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segunda-feira, 8 de abril de 2013

Nosso



Que a vida é toda ela incerteza as pessoas acabam aprendendo cedo ou tarde, de uma forma ou outra. Como foi o caso do Reginaldo.
O Reginaldo tinha uma única certeza nessa vida e era a de que não existem certezas nessa vida, exceto a morte. O Reginaldo era um sujeito pessimista que não acreditava em nada e que estava sempre avisando que não era pra ninguém se desesperar pois as coisas ainda podiam piorar muito. Ele sabia que, em momentos de crise, essa sua faceta era bastante útil, e que por ele conseguir manter a cabeça no lugar quando tudo ia pro inferno, nas horas de crise sempre o queriam por perto. Sabia, também que era particularmente azedo, e que, nos momentos de calmaria, não era a melhor das companhias, pois enquanto todo mundo curtia o momento, ele ia avisando pra não acostumarem pois não ia longe.
O Reginaldo tinha um kit do juízo final dentro da mochila que sempre carregava consigo, que tinha mariolas, sabonete, escova e pasta de dente, cuecas limpas, um isqueiro, um abridor de latas, uma faca e um life straw, aqueles aparelhos em forma de canudos pra filtrar água salobra. Esse era o nível de pessimismo do Reginaldo.
Uma vez, um amigo do Reginaldo ia se casar, e escolheu o Reginaldo como padrinho. Antes da cerimônia, perguntou se o amigo tinha um último conselho para dar a ele, ao que o Reginaldo respondeu "Anote tudo o que tu comprar depois do casamento, assim, quando vocês se separarem, tu vais ter um registro do que é só teu, o que vai facilitar na hora de separar os bens". O amigo riu, o Reginaldo não soube se por pensar que era uma piada, por estar com o coração leve demais pra reclamar, ou apenas por condescendência. O que o Reginaldo sabia é que, na época da separação do casal, dois anos depois, aquele registro teria sido muito útil.
Era o "lance" do Reginaldo, o pessimismo. Ele era assim, o sujeito que estava pronto pra quando tudo desse errado. Ao menos espiritualmente.
Aconteceu, porém, de o Reginaldo se apaixonar, ora imagine.
Se apaixonar, mesmo. De corpo, alma e coração. O Reginaldo encontrou em alguém o acalento, o calor, a alegria de partilhar. E o Reginaldo que não, não se tornou "uma nova pessoa", nem nada do tipo, teve, de fato, pequenas epifânias
E uma coisa nova surgiu pro Reginaldo... Não otimismo... Mas uma certeza da vida além da inevitável morte. A certeza de que ela e ele estariam para sempre juntos.
Uma certeza tão grande, que o Reginaldo não se incomodava de dar suas coisas pra ela. Pois ele sabia, em seu íntimo, que as coisas que eram "dele", e que eram "dela", estavam irremediavelmente fadadas a ser "nossas", um dia.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Rapidinhas do Capita


Sonhou que estava na praia. Na sua praia de sempre. Ia jogar futebol com um pessoal ao lado do Espigão, o quiosque que vende milho-verde, cerveja, caipirinha, batata-frita gordurenta e refrigerantes na beira da praia, pertinho da casa da sua família.
A certa altura, um dos participantes da pelada que se desenhava, um sujeito baixo, magro e tímido foi interpelado pela sua esposa, uma mulher pequena, mas estridente.
Ela gritava que ele havia deixado a tampa da privada aberta de novo. Que não ajudava em nada dentro de casa e ainda ia jogar futebol com aquele bando de bêbados na beira do mar como se fosse um garotão.
No sonho ele chegou a tomar fôlego para replicar que não era nenhum bêbado, mas antes que conseguisse fazer isso, o marido gritou rugindo e se retorcendo como se estivesse tendo uma violenta convulsão, para espanto de todos os presentes, mas a mulher dele fez pouco caso, dizendo que ele não era homem o suficiente pra encarar os fatos, e que ia se transformar pra não ter que lidar com isso.
Foi então que o sujeito, de fato, se transformou. E virou o incrível Hulk, bem ali, na frente de todo mundo. Mas a mulher seguia sem se impressionar dizendo "Eu não falei? Eu não falei? Cadê a atitude de homem?".
E o Incrível Hulk respondeu:
-Quando Banner age como homem esposa resmunga e irrita Banner, Banner irritado, vira Hulk! É PARADOXOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!
E com suas pernas com músculos grandes como troncos de árvores deu um poderoso salto e desapareceu no horizonte, deixando os outros membros da pelada praiana aturdidos e sua esposa fazendo cara de pouco caso enquanto batia o pé na areia, impaciente.
Quando acordou, ele não sabia o que aquele sonho significava, mas tinha a cabeça deitada em um travesseiro coberto pelas palavras dela, e as palavras da Betty Ross de araque, eram muito semelhantes às palavras que a mãe dela lhe dissera em mais de uma ocasião.

