter criado essa espetaculosa obra em quadrinhos.
Maldito seja, malditos sejam todos por tê-la feita tão curta.
Sim, curta.
Pois com o lançamento de Deixando o Século 20, terceiro volume da série na republicação da Panini, e volume em que a atual publicação alcança o ponto até onde a Devir e a Pixel haviam chegado entre 2005 e 2008, há uma dicotomia de sentimentos.
É como descobrir que a ex-namorada a quem tu amava encontrou alguém melhor e está feliz. Da mesma forma que tu te sente feliz por ela, existe aquela percepção clara de que algo se perdeu. É assim com esse terceiro e glorioso volume de Planetary.
Da mesma forma que existe uma excitação em saber que o próximo volume mostrará o desfecho da série, que mantendo a qualidade da publicação até aqui, deverá ser ótimo, existe certa melancolia em saber que O Baterista, Jakita Wagner e Elijah Snow deixarão de aparecer periodicamente nas bancas desenterrando o passado deste nosso mundo estranho.
O terceiro volume de Planetary tem 6 (excelentes) histórias publicadas originalmente nas edições 13 a 18 da Planetary Magazine.
Na primeira, Século, vemos um jovem Elijah Snow viajando pela alemanha em 1919. Ele vai até um castelo abandonado onde encontra monstros e evidências de uma antiga conspiração que o levam até Londres, na Inglaterra, onde encontra Sherlock Holmes, o maior detetive do mundo, já em idade provecta, na companhia de um vampiro.
Referências óbvias a Frankenstein, conde Drácula, Holmes e, claro, à Liga Extraordinária de Alan Moore.
A história seguinte, Ponto Zero, mostra o momento em que o problema de Snow com os quatro tornou-se pessoal, além das óbvias alusões ao Quarteto Fantástico, existe outra a Thor, e também o momento exato em que Snow foi vítima de Randall Dowling, tornando-se o andarilho amnésico que conhecemos no primeiro volume.
A terceira história da edição, Canções de Criação, Snow, com sua memória quase que totalmente recuperada faz emendas ao período em que esteve afastado ao mesmo tempo em que resolve lembrar aos Quatro que é bastante perigoso, também, além de referir a um explorados chamado Carlton Marvel (referência ao Capitão Marvel, mas também à editora Charlton).
A ela segue-se Hark, onde o líder do Planetary coopta Anna Hark para sua causa e promove um reencontro.
As referências mais claras da edição, além da óbvio desfecho do arco iniciado em Estranhos Portos, onde Jim Wilder viajou à Sangria, são os filmes de kung-fu românticos de Zhang Yimou e Ang Lee.
A seguir, visitamos novamente o passado de Elijah Snow. É 1933 e ele descobre o caminho até a cidade perdida de Opak-Re, uma joia de alto desenvolvimento humano e científico oculta no coração da África.
Lá, conhecemos Kevin Sack, lorde Blackstock, um nobre britânico criado na selva com bom trânsito entre o povo local, Anaikah, primeiro amor da vida de Elijah Snow, e até mesmo pistas da origem de Jakita Wagner.
A mais clara referência na história é, claro, ao Tarzan de Edgar Rice Burroughs, o aristocrata inglês John Clayton III, lorde Greystoke (Até na capa original, aludindo à revista All Star Magazine, de outubro de 1912, primeira aparição do personagem) , mas há ainda uma referência sutil ao Superman.
Fechando a edição com chave de ouro, temos O Clube do Canhão, na história o espião Stone, John Stone oferece uma dica a Elijah Snow.
Ele fala sobre um objeto em órbita translunar a 150 anos. A órbita prestes a terminar atrairá a atenção dos quatro, dando a Snow uma chance de bater forte em seus inimigos.
Mais do que isso, a história ainda mostra um estranho lançamento espacial datado de 1851, numa bela homenagem a Da Terra à Lua, de Jules Verne.
Claro, Planetary é muito mais do que simples referências e homenagens (e há muitas outras além dessas, que com certeza podem ser encontradas pelo leitor mais atento e obsessivo), a trama oculta sob o verniz da revisão da cultura pop do Século XX é realmente interessante, bem construída e magnética.
