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segunda-feira, 29 de abril de 2019

Resenha Série: Game of Thrones, Temporada 8, Episódio 3: The Long Night


Atenção! Há spoilers abaixo!
E finalmente a batalha derradeira pela alma de Westeros recaiu sobre nós todos, espectadores de Game of Thrones há quase uma década com a fúria do Rei da Noite no que vinha nos sendo prometido como um evento sem precedentes na História da televisão e foi entregue, eu tenho certeza, da melhor maneira que foi possível para os produtores.
Sim, eu sei, o final desse primeiro parágrafo dá uma brochada na coisa toda, não é? Eu lamento, mas sob diversos aspectos The Long Night, terceiro episódio da derradeira temporada da série que se tornou um marco no que tange a cultura pop foi um tanto desapontador.
Considerando todo o hype que se criou ao redor do que deveria ser a única guerra que importa, não deixa de ser estranho que tenhamos visto os heróis pagarem um preço tão baixo por sua vitória.
Não me entenda errado, eu gosto muito de todos os personagens que tombaram em batalha, realmente gosto, mas em suas primeiras temporadas Game of Thrones havia criado a expectativa de que não havia personagem que estivesse a salvo, e se The Long Night nos provou alguma coisa, foi que há personagens que estão protegidos pela mais poderosa armadura da ficção:
A Plot Armor.
O fenômeno que garante a sobrevivência de qualquer um na trama não importa quão equivocadas sejam suas decisões ou quão inaptos eles sejam em seu ofício. Não que eu quisesse que mais dos meus personagens preferidos tivessem morrido, mas o fato de toda a contenda ter poupado a vida de todo o elenco principal reduz drasticamente a escala de risco do que deveria ter sido uma batalha de proporções monumentais.
Com isso eu não quero dizer que The Long Night tenha sido ruim, longe disso, em termos de escala o capítulo supera com folgas The Battle of the Bastards e Hardhome, dois dos melhores episódios da série, ambos dirigidos por Miguel Sapochnik que repete o trabalho aqui.
O capítulo se inicia basicamente de onde A Knight of the Seven Kingdoms terminara. Os heróis que juraram defender o lado dos vivos na guerra se entrincheiraram junto às muralhas de Winterfell e viram os exércitos dos mortos se perfilarem do outro lado do campo.
Enquanto dothraki e imaculados se preparam para a carga alguém cruza a neve parando junto a ser Jorah Mormont, é Melisandre de Ashai (a linda Carice van Houten, retornando após longa ausência), que faz uma das suas orações ao Senhor da Luz e, em um dos mais belos momentos do episódio, inflama os arakhs de toda a cavalaria dothraki, apenas para que, minutos depois, nós vejamos todas aquelas espadas flamejantes sumirem na escuridão absoluta ao final de sua carga.
Escuridão absoluta, por sinal, é uma constante ao longo dos oitenta e dois minutos deste que é o mais longo episódio da série em todos os tempos. Um recurso que já vimos antes para enxugar o orçamento de episódios da série e poupar no CGI, a escuridão em The Long Night é, por vezes, incômoda, fazendo vários momentos da batalha parecer uma briga entre dezenas de ratos dentro de uma caixa.
Seja como for, o fracasso instantâneo da cavalgada dos dothraki liderados por Jorah é o suficiente para Daenerys jogar o plano de batalha pela janela, montar em Drogon e fazer chover fogo nas hordas de mortos vivos que se chocam com as fileiras dos vivos, e daí por diante é uma sucessão de recuos estratégicos dos heróis, um passo de cada vez, sempre sendo superados em números pelo exército dos mortos que parece não ter fim e supera todos os obstáculos, seja aço valyriano, obsidiana, poços de chamas ou as muralhas da fortaleza ancestral da casa Stark.
Depois de algum tempo, o episódio ganha ares de Guerra Mundial Z, com os mortos vencendo a contenda, não por possuírem qualquer tipo de tática superior, mas apenas pela sua quantidade que é quase um enxame.
