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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Quase Cem Por Cento


Quando a Sílvia Maria achou que a vida sexual dela e do Mário Augusto andava devagar quase parando, ela primeiro fez o que qualquer outra mulher faria.
Ficou triste e ensimesmada, acabrunhada pela falta de satisfação nas atividades de alcova, e tentou se concentrar em outros âmbitos da sua vida de modo a esquecer, ou ao menos não lembrar, das suas mazelas íntimas.
O problema é que a Sílvia Maria era uma mulher moderna com um apetite sexual saudável. Ela gostava do esquema.
Ela curtia sexo, curtia ter consigo um homem que soubesse lhe satisfazer as vontades entre quatro paredes, e um homem que tivesse vontades para ela também se desafiar e satisfazer.
Nada de excessivo, nada que fosse bizarro. Nada envolvendo um sistema de roldanas, uma bacia de alumínio cheia de água de coco, um anão vestido de bailarina e um retrato do Sidney Magal.
Não... Nada disso. Só coisa simples.
Coisas como um sexo oral sem pressa. Falar umas putarias durante o ato. Mandar ela gozar enquanto transavam, dar umas palmadas nela enquanto ela estivesse de quatro... Coisa simples, mas pra dar uma apimentadinha.
Ela não se importaria. Na verdade, até gostaria.
Qualquer coisa seria melhor do que o papai e mamãe com cara de vovô e vovó que o Mário Augusto transformara em regra.
Qualquer coisa seria melhor do que a frequência uma por semana e olhe lá que ele instaurara mesmo com os dois dividindo o mesmo teto.
A Sílvia Maria queria ser desejada. Queria ser comida.
E claro que ela queria amor, carinho e atenção do homem em sua vida. E ela prezava o amor, o carinho e a atenção do Mário Augusto, mas um pouquinho de safadeza daqui e dali não faria mal pra ninguém. Especialmente pra um sujeito de... De dimensões reduzidas que nem o Mário Augusto.
Mas, enfim... Justamente por achar que tamanho não era tudo, e por prezar o amor, o carinho e a atenção que o Mário Augusto lhe dispensava, por prezar o que eles tinham construído juntos, foi que a Sílvia Maria resolveu ajudar o Mário Augusto a se soltar um pouco.
Comprou lingerie sensual, óleos aromáticos, velas e um filminho pornô.
A lingerie foi um conjunto de renda, tipo fio-dental, vermelho, quase vulgar de tão provocativo.
O óleo aromático, morango e pimenta, que ela teve um pouco de medo que fosse dar uma ardência nos lugares onde ela passasse, mas apenas até a veemente garantia da dona da loja de que só "dava uma esquentada".
As velas eram todas aromatizadas com fragrâncias afrodisíacas tipo levanta defunto, e, o filme pornô, foi um do selo Private, que tinha duas mulheres lindas se pegando na capa com um sujeito careca fortão segurando ambas pela cintura.
Parecia tudo perfeito.
Quando o Mário Augusto chegou em casa, a Sílvia Maria estava trajando a lingerie sensual, besuntada com o óleo aromático, que de fato a deixara sentindo um calorão.
As luzes estavam apagadas e as velas acesas, enchendo o ar com as fragrâncias afrodisíacas.
A Sílvia Maria se aproximou, exalando o calorão, e disse ao pé do ouvido do Mário Augusto que ele sentasse no sofá pra ela fazer uma massagem nele, e que ele visse TV pra pensar no que iria querer fazer depois.
Quando ele sentou no sofá, ela tirou a camisa dele, passou óleo nas mãos, e ligou a TV com o filme pornô já andando.
Sucesso.
Depois da massagem e do filme, turbinado pelo óleo, o Mário Augusto e a Sílvia Maria não transaram, não fizeram amor... Eles treparam.
Treparam às ganha.
Treparam de jeito.
Treparam tanto que acordaram com os corpos todos doloridos no dia seguinte. Uma dor boa, cheia de endorfina e satisfação.
E não parou por ali.
Todo o dia daquela semana, a Sílvia Maria e o Mário Augusto tiveram uma foda daquelas.
Lance pegado, mesmo. De ralar joelho, de ficar com hematoma.
A Sílvia Maria voltou a sorrir com o sucesso de sua empreitada.
Bom... Sucesso parcial. Quase cem por cento.
A Sílvia Maria achou que faltou um elemento no seu plano:
Pesquisa.
Se ela soubesse que o selo Private de filmes eróticos era europeu, e se ela soubesse da predileção dos europeus por sodomia, ela talvez tivesse pego um filme de marca diferente na sex-shop.
A fixação dos europeus por túnel de vento era preocupante, e, pior, contagiosa...
Afinal, de todas as coisas que ela e o Mário Augusto vinham experimentando juntos ultimamente, a única de que ela abriria mão, sem pestanejar era o "vira pra eu comer teu brioco, nega".
Aquele era um lance que a Sílvia Maria, francamente passava sem.

