Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
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sábado, 28 de setembro de 2013
Resenha Game: Grand Theft Auto V
Logo que começou a ser anunciado, Grand Theft Auto V já prometia ser um dos melhores games de 2013, e o jogo ideal para fechar com chave de ouro as portas da geração atual de consoles.
Desde 2008, quando a Rockstar lançou o excepcional Grand Theft Auto IV, água passou sob a ponte.
A empresa lançou games fracos como LA: Noir, games competentes como Max Payne 3, e obras primas como Red Dead Redemption. A experiência que a desenvolvedora obteve com esses três jogos fica bastante clara em Grand Theft Auto V, assim como a reverência pelo game antecessor, óbvio melhor capítulo da franquia de roubos de carro, e a vontade de agradar aos fãs de Vice City e San Andreas, que sentiram falta do tom pastelão de ultra violência quase caricatural desses games em GTA IV.
Tecnicamente falando, GTA V é um triunfo técnico sem precedentes.
O mundo em que o jogo se desenvolve, a cidade de Los Santos, a dublê GTA de Los Angeles, é enorme e além de uma imensa metrópole, ainda conta com uma vasta área vicinal, cheia de cidades menores, condados interioranos cheios de caipiras, e paisagens florestais, desérticas e litorâneas de encher os olhos e que lembram versões melhoradas das melhores ambientações de Red Dead Redemption (Aliás, a influência de RDR também pode ser sentida além das paisagens, em atividades secundárias como a caça, e nas feras selvagens que vivem nas matas do interior e até nas cercanias da metrópole, fui atacado por um puma em uma montanha a uns duzentos metros da cidade...), tudo construído de maneira bonita e eficiente, com uma renderização beirando a perfeição com as coisas surgindo à distância, e não brotando do nada quando se chega perto...
A animação dos personagens é excelente, e mesmo os transeuntes aleatórios que encontramos nas ruas, nas praias e nos clubes de Los Santos são bem feitos. A física do jogo também é excepcional, com os veículos possuindo pesos e centros de gravidade distintos e tendo seu movimento influenciados pelo terreno, um detalhe muito bacana que também é sentido no movimento dos personagens a pé.
Grand Theft Auto V, pela primeira vez dá ao jogador a possibilidade de jogar com mais de um personagem. A trama tem três protagonistas, Michael, Franklin e Trevor, cada um deles com habilidades e backgrounds diferentes.
Michael roubava bancos, forjou a própria morte e se aposentou após fazer um acordo com um agente do FBI para viver com sua esposa e seus dois filhos em uma mansão em Los Santos usando um novo nome sob um programa de proteção à testemunha muito particular.
Franklin é um jovem negro de South Los Santos disposto a subir na vida da forma que for possível, mesmo pelo crime. Cansado dos marginais de sua vizinhança, vê em Michael uma espécie de figura paterna que pode lhe apontar o melhor caminho a seguir para ascender na cadeia alimentar da bandidagem e Trevor, um psicopata canadense de deixar o Wolverine encabulado, era parceiro de Michael na época dos assaltos, ele começa o jogo fabricando metanfetamina no interior, onde tenta eliminar a concorrência e expandir seu pequeno império de drogas até descobrir que Michael talvez não esteja morto.
A construção gráfica de todos eles é ótima, e pode-se inclusive mexer no visual dos personagens como em GTA - San Andreas, adicionando barbas, tatuagens e cortes de cabelo (Muitos fãs sentiam falta desses elementos em GTA IV), sem alterar a excelência das animações. Além disso, existem formas de melhorar as capacidades de pilotagem, a resistência, mira e força dos protagonistas, e mesmo suas habilidades especiais (Cada um deles têm uma), o que dá ao jogo uma faceta de RPG que, embora não chegue nem perto da de San Andreas, é bastante interessante.
O trabalho de dublagem também é excelente, todos os personagens, centrais e coadjuvantes são ricamente dotados em termos de sotaques, entonações e espectro emocional, e funcionam às mil maravilhas nesse mundo ambíguo, exagerado e construído à perfeição que é Los Santos e seus arredores.
A jogabilidade é funcional e simples como sempre. O sistema de tiro, herdado de Max Payne 3 é irrepreensível, embora eu sinta falta da barra de saúde dos antagonistas nos tiroteios e especialmente nas pancadarias. O modo de direção continua tão bom quanto antes, embora a física do jogo possa atrapalhar apressadinhos com pé de chumbo, já os sistemas de controle de vôo, são ambíguos, o dos helicópteros é bastante simples, praticamente igual ao de GTA IV, já o dos aviões é mais desafiador e complexo, mas nada que faça ninguém arrancar os cabelos.
