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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Até Injusto

De férias longe de tudo e de todos. Quase sem internet, só TV aberta, ou o mesmo que sem TV, assistindo apenas um eventual noticiário e os DVDs do Seinfeld. De constante, mesmo, só o rádio.
De súbito, a propaganda do Ministério da Saúde declara, ufanista, que um mosquito não pode ser mais forte que um país.
O comercial se refere, claro, ao Aedes Aegypti, mosquito que espalha a dengue, a chikungunya e o Zika vírus, e ao Brasil.
Mesmo na beira da praia, sentado na areia com o cachorro do lado sentindo a brisa marinha diante de um mar quase irreconhecível no litoral gaúcho, de tão limpo e calmo, percebo a gordona de biquíni rindo enquanto sua prole joga um saco de salgadinho no oceano.
O mosquito não precisa ser mais forte.
Ele vence a guerra sendo mais inteligente.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O Trailer Final de Batman vs Superman: A Origem da Justiça

Saiu a prévia final (eu duvido, vamos ser inundados de spots de TV nas próximas semanas, mas vá lá...) de Batman vs Superman: A Origem da Justiça, filme que colocará frente a frente os maiores pesos pesados do universo DC. Entre os grandes momentos da prévia, que incluem um ataque do homem-morcego à bandidagem recheado de ossos quebrados, nenhum supera o Alfred de Jeremy Irons falando "master Bruce", nem mesmo o bloqueio "olhe só como sou fodão" do morcego ao final.
Confira:



Pode começar a roer as unhas. Batman vs Superman: A Origem da Justiça, dirigido por Zack Snyder a partir de roteiro de Chris Terrio é estrelado por Ben Affleck, Henry Cavill, Gal Gadot, Jesse Eisenberg, Amy Adams, Laurence Fichburn, Diane Lane e outros. O filme que marca o início do universo cinematográfico DC estréia em 24 de março.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Resenha Cinema: O Regresso