Resenha Cinema: Caçadores de Obras-Primas


George Clooney dava pinta, anos atrás, que não ia conseguir ir muito longe na carreira cinematográfica. Quando era apenas o médico bonitão e rebelde de E.R., ou ainda antes quando participava de coisas inomináveis como De Volta à Escola de Horrores ou A Volta dos Tomates Assassinos podia-se imaginar que o máximo a que George Clooney pudesse aspirar como ator fosse unir forças com Arnold Schwarzenegger e matar uma franquia do Batman no cinema em Batman & Robin.
Mas não...
Clooney se endireitou. Ficou amigão de Steven Soderbergh (Com quem firmaria uma parceria bastante proveitosa) em Irresistível Paixão, ao qual seguiria a série Onze Homens, Solaris e O Segredo de Berlim. Trabalhou com Terrence Malick em Além da Linha Vermelha, com David O. Russel em Três Reis, com Joel e Ethan Coen em E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?, e O Amor Custa Caro e com Alexander Payne, em Os Descendentes, entre outros tantos.
Mostrou em mais de uma ocasião que podia ser muito mais do que apenas o galã porra-louca com coração de ouro do seriado médico. Engendrou uma carreira paralela de produtor, e lançou-se como diretor em 2002 com o bom Confissões de Uma Mente Perigosa, com roteiro de Charlie Kauffman. Na sequência dirigiria o excelente Boa Noite e Boa Sorte, em 2005, e os apenas OK O Amor Não Tem Regras (2008) e Tudo Pelo Poder (2011).
Cineasta de três em três anos, Clooney voltou à cadeira do diretor para lançar agora, em 2014 esse Caçadores de Obras Primas.
O roteiro, co-escrito por Clooney (que em sua carreira atrás das câmeras só não esteve envolvido oficialmente no script de Confissões de Uma Mente Perigosa) e seu parceiro Grant Heslov, adapta o livro Caçadores de Obras-Primas - Salvando a Arte Ocidental da Pilhagem de Hitler, de Bret Witter e Robert Edsel.
Como o título do livro deixa bem claro, Caçadores de Obras-Primas conta a história desse insuspeito pelotão formado por diretores de museus, historiadores da arte, curadores e arquitetos escalado para ir à Europa nos estertores da Segunda Guerra Mundial e tentar recuperar as obras de arte roubadas pelos nazistas durante o conflito bem como tentar orientar as ações dos aliados para que não devastem prédios históricos em seus ataques com artilharia pesada.
O grupo formado pelos americanos Frank Stokes (Clooney), James Granger (Matt Damon), Richard Campbell (Bill Murray), Walter Garfield (John Goodman) e Preston Savitz (Bob Balaban), mais o inglês Donald Jeffries (Hugh Bonneville) e o francês Jean Claude Clermont (Jean Dujardin) chegam à Europa continental com sua missão que logo se torna uma corrida contra o tempo conforme Hitler ordena que, com sua morte, todos os arquivos e obras de arte devem ser destruídos.
O problema é que as localizações das obras-primas em questão são secretas, e conseguir descobri-las pode ser impossível, a menos que eles obtenham ajuda de alguém que tenha estado suficientemente próximo dos nazistas a ponto de ter pistas do paradeiro das obras. Alguém como Claire Simone (Cate Blanchett), curadora do museu Jeu de Paume, que pode ter a informação, mas não confia nas boas-intenções dos norte-americanos.
Caçadores de Obras-Primas ainda não é o filme que devolverá a boa forma mostrada por Clooney em Boa Noite e Boa Sorte.
Se está longe de ser mau filme, também não é nenhuma maravilha. O longa alterna bons e maus momentos, mas o início é excessivamente arrastado.
Há alguns problemas de desenvolvimento conforme o grupo se separa e se reúne, a ação dos protagonistas espalhados pelos países retomados pelos Aliados acaba fazendo com que seja difícil se afeiçoar aos personagens ou mesmo se preocupar com eles, especialmente quando, mesmo as relações dentro do grupo, são superficiais.
Há uma solenidade excessiva no filme que também é um pouco incômoda, mas não chega a ser nenhuma tragédia, ruim mesmo é o flerte com o romance entre os personagens de Blanchett e Damon, completamente inócuo e deslocado.
Blanchett, porém, dá o show habitual de talento, mesmo com o francês esquisito. Bill Murray e John Goodman também se saem muito bem, e Bob Balaban surpreende fora do papel de xarope em que sempre é escalado.
No fim das contas, Caçadores de Obras-Primas é um filme produzido com esmero, com bom elenco e uma história que merece ser contada, mas que peca ao se levar a sério demais e se desenvolver a contento de menos.
Apenas bom. Assista se a única alternativa for Hércules.

