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quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Claustro


Décimo-sexto dia trancado dentro de casa.
Dezesseis dias sem ver a luz do sol. Venezianas fechadas, luzes apagadas.
Duas semanas e dois dias sem ver ou ouvir outro ser-humano. Seria o mesmo período sem ver outro ser vivo não fosse pela lagartixa que vi na cozinha, ontem à noite.
Trezentas e oitenta e quatro horas sem ouvir a voz de outra pessoa.
Vinte e três mil e quarenta minutos de solidão.
Um milhão, trezentos e oitenta e dois mil e quatrocentos segundos de claustro auto-infligido...
Não que eu esteja contando...
Eu sei que eventualmente terei que sair das trevas... Minha mente racional diz isso.
O tempo todo.
O cérebro assume as rédeas vez por outra e se esforça pra se fazer entender... "Veja bem", diz o consciente, "Isso não vai funcionar.".
Eu sei a que ele se refere.
Em algum momento a comida vai acabar.
O dinheiro do banco vai acabar.
E aí vai acabar a energia elétrica... A água...
Na eventualidade de tudo isso acabar vai ser apenas questão de tempo até que eu acabe, também.
O ponto é... Será que eu não prefiro acabar?
Não sei...
O consciente diz que não.
O inconsciente diz "whatever".
Inconsciente idiota. Falando em inglês.
Quem ele pensa que é?
A verdade é que eu estou me divertindo transformando minha casa em uma caixa de Schrodinger...
Nesse momento eu estou vivo e morto ao mesmo tempo.
A experiência é por demais libertadora pra alguém querer abrir mão.
E eu nem precisei do contador Geiger, do veneno e do composto radioativo... Só da chave de casa.
Banqueteando-me da delícia de ver o celular tocando e não atender, imaginando a aflição das pessoas do outro lado da linha se perguntado o que aconteceu comigo...
Seria ainda mais delicioso se alguém ligasse de fato e todo o prazer sádico de afligir os outros não fosse inventado.
O consciente diz que as pessoas ligariam se eu não as afastasse a todas.
O inconsciente diz "quem liga?"...
Pra um inconsciente ele até que sentiu a minha censura por falar em inglês de maneira desnecessária.
Existe um dito a respeito de não faltar ao trabalho e dar ao patrão a certeza de que tu não é necessário... Acho que foi o que eu fiz... Mas ao invés do trabalho faltei à vida... E ao invés do patrão, foram todas as pessoas que ganharam a certeza de que eu sou desnecessário...
Na verdade tudo isso... Todo esse experimento... Começou por eu ser desnecessário.
Não foi?
Desnecessário para uma pessoa em particular. Não fosse isso, e talvez as coisas tivessem seguido seu curso natural e eu ainda estivesse simulando minha vida lá fora.
Em contato com outros seres humanos. Com outros seres vivos que não a Madalena...
É o nome da lagartixa...
Se eu não tivesse sido confrontado com a minha inutilidade... Eu não teria me enclausurado isolado por dezesseis dias...
Trezentas e oitenta e quatro horas...
Vinte e três mil e quarenta minutos...
Um milhão, trezentos e oitenta e dois mil e quatrocentos segundos...
Dos quais só pensei em ti.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Choro


Samuel saía do supermercado, ao atravessar a rua em direção à sua casa, carregado de sacolas, quando viu uma menina de doze, talvez treze anos, sentada em um banco da praça que ficava em frente à loja.
Ela chorava copiosamente. As mãos no colo, as costas coladas ao espaldar do banco, soluçava.
Samuel sempre se apiedava ao se deparar com as lágrimas de outrem.
Não conseguia evitar uma ponta de aflição. Sempre se perguntava se devia fazer alguma coisa. Dizer alguma coisa. Oferecer algum tipo de auxílio ou amparo. Qualquer coisa.
O sofrimento alheio, quando transbordava pelos olhos, era algo ao qual Samuel não conseguia ser indiferente.
Quando era em adultos, sempre existia o receio de ser rechaçado, taxado de enxerido. De metido. Santarrão...
Uma vez vira uma mulher chorando no shopping. Uma funcionária da Renner.
Ela saiu de dentro da loja, se escorou na parede, e chorou copiosamente sem que ninguém lhe dissesse palavra.
Samuel ficou arrasado. Teve ânsias de se aproximar e perguntar se estava tudo bem. De ampará-la... Sabia como era difícil chorar sozinho quando se passava por um apuro.
Olhando em perspectiva, teria sido uma espécie de bálsamo se alguém houvesse surgido lhe oferecido amparo. Mesmo que fosse algo pequeno, como uma mão no ombro.
Apenas para que ele soubesse que não estava sozinho.
Naquela ocasião, no shopping, ele não se aproximou.
As convenções sociais venceram seus ímpetos e ele se manteve à margem do sofrimento daquela mulher.
Ainda hoje pensava no que teria acontecido...
Qual teria sido o desgosto que levara aquela mulher a abandonar seu posto de trabalho e chorar de maneira tão aberta e dolorida?
Ele seguiu seu caminho à época sem voltar ou olhar para trás.
Mas agora... Agora era uma criança quem chorava. As limitações sociais e a privacidade tinham limites mais cinzentos quando se tratava de uma criança.
Ela poderia estar em um apuro que não seria capaz de resolver sem o auxílio ou a supervisão de um adulto.
