Pesquisar este blog

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Rapidinhas do Capita


-Eu não queria parecer...
-Não, não, 'magina...
-Então não...
-Não, capaz...
-Então a gente...
-Claro, na boa...
-Bah, ainda bem...
-Sem problema...
-Por que eu tava, tipo...
-Nem esquenta...
-Que alívio...
-Bobagem...
-Por isso eu adoro conversar contigo, amor. Tu sempre me entende.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Ele e ela andavam na rua. Ela estava claramente enfurecida, vinha cutucando o braço dele, ali do lado do bíceps, com a falange do dedo indicador. Ele ia relevando, afinal de contas, amava ela, iam casar. Mas ela estava forçando. Já havia reclamado de tudo. Das bebidas (Só cerveja? Não pensam que alguém pode não querer beber álcool, ou não querer beber aquilo?), dos amigos dele (Tudo safado, não quero nenhum deles no nosso casamento), e das mulheres na festa (Tudo piranha). Ele disse que a Cinara não era piranha. Ela disse que era sim. Ele só sorriu pro lado e suspirou. Ela se enfureceu, mesmo, de vez. Houvessem raios Gama no corpo dela, ela teria ficado verde e enorme. Perguntou entre os dentes cerrados:
-O que é que você tá pensando, hein, Décio?
-Quê?
-O que é que você tá pensando?
-Quê que é isso?
-Como quê que é isso? Eu quero saber se você me acha com cara de palhaça-
-Não, não, isso eu entendi. Que negócio é esse de "você". Que é isso? A gente sempre se tratou por "tu". De onde saiu esse "você"?
-Quê?
-"Você", Maria Rita, "você", que negócio é esse de "você"? Tu nunca usa essa expressão.
-Não desvia o assunto, Décio...
-Não, não... Desembucha, aí. Que negócio é esse de "você"?
-Já disse, pombas. Não sei do que cê tá falando, menino.
-"Menino"? Como assim, menino? Quê que é isso, guria? Quié isso? "você", "menino"? Aí tem coisa...
-Bobagem sua...
-Bob... Bobagem "sua"? "Bobagem "sua", e não "tua"?
-Como, minha?
-Não, Maria Rita, não disfarça. Tu disse "bobagem sua", não disse bobagem "tua". Tá falando que nem paulista, agora?
Ela só sorriu pro lado e suspirou.
Ele correu atrás dela pela rua, mas não conseguiu alcançá-la. O casamento foi cancelado.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

-Se eu fosse esperto, eu sumia, sabe?
-Arram.
-Se eu fosse esperto, eu não levava isso adiante. Não tem, tipo... Sei lá. Eu não sou uma pessoa fácil, entende? Não sou acessível. Não sou legal. Em algum momento... Em algum momento ela vai ver. Sabe o que eu quero dizer?
-Claro.
-Se eu fosse esperto, eu nem teria começado isso. Não teria deixado chegar onde está. É caminho sem volta, já. Não consigo... Á essa altura, eu não tenho mais muito controle sobre as coisas...
-É. Agora complicou.
-Se eu fosse esperto, eu diria pra ela que uma coisa dessas, por mais legal que pareça, tem, especialmente com uma pessoa que nem eu, pouquíssimas chances de funcionar.
-É verdade. Ainda mais hoje em dia...
-Se eu fosse esperto, eu dizia pra ela como eu me sinto. Que eu sou louco por ela, mas que, em algum momento, ela vai enjoar de mim, dos meus maus humores, das minhas manias, das minhas idiossincrasias, e vai embora... E eu vou ficar arrasado por que eu fiquei louco por ela lá no início, entende?
-Perfeitamente.
-O que que eu faço, velho?
-Nada. Tu não é esperto. Aproveita.
-Ah, é... Bem lembrado. Valeu, tchê.
-Disponha.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Recomeço?


Ele observara a loira durante toda a noite. "Observara", na verdade, não fazia justiça. Ele a secara descaradamente. Uma mulher que percebesse um sujeito a olhando como ele olhava pra a loira iria requerer uma ordem judicial pra mantê-lo à distância. Ele olhava pra ela mais ou menos como o Damien Rice olhava pra guria da praia naquele clipe de The Blower's Doughter, que todo mundo acha que chama "I Can't Take My Eyes Off you", sabe qual? Lembra da cara de maníaco do Rice? Então. Era como ele olhava pra ela.
