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segunda-feira, 16 de junho de 2014

Resenha blu-ray: Hércules


Eu estava indo muito bem esse ano. Até semana passada, o pior filme que eu havia assistido em 2014 havia sido RoboCop, que nem era tão horrível, era "apenas" ruim demais. Mas eu me enveredei por um mal caminho nas locadoras da região, e tanto por teimosia quanto por curiosidade mórbida, assisti a uma quantidade nada desprezível de filmes abaixo da crítica.
Um deles, talvez o pior de todos, é esse Hércules, também chamado de A Lenda de Hércules e Hércules - O Início da Lenda.
O longa metragem dirigido por Renny Harlin (o mesmo de Duro de Matar 2 e A Ilha da Garganta Cortada) conta a história de Hércules a partir do mito grego de Heracles, e não da perspectiva romana, mais tradicional na cultura pop.
Na trama, o conquistador grego Anfitrião (Scott Adkins) se torna rei, sua sede de poder, porém, não é aplacada com o trono, e ele segue sua trilha sangrenta de conquistas para desgosto de sua esposa Alcmena (Roxanne McKee).
Assolada pela tirania de seu marido, Alcmena reza aos deuses para que eles ponham fim aos planos maquiavélicos de Anfitrião.
Hera responde à prece de Alcmena, e permite que Zeus dê um filho à rainha mortal. Esse filho será chamado Hércules, e irá encerrar o reinado sangrento de Anfitrião.
Durante uma noite, raios e relâmpagos cortam os céus, e Alcmena, em seu leito, é fecundada pelo deus dos deuses.
Quando o bebê nasce, Anfitrião o batiza Alcides, e, sabendo que não é seu filho, diz que ele jamais será páreo para o irmão mais velho, Íficles (Liam Garrigan).
Os anos passam, e surge Alcides crescido na forma de Kellan Lutz (da Saga Crepúsculo, o que diz tudo o que precisamos saber sobre sua capacidade de atuar), ele é um jovem príncipe parrudo, apaixonado por Hebe (Gaia Weiss), princesa de Creta.
Anfitrião, porém, deseja que Hebe se case com seu primogênito Íficles, o que lhe garantiria controle sobre Creta.
Os dois jovens enamorados tentam fugir para viver seu amor longe de todos, mas acabam capturados.
Alcides, então, é enviado com uma legião de soldados de Anfitrião em uma missão suicida no Egito, onde deveria morrer. Entretanto, ele e seu capitão Sotiris (Liam McIntyre, de Spartacus) sobrevivem, são vendidos como escravos e gladiadores até retornarem à Grécia, onde Alcides adota o nome de Hércules, e maquina como recuperar Hebe, até descobrir sua verdadeira origem, e ver-se obrigado a escolher entre seus desejos humanos românticos, e suas obrigações divinas, uma trilha que o colocará em rota de colisão com seu pai adotivo, e o tornarão o maior herói de toda a Grécia!
Horrível.
Não tem absolutamente NADA de bom em Hércules. As atuações são canhestras, e nem a presença de alguns nomes conhecidos como Rade Seberdzija (Quíron) e Johnathon Schaech (Tarak) amenizam a sensação de estar assistindo teatro amador.
Os efeitos especiais são risíveis, e algumas sequências com CGI, como a luta com o leão de Neméia, são particularmente constrangedoras.
Poderiam se salvar as sequências de luta, afinal, há um bom número delas, mas não. São todas repetitivas e chatas, usando slow motion suficiente pra fazer Zack Snyder ficar com sono.
O roteiro de Sean Hood, Daniel Giat, Giulio Steve e do próprio Harlin estupra o mito grego original, tem mais buracos que uma estrada vicinal do interior do Brasil, e diálogos que são de corar de vergonha tornando Hércules um programa dos mais indigestos que não consegue nem sequer ser engraçado em sua ruindade.
Só assista se a alternativa for ter os dois olhos arrancados das órbitas com uma colher suja de sal. OS DOIS! Se for um olho só, ainda pode valer a pena...


"Pai! Eu acredito em você!"

