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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A Primeira Imagem Oficial de Cable

Ryan Reynolds e Josh Brolin revelaram as primeiras imagens oficiais de Cable, o mutante viajante do tempo que será a principal adição do segundo longa de Deadpool, o mercenário tagarela.
Veja abaixo o ator com o olho e o braço biônicos tradicionais do personagem que, nos quadrinhos, é o filho de Scott Summers, o Ciclope, e de Jean Grey, a Fênix, que volta do futuro e cuja presença na sequência já havia sido revelada por Reynolds na cena pós-créditos do primeiro Deadpool:


Eu achei que ficou bem legal, embora não possa deixar de imaginar se Keira Knightley não ficaria melhor no papel.
Deadpool 2 estréia em 1° de junho de 2018 e terá as voltas de Reynolds, Morena Bacarin, T. J. Miller, Karan Soni, Brianna Hildebrand e Stefan Kapicic, se juntarão a eles Zazie Beetz, interpretando a mutante Dominó e Brolin no papel de Cable. O longa será dirigido por David Leitch e roteiro de Drew Goddard.

Resenha DVD: Power Rangers


Quando eu passo pela locadora e apanho um filme como Power Rangers, eu me sento para assistir à película me esforçando o melhor que posso para fazê-lo tendo consciência de que eu não sou o público alvo que os produtores, roteiristas e diretor tinham em mente quando bolaram o longa em questão.
Foi o que fiz ontem, quando, no meio da tarde, resolvi matar duas horas assistindo um filme que gritava censura dez anos já pelo simples fato de ser um remake de um super sentai japonês transformado em série infantil norte-americana que ocupava as manhãs da Globo antes de a vênus platinada resolver que crianças não valiam quatro horas de programação e que era mais rentável transformar a Fátima Bernardes em palhaça.
Eu nunca fui fã de Power Rangers. Os únicos Super Sentai que acompanhei na vida foi o saudoso Changeman (eu era o change grifo nas brincadeiras. Não porque gostasse de me vestir de preto, mas porque grifos eram minha besta mitológica favorita aos sete anos) e o CyberCop, os policiais do futuro, eventualmente o Google Five (nada a ver com o mecanismo de busca, nem existia internet à época), e o Flashman, mas esses bem menos do que os dois primeiros, que assistia com avidez de fã.
Power Rangers, por sua vez, chegou ao Brasil em uma época em que eu estava no começo da adolescência, e de repente futebol e gurias eram mais atraentes para mim do que séries de TV, filmes e mesmo quadrinhos, de modo que os protetores de Alameda dos Anjos não significavam nada pra mim nem quando ganharam um longa metragem mais parrudo do que os episódios diários na TV Colosso em meados de 95, e não me levaram ao cinema quando chegaram aqui em março desse ano em sua nova roupagem.
Power Rangers abre com uma batalha tomando curso na era cenozoica. Em meio a dinossauros e pteranodontes, o ranger vermelho Zordon (Bryan Cranston) faz um último e desesperado esforço para derrotar a renegada Ranger verde, Rita (Elizabeth Banks), lançando um asteróide contra a Terra. Antes do impacto, porém, ele guarda os amuletos que geram a transformação dos Rangers, ordenando que eles encontrem os mais valorosos quando a hora chegar.
Corta para o presente.
O jovem Jason Scott (Dacre Montgomery) quarterback do time de futebol da escola que é um delinquente juvenil nas horas de folga, fazendo coisas como amarrar um boi ao vestiário do time de futebol, os Bulls, sendo descoberto pela polícia, se acidentando, e no processo perdendo sua vaga no time, e as potenciais bolsas de estudo universitário que elas ofereceriam, além de se machucar e ser condenado à prisão domiciliar e detenção escolar no processo.
É na detenção que Jason conhece Billy Cranston (RJ Cyler), um jovem com uma forma leve de autismo que sofre bullying de um colega mala e vê em Jason um novo amigo em potencial. Ainda na detenção está a popular Kimberly Hart (Naomi Scott), (uma líder de torcida ou membro da equipe de saltos, francamente, eu não lembro) que está lá por ter divulgado fotos íntimas de uma colega.
Quando Bily promete hackear a tornozeleira eletrônica de Jason em troca de companhia na exploração da pedreira adjacente à mina de ouro local, Jason aceita, e acaba esbarrando com Kimberly, que gosta de nadar num rio próximo à noite.
Ainda no local, estão o garoto-problema Zack Taylor (Ludi Lin), que gosta de matar aula e acampar em trens abandonados e a garota problemática Trini (Becky G), que apenas curte o isolamento.
