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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Resenha Série: Punho de Ferro, Temporada 2, Episódio 1: The Fury of Iron Fist


Punho de Ferro, eu mantenho, foi uma série Marvel/Netflix injustiçada.
E não. Não quero dizer que achei boa.
Apenas que primeira leva de aventuras de Danny Rand não foi pior do que a primeira temporada de Jessica Jones, por exemplo, e ficou pouco abaixo da primeira temporada de Luke Cage. O grande problema de Punho de Ferro foi não ter a qualidade de Justiceiro ou Demolidor, e nem as muletas de inclusão de Luke e Jessica.
E com isso, eu não quero dizer que seja contra inclusão. De forma alguma. Inclusive gostei bastante da primeira temporada de Luke Cage (uma série que, em diversas ocasiões foi carregada nas costas por uma coadjuvante, a exemplo de Punho de Ferro), e achei a segunda temporada de Jessica Jones muito superior à primeira (que só era assistível pelo elenco de apoio e especialmente por seu vilão, Kilgrave ótima criação de David Tennant).
O ponto é que, sendo protagonizada por uma bilionário norte-americano loiro de olhos azuis que viajou ao extremo oriente e executou o derradeiro ato de apropriação cultural ao ficar com o poder do Punho de Ferro em detrimento dos nativos de Kun'Lun e depois voltar pra Nova York descalço falando "namastê" pra todo mundo, o seriado começava antipático, e não era ajudado pela trama rocambolesca com cara de novelão entrecortada por decisões questionáveis em termos de coreografia de luta (um ponto central para uma série de kung-fu). Mas eu mantenho que se, a mesmíssima trama, exatamente com o mesmo desenvolvimento e execução, fosse a série do Shang Shi, protagonizada por um ator asiático, o malho da crítica não teria descido tão forte sobre a série.
De toda a sorte, eu estava mais do que disposto a dar uma chance à segunda temporada de Punho de Ferro. A exemplo do que aconteceu com Jessica Jones, eu sabia que era impossível piorar, então, ontem, dei um tempo no Homem-Aranha do PS4, e assisti aos quatro primeiros episódios da temporada.
Danny Rand (Finn Jones) e Colleen Wing (a adorável Jessica Henwick) estão vivendo juntos no antigo dojo da jovem em Chinatown.
Ela abandonou a vida de sensei e agora trabalha voluntariamente em um centro comunitário.
Danny ainda detém 51% das ações da Rand, mas fica fora da empresa, que permanece sob os cuidados de Ward Meachum (Tom Pelphrey), que frequenta os narcóticos anônimos onde mantém uma relação sorrateira com sua madrinha Bethany (Natalie Smith, tornando Punho de Ferro a série Marvel com a maior quantidade de mulheres bonitas da Netflix).
O jovem herdeiro tem um emprego em uma empresa de transportes, aprendendo o valor de um dia de trabalho comum, e à noite, mantém sua promessa a Matt Murdock, de proteger Nova York contra as ameaças rasteiras abaixo do radar de gente como Os Vingadores.
Sua tentativa de equilibrar uma vida comum com o vigilantismo parece estar funcionando, ao menos até uma rixa entre duas facções da tríade, os Tigres Dourados e os Carrascos, ameaçar escalar para uma guerra aberta.
Como se a ameaça de um conflito entre gangues em Chinatown não fosse o suficiente, duas figuras do passado de Danny ressurgem simultaneamente. Joy Meechum (a gatona Jessica Stroup) e Davos (Sacha Dhawan) retornam à cena com agendas em conluio, deixando claro que o futuro do Imortal Punho de Ferro não será tranquilo.
Há, nesse primeiro episódio, um claro esforço do showrunner M. Raven Metzner em tornar Danny mais relacionável ao grande público. Sai o herdeiro arrogante pela fortuna e pelo sucesso no duelo com Shou-Lao, entra um homem humilde que está tentando encontrar um lugar no mundo fazendo o bem. Torná-lo menos ingênuo (ou menos burro, se considerarmos a monumental coleção de idiotices do personagem na primeira temporada e em Os Defensores) ajuda, e transformar sua má atitude em determinação, também.
Isso fica claro em sua conversa com Davos. Ambos têm suas razões. Danny acredita que, em última análise, ir para Nova York o colocou no caminho do Tentáculo e culminou na destruição da organização. O Punho de Ferro cumpriu seu papel. Davos advoga que o Punho de Ferro é o defensor de K'un Lun, e falhou em seu propósito pois a cidade foi devastada ao se ver despida de seu defensor.
Por mais primária que essa argumentação possa parecer, ela é um tremendo avanço comparada ao que tivemos no ano um, e ver que há, ao menos um esforço para dar voz e propósito mesmo aos antagonistas, é um puta alento, assim como tornar os Meachum menos folhetinescos.
No tocante à tramas paralelas, Coleen se envolve em uma missão pessoal após receber um artefato que pode estar ligado à sua família, e ainda há a presença de Alice Eve (outra bonitona) como a gentil Mary Walker, que obviamente tem alguns esqueletos no armário.
A breve amostragem de The Fury of Iron Fist acenas com uma bem-vinda melhora ao programa, esperemos que ela se mantenha nos capítulos vindouros.

