Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
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segunda-feira, 1 de setembro de 2014
Resenha Cinema: Lucy
Olhando em perspectiva, a produção cinematográfica de Luc Besson é interessante, sim. Em especial pela preferência que ele tem por apanhar belas mulheres e as tornar protagonistas em um mundo masculino como o dos filmes de ação.
Entre Nikita - Criada para Matar, O Quinto Elemento e O Profissional, sempre há esse elemento algo Joana D'Arc (Ele inclusive dirigiu um Joana D'Arc, mas estranhamente não é dos momentos mais inspirados do diretor francês), da mulher que vira a mesa saindo do papel de vítima para chutar o rabo dos opressores masculinos. Se a pequena Matilda precisava de Léon para essa vingança feminista, Leeloo e Nikita viravam o jogo sozinhas e muito bem, obrigado.
Não é diferente do que Lucy faz nesse mais recente trabalho de Besson, que coloca Scarlett Johansson perfilada à Milla Jovovich, Natalie Portman e Anne Parillaud.
Na trama a jovem Lucy é uma periguete desmiolada que vive em Taiwan frequentando festas e enchendo a cara. Certa manhã, seu namorado da semana, Richard (Pilou Abaek), lhe pede ajuda para entregar uma maleta de conteúdo desconhecido na recepção de um hotel em troca de 500 dólares. Lucy se nega, mas após um golpe sujo de Richard, acaba sendo obrigada a realizar a entrega a um tal de Sr. Jang (Min-Sik Choi).
O Jang em questão, é um mafioso casca-grossa. Dentro da maleta, há uma remessa de drogas, e Lucy recebe uma nova missão compulsória, a de ser uma mula e transportar a droga em questão, um composto sintético chamado CPH4, até Paris.
Um imprevisto ocorre, porém, e o pacote de drogas no corpo de Lucy se rompe. Quando seu corpinho gostoso absorve o composto, uma reação inesperada faz com que ela seja capaz de acessar uma porcentagem cada vez maior de sua capacidade cerebral, a dotando de poderes fabulosos.
Com a ajuda do professor Norman (Morgan Freeman) e do capitão da polícia francesa Pierre Del Rio (Amr Waked), Lucy usará seus poderes cada vez maiores e mais espetaculares para impedir seus algozes de lucrar com a droga em questão, mas também para tentar partilhar com a humanidade os prodígios que apenas uma pessoa usando 100% de sua capacidade cerebral é capaz de realizar!
Eu já disse isso de outros filmes, e vale pra esse, também:
É ruim, mas é bom.
Besson acertou a mão ao escalar Scarlett Johansson para o papel. Mesmo sem ser uma atriz genial, ela consegue expôr a fragilidade da personagem antes de adquirir seus super-poderes, e, sendo a Viúva Negra em pessoa, tira de letra a versão "exterminadora do futuro/Jedi/Johnny Depp em Transcendence" que é a Lucy pós-acidente.
Fazendo seu tradicional joguete de paisagens cartão-postal da Europa mesclada à trilha sonora ligeirinha e boas sequências de ação, o diretor francês torna os 89 minutos de Lucy ainda mais velozes e inofensivos, e, com sua história ajeitadinha, ainda que cheia de absurdos, e didatismo excessivo (A função do personagem de Morgan Freeman no filme é unicamente a de traduzir textualmente o que vemos acontecer na tela com Lucy), diverte por aquela hora e meia.
No mais, ainda que nada mais funcionasse, ver Scarlett se equilibrando sobre saltos-altos espremida dentro de um vestidinho estampado mais justo que a ira divina já valeria uma espiada.
No cinema só pra quem é fã de Besson, Scarlett, Freeman e girl power na veia, no DVD pra todo mundo mais.
"-A ignorância traz caos, não o conhecimento."
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Resenha Cinema: Magia ao Luar
Jurava que ontem era dia de assistir Scarlett Johansson chutar bundas em Lucy, mais recente extravagância cinematográfica de Luc Besson, mas, ao chegar ao cinema, me deparei com o pôster de Magia ao Luar, e, ainda que não soubesse nada a respeito do filme, o elenco interessante, com Colin Firth e Emma Stone, ergueram minhas orelhas, especialmente porque, logo ali embaixo, estava o nome de Woody Allen.