Quando Billy causa uma explosão num paredão rochoso, revelando cinco moedas ancestrais enterradas por Zordon há 65 milhões de anos, os cinco adolescentes logo percebem que há algo errado quando, após um desastroso acidente de carro, acordam no dia seguinte sem nenhum ferimento, com força sobre-humana, e agilidades ímpar.
Decididos a descobrir a causa da mutação, eles retornam à mina e descobrem uma nave estelar enterrada há milhões de anos. Lá eles conhecem o robô Alpha 5 (dublado por Bill Hader) e Zordon, cuja consciência foi assimilada pelo sistema da espaço-nave mantendo-o parcialmente vivo, mas confinado à máquina.
O antigo Ranger vermelho explica aos jovens que eles foram escolhidos para se tornarem os novos Power Rangers, e enfrentar a ameaça de Rita Repulsa, que
planeja utilizar uma antiga abominação chamada Goldar para alcançar um cristal de poder que gera a vida na Terra. Goldar se alimentará dos cristal, e Rita herdará o universo para reinar como desejar.
A única coisa capaz de impedir a vilã de conquistar tudo é que os Ranger aprendam a dominar os poderes que os amuletos lhes trouxeram e detenham Rita.
Mas estarão esses cinco jovens problemáticos à altura do desafio?
Serão eles capazes de proteger a Terra quando eles não conseguem nem mesmo resolver os próprios dramas adolescentes?
Seria muito fácil eu simplesmente começar a pichar Power Rangers sem dó nem piedade dizendo o tamanho da bomba que o filme é, mas a verdade é que Power Rangers não é um filme ruim.
Ao menos, não de todo.
Talvez o maior problema do longa seja a irregularidade, o que não chega a ser surpreendente haja vista que o roteiro do longa conta com cinco créditos (John Gatins, Matt Sazama, Burk Sharpless, Michelle e Kieran Mulroney) fora o dos dois criadores do conceito (Haim Saban e Shuki Levy). O resultado final é que Power Rangers soa como dois ou três filmes costurados em um único longa, e o que deveria ser o produto principal, o longa de super-herói, é o menos interessante.
O segmento com os renegados se encontrando, com a maior cara de Clube dos Cinco, é provavelmente o mais bacana. Os atores são carismáticos, em especial RJ Cyler, que consegue ser o elemento que mantém o grupo unido e o alívio cômico sem perder a dignidade, mas o personagem de Ludi Lin, que tem uma mãe doente com quem conversa em mandarim também tem seu potencial, enquanto a Trini de Becky G se destaca por, à certa altura do longa, revelar que é lésbica, o que seria motivo para parabenizar Power Rangers por ter a primeira heroína assumidamente homossexual do cinema, se a revelação não viesse em um átimo no meio de uma conversa repleta de revelações.
Quando esses párias sociais começam a explorar seus poderes, Power Rangers flerta com o ótimo Poder Sem Limites, e é pena que seja tão breve porque a história precisa avançar para os bonecos de massa, e os Zords e as armaduras, e o fan-service e o merchandising... Porque quando tudo isso acontece, Power Rangers se dilui e chega perto de ser aquela bomba que eu poderia pichar sem dó nem piedade.
Chega perto, mas não se torna.
Talvez porque o longa de Dan Israelite tenha duas qualidades que normalmente me fazem simpatizar com um filme:
Primeiro, ele não se leva demasiado a sério. Durante suas duas horas e pouco de duração o longa está sempre ciente do seu absurdo, do ridículo inerente ao esquadrão super sentai tentando pegar carona na onda dos filmes de super-heróis em geral, de super-grupos em particular. E com isso ele mantém algum frescor, uma ponta de dignidade irônica para manter a cabeça fora d'água. Segundo, o filme é honesto.
Power Rangers de fato acredita na mensagem que alardeia, de que a união faz a força. E quando o longa acredita tão vigorosamente na ideia em seu cerne, fica difícil fazer troça dele. Porque a despeito de todos os seus exageros, ele jamais se torna um exercício vazio de estilo.
Não quero dizer com isso que Power Rangers é um bom filme. Ele não é.
Ao menos, não pra mim. Ou pra maioria das pessoas com faixa etária superior aos doze anos.
Mas ele é franco. É honesto. Tem caminhadas em câmera lenta de heróis em armaduras coloridas, robôs dinossauro que se acoplam para formar um enorme guerreiro mecânico, um Walter White holográfico na parede de uma espaçonave que manda uma molecada matar a Rita sem o menor pudor, e uma sequência de ação final cheia de exageros ao redor de uma loja de rosquinhas do que, eu suponho, seja uma grande rede de lojas de rosquinhas americana, a Krispi Kreme... Mas jamais é pedante, jamais é sorumbático ou falsamente cool.
Não é pra todas as audiências, mas se tu tem doze anos ou menos, ou filhos com essa idade, talvez Power Rangers possa ser um bom programa em família.
Mal, eu tenho certeza que não vai fazer.

