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segunda-feira, 26 de julho de 2010

Resenha Game: Red Dead Redemption



Foi hoje de manhã, antes de sair de casa que eu finalmente terminei o modo history do que, pra mim é, desde então, o melhor jogo de video game de 2010, e, talvez, um dos melhores games de todos os tempos.
Red Dead Redemption, o que muita gente, incluindo eu, considerava um "GTA de Velho Oeste" foi lançado no início de junho, foi, aliás, quando eu comprei o jogo.
Eu sei, parece que pouco mais de um mês é tempo demais pra terminar um game cujo modo history se pode terminar tranquilamente em vinte horas de jogo contínuo, porém, quando se começa a jogar, e se é absorvido pela trama, e se aprende a aproveitar tudo o que o jogo tem a oferecer é inevitável passar mais e mais tempo explorando a região de New Austin, México e Tall Trees, especialmente se você, como eu, é um fã declarado de westerns que corre pro cinema toda a vez que alguém faz um filme com o tema.
No game você encarna John Marston, um ex-criminoso, agora reformado, que é coagido pelas autoridades á caçar seus ex-colegas de gangue.
Logo de início, encontramos Marston deixando a cidade de Blackwater em um trem rumo a Armadillo, cidade na fronteira selvagem dos EUA com o México. Corre o ano de 1911 e as autoridades estadunidenses buscam formas de coibir a violência instaurando a civilização mesmo nos recantos mais obscuros do oeste selvagem custe o que custar.
Sentiu a trama? Não tem a maior cara de faroeste espaghetti do bom? Daqueles de Sergio Leone estrelados por Clint Eastwood e com trilha de Ennio Morriconi?
Pois só melhora.
Os cenários, que não são exatamente realistas, evocam os faroestes do cinema, com paisagens áridas na fronteira selvagem, ainda mais áridas e alaranjadas no México, e repletas de neve e gelo ao norte de Black Water, e criam uma atmosfera de imersão quase absoluta graças a essa decisão estilística quanto ao ambiente.
A música é genial, bandolins, gaitas, assobios e violinos entram em ação conforme a situação que se apresenta, e, por falar em situações que se apresentam, os encontros aleatórios espalhados pelo jogo exigem raciocínio e reflexos rápidos, pois em inúmeras vezes o sucesso ou o fracasso em uma determinada missão é decidido em uma fração de segundo.
Os gráficos são lindos, e merecem ainda mais admiração se levarmos em consideração que se trata de um sandbox, o estilo de jogo de mundo aberto onde você faz o que quer, na hora em que decidir.
E acredite, a riqueza de detalhes é tanta, a quantidade de atividades que se pode realizar em toda a parte é tanta, que em inúmeras oportunidades eu liguei o console e passei horas jogando sem progredir um segundo sequer no tocante à história do jogo. Fosse apenas cavalgando pelo cenário (Aliás, é difícil não se apegar ao seu cavalo no game, até por que, a sua conexão com o animal influencia coisas importantes como velocidade em que se pode progredir e terrenos que podem ser vencidos.), ou me engajando em alguma das muitas atividades colaterais em que se pode dispensar alguns bons minutos ou horas, eu ficava sentado feito uma criança feliz diante da TV caçando lobos, domando cavalos selvagens, esperando que algum desafortunado viesse me implorar por ajuda após roubarem sua carroça, ou sequestrarem sua esposa ou praticando jogos de azar.
Há os saloons onde se pode jogar pôker (Passei horas ganhando e perdendo fortunas nisso.), Black Jack (o nosso vinte e um.), Liar's Dice (Ah, esse eu não conhecia, é um jogo de dados ao estilo general, mas com regras que punem o blefe, e vicia.), também se pode tomar um porre violento e brigar contra a rapa na frente do boteco.
Claro, não seria um faroeste se você não tivesse a oportunidade de manejar um colt 44, ou uma winchester 22 em tiroteios com malfeitores cujas carrancas estampam pôsteres de Procura-se por toda a região.
Mas Red Dead Redemption garante isso.
E, como o próprio John Marston admite á certa altura do game, ele não conseguiu suas muitas cicatrizes caindo na igreja, ele é um pistoleiro tarimbado que já esteve envolvido em mais conflitos do que gostaria, e, uma vez que (por mais familiares que sejam os controles a qualquer um que já tenha jogado alguma edição de GTA), nem sempre a nossa habilidade nos controles faria justiça à habilidade do nosso herói, a experiência de John em combates armados é ilustrada com o recurso Dead Eye, que, quando ativado, reduz a velocidade dos acontecimentos ao redor do protagonista garantindo tiros e mais tiros certos, um recurso que, em determinadas situações, vem muito à calhar mas que usado sem parcimônia tira um pouco da graça dos tiroteios do jogo.
As sequências animadas têm qualidade cinematográfica, com diálogos bem escritos que conduzem perfeitamente a ótima e envolvente história do game, e um trabalho de dublagem muito inspirado, especialmente do protagonista, e do vilão Dutch Van Der Linde.
No final das contas a Rockstar está de parabéns, o game é uma rara combinação de história envolvente, ambiente imersivo, jogabilidade simples e fator replay amplo (A quantidade de desafios e mini-games espalhados pelo jogo é de chorar.), com um protagonista carismático (Já estou com saudades, John.) e um final apoteótico que fica no mesmo nível de pérolas como Butch Cassidy e Sundance Kid, ou Três Homens em Conflito, enfim, Red Dead Redemption é uma ode aos filmes de faroeste em forma de video game.
Mal posso esperar pra começar outra campanha, e que venha uma sequência.