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Coisas bacanas de ontem:
Classificação antecipada à próxima fase da Copa do Brasil. Boa apresentação do Caio, que mudou a cara do jogo, e do Forlán, que mesmo isolado tentou criar e concluir.
Coisas ruins:
O D'alessandro vai ter trinta Libertadores nas costas, medalha olímpica, dois milhões de jogos na carreira e oitenta anos de idade antes de aprender a não cair nas provocações de jogadores menores.
Dátolo vai demorar a se recuperar da cirurgia de púbis, e mesmo quando o fizer, não será o armador que vai suprir a eventual ausência do D'ale.
Rafael Moura não serve pra ser titular do Inter.

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Ah, parabéns ao Internacional, não só pela classificação antecipada, mas também pelos 104 anos de idade.
E à minha avó, que também faz aniversário, hoje, e completa oitenta e dois anos.
Que o Inter ganhe muitos títulos, e que a minha avó volte pra casa saudável.

terça-feira, 2 de abril de 2013

O Inverno Está Aqui



Ela estava sentada, bonita, do outro lado da mesa. Calça jeans, regata listrada de azul e branco, tênis all-star vermelho. Os cabelos loiros, já haviam crescido até aquele comprimento em que se tornavam curtos demais pra prender e longos demais pra pentear, de modo que, mesmo lisos e finos, se espetavam ao redor de sua cabeça formando uma nuvenzinha, ou um halo, dependendo do ponto de vista.
Estava atirada na cadeira, com a bolsa de brim jogada sobre o colo, mexendo no celular enquanto uma garrafa de Pepsi suava à sua frente.
Ele chegou e parou diante dela, esperando ser notado. Ela era distraída. Quase tanto quanto ele.
Ignorou-lhe a presença por longos momentos até erguer os olhos da tela do telefone, e abrir um sorriso ao se deparar com ele.
-Chegou cedo! - Exclamou enquanto se levantava. -Achei que fosse demorar mais, guri.
Fez a volta por trás da cadeira e o abraçou com força, estalando-lhe um beijo na bochecha. Ele lamentou ter se barbeado na noite anterior, seu rosto devia estar áspero dos tocos da barba. Enlaçou-a pela cintura fina, e também beijou-a no rosto.
Ela tinha um cheiro cítrico muito bom. Os perfumes dela eram sempre cítricos desde que ele era capaz de lembrar.
Caía bem nela.
Alta, esguia, parecia ágil. Era justo que tivesse um cheiro cítrico, perfumes doces não combinariam com ela, ela não era floral ou amadeirada.
Não. Ela era cítrica.
Era ácida. Ela nem era laranja ou bergamota.
Era limão. Totalmente limão.
Ele adorava limão.
Pensou em tudo isso enquanto ela se desvencilhava de seu braço e voltava a se sentar:
-Quer Pepsi? - Ofereceu, empurrando-lhe a garrafa.
Era a única pessoa que ele conhecia, além dele próprio e de um tio, já falecido, que preferia Pepsi à Coca.
Anos antes, durante um intervalo na faculdade, quando ele lhe dissera, muito empolgado, que também preferia Pepsi, ela fez cara de pouco caso e disse "Ah, então tu é o outro.", e sorriu. E naquele momento, ele tinha tido a mais inabalável certeza de que jamais teria nenhuma chance com ela.
Ainda assim, resolveu que uma moça descolada e bonita como ela, era alguém de quem gostaria de ser amigo.
E amigo dela seria, se ela quisesse.
Fizeram alguns trabalhos juntos nas duas disciplinas que partilharam na universidade, se recomendaram livros e filmes, até que, numa festa na casa de um colega, se beijaram.
Haviam namorado por seis, sete meses. Talvez um pouco mais. Mas acabou de maneira abrupta.
Com ele extremamente magoado e sentindo-se traído, embora não houvesse existido traição de fato.
