Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
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terça-feira, 13 de maio de 2014
Rapidinhas do Capita
E não faz muito, foi ali pela uma e vinte da tarde, que saiu a primeira imagem de Ben Affleck vestido de Batman para o vindouro filme de Superman vs Batman que deve ser lançado em dois anos.
O retrato em preto em branco foi tuitada pelo diretor do longa, Zack Snyder, sem mais delongas:
O novo traje do novo Batman
E aí? Maneiro?
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Ontem havia sido divulgada uma foto parcial do novo Batmóvel, um pouco mais do veículo foi mostrado ao fundo da foto de hoje, deixando claro que, além do visual do morcegão, o do carro mais icônico do mundo também está puxando muito mais pros quadrinhos do que pra realidade:
A promessa é de que o visual da Mulher Maravilha, a ser vivida por Gal Gadot, também seja divulgado em breve.
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O visual do Homem Morcego deu uma ótima ideia a respeito de ao menos uma sacada brilhante da produção.
O novo Batman se afasta totalmente da versão pé-no-chão de Christopher Nolan e Christian Bale, com a qual Zack Snyder e Ben Affleck claramente não têm como competir.
Ao invés disso, eles oferecem um visual orgânico, feroz, e que alude claramente aos quadrinhos, em especial a versão de Frank Miller para o Batman de O Cavaleiro das Trevas, e que parece casca-grossa o suficiente pra que a audiência esqueça que é o Ben Affleck ali dentro pelo menos até o filme começar.
Outro ponto importante é que, a exemplo do que a Marvel fez com os trajes do Homem de Ferro, do Thor e do Capitão-América em seus filmes solo antes de Os Vingadores, o novo traje do Batman dialoga bonito com o uniforme de Henry Cavill em O Homem de Aço.
Nessa toada, de mostrar que esse é um novo Batman e que as comparações são desnecessárias, Superman vs Batman dá seu primeiro passo para ser mais um bom filme de super-herói na generosa safra de experimentamos nos últimos anos.
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segunda-feira, 12 de maio de 2014
Resenha Game: The Amazing Spider-Man 2
Já disse isso antes, e volto a repetir: Games baseados em filmes baseados em quadrinhos geralmente não são lá muito bons, e isso pra dizer o mínimo.
Uma prova bastante cabal disso é que o game que resultou na melhor série de super heróis nos consoles, os Batman Arkham, surgiu após uma tentativa fracassada de criar um game sandbox do morcegão baseado em Batman - O Cavaleiro das Trevas, o que, diga-se de passagem, foi excelente, já que baseado tanto na qualidade de Arkham Asylum quanto na falta de qualidade do game de Batman Begins, nada se perdeu, apenas se ganhou.
É aquele problema de se fazer um produto rapidamente tentando pegar carona no sucesso de outro.
Todo mundo viu a porcaria que foram todos os games que a SEGA fez para os heróis da Marvel. O único que se salva, Captain America - Supersoldier, deve muito de seu relativo êxito à descarada chupada que o game deu, ora, veja, na série Arkham.
Entretanto, se há um super-herói que não pode se queixar das suas adaptações cinema/game, é o Homem-Aranha.
Se Ultimate Spider-Man ainda é meu game favorito do herói aracnídeo, não podemos esquecer que Spider-Man 2, e Spider-Man 3, jogos que aludiam aos filmes de mesmo título lançados em 2004 e 2007, estavam longe de serem produtos descartáveis. Em especial o primeiro game, que, se não me engano, foi o primeiro sandbox estrelado pelo cabeça de teia, e que era divertidíssimo mesmo que fosse um jogo que que não primava pela parte gráfica e tivesse alguns segmentos quase constrangedores em sua storyline (O duelo de prender bandidos com Mysterio, por exemplo...).
A boa sorte do amigão da vizinhança com games derivados de suas incursões cinematográficas se seguiu em 2012.
The Amazing Spider-Man se localizava no universo do filme de mesmo título, mas mostrava uma sequência alternativa à trama do filme, onde o herói precisava da ajuda de Curt Connors para combater uma infecção viral proveniente dos experimentos genéticos da Oscorp, bem como os robôs esmaga-aranha do doutor Alistair Smythe.
O game misturava elementos de exploração de mundo aberto com pequenas missões que surgiam no mapa com missões que focavam mais nas capacidades de stealth do Homem-Aranha. Longe de ser uma maravilha, o game tinha seus bons momentos. Algumas ótimas ideias e outras nem tão boas, e, por aí, se salvava como um produto bacana pra fãs e palatável pra audiência em geral.
Com a aproximação do novo filme, era de se esperar que um novo videogame fosse lançado para aproveitar o embalo do cabeça de teia nas telonas.
Semana passada eu comprei o game, e após seis dias de intensa jogatina turbinada por um conveniente resfriado, pude experimentar praticamente tudo que O Espetacular Homem-Aranha 2 tem a oferecer.
O game começa antes dos eventos mostrados no filme, com uma história paralela e alternativa e que começa antes do longa metragem.
A trama, que envolve os vilões do filme, Electro e o Duende Verde, mas também o Rei do Crime, Shocker, Kraven o Caçador, a Gata Negra, o Camaleão e o Carnificina, começa com o Homem-Aranha procurando pelo assassino do tio Ben, numa investigação que o coloca em meio à uma guerra de gangues de criminosos pelo comando do submundo de Nova York, mais a queda de braço entre Wilson Fisk e Harry Osborn pelo comando da Oscorp, ao mesmo tempo em que todos os bandidos estão se borrando de medo do "assassino carnificina", um serial killer que está matando membros de gangues e apavorando a cidade.
