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quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Resenha Série: O Justiceiro, Temporada 1, Episódio 9: Front Toward Enemy


Ao longo dos últimos oito episódios, o Justiceiro vinha conseguindo se equilibrar muito bem entre todas as suas linhas narrativas paralelas (exceto Madani e Stein, que ele descanse em paz, mas, pobre Michael Nathanson, pouco havia para ele fazer ali exceto ser um alívio cômico desnecessário), e eu estava ansioso para ver o momento em que todas elas se cruzariam.
Provavelmente a que mais me chamava a atenção era a de Lewis Wilson, personagem de David Webber que, à certa altura da temporada, parecia merecer seu próprio seriado mostrando ele, seu pai, Curtis e O'Connor lidando com os traumas do pós-guerra.
Bem, após um breve interlúdio no capítulo anterior, Lewis voltou, e trouxe o inferno consigo.
Enquanto Frank e David aguardam que Madani lide com seu luto após a morte do parceiro para tentar fazê-la se aliar a eles em sua luta contra Rowlins, nós descobrimos o que Lewis pretendia fazer com suas bombas caseiras. O ex-soldado se torna um filhote de Unabomber, explodindo prédios onde, supõe, haja pessoas agindo contra os interesses dos cidadãos americanos.
O jovem se vê como um vingador, e escolhe Karen Page como porta-voz de suas aspirações patrióticas por conta da ligação da repórter com Frank Castle no passado, e, ao ver-se rejeitado e afrontado por sua possível aliada, ele a torna um alvo.
Desnecessário dizer que Frank não gosta nem um pouco disso.
Ao mesmo tempo em que Frank adia a abordagem à Madani em nome de proteger Karen, Curtis não precisa de muito para descobrir que Lewis está implicado nos ataques terroristas, e logo vai ao encalço do rapaz, com graves consequências.
Provavelmente o episódio mais irregular de O Justiceiro até aqui, Front Toward Enemy se seguraria perfeitamente bem como um ótimo episódio não fosse a vontade desenfreada de enfiar Karen Page na série e o debate vazio a respeito de controle de armas.
Ao acrescentar uma discussão tremendamente séria no programa, e tratá-la de forma algo leviava, Front Toward Enemy só não foi um episódio ruim porque em seus trinta minutos finais o episódio se centrou nas interações entre Frank, Curtis e Lewis, três personagens que compartilham elementos de seu background, e que respondem de maneiras incrivelmente distintas às suas experiências prévias.
Ao oferecer essa visão interna de cada um desses homens, O Justiceiro os torna mais críveis e vivos, e faz pela discussão a respeito do transtorno de estresse pós-traumático o que não é capaz de fazer pela discussão sobre o controle de armas.
Talvez seja a por conta da minha opinião pessoal, uma vez que eu sou favorável a controle de armas mais restritivo em qualquer lugar do mundo, e gostaria de não ver armas nas mãos de qualquer um, mas eu achei que a série tomou partido de uma maneira um tanto quanto descarada. Novamente, pode ser apenas a minha opinião, mas quando personagens simpáticos à audiência como Karen e Frank defendem o direito de todo mundo andar armado e um político escamoso é a voz que se opõe à essa ideia, me parece que os produtores e roteiristas escolheram seu lado de maneira inapelável, algo que, em um país como os EUA, onde os tiroteios em massa se tornam tão habituais por conta do fácil acesso ao armamento, me parece algo irresponsável, e que pouco acrescenta à trama, apenas rouba tempo de tela dos personagens que realmente fazem a série andar.
Vemos muito pouco de Frank, Micro e Billy, e há até um segmento onde Karen e o escamoso senador Stan Ori (Rick Holmes) participam de um debate em um programa de rádio (a coisa toda talvez fosse menos chata se o programa em questão fosse o Trish Talk), de qualquer forma, por mais interessante que seja ver uma série de TV abordar problemas do mundo real, faltou um balaio de sutileza na hora de abordar o controle de armas, e a imposição de Karen a um programa tão recheado de bons personagens que realmente têm o que fazer em cena acabou sendo um desserviço à dinâmica do programa até aqui.
De qualquer forma, o capítulo se redime de seus deslizes ao dar tempo de cena a Jon Bernthal junto com Jason R. Moore, os dois atores mandam muito bem durante a sequência na casa de O'Connor, e são acompanhados por Daniel Webber, que segue fazendo um belo trabalho como o atormentado Lewis Wilson.
O final do capítulo vem com a revelação para o mundo de que o Justiceiro ainda está vivo, o que sem sombra de dúvida dificultará as vidas de Frank e David, e colocará novos obstáculos nos planos de ambos.
Front Towards Enemy funciona ao centrar fogo em seus protagonistas. Bernthal, Moore, Bachrach, Barnes, Webber... Eles fazem o programa andar, e todo o resto é ruído, com sorte, agora, Rose-Revah se junta a eles nos episódios vindouros.

