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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Em silêncio


Amaury e Laura estavam deitados, nus sob as cobertas no quarto da casa dele. Ela aninhada em seus braços, aconchegada nele, olhos fechados, respirando devagar. Ele com uma das mãos na barriga dela, a outra sobre o ombro, o queixo sobre o topo de sua cabeça, sentindo o cheiro do seu cabelo. Ele respirou fundo. Haviam feito amor. Ela não admitia dizer que havia feito qualquer outra coisa. Ou fazia amor ou não fazia nada. Ele não se importava de fazer sexo, achava "fazer amor" meio brega. Bem brega, pra ser mais honesto, mas, se era o que ela queria fazer, então, que diabos, ele chamava como ela quisesse. No final das contas, ele a amava, de fato, então, por cafona que fosse, "fazer amor" não era mentira.
Ele a segurou com mais força. Não era pessoa de fazer demonstrações verbais de afeto. Muito pelo contrário. O Amaury não falava. Não que fosse mudo. Ele não falava sobre si. Não falava de seus sentimentos. Não falava de suas aspirações, incomodações, medos e inseguranças. Amaury não gostava de falar. Não era do seu feitio "abrir o coração", outra expressão que, por sinal, ele achava brega pra danar.
Provavelmente o que uniu Amaury e Laura, fora justamente o fato de ambos falarem pouco. Laura também era extremamente fechada. Falava quase nada de si. De seu passado. Das coisas que a incomodavam, agradavam, ou o que fosse. Em um primeiro momento, Amaury achou que Laura fizesse pose de mulher misteriosa. Que usasse o silêncio como uma artificial ferramenta de conquista... Mas aprendeu que não. Levou tempo para aprender, até por que, unir duas pessoas tão fechadas, não é tarefa fácil. Não foi mais, senão acaso, que fez os dois ficarem juntos. Já se conheciam, tinham amigos em comum. Mas jamais conversaram, de fato. Até aquela vez do cinema. Eram dois dos poucos espectadores comprando ingressos pra última sessão de A Família Savage. Quando se viram, ela o olhou com surpresa, ele sorriu. Ela acabou devolvendo o sorriso. Sentaram juntos. Depois do filme conversaram. Voltaram a ir ao cinema juntos depois. Levou tempo até se tocarem. Mais tempo ainda até se beijarem. Mas, depois do beijo, o resto veio ao natural.
Não moravam juntos. Não se viam todos os dias. Se alguém perguntasse a Amaury se ele estava namorando, ele responderia "mais ou menos", se alguém perguntasse à Laura se ela estava namorando ela diria "não.", assim mesmo, com ponto final.
Não é que Laura não gostasse de Amaury. Não é que Laura não quisesse que os outros soubesse que ela namorava. Era... Era complicado pra Laura. Já o Amaury respondia 'mais ou menos" por que ele não sabia, de verdade, que raio de relação era aquela que a Laura e ele partilhavam. Se viam três, quatro vezes por semana, iam ao cinema, jantavam, dormiam na casa um do outro, conversavam um pouco, "faziam amor"... Faziam sexo, ele nem sabia direito... Enfim, não parecia um namoro. Amaury sabia pois já havia namorado antes. Com a Laura não exista cobrança. Com a Laura não existia obrigação. Com a Laura não existia "tu me ouviu?", "tu vem conhecer meus pais?", nem "tu não presta atenção em mim.". Em um primeiro momento, foi isso que fez Amaury gostar de Laura. Isso e o fato de ela ser muito bonita. Mas, ao mesmo tempo, o que antes era a razão de todo o apreço do Amaury pela Laura, agora se tornava uma ferramenta de insegurança. Essa distância que a Laura mantinha de Amaury.
No princípio ele gostava, achava genial ambos terem um perímetro de conforto amplo. Achava genial eles se encontrarem no limite desse perímetro, conversando, saindo, estando juntos, sem jamais, de fato, saírem dele. Mas agora, agora quando ele se via sentindo saudades dela durante o dia, quande ele se flagrava olhando aquele ingresso de A Família Savage na carteira e esboçando um sorriso, quando ele começava a ver sentido em dizer coisas como "fazer amor"... Bom, nesse momento a distância que eles se empunham mutuamente começava a se tornar incômoda. Os dias de sumiço dela começavam a se tornar mais longos. E a vontade que ele sentia de, quem sabe, dizer como se sentia, começava a se tornar mais forte.
O que, de pior, podia acontecer afinal de contas? Como a Laura reagiria se o Amaury a sacolejasse, naquele instante, e dissesse à ela, com todas as letras, que a amava?
-Olha, Laura, é o seguinte. Eu sei que não é o que a gente combinou, até por que a gente nunca combinou nada, mas eu te amo. É isso, eu te amo.
Pensou nessa possibilidade por um instante. Quase pôde ver ela o encarar sem muita expressão, respirar fundo e dizer algo como "Ih, Amaury... Olha, tu entendeu tudo errado...". Pôde vê-la se levantar da cama cobrindo-se com o lençol, catando as roupas no chão, saindo vestida do banheiro minutos depois e dizendo que se viam por aí.
Amaury não podia evitar. Era um pessimista, claro, mas, ao mesmo tempo, baseado no comportamento que tiveram um para com o outro nos últimos meses, aquele era o tipo de curso de ação que mais fazia sentido pra Laura. Ele não conseguia imaginá-la se virando pra ele, o abraçando e dizendo que o amava, também. Simplesmente não era coerente com tudo o que ele sabia da Laura. Resolveu, então, ficar em silêncio. Não dizer como se sentia. Manter as coisas como estavam. Era melhor manter o que era certo, aquele arremedo de intimidade sem intimidade, do que perder o que ela oferecia. Não só o sexo. O sexo era ótimo, claro. Mas tudo. As idas ao cinema, as conversas, tudo. Se o preço era viver com mais aquela insegurança, que fosse. Paciência, ele faria o que tivesse que fazer, até mesmo alimentar seu amor em silêncio absoluto.
Sentiu o braço dormente sob a cintura nua de Laura, se mexeu com cuidado, puxando o braço de sob ela, tentando não acordá-la. Ela sentiu o movimento e, ainda de olhos fechados, perguntou em um sussurro:
-Adormeceu o braço?
-Também te amo.
-Quê?
-Nada.
Ela voltou a dormir quando ele a beijou no ombro e acariciou-lhe os cabelos.
"OK", ele pensou. "Silêncio quase absoluto."