Embora o diretor norte-americano não agrade todo mundo, nos últimos anos tenho assistido apenas ótimos filmes dele, e ainda me remoía por não ter ido ao cinema ver Blue Jasmine, de modo que a comédia romântica que o pôster sugeria, podia ser uma boa forma de me redimir e passar 97 minutos agradáveis.
Dito e feito.
No longa conhecemos Stanley Crawford (Firth), um ilusionista britânico de grande sucesso que viaja o mundo num espetáculo onde encarna Wei Ling Soo, um misterioso mago do extremo oriente (Com direito a maquiagem clichê completa com bigode longo, touca simulando careca e olhos puxados).
A despeito de ganhar a vida com mágica, Stanley é um homem da razão. Um incréu misantropo niilista e cínico para quem tudo deve ser provado por A mais B.
Logo, ele é a escolha ideal para seu amigo Howard (Simon McBurney), também um ilusionista e amigo de infância, que está tentando ajudar um casal próximo com um problema. O psicanalista George (Jeremy Shamos) teme que a mãe e o irmão de sua esposa, Caroline (Erica Leershen), estejam sendo vítimas de um golpe.
Ambos acolheram uma jovem que afirma possuir poderes paranormais, após sucessivas demonstrações dos dons da jovem, enquanto a matriarca Grace (Jacki Weaver) planeja usar a fortuna da família para financiar um centro para a jovem ensinar seu dom ao mundo, o filho Bryce (Hamish Linklater) deseja se casar com ela.
George e Caroline chamaram Howard para descobrir o que havia por trás dos "poderes" da jovem, Howard, porém, confessou ser incapaz de encontrar falhas nas demonstrações dela, mas, Stanley, um ilusionista de grande calibre, deveria ser capaz de fazê-lo.
Intrigado e ansioso por expôr a charlatã, Stanley aceita a proposta do amigo, e parte para a Riviera Francesa.
Lá, ele conhece a bela Sophie (Emma Stone) e sua mãe (Marcia Gay-Harden), e se põe a preparar o ardil para desmascará-las. Mas enquanto é confrontado com os dons da jovem sem ser capaz de explicá-los, Stanley se vê diante de um dilema que considerava impensável:
E se ela for, de fato, o artigo genuíno?
É muito bacana.
Muito mais próximo do clima agridoce de Tudo Pode dar Certo do que do cinismo pleno da tragédia de Blue Jasmine, Magia ao Luar traz todos os truques do baralho de Allen em uma experiência das mais agradáveis.
Com a trilha sonora cheia de jazz, a luz morna na fotografia e boas performances do elenco, Allen se dá bem com seu alter-ego, um Colin Firth exalando cinismo e uma boa dose de auto-indulgência e neurose controlada, bem superior a Jason Biggs e Owen Wilson (Embora meu favorito ainda seja Larry David), mas especialmente na mocinha.
Longe do talento quase aflitivo de Cate Blanchett ou das curvas deliciosas de Scarlett Johansson, Emma Stone tem um espetacular tempo de comédia, e uma doçura inerente que a tornam perfeita para o papel de Sophie.
Com seus enormes olhos verdes encarando o infinito durante seus acessos de vibração mediúnica, ela faz rir de imediato, e sorrindo ao comer pêssegos à luz do sol poente na Riviera Francesa, faz suspirar.
Esse par romântico absolutamente desparelho (Firth podia ser pai de Emma Stone) funciona que é uma beleza no libelo de um Woody Allen que está claramente envelhecendo, e embora veja na beleza juvenil de Emma Stone uma fagulha de esperança na magia, tem na carranca pretensiosa e esnobe de Firth os pés bem firmes no chão.
É bom envelhecer assim.
"-Você nasce, não comete nenhum crime, e então é sentenciado à morte."
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
Médias
Era a segunda metade da hora de almoço. Andavam juntos, protegendo-se da chuva. Ele segurava uma sacola de compras no pulso enquanto sacava algo lá de dentro. Era uma caixinha de papelão azul. Ele abria a embalagem com dificuldade, ela segurava o guarda-chuva enquanto andavam contra o vento. Uma lufada mais forte fez com que ela lutasse pra manter o guarda-chuva sobre ambos, com o movimento, ela baixou a proteção e arranhou o topo do crânio dele, arrancando do conjunto alguns fios do seu coque samurai improvisado.
-Âe... - Ele exclamou... -Tá querendo me arrancar o escalpo, criatura?