Ficaram muito tempo sem se falar. Quatro anos. Talvez mais. Mas finalmente voltaram a fazer contato. Ele se sentiu maduro o suficiente pra deixar as coisas pra lá. Não doía mais como já doera antes.
Ela era uma ótima pessoa pra ter como amiga, enfim...
E amigos voltaram a ser. Não melhores amigos. Não de frequentar a casa um do outro. Mas de se ligarem de quando em quando, trocarem mensagens de texto, e-mails, piadinhas em redes sociais, se encontrarem eventualmente pra assistirem juntos filmes que, de outro modo, veriam sozinhos.
Ele gostava da companhia dela. Gostava do cheiro dela. E da voz. A voz dela era muito, muito, muito bonita.
Gostava da forma como ela era capaz de se sentar em posição de lótus na cadeira do cinema segurando um balde de pipocas e um copo grande de suco de maracujá (cítrico, sempre cítrico) no colo, sem usar os porta-copos.
Ela devia gostar de alguma coisa que ele fazia, mas ele, francamente, não sabia o que poderia ser.
Eram bons amigos, e a despeito de já terem partilhado camas, chuveiros e uma vez, o elevador da universidade, sabiam ser apenas amigos.
Quando ela ligou pra ele perguntando se ele queria dar uma volta, o primeiro reflexo dele foi dizer que não.
Estava cansado, aborrecido, e acabrunhado. As coisas não iam bem, e ele estava sem paciência pra conversar.
Mas aí lembrou-se que agora era amigo dela. E que amigos devem fazer sacrifícios eventuais um pelo outro, ainda que pequenos.
E então foi.
E agora ali estavam, ela e ele, sentados de frente um pro outro na lanchonete onde, uma vez, haviam comido juntos e ela brincou dizendo que o pediria em casamento naquele mesmo lugar, expondo um plano de falar com o garçom, pedir para o pessoal do balcão tocar "Linger", dos Cranberries, e oferecer pra ele aquele anel das duas cobras do Aragorn, que era a forma como ela chamava o anel de Barahir, e eles riram enquanto dividiam uma porção de fritas com quatro queijos e bebiam Pepsi.
Ela sorria, olhando pra ele. Ele se lembrava de amar aquele sorriso.
Parecia ter sido a tanto tempo... Ela suspirou:
-Ned...
Ela fazia isso desde sempre. O chamava por nomes de personagens de filmes e séries. Ela não era, nem de longe, nerd como ele, mas era apaixonada por mitologia em geral, e fã declarada de fantasia medieval. Adorava O Senhor dos Anéis, lera a série Angus, era fã declaradíssima de Bernard Cornwell, e lera As Crônicas de Gelo e Fogo assim que foi publicado em 2010. Logo que se conheceram, ele tinha os cabelos curtos, usava óculos e frequentemente envergava uma camiseta do Superman, de modo que ela passou muito tempo chamando-o de "Clark".
Quando ela voltou, após poucos meses de terem retomado o convívio, passou a chamá-lo de Ned, e ele descobriu, mais tarde, ser por conta de Eddard Stark, o personagem honrado demais e esperto de menos vivido por Sean Bean em Game of Thrones.
Ela dizia:
-... Como é que tu tá?
-Eu? - Ele perguntou, no jab verbal mais cretino que existe, que é perguntar uma obviedade para ganhar tempo antes de responder.
Ela sorriu, baixando os olhos para as próprias mãos, sobre a mesa. Ele amara aquelas mãos. Amara senti-las em si. Amava a forma como ela costumava puxá-lo por trás das orelhas antes de beijá-lo de surpresa dizendo "Beijão", forçando a garganta para fazer uma desajeitada voz grave que desafinava e lhe arrancava risos.
-É... Tu. Como tu tá? - Ela perguntou de novo.
Ele riu. Riu forçado:
-Olha... Melhor que uns... Pior que outros...
-Sério...
-Eu já estive melhor. - Ele respondeu, desmanchando o sorriso.
-Eu sei. Dá pra ver. É por causa do lance com a tua vó?