"-É hora de morfar."

Resenha Série: Game of Thrones, Temporada 7, Episódio 4: The Spoils of War


Atenção para os apoilers!
A sétima temporada de Game of Thrones chegou à metade, e gurizada, dói dizer isso quando a temporada está boa como está.
O quarto episódio nos trouxe voltas pra casa, a aproximação entre dois protagonistas e uma das melhores batalhas da série, quase chegando ao ponto de rivalizar com Durolar, dois anos atrás.
Cersei Lannister, a senhora dos sete reinos está bastante segura de sua posição, enquanto negociava o pagamento de seus débitos ao Banco de Ferro de Braavos com o saque a Jardim de Cima, a rainha já estava planejando seu próximo passo na ideia de contratar a Companhia Dourada. Eu não me lembro se a companhia já foi mencionada na série, mas nos livros eles são consideradas uma das melhores e mais caras companhias mercenárias do mundo, e decantada por jamais ter quebrado um contrato (embora em O Festim dos Corvos, o tenha feito...). Se eles de fato aparecerem na série, devem oferecer um upgrade ao espetáculo das batalhas, já que suas fileiras contam com soldados, cavaleiros e elefantes de guerra.
Enquanto Cersei tramava a melhor forma de ferrar Daenerys em seu próximo movimento, um outro jogador do lado do mal fazia o seu.
Em Winterfell Petyr Baelish ofereceu a Bran o punhal que fora usado em sua tentativa de assassinato logo após sua queda da torre na primeira temporada. O Mindinho continua em Winterfell atirando pra todos os lados em seu plano de se sentar no Trono de Ferro custe o que custar, é óbvio que ele está tramando alguma coisa, e sua lealdade não vale um tostão, então resta aguardar pra ver se o ex-Mestre da Moeda de Robert Baratheon vai jogar Sansa contra o resto dos Stark, ou se o resto dos Stark é que irão jogar Sansa contra o Mindinho.
Especialmente porque, após seu encontro com Nymeria, Arya resolveu tomar o rumo do Norte, e voltou pra casa. Todos os filhos vivos de Ned e Catelyn Stark estão em Winterfell após seis temporadas de ausência.
A caçula da família retornou ao antigo pago em grande estilo. Após colocar dois guardas de portão (dois dos piores guardas de portão que eu já vi, diga-se de passagem) em seus devidos lugares, a jovem foi à cripta da família para prestar seus respeitos ao pai e se reencontrou com a irmã mais velha. Não chegou a ser tocante como o reencontro de Jon e Sansa em Castelo Negro no ano passado, mas francamente, eu já me acostumei com a ideia de que o único reencontro capaz de empatar ou superar aquele, seria o de Jon com Arya, já que os dois sempre foram os mais próximos entre os filhos de Ned.
Não foi apenas dando um nó em dois guardas meia-boca que Arya demonstrou quem é, agora. Em uma sessão de treinamento com Brienne de Tarth, a jovem loba demonstrou a real extensão de suas habilidades de combate, algo do qual podíamos apenas suspeitar até aqui.
O reencontro também serviu pra nos mostrar que Bran, de fato, deixou de ser Bran, e agora é o Corvo de Três Olhos em tempo integral, conforme sua breve despedida com Meera Reed deixou claro. O jovem aleijado morreu na caverna, e em seu lugar sobrou apenas o vidente verde que é capaz de ver tudo e de deixar todo mundo desconfortável.
Falando em desconforto, Sansa também não pareceu particularmente confortável em ver que Arya agora é uma combatente letal, capaz de vencer Brienne em combate singular, e em saber que a lista de nomes da irmã é verdadeira. Resta saber se foi apenas uma breve surpresa pela revelação ou se Sansa está começando a ficar enciumada por, dos Stark sobreviventes, ser a única sem uma super nova habilidade pra mostrar.
Quer dizer... Bran se tornou a wikipédia de Westeros, capaz de acessar todo o conhecimento do continente ao mesmo tempo, Arya se tornou uma exímia lutadora e assassina, e até Jon, que foi quem menos mudou, se tornou um líder militar capaz de unir selvagens e nortistas e ser aclamado rei do Norte... Resta torcer para que não seja inveja, o que poderia ser uma porta de entrada e tanto para as minhocas que Mindinho parece ávido por plantar na cabeça ruiva da Lady Stark.
O rei do Norte, por sinal, deu mais um passo em direção à confiança, e quiçá, da afeição de Daenerys.
O jovem rei levou a mãe dos dragões à uma caverna sob Pedra do Dragão para mostrar a ela a reserva de obsidiana e, também, uma série de pinturas nas paredes rochosas mostrando que os Filhos da Floresta e os Primeiros Homens lutaram lado a lado contra os Andarilhos Brancos.
É difícil não perceber que a relação entre Jon e Daenerys se encaminha para um flerte descarado. Até sor Davos falou a respeito, fazendo piada a respeito de Jon olhar para os peitos de Dany, e eu francamente não sei se a série seria capaz de apostar numa relação que seria de tia e sobrinho na cara de pau ao estilo Jorge Amado.
Claro, nós sabemos que, em se tratando de incesto, Westeros é bem mais liberal do que nós, e entre os Targaryen os casamentos consanguíneos eram encorajados a ponto de, nos livros, Daenerys admitir que achava que se casaria com o irmão, Vyseris, antes de ser vendida a Drogo, mas eu realmente não sei se o seriado seguiria esse caminho.
Daenerys, aliás, parece tão inclinada a gostar de Jon, agora, que lhe pediu conselho sobre como agir a seguir, e, aparentemente, o aceitou.
Ao mesmo tempo, aceitou o conselho da falecida Olenna Tyrell, e resolveu ser um dragão.
Dany, porém, não o fez como seu pai, Aegon teria feito. Ela não foi derreter castelos, mas sim atacar a caravana de Jaime e Bronn após o ataque a Jardim de Cima.
Primeiro com uma horda dothraki, depois montada em Drogon mandando drakaris pra tudo quanto era lado enquanto transformava o batalhão de Jaime em torradas.
Uma coisa particularmente interessante a respeito dessa batalha é que não havia, necessariamente, vilões em nenhum dos lados. Ainda que Daenerys seja, assumidamente, uma das heroínas de GoT, do outro lado estavam Jaime e Bronn, dois personagens com quem a audiência se importa. Jaime, apesar de seu comportamento por vezes desprezível no início da série, foi um personagem que cresceu na afeição da audiência conforme seu arco se desenrolou, a ponto de causar estranhamento por estar ao lado de Cersei na hora da guerra. Bronn, por sua vez, sempre foi um vagabundo de quem podíamos gostar. Um sujeito duro e ganancioso, mas não perverso.Pra aumentar a divisão no coração da audiência, antes de a pancadaria começar eles ainda dividiram uma cena que apenas serviu para relembrar ao espectador porque nós gostamos de ambos.
Então foi uma emoção conflitante ver que eles estavam do lado errado de um enorme dragão cuspidor de fogo, pois eu, particularmente, não queria que nenhum dos dois morresse, e muito menos acharia crível que eles matassem Drogon com a tal balestra de Qyburn, a Escorpião, logo na primeira tentativa.
De toda a sorte, há formas piores de morrer, e, apesar de Jaime, aparentemente ter sobrevivido à batalha, não sei se o mesmo pode ser dito de Bronn que, por sinal, merecia Jardim de Cima depois do desempenho na luta.
Agora resta saber como o povo verá Daenerys após o massacre com fogo e bárbaros estrangeiros que ela protagonizou essa semana. A jovem tem se mostrado mais e mais impaciente, chegando a acusar Tyrion de se preocupar demais com sua família após as derrotas sucessivas que a estratégia do Duende acarretaram (e ele de fato pareceu bastante abalado ao ver o exército Lannister sendo queimado vivo e particularmente preocupado com o irmão mais velho quando o regicida começou a cavalgar para a morte certa). Será que a vitória de Daenerys na batalha da Campina lhe custará o apoio popular e a fará ser temida como a Filha do Rei Louco?
Vamos esperar pra ver.
Ainda temos quatro episódios pela frente, e se eles forem ao menos tão bons quanto os quatro primeiros, estaremos, sem sombra de dúvida, diante da melhor temporada de Game fo Thrones desde o começo da série.

"-Eu estou em guerra. Eu estou perdendo. O que você acha que eu devo fazer?
-Eu nunca pensei que dragões voltariam a existir. Ninguém pensou. As pessoas que a seguem sabem que vocês fez algo impossível acontecer. Talvez isso as ajude a pensar que você pode fazer outras coisas impossíveis acontecerem. Construir um mundo diferente da merda que sempre conheceram. Mas se os usar para derreter castelos e queimar cidades, você não é diferente. É apenas mais do mesmo."