Além das missões principais, cerca de sessenta e cinco, existem mais dezenas de missões secundárias, além de atividades de toda a espécie. Você pode assistir TV, navegar pela internet (Existem dois sites em particular que são ótimos, o Life Invader, emulando o Facebook, e o dublê GTA do Twitter, o Bleeker), ouvir rádio, jogar tênis, golfe, dardos, tunar seu automóvel e participar de corridas de rua, praticar tiro ao alvo, pesca submarina, triatlo, skydiving, base jump, caçar, ajudar transeuntes que são assaltados, ou ajudar assaltantes a fugir da polícia, visitar alguma das dezenas de lojas de roupas que existem pela cidade e arredores... Não falta o que fazer em GTA V.
Em termos de mecânica de jogo, de apuro técnico e de realização, GTA V é um triunfo absoluto, sem precedentes em termos de escala e detalhamento, está, porém, longe de ser perfeito.
A história do game é divertida, movimentada, por vezes beirando o absurdo, essa edição do game não quer ser um simulador realista de nada, e isso fica bastante claro na forma como as aventuras de Franklin, Michael e Trevor são conduzidas, pendendo muito mais à ação e ao humor do que a qualquer outra coisa, sem passar nem perto da profundidade da tragédia de Red Dead Redemption ou do círculo de crime e castigo de GTA IV, pra ficar só nos games da própria Rockstar.
Não bastasse essa propensão ao humor e ao absurdo, outro elemento claramente satírico da Rockstar gera desconforto:
os personagens.
Se Niko Bellic era sugado para o mundo da criminalidade pelas ações do primo e a força das circunstâncias e John Marston era obrigado pela lei a retomar a vida que tentava deixar pra trás, ambos eram homens de princípios, que, a seu modo torto, possuíam códigos de conduta e algum senso de honra.
Franklin, Michael e Trevor, por outro lado, são apenas bandidos.
A despeito de terem lá suas boas sacadas e lampejos de decência, os três não passam de marginais, sociopatas e psicóticos.
Esse detalhe talvez seja, mais do que as claras gozações da desenvolvedora ao America Way of Life (e à sociedade contemporânea como um todo espalhadas pelo game), a grande crítica do jogo ao player e ao mundo: Três protagonistas tão viciosos, e que ainda assim, são capazes de gerar algum carisma e empatia em uma geração que parece viciada em caos quando coloca as mãos no controle de um GTA.
Em suma, GTA V está longe de ser perfeito, mas é a quintessência dos games sandbox. A epítome da série Grand Theft Auto. Tudo aquilo com que toda uma geração de consoles esperava pra mostrar do que era capaz para o bem, ou o mal.
Obrigatório para fãs e não fãs da série.
Custa sonhar com todo esse apuro técnico e escala absurda de possibilidades num game mais profundo na nova geração?
"-Sabe, eu estive nesse jogo por muitos anos, e saí vivo. Se você quer meu conselho: Desista dessa merda."
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Rapidinhas do Capita
Engraçado como certas coisas nos afetam mais do que outras, mas ao mesmo tempo servem pra nos mostrar o quanto evoluímos...
Se fosse em 1997, eu teria dito: "Já passou da idade de puxar as tranças da menina que tu gosta no recreio, irmão. Ficar falando que as coisas que ela gosta são infantis sem aguentar dez minutos de porrada com um homem é falácia da grossa, e se não gostou, desce aqui que a gente resolve que nem homem se tu pensa que vale o que caga."
Mas é outro momento, eu sou outra pessoa, mais educado, mais polido, melhor resolvido, e mais seguro.
Minha necessidade de auto afirmação acabou com a adolescência, assim como minha disposição pra barracos e pancadarias e minha avidez em julgar as disposições dos outros.
Mas se precisar muito, muito, mesmo, ainda deito o braço em um, vá lá...
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Peter Mayhew, o eterno Chewbbaca, revelou que, a despeito de possível procura por um novo intérprete pro wookie mais famoso do cinema nas futuras sequências de Star Wars, ele pretende se candidatar ao papel.
Tá certo ele, o ator de 2,20 m que passa por cirurgias nos joelhos é mais chewbbaca que qualquer outro gigante que encontrem pra vestir o casacão de pele nos vindouros filmes de J. J. Abrams.