"As vezes eu digo a mim mesmo que as coisas acontecem por uma razão. Como se o que me trouxe até aqui tivesse sido algum tipo de chamado do destino. Mas ninguém traçou meu caminho senão eu."

Resenha Cinema: À Prova de Morte




Foi no sábado à noite que, em uma dessas salas miudinhas de circuito alternativo de Porto Alegre consegui, enfim, assistir À Prova de Morte, filme que Quentin Tarantino escreveu e dirigiu para ser metade do projeto Grindhouse, que o cineasta idealizou com seu parceiro Robert Rodriguez, como forma de homenagear as antigas sessões de cinema populares nos EUA nos anos setenta, com filmes de baixo orçamento em que os gêneros dominantes eram os bloxploitation recheados de terror, monstros, sexo e artes marciais.
A ideia era bacana, dois filmes de dois cineastas que entendem do riscado homenageando um cinema de origem trash em uma sessão dupla.
Infelizmente, em 2007 o pessoal não entendeu a brincadeira. Talvez tenha sido a estética dos filmes, com efeitos visuais totalmente toscos, os cortes bruscos, a fotografia prejudicada, os "rolos perdidos", que faziam algumas sequências do filme desaparecerem sem lá muita explicação, tudo proposital, para evocar as autênticas grindhouses, mas o público deve ter ficado sem paciência e o projeto, após naufragar nas bilheterias dos EUA, foi desmembrado e ficou no limbo.
Planeta Terror, a metade que cabia a Robert Rodriguez, filme de zumbis totalmente podreira no melhor estilo "sangue, tripas e gosma" do extinto Cine Trash da Band ainda chegou ao Brasil, direto em DVD se não me falha a memória, e era um filme divertido, bem intencionado e que tinha um elenco maneiro se divertindo horrores.
A metade de Tarantino, porém, seguia inédita por essas bandas, mas, graças ao sucesso de Bastardos Inglórios, encontrou distribuidora e, após mais de dois anos frequentando apenas festivais, entrou no circuito. Restrito, é verdade, mas ainda assim, melhor que nada, afinal, estamos falando de um filme de Tarantino, e eles sempre merecem ser conferidos.
À Prova de Morte não é diferente.
É um filme divertido, descompromissado, que não deve ser levado muito a sério para ser apreciado, mas ainda é Tarantino.
Na trama, Dublê Mike (Kurt Russel, doido e canastra na medida.) é um dublê especializado em ação sobre quatro rodas, e também um psicopata misógino que usa seu Chevy Nova negro á prova de morte como arma para matar belas e incautas meninas e satisfazer seus anseios doentios.
O filme tem dois momentos bem diferentes, em que o Dublê Mike se vê às voltas com dois grupos distintos de mulheres (Não tão) indefesas.
No primeiro, onde o Dublê Mike controla as ações, a cara do filme é mais Tarantinesca, com todas as características que esperamos encontrar num filme do cineasta:
Lá estão os diálogos longos, ácidos e repletos de palavrões que ficam martelando na nossa memória por muito tempo depois de o filme acabar, a exploração das formas das (belas) mulheres com a câmera fetichista do diretor pegando closes dos traseiros rebolativos das moças ao som de uma trilha sonora ótima (outra marca Tarantinesca), ou dos pés das garotas de pernas compridas, além, claro, da violência extremamente explícita e cheia de estilo, tudo no lugar, conforme a cartilha de Quentin, e em prol da diversão.
No segundo momento do filme, a estética permanece algo Tarantinesca com os diálogos e as personagens femininas fortes, mas o estilo Grindhouse ganha mais força, alcançando seu ápice no excelente duelo entre dois carangos envenenados por estradas empoeiradas em plena luz do dia, onde Mike encontra oposição à sua altura, ele armado com seu Chevy Nova preto 68, suas adversárias em um Dodge Challenger branco 1970, numa bela referência ao duelo Bem x Mal.
Vale destacar que as atuações do elenco principal são muito boas, e que, mesmo que não fossem, só as duas sequências com muscle cars, e a lap dance de Vanessa Ferlitto (Arlene / Butterfly) ao som de Down in Mexico já valeriam o ingresso.
No fim das contas, a lição permanece: Não perca, jamais, a chance de ver um filme de Tarantino, sempre vale à pena.

"Ei, Pam? Lembra quando eu disse que esse carro era à prova de morte? Bem, eu não estava mentindo, esse carro é 100% à prova de morte. Mas, para se beneficiar disso, querida, você tem, MESMO, que estar no meu assento."

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Flocos de Neve.