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Resenha Cinema: Planeta dos Macacos: A Guerra


Toda a vez que eu assisto a um filme da franquia Planeta dos Macacos que se iniciou com Planeta dos Macacos: A Origem em 2011, eu sou relembrado de o quão boa é essa série. Não deixa de ser uma injustiça que, nos em média três anos entre um filme e outro, eu me esqueça disso.
Tanto que ao assistir Planeta dos Macacos: O Confronto em 2014, foi semanas após a estréia do longa, o que fez eu me perguntar por que havia demorado tanto para conferir o filme, um erro que me propus a não repetir com A Guerra, terceiro longa da trilogia que estreou ontem no Brasil.
Desde o primeiro filme, dirigido por Rupert Wyatt e estrelado por James Franco seis anos atrás, Caesar vem traçando um caminho tortuoso direto até o panteão dos maiores heróis do cinema, um feito nada desprezível para o macaco interpretado com maestria pelo papa da captura de performance Andy Serkis, e o terceiro segmento da série é o último degrau para esse panteão.
Em Planeta dos Macacos: A Guerra, os eventos do longa anterior levaram a humanidade a entrar em conflito aberto contra os macacos conforme Caesar previra após seu embate contra Koba (Toby Kebbell).
Quando o filme começa, nós sabemos que a guerra tem se desenrolado por algum tempo, e um grupo de soldados avança mata adentro à procura dos macacos de Caesar que, à essa altura, já adquiriram status de mito, pois fica bastante claro que os humanos não estão vencendo esse confronto e os macacos andam a passos largos para substituir a humanidade no comando do planeta. A luta de Caesar, porém, não é por supremacia, mas por sobrevivência. Ele deseja apenas que os macacos tenham onde ficar e viver com sua esposa Cornelia (Judy Greer), e seus filhos Olhos Azuis (Max Lloyd-Jones) e Cornelius (Devlyn Dalton), mas é constantemente arrastado de volta à luta por uma espécie humana tão ignorante quanto assustada.
Caesar acredita que a situação possam mudar quando Olhos Azuis e Rocket (Terry Notary) voltam de uma expedição avisando que encontraram um lugar isolado onde os humens não serão capazes de encontrá-los e os macacos poderão viver em paz. As coisas, porém, não são tão simples na vida de Caesar. Especialmente após o surgimento do Coronel (Woody Harrelson), um militar carismático que no comando da companhia Alfa Ômega gerou um culto quase religioso ao redor de si próprio e está disposto a manter a raça humana como a espécie dominante do planeta não importa a que custo. Quando os caminhos de Caesar e do Coronel se cruzam com consequências trágicas, o líder dos macacos se vê descobrindo a mais humana das emoções: o ódio.
E é movido pelo ódio e pelo desejo de vingança que Caesar parte para a retribuição sem perceber que está se lançando em um caminho sombrio que pode não ter volta.
Em sua jornada, ele é acompanhado por Rocket, pelo orangotango Maurice (Karin Konoval) e pelo gorila Luca (Michael Adamthwaite). No caminho, juntam-se a eles a menina muda Nova (Amiah Miller) e o chimpanzé Macaco Mau (Steve Zahn) rumando para a derradeira batalha que poderá definir o destino das duas espécies e determinar quem herdará a Terra.
O desenvolvimento de Planeta dos Macacos: A Guerra é surpreendentemente simples para um filme-pipoca, especialmente se levarmos em consideração o quanto os blockbusters recentes são tão inchados de trama que não conseguem nem se desenvolver a contento.
Matt Reeves, diretor e co-roteirista com Matt Bomback evita que A Guerra partilhe desse problema com uma solução tão brilhante quanto simples: Focar em Caesar.
Nós passamos praticamente todo o tempo ao lado do líder dos macacos, experimentando suas emoções e dúvidas conforme ele e seus companheiros avançam rumo à misteriosa base do Coronel. Enquanto outros filmes teriam feito sua narrativa pererecar do herói para o vilão incessantemente, Reeves e Bomback mantém a lente sobre o macaco, e com a audiência sabendo o que ele sabe, vendo o que ele vê, fica praticamente impossível não se identificar com o protagonista, mesmo que ele seja um chimpanzé.
Além dos acertos narrativos, Planeta dos Macacos: A Guerra, é sensacional por ser um retrato brutalmente apurado de como é a humanidade nos dias de hoje, uma raça ignorante e covarde, que responde ao desconhecido e ao novo com violência e busca por controle. E é espetacular que ainda hoje, quando o cinema é feito para gente incapaz de manter a atenção na tela por duas horas, nós tenhamos uma série de ficção científica capaz de retratar a humanidade através de macacos falantes em filmes que são tão bem construídos quanto este.
Porque Planeta dos Macacos: A Guerra consegue ser inquisitivo e divertido. Consegue equilibrar questões filosóficas sobre o que nos torna humanos, críticas à política norte americana (há menções bastante claras a um louco construindo um muro que não o manterá seguro), ética e maus-tratos a animais, mas o faz sem esquecer de entreter. Há bons momentos de comédia, há drama, e há sequências de ação que, francamente, são mais significativas e pujantes do que qualquer outra que eu tenha visto esse ano porque são o ponto culminante de conflitos bem edificados, e não uma desculpa pra explodir tudo ou lançar um raio azul do céu.
Com um trabalho de elenco acima da média, fotografia brilhante de Michael Seresin, trilha inspirada de Michael Giacchino, roteiro redondinho e direção segura, Planeta dos Macacos: A Guerra encerra a trajetória de Caesar com chave de ouro, de forma memorável, em um filme que é espetacular enquanto o assistimos, e melhora e mostra uma nova camada conforme nos lembramos dele e falamos a respeito.
É bom saber que reboots, sequências e remakes não precisam ser sempre porcarias descartáveis. E que nas mãos certas, qualquer ideia, bem trabalhada, pode render frutos capazes de merecer um espaço na estante e no coração dos amantes de cinema.
A trilogia dos macacos de Caesar está destinada a ser eternizada como uma das melhores trilogias do cinema em todos os tempos, e certamente a melhor do cinema recente.
Assista no cinema. É um dos melhores filmes do ano, fácil.

"-Toda a história da humanidade nos trouxe até esse momento. A ironia é que nós criamos vocês. E a natureza tem nos punido desde então. Essa é nossa última chance. E se nós falharmos... Este será um planeta dos macacos."