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Segunda-feira


Despertador do celular toca ás oito. Oito, muito cedo... Mais cinco minutinhos. OK, a tecla soneca existe pra isso, pra mais cinco minutinhos... Ainda de olhos fechados, tu procura o celular embaixo do travesseiro, mas tu te mexeu demais dormindo, o lençol tá embolado, o despertador do celular toca em um crescendo, mas tu não consegue encontrar, pois ele deve estar perdido entre o lençol emaranhado, o travesseiro e a fronha, o toque, que começara baixo e agradável, começa a ficar cada vez mais alto, cada vez mais alto e estridente!
Tu abre os olhos, mas ainda está escuro, janelas fechadas, os olhos demoram a captar os arredores, é só aquele barulho, aquele maldito barulho! Te remexe, se põe de bruços, puxa o lençol, ele tranca em alguma coisa, puxa o lençol com mais força, ainda trancado, dá um único e vigoroso puxão, sente o lençol se rasgar sob o teu joelho, estava puxando o lençol errado.
Aquele toque infernal agora berra sob as cobertas. Joga o travesseiro no chão, se levanta rápido, derruba o abajour de cima do criado mundo com o braço, ele se quebra, tu amaldiçoa a própria falta de jeito, se põe de pé, bate o joelho na guarnição da cama quando se curva para averiguar as cobertas, grita um impropério que faria um estivador corar de vergonha, agarra o lençol e o sacode sobre a cama, mas o maldito celular não cai, ele não cai, ele continua oculto gritando cada vez mais alto como se zombasse de ti, o desgraçado!
Colérico, tu mexe o colchão sobre o lastro da cama, é ali que o miserável do telefone deve estar, com a mão na frente da boca, rindo feito um macaco! Com um movimento vigoroso tu consegue arrancar o colchão de cima da cama, deixando-o atravessado sobre o lastro, mas o telefone não está ali, também, ele permanece berrando feito um filhote de animal silvestre sob tortura.
Tu te agacha, deve ter caído sob a cama, muito escuro, aquele desgraçado não devia estar com o display ligado, emitindo luz?
Ainda com o som estridente nos ouvidos tu te embrenha sob a cama, mas ele não está lá, ele não está lá. Tu sai, calcula mal a largura da cama sobre si, e ao se levantar bate violentamente com a nuca na guarnição, com tanta força que movimenta a cama. Novo impropério. Sai de sob a cama, nota que ela parece ter sido atingida pela ira de um deus vingativo e bagunceiro. O barulho permanece. Cada vez mais alto.
Dentro da fronha, é lá que o endiabrado aparelho deve estar tocando sua sinfonia de desespero!
Tu te joga no chão, rindo como um assassino serial que vai se regalar com mais uma vítima, abra a fronha e puxa o travesseiro para fora dela com violência, rasgando-o e espalhando plumas em volta da cama, la está ele, berrando em desespero. Aperta a tecla central, desligando-o.
Paz, afinal... Deitado no chão encara o teto. Ainda é cedo, mas com a frequência cardíaca como está tu não voltará a dormir. De pé, olha a zona de desastre em que o quarto se transformou.
"Claro", tu pensa. "É segunda-feira...".