"Sic semper tyrannis"

Resenha Série: O Justiceiro, Temporada 1, Episódio 8: Cold Steel


No episódio anterior de O Justiceiro, Paul Schulze escapou de um destino que vinha sendo padrão nas séries Marvel/Netflix: Ser o vilão que morre no capítulo sete.
William Rowlins se safou de levar uma bala na testa graças aos vidros balísticos da mansão onde se esconde.
Após a tentativa fracassada de assassinar o Agente Laranja, Frank e Micro conseguem ligar um nome ao corrupto agente da CIA, agora eles precisam descobrir o que fazer com isso. De um lado, Frank quer se manter no plano de matar Rowlins, por outro, David começa a imaginar se não seria melhor se eles entregassem tudo o que sabem, incluindo o testemunho de Castle.
Madani e Stein, por sua vez, planejam usar a escuta no escritório da agente em seu favor. O plano é usar o nome de Castle para lançar desinteligência em quem quer que esteja ouvindo, desentocar os conspiradores e capturá-los, um plano que não sai nem um pouco como a dupla de agentes esperava por conta do envolvimento de Billy Russo.
O personagem de Ben Barnes começa esse episódio nos dando vislumbres de seu passado. O desenvolvimento de Russo não precisou de flashbacks para nos mostrar como ele se tornou quem é. Bastaram as interações de Billy com sua mãe, no hospital, e com Dinah, no quarto que o casal compartilha, para que a audiência entendesse que não houve um momento onde ele se voltou para o lado sombrio, mas que cada desgraça de sua vida moldou sua personalidade até aquele ponto, onde ser um homem bem-sucedido era tudo o que importava pra ele.
Um ponto interessante é que Billy continua se considerando o herói de sua própria história. Ele ainda se vê como amigo de Frank, ele se preocupa com Madani, e ele é um patriota que acredita ter nascido no maior país do mundo.
Após ter crescido em orfanatos e ter sofrido diversos abusos na infância, as noções de certo e errado de Billy se tornaram cinzentas, e ele faz o que for necessário para chegar onde imagina ser seu lugar. Palmas para Barnes, que consegue interpretar esse personagem de maneira a torná-lo o grande vilão da série, mas o faz de modo a não torná-lo um monstro, e com isso se junta a Jon Berthal e Ebon Moss-Bachrach como molas propulsoras da série.
A amizade dos personagens de Berthal e Bachrach, por sinal, poderia ter sido abalada conforme Sarah começa a ver Frank como um interesse romântico, por sorte os escritores do seriado, apesar de estarem acenando com um triângulo amoroso já há alguns episódios, têm conseguido evitar que as coisas descambem nesse sentido, ainda assim é fácil entender o lado de Sarah.
De repente um bom sujeito aparece, fazendo consertos, trazendo flores para uma mulher sozinha com dois filhos para criar... Falando em filhos, o jovem Zach Lieberman (Kobi Frumer) finalmente vai além de ser um aborrescente escroto, e mostra uma faceta de humanidade, o que dá a Frank a oportunidade de estender sua paternidade temporária por mais algum tempo brincando com o guri.
Todo esse segmento pode incomodar alguns espectadores mais afoitos, mas são essenciais para aprofundar os personagens e torná-los mais do que recortes em cena.
Se a série havia feito um ótimo trabalho mostrando sem pressa a psicologia de um veterano de guerra, com personagens como Lewis, Curtis, Billy e o próprio Frank, ao tentar mostrar a psicologia de um adolescente que perdeu o pai os escritores o fazem de maneira um pouco mais apressada mas ainda assim, interessante, em grande parte graças ao momento compartilhado por Zach e Frank, e o efeito que isso causa em David é outro ponto alto das atuações do episódio.
Em termos de ação, dessa vez as coisas ficaram nas mãos de Madani e Stein, mas o resultado não foi dos melhores para a dupla.
Talvez o resultado trágico da operação engendrada pela agente especial possa servir para fazer um pouco de sangue pulsar nas veias dela e finalmente colocá-la em maior sintonia com o Justiceiro e Micro.
Com oito episódios O Justiceiro mostra que segue com lenha pra queimar. Mesmo os segmentos menos interessantes da série, nominalmente Rowlins, Madani e Stein não chegam a incomodar graças à dinâmica do roteiro.
A transformação de Billy, de amigo e aliado a principal antagonista foi bem trabalhada, e não soou forçada, e o desenvolvimento dele se tornou tão interessante de assistir quanto a relação entre Frank e David, o que é uma tremenda sacada, já que foi um dos fatores que tornaram Demolidor uma série tão memorável.