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Resenha Série: Game of Thrones, Temporada 7, Episódio 3: The Queen's Justice


Atenção! Há spoilers!
A sétima temporada de Game of Thrones segue em sua marcha acelerada rumo ao oitavo episódio, e o terceiro capítulo do ano foi tão recheado de eventos, tramoias, conversas, reuniões, batalhas e reviravoltas que o reencontro entre dois Stark que não se viam desde a primeira temporada acabou sendo um dos momentos menos significativos da noite.
Bran Stark e Meera Reed (Ellie Kendrick) finalmente cumpriram o longo percurso até Winterfel, mas o reencontro acabou sendo mais frio que o próprio inverno. Bran parece absolutamente desligado do mundo agora que é o Corvo de Três Olhos, e tudo o que o abraço entre Jon e Sansa foi na temporada passada, o abraço entre ela e o caçula não foi na noite passada. Sentado junto ao represeiro branco do bosque sagrado, Bran tentou explicar à irmã como funcionam seus dons, mas talvez o tenha feito de maneira excessivamente insensível, ao deixar claro que viu a irmã sendo estuprada por Ramsey na sua "noite de núpcias".
A ruivona está fazendo um excelente trabalho como líder do Norte na ausência de seu irmão mais velho, mas Mindinho, conforme eu temia após o episódio da semana passada, está ali, buzinando-lhe no ouvido o tempo todo, e eu não posso deixar de temer, considerando o histórico de Sansa, que ela, confrontada com a frieza de Bran e os traumas que ela sofreu e aos quais o jovem Stark trata com tanta frieza, possa acabar se deixando levar pela conversa de Petyr, que ao menos lhe deu uma boa dica ao falar de como aborda seus problemas, imaginando cada cenário possível o tempo todo em qualquer situação, para não ser surpreendido pelo resultado.
Mas não foi o reencontro entre Bran e Sansa que abriu o episódio.
Não, senhor.
Tivemos, antes, o reencontro entre Tyrion e Jon, em Pedra do Dragão, outros dois que não se viam desde a primeira temporada e voltaram a se ver, e, finalmente, o encontro pela qual muita gente ansiava nos últimos sete anos: Jon Snow e Daenerys Targaryen.
A mãe dos dragões e o bastardo do norte dividiram a tela e não foi por um flash como poderia ter acontecido em uma temporada anterior. Os dois estiveram juntos por um bom tempo e em mais de uma cena para deleite da audiência.
Eu gosto da Daenerys e à essa altura já estou convencido de que ela é a melhor e mais interessada pessoa para reger os sete reinos, ainda assim, não posso dizer que não vibrei com o fato de Jon Snow não ter dobrado o joelho diante da khaleesi.
O jogo de ponto e contra-ponto entre Dany, Missandei e Tyrion e Jon e Davos foi um dos momentos mais bacanas da temporada até aqui, com ambos os lados deixando claro que tanto Jon quanto Daenerys são pessoas que se ergueram às suas novas posições através de esforço e luta, e o fizeram, não em nome de interesse próprio, mas para proteger os indefesos e que o rei do Norte é tão merecedor de seu título quanto Daenerys é (da maioria) dos seus (e aqui abro mais um parentese para aplaudir o sor Davos Seaworth de Liam Cunningham, que não deixou os arautos de Dany saírem por cima no confronto de status e feitos).
Nenhum ponto ficou descoberto, nenhum dos dois deu sequer um passo atrás, e ainda assim, não chegaram a hostilizar um ao outro (o que foi bom, já que são dois dos poucos mocinhos ainda vivos em Westeros).
A teimosia da rainha dragão e do rei lobo, por sinal, levou a um dos pontos altos do episódio, pra mim. Uma participação maior e mais ativa de Tyrion Lannister.
Nos momentos mais chatos de Game of Thrones, nominalmente a temporada 4, Peter Dinklage meio que carregou o programa nas costas em diversos momentos, algo que ficou impraticável após ele deixar Porto Real e outras linhas narrativas ganharem corpo. Eu achei o ator subaproveitado nas últimas duas temporadas, e foi bom vê-lo voltar a ter um papel de destaque fazendo o meio campo entre Dany e Jon, e garantindo que o bastardo pudesse extrair a obsidiana que Sam revelou existir sob Pedra do Dragão.
Sam, por sinal, apareceu em uma breve cena com meistre Marwyn e sor Jorah, totalmente curado da escamagris graças ao tratamento que o aspirante a meistre realizou clandestinamente. Agora saudável, Jorah pode reassumir seu lugar ao lado da khaleesi e se tornar, novamente, o senhor da friendzone, enquanto Sam cresceu aos olhos do arqui-meistre e foi premiado não sendo punido por seu audacioso movimento.
Punição, aliás, foi o que não faltou em The Queen's Justice. Euron Greyjoy curtiu um raro momento de adoração em Porto Real, chegando à capital de Westeros com três presentões para Cersei Lannister: Yara Greyjoy, Ellaria e sua filha, Tyene Sand (Rosabell Laurenti Sellers).
Todos nós já vimos o quanto Cersei pode ser cruel ao longo dos últimos sete anos. Cersei é tão vaca que conseguiu transformar sexo oral em uma forma de maldade (nos livros ela assume que preferia fazer sexo oral em Robert para poder devorar os herdeiros do rei, uma declaração que eu não me lembro se chegou à TV), imagine se ela não encontraria uma forma absolutamente tenebrosa de devolver a perda de Myrcella à Ellaria com todos os juros e correção monetária que sua mente psicopata poderia imaginar?
Aqui, porém, cabe um novo parentese, essa pode ser a primeira vingança de Cersei que é totalmente justificada, afinal de contas, Myrcella, ao contrário de Joffrey, era uma criança inocente e indefesa, e foi uma tremenda sacanagem Ellaria matá-la da maneira que fez. Óbvio, a forma que Cersei encontrou de retribuir foi consideravelmente mais cruel, ainda assim, esse é um daqueles momentos em que quase podíamos entendê-la e até simpatizar com ela.
Ao menos até ela se sentir tão extasiada por ter tocado o horror em Ellaria que saiu correndo para dar pro irmão e até deixou que a criadagem da Fortaleza Vermelha visse Jaime em sua cama.
Jaime, aliás, é outro personagem por quem andamos tendo sentimentos conflitantes nessa temporada tamanha a quantidade de camadas que ele vem desenvolvendo desde que deixou de ser apenas o escroto com cara de príncipe encantado do Shrek.
Foi legal ver que as provocações de Euron na sala do trono o afetaram, e também que, no desfecho do episódio, quando aconteciam simultaneamente os ataques dos Imaculados à Rochedo Casterly, com uma estratégia criada por Tyrion, e o ataque de Jaime à Jardim de Cima, usando uma estratégia que Jaime aprendeu com Robb Stark (apesar da desvantagem inicial, Cersei, Jaime e Euron estão dando um banho em Dany, Tyrion e Varys, o placar agora está em 2 x 0 fora o baile), foi o regicida quem resolveu apresentar misericórdia à Olenna Tyrell.
A cena com o Lannister e a última Tyrell viva, por sinal foi muito boa. Enquanto ele escolhia o caminho magnânimo, oferecendo uma morte rápida e indolor à Olenna, ela meteu o pé na garganta dele ao assumir a autoria pela morte agonizante que Joffrey sofreu nas suas bodas. Resta saber se Jaime vai contar isso à Cersei, já que a rainha culpa Tyrion pelo assassinato, e Jaime parecia ainda nutrir afeto pelo irmão...
Estamos chegando à metade da temporada de Game of Thrones e o placar da guerra começa a favorecer Cersei de maneira bastante clara à essa altura. Com os esforços de Daenerys e companhia sendo sistematicamente arruinados e a lista de aliados da rainha dos dragões diminuindo rapidamente a necessidade que ela tem de que Jon Snow se una à sua causa começa a ficar tão desesperadora quanto a necessidade que ele tem de dragões em seu fronte contra o Rei da Noite.
A cada semana os episódios parecem mais curtos.
É esse o nível de excelência da atual temporada.