Ela, linda, com os cabelos loiros lisos presos para trás por uma tiara larga de plástico azul que combinava com o azul de seus olhos, parara muito grave á porta de seu prédio. Perguntou se ele, meio bagunçado, cabelo castanho, barba de dois dias, podia ir com ela até o banquinho do lado do prédio. Em outros tempos ele teria achado maneiro. Encararia aquilo como sinal que que ela queria dar uns malhos antes de se despedirem, talvez houvesse contato mão/seio entre beijos resfolegantes, e talvez, apenas talvez, outros contatos ainda mais convidativos. Mas essa não era uma dessas ocasiões. Ele sabia. Sabia pelo tom de voz dela, pelo modo cabisbaixo como ela andava em direção ao tal banco, pela forma como ela se sentou e pela forma como ela suspirou ao agarrar sua mão, e encarar os próprios tênis All-Star azul-marinhos enquanto tomava fôlego para começar:
-Abel... A gente precisa conversar.
Abel tremeu na base. Além dos outros sinais mencionados, ele sabia que as coisas não iriam dar certo por que aquele fora um encontro ruim. Muito ruim. Aquele encontro se encaminhava pra ser o pior de todos os tempos. Aquele dia, se encaminhava pra ser o pior dia da pior semana do pior mês de todos os tempos.
A semana, que fora um inferno desde a segunda-feira, quando Abel soube que seu estágio não seria renovado, e ainda assim teria que trabalhar até a sexta-feira para cumprir seu contrato, contivera todos os ingredientes que, bem misturados a azar e uma dose de má-vontade resultam em tragédia.
Abel fora multado com o carro da empresa, ele machucara o pé jogando futebol, derramara suco de laranja concentrado na camisa branca que usaria para procurar um novo emprego na semana seguinte, seu computador dera pau e precisaria de uma nova placa de video que, àquela altura ele, sem emprego, não poderia pagar, uma vez que até as mensalidades de sua faculdade estavam em risco. Além disso ele ficara sentindo os sintomas de uma gripe que se avizinhava.
Mas ele mantivera alguma esperança de que as coisas dariam certo por que, afinal das contas, Abel ainda tinha uma âncora de esperança o segurando em meio a turbulência daquele mar de pequenas tragédias suburbanas. Ele tinha Rita.
Rita, a loirinha da rua de trás, que ele e os outros moleques de sua rua observavam com olhos gulosos á cada passagem dela pela quadra em direção ao super-mercado ou quando andava de braços dados com as outras meninas da vizinhança, e imaginavam se ela cheirava tão bem quanto parecia, se sua pele era tão macia quanto aparentava e se era gentil como denunciava seu sorriso repleto de dentes.
Rita que, inexplicavelmente, resolveu que Abel, á despeito de sua extensa lista de falhas de caráter, era alguém com quem ela poderia conversar.
E, se á princípio Abel imaginara que ela o tomara por um amigo assexuado com quem podia se abrir, logo mudou de opinião quando ela o beijou, de forma meio inesperada, após conversarem por horas em uma noite fria de julho.
Marcaram o encontro para sexta-feira, quando Abel esperava estar de emprego novo, OK, o emprego não surgira, mas ainda assim, ele veria Rita naquela noite. Havia inúmeros empregos no mundo inteiro que Abel podia conseguir, mas apenas uma Rita, e ela o estava esperando às sete horas naquela noite, quando iriam ao cinema ver um filme, depois jantariam e então, Abel a beijaria longamente, agora preparado, não de sopetão como fora na quarta-feira, e estaria namorando oficialmente com a guria mais linda do bairro, quiçá da cidade, antes das onze horas.
As coisas porém, foram dando errado no decorrer da noite.
Abel se atrasara, pegara na lavanderia as roupas erradas, e, ao sair do banho percebeu que só tinha vestidos floridos para usar no encontro. Teve que correr á lavanderia de bermuda e regata sob um frio de quatorze graus para destrocar o pacote.
Chegou quinze minutos atrasado à casa de Rita, que o recepcionou com um sorriso.
Demoraram para conseguir um táxi que pudesse levá-los ao shopping onde ficava o cinema, e, quando conseguiram, viram-se nas mãos de um motorista que fazia apenas sua terceira viagem com passageiros e errou o caminho.
Chegaram ao cinema vinte e oito minutos após o começo do filme, e escolheram outra coisa pra ver. Rita sugeriu que vissem o que estivesse começando naquela hora, independente do que fosse.
Acabou em uma poltrona, ao lado da menina mais delicada da Cidade Baixa assistindo Predadores, um festival de sangue, tripas e gosma regado á testosterona, tiros e frases de efeito. Á certa altura ele teve a impressão de que Rita dormia.
Quando saíram do cinema já era mais de dez da noite, e a praça de alimentação estava fechada, saíram à caça de um lugar onde jantar e acabaram em uma churrascaria duas quadras de shopping, e, após sentarem e pedirem as bebidas, ele descobriu que Rita era vegetariana.
Comeram do buffet de salada enquanto conversaram sobre política (Rita de esquerda, Abel de direita.), religião (Rita espírita, Abel protestante.), até futebol (Ela gremista, ele colorado.). Antes da sobremesa Abel sabia, inconscientemente, que colocara tudo a perder. A proverbial gota d'água, entretanto, veio quando ele, ao sair do restaurante, em uma ato reflexo, largou a porta deixando ela bater violentamente contra a cabeça de Rita, que mexia na bolsa e nem sequer pôde desviar.
No caminho de volta, Abel e Rita permaneceram em silêncio ouvindo o taxista maldizer a EPTC que o multara pela décima nona vez.
Foi pensando nisso tudo que Abel, ao ouvir a sentença de Rita de que precisavam conversar, soube, em seu íntimo, que ela seria delicada e gentil, e diria á ele que não o veria novamente.
E, pra ser franco, ele sabia que não merecia vê-la de novo. Já era demais pra alguém como ele, um tremendo chato, intransigente e auto-indulgente, ter tido o priviégio de sair com Rita, mais que isso, de beijá-la nos lábios cálidos e macios que emolduravam aquele sorriso de pôster de "gentileza gera gentileza". Ele se antecipou:
-Eu sei. Eu sei e entendo.
-Sabe o quê?
-O que tu vai dizer. Que tu não quer mais me ver. E eu entendo, Rita. Sério mesmo.
-Abel...
-Não, não. Tu tem razão. Olha, me desculpa por tudo, tá? Bom sair contigo, a gente se vê por aí.
Abel levantou-se e fez menção de começar a andar, mas foi impedido por Rita, que o segurou pela mão, levantou-se e o beijou, uma vez mais, de surpresa.
Abel, sem reação, apenas a encarou, aturdido.
-Vamos ver se pegamos a sessão de Toy Story no domingo?
-Vamo...
-Me pega as cinco, então. Aí a gente chega lá com tempo.
Ela beijou ele de novo, o levou até o portão e se despediu com um "me liga amanhã.".
Abel saiu caminhando como se flutuasse, tendo, em seu íntimo, a sensação de que aquele desfecho fazia toda a semana valer a pena, e seguiu pra casa sorrindo, apesar de não ter entendido como chegara até ali.
O que Abel não entendia, é que não há sentido nas coisas, que as pessoas são tão diferentes e ininteligíveis quanto podem ser, e que o que pra ele, tinha sabor de tragédia e fiasco, pra Rita, tinha sabor de romance.
E eles se dariam bem. Muito bem.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Rapidinhas do Capita