"-O dinheiro, o negócio, nada disso me importa agora. Toda a minha atenção está voltada em proteger essa cidade.
-E onde você estava quando nossa cidade precisava ser protegida?"

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Resenha Série: Better Call Saul, Temporada 4, Episódio 5: Quite a Ride


Atenção! Spoilers abaixo!
No episódio dessa semana de Better Call Saul nós fomos brindados, ao mesmo tempo, com o fim de Saul Goodman, e com o que pareceu o maior e mais definitivo passo de Jimmy em sua direção.
Os primeiros cinco minutos do episódio mostraram uma das últimas aparições de Saul em Breaking Bad, quando o advogado, correndo contra o tempo, liquidou seu escritório, juntou todo o seu dinheiro, picou todos os seus registros e fez a derradeira ligação para Robert Foster vir consertar seu aspirador de pó antes de entregar um cartão para Francesca (Tina Parker) com votos de "Diga 'Jimmy me mandou'.".
Foi um começo poderoso de episódio mesmo se o desenrolar de Quite a Ride não tivesse sido tão magistral quanto foi. Ver Jimmy desistir de assistir Doutor Jivago sossegado em casa enquanto Kim trabalhava para fazer uma incursão noturna à vida criminosa de Albuquerque foi simplesmente sensacional.
Ele nem mesmo precisou aplicar um golpe em ninguém para demonstrar o quão profundamente Saul Goodman já está enraizado em si. Ele comprou os telefones de sua loja e os revendeu com uma pequena margem de lucro nas ruas com a promessa de privacidade aos elementos mais rasteiros do submundo usando nada além de sua lábia e destemor.
A perfeição da sequência vai da expressão no rosto de Jimmy quando ele fica aborrecido no sofá de casa até a genuína euforia que ele demonstra enquanto conversa com cada figura estranha no pátio da lanchonete, passando pela forma como ele hesita antes de entrar na nuvem de motoqueiros que faz todo o público do lugar debandar rapidamente.
É um show de Bob Odenkirk, que abraça essa sequência com tudo o que ela demanda, da determinação do empreendedor auto-confiante ao desespero do vigarista em busca de uma dose da sua droga pessoal, o sucesso a qualquer custo.
O desfecho da empreitada não é tão positivo, porém, e literalmente esmurra Jimmy na cara com uma violenta dose de realidade. E o show de Odenkirk continua conforme ele conversa com Kim, dizendo que, nos velhos tempos, ele jamais teria sido assaltado por trombadinhas, que teriam visto nele um sujeito com quem não mexer.
Jimmy sente falta de ser um vigarista. Ele sente falta de ser um sujeito a quem outros criminosos reconhecessem e respeitassem.
E seu discurso a respeito de seus planos para o futuro diante do agente da condicional, é outro grande momento. Onde Jimmy, ao verbalizar sua vontade de voltar a advogar e ser um ótimo advogado ao lado de sua parceira, não parecia estar tentando convencer o oficinal do outro lado da escrivaninha, mas a si próprio.