"-Você está na presença de Daenerys nascida da tormenta, da Casa Targaryen, legítima herdeira do trono de ferro, rainha legítima dos ândalos e dos primeiros-homens, protetora dos sete reinos, a mãe de dragões, a khaleesi do grande mar de grama, a não queimada, a quebradora de correntes.
-Este é Jon Snow. ... Ele é rei do Norte."

sábado, 29 de julho de 2017

Resenha Cinema: Dunkirk


Christopher Nolan é um diretor que polariza opiniões. Mesmo entre a nerdalhada, geralmente referida como o público cativo que endeusa o cineasta britânico, ele não é essa unanimidade toda, e já vi até fãs do Batman picharem sua interpretação do homem-morcego com um pé na realidade. Gosto, já dizia aquela velha que comia ranho, é muito pessoal, e eu me enquadro entre o público nerd que, se não endeusa Nolan, certamente o respeita e reverencia pelo cinema de qualidade que produz, seja na trilogia das trevas, seja em filmes como Amnésia, Interestelar e O Grande Truque.
O cinema de Christopher Nolan pode não ser perfeito, mas fala comigo enquanto audiência de cinema, e eu jamais deixei uma sala de cinema após assistir um filme de Christopher Nolan sentindo que meu tempo fora desperdiçado ou que eu fora enganado.
Muito antes pelo contrário.
É por isso que eu assisto aos filmes de Nolan no cinema, e ontem, com um dia de atraso, fui assistir a Dunkirk, longa que relata um episódio pouco referido da Segunda Guerra Mundial, a Operação Dynamo, quando o fronte francês sucumbiu ao avanço alemão no final de maio de 1940, e quase quatrocentos mil soldados ingleses ficaram presos na cidade portuária de Dunquerque (como chamamos em português), no norte da França, onde as instalações portuárias permitiam uma evacuação marítima.
Com a força aliada presa entre uma divisão de tanques panzer alemães e o mar, onde os submarinos U-Boat nazistas patrulhavam as águas, e aviões da Luftwaffe sobre a cabeça, a única esperança de voltar para a Inglaterra era uma evacuação milagrosa que o próprio alto-comando inglês considerava impossível, tanto que dos 400 mil homens em Dunquerque, o esperado era resgatar de 30 a 45 mil.
no longa escrito e dirigido por Nolan nós acompanhamos esse resgate através dos olhos de três grupos distintos de personagens, o do soldado Tommy (Fionn Whitehead), que vê todo o seu pelotão ser baleado nas ruas de Dunquerque e mal consegue chegar à praia onde o comandante Bolton (Kenneth Brannagh) e o coronel Winnant (James D'Arcy) organizam a evacuação que se torna cada vez mais complexa; o do civil Dawson (Mark Rylance) que com seu filho Peter (Tom Glynn-Carney) e o jovem George (Barry Keoghan) resolve pegar seu iate de lazer, o Moonstone, e tomar parte nos esforços de resgate, e do piloto Ferrier (Tom Hardy), um dos aviadores da RAF designados para combater os nazistas no céu para tentar impedir a destruição dos navios.
O longa não perde tempo. Após cartões informativos nos darem a ideia geral da situação, já somos jogados atrás de Tommy e no meio da ação literalmente no primeiro minuto de Dunkirk, o enxuto longa de uma hora e quarenta e seis minutos não está interessado em situar o espectador, pelo contrário, o esforço parece ser feito exatamente para que a audiência experimente a confusão e o pavor dos personagens na tela, e o cardápio de confusão e pavor é generoso. Seja a presença das metralhadoras nazistas, dos aviões, dos submarinos, seja o medo de espaços confinados, de se afogar, de altura... Está tudo lá, e Nolan e o cinematógrafo Hoyte Van Hoytema parecem engajados em fazer com que seja tudo o mais vívido e angustiante possível para mostrar a experiência ao espectador pelos olhos dos personagens.
Talvez por isso a maioria dos personagens não tenha nome (Eu só descobri que o personagem de Fionn Whitehead se chamava Tommy ao ver o cast no IMDB, a mesma coisa com o Alex vivido pelo One Direction Harry Styles ou o "soldado trêmulo" interpretado por Cillian Murphy), para que eles se tornem avatares de quem assiste ao filme e nós sintamos na pele o terror que eles sentem a cada nova presepada. Mesmo os diálogos, geralmente uma queixa nos filmes de Nolan que apostam na exposição verbal de tudo o tempo inteiro, são econômicos em Dunkirk, quase sovinas.
Há sequências inteiras de vários e vários minutos sem diálogos audíveis, e tomadas longas onde coisas acontecem simultaneamente e nós nos pegamos escolhendo onde focar enquanto as pessoas na tela lutam por suas vidas num exercício de individualidade que se sobrepõe aos indivíduos sem background ou nome na tela.
Se tudo isso te faz pensar que Dunkirk é um daqueles filmes emocionalmente estéreis que são quase como um passeio no zoológico, não se apoquente. Não é o caso.
Nem teria como ser em um longa que retrata um esforço civil de resgate de soldados através do Canal da Mancha que resultou na formação da mais audaciosa frota não-militar do Século XX, especialmente com um elenco cascudo como o que temos aqui.
Mark Rylance é ótimo como o senhor Dawson, com uma estranha mistura de fleuma e candura em sua pétrea resolução de ir até Dunquerque de qualquer forma ajudar no resgate, Cillian Murphy e seu "soldado trêmulo" são o retrato de um trauma e seu arco dramático é particularmente tocante junto com Tom Glynn-Carney e Barry Keoghan, Kenneth Brannagh mantém a boa média e Tom Hardy impressiona ao passar praticamente o filme inteiro de máscara e, com os olhos, mostrar mais do que muitos atores conseguem mostrar com o corpo inteiro (experiência prévia com o Bane, talvez).
Claro que Dunkirk tem seus problemas, a trilha sonora de Hans Zimmer, por exemplo, é ótima, mas por vezes parece algo invasiva, o anonimato intencional de diversos personagens pode não funcionar para todas as audiências, e a estrutura narrativa do longa, dividida em três segmentos, um deles iniciado uma semana antes da evacuação, o outro um dia antes e o terceiro uma hora antes, pode atrapalhar os mais desatentos (a galerinha pra quem a vida não existe fora da rede social e que não tira a fuça do telefone), mas ainda que tenha resultado em pequenas licenças poéticas do longa que, pra justificar o timing de certas sequências se sustenta numa percepção algo relativa do tempo, se sustenta quando as três culminam em um desfecho simultâneo que sozinho já valeria um ingresso.
E Dunkirk inteiro vale a ida ao cinema.
É um épico de guerra sem grandes arroubos, sem sequências de batalha como as de Até o Último Homem ou O Resgate do Soldado Ryan, mas tem sua própria voz, seu próprio ritmo, e conta uma história que merece ser contada, mesmo dramatizada.
Um dos melhores do ano. Assista no cinema.