Ele a encarou por um instante que pareceu durar séculos. Ela estava próxima, muito próxima. Ele sabia que bastaria erguer o braço, e ele a alcançaria, poderia tocá-la, sentir seu cheiro e seu sabor. Ele poderia saciar o desejo que tomava conta de seu corpo, aliviar-se antes que aquele desejo passasse a ditar suas ações.
Sim.
Bastava uma palavra, talvez um gesto, e ele iria possuí-la, ou, talvez, ela fosse possuí-lo, afinal, era uma comunhão, uma relação em que ambos seriam possuidores e possuidos. E ele ansiava por essa comunhão, ele mal podia resistir.
Ele sabia que era errado, sabia que as consequências não seriam agradáveis, mas o prazer que ela proporcionaria á ele, por fugaz que fosse, valia os riscos, valia qualquer risco. E ele faria qualquer coisa para tê-la consigo.
Esticou o braço e disse ao sujeito atrás do balcão:
-Me vê aquela empada ali, ó.
Suas coronárias, sua esposa e seu cardiologista diriam que ele era um louco, mas poucos segundo depois, quando ele sentia a massa dissolvendo-se em sua língua e mastigava o queijo e o frango temperados, não ligava para nada, e poderia morrer feliz.

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Sandra sentou frente á frente com Alcebíades. Ela o mediu de costas, quando entrara no restaurante, ele, de fato, tinha cabelo castanho, como sua foto mostrara, e, de fato, parecia ter mais de 1,80m, como dissera no chat.
Era o primeiro encontro ás escuras de Sandra, mais que isso, o primeiro encontro que ela marcara pela internet. Ela nem sabia se deveria ter ido, conversara com o sujeito uma dúzia de vezes no chat, outras tantas por MSN, três ou quatro por telefone, e agora ali estava ela, de salto alto, maquiagem, vestido preto mezzo provocante, mezzo comportado, cabelo com gel e tudo mais a que tinha direito indo encontrar um sujeito que se chamava Alcebíades.
Ele se levantou quando ela chegou, se cumprimentaram com simpáticos beijinhos no rosto "três, pra casar." ele disse quando ela fez menção de parar no segundo. Bonitinho, algo infantil, algo tia velha e gorda, Sandra achou simpático e pitoresco vindo de um homem de trinta e poucos anos.
Alcebíades era exatamente como na foto. Claro, mandara pra ela três ou quatro fotos bem escolhidas, seus melhores ângulos, provavelmente, lhe favoreciam mas não faziam milagres. Ele era um sujeito comum. Não era particularmente bonito, mas tinha cabelo em toda a cabeça, era mais alto que ela, não era um gordão, embora estivesse alguns quilos acima do peso, e, enfim, chamava-se Alecebíades.
Esse nome, pensou Sandra, era um tipo de crachá pra um homem sério. Um homem que seria bem quisto na vizinhança, um homem que poderia ser o sustentáculo moral de uma família. Ele ensinaria seus filhos a tomarem decisões sábias e sensatas, seus netos viriam á ele em busca de conselho. No futuro seus bisnetos e tataranetos, quando titubiassem ante uma decisão particularmente difícil, se perguntariam "O que o vô Alcebíades faria numa situação dessas?", e somente então escolheriam o rumo a tomar.
Sandra achava que Alcebíades ensinaria os filhos a fazerem nós e usar a bússola, que mostraria á eles como sobreviver em situações extremas com acampamentos. Ela poderia não ter paixão em um relacionamento com Alcebíades, mas certamente teria segurança, e, com mil demônios, aos trinta e dois anos, solteira e sem achar ninguém por quem se interessasse de verdade, Sandra estava disposta a aceitar segurança em detrimento de todo o resto.
-Boa noite. - Disse ela.
-Melhor agora. -Ele respondeu.
Conversaram animadamente. Ele era meio aborrecido de vez em quando, mas ela não se importava. Lá pela sobremesa, porém, ele falou:
-Olha, preciso te dizer uma coisa...
-Fala.
-E sobre o meu nome...
-O que tem ele?
-Na verdade... Olha, é uma bobagem eu devia ter contado antes, mas fiquei com vergonha, enfim... Olha, eu não me chamo Alcebíades, me chamo Carlos. Carlos Eduardo. Meus amigos me chamam de Cadu. Todo o resto é verdade. Mas Alcebíades é só um nick, meio besta, eu sei, mas foi o que me ocorreu no chat quando pensei em um nome pra não em expôr demais, então... É isso. Te desapontei?
-Não... Não, imagina, que bobagem. Carlos Eduardo, então?
-Ou Cadu.
-Cadu.
Ela e ele passaram a noite conversando, depois do jantar foram ao cinema, e mais tarde ele a deixou em casa. Ela foi natural e agradável a noite toda, mas quando ele perguntou se podiam se ver de novo na sexta ela mentiu que estaria ocupada, ele insistiu no sábado, mas ela disse que tinha que pagear as primas que chegariam do interior, mas que ligava pra ele e marcariam algo pra semana seguinte.
Ele foi embora, e ela, ao entrar no prédio, colou as costas na porta e suspirou fechando os olhos.
Nunca mais se viram.
Carlos Eduardo... Cadu, tanto fazia. Ela poderia encarar uma dose de chatice de um Alcebíades, mas de um Cadu nem morta.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Novo Mundo.