-Também. - Ele desistiu de maquiar o que sentia. Ela não era amiga dele? Se queria saber, ele devia dizer. Quando ela perguntasse o que podia fazer pra ajudar, ele diria que ela podia ser amiga dele. Eles comeriam uma porção de fritas, conversariam sobre qual das famílias de Westeros era a mais desgraçada, e ele a levaria até em casa.
Mas ela não perguntou o que mais era.
Ao invés disso disse:
-Tu sabe que eu tô aqui contigo, né? Pra o que tu quiser.
Ele pegou a mão dela por cima da mesa e sorriu:
-Eu sei, alemoa.
Comeram as fritas. Beberam Pepsi, e falaram mal dos Frey e dos Greyjoy, escolhidos por ambos como as piores famílias de Westeros, mas também houve menção desonrosa dela para os Bolton. Depois, ele olhou pro relógio e bocejou, e ela entendeu que ele queria ir embora.
Andaram pela Lima e Silva até a André da Rocha, depois entraram na Salgado Filho e subiram em direção à Duque de Caxias, onde pararam diante do prédio onde ela morava, quatro ou cinco quadras de distância da casa dos pais dela, onde ele havia dormido com ela muitas vezes, anos antes.
Ela abraçou ele com força. Ele instintivamente se abaixou arqueando os joelhos e dobrando o tronco, apesar de não precisar, ela media um metro e setenta e sete, endireitou-se e a abraçou de volta.
Ela estava encostada nele. O corpo esguio dela colado ao dele, ele sentia a respiração dela no próprio peito, e quando ela suspirou de cabeça baixa, ele sentiu o hálito dela banhar-lhe o pescoço, e sentiu-se excitado como quando ela e ele estavam juntos.
Ela o encarou e os olhos azuis dela o afogaram. Ele passou a mão no rosto barbado dele, e demorou-se sobre a cicatriz que ele ostentava na face esquerda:
-Tu sabe que eu tô sempre aqui pra ti, não é?
Ele tinha os olhos fechados:
-Sei... E eu tô aqui pra ti, também.
Ela esticou o pescoço, e colou os lábios nos dele, apenas isso. Lábios nos lábios. Quando ela se afastou, tinha os olhos rasos d'água:
-Me desculpa por ter ido embora.
Ele engasgou, as palavras presas em sua garganta.
Não muito tempo antes, desculpara uma pessoa que lhe era muito cara da boca pra fora. Ainda estava muito magoado à época, mas pareceu-lhe errado, indelicado, não desculpar alguém que era forte o suficiente pra pedir desculpas.
Desde que aceitara aquelas desculpas sem querer fazê-lo, sentia-se como se algo dentro de si estivesse mais quebrado que o de costume.
Tomou fôlego:
-Acho que... Acho que na época... Tu ter ido embora foi a coisa mais dolorida que já tinha me acontecido, sabia? Eu nunca tinha me sentido tão mal, tão ferido... Abandonado, mesmo... É ridículo, mas sabe... Eu achei que nunca fosse me recuperar daquilo.
Ela tinha lágrimas escorrendo de suas bochechas lisas.
-Me desculpa... Eu era egoísta... Idiota...
-Não... Não... Tu não era. Tu cuidou da tua vida, fez o que precisava fazer, o que era certo fazer. - Ele ficou surpreso com a facilidade com que as palavras saíam -É claro que eu te desculpo.
Ela abraçou ele com força e soluçou baixinho. Ficou de cabeça baixa, escondendo o rosto na camiseta dele por algum tempo, então, limpou os olhos, o nariz vermelho, mas um sorriso desenhado na boca bonita dela:
-Tu quer subir? Eu baixei as duas temporadas do Game of Thrones.
Ele passou a mão no rosto dela. Ela era muito bonita. E a voz dela era linda, e ela tinha um cheiro cítrico que ele achava extremamente excitante.
Ela fazia um arco perfeito com o pé, e sempre tinha latas de Pepsi em casa...
Mas ele não era mais apaixonado por ela. Percebeu isso quando conseguiu desculpá-la sem nenhuma dificuldade. Estalou um beijo no rosto dela agradecendo:
-Tenho que trabalhar amanhã cedo, alemoa.
Foi embora pela Duque, mesmo. Parou no alto do viaduto, e lembrou-se de que, uma vez, fora muito feliz olhando a cidade dali.