"-E se esse for o preço pra voltar pra casa?
-Eu vou viver com isso, mas é errado."

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Resenha Série: Game of Thrones, Temporada 7, Episódio 2: Stormborn


Atenção! Há spoilers!
Após seis temporadas, Game of Thrones chegou a um ponto onde nós podemos ver, com resultados agridoces, que o programa está se preparando para o seu encerramento. A sétima temporada, com oito episódios ao invés dos dez habituais, tem sido mais concisa do que as anteriores, e se não está correndo, e não está, também não está nem um pouco interessada em encher linguiça de forma alguma. As coisas têm acontecido em ritmo acelerado, e o episódio de ontem, Stormborn, fechou 25% da temporada num episódio que foi praticamente inteiro destinado a preparar terreno para encontros que queremos ver, e mostrar encontros que não estávamos tão interessados em ver, mas precisavam ser vistos, como a reunião onde Daenerys e sua equipe de conspiradores tramavam a melhor forma de tomar os sete reinos, ou ao menos os três reinos que Cersei tem consigo.
Se o núcleo e Dorne segue sendo o mais chato da série (a culpa, eu suponho, seja do Oberyn Martell de Pedro Pascal, que tinha um carisma simplesmente inalcançável por qualquer outro personagem do reino sulista), ver Ellaria Sand (Indira Varma) à mesa junto com Daenerys, Tyrion, Varys, Olenna, Yara (Gemma Whelan) e Theon Greyjoy (Alfie Allen) certamente deixa as coisas menos xaropes para os membros da casa Martell (apesar de, na verdade, nenhum deles ser Martell de fato, já que Ellaria era uma concubina e as Víboras da Areia são todas bastardas de sobrenome Sand, mas não deixem eu me ater a pormenores literários).
Muito do falatório estratégico do time de conselheiros de Daenerys serviu para mostrar à audiência que Dany teria um caminho incrivelmente fácil a seguir com sua conquista. Jogar hordas de dothrakis e tropas de Imaculados nas casas nobres leais à Cersei, incendiar Porto Real com seus dragões, sentar no Trono de Ferro e reconstruir a porra toda, mas Daenerys não é assim.
Se uma coisa ficou cristalinamente clara ao longo dos últimos seis anos (e foi reforçada pelo diálogo entre Daenerys e Varys que abriu o episódio) foi que a rainha-dragão se preocupa em demasia com o povo para submeter cidades inteiras aos horrores da guerra aberta; é por isso que os planos de Tyrion e Varys são de sitiar Porto Real com tropas westerosis e vencer Cersei e aqueles leais à ela pelo cansaço.
O plano não chega a impressionar Olenna Tyrell, que sugere a Daenerys que seja um dragão e pare de agir como uma ovelha.
Podemos pensar que Olenna tem razão, mas não podemos dizer que a série está criando novos obstáculos para Daenerys de maneira gratuita. Sua personalidade vem sendo moldada há seis anos, e ela definitivamente luta para ser melhor do que seu irmão ou seu pai. Logo, sua decisão de se negar a simplesmente incendiar Porto Real como o Rei Louco teria feito, é plenamente condizente para com a nobreza que a personagem vem cultivando.
Outro personagem que cultiva nobreza há seis temporadas, mas, sejamos honestos, geralmente o faz de maneira mais proativa, é Jon Snow.
O bastardo coroado rei do Norte e senhor de Winterfel segue sendo o norte moral de Game of Thrones ainda mais do que a mãe dos dragões nascida da tormenta, e a despeito de sua ascensão social após matar Ramsey Bolton, a missão de Jon segue sendo apenas uma:
Impedir que a Grande Noite recaia sobre Westeros.
Assim sendo, quando ele recebe um convite de Tyrion para conhecer Daenerys em Pedra do Dragão, e quase imediatamente após isso recebe o aviso de Sam de que Pedra do Dragão está sentada sobre um imenso bloco de Vidro de Dragão, uma das armas capazes de matar tanto os Caminhantes Brancos quanto os Outros, ele imediatamente aceita o convite, apesar dos protestos de seus súditos das casas setentrionais e de Sansa.
Foi bacana ver que a relação de confiança entre Jon e a irmã está amadurecendo, fato que fica comprovado ao vê-lo deixando Winterfel, e o Norte inteiro, nas mãos da ruivona. Sansa pediu para ser ouvida no episódio anterior, e ser feita senhora na ausência do irmão mostra o tamanho da confiança que ele deposita nela.
Se Sansa, de fato, está se tornando a ponte entre a inteligência de malfeitores como Petyr e Cersei e a nobreza e bravura dos Stark, descobriremos no período em que ela estará sozinha à mercê do Mindinho enquanto Jon viaja para o sul.
Jon e Mindinho, por sinal, tiveram uma bela sequência na cripta de Winterfel, com Jon repetindo o gesto de Ned Stark, que na primeira temporada prensou Baelish na parede e o esganou. Torçamos para que o bastardo não tenha o mesmo destino do pai/tio e acabe morto com a cabeça espetada em uma lança.