Se fosse o caso, estaria à mercê de quem lhe oferecesse auxílio, e Samuel sabia que existia muita gente mal-intencionada no mundo. Então, se era pra alguém oferecer a mão àquela menina, que fosse alguém de intenções verdadeiramente altruístas, como ele próprio.
Aproximou-se devagar. Com um sorriso perdido em meio à uma expressão de genuína comiseração.
A menina chorava já havia algum tempo. Ainda que soluçasse e tivesse o rosto vermelho e inchado, já esgotara suas lágrimas. Qual seria o mal que afligia aquela menina a tal ponto de sofrimento e dor?
Samuel se perguntou se estaria equipado psicologicamente para oferecer ajuda diante de um caso particularmente horrível... E se ela houvesse perdido seus pais... Se fosse vítima de algum tipo de abuso...? Se alguma coisa realmente terrível tivesse acontecido, o que ele poderia fazer?
Titubeou.
Talvez essa fosse a razão para não oferecer auxílio. O fato de que, em certas ocasiões, simplesmente não haveria auxílio para oferecer. Não coubesse em suas mãos oferecer ajuda para determinados tipos de aflição... Talvez devesse virar as costas e ir embora...
Parou de andar. Chegou a se preparar para virar sobre os calcanhares e partir.
Mas deteve-se.
Era exatamente esse tipo de decisão que fazia com que o mundo fosse um lugar tão miserável.
Achar que não se envolver era melhor.
Algum amparo, mesmo que insuficiente, era melhor do que nenhum amparo.
Aproximou-se:
-Por que é que tu estás chorando, guriazinha?
Ela virou os olhos pra ele. O rosto desfigurado por um longo pranto. Os lábios tremeram e seus olhos ficaram rasos d'água.
Samuel se apiedou. Sentou-se no banco em frente ao que a menina ocupava.
Não queria sentar ao seu lado e causar a impressão de que era algum tipo de pervertido. Mas começava a se perguntar que tipo de trauma aquela criança ostentava que a fazia desabar daquela forma.
De uma de suas sacolas de compras sacou uma embalagem de toalhas de papel. A abriu e removeu um rolo arrancando uma folha.
A estendeu para a menina:
-O que foi que houve? - Perguntou. -Por que é que tu está assim?
A menina apanhou a toalha de papel e a colou no rosto. Começou a falar mas as palavras foram engolidas por um murmúrio que se tornou uma nova sessão de choro.
Samuel não sabia o que fazer.
-Olha... Não fica assim... O que quer que tenha te acontecido... Tu não tá sozinha...
Arriscou. Achava que estar sozinho quando sofria era uma das piores sensações que podia existir.
-Mas eu tô... - Replicou a menina. -Eu tô sozinha...
Os piores temores de Samuel se materializaram. A menina estava sozinha... Seria uma órfã sem irmãos? Talvez a filha de uma viúva e agora perdera a mãe para alguma doença gravíssima? Será que ela não tinha família imediata a quem recorrer e temia ser institucionalizada?
Que horror...
ofereceu o rolo de papel-toalha à menina, que aceitou.
-Mas... Olha... Porque tu acha que está sozinha? A tua família...? Eles...
A menina o interrompeu:
-A minha família não entende!
Samuel também não... Então ela tinha família?
-Mas... Tu tem família?
-Tenho... Mas eles não entendem que eu tô sozinha... - Chorou.
-Por que tu está sozinha...? - Samuel estava confuso.
-Porque ele terminou comigo... - Disse a menina, num soluço.
"Ele terminou comigo"? A menina estava falando de... Um namorado? Mas ela era uma criança. Não devia ter catorze anos...
-Teu... Namorado terminou contigo? - Perguntou, incerto.
-É! - A menina confirmou. E novamente se desmanchou em lágrimas.
Samuel não conseguia entender um namoro causar tanto sofrimento para uma criança... Mas ele era antiquado. Os tempos eram outros. Talvez a menina estivesse experimentando o fim do seu primeiro amor. Um relacionamento de dois amiguinhos que vinha de vários anos e que ela julgava como um namoro... Vai saber... Ele próprio crescera com uma melhor amiga que por alguma razão partiu seu coração ao surgir com um namorado... Talvez fosse algo nessa linha.
-Hmmmm... E ele e tu "namoravam" há muito tempo...? - Perguntou, tentando suprimir as aspas que se formaram naturalmente em seu discurso.
-Sim... - Confirmou a menina em um miado. -Dois dias...
-Dois... Dias... ? - Samuel absorveu com dificuldade: -E vocês se conheciam há quanto tempo?
-Dois dias... - Disse a menina, como se fosse uma obviedade, enquanto secava as lágrimas.
Samuel levantou, pegou o papel-toalha de volta, enfiando dentro da sacola de compras.
-É... Mundo cão, mesmo. Boa sorte. - Bufou.
Saiu deixando para trás a menina com sua dor.
Sabia que não tinha o direito de qualificar a dor alheia como mais ou menos justa, mas podia qualificar seu amparo.
E, por esse padrão, a menina que chorava pelo fim de um relacionamento de dois dias, no que dependesse dele, podia chorar até precisar receber fluídos no hospital.
Samuel ao menos descobrira que, eventualmente, conseguia ficar alheio ao choro de outrem.

sábado, 10 de setembro de 2016

A Carona


Quinta-Feira, sete e meia, quinze pras oito da manhã.
