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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Medo?


Foi publicado na mais recente edição da respeitada revista científica Nature, um estudo realizado por cientistas norte-americanos que mostrava ser possível, através de métodos de sugestão, acabar com o medo de seres humanos, substituindo más lembranças por outras, boas.

A técnica foi usada para sanar um cenário bastante específico, induzir nas pessoas testadas medo de um quadrado vermelho, que, quando olhado, gerava um choque elétrico.

Isso já havia sido testado com sucesso em animais, e agora o processo se mostra factível também em humanos, embora ainda não tenha aplicação prática, uma vez que o projeto ainda está em estágios iniciais.

Agora eu me pergunto: Será que queremos acabar com o medo?

Muitas pessoas levam meias-vidas por sentirem medo, OK, há casos de medo patológico que, de fato, fazem mal ás pessoas. Mas de modo geral? De modo geral, o medo é nosso amigo. O medo é aquele colega á quem não damos muito valor, até que ele nos dá um conselho como 'Não vá tão rápido.", "Não nade além da arrebentação.", "Cuidado com aquele sujeito.", e, olhando em perspectiva, percebemos que ele tinha razão, e que seu conselho fora valioso.

Muitas pessoas supõe que a coragem é a ausência do medo. Eu discordo diametralmente. A coragem de nada vale sem o medo. A ausência de medo é a irresponsabilidade, coragem é o dom de superar o medo, independente de o quão forte ele pode ser.

Uma pessoa corajosa sabe o quanto tem á perder, sabe o quão penoso será encarar seu temor, mas coloca na balança e percebe que tem muito a ganhar se tentar, se experimentar, se enfrentar seu medo.

Claro, no meu raciocínio mando a coragem banalizada lá pra casa do Capita. Coragem tem que trazer mais ganhos que prejuízos, coragem tem que ter um determinado custo, e uma recompensa que o supere.

O medo? O medo tem que estar lá. No final das contas, esse incompreendido, de quem jamais, em tempo algum devemos ser escravos, é o avalista de nossa coragem.

É graças á ele que sabemos o quanto ela vale.
"Não renegue o medo. Abrace a vida."