"-Não há ninguém nesse mundo que eu me preocupe em antagonizar... Está claro?"

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Resenha Série: O Justiceiro, Temporada 1, Episódio 7: Crosshairs


O Justiceiro quebrou a barreira da metade da temporada com um episódio que, mesmo estando aquém dos melhores momentos da série, manteve um bom nível, mostrando que a história solo de Frank Castle tem muita bala na agulha.
Ao longo de um capítulo que se diluiu entre múltiplas linhas narrativas acompanhamos o que parece ser o passo definitivo de Lewis em um caminho sem volta quando ele, após ter assassinado O'Connor, volta pra casa e, após uma tocante conversa com seu pai, parece manter-se inexorável em seu caminho rumo às profundezas.
Lewis, mais do que Frank, é a epítome do soldado com transtorno de estresse pós-traumático que volta da guerra e não consegue mais se encaixar. É admirável que uma série baseada em giis que coexiste com Luke Cage, Punho de Ferro e Demolidor tenha a coragem de abraçar um assunto tão delicado da forma como O Justiceiro está fazendo, e o faça de maneira tão acertada.
Por mais que, inicialmente, possa parecer que a trajetória de Lewis é completamente desligada da de Frank, um problema que praticamente destrói o segmento de Dinah Madani e Sam Stein, o fato de Lewis ser, de certa forma, um reflexo de Frank, nos impele a querer saber mais dele. Do que acontecerá a ele em seu futuro. E qual será seu papel, de fato, em O Justiceiro.
O fato de ele ter terminado sua participação nesse capítulo preparando uma bomba caseira em uma panela-de-pressão me deu uma ideia muito vívida de qual será o envolvimento dele no futuro de alguém, mas enfim, eu posso estar errado... De qualquer forma, o fato de Lewis não ser mostrado como um personagem glorificado ou demonizado é digno de nota, e de aplausos, por parte de público e crítica.
Enfim, enquanto Lewis segue sua decida, Frank e Micro dão seu próximo passo na missão de expôr o Agente Laranja com um plano audacioso, Frank irá se infiltrar em uma base militar e interrogar o coronel Morty Bennett (Andrew Polk), outro rosto do passado de Castle na Operação Cérberus, o problema é quem mais pode estar sabendo dos planos da dupla, que segue na mira de Rawlins e de Billy Russo.
Rawlins é um vilão OK, mas francamente, eu tinha pra mim que ele seria o proverbial vilão a morrer no sétimo episódio de uma série Netflix. Nada contra Paul Schulze, o intérprete do Agente Laranja, mas há muito pouco que ele possa fazer interpretando um personagem que é um agente corrupto da CIA, e era isso.
Por outro lado, Billy Russo ganha estofo no carisma de Ben Barnes, entretanto é outro personagem carecendo de um pouco mais de profundidade. Nós sabemos que ele é um sujeito ambicioso, que gosta de carrões, casas de campo e contratos com o governo, OK, mas será que é apenas isso? Dinheiro foi a única razão para que ele traísse Frank e se corrompesse?
É possível, mas eu gostaria que houvesse um pouco mais aí, especialmente porque, quando Billy fala a respeito de Castle, ele demonstra genuína admiração por seu irmão de armas. Seria uma pena se ele fosse apenas outro bandido unicamente atrás de grana.
Enquanto isso, o escritório da Segurança Nacional segue sendo o ponto mais fraco do programa. Mesmo com Madani e Stein percebendo um padrão nos acontecimentos recentes e partindo para caçar um grampo no escritório de Dinah, o segmento dos dois ainda é deslocado do resto da série. Talvez a conversa entre a dupla, onde Sam diz que Madani é como Frank Castle possa ser um indicativo de que, em algum momento, esses dois personagens ganharão alguma relevância na trama, talvez, até, formando uma parceria com Frank e Micro. Nesse meio tempo, porém, eles seguem sendo a parte mais dispensável de um programa com ótimos personagens.