Falando em lanças, também tivemos uma breve visita a Porto Real, com Cersei reunindo as casas que seguem leais à sua coroa. É estranho ver Jaime do lado errado dos conflitos após termos tido uma espécie de redenção pro personagem no período em que ele andou com Brienne. É difícil, quando se tem noção do caminho que o personagem toma nos livros, não vê-lo como um corpo estranho entre os aliados de Cersei, ainda assim, isso serve para manter o esquema um pouco mais coerente com o padrão de Game of Thrones, onde, ao menos no início, nenhum personagem era totalmente bom, ou mal. Com Jaime ao lado de Cersei, ao menos o entourage da rainha não fica absolutamente desprezível, com figuras como ela própria e meistre Qyburn (Anton Lesser), o sujeito desenvolvendo balestras de grande potência, capazes de perfurar o crânio dos dragões de Daenerys.
Entrando no assunto de meistres, por sinal, Sam segue sua rotina em Vila Velha, aprendendo tudo o que pode na Cidadela, inclusive coisas que, talvez, ainda não devesse aprender.
Pesquisando por conta própria na biblioteca, ele descobre uma forma de tentar salvar sor Jorah (Iain Glenn) da escamagris que se espalha por todo o corpo do súdito mais devotado da khaleesi.
Aqui, é importante registrar que dá gosto de ver Sam tendo sua curiosidade recompensada. É bom ver que podemos ter um reflexo de Qyburn do lado dos mocinhos na forma de Sam, um sujeito que não está com medo de tentar dar um passo além do conhecimento convencional dos meistres em nome do bem. E fica cada vez mais claro que Jorah pode ser a chave para reunir Sam e Jon, talvez em Pedra do Dragão, onde o exilado Mormont pode tentar se reunir à Daenerys, mesmo que o preço para isso seja Sam deixar de estar atolado em bosta para se atolar em pus.
Enquanto esses reencontros não acontecem, tivemos Arya em, não um, mas dois reencontros, um, por sinal, pela qual vários membros da audiência ansiavam.
Se o reencontro dela com Torta Quente (Ben Hawkey), o garoto padeiro a quem ela conheceu em seus dias de Arry, o menino a caminho da Muralha serviu para oferecer a ela a informação de que Jon está vivo e é agora o Senhor de Winterfel.
Essa informação aparentemente foi capaz de soprar algum calor na frieza da jovem Stark (que relembrou, casualmente, que até andava fazendo algumas tortas ela própria), e, talvez, colocá-la na estrada para o norte, e não para o sul, não sabemos com certeza, até, porque, o segundo reencontro de Arya, com Nymeria, sua loba, solta nas Terras Fluviais após um chilique de Joffrey, ainda na primeira temporada, pareceu ter um efeito contrário na sua decisão prévia...
Enquanto Lady, a loba de Sansa foi sacrificada, Nymeria foi expulsa por Arya para não sofrer o mesmo destino, e Arya a encontrou reinando soberana em uma alcateia que assola a região. Ao tentar se aproximar da loba gigante, porém, a fera a rejeita, e dá-lhe as costas, fazendo com que Arya experimente algum tipo de epifania.
Não fica claro para nós se não ser reconhecida por Nymeria fez Arya se decidir em seguir seu caminho rumo a Porto Real, abrindo mão de vez de sua identidade como Stark em nome da vingança, ou a fez perceber que já não é mais quem costumava ser e precisa ir pra casa para reencontrar sua família e a si mesma.
Ainda que a narrativa não deixe isso claro, o simples fato de lançar tais dúvidas sobre nós, já mostra o quão tocante foi a sequência.
Falando em sequências tocantes, a cena de amor entre Missandei e Verme Cinzento foi bastante bonita, e nos deu a chance apreciar novamente a nudez de Nathalie Emmanuel, que além de talentosa é uma das mulheres mais bonitas na TV.
Pra fechar o capítulo, uma grande cena de ação, o confronto entre as frotas de ferro de Yara e Euron Greyjoy. Euron, conforme eu havia suspeitado, vai se juntar a Cersei como o personagem a ser odiado em Game of Thrones na temporada seis. Ao contrário do Rei da Noite, que é uma criatura maléfica, seres humanos desprezíveis como Joffrey, Ramsey e Cersei são mais fáceis de odiar, e Euron parece estar se esforçando para chegar ao rol dos outros citados.
O grande presente prometido por ele no capítulo anterior, aparentemente era Ellaria, a mulher que matou Myrcella, e, nesse caso, podemos esperar uma morte lenta e dolorosa para a dornesa nos episódios vindouros, afinal, como nós descobrimos através da septã Unella, Cersei Lannister não é de esquecer as afrontas contra si.
Com Danenerys em Westeros a guerra é iminente, e Cersei não está brincando e pretende descontar de todas as formas possíveis sua aparente desvantagem. Uma hora de TV de qualidade, tão enxuta que ao final do capítulo nós nos pegamos pensando "Mas já?!!".
Será outra semana longa até domingo.

"-Eu não vim até aqui para ser a rainha das cinzas."