"Se vocês destruir suas realizações, sua história, será como se jamais tivessem existido."

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Resenha Game: Assassin's Creed IV - Black Flag


Em meados de 2007 a Ubisoft lançou o game que daria um respiro fresco na cara das aventuras de mundo-aberto dos consoles e PCs mundo afora.
Assassin's Creed era uma mistura de stealth, ação e aventura que usava como pano de fundo eventos históricos e a luta entre duas ordens seculares antagônicas, os heroicos Assassinos, lutando das sombras para dar liberdade à humanidade, e os perversos templários, maquinando dos bastidores maneiras de manter o conhecimento agrilhoado à uma minoria comandando o mundo.
Apesar de um pouco repetitivo em suas missões, Assassin's Creed tinha uma jogabilidade maneira, movimentos de parkour e acrobacias herdados de Prince of Persia (originalmente o game seria um spin-off da série do príncipe persa), e acenava com uma divertida teoria conspiratória, misturando a ação do protagonista Altaïr Ibn-La'Ahad, durante a terceira cruzada com seu descendente Desmond Miles, que vivenciava as experiências de Altaïr através de um maquinário chamado Animus no ano de 2012.
Ao bem sucedido Assassin's Creed seguiu-se o ótimo Assassin's Creed II, o protagonista do passado, Altaïr era substituído por Ezio Auditore, um jovem fanfarrão de uma família nobre da Florença renascentista, que trilhava os caminhos da ordem dos Assassinos após uma conspiração templária culminar com a morte de seu pai e irmão.
Assassin's Creed II era muito superior ao primeiro game, e embora inicialmente fosse difícil se afeiçoar a Ezio, um jovem ptboy, mulherengo mimado e cheio de si, essa má impressão inicial era enterrada tranquilamente em Assassin's Creed - Brotherhood, o terceiro game da série e ainda o melhor de todos.
Brotherhood dava sequência à trajetória de Ezio, agora o mentor da ordem dos assassinos em Roma, e sua luta contra o papa Alexandre VI, o templário espanhol Rodrigo Bórgia.
A Brotherhood seguiu-se Assassin's Creed - Revelations, que dava fecho tanto à linha narrativa de Ezio quanto a de Altaïr, na qual o player tinha oportunidade de tomar conhecimento de eventos até então desconhecidos da vida do mentor levantino.
Se as aventuras de Altaïr e Ezio estavam encerradas em Revelations, o mesmo não se podia dizer da linha narrativa de Desmond Miles.
O veículo pela qual tomávamos conhecimento das vidas dos grandes mestres-assassinos da Terceira Cruzada e da Renascença estava enrolado no ano de 2012.
Desmond se virava com seus companheiros Lucy Stillman, depois revelada uma traidora, Shaun Hastings e Rebecca Crane, e depois seu pai, William Milles para tentar impedir que uma erupção solar destruísse a Terra no dia 21 de dezembro de 2012.
Sem pista de como fazê-lo, Desmond seguiu lutando, se escondendo e utilizando o Animus 2.0 dos Assassinos para procurar em sua memória genética por pistas que o levassem à uma forma de impedir o fim do mundo. Isso nos levou a Assassin's Creed III. Jogo tecnicamente excelente que carecia de um ponto primordial: Um protagonista ancestral com o carisma de Ezio ou Altaïr.
O mestiço de inglês e nativo-americano Ratonhnhaké:ton, também chamado de Connor, era um herói bem coxinha, e sem graça, e sua aventura acabava sendo mais pano de fundo do que atração principal, afinal, intercalado com sua luta contra os templários durante a revolução americana, havia a linha narrativa de Desmond, finalmente conseguindo algumas respostas, e tendo direito até mesmo a missões bastante físicas, como a busca por células energéticas em Nova York e no Brasil e uma missão de resgate em Roma, em uma série de eventos que culminava com seu sucesso na tarefa de impedir a devastação da Terra graças à tecnologia dos "Que Vieram Antes", a raça de super-seres precursores da humanidade, e ao sacrifício de sua própria vida.