McGill estava tentando vender a respeitabilidade de seu trabalho a si mesmo. E estava falhando. Agora, parece questão de tempo até Jimmy resolver que quer o melhor dos dois mundos: Ser um advogado e um vigarista ao mesmo tempo.
E apesar do tour de force de Odenkirk, Quite a Ride ainda teve mais.
Kim Wexler parece ter entendido que não pode salvar o seu Jimmy, então tem feito trabalho pro-bono no tribunal defendendo pequenos delinquentes. Ela quer fazer a diferença e parece tão determinada a isso que chega a arriscar seu futuro com o banco Mesa Verde.
Aqui cabe mais um elogio a série. Em um mundo repleto de cartéis de drogas, tiroteios e assassinatos, o emprego de Kim Wexler no banco parece uma tremenda bobagem, ainda assim, a confrontação entre Kim e Paige (Cara Pifko) foi um dos momentos que me deixou mais tenso no episódio. Conseguir fazer isso é um tremendo mérito dos roteiristas, que mantém Kim relevante mesmo que ela não se envolva com a parte mais criminosa da série em nenhum momento (até agora...).
Aliás, Kim está se tornando motivo, tanto de preocupação, quanto de intriga.
Ela realmente está comprando as bobagens que Jimmy lhe diz?
Será que ela acreditou que ele trabalhou das nove da noite até altas horas da madrugada e foi assaltado beeeeem longe da loja? Ou ela acha que ele está lidando com o luto por Chuck à sua maneira e lhe dando espaço pra isso?
É difícil ter certeza.
Quem não está lidando nada bem com a morte de Chuck, por sinal, é Howard. Quando o encontramos no fórum ele parece um mendigo usando um terno caro, e Jimmy sequer se abala ao ver o resultado do que é, em grande arte, sua responsabilidade. Foi ele, afinal, quem deixou Howard se culpar pelo suicídio de Chuck.
E, como cereja do bolo, tivemos Mike.
No final das contas Gus não queria que ele apagasse Nacho no final do último episódio, mas sim que fizesse um trabalho de cicerone sinistro para engenheiros estruturais.
Não acho que eu fosse o único sem nenhuma curiosidade de saber como foi o processo de construção do laboratório subterrâneo de Gus Fring embaixo da lavanderia, mas, mesmo assim, foi um belo easter egg, e deu a Mike algo que fazer no capítulo. Ao mesmo tempo, a cada passo que Better Call Saul dá em direção a Breaking Bad, eu me divido entre alegria e melancolia, pois parece óbvio que, quando as duas séries se encontrarem, eu vou ficar órfão do que é uma das melhores séries da TV, e, ao contrário de vários comentários que vejo nos IMDB da vida, eu passaria anos assistindo as desventuras de Jimmy McGill e postergando o final de Better Call Saul enquanto fosse humanamente possível.

"-Nos velhos tempos eu teria avistado aqueles trombadinhas de longe. E eles saberiam que não deviam mexer comigo.
-É? Como?
-Não sei... Acho que porque... Nos velhos tempos eu era um deles."