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Jogando GTA V até os olhos arderem, e então jogando mais um pouco. Resenha do game muito em breve.
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
Resenha Cinema: Elysium
Foi em 2009 que Neil Blomkamp se lançou ao estrelato com seu longa de estreia nos cinemas. Distrito 9, produzido por Peter Jackson era uma competentíssima ficção científica de orçamento modesto mas muito bem aproveitado, que mostrava alienígenas vivendo em campos de refugiados na África do Sul.
Com um roteiro maneiro, bem amarradinho, e repleto de entrelinhas políticas e sociais, e uma direção esperta, espremendo até a última gota dos trinta milhões de dólares de seu orçamento, Blomkamp mostrou que entendia do riscado, atraindo a atenção da mídia e do público para seu filme, que se tornou um tremendo sucesso de bilheteria, e lhe garantiu entrada para o mainstream hollywoodiano.
Quatro anos se passaram e Blomkamp volta aos cinemas novamente com uma ficção científica escrita por ele próprio, repleta de sub-texto sócio-político, mas o mainstream se faz sentir no orçamento, de cento e quinze milhões de dólares e no elenco estrelado, cheio de nomes reconhecíveis.
Na trama de Elysium, o planeta Terra de 2154 é um pouco diferente de hoje em dia. A diferença entre ricos e pobres se tornou mais palpável do que nunca após a humanidade esgotar os recursos naturais do planeta, que se transformou em uma gigantesca favela hiper populosa, na sua órbita paira o paraíso artificial de Elysium.
Um habitat sintético erigido em uma estação orbital funcionando como morada dos podres de ricos onde graças à moderna tecnologia não existe privação de nenhuma espécie, nem doenças e nem morte.
Os excluídos do novo mundo, claro, não se conformam com essa situação, muitos pés de chinelo apelam aos serviços de Spider (Wagner Moura), uma espécie de coiote de fronteira high tech, que, pelo preço certo, oferece aos desesperados uma chance de entrar ilegalmente no paraíso artificial dos abastados.
Uma chance pequena já que, para proteger Elysium, a Chefe de Estado Delacourt (Jodie Foster) está preparada para fazer qualquer coisa, inclusive abater naves ilegais cheias de mulheres e crianças.
Alheio a tudo isso, Max da Costa (Matt Damon) tenta levar sua vida na Terra. Ex-condenado por roubos, agressões e outras infrações, Max se esforça para andar na linha trabalhando na fábrica que manufatura os robôs responsáveis por serviços essenciais na Terra e pelo policiamento de Elysium, especialmente após reencontrar Frey (Alice Braga), seu amor dos tempos de criança no orfanato onde cresceu.
Porém, ao ser exposto à uma dose fatal de radiação em um acidente de trabalho, e receber a notícia de que morrerá em cinco dias, Max procura a ajuda de Spider para chegar a Elysium, onde a tecnologia médica disponível poderá salvá-lo da morte certa.
Spider aceita, mas demanda um serviço de Max em troca:
Sequestrar um figurão de Elysium e roubar informações vitais de sua mente.
Para suportar a viagem, e ser capaz de pagar seu preço, Max passa por uma cirurgia que o liga a um exoesqueleto mecânico e chama seu amigo Julio (Diego Luna) para ajudar no trabalho, e também ganhar uma passagem para a estação paradisíaca.
Durante o sequestro, porém, algo dá errado, e Max, acaba de posse de uma brecha no sistema de Elysium capaz de acabar com a polarização da humanidade, isso o coloca na mira de Delacourt, que ativa o mercenário Kruger (um cascudo Sharlto Copley) para impedi-lo de alcançar seu objetivo.
Irregular, talvez seja a melhor forma de definir Elysium.
O filme começa muito bem, a apresentação do cenário convence, e Matt Damon na pele de Max da Costa esbanja carisma, ao menos até ser acometido pelo seu envenenamento, daí em diante, da mesma forma como o personagem vai se tornando mais murrinha, o filme começa a apresentar seus problemas, os mais flagrantes são a quantidade de informação jogada na tela, e a mudança de pegada, acelerando o filme conforme a trama avança apostando na ação em detrimento do tom previamente estabelecido, nada que estrague o filme, mas certamente não ajuda.