Com essa resolução para a linha narrativa de Desmond, ficava até estranho pensar em um quarto Assassin's Creed, mas ele veio.
Lançado em novembro do ano passado, Black Flag é um prequel da aventura de Ratonhnhaké:ton "Connor" Kenway.
Ela mostra as aventuras de Edward Kenway, avô de Connor, um famigerado pirata que atuou no Caribe durante os anos de ouro da pirataria, em 1715.
Edward, ao contrário de Altaïr, Ezio e Connor, não é um Assassino ordenado e juramentado, tampouco um templário como Haytham Kenway.
Um mero pirata interessado unicamente em lucrar dinheiro suficiente para retornar à sua esposa na Inglaterra, Edward se vê em meio a uma conspiração de templários procurando por um local chamado O Observatório. Uma localização da civilização precursora de onde, teoricamente, poderiam monitorar toda a humanidade.
Pego ao acaso em meio à guerra entre as ordens após matar um Assassino traidor, Edward torna-se o fiel da balança numa batalha que pode decidir os rumos da humanidade.
O game, dessa vez não contém a linha narrativa de Desmond. A vida de Edward é experimentada por um personagem sem nome ou rosto que vasculha as memórias genéticas de amostras extraídas do corpo de Desmond após sua morte no game anterior com o pretexto de tornar a tecnologia Animus um videogame. Os eventos fora do Animus dão-se em um prédio da Abstergo entertainement (o logo da empresa inclusive aparece no início do jogo, logo após o da Ubisoft, parceira da Abstergo em Québec) onde ele recebe instruções de sua nova chefe.
O game é ótimo.
A mistura de ação e aventura, os elementos de stealth e a exploração marítima, com a abordagem de navios e as batalhas navais (baseadas no mini-game do Áquila, de AC III, o ponto alto do game) funciona que é uma beleza. Os combates são bons e fluidos, as acrobacias e elementos de parkour seguem ótimos e as atividades de caça foram mantidas e ganharam importância.
O grande problema é que Assassin's Creed IV - Black Flag segue boa parte do caminho tendo muito pouco de Assassin's Creed.
Edward é um protagonista razoável no máximo por boa parte do game. Melhor que Connor, mas nada comparado a Altaïr ou Ezio, sua aventura se sustenta sozinha e prende a atenção, embora a linha narrativa empalideça ante a grandiosidade de possibilidades do mundo aberto de exploração naval do game (As vezes quase excessivo. É de enlouquecer ter que procurar em todas as ilhas, de todas as seções separadas do mapa do mundo do game, peça por peça dos objetivos secundários necessários para completar em sua totalidade os objetivos do game).
Fosse unicamente um jogo de piratas sem as raízes de Assassin's Creed, e Black Flag teria sido facilmente um dos melhores games já realizados para as duas últimas gerações de consoles.
Com jogabilidade intuitiva, gráficos excelentes, boas dublagens e possibilidades quase infinitas de diversão, Assassin's Creed IV - Black Flag só decepciona pelo título e, por à certa altura da sua aventura bucaneira, se forçar a voltar à velha rixa templários x Assassinos de uma forma que acaba quase forçada, considerando o andamento do jogo e as motivações do protagonista até ali.

"-Em um mundo sem ouro, nós poderíamos ter sido heróis."