O nome de Leonardo DiCaprio no pôster de um filme é garantia de qualidade.
O astro de Titanic simplesmente não sabe escolher maus roteiros pra estrelar.
Parece um poder mutante de alguma espécie, mas a presença de DiCaprio, sozinha, vale a deferência da ida ao cinema, a qualquer filme.
Esse, sozinho, já era motivo para estar na fila do cinema pra ver O Regresso, que estreou ontem.
Mas O Regresso tem ainda mais a oferecer.
O longa é dirigido por Alejandro Gonzáles Iñarritu, vencedor do Oscar de melhor diretor do ano passado com Birdman, um filme que, para esse humilde blogueiro, não é, nem de longe, o melhor da carreira do cineasta por trás de Amores Brutos, Babel e Biutiful, mas abocanhou prêmios e mais prêmios em 2015, de modo que aí já temos dois bons motivos pra conferir o longa que conta a tenebrosa história de sobrevivência e vingança de Hugh Glass (DiCaprio).
Glass é um homem da fronteira selvagem dos EUA na década de 1820. Ele e seu filho mestiço Hawk (Forrest Goodluck), guiam um grupo de peleiros por uma região inóspita sob domínio indígena. Após um ataque de índios que mata três quartos do grupo, e do qual os restantes escapam por muito pouco em um barco, o líder da expedição, capitão Andrew Henry (Domhnall Gleeson) resolve seguir o conselho de Glass, abandonar a embarcação, e seguir por terra de volta à base. Um forte perdido no meio da imensidão nevada.
A decisão desagrada a alguns membros do grupo, em especial John Fitzgerald (Tom Hardy).
Fitzgerald mal segue as ordens de Henry, não gosta de Glass e despreza Hawk. E, mais do que isso, faz questão de deixar tudo muito claro.
Enquanto seguem viagem por terra, Glass é atacado de maneira brutal por um urso. O violento ataque do animal deixa o guia entre a vida e a morte, e o torna mais um fardo para a combalida expedição.
Com a vida de todo o grupo pendendo por um fio, e a animosidade dos homens para com Glass aumentando a cada percalço, Henry fica sem alternativas, e promete uma pequena fortuna em bônus aos homens que ficarem pra trás, garantindo algum conforto a Glass no que devem ser suas últimas horas, e um funeral digno quando o momento chegar.
Hawk, obviamente fica. Além dele o jovem Bridger (Will Poulter), e, assim que os dois prometem abir mão de seus bônus de cem dólares para o homem que ficar com eles, Fitzgerald se oferece para o serviço.
Enquanto Henry e os demais sobreviventes seguem viagem, Hawk, Bridger e Fitzgerald montam acampamento para cuidar do moribundo Glass.
Obviamente Fitzgerald não demora a se impacientar com a teimosia de Glass em permanecer vivo a despeito de seus extensos ferimentos. Após tentar sufocar o guia, Fitzgerald e Hawk entram em uma discussão que termina no assassinato do jovem, apunhalado diante do pai imobilizado.
Após enganar Bridger com a presença de índios, e mentir sobre o paradeiro de Hawk, Fitzgerald abandona Hugh parcialmente enterrado, e parte.
Enquanto o algoz de seu filho se vai, Glass se arrasta pra fora do túmulo, e inicia a jornada para encontrar vingança.
Com o corpo dilacerado, ossos partidos, sem comida ou abrigo, Glass conta apenas com seus conhecimentos de sobrevivência, determinação e ódio para se arrastar adiante, inexoravelmente, por um terreno hostil por sua própria natureza, recusando-se a ceder ou desistir enquanto não cumprir seu objetivo, e vingar a morte de Hawk.
É muito bom.
O roteiro, co-escrito por Iñarritu e Mark L. Smith (egresso de filmes de terror bem porcarias) livremente baseado no livro The Revenant - A Novel of Revenge, de Michael Punke é bem construído, redondinho, quase prosaico. Todos nós já vimos faroestes de vingança antes. Não é, porém, o plot que faz diferença em O Regresso, mas a forma como ele é retratado.
Nas mãos de Iñarritu e de seu diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, a natureza se torna a maior de todas as ameaças.
Lindamente filmadas, arvores, neve, rios, tudo parece conspirar contra o protagonista. Mesmo os índios Arikara, que dividem com Fitzgerald o posto de "vilões" do filme, não aparecem como oponentes tradicionais, mas como mais uma faceta da natureza impiedosa que se opõe a Glass.
Falando nisso, o termo "vilão", não faz sentido sequer para Fitzgerald. A despeito de eventuais exageros da direção, Tom Hardy entrega uma ótima atuação, e consegue se manter por muito tempo sobre o fio da navalha, como um personagem que é difícil de categorizar como "mau", já que ele age e vive dentro de uma esfera moral que, com mil demônios, pode ser muito particular, mas dado seu estilo de vida, não é gratuita ou sem sentido. Domhnall Gleeson é outro que manda bem como o capitão Henry, e dá sequência a um luminoso ano de 2015 (sim, O Regresso é um filme do ano passado, inexplicavelmente estreando no Brasil mais de um mês após sua estréia nos EUA), e Will Poulter também faz um bom trabalho, ainda que o filme pertença, claro, a DiCaprio.
A atuação visceral do ator é um dos pontos altos do filme, enquanto seu personagem luta pela vida rosnando e babando enquanto come carne crua e cauteriza as próprias feridas com pólvora, DiCaprio convence como um ser humano levado além do limite unicamente por ódio e teimosia.
Mas não.
Não é a melhor atuação da carreira de DiCaprio.
É tão boa quanto outras atuações dignas de prêmio que ele apresentou em filme como O Aviador, e O Lobo de Wall Street, e Diamante de Sangue, de modo que, se ele ganhar o Oscar, não será uma injustiça (embora eu ainda não tenha visto A Garota Dinamarquesa), mas tampouco será porque DiCaprio entregou algo que ainda não tinha mostrado em sua vasta e excelente filmografia.
O Regresso não a grande atuação da carreira de DiCaprio, não é o grade filme da carreira de Iñarritu e nem é um filme perfeito.
Os elementos sobrenaturais da trama, que como parece obrigatório à qualquer história de índio envolve um quê de "magia da terra", fazem uma oposição algo desajeitada à crueza do restante da história, e soam como se conduzidas com algum constrangimento pelo diretor. Essas inserções místicas arrastam um pouco o filme, tornando suas mais de duas horas e meia algo inchadas, ainda que jamais se tornem cansativas por conta da sucessão de momentos tensos e empolgantes.
Em suma?
O Regresso merece a visita ao cinema sem o menor questionamento. É um ótimo trabalho de produção, direção e elenco, merece a láurea das premiações a que concorre e que venceu, mas não é a última bolacha do pacote, e não é melhor que Mad Max - Estrada da Fúria, mas é um ótimo filme.
O nome de DiCaprio no pôster assegura isso.

"-Enquanto puder tomar fôlego... Você luta."