Influência


O Luís chegou à academia como fazia todos os dias úteis de sua vida.
Largou a mochila no armário, passou o cadeado, apanhou a toalha que, de tanto usar já estava se esfarrapando, e foi para o aparelho de supino.
Sua rotina de exercícios auto-imposta era bem simples: Num dia peito, ombros e bíceps. No outro, costas, tríceps e abdominais.
Após cerca de uma hora e meia de musculação, ele saía da academia e, ao invés de virar à direita e andar quatro quarteirões até em casa, ele virava à esquerda e percorria algo em torno de três quilômetros pela orla do Guaíba até em casa.
Era uma rotina que ele não mantinha com prazer. Apenas havia conseguido transformar em hábito, o que já considerava uma vitória.
Perdera as contas de quantas vezes no escritório pensara "Hoje eu não vou à academia.", para minutos mais tarde estar de regata e bermuda suando feito um condenado à forca.
Conseguia, descobrira, transformar qualquer coisa em hábito. Por pior que fosse.
Deitou-se no aparelho de supino e fez seus exercícios. Seguiu a ordem de sua série com a tradicional calma e aplicação. Tinha pra si de que se não suava feito um porco e não terminava dolorido, os exercícios não tinham sido bem feitos.
Quando terminou a última sequência de levantamentos, sentia os braços queimando, suor lhe escorria da testa, e sua respiração estava acelerada.
Viu o espelho e, após certificar-se de que ninguém estava olhando, flexionou ligeiramente o braço, forçando o músculo do bíceps e vendo, satisfeito uma veia saltar.
Após cerca de três anos de verdadeira dedicação (mas não obsessão com) à academia, não se tornara uma grande massa de fibras musculares, mas colhera frutos.
Emagrecera treze quilos e trocara o físico do Homer Simpson pelo de Stan Smith, do American Dad. Lhe parecia uma boa troca.
Muitos dos colegas de academia lhe perguntavam dos hábitos alimentares quando as inevitáveis conversas sobre os treinos surgiam no vestiário.
Ele era rápido em assumir que não. Não passava nem perto de fazer dieta. Sequer cuidava da alimentação. Seguia bebendo refrigerante, comendo lanches, pizzas e toda a sorte de bobagens. De modo geral, em grandes quantidades.
Curiosamente, a mesma coisa que o fazia ir à academia puxar ferro até achar que os braços derreteriam o mantinha um glutão.
As palavras de uma guria.
Não qualquer guria. A guria. Assim mesmo, com A maiúsculo.
A guria de sua vida.
Ela lhe dissera em mais de uma ocasião que achava seus braços bonitos mesmo quando ele parecia um boneco da Hora de Aventura com bracinhos de macarrão. Ele ia a academia diariamente pensando que, na próxima vez em que a abraçasse seria legal que fosse com braços que, se não poderiam partir a espinha do Batman, ao menos criassem essa impressão.
Ao mesmo tempo, ele se recusava a comer frango com salada três vezes ao dia porque essa mesma guria, A guria, lhe dissera, e ele lembrava muito bem dela dizendo em um meio sorriso com um hambúrguer na mão, que se havia uma coisa que um homem devia ser, era "bom de garfo".
As palavras dela o mantinham, ao mesmo tempo, saudável e comilão.
Esse era o tamanho da influência dela em sua vida.
Por tanto amor, até mesmo as pequenas incoerências pareciam fazer sentido.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Resenha Série: Better Call Saul, Temporada 4, Episódio 4: Talk