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

História sórdida


Gérson estava suado, ofegante, sujo. Colocou o pesado volume dentro de uma grande caixa de papelão, e a segurou com firmeza enquanto recuperava o fôlego.
Apanhou um rolo de fita adesiva, e enquanto normalizava sua respiração e frequência cardíaca, acabou olhando, quase acidentalmente pra dentro da caixa. Quase teve um segundo de arrependimento. Respirou fundo. Olhou pro outro lado. O apartamento parecia vazio... Maior. Segurou a caixa com firmeza, a tinha nos braços, não conseguia evitar que os olhos ficassem marejados. A olhava com ternura, subitamente, não queria deixá-la partir. Suas formas fazendo volume entre seus braços o fizeram lembrar de tudo, desde o início, e ele, sem temer passar por louco, se pôs a falar com ela, mesmo sabendo que ela jamais responderia:
-Lembra, meu amor? De quando nos encontramos pela primeira vez, naquela loja? Eu avoado, indeciso, perdido, e tu ali. Linda, gloriosa, sofisticada... Foi amor à primeira vista, pelo menos pra mim. Quando eu coloquei os olhos em ti, sabia que não ia sossegar enquanto não te levasse comigo. Deu trabalho, mas eu não sosseguei enquanto não consegui, me lembro de ter ficado horas ajeitando a casa pensando na tua chegada. Como faria as coisas funcionarem quando tu chegasse. Todo nervoso quando fui, enfim, te buscar... Ah... E foi bom, não foi? Quando finalmente chegamos, eu te carregando pra dentro do apartamento. Meu desespero quando tu bateu na guarnição da porta, nossa, que susto. Mas tu não sofreu nem um arranhão. E ali, ali eu sabia que a gente ia se dar muito bem.
No princípio, tudo era meio novo, eu tinha medo de fazer alguma coisa errada quando sentei contigo pela primeira vez. Ficava nervoso, inseguro. Cheio de dedos não querendo fazer nenhuma besteira... Mas aí, conforme o tempo passou, eu fui vendo que, apesar da fachada de sofisticação e beleza que me deixavam com tantas neuras, tu era simples. E então, de fato, eu pude aproveitar tudo o que tu tinha a oferecer.
Tu me completou durante tanto tempo. Me fez rir, me fez chorar, me mostrou o mundo. Eu estava contigo quando tive minhas maiores alegrias, sabe? Se não fosse a tua presença, o colorido que tu agregou aos meus dias, talvez eu tivesse ficado, sei lá, entregue à solidão. Mas graças a ti, eu me conectei mais ao mundo. Me atualizei, aprendi coisas... Tantas coisas.
Mas acho que nada, mesmo algo assim, tão profundo, tão bonito, é feito pra durar pra sempre, não é? Eu nunca vou esquecer dos momentos que partilhamos, mas eu tenho novas necessidades. E... Sei lá. Nos últimos tempos tuas cores empalideceram, as tuas formas já não parecem mais tão atraentes... Talvez seja minha culpa. Talvez eu seja, sei lá, volúvel nesse aspecto. Não sou como meu pai, e meu avô. Eles conseguiram passar vinte anos com uma só. Eu... Eu preciso de novidade, entende? Sou um filho do meu tempo. Não quer dizer que eu não tenha curtido o tempo que ficamos juntos, mas... Olha. Se servir de consolo, eu quero que tu saiba que a nova me faz muito feliz. Tanto quanto tu fez enquanto estivemos juntos. Será que é cruel da minha parte dizer isso? Acho que não, não é? Afinal, tu sempre soube me agradar, como se, sei lá... Vivesse pra isso.
Bom, obrigado por tudo, meu amor... Eu sei que tu ainda vai fazer mais alguém feliz.
Ele fechou a volumosa caixa de papelão com fita adesiva, a ergueu com dificuldade e bufou, andando encurvado até o elevador de serviço, evitando fazer barulho, pois era tarde. Chegou à garagem e a colocou no porta-malas do carro. Rodou vários quilômetros até uma cidade próxima, em um bairro afastado. Saiu do carro olhando em volta, abriu o porta malas e puxou de lá o pesado fardo que depositara antes. Novamente andou com dificuldade até a porta da casa. Largou o volume no chão, e tocou a campainha. Uma senhora de cabelos grisalhos abriu a porta. Olhou pra ele com surpresa:
-Gersinho?
Ele sorriu, enigmático.
-Trouxe uma coisa pra senhora, vó.
Alguns vizinhos ouviram os gritos da velhinha, chegaram a pensar em ligar pra ver o que era, mas, como o barulho logo cessou, acharam que não fora nada demais.
Gérson saiu pouco mais de dez minutos depois de os gritos cessarem. Foi direto pra casa. Tomou um longo banho, arrumou a mobília da sala, e deitou para dormir.
No dia seguinte, logo cedo, recebia em sua casa uma encomenda. Assinou um documento para o entregador, e arrastou a caixa para o meio da sala. Sorriu ao abrí-la.
Horas mais tarde, Gérson acariciava as formas delgadas de sua nova parceira, admirava seus contornos esguios, e sorria enquanto sentia o cheiro que ela exalava.
-Ah... Nós vamos fazer tantas coisas juntos...
Mal podia conter-se de antecipação quando agarrou o controle remoto e a ligou.
-Nós vamos ser muito felizes juntos, meu amor. Tanto quanto eu fui com a tua predecessora, quiçá mais, tu vai encher a minha vida de cor e conteúdo, minha TV LCD, Full-HD de 42 polegadas... Nós vamos jogar video game, assistir documentários, noticiários, filmes, séries e jogos de futebol, oh, sim...
Mal cabia em si de tanta felicidade. E ainda tivera a recompensa de ouvir sua avózinha gritar de alegria ao receber sua antiga TV, uma wide-screen tela plana de 38 polegadas muito bem conservada como presente.
Colocou no Discovery, e sentou-se, feliz da vida.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Rapidinhas do Capita