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O Sanduba do Godofredo

Nham.
Foi o ruído que fez Godofredo, mirando com uma contrição quase religiosa o sanduíche de lombo de porco, queijo provolone, tomate, maionese, mostarda e rúcula diante de si.
Godofredo adorava sanduíches. Era bom na confecção deles. Se orgulhava de dominar a técnica de corte que evitava um sanduíche torto. Sabor, para Godofredo, era tão físico quanto químico. Um sandúiche torto, ou cujo recheio ficasse escapulindo inconvenientemente de seu interior era menos gostoso do que um sanduíche pereitamente simétrico. Que pudesse ser saboreado sem que uma rodela de tomate insistisse em se dependurar feito um suicida para fora da borda do pão.
Os sanduíches de Godofredo podiam ser comidos sem guardanapo, de tão bem montados que eram. Não importava que tipo de força fosse aplicada pelo afortunado consumidor na hora de abocanhar um pedaço, o sanduíche permanecia sempre como se houvesse sido feito de espuma para uma foto.
Desde moleque Godofredo se dedicava a fazer sanduíches, como quase sempre na vida a necessidade mostrou a vocação, foi num final de semana sozinho em casa, aos quatorze anos, que Godofredo se pegou faminto, e sendo incapaz até de olhar para um miojo ou para uma lata de salsichas, viu o pão, os frios e a maionese na geladeira, e pensando que não deveria haver nenhuma dificuldade naqueilo, fez o sanduíche.
Ficara saboroso. Mas Godofredo, sem mais nada em que aplicar seu tempo ocioso, resolveu experimentar. Removeu todos os temperos do ármario da cozinha de sua mãe, e experimentou dezenas, quiçá centenas de combinações de frios, de queijos, maionese, manteiga, temperos diversos, proporções variadas.
Apaixonado pelas próprias criações, guardou-as de memória, quando seus amigos o visitavam para jogar video-game, servia-lhes as iguarias arrancando suspiros de todos. Numa noite de futebol na TV fez dois sanduíches para si, e ofereceu um deles á seu pai, que de tão espantado com a excelência do lanche que berrou pela presença da esposa, fazendo-a também provar a iguaria. O resultado foi igual, a mãe de Godofredo também se espantara com o sabor, a consistência, e a contrução do sanduíche de Godofredo.
O que começara como um talento para dividir com os amigos se tornou profissão quando Godofredo, precisasndo de dinheiro para viajar com os amigos, conseguiu um emprego temporário em uma lanchonete. Bastou um único sanduíche para que os lanches de Godofredo superassem, em muito, os chesseburguers e cachorros-quentes do estabelecimento.
Godofredo tentou, á pedido do patrão, que lhe ofereceu um bônus, ensinar sua técnica aos colegas, no entanto, por mais esforçados que fossem, eles eram incapazes de repetir com exatidão os gestos de Godofredo, de modo que seus sanduíches nunca eram tão bons quanto os originais. Ainda assim, as meras receitas de Godofredo alavancavam as vendas. Godofredo, um um lampejo de consciência e tino para negócios, percebeu o que estava havendo, e traço um plano audacioso.
Pediu a ajuda de seu pai, e através de um empréstimo bancário arriscado para as finanças de ambos (Especialmente as de seu pai, uma vez que Godofredo praticamente não tinha nenhum dinheiro.), abriu seu próprio restaurante. Especializado, claro, nos sanduíches de Godofredo.
Ele trabalhava com a mãe e a irmã mais nova, fazia os sanduíches, sua irmã servia as mesas e a mãe cobrava. Mesmo trabalhando feito um cavalo, sem tempo para nada exceto o restaurante, logo precisou contratar mais pessoas, contratou duas garçonetes, levou a mãe e a irmã para a cozinha, afinal, elas eram as únicas que se aproximavam da magia de Godofredo com pães e frios, enquanto se dividia entre o preparo dos lanches e o caixa, o que só lhe fazia labutar mais, o que fazia com gosto.
Os negócios cresciam em um ritmo vertiginoso, em menos de três anos Godofredo precisou contratar mais duas pessoas, depois mais três, alugou a loja ao lado e ampliou seu negócio, sempre trabalhando com afinco á despeito dos apelos de sua mãe, que queria que ele parasse um pouco, e cuidasse de si.
Mas Godofredo não parava.
Contratou moto-boys para as tele-entregas para bairros distantes, aumentou a variedade de seu cardápio após dois meses de noites mal-dormidas testando combinações e sabores novos.
Pagou seu pai, e, em agradecimento, deu-lhe um carro novo. Pagou férias no exterior para o pai e a mãe, pagou a faculdade da irmã, comprou um apartamento para si e abriu, junto com um dos amigos da adolescência, outro restaurante em outro bairro da cidade, sempre diligente, jamais relegando tarefas e mantendo a qualidade de seus sanduíches celestiais.
Á despeito do cansaço beirando a exaustão, de ter abandonado a escola, e de não ter tempo para mais nada, os negócios iam bem para Godofredo, mas, conforme sua vida ficava um pouco mais tranquila, graças aos ajudantes e ao dinheiro, Godofredo percebeu que estava se sentindo solitário.
Foi sentindo essa solidão que percebeu Charlote, jovem atraente que sempre ia ao restaurante e pedia o mesmo sanduíche, lombo com rúcula.
Godofredo sempre a achara atraente, e, numa noite de movimento mais tranquilo, teve a oportunidade de conversar com ela. Foi quando se encantou, além dos cabelos castanho-avermelhados, dos olhos verdes e dos lábios rosados, com a inteligência, a presença de espírito, e a doçura da jovem, divertida e tão atenciosa para com ele, a convidou para sair ela aceitou.
Foram ao cinema, ele a pegou em frente á sua casa, estava linda, perfumada, o que fez com que ele se sentisse desconfortável, atrapalhado que estava com o trabalho, mal tivera tempo de tomar um bom banho, estava com barba por fazer, cabelos desalinhados, dirigindo o carro da lanchonete. Mas a noite foi agradável, e na despedida houve a promessa de novo encontro.
Godofredo se apaixonou pela moça. Resolveu que, se quisesse alguma chance com Charlote, precisaria dar uma melhorada na sua judiada carcaça. Ao invés de cortar o cabelo num cabeleireiro qualquer foi á um hair stylist, que lhe cobrou um preço que, em qualquer outra ocasião pareceria abusivo, fez a barba em uma estética masculina, coisa que seus amigos taxariam, no mínimo, como coisa de gremista.
Fez as unhas, geralmente roídas e engorduradas pela maionese e os frios, e passou gel no cabelo.
Encontrou Charlote, á levou para jantar, conversou com ela novamente, embora ela seguisse educda e agradável, ele a sentiu um pouco evasiva, imaginou que fosse por causa de seu carro e de suas roupas. Afinal, vestia uma camiseta qualquer, calças jeas e tênis, e dirigia um fiorino com o nome de sua sanduicheria no lado.
Investiu dinheiro em roupas de marca, e, arriscando um pouco o orçamento, comprou um sedã japonês do ano. Do ano passado, mas enfim.
Quando foi encontrar Charlote novamente, vestia-se com roupas de grifes famosas e dirigia um sedã caro.
Mas Charlote, que durante todo o tempo parecera desconfortável, ao se despedir, pediu que Godofredo não a procurasse novamente, pois não havia mais a química que, á princípio, imaginou haver entre eles.
Godofredo atendeu o pedido de Charlote, e não a procurou mais. Passou algum tempo novamente afundado no trabalho, eventualmente, com o tempo, curou a dor de cotovelo e encontrou o amor, mas jamais esqueceu Charlote.
O que ele não entendeu, é que Charlote gostava de homens simples, trabalhadores, talvez até meio toscos, mas autênticos. Como era Godofredo antes do banho de loja e da repaginada, e como seguiam sendo seus deliciosos sanduíches.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Rapidinhas do Capita!