Embora o plot do game seja bastante bagunçado, e nem de perto um exemplo de inspiração, The Amazing Spider-Man tem algumas novidades interessantes.
A mais alardeada, o sistema "Herói ou Ameaça" é bacana. A ilha de Manhattan do game é palco de diversos tipos de emergências que necessitam da intervenção de um super-herói. Problemas que vão de meras perturbações da paz pública até impasses da polícia com gangues armadas, passando por perseguições automobilísticas, incêndios, arrombamentos e bombas plantadas por terroristas podem ser encontrados por todo o mapa praticamente o tempo inteiro.
Quanto mais sucesso o player tem em impedir que tais crimes e catástrofes se desenvolvam, mais a opinião pública toma partido do herói, isolando J. Jonah Jameson como detrator do cabeça de teia.
No entanto, se o jogador não for rápido e eficaz em sua missão de salvar os habitantes de NY, seu nível heroico diminui, e o coloca no radar da má imprensa, e da Força Tarefa patrocinada por Wilson Fisk e a Oscorp para policiar as ruas, um grupo de policiais escolhidos a dedo pelo Rei do Crime para receber armamento pesado de alta tecnologia.
Por bacana que o sistema Herói ou Ameaça seja, outra novidade me chamou muito mais a atenção:
O novo sistema de balanço de teias do game.
Se poder se balançar pela cidade sempre foi um dos pontos altos dos jogos do Homem-Aranha, não é menos verdade que coisas como as teias se grudarem nas nuvens e a movimentação do balanço não levar em conta nenhuma leia da física causavam algum estranhamento aos jogadores mais cri-cri (entre os quais me incluo).
Em O Espetacular Homem-Aranha 2, o jogador precisa ter onde colar sua teia, de outro modo, simplesmente cai.
Mais bacana que isso, cada um dos gatilhos 2R e L2 do controle (de PS3), responde pela respectiva mão do Aranha enquanto ele se balança. Então, no momento de grudar a teia, é importante saber onde se está mirando, e se há algo lá para a teia ancorar. Leva poucos minutos pra dominar a técnica, e se ela parece bobagem, experimente se atirar do Empire State e disparar sua teia com o braço certo no prédio adequado pra ver o ganho que isso gera em termos de física.
Nem tão inspirado é o sistema de combate, bastante repetitivo, e, embora tão eficiente quanto no game anterior, peca pela falta de variedade. Se surrar os vagabundos das ruas deveria, mesmo, ser fácil, os duelos contra os chefes poderiam ter recebido mais atenção.
As intermináveis telas estáticas após cada resgate, irritam após algum tempo (tanto porque se estendem além da conta, quanto por serem repetitivas demais), e há alguns tilts e quebras de polígonos capazes de acabar com a calma de qualquer cabeça de teia.
A música é apenas OK, o trabalho de dublagem é bom, embora em algumas sequências cinemáticas a falta de sincronização entre a dublagem, e a animação seja quase irritante, e os atores do filme façam falta, em especial Emma Stone e Andrew Garfield, os gráficos são maneiros, e algumas das coisas mais bacanas do game anterior, os gibis pra ler no jogo, continuam espalhados pela cidade, podendo ser lidas na comic shop de Stan Lee (ele mesmo), em Times Square.
As missões do game estão mais abertas ao estilo de jogo do player, não sendo mais tão voltadas ao elemento da furtividade como no jogo anterior, embora, em algumas delas essa abordagem seja a mais aconselhável (Nos esconderijos russos, que por sinal são bem maneiros, com uniformes alternativos como recompensa, o "stealth" é quase obrigatório), e trazem vários objetivos secundários como registros de áudio e fotografias para o Clarim que aumentam (sensivelmente) o desafio e o fator replay.
No final das contas, O Espetacular Homem-Aranha 2 é um game que fica devendo ao filme em que é baseado, mas mantém o Homem-Aranha com sorte acima da média pra heróis cujos filmes viraram games.
Particularmente recompensador para os fãs do herói, mas pouco pra fazer não-fãs se coçarem em 200 reais.
"...Eu precisei me tornar um homem. Homem-Aranha."
sexta-feira, 9 de maio de 2014
Einherjar
O Serapião estava morrendo.
Morrendo de câncer. Um tumor agressivo que lhe surgiu no cérebro, logo acima do olho esquerdo. Quando procurou o oftalmologista para reclamar da gradual perda de visão, o médico o aconselhou a procurar um neurologista. Ele levou tempo pra fazer isso, já que era meio relapso com a própria saúde, mesmo.
Quando as dores de cabeça começaram a aparecer mais frequentes e seu olho esquerdo estava quase cego, Serapião finalmente foi ao neurologista.
Ele encomendou inúmeros exames que o Serapião ficou fulo por ter que pagar, mas fez.
Quando saíram os resultados, o Serapião foi encaminhado pelo neurologista a um oncologista.
O oncologista explicou que ele precisaria fazer novos exames, culturas, biopsias e o escambau. Que era difícil julgar qualquer coisa, mas que deveria ser tudo rápido, muito, muito rápido.
Foi o "rápido, muito, muito rápido" que fez o Serapião entender que estava, e essa foi a forma como ele compreendeu tudo, fodido.
Fez os exames mesmo sabendo o que ouviria. Astrocitoma difuso em estágio avançado. Devido ao estágio de crescimento, as células malignas e o tecido saudável do cérebro já não eram lá muito fáceis de limitar o que tornava uma cirurgia particularmente arriscada.