Ele, nos seus quarenta e cinco, cinquenta anos. Senta em uma banqueta desconfortável do lado da cama dela, ela, com seus sete, quiçá oito anos de idade. Ele senta, afaga sua cabeça enquanto ela se ajeita na cama. Ela se posiciona sob as cobertas e o olha com alguma ansiedade. Ele começa:
-Era uma vez...
-"Era uma vez"? Sério isso, pai?
-Quê? É assim que se começa uma história.
-Quié isso, pai, te liga. Não é assim que se começa uma história faz séculos...
-Do que tu tá falando, guria? Toda a vida se começa uma história desse jeito. "Era uma vez..." e daí se dá sequência.
-Não, pai, era assim, era. E já faz tempo.
-Tá. Eu mudo o começo, então. Houve um tempo-
-Mas isso é igual a "era uma vez".
-Quem é que tá contando a porcaria da história?
-Tu, mas tu tem que pensar em cativar teu público alvo.
-Cativar meu... Cativar o público alvo. OK. Tu é meu público alvo. Como tu gostaria que eu começasse a história?
-Ah, sei lá... De uma maneira menos batida, puxa, parece que a gente tá no século passado...
-Eu nasci no século passado.
-E eu no novo milênio, pai. Mas tudo bem. Se tu não quer investir na nossa comunicação e vai deixar que eu cresça com os traumas causados por uma criação carente de uma presença masculina mais ativa, o que pode acarretar um sem-número de problemas na minha maturi-
-Tá, tá, chega. Eu começo a história de outro jeito, tá bem?
-Tá.
Ele respirou fundo, se ajeitou na banqueta tentando minimizar os danos que ela inevitavelmente causaria na sua coluna, e começou empostando a voz:
-O prícipe estava cavalgando nos campos que circundavam o reino de seu pai, era um-
Ela suspirou e afundou no travesseiro.
-Hmmnnn...
-O quê foi, agora?
-Nada, não, pai. Continua.
-Era um dia ensolarado, mas nuvens negras e espessas se avizinhavam no... Não. Tu deu uma resmungada. O que houve?
-Nada, eu não resmunguei.
-Resmungou, sim. O que foi?
-Nada é só... Príncipe, pai? Sério? Príncipe? Tu vai centralizar a tua história em uma figura tão estabelecida, batida e pouco carismática, como um príncipe?
-Vai ter mais coisas, além do príncipe... O que tem de errado com príncipe?
-Ah, pai... Todo o conceito de realeza que essa imagem evocava no passado se perdeu nos dias de hoje, né? Olha as famílias reais com as quais a nova geração tem contato. São todas decadentes, alvos de tablóides e revistas de fofocas. Ninguém mais acredita na nobreza das realezas estabelecidas atualmente, nem nas realezas do passado, que, como mostram os historiadores já estavam muito mais pra saqueadores vestidos com seda e ouro que qualquer outra coisa, isso quando estavam vestidos com seda e com ouro.
Ele não era capaz de esconder o próprio choque. Era informação demais. Ele levara uns bons quinze anos pra perder o encantamento com príncipes, reis e princesas.
-Onde foi que tu aprendeu isso, guria?
-Ai... Rélo-ôu! Na internet, né, pai? Milhões, bilhões, trilhões de informações na ponta dos dedos.
-Meu Deus do céu...
-E nem queira entrar no conceito de religião, pois é outra coisa que-
Ele não queria mais ouvir aquilo, precisava mudar o rumo da conversa:
-Tá, parou. Que tipo de herói tu gostaria de ter na tua história?
-Sei lá, pai. Alguma coisa que não seja óbvia como um príncipe. Pode ser... Sei lá, um vampiro.
-Vampiro? Mas vampiro é um monstro chupador de sangue.
-Era, pai. Vampiro era um monstro chupador de sangue. Hoje em dia os vampiros são rapazes sensíveis e vegetarianos que se apaixonam e defendem a mulher amada com unhas e dentes.
-Nisso de defender com os dentes eu até acredito, ah, ah, ah, ah, ah.
-Pai...
-Tá, desculpa. Mas é um conceito muito sem-graça. Cadê os vampiros que eu conhecia? criaturas desalmadas, de pele pálida, que à luz da lua saíam de seus caixões para saciar sua sede de sangue no pescoço dos incautos?
-Esse conceito também ficou no passado.