Duas notícias veiculadas no Video Game Awards 2009.
Além das premiações para vários games que eu não joguei, saíram notícias animadoras sobre continuações de games que eu joguei!
Star Wars - The Force Unleashed terá uma continuação (Ou prequel, pois o final do jogo não deixa muita margem pra continuação.) á ser lançada no final de 2010, contagem regressiva, então, para aqueles que como eu terminaram a aventura de Galen Marek com gostinho de quero mais.
No video de divulgação um personagem surge dividido entre os conselhos de Yoda e de Darth Vader, alguns sites mencionaram Starkiller, codinome do personagem central do primeiro game, porém, me pareceu um personagem diferente na prévia.

Outra boa notícia foi que Batman: Arkham Asylum também deve receber uma sequência. O jogaço estrelado pelo cavaleiro das trevas termina com um final aberto, e, com o sucesso estrondoso que fez, não chega a ser surpresa o anúncio de uma continuação.

Que a Força esteja conosco.

Seleção Natural


-Eu não quero fazer isso. -Disse Romero, cheio de nervosismo na voz. -Não quero. É errado. É crime. E, pior de tudo, vai dar merda. - Completou.

-De onde tu tirou que isso é crime? - Perguntou Rozineide, impaciente.

-É crime. É crime. Se não é devia ser. - Replicou Romero.

-Que devia o quê... - Falou Rozineide, desdenhosa. -O que tem de criminoso nisso?

-O que... O que que tem? O que tem é que o teu marido deve estar trabalhando, suando a camisa pra pagar o aluguel, pra botar comida na mesa, pra comprar uns pisantes novos pros teus guris, e eu tô aqui. Deitado sem roupa na cama dele, no quarto dele, na casa dele, com a mulher dele. Tu queres saber, Rozineide. Isso fala muito do meu caráter. Fala muito e fala mal. Mas fala ainda pior do teu.

-Quê?

-É isso aí mesmo. Eu tô no meu papel de homem. Eu sou biologicamente programado pra espalhar a semente. É só aparecer uma brecha que a memória genética gravada no meu DNA se ativa e meu cérebro só pensa em preservação da minha linhagem.

-Do que tu tá falando, negão?

-É isso aí, Rozineide, eu passei perto da tua casa, eu te vi na rua, tu tem quadris largos, pernas fortes, seios fartos, tá na cara que tu é uma mulher perfeita pra procriação-

-Ah, que isso... Imagina... - Interrompeu Rozineide, com um sorriso envergonhado.

