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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Não Se Vá, Homem-Aranha


A Sony pictures, detentora dos direitos do Homem-Aranha no cinema, parece ter perdido de vez a mão com relação aos filmes do herói.
Após refazer O Espetacular Homem-Aranha, removendo Mary Jane (Shailene Woodley) da história, cortando parte considerável da participação de Felícia Hardy (Felicity Jones), e obrigando Mark Web a praticamente refazer o filme na edição, a empresa que já havia demonstrado sua falta de tato ao pesar a mão no trágico Homem-Aranha 3 quando forçou Sam Raimi a incluir o Venom no filme, e o demitiu durante a pré-produção de Homem-Aranha 4, quando o cineasta relutava em acrescentar o Carnificina à trama admitiu não saber o que fazer com a franquia.
Ou, pelo menos é o que ficou implícito após alguns rumores darem conta de que o filme derivado do Sexteto Sinistro, que seria uma prévia a O Espetacular Homem-Aranha 3, poderia tornar-se um novo filme de origem, onde um novo Homem-Aranha uniria forças aos vilões para enfrentar uma ameaça ainda maior.
Ou seja, a Sony gostaria de pegar o que é seu grande acerto com o reboot, a escalação de Andrew Garfield no papel principal, e jogar isso no lixo em nome de um reinício da série.
Francamente... Por mais que eu goste da ideia de o Homem-Aranha reverter de volta à Marvel, e entender que a melhor maneira de isso vir a acontecer fosse com a Sony acabando com o personagem nos cinemas como a Universal fez com o Hulk e a Fox com o Demolidor, acho um desperdício o que a Sony ameaça fazer com o cabeça de teia.
Ao invés de aproveitar a resolução dos problemas mais indigestos de O Espetacular Homem-Aranha em O Espetacular Homem-Aranha 2, que termina acenando praticamente com uma tela em branco para o personagem, e dar sequência à ótima encarnação de Andrew Garfield no papel de Peter Parker/Homem-Aranha, que esmerilhou a interpretação autista de Maguire quando usou o uniforme colante, o estúdio vai jogar tudo pra cima e fazer um re-reboot para tentar capitalizar mais uns trocados com o sobrinho preferido da tia May, chupando até a última gota possível da popularidade do herói, para então engavetá-lo por um tempo ao primeiro sinal de prejuízo, e deixá-lo guardado até que a Marvel possa resgatá-lo e, quem sabe, aproveitá-lo em um dos filmes da fase 5 ou 6 do estúdio de Os Vingadores...
Claro, estou conjecturando à distância com base unicamente em um rumor qualquer da internet, mas a verdade é que após todas as metidas de pés pelas mãos do estúdio, com a resposta morna da crítica e com a legião de haters que, antes mesmo de ver o filme, já elencava dezenas de razões para odiá-lo (com todas sendo apenas camuflagem para o desespero de um inexplicável fã-clube de Maguire) foi praticamente um milagre que O Espetacular Homem-Aranha 2 fosse um filme tão capaz de dialogar com os fãs do personagem (e capaz de ultrapassar os 700 milhões de dólares só em bilheterias), e isso se deve, em grande parte, a Andrew Garfield, um ator que ama e entende o personagem, e sua pegada precisa na hora de viver o herói mais famoso da Marvel. E, como fã do Homem-Aranha, me dói um pouco ver isso ser jogado pela janela.
A Sony poderia tentar lembrar que, grandes poderes trazem grandes responsabilidades.