Os médicos (eram três, um que falava bastante, muito atencioso, outro que dava pitacos com menos sutileza, mas de maneira bastante direta, o que Serapião gostava, e outro, mais velho, cabeça raspada e cavanhaque grisalho, que só olhava pro Serapião com uma expressão de gelo no rosto.) lhe recomendaram fazer os tratamentos de praxe, radioterapia, quimioterapia, lhe recomendaram que conversasse com uma terapeuta e lhe recomendaram, em última instância, que colocasse sua vida em ordem.
Serapião saiu do hospital sabendo o que faria.
Andou até a ponte sobre o arroio dilúvio na Azenha, debruçou-se sobre o para-peito e ficou olhando o lixo correr em direção ao Guaíba por vários minutos.
Não fez tratamento algum.
Passou os últimos dez meses de sua vida seguindo sua rotina como se nada tivesse acontecido.
Trabalhou, leu, foi ao cinema, pagou suas contas, contraiu outras tantas, jogou bola, jogou videogame, saiu com seu cachorro e fez tudo praticamente sem problemas.
Eventualmente a visão do olho esquerdo tornou-se quase nula. As dores de cabeça mais frequentes. Mas ele não ligou. Seguiu fazendo tudo o que sempre fez até morrer em casa, assistindo TV no canto do sofá perto de suas coisas.
Não tinha muitos grandes arrependimentos, o Serapião.
Dois... Talvez três momentos de sua vida em que gostaria de ter agido com mais sabedoria... Menos teimosia e pequenez... Dois envolvendo mulheres a quem tinha amado profundamente, outro, envolvendo um amigo que lhe era muito caro e a quem desapontou.
De resto, apenas bobagens. Pecadilho comezinhos que não fariam diferença alguma pro andamento do cosmos.
Serapião não era religioso. Não tinha medo da morte. Achava que seria como pegar no sono olhando TV, e simplesmente se desligar como um rádio velho. Nas últimas semanas de sua vida (e após a cegueira do olho esquerdo tê-lo levado a pensar em usar um tapa-olho ao estilo Nick Fury todas as semanas pareciam a última para Serapião), porém, Serapião se viu desejando que houvesse algo mais...
Ele ficou pensando em qual era a ideia de vida após a morte que mais o agradava... Não o Céu cheio de anjos, harpas e louvor dos cristãos, tampouco a Krypton/Brasília dos espíritas... Não... Serapião se agradava da vida após a morte dos nórdicos. Não o Valhalla... Mais particularmente o Folkvang dos vikings. Um céu de guerreiros que namoravam Valkírias, banqueteavam-se com mesas fartas e podiam ir até a beira da bifrost para chamar seus animais de estimação em vida para que se juntassem a ele e aos seus no tempo de glória que se seguiriam até o ragnarok... Para ir ao Folkvang bastavam três coisas, ter tido uma vida honrada, ter morrido em combate, e comprometer-se a proteger o castelo de Freyja.
Serapião sabia que se comprometeria a proteger o castelo... Estava morrendo combatendo sozinho e desarmado ao caranguejo que lhe devorava as temporas... Mas não sabia se havia levado uma vida honrada...
Antes de morrer, pensou em ligar para as três pessoas a quem achava que tinha desapontado na sua vida, e perguntado se elas o poderiam perdoar. Parecia a coisa honrada a se fazer... Mas Serapião morreu antes de tomar coragem para fazer isso.
E nós nunca soubemos se ele poderia ter-se unido aos Einherjar.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
No Semáforo
Ele parou do lado dela no meio-fio da calçada, pediu licença e apertou o botão do sinal de pedestres e ficou esperando que o semáforo mudasse de fase e garantisse a segurança no atravessar a rua.
Ela notou de imediato que ele a observava quando ele farejou o ar duas vezes, e então virou-se para ela.
Mesmo gripado como estava, ele sentiu o perfume dela. Um cheiro doce muito gostoso.
Ela estava acostumada à tal atenção.
Bonita, loira, destacava-se mesmo baixinha. E sabia tirar proveito de seus atributos aos quais sabia realçar na hora de se vestir. O traje daquele dia era testemunho dessa habilidade:
Calças pretas bem justas, dando ênfase às pernas bem torneadas e à bunda, bonita e redonda. Blusa azul-marinho larga o suficiente para esconder o eventual pneuzinho da lasanha comida cheia de culpa na noite anterior, mas não larga o suficiente para esconder os seios empinados, nem grandes nem pequenos.
Ele estava à direita dela, ambos olhando para a esquerda. Ela, esperando que o tráfego desse trégua e o sinal fechasse para os veículos, ele, aproveitando-se da estatura consideravelmente maior para observar-lhe o decote de ângulo privilegiado.
Ela notou, olhando de esguelha, e suspirou.
Como eram vis os homens.
Ele não era um sujeito feio. Altão, magricela, meio desengonçado. Mas não feio. Estava vestido de maneira sóbria e despojada, tinha cara de inteligente, parecia ser boa pessoa,capaz de manter um lar estruturado. Não fosse idiota e infantil como são todos os homens, e seria alguém que, mesmo sem ser nenhum Jason Momoa, ela poderia levar em consideração.
Mas como levar em consideração um infantiloide que ficava tentando olhar os peitos de uma mulher por cima enquanto esperava o sinal fechar?
Como dar abertura a uma criatura tão insegura?