-Pensa positivo - Ela disse passando a mão na cabeça dele e colocando os fios mais ou menos de volta no lugar. -Se eu fosse baixinha estaria te furando o olho...
-Se tu fosse baixinha eu me casava contigo. - Ele respondeu.
Ela olhou pra ele fazendo cara de confusa. Ele suspirou:
-Dos males, escolhe-se sempre o menor.
-Eu estava com saudades de ti, mesmo tu sendo um cretino de vez em sempre... - Ela disse, dando-lhe um abraço de lado, e deitando a cabeça no ombro dele.
Ele riu, retribuindo o amplexo e a trazendo pra junto de si.
-Também estava, alemoa. - Estalou um beijo na cabeça dela. O cabelo cheirando a maracujá. Se soltaram e ele e estendeu a caixinha de bombons pra ela, que apanhou um e olhou brevemente:
-Eu mordo isso ou como inteiro...?
-Eu sugiro que tu coma inteiro, isso é recheado com sorvete, já está fora da geladeira a algum tempo, o sorvete derreteu... Se tu morder isso vai escorrer pelo teu queixo e vai ser um lance quase erótico...
Ela deu um soco no braço dele e caiu na risada enquanto jogava o bombom inteiro na boca. Fez um ruído de satisfação:
-Hmmm... Que bom isso...
Ele comeu um e concordou:
-Bom, mesmo... E isso que esse é um genérico da Sorvelândia. A Kibon faz uma caixinha de mini eski-bon que é de comer de joelho...
-Deve ser bom...
Entraram no prédio onde ele trabalhava e sentaram na escada.
-E então, loura - Ele disse, largando as sacolas no chão, entre as pernas. -Por que esse convite súbito pra almoçar após esse longo período de trevas? Tem alguma grave revelação pra me fazer? Encontrou o amor da tua vida? Tá grávida? Vai voltar pra Argentina ou pro teu planeta natal?
Ela ficou séria olhando pra ele. Chegou a tomar fôlego pra dizer algo, mas deteve-se e sorriu.
Começou de novo, calmamente:
-Não... Nada disso. E não seriam só essas coisas que me fariam te ligar... A gente é amigo. As coisas andaram estranhas entre nós... Eu queria normalizar. Isso é errado?
-Não. - Ele respondeu sorrindo. -Não mesmo. Eu gosto de te ter por perto...
Ele estendeu a caixinha e ela pegou outro bombom.
Ele perguntou:
-E aí? Tem ido ao cinema ou só assistido espetáculos de dança folclórica javanesa?
-Deus pai, foi só uma vez, e era polonesa... Mas não... Não tenho ido ao cinema, mas tenho alugado um monte de filmes, inclusive, obrigada, tenho seguido algumas indicações tuas. Vi o Capitão-América 2, essa semana. Bem bom, mesmo...
-Maneiro, né? Não gostei da mocinha nova, mas o filme é maneiro...
-Quê? Tu não gostou da Scarlett Johansson, a tua adorada musa com corpo de "mulher de verdade"?
Ele riu.
-Claro que gostei, mas a Scarlett não é minha musa, e a Viúva Negra não é mocinha de filme nenhum, ela provavelmente é o personagem feminino mais forte do cinema nerd desde a princesa Leia. A mocinha nova é aquela guria que faz Revenge... Alguma coisa Van Camp, eu acho...
-Não me lembro dessa... - Ela reconheceu, pegando outro bombom da caixa.
-Meu ponto exatamente. Tu bota aquela guria sem graça no filme perto do potentado que é a Scarlett Johansson e ela desaparece. Especialmente no Capitão América, que teve a mocinha mais bonita dos filmes de super herói recente no primeiro...
-Quem era essa mocinha nova...?
-A enfermeira que morava no mesmo prédio dele, mas era da SHIELD...
-Ah, tá... Tá, já sei. A guria do Everwood...
-Isso.
-Sem graça, mesmo. Mas peraí... Quem era a que tu acha a mais bonita delas todas?
-A mocinha do primeiro Capitão América. A Peggy Carter.
-Bah... Dessa eu não me lembro, mesmo... - Ela reconheceu num suspiro.
-Ela aparece no segundo, mas tá maquiada pra parecer velha... - Ele tentou.
-Não lembro, mesmo...
-Ela fazia aquela série, Os Pilares da Terra. Era a Aliena... - Ele tentou novamente, usando uma referência que ela poderia entender já que era fã da mini-série em questão.