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Resenha Cinema: Joy - O Nome do Sucesso


Há atores e atrizes que se tornam fetiches de diretores. Como se fossem musas que os cineastas parecem enxergar em qualquer papel, em qualquer filme e que se tornam parcerias recorrentes.
É fácil nomear algumas dessas relações sem sequer precisar pensar muito.
Robert De Niro e Martin Scorsese, Denzel Washington e Tony Scott, Diane Lane e Woody Allen... São todas relações entre cineastas e seus atores-fetiche.
E, olhando em perspectiva, poucos diretores se entregam com tanta volúpia ao rótulo quanto David O. Russell, o realizador de filmes como O Vencedor, O Lado Bom da Vida, e Trapaça.
Nem mesmo a recente (e excelente) série de trabalhos de Scorsese com Leonardo DiCaprio é tão assumidamente fetichista quanto a do realizador de Três Reis com Jennifer Lawrence. A atriz de 25 anos é escalada por Russell em papéis de toda a ordem, sempre dando conta do recado como testemunham seus três Globos de Ouro e seu Oscar.
Russell enxerga Lawrence em qualquer papel, e a atriz de Jogos Vorazes e X-Men se sente à vontade e tem talento de sobra pra encarar qualquer parada.
Eu não sei, porém, se essas parcerias todas têm data de validade e eventualmente estão fadadas a terminarem, mas Joy - O Nome do Sucesso, é facilmente o pior filme de Russell em muito tempo, o que não quer dizer que o filme seja ruim, não é o caso, ele apenas empalidece ante os recentes trabalhos do cineasta.
Joy é uma biografia romanceada da inventora norte-americana Joy Mangano, criadora do Miracle Mop.
No longa de Russel, a biografia de Joy se torna uma fábula com direito a "Era uma vez" narrado pela avó da protagonista, Mimi (Diane Ladd).
Joy é apresentada como uma menina de oito anos que adora criar coisas. Joy tem uma casa, uma fazenda, árvores e animais de papel, seu maior poder, nem era sua criatividade, mas sim o fato de não precisar de um príncipe encantado.
Corta pra dezessete anos mais tarde.
Joy é a mãe divorciada de dois filhos pequenos. Ela luta feito uma fera para manter a casa onde vive com os filhos, a avó, a mãe (Virginia Madsen), e o ex-marido Tony (Edgar Ramirez).
Enquanto Mimi passa o tempo todo soprando frases inspiradoras no ouvido de Joy, sua mãe jamais sai do quarto onde assiste novelas 24 horas por dia, e Tony, um cantor venezuelano fracassado ensaia sem cessar no porão da casa na tentativa de se tornar o novo Tom Jones, embora apenas cante de graça em um bar local.
Não fosse o suficiente, Joy ainda recebe o pai, Ruddy (Robert De Niro), "devolvido" pela namorada que não o aguenta mais, e, como desgraça pouca é bobagem, a moça ainda recebe a notícia de que seu trabalho como bilheteira de uma companhia aérea está ameaçado já que ela vai ser transferida para o turno da noite, algo impensável para alguém com tantas atribuições, que acumula a função de contabilista da oficina de seu pai, e de faz-tudo da casa onde vive.
Joy se pega prestes a vergar sob o peso da responsabilidade quando, durante um passeio de barco com a endinheirada nova namorada de seu pai, Truddy (Isabella Rossellini), tem uma ideia potencialmente inspirada ao cortar as mãos limpando vinho tinto do convés:
Um esfregão hiper-absorvente e que pode ser torcido sem utilizar as mãos.
Joy aposta alto na sua ideia, tentando a todo o pano evitar que tenha o mesmo destino de outras ideias suas que jamais foi capaz de patentear e viu se tornarem produtos sem sua participação.
Com a ajuda dos trabalhadores da oficina de seu pai e de um investimento inicial de Truddy, Joy consegue produzir algumas peças, lutando para vendê-las em pequenas lojas ou no estacionamento do supermercado, tudo sem sucesso.