Resenha DVD: A Grande Escolha


Quer realizar um filme tendo como protagonista um sujeito com certa persona cinematográfica, ator reconhecidamente talentoso e carismático que pode não estar na sua melhor fase da carreira?
Faça um bangue-bangue ou um drama esportivo. Esse tipo de filme tem uma porcentagem considerável de chance de atrair Kevin Costner.
O ator/diretor que está desde Waterworld tentando tentando voltar à constelação de astros de primeira grandeza de Hollywood (e que esteve perto de conseguir isso justamente com um western, o ótimo Pacto de Justiça, alguns anos atrás) parece incapaz de resistir ao papel de caubói e o de atleta, e, à medida em que a idade começa a pesar e ele não seria mais crível em um uniforme esportivo (a menos que voltasse ao golfe de O Jogo da Paixão), Kevin não desiste,mas se vê obrigado a mudar de estância.
A Grande Escolha, dirigido por Ivan Reitman, ex papa das comédias de efeitos especiais oitentistas que vinha sendo eclipsado pelo talentoso filho Jason, mostra Costner no papel de Sonny Weaver Jr., gerente da equipe dos Cleveland Browns, um time médio da Liga Nacional de Futebol americano (NFL na sigla em inglês).
As coisas não andam lá muito boas para Sonny, que está tendo um daqueles cinematográficos dias infernais.
Pra começar, sua namorada, Ali (A gatona Jennifer Garner), lhe avisa que está grávida. O namoro de Ali e Sonny é algo secreto já que ambos trabalham juntos nos Browns, time que o pai de Sonny, o senhor Sonny Waever Sr., morto duas semanas atrás, dirigiu com sucesso até ser demitido pelo próprio filho na temporada anterior.
Não bastasse tudo isso, essa é a manhã do Draft Day, a noite em que as equipes da NFL escolhem entre os prospectos das universidades os jovens jogadores que comporão seus times na temporada numa espécie de leilão, e Sonny é pressionado por seu chefe, o dono do time Anthony Molina (Frank Langella), a realizar uma contratação de impacto, algo de que a equipe precisa pra sobreviver à temporada.
No ano em questão, Sonny e seus Browns têm a prerrogativa da sétima escolha da noite, o quê, baseado nas estatísticas, provavelmente permitirá que ele escolha entre o linebacker Vontae Mack (Chadwick Boseman, de 42 - A História de uma Lenda), e o runnigback com recentes problemas legais Ray Jennings, filho da ex-estrela dos Browns
Earl Jennings (Terry Crews), a questão é que, para engorssar a trama, na mesma manhã, o gerente dos Seattle Seahawks, Tom Michaels (Patrick St. Esprit), liga para Sonny oferecendo uma proposta aparentemente irrecusável:
Trocar a sua escolha, a primeira da noite, pelas primeiras escolhas de Sonny nas próximas três temporadas. Pode não parecer justo, mas a prerrogativa da primeira escolha possibilitaria a Sonny escolher o garoto de ouro do draft em questão, o quarter back de Winscosin Bo Callahan (Josh Pence), em quem todas as equipes estão de olho.
Pressionado, o executivo acaba cedendo, e, se faz a felicidade de seu patrão, colegas e dos torcedores, gera a ira do treinador da equipe, Penn (Denis Leary), e do seu quarter back atual, Brian Drew (o sumido superboy Tom Welling), que esteve machucado na temporada anterior e estava ansioso para provar seu valor no ano por começar, além de suas próprias dúvidas, já que Callahan não era a primeira escolha de Sonny.
Para piorar, enquanto começa a vasculhar o passado de Callahan para descobrir porque o Seahawks estão abrindo mão do menino prodígio, é pressionado de todos os lados e luta contra as próprias convicções, Sonny ainda precisa lidar com sua mãe manipuladora (Ellen Burstyn), com sua ex-esposa enxerida (Rosana Arquette), e um estagiário novato.
Não chega a ser um mau filme, mas A Grande Escolha tem dois defeitos capitais:
O primeiro, é ser excessivamente fechado no mundo do futebol americano para atrair uma audiência que não se interesse pelo assunto. Repleto de referências a grandes astros do passado do esporte como Joe Montana, Dan Marino, e a dinastia Manning, episódios específicos de Super Bowls da década de oitenta, e todo o universo da NFL (incluindo participações especiais de comentaristas e narradores que são "famosos quem?" pra maioria do público), A Grande Escolha já começa afugentando uma boa parte da audiência.
Some-se a isso o segundo defeito, o fato de absolutamente nenhum dos personagens ser vagamente crível (são todos completos estereótipos. O linebacker sem papas na língua, o chefão que mete pressão, a namorada que ralou para conseguir seu lugar ao sol e o coloca em risco ao se relacionar com o colega, a mãe manipuladora, a ex-mulher nojenta, o prodígio que pode não ser o que se espera...), todos praticamente etiquetados de tão unidimensionais, e o longa se perde.
Mesmo com os truques visuais usados por Reitman, como as telas divididas em telefonemas que se sobrepõe e se misturam durante as conversas, o relógio contando as horas até o draft, e as belas tomadas aéreas decoradas com o logo dos times cada vez que uma nova cidade e uma nova equipe são apresentadas, o filme não vai atrair aos não-fãs/não-iniciados no mundo do futebol americano, o que é uma pena, pois, se o trabalho dos roteiristas Scott Rothmann e Rajiv Joseph fosse mais competente, com a boa mão de Reitman e o trabalho aplicado de um elenco acima da média, A Grande Escolha tinha tudo pra decolar, sem isso, se tornou um filme de nicho, e olhe lá.