Ela ergueu as sobrancelhas como quem lembra:
-Ah, tá... Tá, já sei quem é... - Parou brevemente e olhou pra ele com o cenho franzido:
-Sério que tu acha ela a mais bonita?
-Sim. - Ele disse, cobrindo a boca cheia e mastigando outro bombom.
Ela se inclinou pra frente:
-Ai... Eu não sei se ela é bonita...
-Como não é bonita? A mulher é linda... - Ele protestou, se escorando pra trás.
-Peraí, peraí... A gente tá falando da mesma mulher? Aquela que é militar e tal? - Ela quis saber, fechando os olhos como se tentasse visualizar a pessoa em questão.
-Sim. - Ele disse. -Cabelos e olhos castanhos, bocão, maxilar mais quadrado... Alta, peituda...
Ela riu.
-Quando tu coloca dessa forma eu entendo porque tu acha ela a mais bonita...
-Nem vem - Ele protestou. -Tu, mais do que ninguém sabe que eu não sou nenhum terneiro que se derrete por peitos. Sempre fui muito mais um homem de pernas e de bundas femininas...
-Isso fere - Ela disse, fazendo cara de triste e cobrindo os próprios seios com as mãos.
Os dois riram. Ele estendeu mais um bombom pra ela, que pegou. Antes de levá-lo à boca disse em desafio:
-Mais bonita que a Natalie Portman?
Ele pensou brevemente. Era um fã declarado da Natalie Portman.
-Na verdade... Tão bonita quanto, mas mais sexy. A Natalie Portman é meio chatinha fazendo Thor. Devo confessar que, em Thor, acho a Jaimie Alexander, que faz a Sif, muito mais bonita, mas sou tarado, mesmo, é pela Kat Dennings...
Ela ergueu as mãos:
-Meu Deus... Eu não consigo guardar o nome desse povo todo...
Ele comeu outro bombom:
-Sif, morena, olho castanho claro, usa armadura, é amiga do Thor em Asgard... Fazia Kyle XY...- Tentou.
-Ah, tá. - Ela interrompeu. -Ah, aquela guria é linda...
-Sim. - Ele concordou. -Mas a Sif não é uma mocinha. É uma guerreira durona que sabe se cuidar sozinha. Assim como a Darcy Lewis, da Kat Dennings, não é mocinha, é alívio cômico...
-Ah, tá... A tetuda aquela, morena de olho azul... Já sei quem é, também... - Ela disse com pouco-caso. -Mas... E a Liv Tyler?
-Francamente, acho bonita, mas superestimada... Não vejo essa graça toda nela. - Ele disse, olhando pra rua.
Ela matutou mais um pouco. Suspirou.
-E... A... Hum... Deixa ver... E a... Não... A Gwineth Paltrow é sem graça...
-Total... - Ele concordou.
-Ah, já sei, a Amy Adams! - Ela disse, iluminando-se.
-Acho muito bonita, mas ainda acho a Hayley Atwell mais interessante no conjunto.
-E a mulher-Gato? - Ela perguntou.
-Michelle Pfeiffer, Anne Hathaway, Halle Berry, Julie Newmar ou Lee Meriwether? - Ele quis saber.
-Hã? Que? Quem? - Ela perguntou confusa, pegando outro bombom.
Ele riu.
-Citei todas as Mulher-Gato de quem eu lembrei... Ainda tá faltando uma... Teve uma outra Mulher-Gato negra antes da Halle Berry, no seriado do Batman do Adam West, mas eu não me lembro do nome dela... Hearta Kitty... Alguma coisa assim... - Ele franziu a testa tentando lembrar.
-Tá, mas eu tava falando da última... Daquele filme com o cara que quebra o Batman... - Ela restringiu.
-Bane. - Ele acudiu.
-Isso... Lindão... - Ela suspirou.
Ele olhou pra ela fazendo uma expressão entre o surpreso e o enojado.
-Quê? Ele é bonito. - Ela se defendeu. -Tu já viu um filme com ele e a Reese Whiterspoon, que também tem outro cara...
-O capitão Kirk. Eu sei que filme é... Não lembro o nome e nunca vi todo...
-Bom, não importa, ele é bonito. - Ela sentenciou.
-Se tu diz...
Ela continuou:
-E aí? A Mulher-Gato?
