Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
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sábado, 14 de fevereiro de 2015
Resenha Cinema: Sniper Americano
Clint Eastwood tem se mostrado um diretor mais prolífico conforme sua idade se torna mais provecta. O diretor octogenário, pela primeira vez em sua carreira, lançou dois filmes no mesmo ano, na verdade, lançou dois filmes com intervalo de seis meses (nos EUA, aqui, o hiato entre Jersey Boys e este Sniper Americano foi um pouco maior).
Esse espaço curto entre os lançamentos, por sinal, só torna o resultado final de Sniper Americano mais admirável.
O longa metragem de Eastwood abre no Iraque, onde o sniper Chris Kyle (Bradley Cooper) observa um pelotão de soldados norte-americanos inspecionando residências.
É a sequência do trailer, quando Kyle percebe que uma mulher e um menino se preparam para atacar a tropa em movimento, dando-lhe uma escolha indigesta.
É nessa fração de segundo, entre decidir o que fazer após receber dos supervisores a instrução de que a escolha de atirar ou não é sua, que o longa volta no tempo.
Após um episódio envolvendo o irmão mais novo de Chris no recreio da escola, o pai dos dois à mesa de jantar, divide o mundo entre "ovelhas", "lobos" e "cães pastores", deixando claro como uma cinta em cima da mesa qual tipo espera que seus filhos sejam.
Anos mais tarde, os irmãos Kyle levam uma vida sem propósito, trabalhando como ajudantes de fazenda e tentando se tornar estrelas do rodeio.
É após ouvir a notícia dos ataques à embaixadas norte-americanas na África que Chris percebe que sua vocação de cão pastor pode ser aplicada nas Forças Armadas. É durante seu treinamento para se tornar um navy SEAL que ele conhece Taya (Sienna Miller), se apaixona por ela, e é pouco antes de se casarem que acontecem os atentados de 11 de setembro de 2001, que culminam em seu envio ao Iraque.
Lá, Chris e a audiência percebem que, escolhas difíceis estão em cada esquina, e que a decisão consciente de ser um "protetor", é repleta de percalços, e tem um custo que não é pouco elevado.
A abordagem tradicional de Clint Eastwood, um dos diretores norte-americanos com melhor mão pra violência (Clint e David Cronemberg, que são totalmente diferentes, parecem os únicos sujeitos capazes de entender que a violência é parte da natureza humana, e a tratam como tal, sem grandes arroubos nem enfeites), ajuda Sniper Americano a dar seu recado.
Chris Kyle não teria sido o atirador mais mortífero da história das forças armadas dos EUA (com mais de 160 mortes confirmadas) se não entendesse e abraçasse sua missão. Em American Sniper a violência existe, tem peso, propósito e significado, mas não recebe confetes nem lamúria. Clint e o roteirista Jason Dean Hall não demonizam nem celebram a guerra, mas sabem que ela existe, e a tratam assim: Como algo que existe e, bom ou ruim, com a qual é necessário lidar.
Essa visão amortecida do conflito funciona porque Bradley Cooper, no que talvez seja a melhor atuação de sua carreira, parece perceber a guerra como algo plenamente justificável, e abraça a causa de proteger "o melhor país do mundo" com o coração que apenas um caipira crédulo teria.
Acertando a mão no sotaque do Texas, no físico parrudo, forte e gorducho, e na forma de interpretar o personagem, se equilibrando entre o ingênuo e o intenso, e sua certeza inabalável na justiça de sua missão jamais soam como um bravado vazio, mas sim como uma característica pessoal inalienável e além do julgamento de quem está de fora.
Sienna Miller é outra que acerta a mão em seu retrato de Kaya Kyle.
A atriz inglesa que já havia estado muito bem, obrigado em sua breve participação em Foxcatcher, tem em Sniper Americano mais espaço (aliás, bacana ver Eastwood mostrar o outro lado de um de seus heróis que não conseguem se conectar com a família), e é hábil em sua interpretação para não permitir que a personagem se torne apenas uma daquelas esposas sofridas que choramingam que só querem o marido de volta. Taya entende que o homem por quem ela se apaixonou é quem é, e negar-lhe sua vocação e valores, seria negar a ele próprio.
Com um grande elenco, uma história abordada de maneira corretíssima, Clint Eastwood acerta a mão, e faz um dos melhores filmes sobre as guerras norte-americanas no oriente médio.