O elenco vai bem, Damon acaba prejudicado pela direção que o roteiro dá a Max, mas tem tempo de mostrar o que sabe, Foster é discreta e subaproveitada, Wagner Moura interpreta como se estivesse drogado com metanfetamina, o que, considerando seu personagem, é bacana, Alice Braga e Diego Luna pouco tem a fazer, e Sharlto Copley ruleia com seu sotaque afrikaans, sua barba de papai noel mendigo e sua psicopatia cascuda.
Resumindo: Elysium não entrega o que promete. Está longe de ser um filme ruim, mas a expectativa elevada é sua inimiga. Se tu for ao cinema esperando pouca coisa, provavelmente vai curtir bastante, e não se arrependerá de pagar o ingresso.
"-O que você fez comigo?
-Te dei uma saída..."
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
A Melhor das Hipóteses?
Quando o telefone tocou e ela estava toda chorosa do outro lado da linha ele já imaginou o que era. Não se falavam já tinha algum tempo, exceto por mensagens de celular e eventuais e-mails com imagens ridículas que volta e meia ela mandava pra ele, e que vinham rareando.
Ela estava namorando, não era de agora. Ela dava uma sumida quando se envolvia com alguém, ao menos do convívio dele, o que era natural considerando que se tratava de um heterossexual solteiro e, pior de tudo, ex-namorado.
Quando ele a encontrou, na Borges em frente ao IPERGS, onde ela desceu da lotação, o rosto dela denunciava que não estava bem quase tanto quanto suas roupas, demasiadamente largadas para o padrão dela.
Usava uma calça de ginástica, tênis e uma jaqueta jeans sobre um blusão cinza de gola alta. As canelas finas expostas ao vento gélido que soprava do Guaíba chegavam a estar azuis.
Ele caminhou até ela, e a abraçou sem dizer palavra. A segurou alguns instantes entre os braços, e ela se desvencilhou:
-Para... Para se não eu vou começar a chorar...
-O que houve, alemoa? - Ele perguntou, passando a mão pelo braço dela.
-A vida é uma merda, Ned... - Ela disse, fazendo sinal com a cabeça para que começassem a andar.
-Novidade... - Ele respondeu andando ao lado dela.
Continuaram em silêncio, andando em direção ao shopping, quando estavam na esquina do Marinha com a Ipiranga ela disse:
-Não quero ir ao shopping...
-Não precisamos ir. - Ele respondeu.
Pegaram a Ipiranga e seguiram andando em direção à Praia de Belas, onde entraram, e foram andando até a praça Itália. Ela perguntou se ele queria sentar num dos bancos, ele disse que sim, mas pensou se não seria melhor catar uns cubos de gelo e fazer um iglu. Estava surpreendentemente frio pra uma Semana Farroupilha.
Sentaram num dos bancos da praça, perto do obelisco, e ela se esgueirou à sua maneira, abraçando os joelhos no espaço mínimo do banco sob o olhar divertido dele:
-Eu sempre me impressiono com a tua flexibilidade...
Ela riu sem vontade:
-Pois é... Eu devia colocar isso no meu currículo.
Ele não disse nada. Ela apoiou o queixo nos joelhos e ficou olhando pra frente. Após alguns longos minutos falou:
-Eu fiquei te chamando de idiota o tempo inteiro por causa do teu lance, e acabou que a idiota sou eu, sabia?
-Mesmo? - Ele perguntou.
-Mesmo. - Ela confirmou. -Eu devo ter algum distúrbio.
Ele permaneceu em silêncio. Ela respirou fundo:
-Eu não sei... Na verdade eu acho que nem gostava dele. Só não queria estar sozinha...
-Então tu agiu certo...
Ela suspirou. Ele continuou:
-Não era justo estar com uma pessoa só pra não se sentir sozinha... Não era justo nem com o Gervásio e nem contigo.
-Gerson. - Ela corrigiu.
-Tanto faz. - Ele deu de ombros.
Ela riu, mas voltou a ficar séria.
-Tu tem razão... Não era justo... Mas agora eu tô... Sei lá. Me sinto mal, angustiada porque terminei.
-É natural... Logo passa. Se tu não gostava dele...
-Eu gostava... Gosto. Mas não amo ele... Ele não é o amor da minha vida.
-Claro que não. - Ele garantiu.
-Claro... Porque se fosse eu não teria terminado com ele, né?
Ele a encarou muito sério.
Ela sustentou o olhar por um instante, e então arregalou os olhos:
-Ah, não... Não me diz isso...
Ele não disse nada. Só olhou pra frente.