Não há espadachim habilidoso que seja capaz de suportar o ataque simultâneo de dezenas de inimigos, ou ao menos é disso que a primeira meia hora de batalha tenta nos convencer, apenas para, no decorrer da luta desmentir isso, conforme Jaime, Brienne e Arya se saem muito bem de qualquer forma.
E após os soldados do Rei da Noite adentrarem as muralhas de Winterfell, a abordagem muda, ganhando ares de filme de horror, como na sequência em que Arya faz um tenso jogo de esconde-esconde com um bando de zumbis na biblioteca, ou quando os não-lutadores nas criptas começam a ouvir o combate azedar para o lado dos vivos, e depois precisam enfrentar a própria batalha confinados embaixo da terra enquanto o destino do mundo é decidido no Bosque Sagrado.
Novamente, em termos técnicos, as falhas de The Long Night são compreensíveis quando analisamos as restrições orçamentárias de um programa de TV frente aos números de grandes produções cinematográficas. Eu estaria mais do que disposto a aliviar o breu quase total de The Long Night se esse fosse o único problema do episódio (ainda que The Battle of the Bastards tenha sido capaz de emular a desorientação de uma zona de guerra em plena luz do dia e com a audiência sendo capaz de enxergar tudo o que estava acontecendo), entretanto há mais questões a serem observadas no capítulo. As pequenas conveniências do roteiro, como por exemplo as longas ausências de Jon e Daenerys voando em círculos dentro das grossas nuvens invocadas pelo Rei da Noite em momentos-chave da batalha onde um dragão nas muralhas teria sido particularmente valioso para resistir ao cerco dos zumbis, ou como Tyrion e Sansa sobreviveram ao ataque às criptas, ou como Sam conseguiu sobreviver à luta deitado no chão tendo um chilique são momentos para apontar para os roteiristas e dizer "eu sei o que vocês fizeram ali".
Por mais que essas não sejam questões-chave que derrubem as estruturas lógicas da série (como a estranha passagem do tempo em Beyond the Wall), em um capítulo que era tão decisivo para o programa elas se tornam mais frustrantes conforme se combinam com outros pequenos elementos manipulados, seja para gerar tensão, seja para economizar em efeitos visuais sem fazer o sentido devido no contexto da porradaria, especialmente quando levamos em conta a baixa contagem de corpos entre os personagens centrais e a relativamente fácil resolução de toda a celeuma.
The Long Night flertou o tempo todo com o senso de perigo das primeiras temporadas de Game of Thrones, mas jamais deu a proverbial facada no coração da audiência que as mortes de Ned e Robb Stark deram anos atrás, e o fim do Rei da Noite (eu disse lá em cima que essa era uma zona de spoilers) não chega sequer perto de gerar a satisfação das mortes de Joffrey ou de Ramsey Bolton, de modo que, pra mim, é difícil não sentir uma ponta de desapontamento.
Mesmo o desenvolvimento dos personagens, um elemento que sempre colocou Game of Thrones acima de outras fantasias televisivas ficou escanteado ao longo do episódio, exceto por poucas boas cenas como o ataque de pânico do Cão de Caça em meio ao combate, a conversa entre Tyrion e Sansa nas criptas relembrando seu casamento, ou as palavras reconfortantes de Bran para Theon nos momentos finais do cerco.
Seja como for, após mostrar desde a primeira cena da série o tamanho do perigo representado pelos Andarilhos Brancos e seus zumbis, vê-los despachados em apenas um episódio, com tão pouco prejuízo e sem nenhum relance de suas motivações foi, sim, um anticlímax. Depois de sete anos esperando o exército dos mortos cruzar a Muralha, os vimos serem detidos no primeiro reino onde chegaram de maneira completa e irremediável.
Agora, com três episódios por vir, parece que as grandes ameaças serão mesmo Cersei, Euron, Gregor Clegane e Qyburn, o que, de certa forma, parece apropriado em um programa que sempre deu tanta ênfase à humanidade de seus personagens, resta torcer para que após o desapontamento de The Long Night, Game of Thrones consiga tirar da cartola um desfecho mais voltado a seus personagens centrais, e menos a um espetáculo que mal conseguimos distinguir.