Resenha DVD: Pompeia


Existem filmes que antes de assistir a gente já sabe que vão ser ruins, mas assiste assim mesmo, na esperança de transformá-lo em um guilty pleasure, aquelas coisas que a gente faz mesmo sabendo que estão erradas simplesmente porque é divertido fazer.
O cinema é repleto de guilty pleasures, filmes que são descarada e declaradamente ruins, mas que as pessoas assistem porque, na hora em que se desliga o cérebro e aumenta o nível de suspensão de descrença ao máximo, são divertidos o suficiente para valer o preço do ingresso ou da locação.
Foi pensando exclusivamente nesse tipo de filme que eu aluguei Pompeia, filme do diretor Paul W. S. Anderson, o mesmo da série Resident Evil e de Os Três Mosqueteiros que conta a história de Milo (Kit Harrington, o Jon Snow de Game of Thrones), um escravo celta cujo povo foi massacrado por uma legião de romanos comandados pelo general Corvus (Kiefer Sutherland) quando ele era apenas uma criança.
Milo sobrevive ao massacre fingindo-se de morto, mas pouco depois é capturado por viajantes que o tornam um escravo.
Anos depois, ele se torna um gladiador que, por sua perícia em combate é levado a Pompeia, onde grandes jogos estão prestes a acontecer.
Lá, ele conhece Cassia (Emily Browning, que apesar de gostosinha em Beleza Adormecida e Sucker Punch está meio esquisita), jovem filha do burguês Severus (Jared Harris), que planeja reformar toda a cidade com o apoio de Corvus, agora um influente senador romano.
Corvus, um tremendo escroto, planeja oferecer seu apoio aos projetos de Severus mas apenas em troca da mão de Cassia, a quem conheceu enquanto a moça viveu em Roma.
Conforme decorrem as festividades, se aproxima o momento em que Cassia será jurada a Corvus e Milo deverá enfrentar o grande campeão Atticus (o impronunciável Adwale Akinnuouye-Agbaje), que luta por sua liberdade após anos na arena, mas ao mesmo tempo em que os jovens começam a nutrir sentimentos um pelo outro, o monte Vesúvio entra em erupção, colocando o gladiador em uma luta desesperada contra o tempo para escapar do destino reservado a ele na arena e salvar sua amada conforme o Vulcão destrói Pompeia.
Óbvio que um filme com essa premissa não seria grande coisa, mas eu esperava ao menos uma hora e meia de diversão descerebrada, algo como os filmes-catástrofe de Roland Emmerich (que são tremendos guilty pleasures, diga-se), uma montanha-russa de espetaculosa falta de compromisso e destruição gratuita, porém Pompeia falha em oferecer isso.
A inspiração mais óbvia a Pompeia não é 2012, mas Gladiador. Na verdade, poderia-se sintetizar o longa de W. S. Anderson como "Gladiador em meio a um vulcão".
Está lá a história de vingança do escravo tornado lutador de arena, o negro que se torna amigo do protagonista e deseja reencontrar sua família, a sequência na arena onde os gladiadores alteram o desfecho de uma batalha histórica a ser reproduzida, o vilão romano que é constrangido pelo povo e não mostra o polegar virado pra baixo... Mas tudo de forma mais leviana, bobinha...
Aliás, Pompeia é todo assim. Rapidinho, ligeiro, rasteiro.
O amor puro surge do nada, a amizade sincera também, os arrependimentos dos personagens secundários são igualmente bobocas de forma que o filme passa os dois primeiros atos se arrastando de maneira previsível e sonolenta...
Quando o vulcão, que deveria ser a estrela do filme, resolve explodir, o espetáculo visual não justifica a espera.
O Vesúvio destruidor do longa não lambe as botas da devastação de um 2012, por exemplo.
Chuvinha de cinzas daqui e dali, rochas em chamas voando pra cá, um tsunamizinho acolá, e nada que gere assombro ou impacto visual.
Entre a história de amor bobinha, a trama de vingança morna e o desfecho anti-climático, Pompeia falha miseravelmente ao prometer um filme catástrofe situado na antiguidade clássica e entregar um Gladiador genérico sem o talento de Ridley Scott, Russel Crowe ou Joaquin Phoenix.
Se estiver muito curioso, aguente um pouquinho e espere passar na TV a cabo. Não vale a locação.

"-São os deuses. Eles têm um plano para todos nós.
-Talvez. Eu vi o homem que matou minha família. Talvez os deuses tenham me poupado por uma razão..."