Resenha Cinema: Ela


Existe uma sensibilidade descolada no trabalho de Spike Jonze que vicia... O diretor já tinha deixado essa sensibilidade bem clara em joias como Quero Ser John Makovich, Adaptação e Onde Vivem os Monstros, e não tem como ser mais descolado do que o clipe de Sabotage dos Beastie Boys, a parceria lunática com a trupe de imbecis masoquistas de Jackass, o skate e as pontas não creditadas em diversos filmes (como a recente participação prometendo um boquete a Leonardo DiCaprio em O Lobo de Wall Street), além de sua participação na publicação das revistas Dirt e Grand Royal...
Essa sensibilidade descolada é colocada novamente a serviço da sétima arte nesse Ela.
O filme escrito e dirigido por Jonze começa mostrando um close-up de Theodore (Joaquin Phenix). Ele está escrevendo uma carta, falando de amor.
Mas não é o seu amor.
Theodore escreve cartas "manuscritas" para uma firma. Nelas, ele destila em palavras as mais belas facetas do amor, seja entre maridos e esposas, filhos e pais, tios e sobrinhos... Mas seu próprio coração não vai bem.
Nos estágios finais do divórcio com a mulher que julgava ser o amor de sua vida, Catherine (Rooney Mara), Theodore divide seu tempo entre o trabalho, videogames, pornografia na internet e a depressão pela qual passa.
As coisas mudam de figura quando Theodore resolve instalar em seu computador um novíssimo sistema operacional baseado em uma inteligência artificial com personalidade, o OS1.
O tal SO é capaz de aprender baseado na experiência de modo a se tornar perfeito para o usuário.
O sistema operacional de Theodore chama-se Samantha. E ela interage e fala (com voz de Scarlett Johansson) emulando com perfeição o tom, os suspiros e as hesitações de uma pessoa real.
Convivendo com Samantha, e a vendo adaptar-se a ele, tornando-se a sua companhia ideal, além de se desenvolver e aprender como se fosse uma pessoa real, em constante evolução, Theodore logo vê sua relação com seu sistema operacional se tornar mais profunda, e virar um romance.
Conforme assume seus sentimentos por sua parceira virtual, Theodore experimenta uma alegria que lhe devolve a vida que parecia ter se dissolvido com seu casamento, mas ao mesmo tempo, lhe enche de dúvidas. Afinal, o quanto é real um amor baseado em scripts computadorizados e nas suas próprias preferências pessoais?
Samantha, com sua inteligência eletrônica superior, o ajuda de formas como nenhuma pessoa real poderia, mas como ela pode ajudá-lo a superar as dúvidas de estar apaixonado, basicamente, por seu laptop?
Lindo filme.
Jonze situa essa mistura de ficção científica com love story num futuro não muito distante, uma época onde a arquitetura, a tecnologia, e a moda mudaram (Bigodes voltaram a ser bacanas, e as calças têm o cós consideravelmente mais alto), mas não muito.
As necessidades e anseios das pessoas são basicamente os mesmos, e não é difícil pra qualquer pessoa que já começou um romance prenhe de vida na internet, basicamente palavras surgindo numa tela, se reconhecer em Theodore. Qualquer um que já esteve magoado e amargo demais pra se envolver de novo com uma pessoa de verdade, é capaz de entender porque o sistema operacional, o romance sem a outra parte, é a saída mais segura. E qualquer um que já teve uma voz rouca sussurrando no ouvido é capaz de entender porque Theodore cai de amores por Samantha.
Joaquin Phoenix comanda o show com talento. É desses atores que podem, perfeitamente, carregar um filme nas costas, e seu Theodore é interpretação digna de prêmio, mas ele não está sozinho.
Sem mostrar seu rostinho lindo ou seu corpinho gostoso, Scarlett Johansson é uma presença poderosa na tela apenas com sua voz. A cena em que ela e Theodore cantam A Canção da Lua em dueto é de dar nó na garganta.
Ainda estão no elenco Chris Pratt, Olivia Wilde, Matt Letscher e Amy Adams, muito bem como Amy, a melhor amiga de Theodore.
Bom elenco em grande forma, ótimo texto e a direção, sensível e descolada, que o texto pedia, um olhar ousado sobre as nossas necessidades de conexão, e o que estamos dispostos a fazer para conseguí-la, e Ela é um filmaço.
Lindo, doce, e imperdível.
Assista e pense em quem você ama. Mesmo que esteja a um milhão de milhas de distância.

"-Nós apenas estamos aqui brevemente. E nesse momento, eu quero me permitir alegria."