Resenha Filme: Casa De Mi Padre


Eu sou um dos vinte e três fãs de Will Ferrell no Brasil, um dos três em Porto Alegre. Os outros dois são meu irmão, e o cara que alugou O Âncora - A Lenda de Ron Burgundy no mesmo final de semana em que eu tentei pegar o filme em 2004, mas acho que ele morreu em 2006 ao assistir o equivocado Rocky Bobby - A Toda Velocidade.
Sou fã de Ferrell e seu jeito bobão de fazer humor desde a época de Saturday Night Live, quando ele fazia os melhores George W. Bush e James Lipton que a TV já viu, encarnava o devotado líder de torcida dos Spartans, Craig Buchanan ao lado de Cheri Oteri e um dos grandes amigos de Bill Brasky.
Continuei acompanhando os filmes de Ferrell após sua saída do SNL, e se Os Estragos de Sábado À Noite e Despenca Uma Estrela são umas tremendas porcarias, sua participação como Mustafa em Austin Powers - O Agente Bond Cama, era de chorar de rir.
Depois de encarreirar boas participações em comédias bobas, geralmente como co-estrela ou coadjuvante declarado, como em O Império (Do Besteirol) Contra-Ataca, Zoolander e Dias Incríveis, Ferrell acertou em cheio ao protagonizar o ótimo Um Duende Em Nova York, onde interpretava Buddy, um humano criado no Polo Norte como se fosse um dos ajudantes do Papai Noel que vai para Nova York encontrar seu verdadeiro pai.
A Um Duende em Nova York seguiu-se o hilário O Âncora - A Lenda de Ron Burgundy, e daí pra frente Ferrell começou a dar uma variada no repertório, ora atuando em comédias com humor menos rasgado, como Melinda & Melinda, de Woody Allen, ou tentando papéis esquisitos em dramas indie como o bacana Estranha Família, musicais, como Os Produtores e até filmes cômico/dramáticos excelentes como o genial Mais Estranho Que A Ficção.
Ele ainda voltaria, claro, às comédias rasgadas, com Escorregando Para a Glória, Os Aloprados e Quase Irmãos, voltou a cometer equívocos desastrosos como O Elo Perdido, e a acertar a mão em boas comédias como Os Outros Caras, e bons papéis dramáticos em filmes interessantes como Pronto Para Recomeçar.
Como se pode ver, eu sou, mesmo, fã de Will Ferrell, a quem considero, ao lado de Jim Carrey e Steve Carell os melhores comediantes do cinema atual, botando no bolso malas como Ben Stiller e Adam Sandler.
E foi neste feriadão, precisando muito de boas risadas, que pesquei no Netflix esse Casa de Mi Padre, dirigido por Matt Piedmond, desconhecido diretor que era parceiro de Ferrell em Funny or Die.
Em Casa de Mi Padre Ferrell vive o simplório rancheiro Armando Alvarez, que ama a terra onde vive, e vive para cuidar da propriedade de seu pai, Miguel Ernesto Alvarez (Pedro Armendáriz Jr.). A vida simples de Armando é posta em cheque quando seu irmão, Raul (Diego Luna) volta para a casa, trazendo consigo sua noiva, a bela Sonia (Genesis Rodriguez), e a ira do maior narcotraficante da região, El Onza (Gael Garcia Bernal) e do DEA norte-americano.
Deve ter ficado bem claro que o elenco todo é formado, à exceção de Ferrell, por atores hispânicos.
É, o filme todo é falado em espanhol (inclusive por Ferrell).
Mais do que isso, é todo montado com uma estética algo precária, e cara de cinematografia setentista de baixo orçamento, e uma coleção de ângulos e enquadramentos evocando o que há de pior nas novelas mexicanas, tudo proposital (como os erros de continuidade descarados, e manequins colocados aqui e ali para encher o cenário), acompanhado de dramalhões, histórias de vingança, conflitos familiares e até toques de magia da terra do pior tipo embalados por atuações canastronas de fazer os extras de Usurpadora corarem de vergonha.
Diego Luna e Gael Garcia Bernal estão claramente se divertindo demais, Genesis Rodriguez é muito bonita e atua em nível professora Elena, e Ferrell está hilário, rasgando num espanhol fluente, fazendo discursos contra o povo dos EUA, com aquelas caras e bocas que parecem ter sido feitas pro prime-time da Televisa.
Longe de ser a melhor comédia de Ferrell, Casa de Mi Padre também se mantém afastado dos piores escorregões da carreira do comediante, se a audiência entra na brincadeira, rende boas risadas.