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Legado


Minha amiga chegou em mim na segunda-feira, me abraçou forte e disse:
-Lamento pela tua perda.
Levei uma fração de segundo pra entender. Mas assim que entendi, agradeci:
-Ah, tá. Obrigado, obrigado...
E passei a mão nas costas dela dando o sinal de quê podia parar de me abraçar.
Ela fez cara de escandalizada e me perguntou se eu não estava arrasado.
Disse que não. Que lamentava, mas arrasado eu não estava.
Ela fez uma expressão desapontada e recriminadora e estalou um "tsc" com a língua no céu da boca.
Minha amiga se referia ao Fernandão, cuja morte trágica e prematura na madrugada do último sábado pegou de supetão à toda a Nação Alvirrubra. Ela, assim como a imensa maioria da Nação Colorada, sentiu um gigantesco pesar com a passagem de Fernandão, que com apenas 36 anos e preparando-se para iniciar uma carreira como comentarista no canal pago SPORTV, teve sua vida abreviada por um acidente de helicóptero após um final de semana de pescaria com amigos no interior de Goiás.
Vou confessar que eu não tinha o Fernandão como um ídolo pessoal.
Respeito a História maiúscula que ele escreveu no Internacional, respeito e reconheço o papel de protagonista que ele exerceu nas grandes conquistas do Colorado nos anos 2000, respeito sua liderança e entendo a idolatria que milhões de colorados lhe devotam, mas, pessoalmente, não partilho de tal idolatria.
Fernandão foi, sim, um de meus favoritos no time do Internacional entre 2005 e 2008, assim como foram Iarley, Rafael Sóbis, Bolívar, Índio, Tinga e Fabiano Eller.
Na verdade, olhando em perspectiva, houveram passagens dos últimos anos que fizeram com que Fernandão perdesse um pouco do status de ídolo no que me concerne, e já repito, que essa é uma posição absolutamente pessoal de um colorado apaixonado com uma noção de idolatria extremamente séria e restritiva onde, posso, de supetão, arrolar um único nome: O de Paulo Roberto Falcão.
Não vou enumerar os episódios que geraram minhas restrições quanto a Fernandão, não como pessoa ou profissional, mas como ídolo colorado. Seria injusto, deselegante, até covarde, mas sei fazê-lo pois, em meu papel de torcedor Colorado, fiquei magoado com elas.
Na esteira da abrupta morte desse ex-jogador, dirigente e treinador do Inter, que se dizia abertamente um torcedor Colorado, tais pequenezas perderam a razão de ser.
Fernandão não se tornou meu ídolo após a morte, não sou hipócrita, mas é um baluarte de uma das décadas mais vencedoras do maior clube do Sul do Mundo, e agora, um dos astros que cintilam num céu sempre azul, olhando do alto pela torcida do clube do povo do Rio Grande do Sul.
Que os jogadores das gerações futuras respeitem seu legado, e se esforcem até a última gota de suor para repetir suas numerosas glórias.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O Everest do Aberval