Better Call Saul teve três episódios bem vagarosos (e ainda assim excelentes) abrindo sua temporada. As coisas deram uma boa guinada em Talk, onde os planos de Gus Fring para Nacho e os Salamancas se tornaram bastante claros. O dono do Los Pollos Hermanos está usando os assassinos com bota de caveira para ampliar seu território além de burlar as regras do próprio cartel, e vender mercadoria fabricada ao norte da fronteira.
Essa guinada, e essa clareza, vêm em uma violenta sequência de ação banhada em uma sangueira que normalmente não vemos no programa, e, mais uma vez, colocou Nacho como o mais frágil dos peões nesse Breakingverso já que é ele que está constantemente suando e sangrando para tentar, o máximo que pode, servir a dois senhores.
Enquanto Nacho se afunda em seu jogo duplo, aproximando-se perigosamente de um fim que lhe parece claro após cumprir os desígnios de Gus Fring, Jimmy dá pinta de ter desistido de sua caça aos empregos até Kim lhe oferecer apoio psicológico.
Se inicialmente parecia que McGill tinha dito que aceitou o emprego vendendo celulares apenas para se livrar de ir ao psicólogo, a verdade é que ele talvez respeite Kim o suficiente para não ir simplesmente mentindo pra ela. Tanto que ele, de fato, acaba na loja norte da CC Telecom vendendo celulares, e, mais que isso, bolando uma sugestiva frase de efeito para chamar consumidores que parece saído do mesmo manual de vendas dos serviços legais de Saul Goodman: "O 'Homem' está te ouvindo?".
E, surpreendentemente, mais um passo de Jimmy em direção a Saul surgiu justamente quando ele tomou um rumo na direção diametralmente oposta de seus esquemas habituais. Saul Goodman é destino.
De qualquer forma, enquanto Jimmy pintava as vitrines da loja, Kim, ao invés de estar no escritório com a fuça enterrada em legislações bancárias interestaduais para o Mesa Verde, resolveu ir ao tribunal de Albuquerque e simplesmente assistir a julgamentos.
A forma como ela atende aos conselhos do juiz Munninger (Ethan Phillips) que a reconhece, porém, deixa claro que Kim não está satisfeita com os rumos que sua carreira está tomando. Não me parece que seja apenas não fazer a diferença, parece que Kim sente falta de antagonizar e ser antagonizada. De fazer alguma diferença. E ajudar um banco a ficar mais rico, não parece ser o que ela quer, e Jimmy não parece precisar ser salvo.
E Mike teve um pouco mais de espaço nesse episódio. Por um lado, sua participação no grupo de apoio que frequenta com Stacey Ehrmantraut (Kerry Condon) parece ter ido pro vinagre após sua descompostura em Henry (Marc Evan Jackson) não ter sido exatamente apreciada pelo resto do grupo. Por outro, ele foi chamada por Gus e o nome de Nacho veio à baila. O que Gus quer? Que Mike mate Nacho agora que o pobre coitado já cumpriu seu propósito auxiliando na expansão de seus negócios, o que, francamente, não parece ser algo que Mike vá querer fazer, ao menos não em situações normais. Mas vá saber se, após ser ostracizado pelo grupo de apoio ele não alcance um grau de malvadeza capaz de colocá-lo nesse caminho... Quem sabe? É difícil saber o que acontece para que Mike e Gus chegarem à parceria que vimos em Braking Bad, mas nós sabemos que isso acontece.
Após a morte de Chuck e o coma de Hector, os personagens parecem ainda estar tentando encontrar a melhor forma de lidar com as situações, e nenhum deles parece ter pensado em conversar a respeito.
Apesar das explosões de violência que parecem fazer falta para uma parte da audiência, o grande momento do episódio, pra mim, foi Jimmy dando mais um passo em direção ao Saul Goodman que todos nós conhecemos.

"Vocês queriam que eu falasse. Eu falei."