Até dava pra entender. Ela era linda. Um arraso. Um disparate. Bonita demais, mesmo. Bonita demais pra uma festa que ele frequentasse, pelo menos. Uma deusa loira e longuilínea serpenteando com desenvoltura pelo salão, falando com pessoas, dançando, bebendo. E ele ali, escorado em uma parede, mascando chiclete como quem espera que a festa acabe pra poder ir embora, o que de fato estava. Estava ali como vítima de um casal de amigos, o Augusto e a Maroca, que o obrigaram a ir à tal festa na esperança de que ele arrumasse, também, uma namorada, e parasse de segurar vela, o que, aliás, vinha sendo a única coisa vagamente romântica que ele fazia a quase dois anos.
Não era o sobrevivente de nenhum relacionamento que terminou em hecatombe, apenas acabara um namoro já a algum tempo e não encaixou nenhum namorico na sequência. Sua vocação pra solidão se manifestou, e ele resolveu ficar sozinho por alguns meses, que se tornaram vários, que se tornaram um ano, que estavam quase se tornando dois. Seu melhor amigo e a namorada, suas companhias mais frequentes, estavam preocupados, diziam, até com a saúde dele. Física e mental. Disseram que ele não podia ficar em casa, largado às moscas, vendo pornografia na internet e evitando gente. Ele protestou dizendo que estava em pleno gozo de suas faculdades mentais, que sua saúde estava ótima e que nem evitava gente, nem via pornografia na web e que eles queriam, mesmo, é que ele lhes desse um pouco de privacidade, o que ele faria com prazer.
Não adiantou.
Eles resolveram que iriam ressucitar a vida social dele. E essa festa era o seu primeiro encontro com o desfibrilador social que os dois planejariam, querendo ele, ou não. Agora ele começava a ter mais e mais certeza de que, o que eles queriam, mesmo, era ter um tempinho sem ele por perto, nem dor na consciência por tê-lo deixado de escanteio. Olhou pro copo de soda limonada que tinha na mão e suspirou enquanto bebia um gole.
Foi então que ele percebeu, a movimentação dela, a deusa loura, ganhou propósito e direção e... Sim. Ela se aproximava dele. Usava um vestido tubinho preto de um tecido bem leve, que marcava suas curvas quando ela andava, seus tornozelos estavam delicadamente envoltos pela tira do sapato de salto alto que ela calçava com elegância. Ele olhou pra ela e ficou apavorado. "Meu Deus, meu Deus, ela tá vindo pra cá, o que que eu faço? O que que eu faço?", ele pensou enquanto, escorado na parede atrás de si, fazia cara de descolado.
"Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!", pensou enquanto sentia que o suor começava a lhe escorrer pelas costas e do cabelo sobre as orelhas. "O que é que eu faço, essa mulher é linda, linda, linda. O que que eu digo? O que será que ela vai dizer? Ah, meu Deus, que mico, ela vai dizer que me confundiu com alguém. Ai, minha nossa. Olha só pra ela. Que beleza. Minha Santa Aquerupita. Tem cara de inteligente. Deve ser inteligente, também. Pra completar a minha humilhação. Vai parar perto de mim, linda desse jeito, e querer conversar sobre física quântica. Imagina minha cara:
Ela:
-Oi, tudo bem?
e eu:
-Tudo, e tu?
E ela:
-Tudo ótimo. Visse as últimas da física quântica?
E eu engasgo por que não me ocorre nada pra responder, e ela pergunta se eu tô me sentindo bem, e pra não passar por burro eu me jogo no chão fingindo que não consigo respirar, ou que desmaiei, ou que morri, qualquer coisa, quelquer vexame pra ela não ver como eu sou um idiota."
Ela estava cada vez mais perto. Um sujeito a cumprimentou com três beijinhos.
"Ah, pronto. Isso, fica com esse cara aí, nem chega perto de mim, desafasta como diz o Falcão. Ele também não deve manjar de física quântica, mas certamente deve ter abdôme de crocodilo, com cento e setenta e três gomos, então, quando ela perguntar se ele viu as últimas da física quântica ele levanta a camiseta, mostra a barriga pra ela e ela vai embora com ele, e eles viverão felizes para sempre, e eu terei, pelo menos, a satisfação de ter juntado esse casal perfeito que vai dar origem a toda uma geração de semi-deuses olímpicos ou participantes do Big Brother."
Ela se despediu do tal sujeito, e continuou andando em direção a ele.
"Ai, meu Deus. Sua burra. Por que não foi com o cara? Ele tem o abdôme de atleta, deve ser rico, bem dotado, sei lá o que mais. Não chegue perto, não chegue perto... Ai, meu Deus do céu."
Ela estava a menos de cinco metros dele, abriu um sorriso.
"Será que foi pra mim? Será que foi pra mim? Só pode. Ou isso ou o homem invisível está na minha frente e essa cabeleira loura cheia de gel dela é equipada com a visão térmica do Predador, só pode. Atrás de mim só tem parede. O que eu faço? Sorrio de volta, claro. O que mais? Evito física quântica.