"Eu estou ansioso para encontrar meu Criador e responder por cada tiro que eu disparei."
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
Quadrinhos: Demolidor 6
Malditas sejam as distribuidoras, demorei uma barbaridade pra encontrar o sexto número de Demolidor nas bancas aqui em Porto Alegre (Eu amo esta cidade, mas ás vezes me irrita o fato de ela ter todos os problemas de uma metrópole e todas as mazelas de uma cidade do interior), cheguei a imaginar, angustiado, que a Panini havia parado de publicar a compilação trimestral.
Por sorte, ontem passei em uma comic shop mais ajeitadinha, e encontrei o sexto número do gibi do Demo dando sopa na prateleira.
Conforme já deixei claro nas outras cinco reviews da série, Demolidor é o melhor quadrinho em série sendo publicado no Brasil.
Sério.
As histórias medianas da série são boas, e as boas são ótimas.
Mark Waid tira de letra a tarefa de fazer quadrinhos à moda antiga, quando bastava contar uma boa história por mês e não existia a necessidade de se fazer um mega evento para chacoalhar a realidade dos personagens duas vezes por ano.
Não pense, porém, que isso significa que as histórias são paradas ou aborrecidas. Nem de longe. Encaixando uma trama na outra em forma de pequenos arcos, Waid (e sua competente turma de desenhistas) seguem mostrando a dura rotina de um advogado/vigilante cego cuja vida parece sempre destinada a piorar mas que, na visão do roteirista, ao contrário de outros tempos, não se deixa abater por isso.
Reunindo as edições de Daredevil de 31 a 36, o volume que conta com arte de Chris Samnee, Javier Rodriguez, Jasin Copland e Alvaro Lopez começa com o Demolidor ainda enredado com a hospitalização de Foggy Nelson, hospitalizado lutando contra um câncer, soterrado em trabalho no escritório onde conta com a ajuda da ex-quase-namorada Kirsten McDuffie, como se isso não fosse o suficiente, os Filhos da Serpente, o grupo supremacista branco que se enveredou pelos mais diversos ramos de Nova York, começa a usar os talentos do vilão Polichinelo para espalhar mensagens de ódio racial através da mídia, literalmente envenenando a cidade.
Após pesquisar sobre o grupo, Matt descobre que a organização criminosa tem raízes místicas, o que leva seu caminho a se cruzar com o de Stephen Strange, o Doutor Estranho, mago supremo da terra, e fazer uma viagem ao interior onde seu caminho se cruza com a Legião dos Monstros.
Não bastasse tudo isso, Matt se torna alvo de chantagem, e, disposto a tudo para manter sua consciência tranquila, e limpar as serpentes do sistema jurídico de Nova York, dá um passo em direção à uma decisão que poderá mudar para sempre a sua vida, e a vida de Foggy, à medida em que coloca o escritório Nelson e Murdock na mira da Ordem dos Advogados de Nova York.
Só posso dizer que Mark Waid deveria ser clonado e assumir todos os títulos de super-heróis da Marvel.
Eu não leio Homem-Aranha desde antes do evento Ilha-Aranha, e me dói confessar que eu não sinto falta alguma.
Demolidor atrasa por um mês e eu praticamente tenho urticária.
Por R$18,90, 132 páginas de quadrinhos de primeiríssima qualidade com capa cartão e papel WTC no miolo. Praticamente dado de presente.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Homem-Aranha Se Junta aos Marvel Studios
Pois é, nerdalhada, a Sony e os estúdios Marvel fecharam acordo e o Homem-Aranha, agora vai aparecer nos filmes do universo cinematográfico da editora junto com Thor, Capitão-América e Homem-de-Ferro.
A Sony e a Marvel confirmaram o trato que levará o cabeça de teia à sua nova velha casa e que já teve grande impacto na Marvel, que tratou de alterar as datas de quatro dos seus lançamentos para os próximos três anos (Thor - Ragnarok, saiu de 28 de julho de 2017 para 3 de novembro, Pantera Negra saiu de 3 de novembro de 2017 para 6 de julho de 2018, Capitã Marvel foi de 2 de novembro de 2018 para para 6 de julho de 2018 e Inumanos, originalmente marcado para 2 de novembro de 2018 agora será lançado em 12 de julho de 2019.
Essa dança das cadeiras deve-se ao fato de que a Marvel e a Sony unirão forças para lançar um novo longa do Homem-Aranha em 28 de julho de 2017.