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Resenha Cinema: Philomena


O talento, de vez em quando, se esconde nos lugares mais improváveis. Não é o caso de Steve Coogan. O ator britânico já havia provado em diversas comédias que é um sujeito talentoso na arte de fazer rir. Se não esteve brilhante em nenhuma delas, certamente esteve suficientemente engraçado em todas elas, ao menos o suficiente para ser lembrado.
Insuspeito, mesmo, era seu talento dramático, assim como sua veia de roteirista.
Ambas são reveladas nesse Philomena, produzido e co-escrito por Coogan (com Jeff Pope) sobre o livro do jornalista Martin Sixsmith, "The Lost Child of Philomena Lee".
Na trama de Philomena, acompanhamos o jornalista Martin Sixsmith (Steve Coogan), que caiu em desgraça. Após ser um bem-sucedido correspondente da BBC em Washington e em Moscou por anos e se tornar um membro do staff do partido trabalhista britânico em Londres, um escândalo culminou com a sua demissão e o fim de sua carreira política.
Enquanto se prepara para dar novo rumo à sua carreira, Sixsmith planeja escrever um livro sobre a História da Rússia, faz check-ups e se exercita correndo, aconselhado por seu médico.
Ao mesmo tempo, Philomena Lee (Judi Dench), percebe que não pode mais guardar um segredo que pesa em sua consciência por cinquenta anos.
Quando era pouco mais que uma adolescente irlandesa, Philomena se deixou levar pelos gracejos de um rapaz, e de uma noite de insensatez, surgiu uma gravidez. Sem ter a quem recorrer, Philomena buscou o auxílio das irmãs do sagrado coração da abadia de Roscrea. Lá, após ser assistida e ter seu parto realizado pelas freiras, precisou trabalhar por quatro anos de modo a pagar pela ajuda que recebeu, convivendo com o fantasma de que, a qualquer momento, seu filho Anthony pudesse ser adotado sem que ela pudesse fazer nada a respeito, o que, eventualmente, ocorreu.
Os caminhos de Sixsmith e Philomena acabam por se cruzar, e o ex-jornalista, embora reticente, finalmente aceita ajudar a velha enfermeira aposentada a procurar por seu filho perdido para contar sua história.
É excelente.
O filme dirigido pelo ótimo Stephen Frears (de Alta Fidelidade, e A Rainha) acompanha a jornada desses dois companheiros improváveis sem apressar as coisas ou forçar situações. A dinâmica da relação entre Philomena, uma ingênua aposentada irlandesa católica e Sixsmith, um repórter político cínico e predador é ótima e funcional em parte graças à sensibilidade do diretor em manter o ritmo lento da produção.
Claro, ainda há o bê-a-bá dos road-movies sobre companheiros improváveis, e ele funciona, arrancando risos da audiência nos momentos mais leves, e, justamente pelo respeito de Frears ao ritmo do longa, quando chegam os momentos mais pesados e dramáticos, eles não soam forçados.
Claro, a história da mãe separada do filho bebê é, por si só, poderosa o suficiente pra carregar as tintas dramáticas de um longa-metragem, isso somado à boa mão do diretor, ao roteiro seguro e ao talento do elenco, só torna Philomena um programa mais completo.
Judi Dench é monstruosa, a atriz de 79 anos destrói na pele de Philomena Lee, enchendo a personagem de nuances, jamais deixando que ela seja apenas a velhinha ingênua e sem-noção mostrada à exaustão nos trailers do longa. Sua Philomena é uma verdadeira cebola, de tantas camadas que tem, cheia de fibra moral e decisão. A indicação ao Oscar da dame é mais que justificada, e se ela ganhasse o prêmio (ao qual Cate Blanchett é franca favorita), não seria nenhuma injustiça.
Quem surpreende ao entregar um bom trabalho dramático é Coogan. O ator encontra o tom certinho entre o sarcasmo profissional e a ternura eventual para criar um Sixsmith tão crível quanto a Philomena a quem pajeia.
Grata surpresa do calendário de estreias do início do ano, Philomena é um filme que merece ser visto, trabalho de primeira de todos os envolvidos, laureado com prêmios nada gratuitos, o longa transpira sinceridade e sensibilidade, entretém e emociona.
Assista.