Joy tem uma chance de mudar isso quando Tony consegue uma reunião para ela numa rede de TV de anúncios 24 horas.
O gerente de programação Neil Walker (Bradley Cooper) gosta do produto de Joy, e tenta vendê-lo em sua grade de programação, inicialmente, sem efeito.
As coisas tomam outro rumo quando a inventora convence Neil a deixá-la anunciar seu esfregão ela mesma.
Mas conseguir vender seu produto acaba não sendo o suficiente quando Joy percebe que, mau orientada pelos advogados de Truddy, e sem o apoio de sua família, está prestes a perder seu negócio, e que cabe à ela, sozinha, lutar contra tudo e todos em nome de seus sonhos.
"Irregular" é uma palavra usada de maneira quase indiscriminada para fazer de filmes que não funcionam, mas têm alguma qualidade. E é a palavra que serve à perfeição para ilustrar Joy - O Nome do Sucesso.
O longa de David O. Russell é irregular. Algumas coisas funcionam, outras simplesmente, não.
Há uma característica algo largada no longa. Coisas que simplesmente parecem mal acabadas. A narração em off da avó, por exemplo, que ali pelas tantas simplesmente some, para voltar mais adiante quando a audiência quase havia esquecido que ela estava lá, é uma delas. Outra, ainda mais problemática, é a família de Joy. Enquanto os núcleos familiares de O Vencedor, Trapaça e especialmente de O Lado Bom da Vida eram críveis mesmo dentro desse universo exacerbado e histérico onde os filmes de Russell se passam, o mesmo não se pode dizer da família de Joy.
Tudo no longa soa algo artificial, casual, mal acabado, sem que nenhuma das personagens femininas tenha a profundidade de Jackie Weaver como Dolores Solitano em O Lado Bom da Vida, por exemplo.
A irmã da protagonista, Peggy (vivida por Elizabeth Rohm, de Trapaça) é um exemplo. Ela aparece sempre como um poço de ressentimento, sem praticamente jamais dar uma palavra de suporte à irmã, e nem qualquer tipo de background. Igualmente vazia, mas menos antipática, é a melhor amiga de Joy, Jackie (Dasha Polanco de Orange is the New Black), que é o extremo oposto da irmã, sempre apoiando e ajudando a inventora.
Os personagens masculinos não são muito melhor acabados. O Ruddy de De Niro é um personagem que se apresenta promissor mas que não se sustenta dessa forma quando a história avança, e Bradley Cooper faz quase uma ponta de luxo.
Melhor sorte tem Edgar Ramirez, que consegue assinar seu fracassado Tony Miranne com uma nota de ternura que o torna até simpático.
Após listar todas essas características ruins, tu pode estar se perguntando "mas o que diabos funciona em Joy pra tornar o filme regular e não uma bomba?".
A resposta é Jennifer Lawrence.
Russell acerta a mão ao centrar fogo na sua protagonista. A história não anda sem Lawrence na tela, e isso tanto pode ser o maior defeito do filme (já que os outros personagens simplesmente não têm lastro pra fazer o filme andar) quanto sua maior qualidade já que Lawrence tem talento e estampa de sobra pra carregar o filme nos ombros.
Mesmo mal escalada por conta de sua idade (a atriz de vinte e cinco anos interpreta uma personagem quase dez anos mais velha), Lawrence se adona do papel. Sem esforço ela torna a gata borralheira do roteiro uma personagem humana e magnética, ela simplesmente convence.
Com isso em mente, fica fácil entender porque ela é a atriz-fetiche de David Russell, mas difícil entender porque ele fez um filme tão meia-boca para servir-lhe de veículo.
Não fosse pela protagonista, Joy seria um filme com uma sólida nota cinco. Jennifer Lawrence, porém, o eleva bem acima disso, e a interpretação dela, sozinha, já faz valer a ida ao cinema.