-Puxa, e eu gostava tanto do Drácula.
-Ah, eu também.
Seu rosto se iluminou, finalmente ele e a filha tinham algo em comum.
-Sério? Que bom. Pensei que o Drácula tivesse ficado no passado.
-Capaz, pai. Todas as meninas adoram o Drácula, ele é lindo.
-Pôxa, quem diria... E eu achava aquele ator tão feio.
-O Gary Oldman?
-Não, o Christopher Lee.
-Quem é esse?
-Esquece.
-Olha pai... Deixa pra lá. Eu leio alguma coisa antes de dormir e pronto. Pode deixar.
Ela se debruçou e apanhou um grosso volume que estava sob a cama. A capa era negra e tinha uma fita vermelha rasgada esvoaçando. Ele se levantou da banqueta apanhando-a, beijou a filha na fronte e caminhou para fora do quarto. Fechava a porta quando teve um estalo. Deu meia volta e entrou novamente, tirou o livro da mão da filha e posicionou a banqueta onde estava antes. Respirou fundo e começou a falar:
-Samuel, Sam, para os amigos, andava pela rua tentando proteger-se da chuva sob as marquises da parte mais velha e dacadente da cidade, alheio aos perigos que o cercavam. Quando saíra da cama naquela manhã, ele mal imaginava o que o aguardava pelas próximas vinte e quatro horas...
A menina se endireitou na cama e o olhou, á princípio com pouco caso, mas foi empolgando-se conforme o pai usava todas as habilidades ao seu alcance para tornar aquela narrativa mais e mais interessante.
Ele misturou elementos de 24 Horas, Serpico e Romeu & Julieta, seu personagem ganhou as feições e o físico de James Franco quando a menina perguntou se ele era gato, o vilão da trama, um traficante de sangue que matava meninas na Bielorrússia para suprir vampiros enrustidos nos Estados Unidos, tinha o charme, os trejeitos e o sotaque de Jude Law, e a mocinha, Natalia, era uma jovem bielorrussa que escapara por pouco de ter o mesmo fim das irmãs nas mãos do vilão, lutava Krav-Magá e entrava na pancadaria tanto quanto o herói.
A história se desenrolou passando por bairros industriais onde o crime estava em cada esquina, lugares exóticos como Tahiti e Havaí, houveram confrontos físicos, romances proibidos que não se consumavam e frases de efeito.
O pai ilustrou tudo, correu pelo quarto enrolado em cobertas, chutou a mobília e praguejou em ídiche quando interpretava um mendigo judeu, em mais de uma oportunidade a mãe da menina teve que ir ao quarto e pedir que o marido baixasse a bola.
O pai usou referências da trilogia Bourne para narrar as lutas, cantarolou Johnny Cash para embalar a dança do casal protagonista, e finalizou a trama com um confronto épico dentro de uma estação orbital soviética desativada, que culminou com um sabre-de-luz atravessado no peito do Jude Law vilão, empunhado pela mocinha, não pelo herói.
A menina adorou. Quando terminou disse que precisava tomar um copo d'água para se acalmar e dormir. Abraçou o pai, deu-lhe um beijo, e disse antes de ele apagar a luz:
-Tu é o pai mais foda do mundo.
Ele pensou em repreender o palavrão, mas a Pitty já tinha estabelecido essa palavra com "F" como normal no vocabulário jovem, e, pra ser franco, ele estava feliz demais com o elogio.
Largou a banqueta na cozinha, e se encaminhou para o sofá, onde veria um pouco de TV antes de dormir. Ele vivia em um mundo que ainda não entendia totalmente, e que mudava todo o dia, em que sua filha de sete anos, com meia dúzia de cliques em um mouse acessava informações que ele levara anos para descobrir, onde vampiros eram heróis românticos e vegetarianos e príncipes eram figuras pouco recomendáveis. Ele era um dinossauro num mundo de atualizações minuto a minuto, e pouco entendia das regras que mudavam a todo o instante, mas uma coisa ele sabia:
Ele não entregaria a criação de sua filha à Stephenie Meyer sem luta, ah, não mesmo.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Ateísmo?