Se aquele sujeito insuspeito fosse capaz de vociferar alguma coisa remotamente excitante ou estimulante, nem que fosse unicamente pela novidade de ver um homem com alguma atitude, ela na certa iria pra cama com ele.
Um relâmpago cortou o céu, o ribombar do trovão que se seguiu, a tirou de seu devaneio.
Quase ao mesmo tempo o sujeito ao lado dela disse:
-Tu vai ficar toda molhada.
Ela estacou olhando pra frente uma fração de segundo. Tanto pela ousadia da frase quanto pela telepatia implícita na declaração do vivente.
Será que, imersa em pensamentos, pensara alto encorajando o sujeito a ser tão saidinho?
O que faria? Explicaria que fora mal interpretada, que não tencionava fazer sexo casual com um completo estranho e que lamentava o mal-entendido?
Lamentava o caramba. Aquele sem-vergonha que abria uma conversa avisando que a mulher ficaria molhada merecia era uma descompustura, não um pedido de desculpa.
Virou-se pra ele, que sorria, casual. Até que tinha um sorriso bonito...
-O que foi que tu disse?
-Tu vai ficar toda molhada. - Ele repetiu. E reforçou: -E eu, também.
Ao mesmo tempo em que aquilo era um disparate, um absurdo e uma completa falta de respeito, ela não pôde deixar de ficar admirada com tamanha confiança. Ah, mas que vontade de fazer um teste só pra ver se ele era capaz de sustentar tal falácia entre quatro paredes.
Mas não, peraí... Ela tinha que se apegar à parte da falta de respeito, e talicoisa...
-Com que é que o senhor pensa que tá falando?
O sorriso dele se desmanchou... Ele enrubesceu, e gaguejou apontando pro céu plúmbeo :
-Hã... A... Nós... Nós dois... estamos sem guarda-chuva... E vem um caldo, aí...
Disse, e, ao constatar o sinal aberto à travessia de pedestres, pôs-se em movimento em marcha acelerada com suas pernas compridas.
Ela ficou parada, deixou o sinal abrir e fechar de novo, com uma expressão confusa estampada no rosto bonito, sentiu-se mal por ter interpretado mal ao pobre rapaz.
Paciência, pensou.
Mais tarde, naquele mesmo dia, riria tomando um iogurte natural com mel e assistindo Fox Life na TV a cabo. Todo o caso se tornaria uma anedota que dividiria com as colegas de trabalho.
"Mas tu te lembra daquela vez do 'Tu vai ficar toda molhada'? Pois ora veja..."
Mas ainda assim, que ficou pensando nas vantagens de verificar se uma declaração daquelas tinha ou não tinha lastro para sustentá-la na alcova... Ah, ficou...
segunda-feira, 5 de maio de 2014
O Espetacular Homem-Aranha 2: A Segunda Vez é Ainda Melhor
Conforme havia prometido quando vi o trailer do filme no começo do ano, sábado fui ver O Espetacular Homem-Aranha 2 - A Ameaça de Electro uma segunda vez.
Acho que é sempre positivo rever filmes que te empolgam demais na estréia. Te dá uma nova perspectiva e a possibilidade de sair do embasbacamento de fã e ser mais objetivo na hora de notar eventuais defeitos.
Nesse review, podem haver spoilers, então, se ainda não viu o filme, e não quer informações sobre o enredo, pare de ler.
OK, daqui pra frente é por tua conta e risco:
A "História Jamais Contada:
Um dos grandes defeitos do primeiro filme era a insistência na linha narrativa que mostrava Peter tentando descobrir o que acontecera a seus pais após o abandonarem.
Essa insistência chegou a gerar a suspeita de que o roteiro de James Vanderbilt estivesse tentando mostrar uma predisposição de Peter a ser o Homem-Aranha, como se Richard Parker houvesse usado seu filho como cobaia de sua experiência.
De tão descabida, essa linha de história foi eliminada do corte final do filme (se é que existiu de fato), o que deixou inúmeras arestas por aparar.
Elas foram aparadas no novo filme, e talvez, seja essa a linha da história que mais incomoda.
Peter, com seu tio morto, com a tia endividada, Gwen indo pra Inglaterra (Sem contar todos os problemas super-heroicos), continua mais preocupado com seus pais mortos mais de dez anos atrás do que com os problemas imediatos que o assolam no presente.
Ainda assim, a forma como Alex Kurtzman e Roberto Orci fecharam a conta de Richard e Mary Parker no filme é bacana. Fiel aos quadrinhos e sem apelar ao absurdo de eles serem espiões (é, no gibi é assim).
Até a predisposição genética é confirmada de uma maneira mais... Elegante, digamos. Embora uma que demande muito mais suspensão de descrença e conforto com coincidências fortuitas.
Então, esse ponto, que é o mais baixo do filme, é superado antes do desfecho.
Harry Osborn, o melhor amigo que ninguém conhecia:
O Harry Osborn de Dane DeHaan ficou excelente. A interpretação do ator para o melhor amigo de Peter Parker foi ótima, quando eles conversam e sacaneiam um ao outro, há fluência e camaradagem crível na tela, e quando Harry se torna perverso, ele é muito mais convincente do que o "meigo" James Franco.
Mas mesmo tendo gostado muito do filme, a amizade duradoura dos dois soa forçada. Se eles não se viam desde os doze anos, como é que, tendo passado toda a adolescência afastados, os dois se encontram e ainda são melhores amigos?