-Mas é mesmo. Eu te olhei e o meu instinto te apontou como a mulher ideal pra manutenção do meu código genético, o instinto, a memória genética, eu só quero garantir a existência de meus descendentes, tu é a escolha ideal, a mulher mais gostosuda das redondezas.

-E a Santinha? A filha da dona Brenildes? - Inquiriu Rozineide.

-A Santinha não tem peito, além disso é burra que dá pena. Se eu fosse precisar me ausentar pra uma caçada por uma estação inteira aquela tança ia deixar meus herdeiros morrerem de fome, de peste, ou atropelados pelo fuca do japonês da quitanda. Tu, não, tu é uma mulher mais esperta, sabe das coisas, cria bem os teus filhos. Por isso que eu fiquei tão ligado em ti. Tu é a fêmea alfa das redondezas. Eu tinha que tentar, biologicamente eu precisava tentar, mas como é que eu ia saber que tu ia aceitar o meu caô? Tipo, tu é mulher do Jorjão, o cara é um bom provedor, tá sempre na labuta, tem queixo quadrado, peito largo, forte feito um cavalo, todos os indícios biológicos de um homem competente pra vida competitiva. Como eu podia fazer a mais remota ideia de que tu fosse aceitar o meu xalalá? Meu? Um cara magrelo, barrigudinho, pouco queixo, instalador de TV á cabo... Pô, Rozineide, tu também, né? Não tem vergonha na cara. Olha pra mim. Eu sou o quadro da dor sem moldura e tu me bota pra dentro de casa. O que o Darwin diria de ti? Francamente... - Completou cheio de desapontamento.

-Aquele teu gato da NET tá rendendo, hein, Romero? Só assiste Discovery Channel, né?

-Pô, Rozineide, não enche. Agora eu fiquei fragilizado. Além disso, pra que eu ia querer espalhar a minha linhagem? Não, pensa comigo. Com que propósito eu iria gerar descendentes? Uma turba de pequenos Romeros, todos magros-pançudos, com ombros estreitos e pouco queixo? Uma renca de piás ranhentos sem nenhuma missão na terra exceto falhar na manutenção da sua linhagem? Não. Não quero. Não vou fazer isso. É injusto com á espécie humana. É injusto com o mundo. Uma linhagem descendendo de um cara que não sabe tomar um banho rápido, não lembra de separar o lixo. De um cara que está matando os ursos polares, por que é isso que eu tô fazendo, matando ursos polares. E focas. E os kiwis. Não. Não quero perpetuar a minha linhagem, Rozineide, e tu, que vergonha, não devia querer também.

-Não vai ter linhagem nenhuma, Romero. A gente vai usar proteção, pombas. -Decretou Rozineide num suspiro.

-Ah, bom. -Respondeu Romero, animado. -Se é por esporte é diferente.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Resenha DVD: Brüno