-A Anne Hathaway é muito bonita, mas não tanto quanto a Hayley Atwell, nem é, exatamente, uma mocinha. A Mulher-Gato é meio Viúva-Negra e Sif, pra mocinha não serve. De qualquer forma, há pelo menos três Mulher-Gato mais bonitas que a Anne Hathaway. A Michelle Pfeiffer era linda quando fez o papel, e a Julie Newmar e a Lee Meriwether até hoje habitam meus sonhos.
Ela riu.
-Tá... Então é a Hayley Atwell, mesmo...
-É... Pode não ser a mais bonita, pode não ser a mais atraente, pode não ser a melhor atriz, mas tem a melhor média. - Ele explicou.
-Entendi. - Ela disse.
Ele estendeu a caixa de bombons pra ela:
-Ó... É o último.
Ela pegou:
-Obrigada, cavalheiro, você é muito gentil. - Ela disse, fazendo uma voz engraçada e uma pronúncia de candidato a vereador lendo teleprompter.
Ele olhou o relógio, e disse:
-Uma hora... Tenho que retomar meu posto.
Levantou-se e a ajudou a fazer o mesmo. Deu-lhe um abraço apertado e um beijo estalado no rosto, que ela retribuiu dobrado, um em cada bochecha.
-Tchau, alemoa. De novo outro dia?
-Semana que vem... Segunda, pode ser? - Ela perguntou.
-Combinado. - Ele concordou.
Quando começou a subir a escada percebeu que ela estava parada junto à porta, olhando pra ele.
-Que foi...? - Perguntou, desconfiado.
-Esse lance da guria d'Os Pilares da Terra... Da média... - Ela começou.
-Hã? O que tem? - Ele quis saber.
-Tu faz a mesma coisa pra decidir quem vai ficar contigo?
Ele balançou a cabeça brevemente...
-Não... Não sei... Não conscientemente, eu diria. Mas talvez... É natural, não é? Pesar prós e contras... Quem é mais bonita... Quem é mais inteligente... Mais legal, te faz mais feliz... Não é como fazer uma listinha com duas colunas coloridas igual o Ross, mas... Acho que na hora de escolher a gente toma a decisão baseado nos prós e contras, cria numa média e aí decide baseado nisso... Não é?
Ela olhou pra ele, mas desviou os olhos um segundo.
-Acho que seria a coisa mais racional pra fazer... - Concordou. -Mas a gente nem sempre é racional, não é?
-Não. - Ele assentiu.
-Se eu te perguntasse qual a minha média, o que tu diria?
Ele sorriu:
-Tu é uma amiga nota dez, alemoa.
Ela riu forçado.
-E namorada?
Ele, ainda sorrindo, disse:
-Aí a tua média cai um pouco.
Ela subiu as escadas rapidamente com as pernas compridas, e o abraçou novamente.
Quando começou a descer as escadas ele perguntou:
-E aí? Ainda estamos de pé pra segunda?
-Sim. - Ela disse sem virar.
E completou:
-Quando tu for escrever sobre isso, eu não quero ser o Everaldo numa daquelas crônicas do bar do Paulo Roberto.
Sem Vencedores
Viram essa?
Segundo o site Hitfix, a Warner estabeleceu uma regra mandatória para sua nova produção cinematográfica que deve culminar com a criação de um universo cinemático à imagem e semelhança do criado pela Marvel em seus super-filmes:
Sem piadas.
Isso mesmo. De acordo com o repórter Drew McWeeny, embora ninguém tenha assumido tal normativa de maneira pública, ele já ouviu pelo menos cinco vezes a resolução da Warner com relação aos filmes de super-heróis da DC.
Sem Piadas é o mantra da hora com relação ao universo cinematográfico que deve culminar com o filme da Liga da Justiça.
Considerando o que se viu em O Homem de Aço, um filme sem nenhum único momento de leveza, é difícil não acreditar, especialmente após o violento fiasco que foi a tentativa da DC de fazer um filme de super-herói mais leve e divertido com o Lanterna Verde estrelado por Ryan Reynolds.
A questão é que a pegada grave demais de O Homem de Aço não chegou a ser unanimidade. Eu sou uma das pessoas que gostou do filme, já disse, inclusive, que achei O Homem de Aço o segundo melhor filme de Superman já feito perdendo apenas para o Superman - O Filme de Richard Donner. Mas as bilheterias não mentem. Um filme do maior herói de todos os tempos, com uma produção caprichada, cheia de cobras, um bom elenco, e em 3-D, fazendo menos de 700 milhões de dólares em bilheterias, é um sinal bastante óbvio de que nem todo mundo curtiu a ideia.