-Visse as últimas da física quântica?
respondo:
-Não, estou em meu ano sabático.
Deve funcionar. Minha nossa, e se ela gostar de sujeitos medianos que nem eu? Será que existe isso? Mulher linda que nem essa que se apaixona por sujeitos meia boca que nem eu? E se for? Nossa, talvez meus filhos sejam bonitos que nem ela. O nariz, a boca, os olhos, o corpo, tudo dela, e meus... meu... Ah, meu sobrenome, vá lá, já tá de bom tamanho. Nossa, linda e inteligente, não posso dar ponto sem nó. Preciso pensar bem pra não dar mancada."
Ela chegou perto, rescindia um perfume cítrico, de seus cabelos, de sua pele, de tudo, ele supunha. Ela suspirou olhando pra ele:
-E aíam? Team chicléam?
Ele levou uma fração de segundo pra entender o que ela dissera por causa do sotaque do bomfim, carregadíssimo, e da voz nasalada que ela tinha.
-Quê? Ah, chiclete? Tenho, sim.
Estendeu a cartela prateada de trident de morango.
-Ah, naum... Esse daíam eu não gostóam...
Ele recolheu o chiclete e guardou-o novamente no bolso.
-Lamento, é só o que eu tenho...
-Faloam. - Ela respondeu, e então se afastou, serpenteando novamente em meio à multidão.
Ele ficou ali, olhando pra ela enquanto ia embora. Bonita, sim. Mas tinha a voz meio enjoada, né? Falava muito cantado. Mesmo pros padrões portoalegrenses, e, era impressão dele, reflexo do tempo que passara sozinho, ou ela era meio mal educada?
Seus amigos se aproximaram, foi a Maroca quem perguntou:
-Bah, quem era aquela gostosa, ali?
Ele olhou desencantado pra frente, pensando em dizer que era uma piriguete irritante, mas, ao ver os olhos esperançosos da Maroca e do Augusto, disse apenas:
-Talvez a futura mãe dos meus filhos...
O Augusto riu enquanto puxava a Maroca pelo braço de volta à pista de dança, deixando-o novamente a sós com seus pensamentos. Nos próximos dias ele daria um sossego pra Maroca e pro Augusto. Não sairia com eles nem se fosse convidado. Talvez ele ficasse em casa, evitando pessoas, jogado às moscas, quiçá até visse pornografia na internet, mas talvez, quem sabe, saísse pra encontrar alguém... Alguém que se parecesse mais com uma pessoa de verdade, que fosse bonita, claro, mas também divertida, inteligente e que soubesse se comunicar por mais do que gemidos monossílabícos.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O de sempre


Estavam ela e ele sentados no restaurante, o mesmo restaurante de quatro anos atrás, a mesma mesa perto da janela, outra vez numa noite de sexta-feira de um outono ainda moderado de Porto Alegre.
Ela sorria muito, ele parecia nervoso. Isso era normal entre eles, não ela sorrir, ela sorria, claro, mas não era essas pessoas que tratam a todos como dentista, mostrando os dentes o tempo todo, não. Ele, por outro lado, estava sempre nervoso. Ou, ao menos, parecia nervoso. Essa noite não era exceção. Ele parecia nervoso dentro do seu blazer preto, de sua camisa cinza e de sua camiseta branca. De vez em quando afastava a camisa do peito e assoprava lá pra dentro tentando se refrescar.
"Errei a roupa.", repetia sem parar. "Errei feio".
Não adiantou ela lhe dizer que fosse até o banheiro e se livrasse da camisa, ou da camiseta.
"Onde é que eu vou colocar a camiseta? Ou a camisa, se eu tirar?", ele perguntou.
Ela pensou em responder que sua bolsa era grande, e uma camiseta enroladinha, como a gente dobra pra colocar na mochila ocupando menos espaço em uma viagem, caberia facilmente ali. Mas desistiu ao lembrar que, se dissesse isso, ele iria dizer que queria ficar com a camiseta e tirar a camisa, e que a camisa, se colocada na bolsa dela, iria amarrotar inteira, e não sei mais o quê. Ela, depois desses quatro anos, ainda se espantava com a facilidade que ele tinha pra tergiversar quando queria continuar se fazendo de vítima, ou apenas continuar se queixando sobre qualquer coisa. Não mencionou a bolsa. Disse apenas pra ele fazer como quisesse.
Ele segurou a camiseta e a camisa entre o polegar e indicador e as sacudiu rapidamente. "Por que não ligam o ar-condicionado, aqui, meu Deus?", suspirou.