"-Como é que pode o prêmio definitivo do esporte mais macho já criado ser uma joia?"

Resenha Cinema: Mesmo Se Nada Der Certo


Poucas coisas gritam "Indie" mais alto do que dramédias românticas musicais estreladas por Keira Knightley e Mark Ruffalo e dirigidas por John Carney, do Indie até a medula Apenas Uma Vez.
O trailer de Mesmo Se Nada Der Certo (cujo título original que aparece no início do filme é Can a Song Save Your Life?, "uma canção pode salvar sua vida?", mas tem o título original registrado no IMDB como Begin Again "começar de novo"), também era terrivelmente indie, mostrando participações de Cee-Lo Green, de Mos Def e do Maroon 5 Adam Levine no que parecia uma versão mais descolada de Letra e Música, mas ei, quem é que não gosta de uma dramédia indie estrelada pelo delicinha Keira Knightley de quando em quando?
Bora lá conferir a inglesinha cantando com o auxílio do auto tune, que é, de fato, a primeira coisa que vemos no filme.
Keira é Gretta, ela está sentada em uma bar de música ao vivo qualquer em Nova York, e é convencida por seu amigo Steve (James Corden), que está no palco, a subir e cantar uma de suas canções.
A baladinha, "para todos os que já se sentiram sozinhos na cidade", não chega a ofender, e ajuda que Keira seja uma graça com suas caras e bocas na sua performance.
Corta para a manhã do mesmo dia.
Dan (Mark Ruffalo), acorda as sete da manhã, ele está um trapo, parece ter enchido a cara na noite anterior. Ele pensa em se barbear, mas desiste e volta pra cama. Sai horas mais tarde após apanhar um pacote repleto de CDs demo, Dan é um produtor musical que não anda lá num momento muito positivo da vida. Pra piorar, todos os CDs parecem a mesma coisa, algo entre pop e hip-hop sem alma, personalidade ou qualidade.
Ele apanha a filha com quem não sabe se comunicar Violet (uma insuspeita gostosa Hailee Steinfeld que, acabo de descobrir, tem apenas dezessete anos, então esqueçam a parte do "gostosa") na escola, e vai à uma reunião com seu sócio Saul (Mos Def), na gravadora que os dois fundaram juntos. A reunião termina com Dan demitido.
Após encher a cara por toda a parte, pensando em se suicidar, Dan acaba em um bar qualquer para beber sua última dose de uísque, quando ouve a canção de Gretta no palco.
Desse encontro fortuito, surge uma parceria que pode salvar a ambos a medida em que descobrimos que Dan não superou a separação da ex-esposa Miriam (Catherine Keener), e que Gretta era namorada de parceira musical de Dave Kohl (Adam Levine), que após sentir a fama tremer sob seus pés, trocou Gretta por uma produtora qualquer da gravadora com quem acabara de assinar, deixando a jovem sozinha e de coração partido na grande maçã.
Essa é a premissa nada original de Mesmo Se Nada Der Certo, mas não tema. A despeito do início, o desenrolar do longa trata de afastar essa impressão.
A exemplo de Apenas Uma Vez, Mesmo Se Nada Der Certo não é um romancezinho típico, mas sim um longa sobre o efeito da música na vida dos protagonistas, com boas canções do próprio Carney, ex baixista do The Frames, e boas atuações do casal protagonista, em especial Knightley, Mesmo Se Nada Der Certo segura a onda com a fofura, boas canções, e intercalando momentos divertidos com algumas cenas realmente tocantes (a melhor talvez seja quando Gretta ouve uma canção do namorado, e imediatamente sabe que ele a escreveu pensando em outra mulher), misturando o início agridoce a um segundo ato genuinamente divertido, e um desfecho absolutamente desalinhado com o que se esperaria do filme, deixando de lado os clichês mais recorrentes do gênero.
Nessa toada, Carney e seu elenco obtém sucesso ao contar sua história através de dois personagens desenvolvidos de maneira absolutamente crível, com quem todos podem se relacionar, e de quem é fácil gostar.
O que mais se pode pedir de um filme?
Assista, no cinema ou em DVD, vale absolutamente a pena.