"-Jamais pense que o mundo te deve alguma coisa, porque ele não deve. O mundo não te deve nada."

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Resenha Cinema: Pai em Dose Dupla


Eu já disse antes e repito aqui. Eu sou um grande fã de Will Ferrell. O egresso de Saturday Night Live é parte de uma trinca de atores que sempre me faz rir.
Will Ferrell, Steve Carell e Jim Carrey.
Coloque o nome de qualquer um dos três em um pôster, e eu verei esse filme no cinema, ou, sei lá... O alugarei no serviço on-demand da TV a cabo, já que Ferrell, Carell e ultimamente até Carrey, têm passado cada vez menos pelos cinemas, relegados, aqui no Brasil, às locadoras quase extintas e locações digitais enquanto Adam Sandler segue firme e forte com a sua cara de ovo nos cinplexes... Mas enfim, estou me alongando e já falei isso antes.
Ontem fui ao cinema curtir uma rara oportunidade de ver um filme de Will Ferrell no cinema.
Obviamente Pai em Dose Dupla só estreou nos cinemas brasileiros por causa de Mark Wahlberg, co-estrela do longa. Mas eu não reclamo.
Enquanto comediante, Wahlberg é muito melhor do que como ator dramático, e a prova cabal disso não foi o filme de urso de pelúcia Ted, mas sim seu papel em Os Outros Caras, filme que co-estrelou, ora vejam, com Will Ferrell em 2010.
Pai em Dose Dupla parte de uma premissa bem previsível. Ferrell é Brad Whitacker, um pacato executivo de rádio cujo sonho de vida era formar uma família. As aspirações de Brad quase se tornaram uma impossibilidade devido a um acidente no dentista que o deixou estéril, mas, ao conhecer Sara (Linda Cardellini), uma bela mãe solteira com dois filhos, a pequena Megan de sete anos, e Dylan, de oito, Brad percebeu que seu sonho ainda podia se realizar.
Após casar com Sara, Brad tornou sua missão de vida ser o melhor padrasto do mundo, e pavimentar, não importando a que custo, o caminho até o coração das crianças que educaria como se fossem suas.
Brad perseverou ante a óbvia aversão dos pequenos por meses, mas eventualmente, à custa de muito afeto e todos os livros de paternidade existentes, conseguiu se tornar uma figura paterna na vida dos dois. Tudo parecia bem, até que o pai das crianças ressurge.
Dusty Mayron (Mark Wahlberg) é o completo oposto de Brad. Um sujeito viril, durão e misterioso que veste jaqueta de couro e pilota uma potente motocicleta Indian. Ele tem uma vida agitada viajando pela África, pilotando helicópteros e viajando em submarinos nucleares, e ele chega disposto a ocupar o lugar de modelo masculino de que seus filhos tanto precisam.
Dusty se aproveita da hesitação de Brad e consegue permissão para ficar na casa dos Whitacker, e não tarda para ele escantear Brad nas afeições das crianças. Conforme aproveita todas as oportunidades para humilhar Brad e provar-se superior em todos os aspectos e arenas.
Mas Brad é um pai substituto devotado, e não vai entregar as crianças a Dusty sem luta.
É claro que é engraçado.
Há pelo menos quatro boas risadas altas em Pai em Dose Dupla, sem contar todas as risadas menores ao longo do filme, Will Ferrell e Mark Wahlberg têm um ótimo timming cômico juntos, e o filme todo é uma divertida bobagem. Pai em Dose Dupla só não é ainda melhor por conta do diretor.
Apesar de ser produzido por Adam McKay, o sujeito por trás dos dois O Âncora e de Os Outros Caras, todas ótimas comédias, engraçadas e com um espertíssimo senso de propósito por trás das piadas, esse Pai em Dose Dupla é dirigido por Sean Anders.
Anders não é um estranho no mundo das comédias. Seus trabalhos incluem filmes de relativo sucesso como Quero Matar Meu Chefe 2 (que de tão desnecessário eu confesso que ainda não assisti...) e Família do Bagulho (que, confesso, só vi quando passou na TV a cabo.).
Anders não tem medo do humor pastelão e da escatologia, mas parece ter a necessidade de se desculpar por isso com ternurinha logo depois, fazendo um morde e assopra no que tange às piadas.
Humor de verdade não tem que fazer concessões. Se tu quer fazer uma piada sobre crianças em cadeiras de rodas, vá em frente e faça, contanto que seja engraçada.
Anders falha aí. Em certos momentos o roteiro (do próprio Anders mais Brian Burns e John Morris) parece sentir a necessidade de fazer mais graça, uma piada mais pesada, um humor mais acessível, para logo em seguida retomar a trilha, e é justamente quando Pai em Dose Dupla falha.
Quando o foco se mantém na relação conflituosa dos dois adultos disputando de maneira absolutamente infantil seu lugar na família, as coisas andam nos eixos.
Além da divertida dinâmica entre Brad e Dusty, há de bom ainda as inserções de Thomas Haden Church no papel de Leo Holt, executivo da rádio onde Brad trabalha, sempre com uma ótima história/conselho repleto de profanidades e sem aplicação prática ou relação com o assunto onde ele os insere, e Hannibal Buress com Griff, o faz-tudo contratado, depois demitido e depois "adotado" por Brad por conta de uma guilty trip fomentada por Dusty.
As interações de Ferrell e Wahlberg, e dos dois com Haden Church e Buress são, de longe, o ponto alto de Pai em Dose Dupla, o momento em que o elenco (que ainda tem Bobby Cannavale, e pontas de John Cena e Alessandra Ambrósio) pode ir além das gags óbvias do roteiro e da direção de Anders, e é justamente esses momentos que fazem o longa valer a visita ao cinema.

"-Vai lá, amigão. Erga a sua cerca do amor."