A Renata parou o carro no sinal e começou a mexer no celular. Estava na perimetral, mais ou menos próxima à José do Patrocínio, no horário do pico matinal. Sabia que levaria alguns minutos pra voltar a se mover, e foi conferir os e-mails.
Mal tinha aberto a tela de e-mail, lenta pela falta de um wi-fi confiável, quando a porta do carro se abriu.
Assomou a figura avantajada de um homem dos seus trinta e poucos, barbudo, cabelos desalinhados, expressão indefinida no rosto, que foi sentando no banco do carona.
A Renata ficou uma fração de segundo pensando no que é que estava acontecendo. Era assalto. Certo que era assalto. O sujeito queria o carro.
Não.
Naquele trânsito ele ia levar o carro de que jeito?
Era um ladrão que ia querer o dinheiro dela. Ia limpar a Renata... Mas a Renata só tinha vinte e dois reais na carteira. Vinte e dois reais e umas moedinhas.
Será que isso bastaria?
Dava pra comprar uma quantidade razoável de crack com vinte e dois reais ou ele ia ficar possesso e matar ela?
Ia querer o celular. Mas ainda faltavam duas parcelas pra terminar de pagar...
Mas se ela estivesse morta, também, que diferença faria?
Será que cobrariam as duas parcelas pendentes da mãe dela?
Que horror... Francamente, Casas Bahia... Não esperava isso...
Mas espera... Ela estava se desviando do assunto.
O que o meliante que acabara de entrar no carro queria.
Será que era um estuprador em série?
A Renata era bonita. Achava que podia emagrecer dois quilos, mas era bonita.
Um estuprador em série parecia um perigo palpável. O que ela devia fazer?
Aproveitar que ele ainda não sacara a arma e fazer um sinal de socorro pro cara no carro ao lado?
O idiota estava conversando animadamente no celular pelo viva-voz... Isso não era infração igual usar o telefone junto à orelha?
Ai, meu Deus! O homem se ajeitou sentado, trazendo uma mochila no colo!
É uma bomba!
É um terrorista!
Um talibã do Estado Islâmico!
-Oi, me dá uma carona até a João Pessoa? - Ele perguntou.
A Renata não entendeu.
-Não entendi... - Assumiu.
-Tu vai entrar antes? - Ele perguntou. Parecia calmo.
-Entrar onde?
-Na José ou na Lima?
A Renata não ia entrar... Ia seguir até a Osvaldo Aranha.
-Não... Eu entro na Osvaldo...
-Ah, que bom. Obrigado. - Agradeceu ele, se ajeitando no assento.
A Renata não entendeu. Estava tensa. As mãos crispadas no volante olhando pra frente evitando olhar para seu captor.
O que faria? O que faria? Tinha seu celular ainda na mão. Podia discar nove, um, um e pedir socorro... Não... Não era nove, um, um... Nove, um, um era no programa do cara do Carro Comando... Era um, nove, zero que se ligava no Brasil.
Olhou de esguelha para o tarado... Ele olhava pra frente com cara de pensativo. Olhou pra ela, que olhou pra frente de novo, rápida.
Ele tomou fôlego:
-Deixa eu te perguntar uma coisa...
Ele não estava pedindo licença. Ia perguntar de qualquer jeito. Renata crispou as mãos no volante.
O assassino continuou:
-É leviandade? Dizer pra mais de uma pessoa que ela é o amor da tua vida?
-Quê? - A Renata não esperava aquela. Nem entendeu, na verdade.
-Eu queria saber o que tu acha... Se tu não acha que dizer pra mais de uma pessoa que ela é o amor da tua vida é meio leviano... Meio hipócrita... Quantos amores da vida uma pessoa pode ter? Não era pra ser um só? - Conjecturou o larápio.
-Olha... - A Renata realmente não se sentia em posição de responder aquela pergunta sob a mira de uma arma.
Não que o sujeito estivesse lhe apontando uma arma. Mas havia uma arma metafísica ali, a Renata tinha certeza.
-Não, não... Porque... Sabe... Eu acho que a gente só tem um amor da vida. Por isso a gente diz "o amor da minha vida", e não "um amor da minha vida". - Continuou o bandido.
-Hã... - A Renata não estava conseguindo concatenar nada. O pior é que o craqueiro não parava de falar:
-Ou eu tô louco? Tô exigindo demais das pessoas? Tô fazendo demandas impossíveis ao cobrar um mínimo de coerência, ao menos no discurso?
A Renata jamais havia sido vítima de um crime. Não conseguia se concentrar no que o sequestrador dizia. Resolveu ser franca:
-Olha... Eu não... Não tô conseguindo pensar, eu nunca-
Mas o sujeito a interrompeu, apontando pra frente:
-Ó. Tá andando...
A Renata resolveu obedecer, foi guiando. Passou a José do Patrocínio, mas logo adiante, contíguo ao claustro das freiras carmelitas, o trânsito estava novamente parado.
O criminoso suspirou:
-Já te aconteceu?
-Não, nunca. - A Renata estava falando de ser raptada. Não sabia se era do que o assassino estava falando.
-Pois é... Nunca tinha acontecido comigo. E eu pensei muito antes de dizer "tu é o amor da minha vida". Só falei quando eu soube que era verdade...