"Los americanos son como bebés grandes, siempre llorando y comendo enormes hamburguesas de mierda y grasa"

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Game of Thrones, Terceira Temporada



E o que talvez seja a adaptação da grande obra de fantasia medieval do novo milênio voltou às telinhas ontem à noite, em grande estilo na HBO.
A terceira temporada de Game of Thrones, programa de TV que adapta a série literária As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, finalmente voltou às telinhas do mundo após um longo hiato que serviu para que os desavisados conhecessem a série, a vissem uma vez mais, ou resolvessem tomar vergonha na cara e ler os livros, como eu fiz.
Os dez episódios da terceira temporada do seriado irá mostrar os acontecimentos da primeira metade de A Tormenta de Espadas, terceiro livro d'As Crônicas de Gelo e Fogo e mais extenso da série, com mais de oitocentas páginas de reviravoltas, intrigas, sexo e batalhas sangrentas (Que, infelizmente, devem continuar de fora da telinha, como aconteceu nas temporadas anteriores). Essa grande extensão do livro, bem como a quantidade de acontecimentos marcantes é que fizeram com que A Tormenta de Espadas fosse dividido, não em dez, mas em vinte episódios, ou, as temporadas 3 e 4.
Ontem, no episódio intitulado Valar Dohaeris, nós vimos o que aconteceu com Jon Snow, após ser capturado pelos selvagens, como Tyrion Lannister e Davos Seaworth se recuperaram de seus ferimentos após a batalha da Baía do Água Negra, Stannis Baratheon lambendo as feridas após a derrota, o que Robb Stark e Catlin encontraram ao chegar a Harrenhall, e Daenerys Targaryen na Baía dos Escravos, do outro lado do Mar Estreito, procurando por um exército para chamar de seu e ajudá-la a recuperar o trono de Westeros, além do clima de azaração entre Joffrey Baratheon e Margaery Tirell.
Ainda faltou ver o destino de Arya Stark, após escapar de Harrenhall, a marcha de Bran Stark rumo ao norte, onde anda Jaime Lannister e Brienne de Tarth, e mais uma porrada de personagens fazendo uma cacetada de coisas...
Só posso esperar que o sucesso da série encoraje os produtores e a HBO a aumentar o orçamento de Game of Thrones, especialmente nas sequências de batalha. No mais, as excelentes atuações, o climão sombrio e o universo detalhado de Westeros com seus personagens apaixonantes fazem todo o serviço.
Vem aí mais dezenove episódios de colar a bunda da audiência na cadeira. Viva!

"-Eu quero lutar do lado que luta pelos vivos. Estou no lugar certo?
-Vamos ter que te conseguir outro manto..."

quinta-feira, 28 de março de 2013

Rapidinhas do Capita


Ontem foi aniversário de Quentin Tarantino, um dos diretores de cinema mais cultuados de Hollywood.
O ex-balconista de locadora e rato de cinema que se tornou, não apenas realizador cinematográfico, mas uma grife ao regar histórias de violência com sangue e cultura pop, completou ontem, cinquenta invernos.
Roteirista, produtor, diretor, e o ator preferido de Quentin Tarantino, este caipira de Knoxville, Tenessee está por trás de alguns dos filmes mais maneiros das últimas décadas, sempre misturando referências a estilos cinematográficos setentistas, como o Blaxploitation de Jackie Brown(1997), os filmes de kung-fu chineses em Kill-Bill volumes I (2003) e II (2004), filmes de guerra com toques de western spaghetti, o caso de Bastardos Inglórios (2009) e o faroeste descarado de Django Livre (2012), além de produzir uma pá de filmes de Robert Rodriguez (Grindhouse, 2007) e Eli Roth (O Albergue, 2005) e ter escrito os roteiros de Amor à Queima Roupa e Assassinos Por Natureza, que viraram bons filmes na mão de outros diretores.
Tarantino, que continua sem Oscar de Melhor Filme e Melhor Diretor (embora tenha vencido dois prêmios da academia na categoria Melhor Roteiro, com Pulp Fiction e Django Livre) ameaça se aposentar logo, dizendo que cinema é coisa pra ser feita por pessoas jovens. Esperemos todos que ele ainda se sinta suficientemente jovem pra produzir por mais algumas décadas, e, quem sabe, perseguir aquele Oscar de Diretor.