Resenha Série: Better Call Saul, Temporada 4, Episódio 3: Something Beautiful


Eu adoro os inícios silenciosos de episódios de Better Call Saul. Um lance que era impensável na TV até algum tempo atrás, e que graças a Breaking Bad se tornou uma forma de contar histórias praticamente sem palavras.
O começo de Something Beautiful tem um desses momentos em que uma série de imagens aparentemente sem sentido vai sendo mostrada sem que ninguém diga nem uma palavra até que a audiência entenda o que está acontecendo.
No caso, a encenação de um ataque a Nacho e Arturo (Vincent Fuentes) executado pelos capangas de Gus, Tyrus (Ray Campbell) e Victor (Jeremiah Bitsui). O lance não acaba nada bem para Nacho, que agora está no bolso de Gus, sob o escrutínio dos Salamancas e crivado de balas no deserto. A linha narrativa de Ignazio segue sendo a mais sinistra e a que tem as apostas mais altas na série.
Enquanto Nacho luta por sua vida, a ida de Jimmy ao escritório dos vendedores de copiadoras não foi, exatamente, infrutífera.
Conforme nós vimos no episódio anterior, o nosso advogado preferido certamente viu algo lá de que gostou, e tenta vender a ideia do golpe para Mike.
É sempre saboroso notar que toda a vez que percebe um golpe em potencial, Jimmy parece não ter mais sossego até executá-lo. O golpe do Menino Bávaro é apenas mais um em uma longa lista de tentativas de arrancar o dinheiro fácil de uns trouxas às quais Jimmy parece ser incapaz de resistir.
Após ouvir o "não" de Mike, Jimmy insiste na ideia indo até o doutor Caldera (Joe DeRosa) para encontrar outro agente capaz de ajudá-lo em sua sua empreitada, e é insistente a ponto de arrancar o telefone da mão do veterinário e vender, ele próprio, o golpe para seu futuro cúmplice, no caso, Ira (Franc Ross), o proprietário original da Vamonos Controle de Pragas.
E por mais engraçado que seja o andamento do roubo, com o gerente dormindo no escritório após presentear a esposa com um aspirador de pó "top de linha" e deixando Ira preso embaixo da mesa, forçando Jimmy a ir até o local pra dar um jeito de liberar o ladrão da enrascada, o ponto principal da coisa toda é que Jimmy parece viciado em aplicar golpes. E se até esse momento a coisa toda parece divertida, ao mesmo tempo, cada vez mais evidencia-se uma espiral da qual em algum momento, nós bem sabemos, ele não conseguirá sair.
Tudo isso acontece bem embaixo das fuças de Kim, que tem coisas demais em seu prato para perceber que Jimmy tem problemas além da negação em se enlutar pelo irmão mais velho.
Rhea Seehorn, por sinal, manda bem demais novamente. Após detonar Howard no episódio anterior, nesse capítulo ela deixa claro que simplesmente não tem estrutura emocional para suportar tudo o que está acontecendo em sua vida ao mesmo tempo.
Da sua expressão de horror diante das maquetes que simbolizam a expansão do banco Mesa Verde à sua desistência em averiguar todos os pormenores das operações bancárias em cada estado para onde Kevin Wachtell (Rex Linn) quer avançar até a forma como ela simplesmente se desmancha em lágrimas ao ouvir Jimmy ler com tão pouco-caso a carta deixada por Chuck junto com cinco mil dólares de herança, fica muito claro que Kim está andando a passos largos em direção a um colapso, e os meios que Jimmy persegue para se manter não ajudam em nada em toda a situação.
Fechando o episódio, o segundo easter egg de Braking Bad do episódio. Gus Fring visitou ninguém menos que Gale Boetticher (David Costabile), o químico extra-nerd que era o fã número um de Walter White até ser baleado na cara por Jesse Pinkman.
Sim, Better Call Saul segue em seu próprio ritmo, cozinhando em fogo baixo, mas isso está longe de ser um problema para uma série que não é um programa de ação. Ver Jimmy em sua descida rumo ao mundo do crime, os laços entre Mike e Gus se estreitarem, e, de quebra, as empolgantes linhas narrativas de Kim e Nacho é mais que suficiente pra manter a audiência ligada na TV.

"-Deixaremos uma senhora colecionadora feliz e faremos um trocado. Vamos fazer algo lindo aqui. "

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Resenha Série: Better Call Saul, Temporada 4, Episódio 2: Breathe