-Puta merda... Esquece o que eu disse. Tu é que é o idiota. Parabéns. Mesmo se eu fosse idiota, tu me ganha. Tu me ganha por um monte. Tu é idiota em nível olímpico.
Ele assentiu com a cabeça.
Ela tomou fôlego pra falar, mas deteve-se. Ele perguntou:
-Que foi, alemoa?
-Eu ia te perguntar por que, mas nem tu deve saber... Então deixa. - Ela respondeu, irritada.
-Eu sei por que... É porque eu me cansei de magoar ela. De deixar ela triste. De não conseguir cumprir as menores expectativas dela. Ela merece mais do que eu tenho a oferecer agora. Ela ficou brava comigo, chateada... Pensou que eu fiz uma escolha que eu não fiz...
-Vem tu com as tuas neuras de ser julgado injustamente de novo? - Ela atravessou feito um trator.
-Não... - Ele respondeu, francamente. -Não mesmo. Ela tem o direito de pensar assim, mesmo que não seja o caso. Da perspectiva dela provavelmente é o que parece... Pra quem olha de fora, talvez, também. Mas não foi...
-O que aconteceu?
-Eu não quero falar a respeito... Entrar em detalhes. Até porque, cada vez que repasso as coisas na minha cabeça parece pior. Mas foi só uma besteira que eu fiz. Eu não... Eu não tinha nenhuma intenção de magoar ela. Mas conscientemente assumi esse risco, e ela se magoou comigo. Se chateou como eu acho que nunca tinha se chateado antes. A forma como ela falou comigo depois me deixou muito claro que ela estava mais brava comigo do que já havia estado. Mais desencantada, mais triste... Distante.
Ele se ajeitou no banco incômodo. Esticou as pernas pra frente, e deixou o corpo paralelo, apoiando-se nos braços atrás de si. Continuou:
-Então eu percebi que tinha estragado alguma coisa... E que o que eu estava fazendo... Magoando ela e pedindo desculpas, magoando ela e pedindo desculpas, magoando ela e pedindo desculpas... Bom, era o oposto de amar.
-E como é que tu sabe que ela se sentia assim? Como é que tu sabe que ela não entendeu o que houve, que não foi compreensiva - Ele a interrompeu dessa vez:
-Ela deixou claro. Ela deixou bem claro. Ela usou palavras que expressaram exatamente a forma como ela se sentiu. E ela se magoou. Se irritou. E foi justificável. Depois ela escreveu um lance que... Enfim. Deixou bem claro a ideia que ela tinha de mim.
Ele ficou em silêncio, olhando pra frente. Ela tirou as pernas de cima do banco. Olhou pra ele.
-Eu não tenho lido vocês... Vocês andaram falando demais de sexo e eu não me sentia confortável lendo...
Ele sorriu.
-Pois é... Acho que ela e eu estávamos numa seca danada e ainda... Enfim... Acabamos verbalizando.
-Que merda... - Ela concluiu.
-Pois é. - Ele concordou.
Uma lágrima escorreu pelo rosto dela. Ele viu, se endireitou e a aparou com a manga do moletom vermelho-melancia que usava.
-Não chora alemoa... O Gerônimo não era o homem da tua vida...
-Gerson... - Ela corrigiu.
-Nem o Gerson, nem o Gerônimo... - Ele confirmou.
-Não é por isso... É por causa de vocês... Vocês tinham... Vocês têm que ficar juntos. Eu já disse... O que é que tu vai fazer agora, seu traste?
-Não te preocupa. - Ele disse, sorrindo um sorriso cansado. -Nada vai mudar. Ela vai ser sempre o amor da minha vida. Mesmo brigada comigo. Mesmo justificadamente chateada. Mesmo me excluindo da PSN, mesmo mudando o telefone... Ela sempre vai ser o amor da minha vida. Na pior das hipóteses, vai ser aquela lembrança cálida quando eu for um velho cruel que vive sozinho numa casa escura furando a bola das crianças da vizinhança e criando serpentes em grandes viveiros de vidro... No plano médio, minha vida vai se resolver num futuro próximo, e eu vou mandar um e-mail naquele endereço que ela mencionou pra mim, certa vez. E talvez eu nem receba resposta, visto que provavelmente não mereço nenhuma, mas ao menos ela vai ter certeza de que ela era a the one, que sempre foi e que sempre seria.
-E na melhor? - Ela perguntou, fungando e limpando mais uma lágrima fugidia.