O longa será produzido por Kevin Feige, da Marvel, e Amy Pascal, que recentemente se demitiu de seu cargo na Sony, além de Matt Tolmach e Avi Arad, produtores dos cinco filmes anteriores da franquia.
Antes de ter seu próprio filme, no entanto, o cabeça de teia deverá aparecer em um longa da Marvel, o candidato mais forte é Capitão-América - Guerra civil no ano que vem, já que, no quadrinho que que servirá de base ao filme, o Homem-Aranha é disputado feito uma vadia por Homem de Ferro e Capitão-América, virando casaca durante o conflito entre os dois Vingadores em lados opostos de uma lei de registro de super-humanos.
Embora a Marvel possa usar o teioso em seus filmes, a marca permanecerá pertencendo à SONY, que terá a prerrogativa de financiar e distribuir os filmes do teioso além de manter a palavra final sobre a parte criativa do personagem.
Como a resposta aos dois O Espetacular Homem-Aranha foi considerada morna pela Sony, é provável que Andrew Garfield, Mark Webb e todos os demais envolvidos sejam desligados do universo aracnídeo.
É uma pena, além de perdermos o melhor PeterParker/Homem-Aranha fora dos quadrinhos em todos os tempos, ainda teremos que ver mais uma origem do cabeça de teia nos cinemas, e um re-reboot.
Eu entendo que a Marvel queira o Homem-Aranha nos Vingadores.
O escalador de paredes é o herói mais famoso e popular da editora há anos (embora pareça que a própria Marvel esqueça disso ao achincalhar o personagem de todas as formas nos gibis), tão querido pelo público que a Marvel coloca ele em todo o lugar, Vingadores, Quarteto Fantástico e até nos X-Men (mesmo sem ser mutante), logo, é perfeitamente lógico que o estúdio da editora queira usar o personagem em seus filmes. Os próprios atores falavam a respeito, Chris Hemsworth o Thor do cinema, já havia dito que seus favoritos para se juntar aos Vingadores eram Wolverine e Homem-Aranha.
Agora a Marvel conseguiu isso, que ótimo.
Mas será que precisamos, mesmo, ver mais uma origem do Aranha no cinema?
Precisamos ver mais um adolescente excluído ser picado por uma aranha especial e deixar seu tio morrer por ser irresponsável?
Por que a Marvel não aproveita que já existe uma história em andamento de onde esses percalços já foram removidos e segue o baile com Garfield no papel principal?
Ao invés de um adolescente na escola, um jovem adulto na faculdade, tendo que equilibrar estudos, trabalho e perrengue financeiro com a vida de super-herói, e, mais que isso, de Vingador?
O Espetacular Homem-Aranha e O Espetacular Homem-Aranha 2 podem não ter sido excelentes, mas acertaram a mão com seu personagem principal.
Eu espero, francamente, que a Marvel não coloque tudo isso à perder.
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sábado, 7 de fevereiro de 2015
Resenha Cinema: Corações de Ferro
Eu preciso confessar que não sou, nem de longe, um grande fã do cinema de David Ayer. O roteirista/diretor de filmes Os Reis da Rua, Marcados para Morrer e Sabotagem nunca me impressionou com suas histórias policiais urbanas onde, a bem da verdade, os personagens mais ou menos parecem sempre os mesmos, transitando pela faixa cinza entre o bem e o mal, eventualmente mais perto do branco, eventualmente mais perto do preto.
Prova da falta de mão de Ayer pra construção de personagens é que seu trabalho de maior visibilidade e prestígio é justamente aquele que ele não dirigiu (Dia de Treinamento), e assim que sentou na cadeira do diretor, se mostrou um cineasta com boa mão para construir sequências claustrofóbicas e tensas e, meio que foi só.
Ao assistir esse Corações de Ferro, o fiz com baixas expectativas, e muito mais por conta do que parecia um bom elenco e por curiosidade de ver Ayer trabalhar fora do seu ambiente natural de tiras urbanos do que esperando um grande filme de Segunda Guerra Mundial (um conflito que, diga-se de passagem, gerou muitos GRANDES filmes).
No longa conhecemos o tanque de guerra Fury, um Sherman norte-americano tripulado por cinco homens:
Sargento Don "Wardaddy" Collier (Brad Pitt), o canhoneiro Boyd (Bíblia) Swan (Shia LaBeuf), o motorista Trini (Gordo) Garcia (Michael Peña) e o mecânico caipira Grady (Bunda de guaxinim) Travis.