"-O que dizemos ao deus da morte?
-Não hoje."

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Resenha Cinema: Vingadores: Ultimato


Foi há onze anos, quando Robert Downey Jr. deu cara, voz e muito de sua própria personalidade ao gênio, playboy, bilionário, filantropo Tony Stark, destinado a se tornar o Homem de Ferro, que o primeiro passo foi dado pelo que se tornaria, possivelmente, o mais colossal fenômeno da história do cinema.
A "Fórmula Marvel" de misturar comédia e ação com personagens saídos das páginas dos quadrinhos cresceu em proporção geométrica, o MCU abarcou nove franquias, vinte e um longa-metragens que variavam em qualidade de coisas como O Soldado Invernal a Homem de Ferro 2, o trabalho de milhares de pessoas que arrastou milhões ao cinema e faturou bilhões de dólares, e tudo isso culmina em Ultimato, o blockbuster dos blockbusters, onde uma dúzia de subtramas confluem para criar o que se tornou, ao menos para mim, a experiência de fã definitiva, e dar fecho aos eventos cataclísmicos de Guerra Infinita tendo a audácia de aumentar o escopo.
Ontem eu obviamente estava devidamente paramentado para assistir ao filme na pré-estréia após ter brigado de foice para conseguir bilhetes numa sala da pior rede de cinemas do Brasil, a Cinemark, e assistir ao longa que encerra mais de uma década de aventuras dos personagens da Marvel na telona.
Conforme fora alardeado durante a divulgação, praticamente tudo o que vemos nos principais trailers do longa acontece nos primeiros vinte minutos de filme, quando encontramos Tony (Downey Jr.) e Nebulosa (Karen Gillen) à deriva no espaço, e os Vingadores que sobreviveram a Thanos (Josh Brolin), Capitão América (Chris Evans), Viúva Negra (Scarlett Johansson), Thor (Chris Hemsworth), Bruce Banner (Mark Ruffalo), Máquina de Combate (Don Cheadle) e Rocket (Bradley Cooper) se unindo à Capitã Marvel (Brie Larson) para tentar um último ataque ao vilão três semanas após o estalar de dedos do Titã Insano.
As coisas, porém, não saem como os heróis esperam, e não lhes resta alternativa exceto retornar à Terra e lamber as feridas de seu maior fracasso.
Cinco anos se passaram e Steve Rogers se dedica a liderar grupos de apoio onde partilha sua história de vida e a importância de seguir em frente, Natasha e Rodhes tentam manter o que restou do mundo em ordem sempre em contato com Okoye (Danai Gurira), Danvers, Rocket e Nebulosa, Thor se uniu aos demais sobreviventes de Asgard e firmou Nova Asgard (na Dinamarca, conforme Odin sugerira em Ragnarok), mas agora vive entregue à depressão por ter falhado em deter Thanos. Clint Barton (Jeremy Renner) após ver sua família ser vaporizada diante de seus olhos assumiu a identidade de Ronin, e espalha seu próprio equilíbrio ao mundo, punindo exemplarmente aos perversos que foram poupados pela aleatoriedade do estalar, Bruce Banner encontrou sua paz interior, e Tony Stark seguiu com sua vida ao lado de Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) enquanto o universo amarga um luto que parece jamais ter fim.
As coisas ganham uma nova luz quando Scott Lang, o Homem Formiga (Paul Rudd) é trazido de volta do Reino Quântico onde estivera preso pelos últimos cinco anos tendo sentido a passagem de apenas cinco horas.
Desesperados, os remanescentes dos maiores heróis da Terra se reúnem para uma última e desesperada tentativa de reverter o genocídio perpetrado por Thanos e devolver o universo ao seu estado natural, custe o que custar.
Ao contrário de Guerra Infinita, que era protagonizado por dúzias de super-heróis e inúmeras linhas narrativas correndo em paralelo, Ultimato é centrado em um grupo muito menor de personagens. Isso torna o longa mais enxuto e fluido, mesmo com suas três horas de duração, e o fazem mais paciente e focado, o que é ótimo considerando quão complexo é o plano dos heróis para retaliar Thanos, ainda que sua trama arraste consigo elementos de uma dúzia de outros filmes.
Ao retirar o foco do antagonista, Ultimato dá aos maiores heróis da Terra a chance de voltarem a ser protagonistas em seu próprio filme, e isso traz de volta muito do que funcionara no primeiro Os Vingadores, quando as relações entre essas pessoas extraordinárias eram o cerne do filme.
Mais do que isso, o roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely (mais crédito para esses homens) oferece a Joe e Anthony Russo a oportunidade de extrair algumas das melhores atuações que essa franquia já viu, em especial de Scarlett Johansson, Downey Jr. e Chris Evans.
Capitão América e Homem de Ferro, por sinal, recebem o tratamento merecido após se tornarem ícones heroicos indeléveis na cultura pop, e têm o arco de personagem que os fãs sempre quiseram, e o destaque que Ultimato dá aos dois é, sob diversos aspectos, uma ode ao Universo Cinemático Marvel como um todo.
Muito disso passa pelo fato de que Ultimato é provavelmente a primeira oportunidade que o MCU dá aos fãs de olhar para trás ao invés de para a frente. Nos últimos onze anos nós aprendemos que os filmes da Marvel eram sempre a preparação para o próximo evento. Os primeiros longas individuais preparavam terreno para Vingadores, os seguintes para a chegada de Thanos e assim por diante. Dessa vez as coisas seguem na direção oposta. O longa revisita tramas de filmes anteriores, conecta todos os pontos e traz de volta as coisas que todos os fãs amam.
Se Guerra Infinita foi todo a respeito de subverter expectativas, Ultimato é todo fan service em sua melhor forma. É uma carta de agradecimento aos fãs por sua paciência e dedicação pelos últimos onze anos nos entregando tudo aquilo que nós queríamos, sim, mas de diversas formas nos tirando, de uma maneira tão emocionalmente pujante quanto definitiva, o que é provavelmente a maior, mais completa e triunfante experiência jamais partilhada por fãs.
Sob diversos aspectos o Universo Cinemático Marvel morre em Vingadores: Ultimato. O mosaico que tínhamos visto se formar peça por peça ao longo de vinte e um filmes chegou ao seu desfecho. Há um novo mosaico se formando, claro, mas parece virtualmente impossível que ele supere ou mesmo repita o que nós tivemos nesses vinte e dois filmes, e francamente?
É melhor assim.
Como certa vez Visão nos disse: As coisas não são belas porque duram.