Mas do que é que aquele marginal estava falando. Será que ele ia cometer suicídio e queria levar a Renata consigo? Era, não um criminoso de carreira, mas um assassino eventual, transformado em criminoso por causa de um coração partido e por não ter coragem de se matar sozinho ia fazer a Renata dirigir até a ponte do Guaíba, virar o carro pra mureta e pisar no pé dela em cima do acelerador gritando?
-Eu não sei... Talvez seja só neura minha... Eu devia deixar pra lá, mas... Sabe... Essa sensação de que... Alguém em quem tu depositou todos os teus sentimentos... Eu não sei como tu é, mas eu não sou dessas pessoas que se apaixonam loucamente toda a hora, então, talvez, todos os meus sentimentos sejam pouco. Uma coisa meio autista, sei lá... Tu é dessas pessoas que se apaixonam loucamente?
-Não... - A Renata não era assim, também. Não se apaixonava à toa. Estava curtindo uma relação meio sem futuro com Dagoberto, um saxofonista. Era brega, ela sabia. O cara tocava sax em shopping... Em clube noturno... Mas isso não era motivo pra um terrorista aparecer e explodir ela.
-E tu já disse que alguém era o amor da tua vida? - Ele perguntou.
-Não... - Assumiu Renata. Realmente jamais dissera. Meu Deus! Ia morrer sem ter tido o amor da sua vida! Ai que horror!
-Bom... Em algum momento tu... Olha... Tá andando.
Renata começou a sentir vontade de chorar, mas se conteve. Seguiu dirigindo, durinha, as duas mãos no volante, ultrapassou a Lima e Silva. Nova parada.
-Sabe... O pior é que eu realmente tô feliz por ela. Tô mesmo. Ela merece ficar com alguém que... Enfim... Mereça o amor e a dedicação dela. Merece, mesmo. Eu não sei de onde saiu essa amargura toda. Tu já teve isso? Estar bem mas não estar?
-Sim... - Confessou Renata. Naquele exato instante, inclusive. Estava fisicamente bem, mas psicologicamente em pandarecos. Estava sedo abduzida... Abduzida servia pra sequestro ou era só quando os alienígenas te levavam? Enfim, estava sendo sequestrada por um maníaco, um lunático, um louco perigoso e não sabia como tudo terminaria.
-Pois é... Eu... Eu volta e meia experimento isso. É um pé no saco. Eu tinha me conformado. Seguido em frente. Aceitado as coisas. Não sei porque eu voltei pro poço... Acho que foi a compreensão súbita de que era mentira. Eu não era o amor da vida dela. Mas ela foi o da minha. Isso que me quebrou... Ó! Andou.
O trânsito voltara a andar... A Renata seguiu o fluxo, passando a Sarmento Leite e quando cruzou a esquina o psicopata falou:
-Tu pode me deixar aqui na frente do Edel?
A Renata reduziu e parou em frente ao chafariz. O assassino tirou o cinto de segurança:
-Valeu, hein. Obrigado... Pela carona e pelo ouvido.
Abriu a porta e saltou.
Simples assim.
Saiu andando. Sem enfiar uma faca serrilhada nas entranhas da Renata. Sem abrir as calças e mostrar o tico. Sem puxar uma arma e exigir o celular e o dinheiro dela ou empurrá-la pra fora do carro e assumir o volante empreendendo fuga em alta velocidade pela cidade afora.
Só saiu.
Renata respirou fundo.
Começava a absorver tudo o que o sujeito falara. Compreender a situação toda. Ia travar as portas. Precisava perder a mania de andar com as portas destravadas. Quando a figura avantajada assomou novamente, enfiando a mão por dentro do casaco abriu a porta!
Ia encher ela de azeitona!
Era isso, né? Que os criminosos diziam quando iam crivar uma vítima de balas.
Mas o sujeito não sacou uma pistola prateada com cabo de madrepérola, mas sim uma carteira de couro preto:
-Eu te devo alguma coisa...? Dinheiro pra ajudar com a gasolina...? - Perguntou, incerto.
A Renata franziu o cenho:
-Não... Não precisa. Eu ia vir por aqui, mesmo. - Respondeu.
O ex-sequestrador deu uma piscadela e ergueu o polegar em sinal de positivo. Quando ia fechar a porta do carro, Renata o deteve:
-Espera...
Ele se inclinou de volta pra dentro.
-Talvez ela não tenha mentido. Talvez ela realmente achasse que tu era "o cara", na época... E só percebeu que não era depois. Talvez tu vá perceber a mesma coisa em algum momento, e nem por isso o que tu falou vá se tornar mentira... Entende?
O sujeito olhou pra ela brevemente com uma expressão indefinida. Então deu um sorriso pro lado:
-Faz sentido. Obrigado.
Fechou a porta do carro e foi embora.
Renata suspirou e travou as portas do carro. Se o Dagoberto ligasse ela não ia atender. Subitamente pareceu errado desperdiçar o tempo dele e o próprio em uma relação sem amor verdadeiro.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Quindim


E tem a história da Fátima e do Miguel.
A Fátima queria encontrar seu homem ideal.
O homem ideal, pra Fátima, era polido, educado, um autêntico cavalheiro. Se tinha coisa da qual a Fátima não abria mão, era educação. Era que abrissem a porta do carro pra mulher entrar, e oferecessem a mão para ajudá-la a sair.