Se a resolução da DC/Warner for pensando em abraçar o tom sombrio e realista dos Batman de Christopher Nolan, é um equívoco. Os filmes das trilogia Cavaleiro das Trevas eram soturnos e dramáticos mas não abriam mão das piadas e dos alívios cômicos. Não bastassem as tiradas sarcásticas de Alfred e de Gordon, o próprio Bruce Wayne era dono da melhor piada da trilogia (Quando prestes a revelar sua identidade para impedir a onda de assassinatos do Coringa, é confrontado com a pergunta de Alfred "Suponho que eu também serei preso como cúmplice?".), provando que se pode fazer um filme que se leve a sério sem torná-lo um dramalhão mexicano ou uma tragédia grega.
Se a decisão de deixar as piadas de fora é apenas uma contrapartida ao cinema dos estúdios Marvel, composto praticamente de comédias de ação, a DC dá um tiro no próprio pé, pois a Marvel já demonstrou em Capitão América - O Soldado Invernal, que é capaz de fazer blockbusters de qualidade sem a muleta da piada a cada dois minutos, que, diga-se de passagem, foi assumida de vez em Guardiões da Galáxia e funcionou que foi uma beleza, novamente.
Enquanto se preocupa demais com o que a Marvel faz ou deixa de fazer, a DC se apequena num duelo que não precisa ter perdedores.
A Marvel começou a edificar seu universo cinemático dividindo espaço com os espetaculares filmes do Batman do Nolan sem que ninguém precisasse abrir mão de nada no processo.
Se a DC/Warner apenas se preocupar em fazer os melhores filmes possíveis com seus personagens, vai faturar uma grana federal, e dividir o mercado com a Marvel como fazem nos quadrinhos desde os anos trinta.
Se continuar abrindo mão da alma para ver "quem pisca primeiro" nesse duelo besta com a Marvel, todo mundo perde.
A Marvel, que sem competidores pode se estagnar.
A DC/Warer, que não conseguirá emplacar seus heróis além do Batman nas telonas.
E especialmente o público, que não poderá curtir filmes qualificados com todos os heróis que aprendeu a amar nas páginas dos quadrinhos.
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sexta-feira, 22 de agosto de 2014
Resenha Cinema: Os Mercenários 3
Ah, a celebração da testosterona... O prazer de dizer ao mundo "Nós não estamos velhos demais pra isso."... A liberdade de fazer filmes sem saber atuar... Todas as maravilhas que apenas o cinema hollywoodiano oitentista oferece, de maneira rediviva, na cinessérie Os Mercenários.
O festival de músculos e rugas iniciado por Sylvester Stallone em 2010 segue após o episódio de 2012 trocando algumas caras amassadas por outras e adicionando um pouco de sangue novo à mistura.
No arremedo de trama dirigido por Patrick Hughes, os dispensáveis de Barney Ross (Stallone), Lee Christmas (Jason Statham), Gunnar Jansen (Dolph Lundgren), Tool Road (Randy Couture) e Hale Caesar (Terry Crewes) partem para uma missão de resgate, arrancando o colega Doc (Wesley Snipes) da prisão onde ele esteve nos últimos oito anos.
Após causar a quantidade tradicional de destruição gratuita, eles partem para Mogadíscio, na Somália, onde foram contratados pela CIA para dar fim a um perigoso traficante de armas chamado Simms.
Ao chegar ao local, Barney e seu grupo descobrem que o tal Simms na verdade é Conrad Stonebanks (Mel Gibson), um dos fundadores do grupo, dado como morto anos antes.
A missão fracassa, um dos membros é gravemente ferido, e Stonebanks escapa.
Temendo pela vida de seus companheiros, Barney dissolve o grupo, mas é coagido pelo agente Drummer (Harrison Ford) a continuar a caçada.
Para isso, ele recorre a Bonaparte (Kelsey Grammer), que o ajuda a montar uma nova equipe de jovens mercenários incluindo o especialista em armas Mars (Victor Ortiz), o hacker Thorn (Glenn Powell), a lutadora Luna (A campeã do UFC Ronda Rousey), e Smilee (Kelan Lutz).