Ela olhou pra ele com ternura, embora tentasse, na verdade, se lembrar se ele sempre fora chato, assim.
Ele bufou. "Cadê os garçom?", olhava pros lados. Quando se incomodava, ele abandonava a concordância verbal. "os garçom" ela repetiu baixinho.
-Quê?
-Nada. Não vi nenhum desde que a gente se sentou. Mas eles devem existir, aquela mulher gorda ali tá comendo. - Ela respondeu, apontando com o queixo pra uma moça de cintura bem ampla sentada em uma mesa próxima.
"Ele vai fazer um 'psssssssssssssh' sussurrado e meio rindo e me dizer pra não apontar", ela pensou "O de sempre".
-Psssssssssssssh, não aponta! - Ele disse, sussurrando entre risos, mas parou imediatamente.
Ela sorriu olhando pra ele quando a pegou pela mão, ainda olhando em volta.
Quando foi que ele se tornou tão previsível? Será que foi quando ela percebeu tudo o que deixara de fazer pra ficar com ele, ou foi depois? Ou antes?
Ele não era má pessoa. Só... Ela não sabia. Talvez ele tivesse um prazo de validade curto. É. Era isso. Sua validade era breve. Mais breve do que quatro anos, pelo menos. Quatro anos, e ela era capaz de antever todas as reações dele. Nenhum problema nisso, ela pensou. Provavelmente era um efeito colateral normal de uma relação de longo prazo.
O problema eram todas as reações dele, de repente, a incomodarem.
O garçom finalmente apareceu. Ele fez um "ah!". "Ele vai soltar a minha mão, agora", ela pensou. "ele sempre solta a minha mão quando vai falar com as pessoas. Parece que se eu estou segurando a mão dele ele se torna incapaz de articular uma palavra."
Ele soltou a mão dela e fez hãããããã, enquanto olhava pro cardápio. "Ele vai pedir uma água com gás." ela pensou. "O de sempre.".
-Uma água com gás. - Pediu. -E tu? - Perguntou pra ela.
-Uma coca light.
O garçom anotou os pedidos, deixou dois cardápios e saiu.
"Ele pede antes de mim, agora. Antes, ele sempre me perguntava o que eu queria, antes de pedir. Será que fui eu que matei o cavalheirismo dele? Com a minha auto-suficiência, talvez?", ela se perguntou, "Ou será que foi ele? Ou será que foi o tempo?".
-Tô seco por uma água com bolinha. - Ele sentenciou procurando a mão dela. Mas ela recolheu a mão. Fingiu mexer na bolsa. Ergueu os olhos. Ele olhava pra ela. Sorriu. Ele sorria fechando bastante os olhos. Tinha os olhos pequenos, e eles quase sumiam quando ele sorria.
Ela sorriu de volta. Foi um sorriso forçado. "Será", ela pensou, "que um sorriso forçado significa alguma coisa? Nada de bom, eu suponho. Um fim, talvez.", mas não disse nada. Baixou os olhos mirando novamente a bolsa. Não conseguia mais fingir estar procurando nada. Nem tinha tantas coisas na bolsa naquela noite. Ele apanhou a mão dela com firmeza, e levou até perto do nariz. Do lado da narina direta. Apanhou, com cuidado, o dedo indicador dela, e passou ali, do lado do seu nariz, naquela reentrância que existe onde a narina se junta com a maçã do rosto.
-Tá sentindo? - Ele perguntou.
Ela sentiu, de fato, uma pequena aspereza na região. Uma linha de pele mais dura. Respondeu que sim. Perguntou o que era.