O Aberval, aos quarenta e nove anos de idade, viu-se desempregado pela primeira vez desde a adolescência.
Fora chamado no RH da Chevalier, rede de lojas de roupas masculinas onde trabalhara por vinte e um anos, e informado que, por conta da crise, compras pela internet, concorrência com a China e talicoisa, a empresa estava precisando reduzir seus quadros, e que a nova meta era ter empregados com pouco tempo de casa, aumentar a rotatividade, e não sei o quê, lá...
Receberia uma indenização razoável, afinal de contas, vinte e um anos não são pouca coisa, e já no dia seguinte, estaria liberado após assinar a papelada da rescisão.
Após receber condolências e tapinhas nas costas de seus colegas, Aberval trabalhou até as seis horas da tarde como fizera por anos a fio, e apenas seis e um, levantou-se de sua cadeira e foi bater o ponto antes de ir ao banheiro.
Aberval era assim. Contrito.
Homem conservador, sério, quase retrógrado. Amara apenas uma mulher na vida, sua esposa, Abigail, com quem se casara aos dezoito anos de idade e a quem perdera por conta de um câncer após mais de vinte anos juntos.
Jamais achou correto ou necessário casar-se novamente.
Experimentara a plenitude de uma relação com Abigail, com quem infelizmente não pudera constituir família, mas, com o mundo do jeito que estava, e ela tendo morrido tão cedo, talvez fosse melhor não ter havido crianças.
Se antes de Abigail morrer, Aberval já era um funcionário modelo na empresa onde trabalhava, uma rede de lojas de roupas masculinas que gozava de certo prestígio, depois de perder a esposa, Aberval se dedicara com ainda mais afinco ao trabalho, fazendo horas extras, desenvolvendo projetos, e galgando os mais altos degraus que poderia alcançar.
Havia feito de quase tudo na empresa desde que começara lá, aos vinte e sete anos. Começou como vendedor, depois gerente, aí, gerente geral, e supervisor regional, até ser promovido a supervisor geral, respondendo apenas ao fundador da rede, doutor Abílio, e seus dois filhos imbecis, Gustavo e Felipe.
Tinha certeza, o Aberval, de que sua demissão passava pelos dois, já que ele e o doutor Abílio eram muito chegados.
Infelizmente o tempo passou, e o doutor Abílio tornara-se um distinto cavalheiro em idade provecta, experimentando lapsos mais e mais frequentes de memória, o que deixou o caminho livre para os "irmãos Crápula" tomarem as rédeas da empresa.
Enfim... Não havia mais o que fazer, Aberval estava na rua.
Chegou a pensar em deixar assim. Em ficar desempregado. Estava com quase cinquenta anos, tinha algum dinheiro guardado, uma previdência privada interessante e agora a indenização pela demissão. Era possível viver dignamente com aquilo. Quiçá até mesmo com algum conforto.
Mas Aberval não era homem de rolar pro lado e morrer numa gaiola por mais confortável que fosse. Mas não, mesmo...
Aberval fora primeiro lugar no tiro de guerra na época do quartel, havia sido patrão de CTG, era eleitor hipotético do Bolsonaro, era um profissional modelo. Um homem com tais credenciais jamais se mixaria pra um solavanco da vida.
Não... Aberval seguiria em frente.
Na manhã seguinte, após assinar os documentos da demissão e se despedir dos colegas apanhou um jornal e se pôs a procurar nos classificados.
Marcou uma dúzia de anúncios e se pôs a fazer as ligações e marcar entrevistas.
As coisas estavam difíceis. Por mais que houvessem empregos disponíveis, a maioria dos empregadores parecia reticente em dar a vaga a um homem de mais de quarenta e cinco anos com longa experiência e que costumava receber salários bem mais altos do que os que estavam sendo oferecidos.
Aberval sabia que seu salário anterior e suas credenciais eram assustadoras para a maioria dos empregadores, mas estava disposto a receber menos e colocar sua larga experiência a serviço de uma nova empresa. Quem sabe passar os próximos dez, quinze anos galgando novamente degrau a degrau até o topo como fizera em seu último emprego?
Era um desafio e desafios eram aquilo de que Aberval precisava para se manter vivo e inteiro.
Após oito entrevistas que terminaram com frases vazias ditas como paliativo ao "tu não serve" que ficava implícito nas caretas dos entrevistadores, Aberval conheceu Cíntia.
Cíntia era uma moça de trinta e poucos anos, usava óculos com grossos aros verde-escuros que contrastavam com seu cabelo roxo e suas roupas coloridas. Ela era dona de uma loja de moda jovem que acabara de abrir uma filial, estava enlouquecendo porque embora tivesse noções bastante elogiáveis de moda e estilo, era quase analfabeta pra "esses troços" de administração.
As credenciais de Aberval a impressionaram positivamente, mas o visual de Aberval a impressionara negativamente, e ela foi muito franca ao explanar.
Falou:
-Olha, eu gostei do teu currículo, seu Aberval, mas tipo, tu parece meu vô, tá ligado? Eu nem conseguiria te chamar pelo primeiro nome sem colocar um "seu" na frente, manja? E eu não sei como é que o senhor iria se ambientar com as nossas lojas e nosso tipo de público. Então, por mais que me doa, porque eu tô assim, do-en-te, atrás de alguém que faça o que parece que o senhor faz, eu vou ter que deixar passar. Lamento...
O Aberval, porém, não se fez de rogado. Sabia que podia ajudar a Cíntia e trabalhar para fazê-la ser proprietária de uma rede de moda jovem de respeito. Fez uma proposta:
-Escuta, e se a gente fizer uma experiência? Eu trabalho numa das tuas lojas um mês, como vendedor, estoquista, o que for, e tu vê se funciona. Se ao final de um mês tu não tiver gostado, ou achar que não deu certo, tu me paga um salário e eu sigo meu caminho.
A Cíntia balançou. Mordeu o lábio rebocado de batom encarnado, fechou um olho cheio de sombra verde, e aí estendeu a mãozinha branca e delicada com as unhas pintadas de amarelo e roxo e disse:
-Feito.
No outro dia, Aberval estava trabalhando como vendedor na DeRraMe, escrito assim, mesmo, uma loja de moda jovem, casual, alternativa e cheia de raipe, fosse isso o quê fosse, de acordo com o que lhe dissera Cíntia um dia antes.
A loja, um espaço com paredes de tijolo a vista entrecortado por pedaços de reboco aqui e ali, manequins usando máscaras de monstros e roupas coloridas e cheias de mensagens irônicas, calças com o fundilho quase nos joelhos, e sapatos mais coloridos que a camisa do Veranópolis parecia exatamente o tipo de coisa que fazia a cabeça dessa geração de imbecis que dominava o mundo.
O gerente, Willas, parecia o filho de uma girafa com uma arara, quase dois metros, magro que nem um caniço, e com o cabelo tingido de verde amarelo e vermelho. Cumprimentou o Aberval com entusiasmo, lhe mostrou a loja toda falando com um sotaque amolecido, típico do Bom Fim, ao terminar as explicações, olhou pro Aberval, de cima abaixo e disse:
-Olha... Boa parte do nosso público é GLS...
-Não tenho partido político definido. - Respondeu o Aberval, dando a conversa por encerrada e indo tratar do trabalho.
Quando descobriu de que se tratava o tal do lance de ser GLS, o Aberval tomou um susto e ficou sem ação.
Estava atendendo dois rapazes que entraram de mãos dadas na loja, passou os primeiro minutos torcendo pra um deles ser cego, mas quando se beijaram suas esperanças escorreram pelor ralo.
Era estranho pro Aberval estar em meio àquele tipo de comportamento. Por mais que se esforçasse, não conseguia achar normal. As meninas beijando o pescoço uma da outra. Os rapazes trocando carícias, até as conversas de seus novos colegas, contando suas peripécias homossexuais. Tudo aquilo fazia o mundo do Aberval abalar.
Mas ele resolveu perseverar.
Tentou encarar o mundo GLS no qual se vira subitamente incluído como a revolução informática anos antes. No começo, era incapaz de entender como funcionava um computador, mas, com esforço e dedicação, Aberval dominou a máquina e a tornou parte de seu dia a dia, hoje, usava um computador com destreza e desenvoltura.
Iria absorver e filtrar os comportamentos que lhe pareciam estranhos, e deixar por essas.
O mês foi transcorrendo, semana após semana, e o Aberval lá, firmão. Aguentando no osso a proximidade com aquela gente, pra ele, tão estranha.
Volta e meia tinha ânsias de sair correndo da loja, ou, de correr alguém. Mas suportava, fechava os olhos, pensava nos seus objetivos, e seguia. Trocava informações profissionais valiosas com Willas e os demais colegas da loja, os ajudando com sua vasta experiência no setor, e vendo-se, até surpreso, ser aceito como uma valiosa parte da equipe.
Até que entrou na loja aquele sujeito.
Já de alguma idade, cabelos obviamente embranquecendo mas cobertos por uma generosa camada de tinta borgonha. Físico de besouro, com tronco amplo e redondo de barril e braços e pernas finos. A cara era macilenta e carregava a expressão de susto perene de quem fez aplicações de botox.
Usava uma calça cargo verde água, tênis amarelos, uma camiseta de manga longa vermelho-vivo e uma echarpe prateada em volta do pescoço. Aproximou-se andando de maneira afetada, e quando falou com Aberval, o surpreendeu com o sotaque carregado do interior do estado.
Aberval percebia nos trejeitos que o sujeito não era apenas gay, mas um afetado e efeminado de marca maior. Desmunhecando visivelmente a cada passo que dava.
Aberval pensou em passar o atendimento a um dos colegas, mas deteve-se. Aquela era uma prova de fogo. Não era uma pessoa homossexual na sua. Não... Era uma vasta bichona escandalosa e purpurinada.
Era um Everest particular que o Aberval deveria escalar sem oxigênio, pela face norte, no inverno se quisesse continuar trabalhando.
Aberval foi solícito. Ignorou as piadinhas de duplo sentido. A voz macia e nasalada, a chatice quase malcriada de alguém que torcia o nariz pra tudo.
Aberval ia filtrando o que o desagradava e concentrando-se em fazer bem seu trabalho.
Encontrou um par de calças e uma blusa que caíram no gosto do boiola, e encaminhou-se para o caixa na certeza de ter suplantado seu Everest profissional.
Com a venda quase concretizada, já na hora de passar o cartão, Aberval, distraidamente, num gesto quase inconsciente de polidez comercial, perguntou:
-Tens um sotaque pesado. És de onde?
O sujeito abaixou o óculos escuro, equilibrando-o na ponta do nariz, ergueu a sobrancelha cheio de charme e disse, pousando a mão na mão de Aberval:
"Sou de São Sebastião do cá ípsilon." e deu uma risadinha.
Aí, não teve jeito. O Aberval se botou nele e só parou de bater no vivente quando vieram três pra separar.
Por mais contrito, profissional e diligente que um homem fosse, tudo tinha limite...