-Na melhor? Na melhor, nos encontramos daqui dez anos, quando ela estiver autografando o livro de crônicas dela na Cultura, e a gente vai sair pra dar uma volta e não nos largaremos mais...
-Isso não é de um filme?
-É.
-Vai tomar no teu cu.
Ele sorriu de novo. Agora triste. Ela o abraçou, o xingou mais um pouco, e pediu que ele a levasse até a parada pra ela tomar um táxi, mas ele a convenceu a voltar a pé pra casa, e eles foram, conversando sobre mil coisas que não tinham nenhuma importância, de modo que pela hora e quinze seguintes, ele conseguiu não pensar no amor perdido de sua vida.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Resenha Cinema: Rush - No Limite da Emoção
Eu cresci amando o automobilismo. Até meus treze, quatorze anos de idade quando descobri que gostava de futebol, o único esporte pelo qual eu demonstrava interesse eram o basquete, muito por causa de Oscar Schmidt, e acima de tudo, o automobilismo em geral, mas a Formula 1 em especial.
Domingo, pra mim, era sinônimo de grande prêmio, de torcer por meus pilotos preferidos (Nelson Piquet, Ayrton Senna, Nigel Mansell, Allain Prost, e mais tarde Michael Schumacher, Jack Villeneuve, Damon Hill), beber a adrenalina das corridas, comemorar vitórias, lamentar derrotas e até chorar quando meu herói de macacão e capacete perdia o campeonato (Fiz isso por causa de Nelson Piquet, quando tinha cinco ou seis anos. Fui para baixo da mesa da sala com o meu carrinho Williams azul, amarelo e branco e chorei após uma derrota no GP da Áustria).
Eu era um fedelho tão fissurado, que minha mãe e meu pai eram incumbidos de me acordar de madrugada para acompanhar os GPs da Austrália e do Japão, e assim faziam.
Hoje em dia, com a Formula 1 transformada em um circo sem alma, talhado para movimentar rios de dinheiro e nada mais, perdeu a graça assistir às corridas, acompanhar o campeonato, ficar acordado até altas horas acompanhando os treinos para ver quem sai na pole-position... O esporte perdeu tanto a sua popularidade e a sua emoção, que eu sequer me lembrava do porquê de antigamente gostar tanto de ver as corridas.
Sábado, depois do trabalho, eu fui ao cinema ver Rush: No Limite da Emoção, e me lembrei.
Rush, dirigido com estilo e mão firme por um Ron Howard voltando à sua melhor forma, mostra a rivalidade entre dois pilotos, o britânico James Hunt (o Thor, Chris Hemsworth), e o austríaco Niki Lauda (Daniel Brühl, o Fredrick Zoller de Bastardos Inglórios).
Nos anos setenta a Formula 1 era um esporte de altíssimo risco, repleto de acidentes e com uma média de fatalidades que ultrapassava uma por temporada. Usando esse pano de fundo, Howard e o roteirista Peter Morgan (os dois repetindo a dobradinha do ótimo Frost/Nixon) desenvolvem a relação de dois homens totalmente opostos em tudo, exceto pela excelência na arte de pilotar em alta velocidade.
De um lado Hunt, um playboy mulherengo, agressivo e farrista, disposto a tudo para vencer dentro de um circuito, inclusive se casar, acreditando que isso o tornaria um piloto melhor, e de outro Lauda, um homem de gelo, pragmático, metódico e calculista, aceitando vinte por cento de chance de morrer pilotando, e nada além disso.
Rush acompanha os dois protagonistas, mostrando as diferenças entre os dois dentro e fora das pistas desde o início de suas carreiras na Formula 3, até encontrar seu ápice na temporada 1976 da Formula 1, quando Lauda, correndo pela Ferrari e Hunt, pilotando pela McLaren lutam ponto a ponto pelo título de campeão.
É espetacular, Ron Howard, que nos anos setenta estrelou filmes de corridas como Eat My Dust e Grand Theft Auto (nada a ver com o game), revive seus tempos de velocidade com maestria, cada corrida filmada por ele é sensacional, e apenas a sequência da carona de Niki Lauda na Itália, quando ele conhece sua futura esposa, já coloca todas as perseguições automobilísticas da série Velozes & Furiosos inteira no bolso.