Talvez se possa especular que Peter, sendo um jovem tímido e excluído, guardasse boas lembranças de quem foi seu melhor amigo na infância, quando os pais dos dois trabalhavam juntos, mas e Harry? Sedo um jovem bilionário revoltado com o mundo, porque ele ainda guardaria boas lembranças de Peter?
Poderíamos acreditar que seria pelas mesmas razões, mas é uma "melhor amizade" que exige um pouco de malabarismo de quem tenta justificá-la.
Electro, o vilão vítima:
Ninguém mais, e me incluo aí, aguentava os vilões vítima dos filmes de Sam Raimi. Raimi, gente boa até a medula, parecia incapaz de conceber um vilão malvado de verdade, de modo que todos os antagonistas do Homem-Aranha de Tobey Maguire eram bons sujeitos que acabavam sendo vítimas de experimentos.
Aí, na hora de recomeçar a franquia, colocam quem, de vilão principal?
Curt Connors, o Lagarto. Uma vítima do próprio experimento.
Podemos relevar que o Lagarto, ao contrário do Dr. Octopus e do Homem-Areia, era vítima de sua personalidade reptiliana já nos gibis, e funcionou bem na telona, criando um inimigo cascudo e um aliado interessante para o herói numa versão mais leve da relação pai/filho que Peter teve com Norman Osborn em Homem-Aranha.
No novo filme, Max Dillon aparece como uma nova vítima, mas apenas até se tornar o vilão.
Um nerd excluído e achincalhado, ao se ver cheio de poder, resolve dar vazão à raiva e à vaidade de um ego pisoteado ao longo dos anos.
Embora não seja o Electro do quadrinho, um escroto de carteirinha que se torna um vilão dos mais calhordas, a versão de Jamie Foxx é muito bem sacada pois é vítima até certo ponto, mas ao se tornar vilão, não rompe totalmente com o personagem que havíamos conhecido no início do filme: Um otário carente que era uma bomba relógio, não muito diferente dos atiradores solitários tão comuns nos EUA, mas turbinado por super-poderes elétricos.
Rino, o acessório:
Aleksei Sytsevich, o mafioso russo que se torna o Rino, aparece duas vezes no longa. A versão rinoceronte mecânico do vilão, aparece por cerca de três minutos, e olhe lá.
Está longe de ser um show de atuação de Paul Giamatti, o ótimo ator que vive o vilão no longa entrou na brincadeira e surtou total no papel. Sua interpretação é o mais estereotipada possível, mas a questão é:
Quem liga pra fidelidade quando se fala no Rino?
Pra tu ver como ninguém está muito preocupado, o vilão nem sempre foi russo. Em sua origem, ele era algo irlandês, e chamava-se Alex O'Hirn. A versão russa é mais recente, ligada ao Camaleão e a Kraven o caçador, por aí se vê que a origem do Rino e sua personalidade não necessariamente importam.
O Rino do longa é um amálgama entre a versão tradicional 616 e a Ultimate (que usa o traje mecânico), e serve muito mais pra emoldurar o longa do herói com um personagem a quem os fãs conhecem e que os espectadores do cinema, com sorte, verão de novo mais adiante.
A trilha sonora de Hans Zimmer:
Não se pode dizer muita coisa sobre Hans Zimmer exceto que o sujeito é o John Williams de uma geração, e esse é o melhor elogio que eu posso fazer a um compositor de trilhas sonoras.
Se seus temas para O Espetacular Homem-Aranha 2 não são tão chiclete quanto os de Danny Elfman para os filmes de Raimi, e nem são tão executados quanto a partitura de James Horner (da qual eu tinha gostado bastante), a trilha é muito bem sacada.
O tema do Aranha tem metais como toda a trilha de super-herói deveria ter, pra ficar com cara de fanfarra, mas ganha guitarras e um ritmo mais ágil que mostra que Peter Parker é jovem e se diverte sendo super-herói, espertíssimo.
O tema do Electro, então, está sensacional, criando um clima de tensão pra cada explosão do vilão.
As queixas infundadas:
Electro conserta os dentes ao se transformar?
Vi gente se queixando que o "gap", o vão estilo Madonna entre os dentes do Max Dillon desaparece quando ele sofre seu acidente. As pessoas perguntam que porcaria de vilão é esse que conserta os dentes ao se transformar. Mas não. Ele não vira um ortodontista elétrico.
Os dentes dele derretem.
Se tu prestar atenção às cenas subsequentes dele após a transformação, vai ver que seus dentes estão todos deformados, derretidos devido à eletrocussão dentro do tanque de enguias.
O Povo se junta pra ver as batalhas do Aranha!
Sim. Todo mundo se acotovela pra ver as brigas do Aranha junto aos cordões de isolamento da polícia.
Alguém acha isso estranho?
Pensa comigo: Se no nosso mundo real, onde qualquer um pode ser vítima de bala perdida sem fantasiados com super-poderes pra te levar pro hospital, situações de refém com marginal armado e vítima com arma na cabeça, tem mundos de gente olhando em volta, com a polícia sendo obrigada a montar cordão de isolamento ao redor do crime, será que alguém acha que num mundo onde super-heróis e super-vilões existissem e se engalfinhassem na rua, ninguém iria querer assistir in loco?
A "Mãozinha" de teia.
Eu nem sei como explicar isso pras pessoas sem sentir um pouco de dó de quem não entendeu...
A certa altura do filme, Gwen está caindo, e o Aranha lança sua teia para pegá-la. É um momento tenso, e, conforme a câmera lenta (muito bem utilizada) acompanha o fio em seu mergulho, na ponta do feixe, surge um formato de mão.