Eu não me lembro se já disse isso aqui, ou se foi em alguma roda de amigos, mas a verdade nua e crua é que, pra mim, Better Call Saul funciona em uma frequência totalmente diferente de Breaking Bad.
E, por mais que eu goste dos elementos Breaking "Badianos" do programa, eu estou tão investido na história de Jimmy McGill, que eu poderia assistir indefinidamente à sua história sem grandes menções à série mãe e ficaria mais do que satisfeito, e a prova cabal disso é Breathe.
No segundo episódio da temporada nós temos claras referências a Breaking Bad, com a presença de Lydia Quayle (Laura Fraser) e sua relação com Mike, Gus Fring, que se movimenta ferozmente para ocupar o vácuo de poder deixado por don Hector, e os retornos de Marco e Leonel Salamanca (Luis e Daniel Moncada)...
O lado criminal da narrativa teve os maiores momentos de tensão e de ação do episódio, especialmente quando estivemos junto com Nacho Varga que vai caminhando para ser o Jesse Pinkman de Better Call Saul ao menos no que tange ao tamanho dos riscos que ele corre, e no fato de que, até o presente momento, seus planos tendem a dar errado. As paredes se fecham rapidamente ao redor do pobre capanga, que paulatinamente se torna a melhor razão para termos Gus Fring na série. Porque somos capazes de nos identificar com Nacho, interpretado de maneira extremamente acertada por Michael Mando, cobrindo de humanidade o que poderia ser só mais um capanga mexicano unidimensional na longa lista de capangas unidimensionais do "Breakingverso".
Falando em interpretações, Rhea Seehorn botou pra foder no episódio. A sequência com Kim e Howard falando a respeito do testamento de Chuck foi um show da loira. Desde sua chegada ao escritório nós somos capazes de ver em cada detalhe, do tom de voz à linguagem corporal da advogada, o tamanho da ira que ela está contendo, e quando ela explode, o faz em todas as direções demolindo seu ex-chefe tanto pelo tratamento que vem sendo dispensado a Jimmy, quanto pelo seu discurso a respeito do provável suicídio de Chuck no episódio anterior.
O mais bacana aqui é que Kim parece estar cem por cento certa de que Jimmy está enterrando um profundo abalo emocional pela morte do irmão, e luta para protegê-lo ao mesmo tempo em que quer que ele externe sua mágoa.
A questão é que eu, enquanto espectador, não tenho certeza de que Jimmy esteja tão ressentido.
Ainda assim, me parece notório que ele se importa com Kim, e é bom ver que ela também se importa com ele, ainda que, o futuro de Saul Goodman acene com a possibilidade de um desfecho desastroso para o casal.
Ainda assim, com tantos bons elementos, o grande momento de Breathe é sequência em que Jimmy é entrevistado por dois gerentes de uma loja de copiadoras para um emprego de representante comercial. Simplesmente sensacional.
Na breve interação entre McGill e seus chefes em potencial nós temos um vislumbre de quem, realmente, Jimmy McGill é. Ele fala, e fala e fala em um balé verbal onde transforma seus interlocutores em plateia usando todo o seu arsenal de charme e persuasão para conseguir o emprego.
A forma como Jimmy interage com os dois é testemunho vivo do personagem que conhecemos em Breaking Bad.
A sua retórica animada e a forma como ele se vende como a solução de todos os problemas dos dois empresários é o embrião de Saul Goodman com seus ternos coloridos e anéis duvidosos especialmente pela forma como acaba.
A procura por emprego de Jimmy é uma das facetas mais leves desse momento de Better Call Saul, e ainda assim, encerra um mistério que é até mais empolgante do que todas as tramas criminosas da outra linha narrativa da série:
O que Jimmy está planejando?
Breathe é o exemplo máximo de como uma cena bem escrita não precisa de sangue ou reviravoltas mortais para empolgar. Sem nenhum tiro, assassinato ou tirada do tipo "diga meu nome", a sequência de Jimmy na loja de copiadoras é tudo o que Better Call Saul precisa para se manter como uma das melhores séries em exibição na TV.

"-Sabe por que Deus criou cobras antes de advogados? Ele precisava treinar."