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O Natalino gostava da Úrsula. Gostava, mesmo, de verdade. A Úrsula era bonita, divertida, esperta, e tinha um apetite sexual bem saudável. Por tudo isso ele gostava dela, de estar na companhia dela, e de conviver com ela.
Mas o que fazia o Natalino ser, realmente, apaixonado pela Úrsula, era o fato de que, durante o sexo, quando ele estava por cima, ela, ao invés de simplesmente plantar os pés sobre o colchão como fazem a maioria das mulheres, o abraçava, enlaçando as pernas ao redor da cintura dele, e acariciava-lhe sofregamente as coxas com a ponta dos pés delicados fazendo um arco.
Aquilo, que provavelmente passaria batido pra muitos, era, para o Natalino, a prova inequívoca de que a Úrsula, mesmo nos momentos mais íntimos, entre contatos suados, sussurros sem fôlego e gemidos estridentes, além de tudo o que lhe proporcionava, ainda estava disposta a lhe fazer mais um carinho.
E isso, pro Natalino, não tinha preço.

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O Caio disse que amava muito a Doroteia e que não tinha olhos pra nenhuma outra mulher nesse mundo, mas quando pousou os olhos na Fernanda, uma loura longilínea que tinha de coxa o que moças inteiras têm de altura, e que começara a trabalhar na repartição naquele dia, ele a olhou. Por Deus, como ele a olhou.
Se a expressão "comer com os olhos" não fosse figurativa, o Caio teria deixado a Fernanda, ou grávida ou em pedaços, dependendo do uso do verbo "comer" que estivesse em uso naquele momento.
Depois que a Fernanda sentou-se em frente ao seu computador, e o Caio recuperou os outros quatro sentidos, ele não pôde deixar de imaginar que se, ao contrário do que dissera à Doroteia, tinha olhos pra outras mulheres, então ele provavelmente não a amava tanto quanto supunha.
Mazelas do pensamento lógico.

terça-feira, 26 de março de 2013

Rapidinhas do Capita


Um feliz aniversário pra Porto Alegre. A cidade que eu adoro e que não troco por nenhuma outra.
241 anos, tá ficando velha, Portinho. Hora de começar a crescer.

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O Paulinho se apaixonou pela Beatriz não porque ela era linda (Claro que isso ajudou.), não porque ela cheirava divinamente (Isso, também ajudou), não porque ela gostava dos mesmos filmes, quadrinhos e jogos de video-game que ele (Isso, ajudou, claro). Ele se apaixonou por ela porque ela olhou pra ele e viu mais que um sujeito triste e solitário. Mais do que um pouco de escárnio e cabelos bagunçados. Ela viu uma pessoa.
O Paulinho se encantou porque a Beatriz olhou pro exterior dele, e viu o interior.
Talvez o grande mal que a Beatriz fez ao Paulinho, tenha sido usar essa visão de raio X e ver um sujeito que não era bom o bastante pra merecer confiança.

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Por três vezes o Antenor decidira parar de escrever.
Em duas delas, foi unicamente por acreditar que ninguém lia, e que não fazia sentido escrever pra que ninguém lesse.
A terceira, porém, foi porque ele achou que Clarice, a pessoa pra quem ele escrevia não estava mais interessada em saber dele. Do que ele sentia e o que ele pensava.
Foi quando teve a grave suspeita de que ela estava fazendo um esforço pra exorcizá-lo de si. Dizendo às pessoas que não mais sofreria se estivesse apartada dele, que aprendera a valorizar a tentativa quase tanto quanto o sucesso, e que flertava com a ideia de deixá-lo.
Antenor viu os sinais deixados por Clarice e os interpretou. Chegou a formular uma despedida e publicá-la. Mas, para sua surpresa, Clarice, após alguns dias de distância, apareceu à sua porta, beijou-o e abraçou-o, e ele aliviado e de coração leve, revogou sua despedida.
Mal sabia o Antenor que a Clarice ainda sabia viver sem ele. E estava preparada para fazê-lo.