-É uma cicatriz. Dois pontos. Parece uma bobagem, dois pontos. Dois pontos não são nada. Mas essa cicatriz eu consegui quando tinha cinco pra seis anos. Eu nem sequer tinha chegado à pré-escola. Era bem pequeno. Naquela época, primeira metade dos anos oitenta, o SBT passava um seriado do Capitão-América. Era muito ruim. O uniforme do Capitão América nem era parecido com o do gibi, ele usava um capacete ao invés de máscara, o escudo dele era de plástico transparente, eu nem faço uma ideia remota, hoje, de qual era o mote do seriado, mas suponho que fosse alguma coisa como a série do Homem-Aranha com o Nicholas Hammond, uma tentativa frustrada de repetir o sucesso do Hulk com o Bill Bixby e Lou Ferrigno, enfim, eu tô me desviando do assunto, desculpa. O meu ponto é que eu, nos meus cinco, seis anos, adorava essas séries todas. Hulk, Homem-Aranha, Capitão-América. E eu tenho quase certeza absoluta, que eu estava brincando de Capitão-América, quando resolvi fazer uma manobra mais arrojada, que consistiria em subir no sofá da sala, tomar um pequeno impulso, correr pelo chão da sala, encerado com esmero pela minha mãe, me ajoelhar, e deslizar sobre os joelhos até embaixo da cama, ainda que isso fosse me deixar com joelheiras de Tacolaqui, que era a cera que minha mãe usava, nas calças de abrigo azul-marinho que eu vestia. Eu não sei, ao certo, o que essa manobra representaria na minha brincadeira. Eu suponho que, o sofá, representasse um helicóptero, que eu tivesse nocauteado o piloto, a aeronave estivesse caindo, e eu fosse saltar dela. Assim, a minha corrida e posterior deslizamento seriam por uma estrada de chão batido, e a cama seria um caminhão, sob o qual eu estaria me abaixando pra não ser atropelado. O que é muito legal se considerarmos que no início dos anos oitenta, nenhuma série de TV teria cenas de ação tão elaboradas, de modo que isso advoga em favor da minha criatividade infantil. Enfim, a minha manobra foi calculada com frieza, entretanto, minha elasticidade aos cinco anos de idade não era digna de super-herói, e embora eu tenha sucedido no meu intento de saltar do sofá/helicóptero, e tenha sido capaz de correr por breves metros no chão, e me ajoelhado e deslizado, eu não consegui me abaixar o suficiente pra evitar a cama/caminhão. E bati justamente com esse espacinho, do lado do nariz, na quina da cama. Eu, claro, chorei. Afinal, era um piazinho de apartamento que ainda nem frequentava a escola, meu pânico, porém, só surgiu quando minha mãe me olhou e disse algo como "aimeuDeusdocéu!" e correu comigo pra lavar o rosto. Foi só quando eu percebi o sangue. Muito sangue. O que é normal, claro, o nariz é uma zona super irrigada, qualquer coisinha nas imediações sangra uma barbaridade. Mas na época eu não sabia, e me desesperei. E enquanto eu estava sendo vestido pela minha mãe pra ir ao pronto-socorro, enquanto ela telefonava pro meu pai pra avisar ele que eu tinha me machucado e me mandava fazer pressão no nariz, eu tive, por alguma razão, certeza de que eu ia morrer.
Ela riu. Ele continuou:
-Eu sei, é uma bobagem, quem é que morre por causa de um corte perto do nariz, certo? Nós sabemos disso. Mas, aos cinco anos, eu não tinha essa consciência. Pra mim, perder sangue, especialmente em grandes quantidades, e ser levado pro hospital, eram sinônimos de morte iminente. O desespero da minha mãe não ajudou a mudar a minha opinião. Claro, eu levei dois miseráveis pontos. Conversei e brinquei com o taxista que nos levou ao HPS, com o médico que inclusive me deu a agulha da "operação", com meu pai, que disse que eu ia ficar com cara de bandido e ser temido pelos meus futuros colegas na escola... Nada daquilo, porém, mudou a sensação de "saber" que eu ia morrer que eu experimentei. O que foi uma bobeira de criança que se machuca pela primeira vez, acabou sendo uma coisa positiva, sabe? Nos anos que se seguiram, especialmente quando eu fiquei um pouco mais velho, eu sempre me lembrava daquela sensação. A sensação de morte iminente, ainda que artificial, ainda que injustifcada, sempre me fazia valorizar um pouco mais as coisas, entende? Eu sou um sujeito aborrecido, eu não nego. Eu me aborreço com facilidade, e não custa muito pra eu me tornar rabugento, pra ficar de mal com o mundo. Não é algo que eu cultive por que gosto, é um traço de personalidade com o qual eu tenho que lidar. De qualquer forma, durante muito tempo, a minha muleta pra achar um pouco mais de cor nos meus dias, era aquele episódio de "quase morte". O sangue, a adrenalina, a urgência. Mas, claro, conforme eu fui ficando mais velho, aquilo foi perdendo o sentido. Eu fui aprendendo coisas, perdendo entes queridos, vendo gente que eu amava ir embora por que queria ou precisava. E aquele episódio, esses dois pontinhos, perderam o peso, a relevância, e eu perdi essa muleta. Mas quando a gente se conheceu, e tu, por alguma razão gostou de mim, e foi doida o suficiente pra querer ficar junto comigo... Bom, isso virou a motivo pela qual eu, vez que outra, me flagro pensando que estou sendo mais rabugento e resmungão do que a vida merece. A razão pela qual meus maus humores ás vezes se tornam humores menos piores, ou até, quase bons humores. E a tinta que torna meus dias cinzentos mais coloridos. Então... Bom: Obrigado.