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Resenha Cinema: A Grande Aposta


Na semana passada falei de Trumbo - Lista Negra, filme estrelado por Bryan Cranston e dirigido por Jay Roach. Me referi ao longa como um drama biográfico que tinha, em seu íntimo, uma insuspeita leveza designada tanto pela persona do biografado, quanto pela veia cômica de seu diretor, egresso de comédias.
Ora veja. Ontem assisti a A Grande Aposta, e, novamente, vi um filme potencialmente sério, onde havia um tema espinhoso sendo tratado de maneira leve, e até divertida, por um cineasta que tem comédias no currículo.
Adam McKay, o sujeito por trás dos dois O Âncora - A Lenda de Ron Burgundy (e sua sequência, no Brasil chamada Tudo Por Um Furo), Ricky Bobby - A Toda Velocidade, Quase Irmãos e Os Outros Caras (uma comédia que já brincava com o mau comportamento das grandes corporações financeiras dos EUA) foi quem adaptou o livro de Michael Lewis The Big Short: Inside The Doomsday Machine, sobre como a bolha imobiliária das hipotecas quase destruiu a economia dos EUA e por consequência do mundo entre 2007 e 2008.
No longa de McKay, acompanhamos três histórias paralelas e independentes sobre pessoas que anteviram a formação dessa bolha, e se movimentaram para lucrar com a irresponsabilidade dos grandes bancos dos Estados Unidos.
O primeiro, é Michael Burry (Christian Bale).
Burry é um médico com problemas de interação social que atribui a seu olho de vidro, resultado de uma doença na infância.
Se Burry tem problemas se relacionando com outras pessoas, sua capacidade analítica é coisa de Sherlock Holmes, e sua capacidade de esmiuçar números o tornou um bem sucedido administrador de fundo de investimentos à descoberto na Califórnia.
Em 2005, após se deparar com números assombrosos nas estruturas hipotecárias dos EUA nos últimos anos, Michael desenvolve um plano.
Ele tenciona criar uma espécie de seguro para títulos imobiliários, apostando contra eles. Michael aposta que a estrutura de hipotecas dos EUA, que os grandes bancos consideravam infalível, irá falhar.
Se ele estiver correto, ele ganha uma fortuna absurda, se estiver errado, ele paga uma fortuna em prêmios para os "segurados". Uma aposta de altíssimo risco em um mercado tido como o mais sólido do mercado financeiro desde a década de setenta.
A jogada de Burry chama a atenção de Jared Vennett (Ryan Gosling), um financista do Deutsche Bank que vê nas ações do ex-médico a possibilidade de fazer, ele próprio, uma pequena fortuna em comissões.
Jared passa a vender a ideia dos títulos de "short" hipotecários a possíveis interessados, mas dada a decantada solidez dos títulos, dá com a cara em uma porta após a outra. Isso muda quando ele encontra o fundo de investimento de Mark Baum (Steve Carell), um pessimista profeta do apocalipse financeiro de Wall Street, que, descrente no início, acaba percebendo o lastro das ideias de Burry após fazer, com sua equipe formada pelos analistas Danny Moses, Porter Collins e Vinnie Daniels (Rafe Spall, Hamish Linklater e Jeremy Strong) uma pequena e assustadora investigação no mercado imobiliário da Florida.
Ao mesmo tempo Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), dois jovens financistas "baby", que trabalham com fundos à descoberto de garagem na ordem de "meros" trinta milhões de dólares, também esbarram com as teorias de Burry, e resolvem fazer dinheiro com elas. Entretanto, sem prestígio ou trânsito entre os grandes bancos, precisam apelar para Ben Rickert (Brad Pitt).
Rickert, vizinho de Shipley no Colorado, é um ex-papa dos investimentos que, enojado com o mundo do capital financeiro, passou a viver de maneira absolutamente sustentável, quase hippie, longe de toda a sujeira de Wall Street.
Resistente de início, Rickert acaba ajudando Charlie e Jamie a apostarem contra a economia norte-americana em nome do lucro.
O que nenhum dos jogadores antevia, era que o jogo no qual estavam embarcando era uma sombria sopa de corrupção, fraude, ganância e pura burrice, que envolvia os bancos, as maiores empresas de capital dos EUA, agências de risco e até mesmo ramos do governo federal norte-americano.
Como foi dito lá em cima. A Grande Aposta é uma comédia. E graças a Odin por isso. Nós já tivemos filmes sérios a respeito do tema, como o muito bom Grande Demais para Quebrar, mas a verdade é que A Grande Aposta se vale de sua própria leveza para garantir que o mote do filme, repleto de jargão financeiro e essencialmente trágico (milhões de pessoas perderam seus empregos e casas no mundo todo devido ao estouro da bolha imobiliária, ninguém foi punido, as regras financeiras do mercado dos EUA não mudaram uma vírgula, e as companhias que foram à bancarrota acabaram sendo resgatadas pelo governo dos EUA à custa do contribuinte, e seus CEOs continuaram nadando em rios de dinheiro de bonificações escandalosamente gordas.) consiga se manter um entretenimento atrativo, afinal, "A verdade é como poesia. E a maioria das pessoas odeia a porra da poesia.".
Brincando com a edição, com os personagens quebrando a quarta parede em momentos chave pra aliviar a tensão, usando um jogo de câmeras quase vertiginoso e até apelando para celebridades para ajudar a explicar os mecanismos mais obscuros do mercado financeiro (aparecem para ajudar nas explanações o chef Anthony Bourdain, a cantora Selena Gomez, o economista Richard Thaler, além da deliciosa Margot Robbie), Adam McKay mantém A Grande Aposta divertido durante toda a sua duração.
Contando com um elenco acima da média que ainda conta com Melissa Leo, Marisa Tomei, Max Greenfield e a gatinha Karen Gillian (destaque para Christian Bale, ótimo em um papel relativamente pequeno, e Steve Carell, equilibrando drama e comédia sem perder a mão), A Grande Aposta vai além de perucas e truques de edição para contar de maneira cômica uma história pessimista em seu âmago, amparada em atuações comprometidas e tendo como lastro fatos irrefutáveis.
Parabéns para McKay e seu co-roteirista Charles Randolph. Eles alcançaram um equilíbrio difícil de se ver no cinema de hoje em dia. Divertido e inteligente.
Assista no cinema. Vale demais o ingresso.