Era estranho. Era muito estranho. O Epitácio sabia que queria, sabia que gostava, mas estava sempre com dois pés atrás. Ele simplesmente não podia acreditar que dava pra ser feliz. Quer dizer, ele até acreditava. Já tinha sido feliz, antes, tinha mesmo. Fora feliz quando era criança a maior parte do tempo, com seus brinquedos e jogos e coleguinhas. Também fora feliz na adolescência, com o esporte, as namoradas e os gibis, e já havia sido feliz depois de adulto, conquistando suas coisas através de muito suor, e sabendo quem era.
Já fora feliz, o Epitácio. Sabia como era. Á despeito de todas as mazelas, decepções e pequenas e grandes tragédias de sua vida, á despeito das tristezas e dos desapontamentos, ele ainda acreditava em felicidade.
Não acreditava era em felicidade eterna.
E, infelizmente, chegara a uma fase da vida em que achava que as coisas tinham muito mais significado, importância e peso do que antes. Em que as coisas tendiam a ser muito mais definitivas.
Então, ali estava ele, olhando, sabendo que queria, sabendo que podia, e que seria bom.
Mas por quanto tempo? Quanto tempo até ele não querer mais? Até ele não poder mais? Até deixar de ser bom?
Ele não sabia. Era um sujeito algo enxovalhado pela vida, extremamente desconfiado, e haviam coisas... Tantas coisas ao seu redor que simplesmente lhe diziam sem parar "Não vai que vai dar errado!", "Não faz isso que tu vai te arrepender.", "Óóóóóóóóóóóóóó...", e ele ficava assim: Nem lá, nem cá. Sem saber o que fazer, como proceder...
O que o Epitácio não percebia era que, com aquele comportamento, ele era como aquele proverbial peru. Sempre morrendo de véspera.
Que bobo que era o Epitácio.

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Ela, linda, linda, linda. Cabelão preto até o meio das costas, lindas pernas reveladas sob uma saia jeans, olhos vagamente amendoados de um castanho bem claro, sentou do lado dele na cafeteria:
-Oi, tudo bem?
Ele, de fone de ouvido, distraído, nem percebeu. Ela ficou esperando resposta, então percebeu os fones. Passou a mão espalmada na frente dos olhos dele como quem quer ver se a outra pessoa está em transe. Ele viu e olhou pra ela, parecia incomodado. Tirou o fone:
-Quié?
Ela, doce, olhou pra ele sorrindo um sorriso grande, franco e bonito:
-Eu disse "Oi, tudo bem?".
Ele a encarou por um segundo, como se a estivesse avaliando. Mãos bonitas, braços bonitos, pescoço, rosto, cabelo, barriga, cintura, diabos, tudo naquela guria era bonito.
-Tá... Tá tudo tri... - Ele respondeu sem lá muita convicção. Parecia desconfiado, agora.
-Meu nome é Juliane.
-Arram...
Ela sorriu olhando pra cima, algo impaciente. Não resistiu e continuou:
-E o teu?
-Jairo.
-Jairo?
-É. Algum problema?
-Não... Não, é que... Tinham me dito que era Luciano.
-Se tu sabia por que perguntou?
Ela não soube o que responder. Sorriu sem-graça. Ele começou a colocar os fones de volta nos ouvidos, mas ela o conteve com um gesto.
-Olha... Luciano, Jairo, sei lá. Hã... Tu... Tu quer fazer o trabalho de História comigo? Eu sou ruim em História, e tuas notas são sempre foda...
-Não. Eu não vou fazer esse trabalho.
-Não? Mas e a nota?
-Eu garanto na prova. Nunca faço trabalho.
-Ai, que massa.
-Hm.
-Bom, então se tu não vai fazer o trabalho tu não quer, sei lá, sair pra fazer alguma coisa? Ir no cinema ou, sei lá...?
-Não. Não posso. Tenho que trabalhar.
-Ah, tu trabalha?
-Arram.
-Ai, que fera.
-Não, é chato pra cara... Pra caramba.
-E no final de semana, tu não-
-Não. Não posso. Foi mal. Boa sorte com o trabalho de História.
Ele colocou os fones de volta e continuou olhando pra frente. Ela se levantou constrangida e saiu andando. Foi pra junto das amigas dela.
Ele observou interessado de sob o a aba do boné gasto, admirando o rebolado insinuante do corpo dela, a dança particular que os cabelos faziam independentes do corpo, os pés delicados dentro de uma rasteirinha de plástico amarelo translúcido tocando o cimento do pátio do colégio. Era linda, ela. Por isso mesmo ele a dispensou. Uma guria linda que nem ela, querendo ficar com um cara bagunçado que nem ele? Rá! Muito suspeito. Alguma coisa errada devia existir por trás disso. Ah, devia.

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TRADUÇÕES:

Ele disse:
-Eu te amo.
Mas na verdade ele quis dizer:
-Faça sexo comigo.
Ou:
-Diz que me ama.

Ele disse:
-Qual teu signo?
Mas na verdade, a menos que ele seja astrólogo, ele quis dizer:
-Faça sexo comigo.

Ele disse:
-São duas flores unidas,
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.
Mas na verdade, a menos que ele seja professor de literatura e esteja em aula, ele quis dizer:
-Faça sexo comigo.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Amarras