"-Avante, Vingadores."

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Resenha Série: Deuses Americanos: Temporada 2, episódio 7: Treasure of the Sun


Atenção! Spoilers abaixo!
Ao longo dessa segunda temporada, salvo episódios eventuais como o anterior, que foi todo de Sr. Quarta-Feira, dois personagens têm carregado Deuses Americanos nas costas: Mad Sweeney e Laura Moon.
O leprechau e a esposa morta foram as âncoras de um segundo ano dramático nos bastidores, com a perda dos showrunners originais e a entrada de um novo produtor executivo que, aparentemente, foi escanteado pelo restante da produção, e que começou claudicando mas pareceu ter encontrado o caminho nas últimas duas semanas, com o bom The Ways of the Dead, o ótimo Donar the Great e agora esse excelente Treasure of the Sun, que colocou Pablo Schreiber sob os holofotes.
Todo o capítulo, à exceção de uma boa e curta sequência entre Laura e Mama-Ji, revolve em torno de Mad Sweeney tentando relembrar o passado que a loucura levou.
Ao longo de cinquenta e três minutos nós vemos o leprechau ser desenvolvido e aprofundado conforme é confrontado com diversas versões da origem do rei irlandês que se transformou em um mitológico leprechau gigante cuja perícia no manejo da lança rendeu-lhe o apelido de "Mãos Longas" quando ele defendia a Ilha Esmeralda de invasores de todos os lados, ou como ele foi amaldiçoado por um monge e fugiu de um combate que custaria-lhe a vida, ou como suas posses e títulos lhe foram tomados quando ele virou as costas para suas obrigações transformando-se em um eremita louco na floresta... Cada interlocutor de Sweeney tem uma versão da história, e de cada um deles Sweeney extrai um novo fragmento para montar o mosaico da lembrança levada pela loucura.
Mais do que isso, fica claro que, a exemplo de Laura, que elevou Quarta-Feira em Muninn, Sweeney tem a mesma capacidade de mostrar o melhor em quem contracena com ele.
Shadow, Bilqis, Sr. Íbis, Sr. Quarta-Feira e Salim, com quem ele compartilha algumas ótimas piadas de fadas que podem se perder na tradução...
Pablo Schreiber pareceu ser apenas um ótimo alívio cômico na primeira temporada, ao menos até Prayer for Mad Sweeney, que ele dividiu magistralmente com Emily Browning, e agora, novamente no penúltimo episódio da temporada, ele mostra um alcance que ainda não havia tido a chance de exibir. Sim, ele ainda tem os trejeitos e o sotaque de um beberrão irlandês, todo marra e balaca, mas conforme montamos o quebra-cabeça de como o rei se transformou na representação do Sol para seu povo, descobrimos que Sweeney, por mais que queira, é mais do que um guerreiro coberto de sangue no coração de uma (excelentemente filmada) batalha ou o bárbaro pagão beijando os seios de uma bruxa à luz do luar, ou mesmo o monarca decidido a não permitir a construção de igrejas em seu domínio, ele é um homem enlouquecido pela perda de sua esposa e filha, ele é alguém que amou e perdeu, e que tem perdido incessantemente há tempo demais.
Mesmo após começar a relembrar quem é, Sweeney mantém a postura comicamente desagradável, mas quando o faz, nós ainda conseguimos ver a fragilidade que cada nova memória deixou sob sua fachada de confiança. Seu olhar e linguagem corporal denunciam a fragmentação de sua personalidade.
Os múltiplos passados de Sweeney também são excelentes nesse sentido. Ele é um louco de dar pena, um guerreiro feroz, ou um rei magnífico dependendo do viés escolhido, e Schreiber entrega tudo em cada segmento, e quando voltamos ao presente, onde ele foi relegado ao segundo plano após a chegada de Shadow ao seio dos deuses, assumindo o posto de guarda-costas de Quarta-Feira e guardião da Gungnir, percebemos o quanto os anos custaram ao leprechau desde que a religião transformou o povo Fada em duendezinhos verdes e gananciosos e o quão inconformado ele realmente está com o papel que lhe foi dado na farsa de Odin.
E quando ele finalmente tem o suficiente e se volta contra o Pai de Todos, as coisas não acabam bem para o leprechau, que cai golpeando, e, com seu último truque, consegue deixar um tremendo pepino nas mãos de Quarta-Feira.
Agora, deixe-me dizer que, por melhor que esse episódio tenha sido, eu não sei se consigo imaginar uma terceira temporada (já encomendada pelo canal Starz) sem o personagem.
Seja como for, após um início muito irregular, Deuses Americanos parece estar chegando perto de voltar a ser a série que foi em sua primeira temporada, eu, pessoalmente, vou torcer para que isso realmente aconteça, mas com Sweeney a bordo.