"-Foreman não pôde fazer do jeito que queria... E perdeu. O outro cara mudou seu jogo. Achou um jeito de vencer."







Resenha Série: O Justiceiro, Temporada 1, Episódio 6: The Judas Goat



O episódio anterior de O Justiceiro não havia terminado bem para Frank. Apesar de ele e seu ex-companheiro Gunner terem conseguido massacrar os soldados enviados pelo "Agente Laranja" William Rowlins, o preço foi alto. Gunner morreu na floresta, e Frank, baleado e flechado, está em péssimo estado, muito além das habilidades médicas de Micro, o que obriga o ex-analista a ir até Curtis Hoyle em busca de ajuda para não deixar o Justiceiro morrer.
Enquanto Castle se recupera, Curtis, que já tinha coisas suficientes em seu prato com a situação mental de Lewis, que após se sentir traído por O'Connor (Delaney Williams) dá mais um passo em sua descida rumo ao inferno.
O ex-médico de campo tenta fazer Micro ponderar as consequências de levar Frank de volta à guerra, mas o ex-analista não tem mais ninguém a quem recorrer.
Ao mesmo tempo, a relação entre Billy Russo e Dinah Madani se aprofunda o suficiente para que a agente especial resolva se abrir, ao menos parcialmente, com o ex-militar. Sabendo que Frank está vivo, Billy passa a procurá-lo tanto através de Curtis, quanto através de códigos de rádio, algo que deixa Micro na ponta dos cascos.
Esse sexto episódio de O Justiceiro seguiu com a boa qualidade da série até o momento, embora tenha mudado sensivelmente o tom.
Há mais drama de personagens do que a urgência dos capítulos anteriores, o que está longe de ser mau negócio, já que as relações entre esses personagens é muito do que faz a série funcionar tão bem.
Novamente a relação entre Frank e David é um dos pontos altos da série.
A amizade entre os dois é muito bem trabalhada, e cresce de forma orgânica e esperta conforme eles experimentam, juntos, situações de vida ou morte, e quando David, de fato, resolve ouvir Curtis, e aconselha Frank a falar com Billy, que poderia oferecer-lhe uma forma de sair do país e retomar sua vida, ele fica no esconderijo sabendo que, tanto está perdendo a sua melhor chance de recuperar sua família, quanto aquele que pode ser seu único amigo.
A sequência onde Frank volta à casa de Sarah e as coisas se aproximam desconfortavelmente de uma conversa romântica é particularmente bem trabalhada, com David acompanhando pelas câmeras o clima entre sua esposa e seu amigo se tornando mais amigável e Frank sabendo que David está observando tudo pelo seu sistema de vigilância. Eu realmente não gostaria que as coisas se tornassem um triângulo amoroso manjado entre esses três, mas essa sequência, em particular, foi muito bem sacada.
O que nos leva a constatar, novamente, que todos os núcleos em O Justiceiro são muito bem escritos.
Eu me importo com os Lieberman, tanto com Sarah quanto com a filha Leo e o filho bully que está precisando de uma surra urgentemente, são todos personagens com quem eu me sinto capaz de sentir empatia. A mesma coisa vale para o núcleo de Curtis, com o grupo de apoio, O'Connor, Lewis e companhia, é uma história que eu curto acompanhar, em compensação, o pessoal do Lei & Ordem inserido ali no meio, segue sendo um pé no saco.
Madani, Stein, Hernandez... Todo o segmento estrelado pelo pessoal da Segurança Nacional é de amargar, e com a série prestes a ultrapassar sua metade, eles seguem dando a impressão de estarem em outro seriado, muito menos interessante, e que é enfiado no meio da edição.
De qualquer forma, acompanhar a jornada de Frank Castle segue sendo um prazer, e se o preço a pagar por isso é ter que suportar esses tiras xaropões, paciência.
O episódio se encerra com uma relação que não chega a surpreender quem acompanha os gibis, mas que deixa várias perguntas no ar. Os próximos sete episódios de O Justiceiro prometem.