Quando criança, o Francineldo costumava passar o verão inteiro na casa da avó dele, no interior.
Ele adorava ir pra lá, a comida, os mimos e a atenção... Pra melhorar, sua avó ainda tinha uma caixa enorme cheia de brinquedos que haviam sido de sua mãe, de seu tio e de sua tia, e deixava ele brincar com tudo.
Além disso, Francineldo, que em Porto Alegre era um tremendo guri de apartamento, do tipo que pode brincar só no pátio do condomínio e olhe lá, na casa da avó se tornava um intrépido explorador que podia andar por onde quisesse até escurecer (menos no cemitério, "que tava cheio de maconhêro" lhe dizia a sua avó).
Na casa da avó, Francineldo andava o tempo inteiro com um pedaço de corda de sisal enrolada no ombro.
Lhe fora dada por seu avô. Não era muito grande, um metro e meio, dois no máximo, mas, cara! Era impressionante a segurança que aquela fração de corda dava pro Francineldo.
Com aquele pedaço de corda pendurado no ombro, Francineldo tinha a mais plena e inabalável certeza de que podia se ver livre de qualquer problema. E, com aquela corda, ele se sentia o tal.
Conversava com as outras crianças da vizinhança, organizava brincadeiras, até jogar bola o Francineldo jogava com a tal corda à tiracolo.
No fim do dia, depois de jantar, a avó deixava ele comer um pedaço generoso de bolo mármore com toddy, e brincar até depois da novela com os brinquedos da caixa.
Depois da Novela, o Francineldo tinha que ler.
Podia ser o que ele quisesse, livro, gibi, revista, até uma Playboy antiga da Sônia Braga que pertencera ao tio do Francineldo a avó dele liberava, contanto que ele, de fato, lesse alguma coisa. Depois de ler, o Francineldo comia uma fruta, escovava os dentes e ia pra cama, geralmente exausto.
Quando se preparava pra pular na cama usando só cuecas e camiseta, a avó do Francineldo assomava perguntando se ele não esquecera nada. Invariavelmente Francineldo negava, e invariavelmente sua avó apontava-lhe os brinquedos ainda espalhados pelo chão:
-Vai juntá os brinquedo.
Francineldo protestava, dizia que iria usá-los novamente no dia seguinte, que em casa não precisava guardar nada, que os brinquedos não atrapalhariam ninguém já que ele ficava sozinho no quarto.
Mas não tinha conversa.
Na casa da avó do Francineldo existiam poucas regras, quase todas flexíveis, exceto essa: Brinquedos na caixa.
Francineldo, não raramente, brigava com a avó por causa daquilo. Coisa de piá, claro. Ele, tão preso por uma série infindável de regras em casa, achava um ultraje se ver, ainda preso por um grilhão na casa da avó, onde acreditava que podia se despir de todas as obrigações.
Enfim, durante todos os dias, de todos os verões da infância de Francineldo, aquela frase o perseguia "Vai juntá os brinquedo.".
E lá ia Francineldo, com uma carranca entre o ofendido e o revoltado, juntar os brinquedos enquanto resmungava "Tá bom, vó.".
Francineldo eventualmente cresceu, claro, e, na adolescência, parou de frequentar a casa da avó durante o verão inteiro, limitando-se a umas poucas visitas eventuais.
Viajava com os amigos pra Santa Catarina, ou o Litoral Norte, começou a namorar algumas meninas aqui e ali, depois entrou na faculdade, fez estágio, então arrumou emprego, começou um namoro mais firme... Enfim, virou um adulto.
A namorada firme de Francineldo, que ele conhecera através de uma prima em segundo grau, era um doce. Francesca, era seu nome.
Apesar de achar Francesca um belo nome, especialmente pronunciado com um "tchê", no meio, "Frantchêsca", Francineldo referia-se à ela por Fran, pois era mais curto. A Francesca também chamava o Francineldo de Fran, mas era porque o nome dele era horroroso.
Davam-se bem a Francesa e o Francineldo, pelo menos a maior parte do tempo.
Tinham lá suas rusgas e diferenças o Fran e a Fran.
Ela era muito segura, ele era muito inseguro, ela era sanguínea e demonstrava calidamente tudo o que sentia, fosse falando em alto e bom som, dando uns gritos, se desmanchando em lágrimas, ou saltando no colo de Francineldo e enrolando as pernas na cintura dele não importava onde fosse ou quem estivesse por perto, para vexação dele, um tímido de carteirinha, silente e por vezes frio, para quem um "eu te amo", por exemplo, era inarticulável em voz alta.
Ela adorava música, dança e pessoas, ele odiava as três coisas.
Ela adorava cinema, ele adorava ler.
Ela queria ter um milhão de amigos, ele não queria nem vizinhos.
Ela queria comprar um apartamento junto com ele, já que praticamente moravam juntos, mesmo, ele dizia "vamos ver..." sem lá muita convicção, e postergava qualquer decisão.
Mas enfim, mesmo com todas essas diferenças, o que começou a causar, de fato, estrago na relação dos dois foi um outro fator:
A Francesca, bonita, inteligente, segura de si, queria ter filhos. Estava com trinta anos, e queria muito ser mãe enquanto podia ser mãe.
Por ela, teria sido mãe aos vinte, morria de medo de ser uma velhinha com adolescentes em casa. Mas Francineldo julgava-se despreparado para ser um pai de família, tanto financeira quanto emocionalmente.
Ainda nem sequer tinha comprado um apartamento, estava apenas pagando seu carro, imagine, ter um filho àquela altura, com o mundo naquele estado, era até uma irresponsabilidade...
As discussões sobre o tema começaram a se tornar mais frequentes, e até mais ríspidas. Foi durante uma dessas discussões que Francineldo foi salvo pelo gongo ao receber um telefonema, em plena tarde de sábado dando-lhe a notícia:
Sua avó morrera.
Aos noventa e um anos de idade, tendo vivido sozinha nos últimos doze anos após a morte do avô de Francineldo, ela encontrara seu fim dormindo pacificamente na casa em que passara os últimos sessenta invernos.
A mãe de Francineldo foi quem ligou para avisar. O corpo seria sepultado na cidade onde ela vivia, na capela da família no cemitério "dos maconhêro", mas ela precisava que um familiar liberasse o corpo junto ao IML local e que contratasse uma funerária para preparar tudo.
Francineldo, filho único, aceitou imediatamente a incumbência. Não chegou a ficar chocado com a morte da avó, ela já era bem velhinha, tivera uma vida boa e longa, merecia encontrar o descanso derradeiro enquanto ainda não se tornara dependente e enferma, certamente preferiria assim.
Francineldo, livre da discussão após o telefonema, despediu-se de Francesca, que apesar de ter visto a avó de Francineldo em apenas duas ocasiões, chorava copiosamente após receber a notícia.
Enquanto viajava, Francineldo chegou a sentir vergonha pelo alívio que aquela pequena viagem representava em seus últimos dias.
O trabalho o estava matando, tinha o chefe na sua cola, querendo que ele chefiasse uma comissão de transição para a fusão da empresa onde trabalhava com uma multinacional, a vida de pseudo-casado o estava matando, com Francesca na sua cola buzinando em seus ouvidos a ideia de ser mãe, seus (poucos) amigos o estavam matando, lhe dizendo que era pra ele tomar tendência e assumir logo a Francesca porque, do jeito que ele era, seria impossível outra mulher bonita, divertida e bacana que nem ela se interessar por ele...
O que ninguém, nem os amigos, nem o chefe, nem a Francesca sabiam, era que o Francineldo não estava sendo relapso, procrastinando decisões que, para qualquer outra pessoa seriam óbvias.
Ele de fato pensava nas coisas, e chegara à uma conclusão racionalmente medida e pesada:
Se borrava de medo de assumir qualquer uma dessas responsabilidades.
O Francineldo praticamente tinha urticária com a simples menção da ideia de ter que, efetivamente, arcar com uma relação sem poder fugir pra sua casa como fazia quando eventualmente brigava com a Fran na casa dela.