Seu homem ideal era aquele tipo que deixa que ela passe na frente, sempre e se levanta quando ela sai da mesa... O homem ideal da Fátima jamais ergueria a voz, jamais diria uma grosseria, não riria gargalhando, e nem beberia água no gargalo.
A primeira coisa que ela ouviria dele todos os dias seria "bom dia" e a última "boa noite", e ele jamais a encontraria sem saudá-la.
A Fátima jamais veria seu home ideal cortando as unhas, nem das mãos, que diria-se dos pés. Mas ainda assim, as unhas dele estariam sempre limpas, bem aparadas e lixadas. Quiçá com uma demão de base incolor...? Não... Muito gay.
Os pelos... O homem ideal da Fátima seria depilado no peito, nas costas e nas axilas. Ele teria pelos nos antebraços e nas canelas, apenas. Talvez no púbis, mas teria que ser como a barba... Ele não teria barba, mas se resolvesse cultivar uma de maneira extravagante por algumas semanas, ela estaria sempre limpa e bem aparada.
O homem ideal da Fátima passaria óleos e hidratantes para que sua barba jamais a pinicasse de maneira desconfortável e abrasiva. Ele escovaria os dentes sete vezes por dia, mais, se comesse algo fora de hora, mas ele nunca comeria fora de hora... E seu hálito não teria cheiro de menta, que é artificialmente criado com pasta dental ou pastilhas, mas de baunilha, que é igualmente artificial, vá lá, mas ele saberia que ela prefere.
O homem ideal da Fátima usaria "com licença", "por favor" e "obrigado" em profusão, e teria uma condescendência paternal por quem achava que isso o fazia parecer efeminado.
Ele seria um amante gentil e abnegado, capaz de fazer horas de sexo oral se achasse que isso satisfaria a Fátima, e jamais faria grosserias como puxar-lhe o cabelo ou aplicar-lhe um tapa na bunda durante o coito.
Ele usaria essa palavra: Coito.
E não riria.
Ele também não faria nojeiras como ejacular em algum lugar inapropriado da Fátima. Como os seios, o rosto, ou as nádegas. Credo. Não.
O homem ideal da Fátima saberia que o sêmen tem só dois lugarzinhos, onde ele surge e pra onde tem que ir, e jamais o colocaria num outro lugar que não fossem aqueles.
Ele correria pra atender a todos os desejos dela, a valorizaria acima de qualquer outra coisa e moveria céus e terras pela felicidade dela, que não era mulher de exigir mimos, mas não se importaria de ser mimada por ele, que seria bonito, charmoso e bom pai, ainda por cima.
Claro... A Fátima não era burra. E sabia que a idealização não existia... Ela jamais encontraria esse homem exatamente como ela sonhava. Por isso estava disposta a abrir mão de um par de predicados da lista.
Só tinha que decidir quais.
E o Miguel?
O Miguel queria encontrar sua mulher ideal.
A mulher ideal, pro Miguel, era companheira, divertida e fiel. Se fosse gostosa, melhor. Podia curtir esportes e era importante, pro Miguel, que ela gostasse de quindim.
Mas não do quindim todo. Só da parte do coco queimado, embaixo, que ele não gostava. Sua mulher ideal gostaria do coco queimado, mas não gostaria do ovo. E eles dividiriam os quindins irmãmente, cada um ficando com a parte de que gostava mais.
Claro... O Miguel não era burro. E sabia que a idealização não existia... Ele jamais encontraria essa mulher exatamente como ele sonhava. Por isso estava disposto a abrir mão de um par de predicados da lista.
Sabia até qual.
Mas não era o lance do quindim.
Cada um a seu modo, a Fátima e o Miguel desejavam o impossível. E iriam morrer sozinhos.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Dia do Sexo


Ele saiu do serviço ainda faltavam cinco minutos para o meio-dia. Andou a passos largos até a esquina da Fernando Machado com a André da Rocha e lá estava ela, radiante como o sol que voltava a aparecer em Porto Alegre após quase uma semana de folga.
Vestia calças jeans verde-musgo, uma blusa branca e um casaco de lã marrom, e, ao vê-lo, abriu um sorriso largo.
Ele andou até ela rindo e a abraçou apertado:
-Saudades, alemoa.
Ela correspondeu ao abraço e lhe estalou um beijo no rosto. Ele segurou a mão dela por alguns instantes e começaram a andar.
Ela fez cara de quem lembra:
-Ah! Tenho um presente pra ti!
Mexeu na bolsa e tirou um pequeno embrulho. Ele apanhou agradecendo e se pôs a abrir. Era um chaveiro do Homem-Aranha.
Era uma coisa recorrente na sua vida, ganhar coisas do Homem-Aranha, ela mesma já lhe dera memorabília com motivos do cabeça de teia.
Ele sorriu.
-Eu me lembrei que tu tava sem chaveiro num dos zíperes da tua mochila, e que tu tem do Batman, do Super-homem e do Capitão-América, mas nenhum do Homem-Aranha, que é teu preferido. - Ela explicou.
-Obrigado, gentil donzela. - Ele agradeceu fazendo um maneirismo. -Mas não precisava... Onde tu comprou isso?
-Na Nerdz. - Ela respondeu, enrolando a pronúncia para soar como "nãRdz".
-E o que tu foi fazer na Nerdz? - Ele perguntou, imitando a pronúncia dela.
-Te comprar isso, ué... - Ela respondeu com naturalidade.