"-Eu não estava tentando te reconquistar, estava tentando te mandar à merda."

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Resenha Cinema: Garota Exemplar


Antes mesmo de assistir Garota Exemplar, já havia duas coisas que se podia dizer a respeito do filme. Primeiro, que não seria ruim. Filmes assinados por David Fincher nunca são. Mesmo seus piores filmes, como o chatinho Quarto do Pânico e o desnecessário Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres, valem a pena assistir, afinal, o sujeito nos deu Zodíaco, Se7en e Clube da Luta, então, ele merece a deferência, e tem crédito.
A segunda coisa que se podia dizer de Garota Exemplar antes de ver o filme, é que o longa tinha o que é, fácil, o melhor trailer de um longa metragem nos últimos anos. Se duvida, dê uma olhada antes de continuar lendo essa resenha:



Agora, isso é um trailer, meus amigos... Eu nem precisaria tê-lo assistido cinco ou seis vezes no cinema nos últimos tempos para ficar babando pra assistir ao filme, uma teria bastado, e, diga-se de passagem, a vontade de assistir a Garota Exemplar, é totalmente justificada na medida em que o filme em si, é infinitamente melhor do que o genial trailer ali em cima sugere.
No longa, com roteiro adaptado do best seller de Gillian Flynn pela própria, conhecemos Nick Dunne (Ben Affleck, muito bem, crescendo exponencialmente como ator para o alívio dos fãs do Batman), um ex-jornalista, agora professor de redação criativa em uma modesta universidade do Missouri e dono de um bar chamado O Bar, que dirige com sua irmã Margo (Carrie Coon, de The Leftovers). Na manhã de seu aniversário de cinco anos de casamento com Amy (Rosamund Pike, um capítulo à parte), Nick chega em casa e descobre o que parece uma possível cena de crime. A sala de estar apresenta sinais de luta e Amy desapareceu. Preocupado, Nick imediatamente chama a polícia, e, dado cenário, a detetive Rhonda Boney (a eterna coadjuvante da coadjuvante Kim Dickens, ótima, devorando o papel com vontade) e o policial Jim Gilpin (o sumido Patrick Fugit, de Quase Famosos) imediatamente passam a tratar o fato como um desaparecimento.
Conforme as investigações transcorrem e o caso se torna um circo midiático, detalhes da vida aparentemente perfeita do casal começam a ser sistematicamente derrubados, o que transforma Nick no principal suspeito do crime.
Enquanto tenta provar sua inocência com a justiça e o escrutínio público o apontando como o assassino da própria esposa, Nick passa a perceber um padrão que sugere que pode haver muito mais por trás do sumiço de Amy do que ele inicialmente acreditava.
Com certeza um dos melhores filmes do ano até aqui, pegando parelho com O Grande Hotel Budapeste e Inside Llewin Davis, Garota Exemplar é David Fincher no que pode ser sua melhor forma desde Clube da Luta, entretenimento do bom, com cérebro e fígado aos borbotões.
Se a premissa sugere um daqueles tradicionais filmes "noir suburbano" que se tornaram moda nos últimos anos, a execução de Fincher é precisa na hora de olhar a trama com algum cinismo, sem deixar, no entanto, que ela se torne uma paródia ou mesmo uma desconstrução típica de um gênero de filme. Garota Exemplar é tão bem arquitetado e cheio de reviravoltas, que passa tranquilamente por três ou quatro tipos de filme em sua projeção de pouco menos de duas horas e meia que jamais cansam.
Com uma fotografia propositadamente estática, que não muda de cor para sugerir nada à audiência, Fincher conduz o público por uma trama que está sempre um passo à nossa frente usando a narração em off de Amy (cheia de ácidas verdades inconvenientes no melhor estilo do narrador sem nome de Edward Norton em Clube da Luta, como a lista de coisas que a "namorada legal" deve fazer, incluindo comer pizza fria e continuar magra, beber cerveja no gargalo vendo filmes do Adam Sandler e muito, muito sexo oral.) para nos colocar a par do que realmente aconteceu (ou não) no passado do casal protagonista.
Bem amparado no trabalho de um aplicado Affleck, da surpreendente Dickens, da competente Carrie Coon e ainda de Tyler Perry (o advogado mezzo Johnnie Cochran de Nick, Tanner Bolt) e Neil Patrick Harris (interpretando uma variação mais séria e sem bigode de seu personagem em Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola), o filme pertence, mesmo, é a Rosamund Pike.
A linda loira, com sua beleza fria e distante, consegue passar uma aura etérea que a torna inatingível mesmo quando ela está por perto, como se ela morasse dentro de um globo de neve. A diferença gritante entre sua beleza aristocrática e o jeitão proletário de Affleck são um aditivo aos atritos do casal e testemunho do talento de Fincher ao escalar seu elenco e contar sua história, e isso, somado à atuação precisa da linda atriz inglesa que se despe de sua vaidade em mais de uma cena, e consegue ser mais atraente quando sua personagem deveria ser mais repulsiva, são o lastro do que torna Garota Exemplar o baita filme que é.
Corra para o cinema e assista. É obrigatório para quem gosta de thrillers, dramas, mistérios, reviravoltas, grandes atuações e diretores que brincam de fazer filme.