De ser o responsável pelo sucesso ou (Deus o livre) fracasso da fusão de sua empresa com outra, ou, que horror! Que horror!
A criação de um filho.
Um filho, mil vezes mais que um emprego ou um casamento, era uma responsabilidade perene, inalienável, intransferível, e que Francinedo levava tão a sério que chegava a ficar sem ar.
Enfim, Francineldo suspirou e parou de pensar a respeito.
Concentrou-se na estrada. Chegou na cidade da avó já de noite. Foi ao IML onde preencheu várias fichas e documentos responsabilizando-se pelo treslado do corpo. Contratou uma funerária local para preparar tudo, achou os custos bem altos, mas enfim, sua avó merecia uma despedida bonita, afinal de contas.
Escolheu um esquife, a lápide, as flores, velas, e a música que tocaria durante o velório. Após acertar tudo, foi para a casa da avó, onde dormiria naquela noite, apanhar uma roupa para ela usar durante o funeral.
Francineldo, acompanhado por um afável papa-defunto foi diretamente até o armário da avó. Apanhou um tailleur que ela provavelmente usara pela última vez na formatura dele, mas que certamente ainda serviria. Pegou meias, e sapatos, entregou tudo ao funcionário da funerária dentro de uma pequena bolsa, e despediu-se.
Fechou a porta e encarou a casa onde não ia há uns bons quinze anos.
Parecia igual.
Limpa, o mesmo cheiro de madeira, a mesma luz azulada entrando pelas janelas, em frente às duas poltronas onde ela sentava, antes de mãos dadas com o vô, depois sozinha, a TV, ainda um modelo antigo, de tubo, sem controle-remoto, que era "invento de preguiçoso" segundo ela.
Tudo igual...
O sofá coberto por uma pequena colcha de tricô, a mesa de jantar, que só era usada em aniversários e festas de final de ano, o grande relógio de parede que soava badaladas de hora em hora... Tudo lá... No mesmo lugar. O banheiro cheirando a detergente de lavanda, a cozinha cheirando a bergamota.
Foi até o quarto onde dormia quando criança. Despiu-se, até estar só de camiseta e cuecas. Deitou encarando o teto. Fechou os olhos.
Não conseguia dormir. Sentou.
Inclinou-se e enfiou a mão sob a cama. Alcançou a antiga caixa de brinquedos. A puxou com força.
Sempre fora tão leve? Tão pequena? Parecia quase uma arca quando era guri.
Abriu a tampa com cuidado e inclinou a caixa despejando seu conteúdo no chão em frente
à cama.
Ainda havia a pistola espacial de latão, com a ponta de plástico transparente e um astronauta pintado na lateral. Apertou o gatilho fazendo um barulho rascante de engrenagens.
Sorriu.
Tabuleiro multi-jogo, damas, xadrez, xadrez-chinês e caça-palavras. Dominó. Carrinhos em profusão. Algumas bonecas. índios e caubóis de plástico que lutavam em um antigo Forte-Apache. Animais de fazenda e animais de zoológico de plástico colorido. Soldadinhos verde-oliva. Dinossauros. Um pião. Bolitas de gude. Alguns super-heróis e vilões, um Superman em uma moto. "Por que o Superman andaria de moto?", indagou-se.
Francineldo vasculhava tudo, sorrindo.
Sob o tabuleiro de damas viu uma ponta de uma corda.
Puxou-a.
Nada especial, apenas uma fração de corda de sisal. Um metro e meio, dois no máximo. Uma lágrima acabou escapando de seu olho e correndo pelo seu rosto.
Ficou segurando a corda entre as mãos. Lembrando de quando era um intrépido explorador. Um craque da bola. Um organizador de brincadeiras. Ficou encarando as fibras envelhecidas daquela corda por um bom tempo, até sentir sono. Pensou em empurrar os brinquedos pra baixo da cama, juntá-los apropriadamente no dia seguinte, mas quase pôde ouvir sua avó ordenar que juntasse "os brinquedo".
-Tá bom, vó.
Juntou tudo com muito cuidado. Colocou todos dentro da caixa, inclusive a corda de sisal.
No dia seguinte, sua mãe chegou com seu pai. Um tio também chegou com a esposa, eram os dois filhos ainda vivos de três que nasceram.
Foram para a capela da família no cemitério, lá, em frente à capela, várias pessoas prestaram suas últimas homenagens à avó de Francineldo.
A mãe dele chorou muito, o tio dele, também. Francineldo consolou ambos, recebeu pêsames de vários parentes afastados, de amigos e de vizinhos de sua avó, que imediatamente o reconheciam, a despeito dos anos, e diziam coisas como "Francineldo, tu não mudaste nada, guri...".
Francineldo agradecia, embora não soubesse quem era a maioria das pessoas. Acompanhou o curto cortejo, empunhou uma das alças do caixão.
Manteve-se em silêncio, segurando o ombro da mãe enquanto o padre falava. Depois em pé, no momento da oração.
Não quis dizer nada, não era o estilo de sua avó, ela havia sido uma mulher de ação e de poucas palavras.
Após o enterro, ainda ficou no cemitério por mais algum tempo, se despediu, agradecendo a presença de todos, e quando estava sozinho, depositou as primeiras flores junto à lápide.
Voltou a Porto Alegre no mesmo dia.
Pensativo na estrada.
Ao chegar em casa, encontrou Francesca o esperando. A maquiagem que ela usava nos olhos estava borrada. Ele sorriu:
-Minha avó já está lá em cima festejando com meu avô e São Pedro e tu ainda tá chorando, guria?
Francesca sorriu, mas ainda chorava. Correu e o abraçou. Ficou pendurada no pescoço de Francineldo em silêncio.
Ele a pegou pelos ombros, e respirou fundo:
-Francesca... Eu te amo. Tu quer casar comigo?
A Francesca achou que ele estivesse doente, ou em choque. Que estivesse abalado pela experiência de enterrar a avó, que tivesse sido confrontado com a própria mortalidade e, de repente, quisesse colocar o carro na frente dos bois.
Francineldo suou a camisa para explicar que não, que sempre quisera aquilo, apenas não tinha coragem de verbalizar. Que ainda não se considerava maduro o bastante para ser pai, mas queria ser. E que casar com Francesca, assumir o compromisso de seu amor para com ela, era uma ótima forma de começar a fazer isso.
Na semana seguinte Francineldo assumiu a comissão de transição da empresa onde trabalhava.
Foi um pesadelo.
Caos total. Terrível. Trabalho para afogar um homem adulto. Mas Francineldo perseverou, e, com seus colegas, conseguiu organizar documentos e contas da companhia de modo a garantir uma fusão tranquila. Recebeu congratulações de seus superiores e foi promovido.
Oito meses e meio depois, ele e Francesca, já casados, estavam comprando um apartamento.
Com um quarto extra, pois ela estava grávida.
O Bebê nasceu em um frio começo de agosto, e foi batizado de Matheus.
Nos anos seguintes, a mãe e o pai de Francineldo eventualmente se mudaram para a casa que fora de sua avó, e no verão, Francineldo e sua família passaram a ir para lá durante as férias.
Quando Matheus completou sete anos, Francineldo deu-lhe o único brinquedo da antiga caixa que não estivera lá nos últimos verões.
Um envelhecido pedaço de corda de sisal de um metro e meio, dois no máximo.
Era uma corda velha, mas ainda firme, que poderia ser usada em inúmeras brincadeiras. Francineldo sorriu quando Matheus enrolou a corda no ombro e saiu cantarolando The Raiders March correndo pelo enorme quintal, e mandou que ele estivesse em casa antes de escurecer. Enfiou a mão no bolso e sacou de lá sua carteira.
Abriu-a e encontrou lá dentro algumas fibras da corda. Pedaços ínfimos que retirara dela anos antes, quando sua avó morreu. Aquelas pequenas fibras lembraram Francineldo, à época, de quem ele podia ser, de tudo o que queria ser, apenas não tinha coragem.
Ele não pensou, contudo, na ironia de que fora justamente uma corda que o desamarrara de seus medos e limitações.
Voltou pra dentro de casa. Precisava pedir que sua mãe assasse um bolo mármore.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Sinais