Ele sentiu-se ruborizar. Não se sentia confortável recebendo presentes espontâneos. Ela percebeu e disse:
-Presente de dia do sexo.
Ele ruborizou mais. Tanto que ergueu os olhos do chaveiro e a encarou com a expressão retorcida de divertido choque e vergonha pura.
Ela riu tanto que ele começou a rir, também.
-Como assim? - Perguntou, sem entender.
-Dia do sexo... - Ela respondeu. -É hoje, seis de setembro.
Ele guardou o chaveiro no bolso e sorriu:
-Bom... Sexo é, mesmo uma dessas coisas que merecem uma efeméride...
-É... Depende... - Ela disse, fazendo uma careta.
-Depende? - Ele perguntou, surpreso.
-Claro que depende. Sexo, só sexo, qualquer sexo, não... Mas sexo bom, bem feito, aí beleza, merece data mundial, e tudo...
-Na verdade a de hoje é nacional, só, mas concordo contigo.
-Só nacional? - Ela perguntou desapontada.
-Sim. Só no brasil que seis de setembro é o dia do sexo... Provavelmente dos estados unidos é nove de junho, por causa da forma como eles leem as datas... - Ele riu.
-Por que nove de junho? Qual a relação? - Ela perguntou fazendo uma expressão confusa que lhe formava uma rugo bem pronunciada no cenho.
-Porque lá eles leem o mês antes do dia. então, seis de setembro, pra eles, é nove, seis e não seis nove. Seis nove seria nove de junho.
-Aaaaaaaaaaaaaaah... - Ela fez, dando-se conta da obviedade. -É por isso que é seis de setembro. Meia nove.
-Aaaaaaaah - Ele repetiu, caçoando e levando um soco no braço.
Andaram mais um pouco, alguns passos em silêncio.
-Eu não sei se gosto. - Ela disse, de repente.
-De quê? - Ele perguntou.
-Meia nove. - Ela respondeu com naturalidade.
-Hmmm... Tu não sabe se gosta... Tu já fez? - Ele argumentou.
-Não... - Ela confessou. -Tu já fez?
-Menos do que eu gostaria. Mas já. Já fiz.
-E tu gosta? - Ela perguntou.
-Bom... Tem coisas muito interessantes acontecendo no ato... Ao menos duas das quais eu acho que todo mundo gosta.
Ela riu:
-É mas... Sei lá...
-O que? - Ele quis saber.
-Deve ser difícil se concentrar... - Ela concluiu.
Ele sorriu sem dizer nada.
-Que foi? - Ela quis saber.
-Nada... - Ele respondeu nostálgico. -Só já... Já ouvi isso antes.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Resenha DVD: Vizinhos 2


Eu escrevi após assistir Vizinhos, dois anos atrás, que o filme era engraçado e que era "virtualmente impossível assistir um filme de uma hora e meia com Seth Rogen sem rir um pouco", ora veja... Nos últimos dois anos isso parece ter mudado.
Ontem aluguei esse Vizinhos 2, sequência do gigantesco sucesso de bilheteria de 2014 que com um orçamento de meros 18 milhões de dólares faturou mais de 270 milhões pelo mundo afora o que, claro, tornaria quase obrigatório que o longa tivesse uma sequência.
A sequência em questão é esse Vizinhos 2, que reúne praticamente toda a equipe do primeiro longa, do diretor Nicholas Stoller e os roteiristas Andrew Jay Cohen e Brendan O'Brien até praticamente todo o elenco.
No longa, Mac e Kelly Radner (novamente Seth Rogen e Rose Byrne) estão pensando em se mudar.
O casal está esperando uma irmãzinha para Stella (novamente as pitôcas Elize e Zoey Vargas) e planejam se mudar para uma casa maior nos subúrbios.
Mas não são apenas Mac e Kelly que têm mudanças em seu horizonte.
Enquanto a garotada da Delta Psy cresceu na vida, com Scoony (Christopher Mintz-Plasse), Garf (Jarrod Carmichael) e Pete (Dave Franco) crescendo profissional pessoalmente, Teddy Sanders (Zac Efron) continua trabalhando como modelo na frente da Abercrombie & Fitch sem nenhuma noção do que fazer de sua vida.
Quando ele descobre que Pete vai se casar com seu parceiro e o casal gostaria que ele se mudasse, seu mundo desmorona por completo.
Surge Shelby (Chloë Grace Moretz).
A garota é caloura na faculdade e anseia desesperadamente por novas amizades, experimentação e tudo mais. É, então, com desgosto que ela descobre que as fraternidades femininas não podem organizar eventos, sendo restritas às festas das fraternidades masculinas, todas praticamente abatedouros de jovens bêbadas.
É quando Shelby e suas amigas Beth (Kiersey Clemons) e Nora (Beanie Feldstein) têm a ideia de criar sua própria fraternidade independente, fora do campus da universidade, e fazer festas de meninas para meninas.
Quando Mac e Kelly finalmente vendem a casa e se preparam, satisfeitos, para os trinta dias de caução, o impensável acontece:
As Kappa Nu de Shelby e companhia resolvem alugar a casa ao lado para a sede da sua fraternidade.
O pior de tudo?
Elas têm um consultor extremamente experiente no assunto as ensinando tudo a respeito de como gerir uma fraternidade e pregar as peças mais doentias nos vizinhos:
Teddy.