"-por que está vestida em andrajos, meu amor? Onde está seu vestido? O amarelo com bordados vermelhos? Você usou no dia de nosso casamento.
-Você lembra?
-Oh, sim. Nós dançamos no jantar e eu pensei que estava dançando com o sol."

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Resenha Série: Game of Thrones, Temporada 8, Episódio 2: A Knight of the Seven Kingdoms


Atenção!
Spoilers abaixo!
Winterfell, primeiro episódio da derradeira temporada de Game of Thrones, foi um bom episódio. Não mexeu a trama como gostaríamos, mas era importante que a série fizesse aquele quem é quem necessário para situar os espectadores que não são capazes de citar todas as casas nobres de Westeros de cor e salteado, e que não permanecem lamentando as mortes de Grenn e Pyp, e nem acharam golpe baixo Jon sugerir sexo em uma caverna de gelo a Daenerys quando mal fazem cinco anos que Ygritte morreu.
Os primeiros cinquenta e três minutos do fim de Game of Thrones foram um quem é quem para os fãs que não se lembram de todo mundo. Um mapa de quem estava onde e fazendo o que após mais de um ano de hiato em que nem todo mundo ficou revendo as temporadas anteriores.
Os cinquenta e oito minutos de A Knight of the Seven Kingdoms novamente não movimentaram a trama como poderíamos esperar para uma temporada de apenas seis episódios, entretanto, tivemos o proverbial último fôlego antes de um mergulho.
Se Winterfell relembrou a audiência quem eram aqueles personagens, o segundo capítulo da temporada nos lembrou por que nos importamos com esse povo todo. Não houve praticamente nenhuma cena que não tenha servido a esse propósito específico, restabelecer as dinâmicas entre eles, e entre eles e a audiência, para que, quando as portas do açougue se abrirem no domingo que vem, nós lamentemos infinitamente mais.
Poderia-se argumentar que esse é um tremendo golpe baixo dos showrunners, roteiristas e diretores, sem dúvida. Poucas manobras podem ser mais rasteiras, entretanto, quando bem utilizado, o recurso é extremamente válido e funcional, e em A Knight of the Seven Kingdoms, Bryan Cogman e David Nutter, respectivamente roteirista e diretor do episódio, fazem um tremendo trabalho ao usar o expediente.
Nós não somos apenas relembrados de por que gostávamos desses personagens, nós temos pouco menos de uma hora para nos apaixonarmos por eles novamente.
Jaime Lannister, um dos meus personagens favoritos nos livros e que na série teve sua jornada de redenção deveras comprometida durante a quinta temporada, retoma o caminho da expiação, e não consegue fazê-lo sozinho, mas através de Brienne, que o faz através de Sansa... O roteiro do capítulo encapsula tudo o que sabemos sobre esses personagens, suas complicadas relações e os tortuosos caminhos que eles trilharam desde a primeira temporada até aqui, o que torna ter acompanhado todo o percurso muito mais saboroso.
Tome por exemplo tudo o que sabemos sobre Brienne desde a primeira vez que a vimos na segunda temporada, diz não ligar para o título de cavalaria até ser desmentida por uma careta de Podrick, mas que quando se levanta após ser ordenada por Jaime tem os olhos rasos de lágrimas e um sorriso escancarado no rosto, uma reação que reverbera muito mais para aqueles que se lembram da forma como ela só desejava uma posição na guarda pessoal de Renly Baratheon.
É uma escrita muito esperta, e se estende a todos os personagens. Jorah, que almejava se tornar mão da rainha com a ascensão de Daenerys ao Trono de Ferro fala em favor de Tyrion, com quem a paciência da mãe dos dragões está prestes a se esgotar, depois se conecta com sua prima, Lyanna Mormont, a herdeira de sua casa, e então a Sam, com quem troca reminiscências sobre Jeor Mormont. De novo, é muito mais saboroso de se ver quando acompanhamos todo o resto... E é como um rastilho de pólvora correndo pela casa ancestral dos Stark.