"-Eu te perdoo porque não quero continuar com raiva."

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Resenha Blu-Ray: Rota de Fuga


Ah, os anos oitenta... Além dos mullets, dos saxofones, das ombreiras, e do boom do rock brasileiro, aqueles dez anos também nos legaram uma geração de atores com zero talento, zero expressão facial, que construíram carreiras inteiras sobre bordoadas, armas de grosso calibre e músculos besuntados de óleo...
Aqueles camaradas acabaram por desaparecer na primeira década do Século XXI... Poucas carreiras oitentistas sobreviveram durante a primeira década dos anos 2000. Mas vivemos em um mundo estranho, já diria Jakita Wagner, e nesse nosso mundo de crises criativas e fórmulas que se repetem indefinidamente (olha o RoboCop voltando na semana que vem...) era óbvio que as gloriosas carreiras dos fortões não permaneceria enterrada.
Stallone voltou em Rocky Balboa, Rambo IV, e Os Mercenários, e junto consigo trouxe uma horda de outros mestres da não-atuação e porradaria consigo, ávidos por holofotes como zumbis se erguendo dos túmulos ávidos por cérebros humanos.
No embalo de Sly, seu ex-rival na quebra de ossos e bilheterias, Arnold Schwarzenegger, também se reergueu. Pontas em dois Os Mercenários e nome no topo do pôster no bacana O Último Desafio, e não é que os dois velhotes resolvem firmar nova parceria nesse Rota de Fuga.
No filme conhecemos Ray Breslin (Stallone), ex-promotor que se tornou uma das maiores autoridades do mundo em termos de prisões de segurança máxima.
Sua técnica para avaliar a qualidade das instalações é, no mínimo, discutível. Ray entra nas prisões incógnito, como se fosse um prisioneiro qualquer, e fica o tempo que for necessário vendo o sol nascer quadrado até descobrir uma forma de escapulir do xilindró.
Após 14 fugas bem-sucedidas em anos de prática, publicando livros e garantindo que a bandidagem continue no xadrez, Ray é convidado para avaliar uma prisão muito especial. Uma detenção da CIA, construída para ser a prova de fugas.
Meio a contragosto, Ray acaba convencido por seu sócio, Clark (Vincent D'Onofrio), a aceitar o trabalho que lhe renderá uma grana violenta. Ignorando seus instintos e os apelos de sua secretária/namorada Abigail (Amy Ryan) e de seu pupilo Hush (Curtis 50 Cent Jackson), Ray parte para avaliar a tal prisão à prova de fugas, mas, ao chegar lá, nada é o que parece.
Do diretor da instituição, Hobbes (O Jesus Cristo Jim Caviezel), ao brutal chefe da guarda Drake (o brucutu britânico Vinnie Jones), Breslin se vê face a face com surpresas desagradáveis umas sobre as outras resultando em uma prisão que segue à risca todas as suas ideias de encarceramento anti-fugas.
Pra piorar, ele descobre que sua estada lá, pode não ser tão curta quanto esperava.
Preso de fato em um ambiente hostil de onde é impossível escapar sozinho, ele descobre no prisioneiro Rottmayer (Um distinto e grisalho Schwarza) um aliado para tentar a fuga impossível.
É muito ruim.
Nossa, que filme ruim. O roteiro de Rota de Fuga é vergonhoso de tão simplório, com diálogos de deixar o espectador com vergonha alheia pelos atores que os estão lendo. Claro, ninguém espera uma obra-prima grandiosa de um filme estrelado por Schwarza e Sly, mas há que se ter um mínimo de dignidade, infelizmente não é o caso do texto de Milles Chapman e Jason Keller.
A despeito do mau texto, o filme podia ao menos se segurar na pancadaria, especialidade dos atros da terceira-idade. Não é o caso, porém.
As cenas de ação são meia-boca e só, e as reviravoltas da trama são de bocejar.
O elenco (que ainda conta com Sam Neill, de Jurassic Park, e Faran Tahir, de Homem de Ferro) opera no piloto automático sob a batuta de Mikael Hafström, que se já mostrara em 1408 e O Ritual que consegue segurar um terror, deixou claro em Rota de Fuga que não leva jeito pra ação.

"Você bate como um vegetariano."