A questão é que Teddy é um estranho no ninho tão evidente quanto os Radner para as meninas da Kappa Nu, e não tarda para que ele esteja juntando forças com seus antigos inimigos para ajudá-los a acabar com a fraternidade e garantir que o casal consiga se mudar sem o perigo da falência sobre suas cabeças.
Conforme eu disse:
Não é engraçado.
Apesar de manter algumas das melhores características, como a bo química entre Rogen e Rose Byrne e abusar da piada de gostosão burro com Efron, Vizinhos 2 é tão incoerente que torna simplesmente impossível rir.
Ou um filme é politicamente incorreto, ou não é. Não se pode ter ambos.
Infelizmente Vizinhos 2 parece não entender isso, e gasta quase metade de sua projeção estabelecendo a fundação das Kappa Nu como a única alternativa para umas gurias legais poderem fazer suas festas sem o constante assédio dos apedeutas das "frats".
Logo, as meninas são legais e querem dar festas de jeans e moletom, bebendo cerveja e assistindo A Culpa é das Estrelas comendo sorvete sem nenhum otário querendo comer elas.
OK, isso até, subitamente, Shelby ir de guria descolada e divertida à patricinha malvada e declarar guerra aos vizinhos por que... Por que... Porque o roteiro precisa, oras.
Essa necessidade de ser politicamente correto para com feministas e gays vai totalmente na contramão das piadas com absorventes usados, racismo, pirocas de fora e bebês brincando com vibradores.
Essa bipolaridade aliada à edição confusa e ao roteiro desconexo escrito por CINCO roteiristas (além de Cohen e O'Brien do original, Seth Rogen e seu colaborador Evan Goldberg e mais o diretor Nicholas Stoller meteram a mão no script) colaboram para tornar Vizinhos 2 não apenas um filme ruim, mas uma comédia preguiçosa, chata e, o pior de tudo, sem risos.
Assista apenas se a alternativa for ter vidro moído colocado entre os olhos e as pálpebras, outrossim, poupe-se de desperdiçar 92 minutos de sua vida.

"-A verdade é que aquelas garotas são adoráveis.
-É, garotas super legais.
-Bem, não não achamos que sejam porque literalmente as vimos roubando a sua casa. "

Resenha Cinema: Star Trek: Sem Fronteiras


Em dezembro do ano passado, quando foi divulgado o trailer de Star Trek: Beyond, eu escrevi aqui mesmo nesse blog, que a prévia deixava "bem claro: Com Justin Lin na direção, Star Trek é Velozes & Furiosos no espaço.".
Eu realmente não gostei do trailer que, ao som de Sabotage dos Beastie Boys mostrava relances de um filme com uma cara danada de Guardiões da Galáxia e que pouco tinha a ver com o clima do seriado sessentista e a série de filmes dos anos oitenta.
Por sorte, eu disse antes de concluir que entendia o desgosto dos fãs hardcore, que "Star Trek - Beyond, ainda pode ser um filmaço, e muito divertido", e após assistir ao longa nesse sábado, posso dizer, aliviado, que nisso, eu acertei em cheio.
Star Trek: Sem Fronteiras, terceiro episódio da saga da tripulação da Enterprise na linha de tempo alternativa iniciada em Star Trek (2009) se passa dois anos e meio após os eventos de Além da Escuridão: Star Trek, quando o grupo enfrentou a ira de Khan e viveu para contar a história.
A tripulação encabeçada pelo capitão James T. Kirk (Chris Pine), o primeiro oficial Spock (Zachary Quinto), o médico Leonard "magro" McCoy (Karl Urban), a xeno-linguista tenente Nyota Uhura (Zöe Saldaña), o navegador alferes Pavel Chekov (Anton Yelchin), o piloto Hikaru Sulu (John Cho) e o engenheiro Montgomery Scott (Simon Pegg) está no 966° dia de sua missão de cinco anos em espaço profundo, continuando suas viagens em busca de novos mundos, formas de vida e civilizações, exatamente o que Kirk ansiava ao final do último filme.
Entretanto, nós descobrimos através do diário de bordo do capitão que quase mil dias no espaço podem ser algo repetitivos, mesmo que pequenas missões se apresentem aqui e ali conforme a Enterprise vaga pelas áreas mais distantes do espaço não-mapeado firmando novas relações diplomáticas para a Federação.
A natureza episódica da rotina começa a fazer com que Kirk, agora mais velho do que seu pai era ao morrer, repense sua vida, e comece a pensar em sossegar o facho, passando adiante o comando da nave que vem sendo seu lar nos últimos anos.
Quem passa por um dilema semelhante é Spock. O meio vulcano, ao saber da morte do embaixador Spock (Leonard Nimoy, cuja morte foi integrada à história), também repensa sua vida, imaginando se o mais lógico, dada a míngua de seu povo, não seria se estabelecer em Novo Vulcano e "começar a fazer vulcaninhos", o que estremece sua relação com Uhura.
Em meio às dúvidas dos dois chefes da tripulação, a Enterprise chega à estação espacial de Yorktown, o mais avançado posto do espaço da Federação (E um deleite visual com suas ruas e prédios se estendendo por cima uns dos outros como uma montanha-russa de arranha-céus com um tipo muito particular de gravidade curvada), uma enorme base onde todas as raças federadas podem se encontrar e conviver, entendendo, de fato, o que a Federação representa.