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Resenha DVD: Questão de Tempo


E se tu pudesse voltar no tempo?
Se pudesse reviver momentos chave da tua vida, retocá-los, refazê-los, ou simplesmente aproveitá-los mais uma vez, sem compromisso. Só de curtição?
Parece brilhante, não é?
Pois é exatamente o que Tim (Domhnall Greeson) descobre, quando, após uma festa de ano novo, seu pai (Bill Nighy) lhe explica que os homens de sua família, têm o dom de viajar de volta ao passado.
É tremendamente simples. Basta se entocar em um lugar escuro e isolado, como um armário, cerrar os punhos, e pensar no momento que deseja revisitar.
Voilá.
O viajante do tempo retorna ao passado e tem a chance de refazer seu passado conforme desejar.
Para Tim, um jovem de 21 anos esquisito, magrelo e ruivo, essa extraordinária habilidade é a chance perfeita de encontrar aquilo que mais deseja:
O amor.
E embora suas habilidades de viajante do tempo não sirvam para conquistar a deliciosa Charlotte (Margot Robbie, de O Lobo de Wall Street), amiga de sua irmã Kit Kat (Lydia Wilson), ao menos lhe permitem consertar eventuais papelões a que ele se sujeite ao tentar fazê-lo.
Quando deixa a casa dos pais e vai para Londres trabalhar como advogado ele conhece a adorável Mary (Rachel McAdams, nerd e adorável como nunca antes), e imediatamente percebe que ela é o amor de sua vida.
Infelizmente, ao voltar no tempo e salvar seu amigo Harry (Tom Hollander) do fracasso profissional, ele acaba gerando uma linha de tempo onde os dois não se conhecem.
Tim, porém, é pertinaz, e através de suas habilidades, consegue ordenar as coisas de modo a que ele e Mary se apaixonem.
E aí, começa a verdadeira beleza de Questão de Tempo.
Se o pôster, o trailer e o nome do diretor/roteirista Richard Curtis (o mesmo escritor de Quatro Casamentos e Um Funeral, Um Lugar Chamado Nothing Hill e Simplesmente Amor) nos leva a crêr que estamos vendo um "boy meets girls" clássico com um temperinho diferente por conta das viagens no tempo dos Lake, a partir do segundo ato, quando Tim age ao contrário do que qualquer homem agiria em uma comédia romântica comum, nós descobrimos, o que, de fato, é Questão de Tempo:
Uma linda obra sobre o amor entre pai e filho.
A partir do momento em que entendemos isso, é difícil parar de chorar enquanto assistimos ao terceiro ato do filme. Cada cena, cada quadro, cada ida e volta no tempo é um mar de lágrimas como eu não derramava desde os minutos finais de Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo (E eu me debulhei em lágrimas naquele filme como se fosse uma adolescente gordinha deprimida), e não é porque Questão de Tempo se torne um filme dramático, ou excessivamente feliz, é apenas pela epifania de perceber que estamos diante de uma lição sobre aproveitar o máximo possível o tempo com aqueles que amamos, pois, no final das contas, esses são os momentos que sempre iremos querer reviver de novo e de novo.
Ao disfarçar seu filme de pai e filho como uma comédia romântica britânica com todos os elementos da cartilha "Richard Curtisiana" (Está tudo lá, o protagonista masculino tímido com quem todos podemos nos identificar, o amigo porra-louca, a irmã espevitada, a adorável estrangeira por quem todos nos apaixonamos, o sujeito mais velho que é o nosso pai/avô/tio preferido, todos orbitando Londres e arredores numa vida de classe média/alta onde as pessoas podem se dar ao luxo de permitir que os problemas do coração sejam os mais graves e imediatos da vida), Curtis nos enfia no núcleo familiar de Tim de uma maneira tão completa que nós ansiamos por mais tempo com cada um deles, com a mãe que começa uma conversa perguntando "quais são seus defeitos?" ao tio D, tão maluco e desligado quanto adorável em sua tolice, a irmã maluca, os amigos inapropriados... Com o roteiro mais doce do mundo, direção tranquila, e um trabalho de elenco absolutamente fabuloso em sua fofura, com destaque especial para Domhnall Gleeson, Tom Hollander e especialmente para Bill Nighy, senhor absoluto do filme, Questão de tempo "ruleia".
Se eu pudesse voltar no tempo, é possível que eu tivesse feito escolhas diferentes aqui e ali. Feito melhor papel em momentos em que fui particularmente escroto. Talvez ganhado um pouco mais de dinheiro... Mas aprendi a minha lição.
Basicamente, passaria mais tempo com as pessoas que amo. Que amei.
E teria visto Questão de Tempo no cinema.
Duas vezes.
Ou três.
Assista. É excelente.