OK... Não. O Homem-Aranha não faz teias em forma de mão (nos filmes, nos quadrinhos já fez até coisas mais elaboradas), aquele também não é o formato habitual das teias. É apenas um recurso visual usado pra mostrar a teia como uma extensão do herói, bem como seu desespero para alcançar a namorada enquanto ela cai.
Esses festival de queixas quanto à presença da "mãozinha" é um depoimento bastante forte com relação ao retardo mental de uma geração incapaz de entender alguma coisa sem que ela seja explicada.
E depois eu reclamo quando os filmes são excessivamente expositivos.
O que há de positivo que fica mais evidente na segunda vista:
-Gwen Stacy. A namorada de todos nós.
Duvido que algum leitor que quadrinhos que conheceu a Gwen não se sentisse meio namorado dela. A loirinha era tudo aquilo que uma namorada deveria ser: Bonita, inteligente, divertida, compreensiva...
Emma Stone conseguiu mostrar tudo isso nos filmes, e mais. É descolada, engraçada, meiga. Se as atuações de Garfield e DeHaan merecem aplausos, a da senhorita Stone não fica atrás. Ela colocou Kirsten Dunst, Bryce Dallas Howard, Elizabeth Banks e a filha do senhor Ditkovic todas juntas, embaixo do salto de sua bota.
-O Relacionamento mais maneiro dos filmes de super-heróis.
Peter e Gwen conseguiram superar, e com folga, os melhores relacionamentos de filmes de super-heróis. Não tem Tony Stark/Pepper Potts, nem Steve Rogers/Peggy Carter, nem ninguém. A química entre Emma Stone e Andrew Garfield, namorados na vida real, é genial! Os dois, sacaneando um ao outro cheios de ternura, indo e voltando em seu relacionamento, fazendo planos apaixonados, comandam. Se tivesse um derivado estrelado apenas pelos dois, sem uniformes ou super-vilões, eu provavelmente iria assistir, porque eles são ótimos em cena.
-Peter Parker, fotógrafo.
Com dois vilões, o relacionamento Peter e Gwen, o conflito em casa com a tia May, e a obrigatória resolução da trama paralela dos pais de Peter Parker, o filme ficou tão curto que a participação de Shailene Woodley como Mary Jane foi cortada, e a de Felicity Jones como Felicia (Hardy?) foi brutalmente reduzida, ainda assim, houve espaço pra colocar uma breve menção (na verdade são três) ao fato de que Peter Parker complementa seu orçamento com fotos do Homem-Aranha vendidas ao Clarim Diário de J. Jonah Jameson.
-Problemas financeiros da família Parker.
Um elemento importante das histórias do Homem-Aranha é a pobreza. Nos filmes de Sam Raimi essa questão foi levada muito ao extremo, com um Peter Parker incapaz até de alugar um apartamento, vivendo em um quarto mequetrefe de uma pensão fuleira.
No longa anterior, não havia dado tempo de mostrar os problemas financeiros da família Parker, mas, ainda que de forma tímida, eles dão as caras na nova aventura, com May tendo que se virar para manter a casa e pagar os estudos de Peter Parker.
-Filme gibi.
Tantas referências aos quadrinhos, algumas inspiradíssimas, como a sequência em que vemos o dia a dia de Peter como Homem-Aranha, incluindo uniformes manchados de tinta, sujos de peixe, parcialmente destruídos, cobertos de fuligem, e ensopados, o que termina numa clássica cena do Homem-Aranha sofrendo de um violento resfriado comprando remédios na farmácia (I'm sbider-ban".
-Peter Parker, o espetacular Homem-Aranha.
É chover no molhado, mas é preciso dizer novamente: Andrew Garfield é sensacional no papel título. Ele dá a Peter Parker personalidade, espinha, caráter. Ao Homem-Aranha ele oferece verve, bom-humor, agilidade, carisma. Em segundos de tela ele já faz a audiência esquecer que existiu outro Homem-Aranha antes dele. Compará-lo a Tobey Maguire é como comparar Christian Bale a Michael Keaton no papel de Batman. Um é o artigo genuíno, o outro servia para aqueles filmes.
Não se deixe levar pelas críticas das viúvas ensandecidas, não se apegue à amargura de quem não suporta a novidade, assista ao filme e tire suas próprias conclusões, apenas tenha boa vontade. Não se prive de finalmente ver o Homem-Aranha nas telonas.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Resenha Cinema: O Espetacular Homem-Aranha 2 - A Ameaça de Electro
Eu sou um dos amantes de cinema e de Homem-Aranha que realmente gostaram de O Espetacular Homem-Aranha.
Não somos uma maioria, devo dizer. A despeito do resultado razoável nas bilheterias, mais de setecentos milhões de dólares, a resposta da crítica especializada ao longa foi morna. Nerds neófitos e viúvas de Sam Raimi e Tobey Maguire, então, formaram rapidamente uma tribo de devotos odiadores do reboot, dispostos a bradar aos sete ventos tudo o que havia de errado com o filme e fechar os olhos com Super-Bonder a tudo o que existe de certo na adaptação.
Por sorte, a grana entrou nos cofres da Sony em profusão suficiente para dar seguimento à aventura aracnídea capitaneada por Mark Webb.
Após um curto período de espera, a sequência do filme andava em direção à luz como a Carol-Anne de Poltergeist.
As notícias a respeito do longa, porém, não eram lá das mais animadoras.