Jaime faz as pazes com Bran, se reconecta com Tyrion, e jura serviço à Brienne. Gilly e Davos convencem uma menina de rosto marcado como Shireen Baratheon a se proteger nas criptas, Tormund conta como ganhou a alcunha de Terror dos Gigantes enquanto corteja "a mulher grande", Arya partilha uma bebida com o Cão de Caça e Beric Dondarrion, mas quando se dá conta de que aquela pode ser sua última noite na Terra decide ir atrás de alguém por quem sempre sentiu afeição, Missandei e Verme Cinzento fazem planos para após a guerra, e o reencontro entre Theon e Sansa me levou às lágrimas.
Sophie Turner, por sinal, merece aplausos. Ela transformou a insuportável adolescente que recebeu entre os fãs a não-elogiosa alcunha de Sonsa Stark em uma líder forte e inteligente. A conversa entre ela e Daenerys deixa claro o tamanho da astúcia que a ruivona adquiriu nos últimos anos com a forma como ela joga um balde de água gelada nas calorosas intenções da Khaleese de fazer as pazes com a cunhadona.
Vemos Jon se reencontrar com Edd Doloroso e Tormund, e depois, nas criptas, vemos que saber de sua verdadeira linhagem não tornou Jon menos filho de Eddard Stark.
Ele não tem nenhum desejo de contar à Daenerys sobre quem são seus pais. Ele provavelmente nem mesmo quer o Trono de Ferro, mas é honrado demais para omitir a verdade.
A reação de Daenerys também é as oito temporadas da personagem em uma casca de noz, a guria comeu o pão que o diabo amassou para conseguir exércitos, navios e dragões e quando finalmente chegou ao continente e está praticamente com um pé na cadeira mais desconfortável da cultura pop, ouve que o seu novo namorado não só é seu sobrinho como tem preferência para a coroa...
O momento não podia ser pior escolhido, mas Jon não quer ir para o campo de batalha com esse segredo, porque, como todos os demais personagens ao longo do episódio, de Jaime a Arya, de Brienne a Sam, ele não acredita que vá sobreviver. A Knight of the Seven Kingdoms é um jab para os murros que começarão a ser desferidos na próxima semana quando provavelmente muitos, muitos desses personagens que nós passamos oito temporadas aprendendo a amar serão chacinados diante de nossos olhos, mas é um tremendo jab, brilhantemente galgado no que é a verdadeira força de Game of Thrones, seus personagens e os roteiristas, diretores e atores que os trazem à vida.

"-Se eu fosse um rei, eu a teria feito cavaleira dez vezes...
-Não é preciso um rei. Basta outro cavaleiro. Deixe-me mostrar..."

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Tudo Falta


Falta-me tino na tua ausência. Falta oriente
Toda hora sem notícia enquanto a noite adentra
E assoma a falta da tua saudação multiplicada
O silêncio preenchendo o vazio com mais vazio

Falta-me luz na calada das noites silentes
Conforme a tua falta me enche de angústia
E as sombras se alongam no claustro baldo
Tornando-me cego para tudo o que não é tu

Falta-me força quando não te ouço e vejo
E previsões melífluas me assaltam a mente
Conforme a certeza é subjugada pela dúvida
E a distância física cresce e se evidencia

Falta-me a coragem quando sei que tu não vens
E cada palavra tua parece um adeus travestido
Me deixando a certeza de que tu não retornará
De que teu caminho é outro, apartado de mim

A tudo me falta quando me faltam tuas palavras
Teu sorriso aberto aberto qual flor de primavera
Teus plural defeituoso, a sugestão do teu cheiro
A tua morenice cálida, a promessa do nosso futuro...