A este grupo de veteranos que luta junto desde a África, cortando a Europa Alemanha adentro rumo a Berlim, junta-se, após uma baixa, o novato Norman Ellison (Logan Lehrman), um fedelho de 18 anos treinado para ser datilógrafo que jamais disparou uma arma, nunca esteve em combate e sequer viu um tanque por dentro.
É abril de 1945, e os Aliados fazem sua derradeira investida rumo à capital alemã e o fim da guerra, entretanto, cada cidade tomada é a última resistência de uma tropa nazista, e muitas delas não estão dispostas a vender barato sua base.
Com as provisões, munições e até mesmo as tropas rareando, os soldados de Hitler passam a convocar mulheres e crianças aos esforços de guerra, tornando o conflito ainda mais traiçoeiro.
É à esta realidade suja e brutal que Norman precisa se adaptar para merecer o respeito de seus companheiros descrentes, compreender a dura doutrina do sargento Collier, e tentar sobreviver aos dias finais do conflito.
Não é ruim. Realmente não é ruim.
Corações de Ferro se abraça com força ao bravado macho dos games de tiro em primeira pessoa como Call of Duty e Battlefield para contar sua história sobre homens absolutamente distintos que, no calor da guerra se tornam amigos e irmãos, e isso não é um defeito.
Pra melhorar, Ayer consegue criar sequências de tensão genuínas (o que não é nenhuma surpresa, dado seu histórico), e ocupa de maneira esperta o claustrofóbico interior do tanque, lar de seus anti-heróis.
Além disso, o diretor não economiza no gore, e enche a tela com homens em chamas, desmembramentos, decapitações e corpos explodindo e sendo esmagados.
Infelizmente, parece que em sua ânsia por criar um filme brutal e sujo, que se equiparasse em termos de visual a O Resgate do Soldado Ryan (a inspiração na sequência da invasão à Normandia é flagrante), Ayer, mais uma vez, esqueceu de preencher seus personagens com alguma coisa além de arquétipos e frases de efeito.
Se Pitt, mostrando-se um astro maduro e seguro, se vira bem com seu "Wardaddy" Collier, nem todo mundo tem o tempo de tela do ex-Apache Rayne (infinitamente superior), e ainda que o elenco se esforce, os personagens simplesmente não têm estofo pra justificar uma eventual preocupação da audiência com eles.
LaBeuff e Lehrman inclusive se esforçam e fazem o possível, e mesmo Bernthal e Peña têm seus momentos, ainda assim, é óbvia a falta de mão de Ayer pra dirigir atores e seu desleixo com relação ao elemento humano. Ainda bem que o diretor consegue equilibrar seu texto raso e sua mão pesada pra dirigir sequências sem pancadaria com uma divertida batalha final repleta de pirotecnia e sangue que encerra o longa de maneira digna.
No fim das contas, entre (pilhas de) mortos e feridos, salvam-se o esforçado elenco, a esmerada produção, e as boas sequências de ação. Ayer segue devendo um ótimo filme, mas ao menos entrega seu primeiro filme bom.
Com baixas expectativas até vale a visita ao cinema.
"Ideais são pacíficos. História é violenta."
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Resenha Cinema: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Após ver o filme, fica fácil entender porque foi que Birdman se tornou sensação nos festivais desde seu lançamento.
O longa metragem de Alejandro Gonzales Iñarritu (de Amores Brutos, 21 Gramas e Babel) é quase que um passo a passo na cartilha das premiações, com todos os elementos que agradam à crítica especializada. Um grande elenco na ponta dos cascos, um ótimo trabalho de edição e fotografia, e uma sátira à Hollywood dos blockbusters devorando a verdadeira tarefa dos atores em uma história repleta de metalinguagem que flutua entre o drama e a comédia.
Ah, sim. A história:
Riggan Thomson (Michael Keaton), é um ator veterano que, cerca de vinte anos atrás, viveu um icônico papel de super-herói em uma bem sucedida trilogia cinematográfica, o Birdman do titulo.
Agora decadente e semi-esquecido, Thomson resolve arriscar tudo em uma última tentativa de voltar a ser relevante, mas pelas razões certas. Ele escreve, dirige e estrela uma peça baseada em um romance de Raymond Carver que está prestes a fazer sua estréia na Broadway.