E foi no sábado, após jogar RPG e ver Law & Order - Special Victims Unity que liguei o DVD player e assisti ao novo ataque de Sacha Baron-Cohen á cultura contemporânea: Brüno.
Pra quem não ligou os nomes á pessoa, Sacha Baron-Cohen é o ator inglês que, em 2006 surgiu pro cenário mundial com a comédia Borat: O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Visita a América (Pela qual inclusive recebeu o Globo de Ouro de Melhor Ator em Musical ou Comédia.), um falso documentário que mostrava as aventuras de Borat Sagadiyev, o segundo melhor repórter Cazaque do título, em suas viagens pelos Estados Unidos "e" América na tentativa de aprender o American Way of Life e melhorar a vida de seu povo.
O tal documentário era apenas uma desculpa para Cohen dar corda para os pobres e incautos americanos médios se enforcarem com uma voracidade impressionante.
Bem, três anos se passaram e, em 2009, Cohen volta, desta vez na pele de Brüno, o (inacreditavelmente gay) maior jornalista de moda dos países de fala alemã da Europa.
Já de início Cohen (Um espantoso camaleão que não guarda nenhuma semelhança física com o personagem do longa anterior.) mostra a que veio. Ele surge em eventos de moda oferecendo combustível para que o profissionais do mundo fashion iniciem o incêndio por conta própria, seja "agindo mais negão", seja falando das dificuldades enfrentadas pelas pobres modelos.
O filme começa mesmo quando, após um fiasco em um evento de moda em Milão, Brüno perde o seu programa e se vê obrigado á encontrar uma nova carreira, para isso ele parte para os EUA, onde tenciona se tornar uma celebridade não importa o custo.
É nessa "cruzada" que Brüno destila seu humor ácido contra o insano culto ás celebridades e ao conceito de fama á qualquer preço. Brüno tenta apresentar programas de TV, tenta fazer pontas em séries (Sua presença em Medium é muito boa.), entrevistar famosos (há Paula Abdul, Latoya Jackson e a "entrevista relâmpago" de Harrison Ford.), até mandar a coerência lá pra casa do Capita e resolver jogar pesado, primeiro tentando fazer uma fita de sexo ao melhor estilo Paris Hilton com um desavisado Senador, e após se aconselhar com especialistas, escolher a missão de pacificar a "Terra Média", acabando com a guerra entre Palestinos e Israelenses, além de tentar ser sequestrado por um terrorista de verdade e adotar uma criança africana (Madonna tem um, Brangelina tem um, e agora, Brüno tem um.), sempre com resultados hilariantes.
Como nada dá certo, Brüno resolve que o que freia seu sucesso é o fato de ser gay, por isso ele resolve passar por um curso e se tornar hétero, o que só acarreta mais e mais situações constrangedoras de rachar o bico, e aí está um dos trunfos do humor de Cohen.
Ele funciona tanto como aquele humor de esculacho desconfortável das câmeras escondidas (Em muitas oportunidades as pessoas em cena não sabem que Brüno é um personagem e que estão participando de um filme.), quanto, em um nível um pouco mais profundo, como humor de crítica social, mostrando as reações das pessoas áquela bichona saltitante, e tudo que elas estão dispostas á fazer pelos 15 minutos de fama, claro, não é um filme pra todas as audiências, começa pela censura 18 anos, justificada pelas cenas explícitas de nudez, pela fortíssima presença de sexo em certas sequências, e pela escatologia histérica inerente ao humor de Cohen já no longa metragem de Borat, mas também por essa crítica ao que as platéias em geral querem ver, afinal, as pessoas raramente parecem dispostas á rir de si mesmas.
Além de divertir Brüno pode fazer pensar, mas apenas depois de parar de gargalhar.

"Mike, um urso comeu as minhas roupas, só não comeu essas camisinhas, posso dormir aqui com você?"

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Resenha Game: Assassin's Creed 2


Nas últimas duas semanas deixei um pouco de lado minha carreira de técnico virtual em FIFA 2010 para me aventurar pela Itália do século XV na pele de Ezio Auditore de Firenzi, um jovem e arrogante nobre que passa os dias brigando com os membros de famílias rivais e traçando as filhas de outros nobres, quando subitamente se vê envolvido em uma trama que envolve os Templários e a organização de assassinos á qual pertence sua família desde o ancestral Altair.


Sim, estou jogando Assassin's Creed 2, sequência imediata do hit de 2007, Assassin's Creed.


Pra quem não lembra, Assassin's Creed foi o jogo que deu um fôlego novo aos jogos de "Cenário Aberto", ambientando a aventura no Oriente Médio na época das Cruzadas e trocando os automóveis e motocicletas das versões contemporâneas por cavalos e ótimos movimentos de corrida em estilo livre, o famoso Parkour.


Os cavalos e o parkour permanecem nessa aventura, assim como a já clássica lâmina oculta com a qual os membros da organização protegem a liberdade da humanidade assassinando conspiradores da pior estirpe. Outra característica que permanece nessa segunda versão é o embasamento histórico, ainda mais enraizado na trama do que na anterior (Matar o histórico traidor Francesco de Pazzi, por exemplo, é muito maneiro.).


Uma das falhas do jogo original era a inevitável repetição de procedimentos antes de realizar um assassinato, você chegava á cidade, salvava cidadãos oprimidos, bisbilhotava conversas alheias, furtava evidências da conspiração, interrogava algum vagabundo, levava as evidências ao "delegado" local do Creed, e recebia a sua pena para matar o safado. É legal, mas os mesmos procedimentos repetidos nove vezes enchiam o saco.