Se Jamie Foxx na pele de Electro acenava com um ótimo intérprete no papel do vilão, as mudanças na etnia de personagens de quadrinhos não são exatamente bem vindas... Ao anunciarem Paul Giamatti como Rino, e Dane DeHaan como Norman Osborn, todo mundo logo teve calafrios ao lembrar da trinca de antagonistas formada por Homem-Areia, Venom e Duende Jr. no malfadado Homem-Aranha 3 de Sam Raimi.
Chris Cooper foi escalado no papel de Harry Osborn, e Colm Feore, habitué do lado sombrio de personagens do cinema (recentemente ele foi o Laufey em Thor) além de B. J. Novak como Alistair Smythe, tudo começavam a soar como um funesto saladão de vilões.
Somando-se ainda a necessidade de contar uma "história não contada" e dar espaço a Peter Parker, Gwen Stacy, tia May e mais Mary Jane, que seria vivida por Shailene Woodley, e nós tínhamos um medonho festival de personagens que, para serem desenvolvidos a contento, necessitariam de um filme de quatro horas e meia.
A exemplo do primeiro filme, porém novamente, a tesoura comeu na edição, cortando tanto e com tanto vigor que Shailene e sua MJ sumiram do filme.
Após alguns trailers espetaculares que prometiam, ao menos, ação super-heroica de altíssima qualidade, era difícil não estar ao menos curioso com relação ao filme.
Algumas horas atrás, encarei uma sessão com uma hora de atraso e sem ar-condicionado no Cinemark Barra Shopping Sul, e conferi o filme.
O Espetacular Homem-Aranha 2 mostra Peter Parker (Andrew Garfield, coração e alma) em conflito.
De um lado, suas obrigações mundanas como um jovem estudante prestes a começar a faculdade, tentando ajudar sua tia May (Sally Field) a manter as finanças da casa em ordem e sustentar sua relação com Gwen Stacy (Emma Stone), do outro as grandes responsabilidades trazidas como brinde com os grandes poderes que a picada da aranha geneticamente modificada da Oscorp lhe conferiram.
Não bastasse o tormento que quebrar a promessa feita ao pai moribundo de sua amada lhe causa, o jovem herói segue tentando entender o que aconteceu a seus pais, mortos anos antes, após abandoná-lo às portas dos tios.
Enquanto Peter divide seus dias entre suas dúvidas e aspirações e o combate ao crime, a Oscorp segue em ebulição.
Enquanto o jovem Harry Osborn (DeHaan, ótimo, sepultando James Franco) assume o comando da companhia de seu pai moribundo, Norman (Chris Cooper, em ponta de luxo), gerando dúvidas na junta diretora, nos porões da companhia, o carente engenheiro elétrico Max Dillon (Foxx), sofre um acidente que mudará sua vida.
Exposto à enguias geneticamente modificadas da empresa após uma violenta descarga elétrica, Max desperta de um breve coma transformado numa entidade de imenso poder, o Electro.
Se a ira elétrica do vilão já não fosse problema suficiente para o aracnídeo, Harry descobre que sofre da mesma doença degenerativa que está matando seu pai, e acredita que o Homem-Aranha pode ser a chave para encontrar sua cura.
Tudo isso após Gwen, cansada das idas e vindas de sua relação com Peter, resolver aceitar uma bolsa de estudos em Oxford, na Inglaterra, e tentar deixar que a distância se encarregue de apagar as mazelas do romance malfadado.
Há problemas de roteiro em O Espetacular Homem-Aranha 2, a maioria deles advindos das más decisões de James Vanderbilt no script do primeiro filme.
Quando tenta pingar todos os "is" deixados na primeira parte da franquia, o texto de Alex Kurtzman e Roberto Orci acaba se enrolando um pouco, mas ainda assim, encontra algumas saídas interessantes pra salada de referências e pontas soltas herdadas do primeiro longa.
O grande acerto do roteiro, é investir em Peter Parker e Gwen Stacy, o melhor romance de filmes de quadrinhos da história do cinema, e tornar a ação do filme um espetáculo pirotécnico de arrancar mandíbulas tornando o Homem-Aranha o herói mais sensacional do cinema.
Não é exagero.
Esqueça o herói mudo dos filmes anteriores, que não era capaz de passar uma luta sem tirar a máscara e chorar na frente de seus inimigos.
Da mesma forma que Peter Parker perdeu a aura de looser autista criada por Raimi e Maguire (e que funcionava naqueles filmes) sob a batuta de um Mark Webb muito mais à vontade no comando do blockbuster, o Homem-Aranha se torna um Pernalonga V-12, fazendo piadinhas com a mesma velocidade em que dá baile em seus inimigos usando sua agilidade super-humana (novamente uso do bullet time para demonstrar a percepção acurada do Homem-Aranha e a forma como o sentido de aranha o torna alerta a todos os elementos a seu redor rende cenas lindas e sensacionais!).
O filme tem bom ritmo, apara arestas, investe certinho onde colocar seus holofotes, e deixa gostinho de quero mais na boca da audiência ao mostrar o que deve ser um longa de quadrinho.
No elenco Emma Stone é a namorada que todo mundo gostaria de ter, bonita, inteligente, esperta... Jamie Foxx interpreta um vilão vítima de um experimento, sim, mas acima de tudo, de sua própria vaidade e carência, além de ser dono dos poderes de uma espécie de divindade elétrica. Dane deHaan está excelente como Harry, revivendo seus melhores momentos de Poder sem Limites. Sally Field deixa o papel de acessório, e se torna a voz da razão e a mãe de que Peter desesperadamente precisa, mas Andrew Garfield faz trabalho de aplaudir de pé.