"-Eu não entendo... Por que eles estão confessando?
-Não estão confessando. Estão se gabando."

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Resenha Cinema: Trumbo - Lista Negra


Desde 2004, circula em Hollywood uma compilação dos melhores roteiros não filmados ao longo do ano. São histórias que os profissionais do cinema gostaram, mas que, por alguma razão, seja custo, dificuldade ou simplesmente o mercado, não se tornam filmes.
Essa galeria de grandes roteiros não filmados é chamada de Black List, ou, a Lista Negra.
O nome faz referência, entre outras coisas, à infame lista negra de roteiristas barrados em Hollywood durante a década de cinquenta quando, na aurora da Guerra Fria, os comunistas eram caçados como bruxas, e Hollywood estava na mira do Comitê Doméstico de Atividades Não-Americanas do congresso dos EUA.
Em Trumbo, nessa época, o próspero roteirista Dalton Trumbo (Bryan Cranston) é um comunista vivendo nos EUA.
Trumbo foge do estereótipo comunista "tradicional". Uma contradição ambulante, o roteirista era homem de posses, conforme o lembra seu colega Arlen Hird (Louis CK.), um bon-vivant que ama seu trabalho e constantemente o realiza deitado em sua banheira enquanto bebe uísque fumando em uma estilosa piteira. Mora em uma ampla propriedade com um lago particular e participa de festas da alta sociedade. Ainda assim, ele toma parte em reuniões político-partidárias, piquetes de grevistas, e distribui panfletos sobre comunismo e liberdade de expressão em eventos de Hollywood, para desgosto da "Right Wing" de gente como John Wayne (David James Elliot) e (especialmente) a colunista Hedda Hopper (Helen Mirren), que chega a conseguir a demissão de Trumbo junto à MGM.
Não tarda para que as inclinações políticas do roteirista o coloquem, junto a vários de seus correligionários e colegas, na mira do congresso dos EUA.
Conclamando a primeira emenda da constituição norte-americana, ele se recusa a responder qualquer uma das perguntas que lhe são dirigidas durante seu interrogatório.
Trumbo sabe que o desacato ao congresso pode levá-lo à prisão, mas espera que, na Suprema Côrte, de maioria liberal, sua apelação o absolva. Não é o que acontece.
Com a substituição de dois dos juízes antes da audiência de Trumbo e seus colegas, a maioria liberal se perde, e o roteirista é encarcerado.
Após um breve período em uma prisão federal, Trumbo é libertado para descobrir que ser colocado na Lista Negra de Hollywood é particularmente complicado para aqueles que se recusam a renunciar a seus ideais políticos.
Jamais desmentindo suas ideologias, Trumbo não consegue trabalho.
Já que seu nome é amaldiçoado nos grandes estúdios, ele passa, então, a escrever roteiros descartáveis a baixos preços para produtores de filmes B, como os irmãos King (vividos por Stephen Root e um hilário John Goodman).
Empregando sua esposa, Cleo (Diane Lane), e seus filhos Christopher, Mitzi (Mattie Liptak, Becca Nocole Preston) e Nikki (Elle Fanning) como secretários, motoristas e entregadores, Trumbo produz roteiros de baixo custo em ritmo industrial para manter sua família, e não tarda para que ele traga vários de seus colegas ao esquema de pseudônimos, garantindo o trabalho para outros roteiristas da Lista.
Não bastasse a prolífica produção de lixo cinematográfico com alienígenas, gangsteres e piratas, Trumbo ainda acha tempo para escrever o roteiro de A Princesa e o Plebeu, repassado a seu amigo Ian McLellan Hunter (Alan Tudik), que ainda gozava de bom trânsito entre os estúdios, e que acabaria vencendo o Oscar de melhor roteiro em 1954, e, mais tarde, ele ainda escreveria Arenas Sangrentas, sob o pseudônimo de Robert Rich, e, adivinhe, ganharia outro Oscar de melhor roteiro em 1956, ambos prêmios que ele não pôde receber devido à exposição negativa junto à opinião pública.