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Resenha Cinema: Trapaça


Se existe algo pra se falar de mal sobre o diretor David O. Russel, certamente não deve ser sobre a sua direção de atores.
De seus últimos três filmes, sujeito colocou nada menos do que onze atores na briga por estatuetas, e mesmo antes da maré iniciada com O Vencedor, e seguida por O Lado Bom da Vida e esse Trapaça, ele já havia arrumado boas atuações e elogios para George Clooney e o mono expressivo Mark Wahlberg por Três Reis, e comandado show de Dustin Hoffman e Lilly Tomlim em Huckabees.
Christian Bale foi premiado por O Vencedor, Jennifer Lawrence levou por O Lado Bom da Vida, e além dela, também foram indicados Bradley Cooper, Amy Adams e Robert De Niro. Não é de se estranhar, então, que o cineasta tenha conseguido trazer todo esse povo de volta pra Trapaça.
O filme, escrito por Eric Warren Singer e o próprio Russel conta, de forma ficcionalizada, a história da operação Abscam, engendrada pelo FBI nos anos setenta, logo após o escândalo Watergate, para apanhar congressistas norte-americanos corruptos com a boca na botija.
Os federais criaram um xeque árabe falso, uma grande companhia de mentira e pegaram diversos políticos no flagra.
A verdadeira operação Abscam foi organizada com o auxílio de Melvin Weinberg, um golpista de carreira que foi cooptado pela justiça para prestar consultoria na arte de enganar os outros.
No filme, conhecemos Irving Rosenfeld (Christian Bale), golpista de carreira que ao lado de sua amante Sidney Prosser, também conhecida como Lady Edith Greenly (Amy Adams), organiza esquemas fraudulentos de empréstimos, vende obras de arte falsas e mantém até alguns negócios legítimos.
Sua vida dupla de homem de negócios legítimo e trapaceiro profissional, amante de Sidney, porém, vai por água abaixo quando eles são encurralados pelo agente do FBI Richie DiMaso (Bradley Cooper), um ambicioso federal que quer fazer sua fama e galgar os degraus do bureau através de operações que o levem até os peixes graúdos da política.
Irving e Sidney se veem obrigados a entrar na dança, e ajudarem DiMaso a armar uma arapuca visando o populista prefeito de Candem, Nova Jérsei, Carmine Polito (Jeremy Renner), envolvido com a reconstrução de Atlantic City, e cheio de conexões mafiosas da pesada.
Como se não tivesse o suficiente em seu prato, Irving ainda precisa lidar com sua esposa Rosalyn (Jennifer Lawrence), uma bomba relógio passivo-agressiva completamente imprevisível que pode colocar toda a operação a perder e a vida dos envolvidos em risco.
É muito bom. Trapaça é cheio de reviravoltas e golpes aplicados de parte à parte, a direção é segura e o roteiro é sólido, mas o espetáculo de Trapaça, fica mesmo por conta do elenco.
Bradley Cooper e Jeremy Renner convencem como o bunda-mole que quer ser um agente fodelão do FBI e o prefeito ítalo-americano de bom coração, mas que é sujo de nascença, Amy Adams está hipnótica como a mulher que sai do lixo e deseja, de qualquer maneira, ser mais do que é, e há, ainda, uma ponta interessante de Robert De Niro como um mafioso casca-grossa (com um penteado bizarro, igualzinho ao resto do elenco).
Capítulo à parte no longa, porém, merecem Christian Bale e Jennifer Lawrence.
A atriz de vinte e poucos anos incorporou trejeitos de Melissa Leo em O Vencedor de uma maneira violenta, formulando uma Rosalyn Rosenfeld repulsiva e magnética na mesma medida. É, fácil, uma das melhores atrizes em atividade no cinema americano, hoje.
Já Bale, reconhecido por suas assustadoras transformações físicas (O Vencedor, O Operário, Batman Begins...) agrega mais uma ao repertório e ganha uma pança e uma reluzente careca coberta com um comb-over tão feio quanto elaborado pra dar físico à sua atuação serena e madura do trapaceiro-mestre Irving.
Bom filme, divertido quando é pra ser divertido, tenso nos momentos que pedem tensão, show de um elenco acima da média trabalhando com um diretor que sabe tirar o melhor de seus atores. Programaço.
Assista no cinema, vale demais a pena.

"-Ás vezes, tudo o que temos na vida são escolhas fodidas e venenosas."