O formato americano, com capa cartão e papel bom no miolo, por módicos R$19,90 são os mesmos das duas edições prévias.
O formato americano, com capa cartão e papel bom no miolo, por módicos R$19,90 são os mesmos das duas edições prévias.
A ocasião é agridoce.
Planetary está por terminar. Vida longa a Planetary.
"Bom dia, doutor Dowling. Doravante as coisas vão só piorar."
Resenha Cinema: Sem Escalas
Existe, no vocabulário gauchesco uma expressão interessante, à qual as pessoas não dão a devida atenção: Nêgo Véio.
Um autêntico nêgo véio não é apenas um camarada que chegou à certa idade. Tampouco tem conotação racial. O verdadeiro nêgo véio é um sujeito que chegou à certa idade, sim, mas, mais importante que isso, entrou nos anos provectos sem perder muito de sua solidez física e de sua acuidade mental.
Um nêgo véio verdadeiro tem liberdade para dizer certas bobagens, tomar certas liberdades, usar determinadas expressões que outrem, simplesmente não têm estatura moral para usufruir.
Um nêgo véio conforme manda o figurino, pode dizer e fazer algumas bobagens, e também deve ser capaz de machucar piazotes com metade de sua idade sem grande esforço, e na hora em que o nêgo véio resolve que a coisa se alongou mais do que devia, ele saca os talher, e aí, meu amigo, é prudente sair do caminho.
Poucos homens no cinema de hoje em dia têm tanto nêgo veísmo quanto Liam Neeson.
O ator irlandês que já concorreu ao Oscar de atuação e que talvez seja o maior mentor do cinema pop se redescobriu após os sessenta anos de idade como herói de ação.
Ao contrário dos Stallones e Schwarzeneggers da vida, Neeson não é uma montanha de músculos, tem algum talento dramático (que realmente não tem usado muito, recentemente), e convence como nêgo véio capaz de quebrar tudo na hora de tirar a prataria da gaveta.
Após dois Busca Implacável em que quebrou a Europa resgatando sua filha sequestrada, Neeson volta à ação em Sem Escalas.
Na trama, ele é Bill Marks, agente federal aéreo, os policiais que fazem a segurança nos vboos norte-americanos após o 11/09.
Bill não é lá muito chegado ao seu emprego. Um homem atribulado, com um passado sofrido, alcoólatra e incapaz de superar a morte de sua filha, Bill tornou-se agente aéreo após ser defenestrado da polícia de Nova York, mas nem mesmo gosta de voar.
OEm sua situação, ele é escalado para policiar o pior voo possível. A viagem sem escalas entre Nova York e Londres. Seis horas praticamente sobre o oceano atlântico.
O que já era ruim, fica ainda pior quando, em meio à viagem, Bill recebe uma mensagem de texto em sua linha segura informando-o de que há um assassino a bordo, que promete matar um passageiro a cada 20 minutos a menos que receba 150 milhões de dólares em uma conta bancária.
Bill avisa seus superiores e seu colega de voo, o agente Jack Hammond (Anson Mount), mas logo percebe que, enquanto não descobrir quem é o responsável pelas mensagens, ele não pode contar com ninguém.
Em sua busca desesperada pelo culpado, Bill pode confiar apenas no piloto do avião, comandante McMillan (Linus Roache), a comissária de bordo Nancy (Michelle Dockery), e talvez, sua vizinha de poltrona, Jen (Juliane Moore, ruivona, envelhecendo muito bem), mas depois que as pessoas começam a morrer, fica a dúvida se Bill pode confiar em si mesmo para proteger os passageiros e a tripulação.
Apesar da espetaculosa reinvenção de Neeson como action hero tardio, Sem Escalas não é uma fita de ação (embora tenha sua quantidade considerável de pancadas na traqueia, mãozadas na cara e esmagamento de ossos em espaços exíguos), estando muito mais pra um thriller de suspense investigativo ao estilo Assassinato no Expresso do Oriente (Embora Hercule Poirot jamais fosse capaz de quebrar pescoços e esmurrar suspeitos com a desenvoltura de Qui-Gon Jinn), e, nesse aspecto, a fita funciona que é uma beleza.