Se a direção invocada de Howard e o roteiro afinado de Morgan se equilibram com maestria entre o drama esportivo e o espetáculo adrenalístico, turbinadas por uma fotografia espertíssima, algo crua e granulada de Anthony Dd Mantle, e uma música espetaculosa de Hans Zimmer, o elenco principal é outro grande trunfo, Chris Hemsworth convence como o boa pinta, cabeça quente e sanguíneo piloto inglês, e Daniel Brühl está simplesmente demolidor como Lauda. As atrizes que interpretam suas respectivas esposas, Olivia Wilde (tão linda que chega a ser irritante), como a modelo Suzy Miller, e Alexandra Maria Lara, no papel de Marlene Knaus repetem as atuações dos maridos, com ambas convincentes, mas a esposa de Lauda brilhando mais. Há, ainda outros nomes reconhecíveis no elenco (Christian McKay, Natalie Dormer, Pierfrancesco Favino e Julian Rhind-Tutt), mas Rush acerta ao não abrir concessões e manter seus dois protagonistas na tela o tempo todo, afinal é a história deles, de sua rivalidade e da velocidade que seguram a a audiência colada na tela até o catártico final.
Excelente filme, corra pro cinema pra assistir.
"Bem vindos à corrida da década!"
sábado, 14 de setembro de 2013
Tu Ainda Vai Me Amar?
Tu ainda vai me amar?
Quando nós estivermos habituados a nos ver diariamente, tu ainda vai me amar?
Quando não houver mais incerteza, quando não houver mais surpresa. Tu ainda vai me amar?
Tu ainda vai me amar quando se habituar comigo? Quando nossa vida for rotina?
Tu ainda vai me amar?
Quando estiver acostumada a viver do meu lado. A dormir e acordar. Tu ainda vai me amar?
Quando a minha língua no teu corpo deixar de te arrepiar, tu ainda vai me amar?
Quando a tua mãe cansar de me odiar, e a minha entender que tu não sabe, mesmo, cozinhar, tu ainda vai me amar?
Quando o entusiasmo passar, e a idade chegar, tu não vai te cansar?
Quando os assuntos se repetirem quando a gente conversar, e minha rabugice te assustar, e eu, sem intenção, te magoar, tu não vai repensar?
E o que eu vou poder fazer pra te convencer a me perdoar? Te convencer que valeu a pena esperar?
Vou te levar à praia pra gente andar na beira do mar.
Te dar um videogame maneiro pra gente jogar.
Um vestido curtinho pra tu vestir e eu tirar.
Vou te beijar.
Te cheirar.
Fazer de ti o meu lugar.
Qualquer coisa pra tu não deixar de me amar.
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Entretenimento Adulto
O Leandro estava sentado na frente da TV jogando videogame, a Raika, sua namorada, estava sentada no sofá a seu lado com o notebook no colo, vez que outra ela o olhava de soslaio, mas ele nada percebia, concentrado que estava no Playstation.
Raika esperou até ter certeza de que ele estava bem, mas bem absorto no jogo, e então disparou:
-Quem é Sasha Grey?
-Quê? - O Leandro perguntou, sem desviar os olhos da TV.
-Sasha Grey, quem é? - Insistiu Raika, fingindo desinteresse na resposta.
-É uma atriz, não é...? Não fez um filme do... O diretor sem noção, aquele... Que faz uns filmes tri bons e outros que não têm explicação de tão ruins... Cronemberg? - Perguntou Leandro, ainda de olhos fixos na TV.
-Cronemberg não é o cara de Gêmeos - Mórbida Semelhança? - Inquiriu Raika, esquecendo-se brevemente de fingir que não tinha interesse na resposta.
-Ah, é... Então não... Não pode ser ele... O Cronemberg só faz filme bom... Soderbergh, pode ser? - Sugeriu Leandro, hesitante.
-Ah... Steven Soderbergh... Sim, acho que sei qual o filme... - Disse a Raika, com uma nota de desapontamento na voz.
-Confissões de Uma Garota de Programa...? -Continuou Leandro, sem certeza e sem se desconcentrar do jogo.
-Ah, tá... Sei quem é... E Silvia Saint? Tu sabe quem é? - Raika disparou, sem dar tempo para Leandro pensar muito.
-Filha do Sílvio Santos? - Ele perguntou, rindo.
-Não, né... - Devolveu Raika, fazendo uma voz de quem fala "dãããã", logo em seguida.
-Então não sei... - Respondeu Leandro com pouco caso.
-Não sabe, mesmo? - Insistiu a Raika, curiosa.