"-Que tipo de vida é essa? Você passa por toda essa merda, é remendado e mandado de volta pra fazer tudo de novo."

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Resenha Série: O Justiceiro, Temporada 1, Episódio 5: Gunner


Após inadvertidamente deixar a agente Madani ciente de sua sobrevivência após salvá-la dos destroços de seu carro em Resupply, Frank e David precisam planejar seu próximo passo para expôr a conspiração que custou as famílias de ambos.
Devidamente armados e equipados, o Justiceiro e Micro vão atrás da fonte da gravação que colocou os dois na alça de mira do Agente Laranja (Paul Schulze), o especialista Gunner Henderson (Jeb Kraeger), companheiro de Frank durante a malfadada missão Cérberus, uma viagem que pode ter consequências potencialmente trágicas para todos os envolvidos.
Enquanto Frank faz preparativos para a viagem ajudando Sarah na residência Lieberman, a agente Madani, ainda se recuperando do capotamento nas docas começa a tentar rastrear sua melhor pista para o assassinato de Ahmad, o próprio Justiceiro. Para isso, ela sai no encalço de pessoas relacionadas ao vigilante, começando com Karen Page.
É interessante perceber como algumas coisas seguem funcionando após cinco episódios e outras continuam sem funcionar.
Todo o núcleo de Madani, com sua mãe, Stein e o superintendente Hernandez (Tony Plana) é terrivelmente chato e continua apartado da história principal. Nem mesmo a presença de Karen fazendo o meio-campo entre Frank e a agente especial funcionou, na verdade, pareceu uma tentativa desesperada de mostrar a conexão entre todas as séries, e por mais que O Justiceiro siga operando em uma nota completamente distinta das demais séries do universo televisivo, muito mais urgente, dramático e pesado, nós sabemos que Castle deu as caras pela primeira vez em Demolidor, tem um uniforme com uma caveira branca no peito e tudo mais, então, soou desnecessário.
Mais justificada foi a interação entre Karen e Frank. Há até algum potencial para envolvimento romântico ali, já que a química entre os personagens e intérpretes é flagrante. De qualquer forma, com Frank, Karen parece estar mais confortável para ser ela mesma, algo que nem sempre parece verdadeiro quando ela interage com Foggy Nelson e Matt Murdock em Demolidor, onde ela parece estar sempre se esforçando para esconder alguma coisa.
Falando entre personagens e intérpretes com química, Jon Bernthal e Ebon Moss-Bachrach estão muito perto de superar a química entre Charlie Cox e Elden Henson como o melhor bromance da Marvel/Netflix (O melhor bromance da TV em geral ainda é o de Steve e Dustin em Stranger Things). A dinâmica de Estranho Casal dos dois é muito engraçada, e se equilibra com perfeição entre o drama e a comédia.
Da forma como Micro usa Frank para interagir indiretamente com sua família enquanto Frank tem, nesses momentos, a oportunidade de voltar a agir como uma pessoa normal num tipo de terapia, ao modo como, ao ver David comendo um apetitoso sanduíche enquanto ele precisa se virar com ração empacotada, Frank pergunta se Micro fez um pra ele, a relação dos dois caminha a passos largos para se tornar um dos pontos altos de uma série repleta de boas sacadas, atuações e personagens.
Um personagem que apenas agora deu as caras foi a diretora da CIA Marion James de Mary Elizabeth Mastrantonio (que foi a Lady Marion de Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões com Kevin Coster), uma jogadora misteriosa e aparentemente capacitada nesse tabuleiro mortal.
Pra fechar a conta, a chegada de Frank e David ao Kentucky para tentar conversar com Gunnar não acaba nada bem para o Justiceiro, quando ele e seu ex-companheiro são emboscados por soldados a mando do Agente Laranja William Rawlins, liberando o inferno nas florestas isoladas onde o ex-combatente foi viver.
Uma das melhores sequências de ação da série, a luta da dupla contra os homens de Rawlins pode não ser tão bem coreografada como as belas sequências de pancadaria de Demolidor, mas, caraca, é urgente, tensa e sangrenta, carregada com um vasto cardápio de flechadas, tiros, murros e facadas, e o preço a pagar por esse confronto é alto.
O Justiceiro vai se aproximando da metade de sua primeira temporada se consolidando como a melhor série do universo Marvel Netflix ao lado de Demolidor, uma posição que dificilmente vai perder, a menos que a série tenha um decréscimo de qualidade absolutamente inacreditável do episódio seis em diante.
Apesar de ainda estar em seu início, o programa vai dando mostras de que seus produtores, roteiristas e diretores sabem o tipo de história que desejam contar, e não abrem concessões na hora de contá-la.