Resenha Série: Deuses Americanos: Temporada 2, episódio 6: Donar the Great


Eu confesso que quando Donar the Great começou, com um número de burlesco protagonizado por Sr. Quarta-Feira e dez mulheres, mas apenas nove vestidas, eu achei que a sequência de episódios bom-ruim-bom-ruim fosse ser mantida após o bom The Ways of the Dead.
A quantidade de filler ao longos dos cinco primeiros episódios da segunda temporada foi tamanha que qualquer episódio que apresentasse um mínimo avanço na trama ou desenvolvimento de personagem já seria considerado um avanço, mas Donar the Great foi além do mínimo, e ofereceu desenvolvimento a um dos personagens centrais da série:
O Pai de Todos em pessoa.
O passado de Sr. Quarta-Feira como o líder de um teatro de burlesco da década de 1930 chamado Al Grimnir (uma referência a Al Swearengen proprietário do Gem Theatre interpretado por McShane na série Deadwood).
Al tinha um número formado por deuses como Donar (Derek Theler), o filho de Grimnir, Thor, e Columbia (Laura Bell Bundy), a personificação da América, que se alimentavam das migalhas de adoração dos frequentadores do teatro e sobreviviam à custa do espetáculo.
Nós ainda não havíamos tido nenhum grande insight da pessoa por trás dos maneirismos e trejeitos de Quarta-Feira. O personagem é um golpista escamoso e divertido com uma lábia inevitável que fala muito e rápido e, como ele próprio diz ao se apresentar no piloto da série, cedo ou tarde, sempre consegue o que quer, não importa quão intrincados sejam as tramoias que ele precisa engendrar para chegar a seus objetivos.
Desde que começamos a acompanhar o personagem quatorze episódios atrás, já o vimos enganar a lei, homens e deuses, mas em Donar the Great nós descobrimos como as armações do personagem nem sempre dão certo, e o quanto já lhe custaram conforme acompanhamos ele jogar com os destinos de seu filho e de sua nora em potencial em nome do próprio ganho.
Ele empurra Donar para ser o rosto de um grupo simpatizante do nazismo em competições de força, e empurra Columbia para os braços de Technical Boy para ser a garota-propaganda do esforço de guerra que será em breve necessário.
A jogada de Grimnir é se livrar de Columbia, que deseja se afastar de suas maquinações e estratagemas partindo para a Califórnia com Donar.
O desfecho da interferência de Grimnir nos destinos de Columbia e Donar é, como podemos imaginar, trágico para todos os envolvidos, e apesar de vermos toda a tristeza que o caso causou a Quarta-Feira, ele segue sendo o mesmo calhorda manipulador de então, basta ver que o que ele fez a Donar e Columbia oitenta anos atrás é basicamente a mesma coisa que ele está fazendo nesse momento a Shadow e Laura.
Se à época sua ideia era pegar carona na popularidade de Donar para voltar à ribalta com todo o panteão, dessa vez ele resolve guerrear em nome do status perdido, e para isso usa descaradamente as habilidades de Shadow para conseguir acesso a um item de grande poder:
Uma jaqueta de couro usada por Lou Reed, o item mais magnífico à disposição em um caidaço shopping center do meio-oeste americano onde está o santuário de Sindri (Clark Middleton) e Dvallin (Jeremy Raymond), os artífices capazes de gerar as runas de guerra de que Quarta-Feira precisa para reforjar sua lança.
Obviamente o charmoso deus antigo não pretende pagar pela relíquia, mas planeja um conto-do-vigário à moda antiga para chegar a seu objetivo junto com Shadow.
A sequência onde os dois aplicam seu golpe, por sinal, é muito boa, como, por sinal, tendem a ser todas as sequências onde vemos um pouco do velho Shadow e a excelente química que Ricky Whittle partilha com Ian McShane é revivida.
Claro, a atuação de Derek Theler está longe de ser excelente, a participação de Orlando Jones é irregular, com suas piadas fora de tom comparado com seu discurso a respeito do próprio passado, e as inserções de Sr. Mundo e da Nova Mídia (que toda a vez que aparece, por mais coxuda que Kahyun Kim seja, dá mais saudades de Gillian Anderson...) parecem fora de lugar, mas ainda assim, em meio a todo o estilo vazio de episódios anteriores, Donar the Great conseguiu ter substância e energia ao fazer total uso das habilidades de McShane, que carregaria o episódio inteiro sozinho com sua atuação (veja as cenas onde a dor da memória parece tirar momentaneamente o brilho sagaz de seus olhos e depositar o peso do mundo em seus ombros).
Novamente, esse bom episódio da série ainda está longe, muito longe de ser um retorno à excelência da primeira temporada, mas é outro passo na direção certa, e pela primeira vez, o segundo dado de forma consecutiva, vamos torcer para que os dois episódios que faltam para o fim da temporada mantenham, ou melhorem o ritmo.