O que, por si só, já seria um desafio, só se torna mais complicado à medida em que Riggan não precisa lidar apenas com a pressão de construir o espetáculo, financiá-lo, lidar com o elenco, com a ex-esposa Sylvia(Any Ryan) e a filha/assistente Sam (Emma Stone), mas também manter sob controle a emplumada voz interior que expõe de maneira incessante seus medos mais profundos.
Conforme a grande estréia se aproxima, e os desastres começam a se empilhar uns sobre os outros na forma de uma mudança de elenco de última hora que termina com a entrada do virtuoso e arrogante Mike Shiner (Edward Norton) no time, e a ameaça da crítica do New York Times Tabitha Jenkins (Lindsay Duncan) de destruir a peça antes mesmo de ela começar, Riggan começa a duvidar de sua capacidade de levar o projeto adiante.
Muito do que funciona em Birdman, na verdade contradiz o subtítulo. Se o espectador é ignorante à carreira de Michael Keaton e à má fama de Edward Norton entre diretores e produtores, muito da graça de assistir aos dois atores simplesmente se perde.
Da mesma forma, toda a piada a respeito do domínio dos filmes de quadrinhos no cinema requer algum conhecimento, outrossim, boa parte do filme deixa de fazer sentido... O que ignorância alguma consegue ocultar, no entanto, é a excelência do trabalho do elenco.
Michael Keaton cai dentro de Riggan Thomson, e faz o que se espera quando um ator ganha o maior papel de sua carreira em mais de duas décadas, entrega sua melhor performance em anos.
Edward Norton é outro que tira de letra. Sua atuação é equilibrada o bastante para garantir que seu Mike Shiner seja arrogante o suficiente pra manter a audiência com um pé atrás com ele, mas honesto o suficiente para manter-se um personagem atraente e engraçado. Emma Stone também está ótima, e sua Sam Thomson é uma magnética mistura de rebeldia e candura adolescente.
Se destaca ainda Zach Galifianakis, surpreendentemente contido no papel do agente e produtor de Thomson, Jake, enquanto Andrea Risenborough e Naomie Watts têm pouco com o que trabalhar e não conseguem, em seus papéis pequenos, o mesmo impacto de Amy Ryan, que manda muito bem mesmo com a participação reduzida.
Com uma montagem esperta de Douglas Crise e Stephen Mirrione, trabalhando sobre o genial trabalho de câmera do cinematógrafo Emmanuel Lubezki, emulando um filme sem cortes (embora, em alguns momentos, fique claro onde está a "emenda"), mais uma trilha sonora quase opressiva (e por vezes excessiva) de Antonio Sanchez, é fácil sacar porque Birdman caiu no gosto da crítica, já que, pela primeira vez em sua carreira, Iñarritu parece estar se divertindo com o que faz.
Ainda assim, a dramédia do mexicano não chega, de fato, a empolgar, talvez porque o roteiro, do próprio Iñarritu mais Alexander Dinelares com a colaboração de Nicolás Giacobone e Armando Bo, é excessivamente pretensioso e auto-indulgente.
Sem nenhum pudor o filme separa arte maior de arte menor, esculhamba o cinemão-pipoca, demoniza os críticos e se coloca num pedestal, do tipo, o povo gosta de lixo, de ser "viral", "eles são produtos, isto é arte"... Com tanta antipatia, acaba ficando difícil abraçar os personagens e sua jornada, o que é uma pena, pois Michael Keaton e Riggan Thomson mereciam tal interesse.
"As pessoas, elas adoram sangue. Elas adoram ação. Não essa depressiva falação filosófica de merda."
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
Resenha Cinema: A Teoria de Tudo
Já disse antes, neste mesmo espaço, que as cinebiografias são searas difíceis de se trilhar. Os envolvidos em levar à telona a história de vida de uma pessoa real que muitas vezes é um ícone ou um ídolo é caminhar em terreno perigoso, especialmente se o biografado for uma personalidade que continua viva, e se a biografia em questão tiver momentos que possam ser, digamos, constrangedores, para o biografado e seus entes queridos.
Com tudo isso em consideração, podemos dizer que A Teoria de Tudo, filme de James Marsh (O Equilibrista), escrito por Anthony McCarten (A Morte do Super-Herói) a partir do livro de Jane Hawking Viagem ao Infinito - Minha Vida com Stephen, era uma passeio por um terreno pedregoso.