É feio ser ateu. 
Quando tu diz que é ateu, as pessoas te olham atravessado, como se tu estivesse cometendo algum gravíssimo (Rá!) pecado.
A falta de fé, em um mundo onde praticamente todas as pessoas têm algum tipo de fé, não é bem vista. O ateu é um pária. É um sujeito que não acredita em nada, e portanto, não merece crença. 
O ateu é visto como uma pessoa sem moral, como alguém que não é digno de confiança, que alguma aprontou, já que só isso explica a ideia de um louco, de renegar a existência de Deus. Ou Buda, ou Jeová, ou Tupã, ou Alá, ou Zeus, ou o Polvo Paul, ou seja lá o que for... Pelo menos é essa a impressão que as pessoas crentes parecem ter com relação a quem é descrente.
Outra coisa interessante são os mal-entendidos em que nós, ateus, nos envolvemos. 
Eles são fruto do fato de que vivemos em uma sociedade que justifica suas preferências de uma forma bastante simples:
Avacalhando as crenças alheias.
Tu já deve ter visto uma cena parecida, alguém diz:
-Eu sou da Igreja Universal.
-Universal? Sério? Ahahahahah.
-Tá rindo do quê? Tu é católico, pedófilo e nazista!
É, nós somos assim, é mais fácil atacar a preferência alheia do que justificar a própria com argumentos. E, no campo religioso, isso é ainda mais evidente, e abre o precedente pros mal-entendidos que eu mencionei antes.
Alguém fala sobre espiritismo. Eu falo, com todas as letras, que acho isso uma tremenda bobagem. O conceito de reencarnação, a história de hospitais espirituais, e reencontro com familares mortos, psicografia e o escambau, pra mim é uma rematada tolice, e se até na TV as pessoas têm o direito de despejar suas crenças religiosas na nossa cara, eu suponho que tenho direito a defender minha descrença quando achar conveniente e necessário.
Faço meu pequeno discurso anti-espiritismo, e imediatamente, alguém se alia ao discurso, armando-se com meus argumentos, falando, também, contra o espiritismo, dizendo que grande pataquada ele é, e usando a imensa bobagem que é conversar com fantasmas para justificar, pasmem: O evangelismo.
Opa! Eu não sou evangélico. Comprar uma garrafa com água do rio Jordão pelo telefone, pra mim, é uma bobagem tão imensa quanto entrar na fila para receber uma hóstia, ou receber um passe, ou colar a testa no chão pra pedir perdão por pecados que se pensou em cometer.
Aí, eu digo pro evangélico ao lado que sentar na frente da TV todo dia pra ouvir Edir Macedo, Silas Malafaya ou R. R. Soares, pra mim, é um equívoco tão grande quanto comprar os livros do Kardec e do Xavier.
Aí perguntam qual é a minha religião, e voilá:
Surge a mais notável faceta dos ateus. Nós somos a única vertente que consegue a proeza de unir todos os credos. O evangélico e o espírita apontam suas metralhadoras giratórias contra mim, incapazes de conceber a ideia de que eu não tenho religião, e acho todas elas uma perda de tempo sem par.
O que eu posso dizer pra justificar a minha não-crença? O que eu posso tentar mostrar aos convertidos que eles ainda não tenham visto? Como posso explicar a eles que, a cada minuto de cada dia, eu sou colocado face a face com um mundo onde não há milagres, mas apenas cruéis coincidências?
Eu adoraria abraçar, sem precisar de provas, uma deidade de paz e amor que fiscaliza nossas ações, pune os ímpios e recompensa os bons, mas sério, alguém vê algum sinal, por ínfimo que seja, de mágica divina no nosso dia a dia? Alguém consegue olhar a humanidade, podre como é, e pensar que ela é trabalho de uma entidade superior?
Alguém consegue abrir o jornal, ou assistir ao noticiário, e pensar em qualquer tipo de justiça divina?
As pessoas acreditam em religiões porque precisam da crença. Precisamos acreditar que o perverso poderoso que está acima da lei dos homens será punido por uma esfera superior, precisamos acreditar que o sofrimento será recompensado, e precisamos desesperadamente crer que voltaremos a ver aquela pessoa amada que se foi. Precisamos acreditar que a vida não é só isso, porque isso é muito pouco pra maioria.
A religião existe para manter o ser humano sob controle, porque o ser humano não sabe se comportar. Eu entendo a necessidade da religião, acredito que a ignorância das pessoas clame por algum tipo de promessa mágica que garanta o civismo, cada vez mais raro.
Se bem que até para o dogma religioso as pessoas encontram brechas, como as crenças compostas.
Tu conheces, também, o tipo. A pessoa gosta de determinadas partes de uma religião e as segue, ao mesmo tempo frequenta o templo de outra, e ainda abre o jornal no horóscopo todo dia de manhã, montando um credo que não lhe obriga a mudar seu comportamento, mas criando um que se adapta ao seu modo de vida, não importa o quão torto ele seja.
Eu não. 
Eu não acho que precise de promessas de recompensa nem de ameaças de punição para agir direito, eu não sou tão alheio às leis da natureza a ponto de precisar acreditar em uma nova e eterna vida depois da que estou vivendo agora. 
Eu valorizo meu hoje, e fui educado para saber viver em sociedade, não preciso de ninguém me fiscalizando pra eu me sentir forçado a fazer o que é certo. Tampouco quero continuar vivendo depois que meu corpo morrer. Estou extremamente confortável com a ideia de fim, e a única vida após a morte que espero é a lembrança de meus entes queridos, não preciso nem quero mais nada. Entretanto não quero ser confundido com os ateus de ocasião, aquelas pessoas que renegam todas as religiões, não por que não acreditam em nada, mas apenas por que têm medo de tudo aquilo com que lhe ameaçam, seja o umbral, o inferno ou a casa do Capita, e ignoram todas as religiões apenas para não sentir o peso da própria consciência
É tão ruim ser ateu quando se age da forma mais correta possível sem esperar recomensa ou temer punição? 
Eu suponho que, se há algum Deus, Ele não se importa se eu rezo de joelhos, de olhos fechados ou com a testa no mármore, ele deveria querer apenas que eu me comporte para com meus semelhantes, e isso eu faria mesmo sem as normativas de uma religião, porque afinal, é a forma certa de fazer as coisas quando você quer que uma coletividade funcione...