"Minha lança... Você iniciou a primeira guerra. Nós vamos encerrar a última."

segunda-feira, 15 de abril de 2019

(Outro) Dia da Vitória


Era um sábado de tarde.
Havíamos almoçado após o cumprimento de nosso ritual de sempre.
Eu chegar do trabalho, te beijar e conversar um pouco contigo antes de tomar um banho rápido (pros meus padrões de quem toma banho de noiva).
Depois do almoço era teu dia de lavar a louça, e eu fui até a sala e sentei no sofá para baixar uns textos no computador.
Tu chegou na sala após alguns minutos e me disse que a pia da cozinha estava vazando.
Eu te perguntei "vazando como, meu anjo?" e tu me disse que estava saindo água por baixo. "Hmmm", eu respondi, largando o computador e levantando do sofá enquanto ia contigo até a cozinha.
A portinhola sob a pia estava bem fechada. Não era um compartimento que usássemos em casa. Nenhum de nós gosta da ideia de ter nada em que precisemos mexer com frequência tão perto da caixa de gordura.
Tu mesma disse "Água fedida".
Não quereríamos ter nem produtos de limpeza ali, imagine então, panelas? Nem pensar. Aquele compartimento era unica e exclusivamente para abrigar o cano que levava a água da pia ao sistema de esgoto.
Eu cheguei à cozinha e vi a pequena poça diante da pia. A porta, emperrada, demandava um pouco de força para ser aberta. Um tapa forte em um dos cantos, fazendo o outro se projetar de modo a haver base para puxá-la para fora.
Eu sentei no chão diante da estrutura demasiado baixa para que eu apenas me agachasse, e virei o pescoço com dificuldade para ver o problema.
Abri a torneira e esperei para ver de onde tinha a água. Uma rachadura no cano.
"Não é nada de grave, morena. Eu resolvo." Eu te disse.
Me levantei e andei até a área de serviço apanhando minha caixa de ferramentas. A abri e tirei uma caixa de massa epoxi, comentando que costumava usar aquilo pra customizar figuras de ação. Misturei uma pequena porção da massa branca com a cinza e quando ficou uniforme, apliquei no cano. Esperei um minuto mais ou menos contado no relógio do microondas e te pedi "Liga a torneira aqui, meu amor?", o que, quando tu fez, te posicionando bem diante de mim, aproveitei o ensejo e, sentado no chão, beijei tua coxa, bem na altura dos meus lábios.
O reparo funcionou, eu te informei. "É temporário, mas vai servir até eu comprar um pedaço de cano ou uma mangueira pra colocar no lugar." te disse enquanto me levantava colocando a caixa de ferramentas de volta na área de e voltando pra lavar as mãos, o que fiz com bastante cuidado.
Ao terminar sequei as mãos em um pano limpo sobre a pia e me dirigi a ti como se fosse te dar um beijinho.
Ao invés disso, me inclinei passando um dos braços por trás dos teus joelhos enquanto, com o outro, amparei tuas costas te inclinando pra trás e te beijando tal qual o beijo do dia da vitória de Alfred Eisenstaedt, exceto que aproveitei o movimento para tirar tuas pernas do chão e te erguer no colo. Te levei pra sala nos meus braços, ainda te beijando enquanto sentava de volta onde estava no sofá da sala.
"Eu termino de consertar durante a semana, tá?".
Tu concordou com um sorriso. Eu continuei te beijando, agora deitada no meu colo, e eventualmente a vontade de tirar a tua roupa foi demais, e eu o fiz sentindo teu cheiro no meu nariz e o gosto dos teus lábios nos meus, e depois o gosto do teu corpo todo na minha boca. Nós ficamos deitados despidos no sofá por algum tempo, depois, até tu te levantar dizendo que ia até a cozinha e me perguntar se eu queria alguma coisa. Eu sorri sem dizer nada enquanto te via saltar na ponta dos pés pra fora da sala. Quando tu saiu do meu campo de visão eu pensei:
"Eu quero isso... Pro resto da vida..."