"O que você está pensando? O que você está sentindo? O que foi que nós fizemos um ao outro? O que nós vamos fazer?"

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Resenha DVD: Oldboy - Dias de Vingança


Eu não assisti ao Oldboy original.
Confesso. Não assisti. Apesar de ter lido e ouvido críticas positivas, apesar de ter visto o filme passando na TV a cabo em mais de uma ocasião, jamais levei adiante a ideia de assistir ao longa metragem.
O Oldboy original é uma trama de vingança adaptada de um manga, a fita sul-coreana dirigida por Chan-Wook Park fez grande sucesso, inclusive se transformando em uma trilogia que contava ainda com Mr. Vingança e Lady Vingança, e, novamente, não assisti a nenhum deles. É bobagem da minha parte, mas a verdade é que, depois de assistir a O Hospedeiro, eu comecei a olhar todos os elogios que o cinema sul-coreano recebia com alguma displicência, e até desconfiança.
Logo, devo admitir que não foi o hype do filme original que me fez assistir ao remake norte-americano (Ainda falei disso um tempo atrás, na resenha de D-13. Americanos são preguiçosos e xenófobos. Não assistem filmes estrangeiros e odeiam legendas, por isso existem tantos remakes americanos de filmes europeus e asiáticos) de Oldboy.
Foram os nomes de Spike Lee, um diretor cujo trabalho eu admiro muito, especialmente quando deixa a questão racial menos evidente e se concentra em simplesmente fazer filmes (que o diga o divertidíssimo Um Plano Perfeito), Josh Brolin e Sharlto Copley, dois atores que, na minha opinião, são vastamente subestimados.
Foi com os nomes desses três sujeitos em mente que eu aluguei Oldboy - Dias de Vingança na minha locadora preferida, e fui reparar o fato de não ter conseguido ver o filme quando de sua curtíssima passagem pelo cinema.
Oldboy - Dias de Vingança mostra a história de Joe Doucett (Brolin). O ano é 1993, e Doucett, um publicitário de uma firma que passa por um momento delicado, é encarregado de conseguir a conta que pode salvar a empresa.
Em poucos minutos nós sabemos que Joe sofre de um alcoolismo grave, divorciou-se recentemente, é um pai ausente para a filha de três anos de idade e é um escroto de marca maior.
Faltando à festa da filha para jantar com o cliente salvador, Joe consegue ofender o sujeito e perder a conta. Ciente da magnitude da cagada que acabou de aprontar, Joe enche a cara e perambula por Nova York até ser abordado por uma mulher. Horas mais tarde, Joe acorda no que parece ser um quarto de motel, mas logo revela-se um confinamento solitário onde ele é isolado.
Preso, Joe tem como única companhia uma TV onde recebe, horrorizado, a notícia do brutal estupro e assassinato de sua ex-esposa, um crime do qual é o principal e único suspeito.
Conforme o tempo passa, sem que Joe entenda o porquê de seu aprisionamento, ele é confrontado pelo televisor com notícias eventuais de sua filha, Mia, e é por ela que Joe, após uma malfadada tentativa de suicídio, decide viver.