É durante o breve período de descanso que uma nave refugiada surge em Yorktown pedindo por ajuda. A capitã, Kalara (Lydia Wilson) pede ajuda. Sua tripulação está perdida em um planeta além do cinturão de asteroides que delimita o espaço federado, e ela precisa de ajuda para resgatá-los.
Kirk prontamente se voluntaria para a missão, porém, após cruzar a necro nuvem da nebulosa, a Enterprise é atacada por um enxame de pequenas espaçonaves de ataque.
O violento ataque aleija a Enterprise, que se desmantela caindo no planeta altamid, onde a maior parte da tripulação é capturada por um alienígena chamado Krall (Idris Elba), um poderoso déspota cuja ferocidade só é igualada por um inexplicável ódio pela Federação.
Os únicos tripulantes que não são capturados são Chekov e Kirk, que permanecem com Kalara, McCoy, que sobrevive à um pouso desastrado junto com Spock, gravemente ferido, e Scotty, que acaba encontrando a alienígena Jaylah (Sophia Boutella), outra prisioneira de Krall em Altamid, procurando desesperadamente por uma forma de escapar.
Agora cabe a Kirk reunir sua tripulação, descobrir por que Krall os atraiu até uma armadilha, e como eles podem impedir seu plano de destruir a Federação.
O que é que eu posso dizer?
É sensacional.
Star Trek: Sem Fronteiras é divertidíssimo, um sci-fi competente com doses de aventura, ação e comédia que não esquece o fan-service e entrega uma experiência excitante e divertida.
O roteiro escrito por Simon Pegg e Doug Jung apesar de pirotécnico e extremamente destrutivo (ainda que não tanto quanto os roteiros de Roberto Orci, Damon Lindelof e Alex Kurtzman nas duas primeiras partes) centra sua atenção no cerne de Star Trek:
A tripulação da Enterprise.
Isso é um grande acerto, não apenas porque as relações entre os membros da equipe sempre foram a coisa mais importante da franquia, mas também porque Simon Pegg, um nerd de carteirinha bastante versado no universo trekkie, saca esses personagens e sabe aproveitar a dinâmica entre eles.
A grande prova disso talvez seja Chris Pine.
Se o ator conseguia ser um Kirk convincente desde o primeiro filme, quando evocava de maneira divertida a aura brega/cool do personagem, nesse filme ele alcança um novo patamar de segurança no papel e se mostra um James T. extremamente competente, conseguindo equilibrar a canastrice que William Shatner tornou inerente ao papel com o heroísmo genuíno de um homem disposto a tudo para salvar seus amigos e sua tripulação, e até alguns insights mais profundos, como a entrada do diário de bordo que abre o filme, por exemplo (que além de muito boa, exala o climão da série original).
Outro personagem que ganha nova vida em Sem Fronteiras é o doutor McCoy de Karl Urban.
O neozelandês finalmente ganha espaço para explorar a rabugice paranoica do chefe médico da Enterprise e sua inusitada parceria com Spock é simplesmente brilhante. Quando a tripulação é dispersada, formam-se duplas inesperadas, como Kirk e Chekov, Uhura e Sulu, e McCoy e Spock, facilmente a mais divertida.
Eu poderia assistir um filme inteiro estrelado apenas por Karl Urban e Zachary Quinto, de tão bacanas que os diálogos entre os dois são.
Claro, a apresentação de um novo vilão, um interessante trabalho de Idris Elba mostrando um raivoso alien que é uma contraparte de Kirk sob diversos aspectos (e que merecia mais um par de cenas para dar lastro à sua origem), e de Jaylah, uma personagem muito legal e com mais camadas do que as prévias faziam parecer, acaba fazendo com que nem todos os personagens tenham o merecido tempo de tela.
Uhura, Sulu e especialmente o Chekov do falecido Anton Yelchin têm pouco a fazer no filme, o que é uma pena.
Ainda assim, nas mãos do diretor Justin Lin, egresso da série Velozes & Furiosos, que faz um excelente trabalho tanto nas sequências de ação quanto na condução dos personagens, Sem Fronteiras funciona. E entre sequências pirotécnicas e Beastie Boys (Sim, a música toca no clímax do filme, e tem um papel importante na história e a sequência toda é do caralho) o filme vai cavando seu lugarzinho no coração da audiência ao encontrar, cena a cena, conflito a conflito e vitória a vitória o sabor de um episódio da série original anabolizado com efeitos visuais de última geração.
Sem Fronteiras tem seu próprio ritmo, e assim que nos habituamos a ele, somos surpreendidos por um filme cheio de afeto e reverência aos fãs e ao material original, chegando a arrepiar em seus momentos derradeiros, podendo até arrancar uma lágrima fugidia dos trekkies da antiga.
Com tanto a oferecer, eu francamente não vejo modo melhor de comemorar o jubileu de ouro da série.
Primeiro filme do ano a me deixar com um sorriso infantil de orelha a orelha ao final da projeção, Star Trek: Sem Fronteiras é excelente.
Assista no cinema. Vale demais a pena.

"-O espaço: A fronteira final...
-Essas são as viagens da nave estelar...
-Enterprise. Sua contínua missão...
-De explorar estranhos novos mundos...
-De buscar novas formas de vida...
-E novas civilizações...
-De audaciosamente ir onde ninguém jamais esteve."