O garçom chegou perto da mesa antes que ela pudesse responder qualquer coisa.
-Querem pedir? - Perguntou, jovialmente.
Ele olhou pra ela:
-O que tu vai querer?
"O de sempre." ela pensou. "Pra sempre."

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sobrevivendo


O Luís e o Sandro estavam sentados no sofá, um do lado do outro. O Luís tinha uma garrafa de seicentos mililitros de Fanta, na mão direita, e o controle remoto do DVD na esquerda. Sua expressão deixava bem claro que ele vira momentos mais felizes.
O Sandro segurava uma cerveja long neck na mão esquerda, e um pacote de ruffles que poderia alimentar Bangladesh na mão direita, não tinha nenhuma expressão no rosto. Na TV, o Batman de Christian Bale esmurrava o pescoço de bandidos fingindo serem reféns em uma das últimas cenas de Cavaleiro das Trevas.
-Fodão esse filme, "heinhô, Batista"? - Perguntou o sandro, imitando a voz de um narrador meia-boca da televisão gaúcha e seu bordão ao se dirigir ao comentarista.
-É... - Respondeu, sem lá muita convicção, o Luís, tomando mais um gole de sua Fanta.
-Como assim, "é"? Esse é o filme de super-herói mais fodaço que já fizeram, velho.- Replicou o Sandro, ainda olhando pra TV sem expressão no rosto.
-Eu tô ligado, só... Sei lá. Prefiro Homem-Aranha 2.
-Cala a boca.
-Tá bem. - Concordou o Luís, se contorcendo pra alcançar o pacote de batatas fritas na mão do Sandro, e enfiando um punhado delas na boca com um "crunch-crunch" enquanto mastigava.
O Coringa estava pendurado de ponta-cabeça, a câmera se virava para deixá-lo na posição do espectador na tela. O Sandro apontou pra TV:
-Essa aí é uma sequência genial. Brilhante. Coisa de Kubrick.
-Kubrick era um mala. - Suspirou o Luís.
-Blasfêmia! - Proclamou Sandro, ainda de olho na TV e sem alterar o tom de voz.
-Só não é mais chato que o Robert Altman e o Terrence Malick. - Completou Luís, apanhando mais batatas.
-OK... Para enquanto tu pode, esse é um terreno perigoso, Gafanhoto... - Advertiu o Sandro.
-Tá bem. - Concordou o Luís, com a boca cheia de batatas.
Batman corria em meio a contâineres, perseguido pela polícia, o comissário Gordon de Gary Oldman entoava o texto final do filme, Batman subia na Bat-Pod e desaparecia em meio a luz, quando o título do filme finalmente surgia na tela e a trilha de Hans Zimmer ressoava. Luís pressionou a tecla stop do controle remoto do DVD por duas vezes. Então desligou o aparelho.
-Que filmaço. - Proclamou Sandro.
-É... Bacana...
-Tu vai continuar, criatura?
-Por que que ele assumiu a culpa, no fim?
-Como...? Pra proteger a imagem do Harvey Dent.
-E por que ele não disse que tinha sido algum outro meliante? Gotham City é só bandido, mesmo...
-Pra evitar os imitadores, caraca!
-Os quem?
-Os imitadores, meu! Os carinhas fantasiados de Batman lá do início do filme.
-Ah... Ah, bom. É... Então faz sentido, mesmo.
-Abre o coração, monstro. Qual é o mal que te aflige?
-Nah... Nada.
-A Isadora, ainda?
-Não... Nada a ver. Eu nem tô mais por essas, ih... Capaz...
-Sério?
-Não. É ela ainda...
-Porra...
-Não adianta, meu. Eu não consigo acreditar que... Ah. Deixa pra lá.
-Não, não... Fala. O que é?
-Tá, esquece todo o resto... Só me diz o seguinte... Putz. Não acredito que eu vou perguntar isso logo pra ti... Tá... Tu acredita em relacionamentos à distância?
-Claro.
-Sério?
-Sim. Sério. Totalmente. Sem dúvida.
-Puxa...
-Especialmente pra ti.
-Cara... Putz, eu... Sei lá, isso é até um alento. E eu achando que tu fosse me chamar de... Peraí. Porque "especialmente" pra mim?
-Por que as tuas relações sempre acabam com a mulher querendo distância de ti.
-Vai tomar no cú.
O Sandro se levantou, andou até a estante de DVDs do Luís e falou:
-Eu sei o que vai te animar.
Jogou pro amigo a caixa de Homem-Aranha 2.1.
-Liga essa bosta, aí, enquanto eu pego mais uma ceva. Quer mais um refri?