Submetendo-se a um rigoroso regime de exercícios, o inchado Joe se torna um matador esguio e musculoso impelido unicamente pelo desejo de reencontrar sua filha e ser o pai de que ela precisa, e escapar de seu aprisionamento sem sentido limpar seu nome e vingar-se de seu misterioso algoz.
Entretanto, antes de Joe possa escapar, ele é inexplicavelmente libertado após vinte anos em cativeiro, começando uma corrida para descobrir quem o prendeu e por que, um caminho sangrento que vai afundando esse homem alquebrado em uma intrincada trama de intriga e tormento ardilosamente arquitetada pela mente de um louco, o sádico milionário vivido por Copley (caprichando na afetação).
Francamente... Eu não sei porque a crítica especializada pichou tão ferozmente Oldboy - Dias de Vingança, mas suponho que deva ser por causa da qualidade do original coreano, e, nesse caso, o Oldboy original entrou de vez na minha lista de filmes que eu preciso assistir com urgência.
Digo isso porque achei o remake um ótimo filme. Talvez o filme mais bacana e bem arquitetado de Lee desde o já mencionado O Plano Perfeito, e com a melhor atuação de um protagonista desde o samba de Edward Norton em A Última Noite.
Lee ambienta seu filme em uma Nova York vagamente reconhecível que transforma em um cenário algo onírico. Alguns cenários são vagamente reconhecíveis, outros, absolutamente genéricos, e nós nunca sabemos como os personagens chegaram lá. A câmera frequentemente é posicionada de maneira improvável, mostrando os personagens de ângulos inesperados, a fotografia é escura e as cores supersaturadas, nada em Oldboy - Dias de Vingança parece acenar com realismo, exceto a atuação do casal protagonista, Brolin e Elizabeth Olsen, que vive a ex-viciada, agora voluntária de uma clínica móvel, Marie Sebastian. O fato de ambos (e mais Michael Imperioli) atuarem como pessoas de verdade em meio a vilões que parecem saídos de filmes de James Bond (Copley e mais Samuel L. Jackson), torna toda a experiência mais perturbadora.
Josh Brolin ruleia no papel de Joe Doucett, incrivelmente convincente tanto como o bêbado barrigudo e desagradável do início do filme quanto como o obstinado matador de martelo e estilete em punho da segunda metade do longa, o ator deixa claro que merecia mais e melhores papeis principais no cinema. Elizabeth Olsen também vai muito bem no papel da desorientada Marie, e Jackson e Copley dão seu recado cada um à sua maneira, mas ambas plenamente satisfatórias.
No final das contas, Oldboy - Dias de Vingança não vai agradar à todas as audiências simplesmente porque não é história pra agradar audiência alguma. O pesado conto de vingança e danação engendrado por Garon Tsuchiya e Nobuaki Minegishi, autores do mangá que deu origem aos dois filmes, é exatamente o oposto, um conto perturbador e opressivo regado a sangue e pecado, e foi exatamente assim que Spike Lee o filmou.
Ao menos de minha parte, recomendadíssimo.

"-Merda, talvez você queira pensar no que está fazendo aqui.
-Eu tenho pensado nisso pelos últimos vinte anos."