"-O que você achou dela?
-Eu já gosto mais dela do que de você."

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Resenha DVD: Frankenstein - Entre Anjos e Demônios.


Eu acreditava que após Batman - O Cavaleiro das Trevas, a carreira de Aaron Eckhart iria decolar. Seu retrato do promotor público Harvey Dent, indo da luminosa interpretação do cavaleiro branco de Gotham até o inferno da desfigurada e torturada figura do Duas Caras era um dos pontos altos num filme repleto de picos.
Mas, após Batman, Eckhart fez Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles, O Amor Acontece e Invasão a Casa Branca, nenhum deles filmes nem mesmo razoavelmente memoráveis.
Mas aí, quando parecia que a coisa estava meia-boca, Eckhart aparece como astro desse Frankenstein - Entre Anjos e Demônios, filme baseado no quadrinho I Frankenstein, da Dark Horse (Editora que mais havia transformado gibis em cinema até a Marvel enlouquecer no começo dos anos 2000).
O longa metragem mostra o monstro de Frankenstein (Eckhart), logo após matar a noiva de seu criador, o doutor Victor Von Frankenstein (Aden Young), ser perseguido pelo mesmo, e vê-lo morrer.
Ao voltar à Alemanha para enterrar o corpo de seu "pai", a criatura é atacada por um grupo de homens que se revelam demônios, e salvo por gárgulas (é, eu sei...).
Levado à presença de Leonore (Miranda Otto, a Éowin de O Senhor dos Anéis), senhora dos gárgulas, ele descobre que essas criaturas a quem tomamos por meros adereços são, na verdade, seres angelicais, enviados à Terra para proteger a humanidade dos demônios que aqui habitam disfarçados de gente.
Ela oferece a ele guarida, proteção, e um nome: Adam.
O Monstro aceita o nome, armas sagradas que podem ferir os demônios, mas segue seu caminho solitário, vagando pelo mundo por duzentos anos, caçando os demônios na perspectiva de descobrir o que eles querem com ele.
O que Adam não sabe, é que ele, e a forma como foi criado, são o pino mestre do nefasto plano de Naberius (Bill Nighy), príncipe demoníaco, para dar um passo adiante nas pesquisas de reanimação da Dra. Terra (O pitéu Yvonne Strahovski), que, a exemplo de Adam, não sabe que seus experimentos serão usados para criar um exército de demônios, varrer os gárgulas, e gerar um inferno na Terra.
Frankenstein - Entre Anjos e Demônios é uma salada tão indigesta que é até difícil reconhecer todos os ingredientes.
Meio Anjos da Noite (referência mais óbvia, já que além de toda a atmosfera, a luta entre grupos rivais de seres sobrenaturais escondidos da humanidade ainda estão lá os produtores do filme e Bill Nighy interpretando uma variação do vampiro Viktor da série de vampiros e lobisomens), com ecos de Van Helsing, Blade e até Crepúsculo, o filme consegue arrancar as características originais da criatura de Frankenstein que todo mundo conhece, e torná-lo um personagem menos humano e interessante.
Ao mesmo tempo em que a aparência agigantada, com dificuldade para andar e falar é subsituída por um corpo sarado, cicatrizes mais amenas, trajes descolados e super força, todas as questões existenciais que atribulavam a vida artificial do monstro vão por água abaixo em nome de uma atitude ranheta de herói relutante e desconfiado de todo mundo.
Nem mesmo as frequentes cenas de ação, que envolvem perseguições, pancadarias e combates aéreos impedem o filme de ser maçante e chato, ou escondem os problemas de um roteiro cheio de buracos.
O diretor Stuart Beattie (Também um dos responsáveis pelo arremedo de roteiro) parece preocupadíssimo em criar um espetáculo visual com chamas rodopiando pelo ar, gárgulas voando ao redor de torres góticas, derrubando prédios e mostrando elaboradas sequências de luta com bastões, mas esquece de contar uma história que justifique a sequência que o fim do filme alardeia na forma do vilão secundário que foge e da promessa do herói de que protegerá a humanidade quando as forças do mal retornarem.
Em suma:
Tudo de ruim.
Deixe juntar poeira na prateleira da locadora.