terça-feira, 13 de julho de 2010

Normalidade.


Era domingo de noite, quase nove horas quando Meredite chegou. Ela hesitou um sengundo antes de colocar a chave na porta, mas quando o fez, girou-a de uma vez só, decididamente.
Ela entrou em casa arrastando a mala de rodinhas, caminhou tranquilamente até a estante perto da porta, deixou a chave no claviculário, encostou a mala na parede, respirou fundo, e entrou na sala.
Deitado no sofá, assomava a figura de um homem. Ele era alto, tinha cabelos pretos lisos cortados bem rentes á cabeça, uma estrutura física atarracada, sólida. Dormia pesadamente, roncando alto.
Na mesinha de centro, á frente do sofá, várias latas de cerveja e sacos de salgadinho vazios, cinzeiros cheios, e anéis d'água, provavemente suados pelas latas quando estavam cheias e geladas.
Ela pensou no quanto aqueles anéis d'água a teriam revoltado algumas semanas atrás, quando ela podia se dar ao luxo de se preocupar com tais bobagens, quando sua vida fazia sentido.
Agora, ali estava ela, parada no meio de sua sala, ela nem sequer tinha certeza se ainda podia chamar aquela sala de sua, olhando com tristeza para o que fora a sua vida.
Ela andou até o quarto, onde abriu o armário e começou a sacar de lá as roupas que lhe pertenciam. Dobrou e empilhou as peças sobre a cama, foi até o gaveteiro, de onde subtraiu suas roupas íntimas e meias, capturou os sapatos do fundo do guarda-roupa, e os colocou, também, sobre a cama.
Ela fazia tudo mecanicamente, olhando unicamente para seu próximo objetivo. Andou até a penteadeira e apanhou perfumes, cremes e maquiagens. Colocou tudo junto à suas demais posses. Sentou na cama e respirou fundo, novamente.
Estava dando um grande passo, estava abandonando uma vida que contruíra ao longo dos últimos anos, que lhe demandara esforço, abnegação e comprometimento, mas, subitamente, nada mais daquilo fazia sentido. Não depois do que acontecera.
Apanhou a pilha de cima da cama, e andou de volta pra sala, andando a passos rápidos, em direção à sua mala.
Ajoelhou-se do lado da mala,a briu-a e enfiou suas coisas lá dentro sem muito método. Fechou a mala com pressa e se levantou. Assim que se pôs de pé oviu a voz que a fez gelar.
-Meredite?
Era ele, o homem que acabara com seus sonhos com meia dúzia de palavras depois de três anos de casamento. Ela titubeou, mas acabou virando para encará-lo. Quiçá pela última vez.
-Oi, Rodolfo. Só vim pegar umas coisas... Não queria te acordar.
-Meredite, o que foi? Por que tu tá indo embora?
-Ah... Depois de tudo que aconteceu... Eu não achei que... Sei lá.
-Amor. Isso ficou pra trás. Volta pra mim. Tudo vai voltar ao normal. Prometo.
-Mas e... E aquilo?
-Acabou. Acabou.
Ela fez uma cara de quem não acreditava.
-Sério. Acabou. Acabou hoje de tarde.
-Então...
-Acabou, amor. Espanha campeã. Na prorrogação. Gol do Iniesta.
-Posso voltar, então?
-Tu nunca precisava ter ido embora.
-Ah... Tá bem, então.
-Vem, vem desmanchar essa mala, vamos tocar a vida.
-A gente precisava comemorar.
-Tá bem. Vamos sair pra comer. Mas depois do Fantástico, que eu quero ver as matérias sobre a final.

Normalidade é isso aí.