-Não. Quem é? - Devolveu o Leandro, olhando de relance pra namorada para logo em seguida voltar a imergir no que acontecia no televisor.
-Não sei, por isso tô te perguntando. - Ela replicou, bufando.
-Não sei, também... Bota no Google. De repente tu descobre... - Sugeriu Leandro, tentando claramente encerrar a conversa.
-É... Depois eu vejo... E Briana Banks? - A Raika quis saber.
Leandro pausou o jogo e olhou pra ela, de cenho franzido:
-Não é uma militar da força aérea americana?
-Quê? - A Raika se perdera naquela.
-Acho que é... Uma piloto ou médica da aeronáutica dos EUA... Uma coisa assim. - Continuou o Leandro, controle na mão.
-Acho que não estamos falando da mesma pessoa... - Desconversou a Raika.
-Não sei, não, hein? Acho que é essa, sim. Onde tu viu esse nome? - Insistiu Leandro, um aficionado por guerras que lera sobre a médica Brienne Brooks, condecorada no Afeganistão e fez uma confusão danada.
-Não importa, deixa pra lá... - Disse a Raika abanando as mãos.
-Tá bem. - Concordou Leandro, tirando o jogo do pause por breves instantes até a Raika vir de novo:
-E Jenna Jameson, tu sabe quem é?
-Jonah Jameson? - Ele perguntou, sorrindo e pausando o jogo de novo.
-Jenna! Jenna Jameson. - Corrigiu Raika,
-Jenna, eu não sei, mas Jonah é o chefe do Homem-Aranha... - Disse o Leandro, com um entusiasmo que desapareceu conforme não foi correspondido pela cara de paisagem da Raika.
Ficaram os dois em silêncio, ela com o laptop no colo, e ele com o controle entre as mãos. Ali pelas tantas ela não resistiu, se jogou pra frente abraçando-o bem forte pelo pescoço e dizendo:
-Ai, meu amor! Meu coração! Meu tudo! Eu sabia!
Leandro, pego de supetão, pausou o jogo o mais rápido possível e após alguns instantes largou o controle pra corresponder ao abraço. Perguntou:
-Sabia o que, amor?
-A minha amiga, a Fabi, ela me disse que tinha pego o marido dela vendo pornô, aí eu disse que era um horror, isso, homem adulto vendo pornografia. Ela riu de mim e me disse que todo o homem vê pornografia, e quando eu disse que tu, não, ela falou "Claro que vê, inclusive deve conhecer elas todas, só não te fala". Aí eu tentei não pensar nisso, mas toda a hora me vinha nacabeça a Fabi falando que tu via pornografia e conhecia as atrizes, aí pesquisei as mais famosas na internet e fiz esse teste contigo.
O Leandro a olhou incrédulo, brevemente, mas antes que tivesse a chance de falar a Raika juntou as mãos em seu colo e disse:
-Me desculpa, tá coração? Desculpa ter pensado isso de ti. Duvidado da tua hombridade.
O Leandro sorriu balançando a cabeça:
-Imagina, meu amor... Tudo bem... Na verdade eu-
Mas a Raika o interrompeu, agarrando-o pelos ombros:
-Olha, eu vou te compensar por isso, tá? Tu não precisa de atriz pornô, tu vai ter uma mulher disposta a fazer todas as tuas vontades, e, melhor de tudo, exclusiva, só pra ti!
E se levantou, após beijá-lo com uma volúpia inédita:
-Vou tomar um banho bem bom, me perfumar bem, e depois vou te dar tua recompensa no quarto. Termina esse jogo aí que em quinze minutos a gente começa nosso filme adulto particular.
Deu-lhe uma piscada sexy e correu pro banheiro.
O Leandro Nem terminou o jogo, salvou, desligou o videogame e foi correndo tomar uma água pra se hidratar. A verdade é que ele via pornografia sim. E tinha uma atriz preferida, a Nicole Aniston, uma das poucas de quem sabia o nome, além da Stoya. Ele provavelmente já vira algum filme ou pelo menos alguma cena com as que a Raika mencionara em seu interrogatório improvisado, mas era péssimo guardando nomes. Leandro inclusive ia, honestamente, assumir aquela pequeno desvio de caráter.
Concordava com a Fabi. Todo o homem, eventualmente via pornografia.
Mas depois das promessas da Raika não teve coragem... E, se tudo o que ela prometera fosse até parcialmente verdade, ele abriria mão da pornografia eventual de boníssimo grado.
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