"-Eu sou uma dúzia de pedaços de oito cadáveres diferentes. Eu sou um monstro.
-Você só é um monstro quando se comporta como um."

Resenha DVD: Operação Sombra - Jack Ryan


Todo mundo que gosta de cinema de espionagem sabe quem é Jack Ryan, embora ele não seja necessariamente a mesma pessoa pra todo mundo.
Pra algumas pessoas ele pode ser o Alec Baldwin coadjuvante do Sean Connery em Caçada ao Outubro Vermelho, pra outras pode ser o herói xaropão interpretado por Ben Affleck em A Soma de Todos os Medos, mas, pra maioria dos fãs, é o consultor da CIA interpretado por Harrison Ford em Jogos Patrióticos e Perigo Real e Imediato.
Claro que os mais nerds ou aqueles que curtem romances de espionagem sabem que Jack Ryan é bem mais do que isso na literatura, onde chegou a ser diretor adjunto da CIA e duas vezes presidente dos EUA, infelizmente, o cinema parece querer sempre rejuvenescer Ryan, originalmente um sujeito nascido nos anos cinquenta e que envelheceu nos livros (seu filho, Jack Jr. inclusive estrela seu próprio livro, The Teeth of the Tiger), e após Ben Affleck interpretar o personagem no nada memorável A Soma de Todos os Medos, Ryan rejuvenesceu outra vez para ganhar a cara de Chris Pyne, o capitão Kirk da nova Enterprise.
Operação Sombra começa com um jovem Jack Ryan estudando na Universidade de Economia de Londres, sendo arrancado do que parece uma vida mansa pelos atentados de 11 de setembro de 2001.
Três anos mais tarde ele é um fuzileiro servindo no Afeganistão, e sobrevivendo à uma queda de helicóptero com graves ferimentos nas costas.
De volta aos EUA, ele faz fisioterapia, conhece a residente de medicina Cathy Muller (Keira Knightley, delicinha), e tenta se reabilitar para voltar a andar.
É quando ele conhece Thomas Harper (Kevin Costner, bem no papel), operativo fodelão da CIA que lhe oferece um emprego como consultor, trabalhando como um agente infiltrado da agência de inteligência americana em Wall Street, analisando padrões financeiros que possam prever e evitar novos atentados em solo americano.
Ryan aceita o emprego. Ele e Cathy vivem juntos, com o segredo da verdadeira natureza de seu trabalho criando volta e meia uma barreira na relação, mas eles vão levando, até Jack descobrir que a empresa do industrial russo Viktor Cherevin (Kenneth Branagh, diretor do filme) tem números um tanto suspeitos.
Enviado contra sua vontade à Rússia para investigar Cherevin, Ryan acaba descobrindo uma trama que promete lançar os EUA à uma segunda Grande Depressão, na esteira de um novo ataque terrorista de proporções catastróficas.
É bacana o novo filme de Jack Ryan. Olhando ele no todo, é certamente superior ao A Soma de Todos os Medos, embora fique devendo aos demais filmes do personagem, mas funciona como um bom entretenimento, e um razoável "Jack Ryan Begins".
Pyne mantém os mesmos trejeitos de seus outros filmes, Keira Knightley é um amorzinho, tão doce que a gente até perdoa o sotaque americano dela ser esquisito. Melhor sorte com sotaques tem Kenneth Branagh, que faz o vilão russo Cherevin ser mais do que apenas um malvadão com delírios de destruição, e Kevin Costner cai bem no papel do mentor Thomas Harper.
Com o elenco funcionando, uma trama que garante alguns momentos de tensão, boas sequências de ação e direção serena de Branagh, bem a vontade com blockbusters após Thor, Jack Ryan - Operação Sombra é um bom programa pra uma tarde/noite chuvosa.
Vale a locação.

"Você não é mais apenas um analista. Agora é um operativo."