Agora, na nova versão, você muitas vezes é levado pelos acontecimentos até encarar sua vítima. Outras inovações foram o novo sistema de camuflagem (Se antes só os monges escolares serviam de "esconderijo", na nova versão qualquer amontoado de gente funciona pra afastar a atenção dos guardas.), a possibilidade de utilizar diversas armas nos combates (Maças, machados, martelos, lanças e até pistolas.), e novas formas de assassinato oculto, seja puxando sua vítima de uma beirada, seja a arrastando para dentro de uma carroça de feno, há também a adição de maquinários rústicos espertíssimos (Cortesia do amigão Leonardo. Aquele, o Da Vinci, sabe?), e até um sistema financeiro, onde o dinheiro é muito importante para contratar serviços médicos (Ou mercenários, ou ladrões, ou prostitutas.), comprar mapas, armas e munições, reparar suas armaduras e subornar funcionários públicos corruptos para que larguem do seu pé.


O número de obrigações foi ampliado, além de levar justiça e vingança aos conspiradores o jogador também deve administrar a villa de Montereggioni, que pertence á família Auditore, procurar por tesouros ocultos (Inclusive para ter acesso á armadura de Altair!), e outros itens espalhados pelos enormes e belos cenários do jogo.


Para quem não conhece o game original, ele mostrava as aventuras de Altaïr em 1191, através de seu descendente, Desmond Milles, sequestrado pela companhia Abstergo para localizar um tesouro Templário. Ele era ligado ao Annimus, um aparelho capaz de vasculhar a memória genética do usuário, montando o quebra-cabeças que levaria á localização do artefato, chamado pedaço do Éden, e que, de fato, era apenas um de vários iguais, e seria usado para iludir as populações do Mundo e acabar com todos os conflitos.


Ao final do game, Milles desenvolvia os sentidos aguçados de seu ancestral, a Eagle Vision, e descobria que não havia sido o primeiro "convidado" da companhia á utilizar o Annimus, ele descobria isso através de mensagens escritas com sangue no quarto onde era mantido e na sala do Annimus.


Bem, em Assassin's Creed 2 somos apresentandos ao Annimus 2.0, e podemos procurar por pistas deixadas pelo usuário anterior do aparato, o "experimento 16".


Essas pistas são encontradas na forma de puzzles, alguns muito fáceis, outros bastante desafiadores (Eu esbarrei com dois que não fui capaz de decifrar sem ajuda, mandei os escrúpulos lá pra casa do Capita e procurei as soluções na internet.), que, quando resolvidos liberam documentos que montam uma teoria conspiratória muito inteligente, e um video intitulado: A Verdade.


Então, além de se divertir á beça em um jogo bem construído, com uma boa história e ação excelente, você também pode procurar pela verdade, que de fato, está lá fora.


"Nada é verdadeiro, tudo é permitido."

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O Canhão de Evilásio


Evilásio era um sujeito corpulento. Era assim que sua mãe se referia á forma física do rebento quando o pai de Evilásio apontava o filho com o queixo e dizia: "Carla, para de encher o guri de doce, ele tá ficando gordo.".

Corpulento.

Não passava, na verdade, de um eufemismo para não alardear que Evilásio era atarracado. Aos dezesseis anos, Evilásio passava por "corpulento", era um sujeito volumoso, mas praticava esportes, era muito ativo, então, apesar de atarracado, não era um gordão, na verdade era um corpulento até meio atlético, toda aquela atividade física permitia á Evilásio pequenas incorreções gastronômicas, como o vício incontrolável que tinha por latas de leite condensado, ou aquelas misturas de docinhos, tipo Moça-Fiesta, que Evilásio adorava e comia de colher enquanto assistia clipes na MTV.


O problema de Evilásio foi que a atividade foi rareando, primeiro com a faculdade.

Evilásio cursava administração numa universidade particular de Porto Alegre, onde conheceu Ana Rita, por quem se apaixonou e foi correspondido, estudando á noite Evilásio tinha o dia para praticar seu futebolzinho, ás vezes uma corridinha, diminuíra a atividade, é verdade, mas se mantinha ativo.

Como estudava á noite, não tinha tempo para jantar, por isso, ele passava em jejum da entrada na faculdade, ás sete da noite, até a saída, já quase onze, e, ao chegar em casa, antes de dormir, comia com prazer uma lata de doce.


Ali, Evilásio já se tornara atarracado, de fato.