Não se Discute


E as eleições, hein?
Institutos de pesquisa desmascarados de maneira brutal, candidatos que já se consideravam vencedores de fora da disputa ou precisando encarar uma competição indigesta na sequência da campanha política, um mundaréu de candidatos detidos por crime eleitoral Brasil á fora e isso que foi só o primeiro-turno.
A festa da democracia mostrou, novamente, que só o que funciona a contento no Brasil é o sistema eleitoral, imagine só, a votação acabou ontem às dezessete horas, e antes das onze da noite praticamente todos os resultados já eram conhecidos em um processo eleitoral que, à exceção de alguns problemas com a identificação biométrica, pode ser considerado perfeito exceto pela baixíssima qualidade dos candidatos envolvidos e pela absoluta falta de critério do povo na hora de escolher seus representantes.
Quer uma prova?
Pois bem, aqui vai... E já vou avisando que, para oferecer a tal prova, entrarei em uma seara perigosa já que vou discutir dois assuntos que, historicamente, não se discute: Futebol e política.
Um dos candidatos que vai ganhar cadeira na câmara estadual gaúcha é Jardel.
Sim... Jardel. Jardel, o ex-centroavante do grêmio que fez muito sucesso no Sporting e no Porto de Portugal. Jardel que sempre conviveu com a fama de não ser um sujeito de muitas luzes intelectuais, que teve problemas de dependência química e não obteve sucesso ao tentar a carreira de treinador resolveu tentar a carreira política, e, com sua propaganda eleitoral contando com Luís Felipe Scolari pedindo votos, foi bem-sucedido.
Sim... Jardel se elegeu.
Não é o primeiro, diga-se de passagem. Danrlei, ex-goleiro gremista e parceiro de Jardel nos distantes anos noventa também ganhou uma cadeira, mas na câmara federal para a qual foi reeleito.
Nos últimos quatro anos Danrlei protocolou três projetos, dos quais nenhum foi aprovado, mas, ainda assim, alguém achou que ele merecia mais quatro anos. Eu diria que as mesmas pessoas resolveram dar um voto de confiança ao Jardel que, em uma recente entrevista, ao ser perguntado se era de direita ou de esquerda, respondeu que era "de cabeça", cujo primeiro ato como deputado seria mudar a colocação do grêmio no campeonato brasileiro de sexto para primeiro, que se considera de direita por ser "um cara direito demais"... O Jardel, que obviamente não faz nem a mais remota ideia de quais são as atribuições de um deputado estadual, foi eleito. E com ampla margem... Mais de 41 mil votos.
Eu me pergunto o que levou os eleitores de Jardel e Danrlei a votarem nos dois... Paixão clubista? Uma vontade inapelável de "copar" alguma coisa nem que seja a eleição? Eu não sei. Não sou capaz de entender o que leva alguém a votar no Jardel e no Danrlei assim como não sei o que levaria uma pessoa a votar no Fabiano "Uh, Fabiano" (que não se elegeu quando tentou mandato na câmara municipal), ou no Dinho, ou no Tiririca, o que eu sei, é que, olhando os eleitos para as câmaras do estado do Rio Grande do Sul, e até mesmo nosso novo senador, Lazier Martins, a partir de agora, toda a vez que a expressão "estado mais politizado do Brasil" fosse usada na mesma frase que "Rio Grande do Sul, o autor deveria levar uma sumanta de laço.
Enfim... Ainda podemos torcer... Quem sabe Danrlei melhore sua produtividade no segundo mandato... Quem sabe Jardel surpreenda a todos e consiga realizar seus projetos de "saúde, muita saúde" tornando-se um legislador modelo?
Já que estamos na seara dos assuntos que não se discute, vamos fechar a trinca... Que Deus nos ajude.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Resenha Cinema: Sin City: A Dama Fatal