Resenha Série: Better Call Saul, Temporada 4, Episódio 1: Smoke


Eu tinha esquecido completamente da estréia de Better Call Saul na Netflix há, penso eu, um mês atrás.
A mudança de lançamento da temporada para o segundo semestre me quebrou bonito esse ano, e eu passei a primeira metade do ano órfão de uma das minhas séries preferidas, e perdi um mês de episódios inéditos até entrar na Netflix pra ver se havia alguma opção de entretenimento após a ida à locadora se provar infrutífera e me deparar com a nova temporada das desventuras de Jimmy McGill.
O lado positivo foi que pude, na madrugada de sábado para domingo, fazer uma mini-maratona de Better Call Saul, e assistir, em sequência, aos quatro episódios que houvera perdido.
O primeiro episódio, Smoke, abre com a já tradicional sequência em preto e branco onde Jimmy/Saul (Bob Odenkirk) agora é Gene, gerente da Cinabon, e sofreu um pequeno colapso nervoso.
Os cerca de oito minutos de abertura são inacreditavelmente tensos. É uma tremenda sacada mostrar o protagonista em sua vida pós-exílio estando despido de todas as características que o tornaram quem ele era quando o conhecemos.
Nesses breves interlúdios em preto e branco, vemos o personagem preso em uma rotina anônima e desprovida de qualquer significado além de sobrevivência onde todas as interações sociais são um risco em potencial. O personagem verborrágico que era capaz de tagarelar seu caminho pra fora da maioria das situações, de repente, é um sujeito que precisa lutar para ser o mais esquecível e estéril possível que vê cada conversa casual como um perigo em potencial.
Mas esse prólogo não é o coração de Smoke.
A série retoma de onde havia nos deixado no ano passado e joga uma bomba sobre Jimmy exatamente no momento em que ele parecia estar disposto a seguir um rumo em sua vida de maneira mais otimista e centrada. Ele antevia oportunidades de emprego pelos dez meses de sua suspensão na ordem dos advogados e parecia satisfeito em apoiar Kim (Rhea Seehorn) em um momento de convalescênça após seu acidente automobilístico e a enxurrada de trabalho com o banco Mesa Verde, mas logo no começo do proverbial "primeiro dia do resto da vida", ele descobre que Chuck (Michael McKean) está morto.
Grande parte do episódio mostra Jimmy lutando com seus sentimentos em relação à morte do irmão. Culpa, revolta e luto se misturam e nós nos perguntamos como ele irá lidar com a perda. Jimmy é alguém que vende conceitos a todo mundo ao seu redor, claro, mas ele também é um mestre em vender conceitos a si próprio. É mais do que uma habilidade, é um mecanismo de sobrevivência. E quando percebemos como Jimmy está vendendo a morte do irmão para si próprio, especialmente após a confissão de Howard (Patrick Fabian), não podemos deixar de ver peças que formam Saul Goodman começarem a se encaixar.
O peisódio também visita, sutilmente, seu lado mais criminoso, com Mike (Jonathan Banks) reavaliando seu papel na Madrigal de maneiras muito particulares (e que também rende uma das melhores sequências do episódio), e a tentativa fracassada de assassinato de Nacho (Michael Mando) tornando-se um fardo tão grande para ele carregar quanto eram os desmandos de don Hector Salamanca (Mark Margolis) agora que ele parece estar sob o olhar mais atento de Gus Fring (Giancarlo Esposito).
Better Call Saul frequentemente nos expõe à uma cota justa de ação explosiva e banhos de sangue, mas em seus momentos mais quietos consegue temperar o silêncio com suspense e perigo o bastante pra nos fazer roer as unhas e ficar na ponta do sofá.
Smoke pode não ter sido um episodio particularmente recheado de grandes momentos, mas possui todas as qualidades que tornaram Breaking Bad uma das melhores séries de todos os tempos. Com seu ritmo tranquilo, cheio de peso e luto, abriu as portas para a nova temporada de forma mais do que competente além de nos empurrar definitivamente em direção a Saul Goodman.
Bem vindo de volta, Jimmy.

"-Eu acho que ele fez o que fez por minha causa.
-Bem, Howard, acho que essa cruz é sua pra carregar."