A missão de contar a vida do mais aclamado astrofísico do mundo a partir do ponto de vista de sua primeira esposa poderia, então, ser bastante complexa à medida em que um diretor e um roteirista podem se ver melindrados e colocar o biografado em um pedestal, até por que provavelmente ninguém quer partir pra ignorância e arrasar uma pessoa que está viva pra ver o filme e até ajudou na produção... Talvez isso explique a maneira convencional, quase chapa branca, com que a história é contada.
A história, claro, conta como o jovem Stephen Hawking (Eddie Redmayne), então com 21 anos graduando-se em Cambridge, conhece Jane (Felicity Jones), estudante de arte procurando um PhD em poesia medieval ibérica.
A doce "boy meets girl" que se desenha enquanto os dois estão se conhecendo é estremecida quando Stephen, após uma sequência de pequenos acidentes que culmina com um tombo feio no pátio da universidade, recebe o diagnóstico da Doença do Neurônio Motor, também chamada de Doença de Lou Gherig, uma condição que mina a coordenação motora da vítima, eventualmente acabando com todos os movimentos controlados do corpo.
Ao receber a notícia de que sua expectativa de vida é de apenas dois anos, Hawking tenta se afastar, mas Jane não permite.
Eventualmente os dois se casam e formam uma família enquanto a doença de Stephen avança e ele segue reescrevendo tudo o que se sabia a respeito de astrofísica até então.
Entretanto, enquanto o corpo de Stephen Hawking se atrofia cada vez mais, e sua mente avança rumo às profundezas do universo em seus estudos e teoremas, Jane, que também tinha aspirações acadêmicas e profissionais, tem que lidar com a carga de cuidar de uma família que, a despeito da vontade de seu marido, não era normal.
É quando surge Jonathan (Charlie Cox), jovem viúvo que comanda o coral da igreja local, e, aos poucos, adentra o seio familiar dos Hawking, tocando o coração de Jane, que, a despeito de sua obrigação para com Stephen, tem seus desejos e anseios.
A sugestão de triângulo amoroso (o filme sugere mas não confirma que haveria um consentimento tácito de Stephen em relação ao afeto de Jane para com Jonathan) é estremecida quando Hawking contrai pneumonia durante uma viagem à França, necessita de uma traqueostomia, e perde a capacidade de fala, ganhando, à seguir, o sintetizador de voz eletrônica que, eventualmente, se tornaria sua marca-registrada.
O filme aborda com tato e bom-gosto os percalços da vida do casal, que culminaria com um divórcio em 1995, mas talvez o faça com tanta deferência que, se não fosse pelo trabalho do casal protagonista, seria quase estéril em termos de emoção.
Felicity Jones se esforça para dar conteúdo e carga emocional à uma Jane que aparece muito mais como uma contrita e religiosa mãe de família sofrida do que como uma pessoa de verdade, com anseios e aspirações próprias, ainda assim, quando ela lida com a doença de Stephen, e quando Jonathan entra, e depois sai de sua vida, ela tem ferramentas com que trabalhar, e trabalha muito bem.
Eddie Redmayne está ótimo. O ator habituado a papéis secundários e filmes menores abocanha com vontade o papel de sua vida, e em nenhum momento parece que mordeu mais do que pode mastigar.
Seu Stephen Hawking, jovem e em perfeitas condições físicas é um gênio crível e atraente à seu modo. Conforme a doença avança, ele gradativamente vai abrindo mão das suas expressões faciais e movimentos normais, e mesmo retratando de maneira dolorosamente perfeita as limitações impostas pela doença, jamais deixa de exibir um espectro de emoções amplo e tocante.
A cena em que ele e Jane percebem que seu casamento chegou ao fim, onde as lágrimas escorrem por seu rosto paralisado, é lindíssima, e atuada à perfeição.
Ainda que o respeito e o bom gosto tenham levado o roteirista e o diretor a seguir a cartilha, e olhar sua história de maneira algo distante, Jones, e especialmente Redmayne sucederam em emprestar alma e coração à notável jornada dos personagens reais. E se por vezes o filme falha em fazer e responder algumas perguntas que inevitavelmente ficam na cabeça da plateia, a verdadeira história de superação de Stephen e Jane dão o lastro de que o filme precisa para ser realmente emocionante.
Assista no cinema.