A tensão do filme é palpável, Liam Neeson segura a peteca com estilo, amparado pelo bom elenco de apoio (que inclui além de Moore, Mount e Roache Scoot McNayri, Corey Stool, Shea Whingham, Jason Butler Harner e até a recém oscarizada Lupita Nyong'o), todos convincentes sob a batuta de Jaume Collet-Serra (De Desconhecido, também com Neeson), mantendo o suspense que move a trama.
Claro, o filme tem problemas, especialmente após a revelação do vilão, com motivos que nem toda a suspensão de descrença do mundo tornam aceitáveis.
Ainda assim, com uma boa dose de ação no desfecho, e um trajeto muito bem sucedido, obrigado, Sem Escalas vai bem, e cumpre seu papel.
Assista no cinema, vale a pena. Se não assistir, Liam Neeson vai procurá-lo... Vai encontrá-lo.... E vai matá-lo.
"Eu não estou sequestrando esse avião. Estou tentando salvá-lo!"
sábado, 1 de março de 2014
Resenha Cinema: RoboCop
Em 1987, os roteiristas Edward Neumeuer e Michael Miner e o diretor Paul Verhoeven criaram junto com um elenco equilibrado e uma equipe talentosa um dos maiores filmes de sci-fi (o ramo mais pop da ficção científica) de todos os tempos:
RoboCop.
Na fita, o policial Alex Murphy (Peter Weller) era brutalmente assassinado no cumprimento do dever. Seus restos destroçados, com pouco mais que uma fagulha de vida, eram utilizados pela corporação OCP (um tipo de ACME do mal) para confeccionar o que seria o último grito do combate tecnológico ao crime: Um sistema cibernético operando sob a consciência de um policial abatido.
Entretanto, algo que os técnicos da OCP não eram capazes de prever tornavam os resultados da experiência incertos, à medida que a programação da máquina parecia incapaz de subjugar a força de vontade do homem sob ela.
Era um filmaço.
Sou suspeito pra falar a respeito de RoboCop. O filme é, sem sombra de dúvida, o longa metragem que eu mais vi na minha vida. Cheguei a assistir RoboCop nove vezes ao longo de um final de semana na época das locações de VHS estendidas no ardor dos meus oito, nove anos de idade.
Sob a ótica de Verhoeven, o futuro indefinido, mas próximo, era um lugar aterrador, onde empresas comandavam governos, corporações multi-nacionais definiam os rumos da sociedade que acompanhava a tudo anestesiada por uma mídia idiotizante enquanto o crime organizado galopava nos bastidores até os mais altos escalões (familiar, não?).
O roteiro era descaradamente chupado de O Cavaleiro das Trevas, quadrinho do Batman de Frank Miller, com sequências despudoradamente idênticas às do gibi, mas a mão de Verhoeven, com sua capacidade sinistra de transformar tudo em sátira, mas não em pastiche, equilibrou os elementos tornando RoboCop e sua violência ultrajante (a sequência da morte de Murphy, o tiro nos bagos do estuprador, o capanga derretendo em ácido e jugulares perfurada pela conexão USB fodona do tira robô ainda hoje são chocantes) uma ácida crítica social, e um filme com toneladas de colhões abordando de maneira esperta questões que permanecem relevantes quase trinta anos após o lançamento do longa.
Por essas e outras, quando falaram que RoboCop teria um remake, eu joguei os braços pra trás e bocejei. RoboCop precisa de um remake tanto quanto eu preciso de uma terceira perna.
Mas é a Hollywood dos anos 2010, uma indústria que passa por um óbvio declínio criativo, e que faz filmes para uma geração de imbecis mal educados que são incapazes de enxergar além do que são capazes de ouvir da boca de um dos personagens na tela, ou de assistir um filme sem efeitos especiais "convincentes" que dure mais de duas horas, então...