"-Quem quer que você seja, eu estou indo atrás de você."


Resenha Série: O Justiceiro, Temporada 1, Episódio 4: Resupply


A série solo d'O Justiceiro manteve a boa forma com Resupply, um episódio que, se não foi tão sensacional quanto Kandahar, esteve bem perto.
O capítulo abriu com Lewis se afundando mais e mais em sua dificuldade de readaptação à vida civil. Ele cava uma trincheira para dormir no quintal da casa dos pais.
Lewis, por sinal, tem um arco que vai deixando cada vez mais claro que ele tem um papel a cumprir nessa série após sua nova carreira ser frustrada por intervenção de Hoyle.
Mas se o arco de Lweis é interessante, ele segue sendo um arco secundário, e, falando em secundários, um dos salafrários de segunda mais recorrentes do universo Marvel/Netflix deu as caras quando o Justiceiro tentou roubar armas de Turk Barett (Rob Morgan), que vem apanhando de vigilantes desde o episódio piloto de Demolidor.
O problema é que o carregamento de Turk estava bem aquém do que Frank e David precisam, e os dois saem atrás de um outro carregamento de armas ilegais que os coloca em rota de colisão com a Segurança Nacional e os agentes Sam Sten e Dinah Madani.
Antes disso, porém, Frank é incumbido por David de ajudar sua esposa, Sarah Lieberman (Jaime Ray Newman).
Isso abre espaço para vermos um pouco mais do lado humano do Justiceiro. Quando ele é apenas um cara normal ajudando a consertar um triturador ou o farol de um carro. Jon Bernthal consegue transitar entre esse sujeito e o matador com uma naturalidade assustadora, e suas interações com os Lieberman são todas calorosas, mas com uma ponta de desconforto.
Eu torcia o nariz para Bernthal antigamente, mas preciso fazer um mea culpa e admitir que estava errado. O sujeito realmente manja, e Frank Castle é um personagem sob medida para ele mostrar o que sabe fazer.
Uma oportunidade de mostrar serviço também é oferecida a Madani e Stein, durante uma operação para frustrar a venda de uma fortuna em armas ilegais de contrabandistas gregos. Quando o Justiceiro e Micro se envolvem, finalmente vemos a agente especial entrar em ação.
Ao longo dos três primeiros capítulos a personagem de Amber Rose Revah vinha sendo um dos pontos mais fracos da série, com um breve vislumbre de personalidade durante uma interação com Billy Russo antes de Frank matar Wolf.
Em Resupply Madani bota a mão na massa, e vai pro confronto direto com Frank em um estiloso racha com mustangs.
Apesar de a sequência ser boa, e ter um desfecho que pode ecoar profundamente no futuro tanto da agente quanto no de Frank, ainda não foi o suficiente para redimir por completo a personagem. Madani continua sendo o ponto baixo da série, e eu continuo com o impulso de, nas partes em que ela e Stein aparecem, ir pegar algo na geladeira.
Por outro lado a relação de Frank com Micro só melhora.
Os dois estão formando uma parceria muito bacana, e me fazendo torcer para que a série não siga o caminho dos quadrinhos, onde, após anos e anos de camaradagem, os dois se tornam inimigos.
Apesar de Madani e Stein terem ganho um momento na ribalta, e o arco de Lewis e Hoyle se ligando a Billy Russo ser interessante, é a relação entre Frank e os Lieberman, em especial David, que dá o impulso para esse capítulo ser tão bom. O equilíbrio entre drama, ação e comédia dessas interações é o que, de melhor, esse episódio tem a oferecer.

"Ficou puto? ótimo. Puto é sempre melhor que assustado."