"Não deveria haver limites à capacidade humana. Nós somos todos diferentes. Mesmo que a vida pareça má, sempre há algo que você pode fazer, e ser bem sucedido. Enquanto há vida, há esperança.""
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
Resenha Cinema: Whiplash: Em Busca da Perfeição
Ainda ontem estava pichando o trailer do novo Quarteto Fantástico nesse mesmo espaço, achincalhando em especial, o elenco, encabeçado por Miles Teller, que viverá Reed Richards no reboot.
Pois algumas horas mais tarde, tive a oportunidade de ver Miles Teller no que, pra mim, é o melhor filme do ano até o momento, este Whiplash: Em Busca da Perfeição, do jovem (e quase estreante na direção) Damien Chazelle, que tinha a direção de um único longa metragem no currículo.
Na trama de Whiplash, conhecemos o jovem Andrew Neimann (Teller), um dedicado e talentoso baterista de 19 anos que cursa o prestigioso conservatório musical de Schaffer, em Nova York.
Lá, Andrew é o baterista reserva da Banda Nassau, quando é chamado para participar da Banda de jazz Studio, turma do temido e respeitado professor Terence Fletcher (J. K. Simmons, um capítulo à parte), um regente implacável que não tem o menor pudor em vilipendiar, humilhar e até mesmo esbofetear seus músicos na sua busca por perfeição e sua absoluta intolerância a qualquer tipo de erro.
Enquanto ensaia e pratica de maneira obstinada para alcançar o nível de excelência proposto por Fletcher, Andrew, cego pela ambição de se tornar grande, deixa sua vida pessoal degringolar.
Assim que recebe o convite para a Studio, ele começa a sair com a bela Nicole (Melissa Benoist, de Glee), a moça que atende na bomboniére do cinema que ele frequenta periodicamente com seu pai, Jim (Paul Reiser, muito bem), mas a rotina de ensaios extenuantes sob a tutela cruel de Fletcher logo começam a afastá-lo de todos que ama, ao mesmo tempo em que ele sua e sangra sobre a bateria conforme seus esforços seguem insuficientes para agradar ao professor.
Tremendo filme.
Há muito mais em Whiplash do que "J. Jonah Jameson atormenta Reed Richards", o longa, escrito pelo próprio Chazelle (que, como roteirista, tem no currículo coisas como O Último Exorcismo Parte 2 e Toque de Mestre) e rodado em apenas 19 dias é uma genial obra sobre a relação entre professor e aluno transformada em um thriller sobre até onde alguém está disposto a se violentar em busca de sucesso, e até onde alguém está disposto a brutalizar outros de modo a empurrá-los na direção correta.
Miles Teller está ótimo no papel principal. Seu retrato de Andrew Neiman consegue equilibrar a insegurança e a apreensão de um quase adolescente criado pelo pai amoroso e a fagulha de confiança que o prodígio não lapidado que conhece o caminho que deseja trilhar necessariamente deveria mostrar.
E J. K. Simmons?
Simmons está monstruoso. Seu personagem, repleto de armadilhas que poderia facilmente se tornar um pastiche, uma mistura de Dr. House e Sargento Foley com professor Holland é interpretado com tanto acuro que, por mais abusivo e vilanesco que Fletcher eventualmente seja, nós não podemos negar o fundamento de seu discurso.
Em um mundo onde reprovar um aluno é considerado errado porque "expô-lo ao fracasso" pode ser "traumático" não é difícil partilhar a apreensão do músico com a possibilidade de deixar passar o "próximo Charlie Parker" porque não o impulsionou o suficiente, e sua máxima de que não existem duas palavras mais nocivas do que "bom trabalho".
Não bastasse o argumento bem sacado, as excelentes atuações, a boa fotografia (de Sharone Meir) e a brilhante edição (de Tom Cross), Whiplash ainda tem fôlego pra se encaminhar para um final feliz água com açúcar e, de repente, virar tudo rumo a um final tenso de deixar os músculos da barriga contraídos, numa performance espetacular dos dois atores e de seus personagens.
Bravo!
"Você estava correndo ou atrasando? Se você deliberadamente sabotar a minha banda, eu te fodo feito um porco. Oh, meu Deus... Você é uma dessas pessoas de lágrima solitária? Você é um veadinho inútil que agora está chorando e babando em cima da minha bateria feito uma menininha de nove anos de idade."
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