O ator toma o Homem-Aranha e Peter Parker pra si com tanta paixão e entusiasmo que quem não se convencer de que ele É o Homem-Aranha agora, precisa procurar ajuda profissional, seja de psiquiatra ou exorcista.
Assista.
Assista no cinema. Assista em 3-D.
Tu, e o verdadeiro Homem-Aranha, merecem o prazer.
"-Eu vou me tornar seu Deus!
-Um deus chamado faíscas?"
TODOS SAÚDEM AO REI
Em 2002 os filmes de quadrinhos engatinhavam.
X-Men e Blade haviam feito carreiras decentes e nada mais nas bilheterias. Haviam acenado com a possibilidade de vida inteligente além do sublime Superman de Richard Donner e do histérico Batman - O Retorno de Tim Burton.
Parecia que podia haver mais, mas quem se arriscaria a colocar nas telas um super-herói para segurar um filme inteiro sozinho sobre os ombros correndo o risco de virar um pastiche histriônico como o Batman de Kilmer ou (que Odin nos perdoe) de Clooney e Schumacher?
O Homem-Aranha foi esse herói.
O Homem-Aranha foi o pioneiro a quem todos seguiriam depois, incluindo os X-Men de Singer, o Batman de Nolan, e os coloridos heróis bilionários da Marvel.
O herói com quem toda a audiência podia se identificar foi a estrela polar dos filmes de quadrinhos ao unir coração, cérebro, pixels e humor na medida certa em um evento que marcaria uma geração de fãs de maneira tão indelével que todos os equívocos do filme seriam perdoados.
Quando a segunda parte foi lançada, dois anos depois, um novo patamar foi atingido, e isso apenas tornou o tombo do terceiro longa mais doloroso.
Essa mágoa permaneceu, e foi tão profunda que aqueles que conheceram o Homem-Aranha através dos filmes de Sam Raimi acreditavam piamente que Tobey Maguire era Peter Parker e que Mary Jane fora seu primeiro amor. Era o poder de uma história bem contada.
Tão bem contada que levou leitores de gibi como eu e outros que conheço a quase perderem as estribeiras apontando que, por melhores que os filmes de Raimi fossem, o VERDADEIRO Peter Parker, o VERDADEIRO Homem-Aranha ainda não haviam sido realmente encarnados na telona.
Ele seguia inédito, escondido dos olhos do grande público por trás das capas dos gibis dos anos sessenta, setenta e oitenta da Marvel.
Quando tivemos um vislumbre dele em O Espetacular Homem-Aranha, o filme de origem que nasceu odiado por legiões de fervorosos membros do "team tobey", não pareceu o suficiente.
Haviam desvios de rota demais em O Espetacular Homem-Aranha para que uma audiência rancorosa com o fim da série anterior e a partida de Maguire, Raimi, Franco e Dunst percebessem a possibilidade que existia ali.
Na magreza atlética do desengonçado Andrew Garfield, havia uma paixão inédita num intérprete de super-herói no cinema:
Um fã.
No filme de 2012, Garfield encarnou o Peter Parker/Homem-Aranha que todos os fãs de quadrinhos reconheceriam. Um jovem inteligente, introspectivo, capaz de grande ironia, e com um coração de um herói.
O Espetacular Homem-Aranha talvez tenha feito apostas erradas com sua "história jamais contada", mas TAMBÉM EXISTIAM EQUÍVOCOS NOS FILMES ANTERIORES!!!!!
E ao relevar os óbvios equívocos de O Espetacular Homem-Aranha, podia-se ver o potencial que existia ali.
Dois anos mais tarde, eu me sentei numa sala apinhada de gente do Cinemark, com uma hora de atraso, o ar-condicionado sonegado dos tenazes fãs que resolveram encarar a sessão até além das três da madrugada, e todas as mazelas desapareceram.
O Espetacular Homem-Aranha 2 - A Ameaça de Electro é tudo o que o Homem-Aranha deveria ser nas telonas. Nunca, nem mesmo nos coloridos e descompromissados filmes dos estúdios Marvel/Disney, tampouco no fetiche sombrio e realista da DC Warner, um filme foi tão quadrinho.
O Homem-Aranha de Andrew Garfield é uma insana mistura de vigilante e cartoon, que não sonega acrobacias, atos de justiça ou as piadinhas que todos gostariam de ver.
Quando ele age, o ESPETACULAR tem que ser escrito com todas as letras maiúsculas para fazer justiça ao que acontece na tela.
Na pele de Peter Parker, Garfield continua mantendo o nível alto, enterrando a versão de Tobey Maguire com talento e atitude pra justificar cada ato do personagem.
As lágrimas, os suspiros e os sorrisos são são em vão.
O romance com Gwen Stacy, uma luminosa Emma Stone, a namorada de cada fã do herói, é brilhante, terno, honesto, vivo.
A amizade com o Harry Osborn de Dane deHaan tem fluência, por súbita que seja.
A relação com a tia May de Sally Field é tão conflituosa e cheia de amor quanto qualquer relação mãe e filho, e a necessidade de descobrir o que aconteceu com seus pais, é tão humana que nós nos apressamos em perdoá-la.
Vou fazer o costumaz review do filme logo ali adiante, não se preocupe.
Mas por hora, quero apenas dizer que o rei está de volta.
Saúde-mo-lo, todos.
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