O Irineu parou na frente do balcão da pastelaria com os fones enfiados nas orelhas. Atrás do balcão o pasteleiro, tiozinho simpático, japa, a maior cara de Sonny Chiba, lembra dele? O Hattori Hanzo do primeiro Kill Bill? Então, parecido com ele. O pasteleiro olhava o Irineu com interesse. O Irineu ficou olhando pra tabela de preços do dublê do Sonny Chiba, escolhendo um sabor de pastel enquanto ouvia Revolver dos Beatles. Pensou um pouco. Suspirou e abriu a boca pra falar, mas parou. A Beatriz passou andando rápido, também com fones nos ouvidos, na porta da pastelaria e acenou pra ele. Ele a viu, e imediatamente tirou os fones do ouvido e gritou sorrindo:
-I'm Only Sleeping, e tu?
-Blackbird! -Ela gritou de volta, com um sorrisão bem aberto e ainda caminhando.
O irineu sorriu e ficou olhando ela ir embora. Quando ela sumiu de vista, o Irineu sorriu pro pasteleiro:
-Um de palmito. Médio, por favor.
O pasteleiro começou a fazer o seu ofício, e perguntou casualmente:
-Por que aquela moça bonita não tá aqui contigo?
O Irineu sorriu sem responder, olhava pro chão. Ainda sorrindo. O pasteleiro perguntou de novo:
-Ela parece gostar de ti. Tá na cara que tu gosta dela... Qual o problema?
-É complicado. -Balbuciou Irineu.
-Complicado é ruim...
-É... A gente acostuma, eu acho.
-Acostumar com "complicado" é ainda pior, eu acho.
O Irineu não respondeu. Silêncio, exceto pelo ruído do azeite fervendo. O japonês tirou o pastel do óleo fervente com uma pinça grande, o pousou em uma bandeja forrada com uma toalha de papel que absorveu a maior parte da gordura.
-Pra levar?
-É.
Embrulhou o pastel, o colocou em uma sacolinha plástica.
-Três "pila".
O Irineu olhou em volta enquanto sacava a carteira do bolso.
-E um refri de lata.
-Cinco pila.
Irineu pagou, andou até a geladeira e pegou uma lata de Fanta. Se dirigia à saída, quando o pasteleiro perguntou:
-Vai falar com ela quando?
O Irineu sorriu.
-No dia em que a gente estiver ouvindo a mesma música.
-Ah... Um sinal, né? Pra garantir.
O Irineu assentiu com a cabeça, sorrindo. Mas o pasteleiro fez uma expressão intrigada:
-Mas e se já tiver havido algum outro sinal? Um mais sutil, mas com mais significado?
O Irineu não sabia. Deu de ombros.
-Hoje vocês dois ouviam Beatles... Há quem possa considerar isso um sinal. Ela te acenou, isso, pra mim, é um sinal bem claro, também. A tua cara olhando ela ir embora, nossa, sinalaço... Eu não sei. Talvez, se tu esperar demais por um sinal muito específico, pode acabar perdendo uma parte muito boa, de alguma coisa muito boa. Sei lá...
O Irineu ficou pensativo um instante, olhando pra sacolinha com o pastel na mão direita. Então levantou a cabeça e se deu conta de o quanto o pasteleiro parecia com o Hattori Hanzo.
-O senhor é de onde?
-Dom Pedrito. - Respondeu o japonês.
-Ah. Bom... Obrigado, hein? Tchau.
O Irineu foi embora. Se o pasteleiro fosse de Okinawa, ah, isso seria um tremendo sinal, mas Dom Pedrito? Isso não significava nada. Colocou os fones de ouvido, apertou o play e George começou a cantar Love You To. Enquanto isso, cerca de quatro quarteirões adiante, Beatriz começava a ouvir a mesma música, ela que era apaixonada pela voz do Harrison e pelo som da cítara, mas o Irineu nunca ficou sabendo disso, pois esperava por sinais específicos demais enquanto nem sabia interpretar os que haviam ao seu redor.