Nove anos se passaram desde que Sin City: A Cidade do Pecado, parceria entre Robert Rodriguez e Frank Miller que criou o que era, até então, a mais completa mistura de quadrinhos com cinema em que o público já havia colocado os olhos.
O diretor esqueceu tudo o que podia sobre o conceito de adaptação ao juntar um apanhado de histórias das graphic novels de Miller, e literalmente, apenas tirá-los das páginas dos quadrinhos e jogá-los na tela grande transformando os quadros de nanquim do autor de Batman - Ano Um em tomadas de um longa metragem quase que inteiramente rodado em preto e branco (A exemplo do quadrinho, alguns detalhes eram coloridos, como sangue vermelho e o bastardo amarelo).
Embora tenha agradado pela estética diferente de tudo o que havia sido visto no cinema até então (e que daria origem, entre outras coisas, a 300), Sin City: A Cidade do Pecado não foi um estrondoso sucesso de bilheteria, arrecadando pouco mais de 158 milhões de dólares pelo mundo.
Ainda assim, o filme chamou a atenção, tinha um bom elenco (que contava com Clive Owen, Brittany Murphy, Bruce Willis, Jessica Alba, Benício Del Toro, Rosario Dawson, Elijah Wood e Mickey Rourke), e, tendo sido um filme relativamente barato com seu orçamento de 40 milhões de dólares, logo se falava em uma sequência.
O lance foi que essa sequência começou a demorar uma barbaridade pra sair do papel. Tanto demorou que deu tempo de Rodriguez fazer mais meia dúzia de longa-metragens, e até Frank Miller, autor dos quadrinhos e co-diretor do primeiro Sin City, botar suas asinhas de fora e fazer Will Eisner se revirar na cova com seu Spirit - O Filme.
Mas, após todas essas idas e vindas, elencos sendo montados e desmontados na internet (Angelina Jolie, por exemplo, teve seu nome ligado ao filme desde 2005, mas acabou sendo substituída e muito bem diga-se de passagem, por Eva Green, no final das contas), o filme finalmente saiu do papel, e apesar dos percalços e da longa espera, até que não é o desastre que poderia ter sido.
Sin City - A Dama Fatal (tradução preguiçosa para o original "A Dame to Kill For" novamente é formado por um apanhado de histórias da série de graphic novels de Frank Miller num balaio que acaba parecendo mais aleatório na sequência já que o longa não respeita nenhum tipo de cronologia.
A introdução do longa já mostra Marv (novamente Mickey Rourke com sua máscara medonha) tocando o horror em uns universitários escrotos, na sequência conhecemos Johnny (Joseph Gordon-Levitt), um jovem com um excelente par de mãos para jogos de azar que arrisca sua sorte numa mesa de pôquer contra o todo poderoso senador Roark (Powers Booth), uma decisão pouco esperta que pode tornar sua vida muito, muito difícil.
Na sequência reencontramos Dwight McCarthy, personagem de Clive Owen no primeiro longa, sendo interpretado antes da cirurgia plástica mencionada no original, por Josh Brolin.
Dwight ganha a vida da maneira mais honesta que é capaz, como investigador particular tirando fotos de indiscrições conjugais como a protagonizada por Joey (ponta de Ray Liotta) e Sally (uma insuspeita gostosíssima Juno Temple).
Dwight vai levando até receber o telefonema de Ava (a gloriosa Eva Green), que pede que ele a ajude a escapar de seu marido dominador o milionário Damien Lord (o onipresente Marton Csokas), e seu capanga, o brutamontes Manute (Dennis Haysbert, assumindo o posto do falecido Michael Clarke Duncan).
Incapaz de resistir aos encantos da divina Ava, Dwight acaba envolvido numa intrincada trama de assassinato que envolve além dele e de Ava, os policiais Mort e Bob (Christopher Meloni e Jeremy Piven), o chefão criminoso Wallenquist (ponta de um irreconhecível Stacy Keach), e as garotas da Cidade Velha Gail (Rosário Dawson), Goldie e Wendy (ponta de Jamie King), e Miho (Jamie Chung, interessante upgrade à feinha Devon Aoki) além do tradicional banho de sangue.
Finalizando a trinca de histórias voltamos a encontrar a pequena e magrinha Nancy Callahan (Jessica Alba, gostosa que só), que mantém sua rotina como stripper enquanto é assombrada pelo suicídio de Hartigan (ponta de Bruce Willis) e a presença constante de Roark no clube onde ela trabalha. Nancy eventualmente perde as estribeiras e acaba decidida a encarar o homem mais poderoso do estado, para isso, contará com a ajuda de Marv (quem é que não queria um amigo desses?), e talvez, do único homem a quem amou na vida.
Claro que, quem assiste Sin City esperando alguma seriedade precisa de tratamento médico. O longa é uma grande brincadeira, uma piada machista e machona travestida de "film noir", um mundo onde grandalhões à prova de balas convivem com mulheres fatais dispostas a tudo para se livrarem do estigma de vítimas ou objetos (todas fracassam, porém), e onde mesmo os heróis são moralmente reprováveis em alguma medida. Encarado sob o prisma correto, Sin City é diversão em estado bruto, visual bonito, participações especiais muito bacanas (como as de Christopher Lloyd e Lady Gaga) e até algumas boas atuações (Gordon-Levitt vai bem em seu segmento que, aliás, é facilmente o melhor do filme).
Falando sério... Não se pode esperar mais do que isso de Sin City ou de qualquer obra com envolvimento de Frank Miller.
Assista no cinema se for muito fã de mulheres voluptuosas e homens que sentem mais dor por causa do coração partido do que pela bala entre as costelas, outrossim, espere até sair em DVD.

"Entre na beco certo em Sin City e você encontra de tudo."