-Quero. Mas Homem-Aranha 2 não é uma bosta. É um filmaço.
-Tá, que seja. Só presta, mesmo a luta no trem...
-Cala essa boca, bichona.
-Tá bem.
Com a ajuda dos amigos, tudo se supera...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Resenha cinema: Além da Vida


É estranho ver o nome de Clint Eastwood em cima do título de um filme a respeito de um tema tão água com açúcar como vida após a morte. Há quem possa imaginar que o velho Clint esteja amolecendo, ou, que a idade provecta (Adoro esse termo, "idade provecta") do cineasta octogenário o tenha feito pensar um pouco sobre o fim. Bazófia. Primeiro, por que Clint Eastwood jamais irá amolecer. Segundo, por que Clint Eastwood não tem medo da morte, embora seja melhor a morte pensar duas vezes antes de cruzar a mira de sua Magnum 44, e, terceiro, por que Além da Vida não chega a ser um filme sobre vida após a morte na acepção do tema.
Na trama conhecemos três histórias que se entrelaçam durante a projeção:
Primeiro a da jornalista Marie LeLay (Cécile de France), que após uma experiência de quase morte durante um tsunami na Tailândia tem sua realidade alterada e se torna obcecada com o além-vida; A de George Lonegan (Matt Damon), um médium que encara seu dom de se comunicar com os mortos como uma maldição, e tenta levar uma vida normal como operário, á despeito dos apelos do irmão Billy (Jay Mohr) para que retome a lucrativa atividade; e a de Marcus (George e Frankie McLaren), menino que perde o irmão Jason (George e Frankie McLaren, também) ao mesmo tempo em que sua mãe precisa deixá-lo para se livrar do vício em drogas, e busca desesperadamente por respostas.
Não é um filme ágil, as duas horas e nove minutos do longa ás vezes se arrastam pela tela enquanto as relações dos personagens centrais vão se esfacelando por conta de suas respectivas obssessões com a morte. Matt Damon está excelente como o médium relutante George, quando ele interage com a gracinha Bryce Dallas-Howard nós conseguimos sentir, de fato, a aflição do sujeito que sabe pra onde aquilo vai andar.
Cécile de France não compromete, e é a dona de uma das grandes sequências do filme, o tsunami que varre a Tailândia e quase a mata, enquanto que os gêmeos Frankie e George são boas supresas nos papéis de Marcus e Jason.
Clint Eastwood usa o tema da espiritualidade com parcimônia, impedindo que seu filme se torne uma porcaria panfletária como Chico Xavier, Amor Além da Vida ou Nosso Lar, ele não consegue, no entanto, escapulir de alguns clichês, tanto no texto, quanto visuais, que sempre acabam recorrendo nos longas do tema, o que resulta em um filme que, se não é ruim (e não é), certamente empalidece quando comparado aos trabalhos recentes do diretor de Sobre Meninos e Lobos, Gran Torino, e Cartas de Iwo Jima.
Enfim, Clint Eastwood não precisa ter medo da morte (Nem de nada!), ele só deve se acautelar com roteiros mornos.

"Se você está com medo de ficar por conta própria, não se preocupe: Você não está."

Resenha Cinema: 72 Horas


Paul Haggis é um roteirista dos bons (Os filmes mais recentes de 007 que o digam), e Diretor, idem (Olha o Oscar de Crash - No Limite, aí que não me deixa mentir.). Ele colocou as asinhas de fora novamente fazendo um filme que se aproxima um pouco mais da ação de seus trabalhos como roteirista, e difere de um pouco de seus dramas nos trabalhos como diretor:
O bom thriller de fuga da prisão, 72 Horas, onde Russel Crowe interpreta John Brennan, professor e pai de família que tem sua esposa, Lara (Elizabeth Banks), presa e condenada por assassinato, e que, após esgotar todas as vias legais de apelações para livrá-la da cadeia, percebe que só existe um curso de ação: Planejar uma fuga pra sua esposa.
Mas como um professor de inglês poderia tirar alguém de uma penitenciária de alta segurança? Aí é que a trama se complica, e ganha suas melhores tintas.
É, grosso modo, um show de um homem só. Russel Crowe carrega o filme nas costas durante toda a projeção, a sua atuação mostra de forma extremamente convincente o sujeito comum tentando realizar um prodígio. O John Brennan de Crowe é, ao mesmo tempo, determinado e hesitante, valente e assustado, contido e raivoso.
Enquanto busca desesperadamente o conhecimento necessário pra tirar a esposa da cadeia, Brennan incorre em todos os erros que uma pessoa normal cometeria na mesma situação. Ele se dá mal tentando negociar com criminosos, ele fracassa em tentativas de usar técnicas de fuga extraídas do YouTube, ele titubeia antes de tomar uma decisão drástica, mas sempre se apega á vida que levava antes da prisão de sua esposa, e que está disposto a recuperar não importa o custo.