Porém, talvez mesmo a combinação da experiência de Barney com os recursos e a vitalidade de seu novo grupo sejam insuficientes para capturar Stonebanks, um sujeito tão obstinado e perigoso quanto qualquer membro do time original de Ross.
É ruim, mas é bom.
O festival de auto referência (do "get to the choppa de Trench ao "I am the Hague de Ross, passando pelo "evasão fiscal" de Doc ou o fato de Drummer ser um piloto de helicóptero e mencionar que o Church de Willis está "out of the picture", e o background SRRS de Stonebanks...) e não-atuações dos mercenários (reforçado por Snipes, Lutz e Rousey, que têm todo o espectro emocional de um naco de presunto cru) é quebrado pela adição de quatro atores de verdade ao elenco.
Kelsey Grammer, que rouba o espaço que talvez pertencesse a Mickey Rourke com mérito, Harrison Ford, que assume o lugar de Bruce Willis, numa substituição que acrescenta, e, especialmente Antonio Banderas, roubando totalmente a cena com seu mercenário Galgo, o espanhol que não para de falar nunca, se sente mais jovem do que de fato é, e precisa de um serviço porque matar gente é a única coisa que sabe fazer, e é muito bom nisso, além, claro, de Mad Mel Gibson, que interpreta o melhor vilão da franquia até aqui, merecia mais tempo em cena e deveria ter matado mais gente (Todos os jovenzinhos e um ou dois membros originais, talvez?).
É graças a esses quatro, às boas sequências de ação e à assumida comicidade do filme (que ainda tem o retorno de Schwarzenegger como Trench e Jet Li como Yin Yang) que nós podemos perdoar os efeitos especiais com cara de série de TV e o roteiro todo esburacado.
Que venha Os Mercenários 4, mas que sumam com os jovens mercenários e mantenham só os vovôs briguentos. Eles é que têm permissão pra quebrar tudo com zero talento dramático.
"-Quão difícil pode ser matar dez homens?"
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
Resenha DVD: O Grande Mestre
Eu sou um admirador confesso de filmes de artes marciais chineses. Sou fã declarado do cinema de Jackie Chan e Jet Li antes de serem descobertos por Hollywood, inclusive tenho, em casa, alguns DVDs de filmes de Hong Kong de ambos, e, volta e meia, pesco nas madrugadas da TV a cabo, filmes antigos de Bruce Lee, e os filmes em que Donnie Yen interpreta o mestre Ip Man, legendário herói das artes marciais chinesas que foi retratado em pelo menos outros quatro filmes antes de Wong Kar Wai dar sua visão da biografia do homem que treinou Bruce Lee.
No longa, Ip Man (Tony Leung) vive pacificamente na província de Foshan, no sul da China. Um respeitado mestre de kung-fu do estilo Wing Chun, Ip Man diz que, se a vida fosse dividida em estações, seus primeiros quarenta anos, teriam sido a primavera.
Tudo muda, porém, quando, durante uma visita do grande mestre Gong Yutian (Qingxiang Wang), Ip Man se oferece para representar o sul em um desafio.
Vencedor, Ip Man precisa lidar com os desafios frequentes de lutadores de todas as partes, bem como lidar com o desejo de vingança da filha de Gong Yutian, Gong Er (Zhang Ziyi), inconformada com a derrota do pai.
Paralelo a tudo isso, começa a segunda guerra sino-japonesa, obrigando Ip Man a viajar a Hong Kong, e lutar pelo sustento de sua família com seu caminho seguindo paralelo ao de Gong Er e sua busca por vingança pela morte do pai.
Devo confessar que estranhei a forma de Kar Wai abordar a vida de Ip Man.
Após os filmes recheados de pancadaria estrelados por Donnie Yen, O Grande Mestre soa lento e reflexivo, e de fato o é.
A figura de Ip Man no longa de Wong Kar Wai, com seu casaco/batina estilo Neo em Matrix Revolutions e seu estiloso chapéu branco é a impassividade em pessoa, e tem na sanguínea Gong Er de Zhang Ziyi seu contraponto perfeito, pois, de fato, O Grande Mestre de Wong Kar Wai é um filme sobre a filosofia das artes marciais, muito mais do que artes marciais em si.