Resenha Série: O Justiceiro, Temporada 1, Episódio 3: Kandahar


A série solo do Justiceiro na Netflix já havia mostrado sua força nos seus dois primeiros episódios, este terceiro, porém, Kandahar, é um pontapé no gogó em termos tanto de desenvolvimento de personagens, quanto de ação, deixando claro o tipo de história que o showrunner Steve Lightfoot quer contar.
No final do capítulo anterior havíamos visto que o encontro cara a cara de David Lieberman, o Micro, e Frank Castle, o Justiceiro, não fora dos mais amistosos, e as coisas seguem nem um pouco amigáveis entre os dois.
Boa parte da primeira parte do capítulo se desenrola com David amarrado à uma cadeira enquanto Frank o espanca e ameaça durante um interrogatório, isso leva a uma série de flashbacks mostrando como o ex-analista da Agência de Segurança Nacional norte-americana deu uma de John Snowden após encontrar um arquivo terrivelmente comprometedor durante seus afazeres, e se viu do lado errado da história, sendo obrigado a fingir a própria morte para poder se manter vivo e deixar sua família em segurança.
Também relembramos o passado de Castle durante a intervenção dos EUA no Afeganistão.
O ex-fuzileiro relembra a série de eventos que levaram até a morte do policial Ahmad Zubair (Shezi Sardar), incluindo a operação narrada por Schoonover (Clancy Brown) durante o julgamento do Justiceiro em Demolidor, uma sequência de ação brutal, sangrenta e visceral.
Os flashbacks de Frank também servem para mostrar a amizade dele com Billy Russo, o que poderá tornar particularmente doloroso se esse personagem cumprir seu destino.
Veja, no quadrinhos, Russo era um assassino da máfia que, desfigurado adota o codinome do vilão Retalho, que apesar de ter surgido como oponente do Homem-Aranha, se tornou o arqui-inimigo do Justiceiro ao longo dos anos (mais ou menos como o Dentes de Sabre, que apareceu como inimigo do Luke Cage, a apenas depois virou o arqui-inimigo do Wolverine).
Se o personagem vivido por Ben Barnes se transformar em Retalho em algum ponto da série, será mais doloroso para Frank já que eles têm um passado em comum e, mais do que isso, eram melhores amigos, praticamente irmãos.
Aliás, Russo, agora o dono da Anvil, parece um bom sujeito. Ele ajuda Curtis a manter o grupo de apoio a ex-soldados, visita o túmulo de Frank, e se pergunta porque o seu amigo se tornou o Justiceiro ao invés de ir até ele, será interessante descobrir em qual momento de seu passado ele se transformou em um vilão.
Através dos flashbacks nós também descobrimos que Frank está mais ligado à morte de Zubair do que se poderia imaginar, e começamos a entender que, se a morte de Maria e as crianças foi o que tornou Castle o Justiceiro, esse não foi um processo súbito.
Frank vinha perdendo porções de sua alma a cada nova missão no oriente médio, e muito provavelmente o massacre de sua família foi apenas a gota d'água.
Todo esse transtorno de stress pós-traumático também está presente no arco paralelo do ex-soldado Lewis Walcott (Daniel Webber), um dos membros do grupo de apoio de Hoyle. Lewis não é um personagem egresso dos quadrinhos, mas a forma como ele começa a aparecer daqui por diante nos faz imaginar que ele terá um papel mais importante a desempenhar na série no futuro. Seu arco é certamente dramático e interessante, muito mais do que o dos agentes especiais Madani e Stein, por exemplo.
Apesar de Amber Rose Revah ter mostrado que é boa atriz e que sua personagem poderia ser interessante durante um breve momento no segundo capítulo, quando suas participações se resumem a ficar atrás da escrivaninha conversando com Stein, ou trovando com sua mãe (Shoreh Agdashloo) em casa, a personagem volta a ser um dos pontos mais fracos da série, aquela parte que a gente usa pra ir fazer um refil no refrigerante.
Apesar da utilização duvidosa de alguns núcleos, no entanto, a série segue forte.
Frank Castle é um personagem dinâmico e humano, e é difícil não querer saber pra onde ele vai em seguida. A adição de Micro ao núcleo pessoal do anti-herói torna as coisas consideravelmente mais interessantes, e a forma honesta e profunda de a série abordar os problemas de seus protagonistas oferecem uma relevância inaudita ao programa que alcança um tremendo pico em seu terceiro episódio.

"-Essa é a Operação Cérberus. E vocês são meus cães de guerra."