Se Haggis não chega a mostrar estofo de papa do gênero na direção, não deixa a peteca cair, nos deixando na ponta da cadeira nos momentos de tensão sem jamais esquecer de dar veracidade aos seus personagens. Se Crowe é um daqueles atores de exceção em hollywood já sabemos faz tempo, a interpretação de Elizabeth Banks (A Betty Brant de Homem-Aranha) não deixa de ser uma bela surpresa, além das boas participações de um silencioso e expressivo Brian Denehy, como pai de John, Liam Neeson como um ex-condenado especialista em fugas, e Olivia Wilde, linda de morrer, como uma mãe solteira que pode se tornar peão nos planos de John.
No final das contas, 72 Horas não vai mudar os rumos do cinema contemporâneo, não dará nenhum prêmio de interpretação aos membros do elenco, nem deve ser um estrondoso sucesso de bilheteria, mas cumpre bem a sua função, e distrai bastante bem por duas horas e dois minutos.

"Não há nada mais perigoso do que um homem com tudo á perder."

Coisas simples


O Aristides admirava a engenharia das coisas do dia-a-dia, das coisas simples, das mais simples, até algumas mais elaboradas, ele adorava conhecer o funcionamento de tudo. Embora ele admitisse, tivesse mais apreço pelas coisas simples. Era no mundano que Aristides encontrava mais satisfação, no que parecia mais tosco, mais básico, era onde Aristides depositava seu mais sincero apego, seu mais genuíno deslumbramento.
Um exemplo bem claro, era que Aristides achava telefone celular muito bacana, sim. Achava maneiro até o modo como o nome servia pra designar o sistema de células que tornava as ligações possíveis, mandando o sinal de uma antena pra outra e talicoisa. Mas ele achava dobradiça muito mais bacana. Dobradiça, mesmo. Dessas de porta, sabe? Então. O Aristides achava dobradiça muito maneiro. Ficava pasmo olhando aquelas cartelinhas que vende na parte de ferragem do supermercado com duas dobradiças dentro, manja? Pois é, ele achava aquilo, sei lá, uma demonstração inquestionável da triunfo do intelecto humano. Achava glorioso. Ás vezes, quando ia entrar em algum lugar, olhava a dobradiça das portas, e fazia, baixinho, um ruído de satisfação.
"Eheh... Aaaah."
Ninguém entendia, se bem que quase nunca reparavam. De qualquer forma, dobradiça era uma das coisas que deixavam o Aristides feliz da vida, admirado, maravilhado. Um lance tremendamente simples, mas, ao mesmo tempo, com uma certa sofisticação rude, se é que existe tal coisa.
Tubo de pasta de dente, também. Nossa, cara, tubo de pasta de dente ele achava tudo de bom! De manhã, quando acordava, o Aristides já estava com um sorrisão no rosto, antevendo o prazer de apertar o tubo de pasta de dente bem embaixo, sabe? Na ponta oposta a da tampa, e ver o creme dental branco, com as risquinhas vermelhas sair lentamente de dentro do tubo... Nossa. Era um lance quase erótico pro Aristides, além, claro, de ser outra notável invenção da raça humana. Áfora, claro, toda a engenharia química da produção do creme dental em si, a forma como o creme era inserido dentro do tubo, a maneira exata como ele passava pelo micro recipiente da substância colorida perto da abetura do tubo, pressionado contra as ranhuras que davam aquelas riscas fininhas pra pasta... Caraca... O Aristides ficava estático pensando em como aquilo funcionava. Não tinha outra, era mais uma das grandes invenções humanas. Um troço tão maneiro, e que ainda protegia os dentes de cáries, e deixava o hálito cheiroso? Ah, não... Tipo, o Aristides ás vezes se sentia quase na obrigação de escovar os dentes ajoelhado, agradecendo aos céus e aos homens de ciência que criaram aquela maravilha.
O Aristides era assim. Um sujeito de admirações simples. De ideias simples, de vontades e desejos e sonhos simples. Ele era capaz de curtir as coisas mundanas do dia-a-dia, e de ver milagres de sapiência humana onde os outros são incapazes de ver qualquer coisa. Era seu modo de ser. Talvez por isso, por ser um camarada de pretensões tão básicas, ele andasse tão desconfiado com a felicidade que experimentava naqueles dias.
Felicidade tão em excesso, sem precisar de explicação ou palestra... Sei lá, precisava de alguma explicação ou palestra.