Trumbo vislumbra uma possibilidade de sair do anonimato quando é procurado quase ao mesmo tempo por Kirk Douglas (Dean O'Gorman, o Fili da trilogia O Hobbit) para trabalhar no roteiro de Spartacus, e pelo diretor Otto Preminger (Cristian Berkel, de Operação Valkíria), para adaptar o romance Exodus em um filme a ser estrelado por Paul Newman.
Percebendo que ambos desejam o melhor de seu trabalho, Trumbo começa a fazer um joguete para que um dos dois aceite seu nome verdadeiro no poster do filme, o que colocaria fim à Lista Negra ao provar que mesmo escritores que estavam lá, seguiam trabalhando em Hollywood.
Ainda que classificado como um drama biográfico, e trilhando um caminho sombrio em meio à uma das páginas mais vergonhosas da história dos EUA, Trumbo é um filme leve.
Parte disso se deve à direção de Jay Roach. O cineasta é egresso de comédias como Entrando numa Fria e a série Austin Powers e ele consegue mesclar a seriedade de um filme com alma política (curiosamente seu único filme que não é uma comédia, é o longa Game Change, sobre os bastidores das eleições presidenciais americanas de 2008, tema que ele visitaria novamente na comédia rasgada Os Candidatos) à uma certa veia cômica inerente ao ego político, mas, se o background de Roach é metade da leveza de Trumbo, a outra metade é seu personagem central.
Trumbo é vivido com graça por Bryan Cranston, um ator que é acima da média até fazendo propaganda de pasta de dente.
Ele consegue manter o personagem central destacado sem jamais deixar o clima pesado demais por muito tempo. Mesmo seu momento mais problemático, quando ele se afasta da família em um frenesi workaholic regado a uísque e anfetaminas para garantir a entrada de dinheiro para si e seus pares, as eventuais explosões e destemperos logo encontram novamente uma faceta mais jovial, conciliatória e divertida de um homem que amava seu trabalho e a vida que levava.
Auxiliado por um ótimo elenco, destacando-se uma doce Diane Lane, uma energética Elle Fanning, além de um ótimo (e subestimado) Michael Stuhlbarg, vivendo Edward G. Robinson, icônico ator de Hollywood que, em um ato de auto-preservação, renunciou suas ideias políticas e delatou amigos ao congresso norte-americano, Cranston brilha justificando suas indicações ao Globo de Ouro, Oscar e outras premiações.
Obviamente, Trumbo - Lista Negra não passa sem falhas. O roteiro de John Macnamara, baseado na biografia de Trumbo por Bruce Cook deixa de mostrar momentos importantes da vida do protagonista, como o tempo em que ele viveu no México com sua família, ou o período em que, desiludido com o comunismo pelo mundo, renunciou à ideologia, momentos que são relegados à breves menções, além disso, eventualmente, o script coloca Trumbo em um pedestal de inocência absoluta como frequentemente ocorre com biografias.
Por sorte, a história é rica, divertida, pungente e bem atuada o suficiente para que esses pequenos deslizes passem despercebidos a qualquer um que não seja um membro do "Tea Party", e que entenda que, muito mais do que um filme pró-comunismo (não é o caso), ou pró-liberdade de expressão (também não é o caso, apesar de estar mais próximo da verdade), Trumbo é a história de um homem.
Um homem astuto, talentoso e teimoso, que lutou com as armas que tinha por aquilo que considerava certo.
A pena, nos final das contas, é mais forte que a espada.
Assista no cinema, vale a pena.

"-Você tem razão. Eu não estou disposto a perder tudo. Mas estou disposto a arriscar tudo em nome de um bem maior. Você percebe, aí está a diferença. Um radical vai lutar com a pureza de Jesus Cristo, e será derrotado. Um homem rico, vai lutar com a astúcia de satanás, e vencerá."