sábado, 27 de novembro de 2010

Resenha DVD: Predadores


Finalmente vi Predadores, que queria ter assistido no cinema, mas, por uma série de imprevistos, acabou passando batido. Aluguei ontem, e, á noite, munido de uma generosa porção de sorvete de pistache e coca-cola geladinha, me sentei confortavelmente no sofá pra ver a produção de Robert Rodriguez dirigida pelo francês Ninrod Antal onde um grupo de assassinos, soldados e guerrilheiros é abduzido na terra para servir de diversão a um grupo de predadores entediados em um planeta-resort de caça.
O filme é maneiro, divertido, fiel à mitologia da série, presta um belo tributo ao filme de 87, dá um banho em qualquer Aliens Vs. Predador e está anos luz a frente de Predador II (Filme que eu acho até bem simpático), o elenco encabeçado por Adrien Brody que é um baita ator, é bom. Conta ainda com Danny Trejo (e ele fica fora de algum filme com a mão de Robert Rodriguez?), Laurence Fishburne (Personagem mais descartável o dele, viu?), o eterno Eric Foreman, Topher Grace, e Walton Goggins além de outros dois ou três casca-grossa sem lá muito estofo ou carga dramática.
O destaque, além de Brody, fica por conta da brasileira Alice Braga, co-protagonizando o filme, muito linda, mandando bem na atuação em inglês e servindo como consciência do grupo de bandidões.
Não existe, no filme, o mistério que cercava o monstro no longa original, afinal, com miniaturas, jogos de video-game, e os filmes da série AVP todo mundo tá careca de saber como são os crustáceos espaciais de dreadlock no cabelo, o que é compensado pelo ritmo ágil do filme. O roteiro não tem lá grandes inovações, nem buracos especialmente profundos onde tropeçar, afinal, estamos falando de um filme de ação com monstro espacial, a grande inovação fica por conta dos "preda-cães", e do Predador Berseker, uma variante maior, mais feia (E tinha como?) e mais malvada do monstro que todos amamos.
O time de personagens casca-grossa é jóia, a ação é divertida, mas uma coisa precisa ficar clara pra referência futura do pessoal de Hollywood, e alguns podem considerar isso algum tipo de spoiller, de qualquer forma, aqui vai:
NINGUÉM VENCE UM PREDADOR NO MANO-A-MANO!!!!!!
Nem Schwarzenegger venceu o Predador no mano a mano, não se pode botar qualquer vagabundo com uma lâmina ou um porrete, bater de frente com um predador e sair andando. E tenho dito!

"Isso é uma colônia de caça. E nós somos a caça."