José Padilha, dos ótimos Tropa de Elite e Tropa de Elite 2 foi escalado para transformar em filme o roteiro de Joshua Zetumer, encarregado de atualizar a trama original.
Nesse novo RoboCop com censura livre, Alex Murphy (Joel Kinnaman) é um detetive da polícia de Detroit. Ele está investigando o traficante de armas Antoine Vallon (Patrick Garrow), que tem policiais na sua folha de pagamento.
Após quase prender Vallon, Murphy é vítima de um atentado à bomba, e deixado entre a vida e a morte nos hospital.
Ao mesmo tempo, a OCP, poderosa empresa do ramo de robótica, fornecedora de drones para o exército dos EUA, busca formas de burlar a lei que proíbe o emprego de robôs de segurança em território americano.
A forma de fazê-lo pode ser a expertise do doutor Dennett Norton (Gary Oldman), cientista que lidera o campo de próteses robóticas.
O presidente da OCP, Raymond Sellars (Michael Keaton), decide então, unir a pesquisa de Norton, o que Restou de Alex Murphy, e os interesses de sua companhia em um único projeto.
A confecção de um policial humano, operando dentro de um robô. A eficiência da máquina submetida à consciência humana.
Após convencerem a esposa de Murphy, Clara (Abbie Cornish), das vantagens de manter Murphy vivo como máquina, Alex é levado à China (óbvio), onde é reconstruído.
Após passar por mudanças físicas absurdas e ter até mesmo seu cérebro manipulado para aumentar sua eficiência, Murphy é levado de volta aos EUA, onde se transforma no grande peão da OCP para ter sucesso em seu intento de alterar a constituição e permitir a utilização de drones na segurança pública.
Porém, dentro na mente de Murphy, há algo que o impede de se submeter à sua programação. Algo que vai além do que é físico ou químico.
Razoável, no máximo.
O RoboCop de 2014 não lambe as botas do longa de 87, o que não significa que seja horrível.
A bem da verdade, há muitas qualidades nesse RoboCop de José Padilha que vão além dos ótimos efeitos especiais e do elenco maneiro.
O flerte com diversas discussões interessantes como o acesso à privacidade num mundo vigiado por câmeras em cada canto, a crítica à influência excessiva da mídia sensacionalista e reacionária retratado pelo apresentador vivido por Samuel L. Jackson, o peso da ética médica do cientistas de Gary Oldman, o quanto uma vida sintética vale a pena ser vivida, como o marketing e a opinião pública refletem nas ações dos governantes, a corrupção da polícia, do governo, e do ser humano em si com o milico filho da puta vivido pelo "Rorschach" Jackie Earle Haley, e até a utilização de drones pelo governo, tópico que anda incomodando o Barack Obama nos EUA recentemente...
Todas discussões válidas e que poderiam render em um filme, mas sem que haja como desenvolvê-las a contento, acabam inócuas.
Pior do que isso, a hiper exposição de pontos de vista contrastantes e, em última análise, válidos, acabam eclipsando o protagonista.
Entre tantas personagens coadjuvantes com vozes e mensagens, a jornada de aceitação e reconquista de Alex Murphy acaba sendo contada meio nas coxas, quase como acessório.
Incapaz de repetir o tom cínico do longa de Verhoeven, nem de dar lastro à grande quantidade de mensagens contrastantes, Padilha ainda tenta criar um bom espetáculo de ação, mas a verdade é que emular jogos de videogame em primeira pessoa não chega a ser grande ideia, e seu filme perde novamente pro original e sua fartura de tiroteios e pancadarias.
No fim das contas, o RoboCop de 2014 é bem superior ao Vingador do Futuro de 2012, outro filme de Verhoeven aleijado e demolido pelo estúdio em um remake, mas sejamos francos, isso não chega a ser um mérito.
Na comparação com o original, perde em praticamente todos os aspectos, nem mesmo o ED-209 é assustador em CGI como foi em stop-motion.
Assista ao original de novo, é infinitamente melhor programa.
"Obrigado pela sua cooperação."
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