Ainda que tenha uma série de boas sequências de luta (todas coreografadas pelo papa do wire work Yuen Woo Ping), a verdade é que o longa empolga muito mais pela casta sugestão de romance entre Ip Man e Gong Er, pela belíssima fotografia de Philippe Le Sourd e pela reverência pela experiência e pela longevidade em detrimento da força pura e simples que o roteiro de Jingzhi Zou e Haofeng Xu (e do próprio Wong Kar Wai) ilustra em um delicado espetáculo que demanda certo nível de concentração e paciência da audiência em seus 130 minutos.
Não é filme pra qualquer platéia, mas é certamente um belíssimo esforço de realização cinematográfica.
Vale a locação.
"-Eu tenho acompanhado sua performance na grande ópera da vida. Você demonstrou grande senso de momento e habilidade; entretanto, você jamais foi além do papel que interpreta.
-Eu não fazia ideia que que possuía tão ardente espectador."
Comigo na Madrugada
Eu me peguei te querendo do meu lado.
Querendo conversar contigo... Que tu estivesse ali, comigo, naquela madrugada...
Foi algo súbito, no meio da noite. Me imaginei conversando contigo, deitado do teu lado, contigo nua, enrolada nas cobertas. Eu sei, é estranho, tu dormiu nua comigo poucas, pouquíssimas vezes... Mas eu acho bonito quando a mulher dorme nua com o homem. Eu vejo, além, claro, da beleza que é uma mulher, especialmente uma como tu, nua, um lance de confiança... De cumplicidade... Um negócio de ausência de temores e pudores que requer um determinado grau de intimidade que, pra mim, é crachá de amor verdadeiro.
E eu me flagrei pensando nisso... Em ti, nua do meu lado, e na gente conversando... Não formulei todo o cenário... Não sei se essa conversa hipotética se deu depois de uma sessão de sexo suado, barulhento e resfolegante, ou antes de uma sessão de sexo íntimo e silencioso, bem estilo namoradinhos, com os dois abraçadinhos e arfando baixo... Não sei nem se tinha sexo envolvido, ou se tu apenas teria saído do banho, e estando um dia de temperatura mais amena, e tu, antevendo o calor que sentiria quando eu, dormindo, colasse meu corpanzil no teu, resolveu se precaver e se livrar do pijama para que não ficasse suado... Nada disso eu formulei...
O que eu pensei, é que tu estaria nua, vagamente coberta por uma colcha, deitada do meu lado, e eu estaria deitado de barriga pra cima, segurando a tua mão, e nós estaríamos conversando.
Eu não sei se eu estaria, também, nu. Provavelmente não... Tu sabe como eu sou tímido. Até banho junto contigo eu tinha vergonha de tomar embora a possibilidade de estar sob o chuveiro contigo sempre me excitasse demais, ou talvez por isso...
Mas eu seguraria tua mão... A ponta dos teus dedos, e nós conversaríamos. E vez que outra, eu puxaria tua mão até os meus lábios e sapecaria um beijo estalado nas costas e na palma da tua mão.
E falaríamos de amenidades... De bobagens... Curiosidades e até algumas graves ponderações...
Eu te diria que tem um velhinho que faz compras no Zaffari da Fernando Machado todo o dia perto do meio-dia que é tão igual ao Grand Moff Wilhuff Tarkin que eu já quis tirar foto com ele, e tu me entenderia. Eu te diria que no domingo eu não saio de casa, e tu não entenderia. Eu te diria que existe uma ordem certa pra assistir aos filmes do Indiana Jones que não é a ordem em que foram lançados, e tu quereria assistir nessa ordem pra ver se notava diferença. Eu te diria que uma mulher usando o perfume que eu te dei apareceu no meu trabalho, e ainda que ela não fosse atraente ou sequer simpática, a presença de um cheiro que eu associo a ti, meu deixou inebriado, e tu sorriria. Eu te diria que eu te amo, que tu me ensinou a ser um homem na acepção da palavra, e que, sem ti, eu me vejo desnorteado, despreparado, desprevenido, e que era ótimo não precisar sentir isso, de de lambuja, ainda poder sentir teu cheiro nas minhas mãos, e aí, viria a calhar tu estar despida, pois eu iria querer demonstrar o quanto eu te quero, beijando cada milímetro cúbico de pele descoberta que eu encontrasse entre o teu cabelo e os dedos dos teus pés... Ali... Comigo naquela madrugada... E em todas as madrugadas por vir...
Mas tu estava longe... Sabe Deus quão longe, e o silêncio reinou a madrugada toda...
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