Quando começou seu estágio em uma imobiliária, Evilásio estagnou as atividades físicas durante a semana, só praticando esportes aos sábados, e, de vez em quando, aos domingos. Ele e Ana Rita foram morar sozinhos, ás vezes, quando tirava a camisa exibindo o ventre cada vez mais generoso, Ana Rita lhe dizia que devia se exercitar mais, ou abandonar as latas de docinhos, pois estava ficando gordo.

Evilásio sorria, aninhava Ana no peito largo e peludo, e falava uma bobagem, ela sorria, ele também, e lá ia Evilásio sentar de fronte á TV com a lata e a colher em punho.

Evilásio evoluiu, se formou na universidade, abriu uma empresa de software com um primo que manjava tudo de informática, ganhou dinheiro, comprou um apartamento, comprou um carro, casou com Ana Rita e, embora seguisse comendo seu doce favorito, abandonou de vez os exercícios.

Evilásio sequer ia ao mercado comprar as latas de doce á pé, fazia o trajeto de carro.

Foi ficando maior e maior.

Ana Rita, preocupada com a saúde de Evilásio, e, que diabos, também com a estética, afinal, ninguém quer casar com um hipopótamo (á menos que seja uma hipopótoma, mas não era o caso, Ana Rita era uma mulher esbelta.), pediu que ele procurasse um nutricionista, Evilásio rechaçou a ideia como superman faria com balas, ela insistiu que, pelo menos, cortasse as malditas latas de doce.

Evilásio bufou como um animal de fazenda, mas, olhando para sua amada não soube dizer não. Prometeu que abandonaria as tais latas, e tentaria se exercitar um pouco mais.

Passou a ir ao mercado andando.

Era um começo, pensava Ana Rita.

Ela não o fiscalizava para ter certeza de que ele cumpria o prometido, afinal, ele era um homem crescido, seria ridículo ela ter que atentá-lo para os perigos da displicência em relação á alimentação.

Por vários meses Evilásio não apareceu com as inseparáveis latinhas de doce e colher, Ana Rita estava orgulhosa.

O orgulho sumiu quando, em uma noite qualquer, ouviu Evilásio chegando em casa, e estranhou a demora dele em sair do automóvel. Ao se aproximar do carro para verificar a causa da demora, deparou-se com o esposo esbaforido no banco do motorista enquanto sorvia com sofreguidão o conteúdo de uma caixinha de leite condensado.

Ele ia começar á se desculpar quando Ana, observadora atenta, viu as várias caixas e latas de doce espalhadas pelo chão do carro sob os bancos.

Enfurecida perguntou á Evilásio por que seguia comendo porcarias, se não se preocupava com a própria saúde, por que mentira pra ela.

Evilásio, envergonhado, admitiu que não ligava para a própria saúde, que gostava muito dos doces, e que amava demais Ana Rita, mas não queria fazer dietas, nem atentar a alimentação.

Ana, entristecida, aceitou o desleixo do amado com a própria saúde e a própria aparência. Se era o jeito dele de ser, que diabos, que fosse. Ele era atencioso, fiel, sensível, carinhoso... Que fosse um guloso, ela poderia suportar.

Os anos passaram até que, numa tarde agradável de sábado, Ana Rita sentou-se á sua poltrona próxima á TV, ela percebeu a aproximação de Evilásio, viu que ele trazia consigo a indefectível lata de doce, então sentiu uma pancada acima do olho direito e desmaiou.

Acordou horas mais tarde, no hospital, sob os olhares cândidos de uma enfermeira e de um médico e o olhar envergonhado de Evilásio.

O motivo de vergonha do marido ficou evidente quando o médico explicou á Ana Rita o que acontecera. Quando Evilásio sentou, o botão de sua calça, oprimido por sua barriga abissal, foi disparado feito um foguete, acertando em cheio o supercílio de Ana.

Agora ela tomara dois pontos acima do olho, depois de ficar alguns minutos nocauteada.

Naquela noite, horas de discussão se seguiram na casa de Evilásio e Ana Rita, e uma nova dieta, bem mais drástica do que a anterior foi acordada. E, desta vez, Ana Rita fiscalizaria Evilásio de perto, afinal, se antes era apenas um dos membros do casal quem corria perigo, agora eram ambos.