Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
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segunda-feira, 5 de junho de 2017
Resenha DVD: Quatro Vidas de um Cachorro
Acredito que todo mundo tenha ficado cinte da celeuma que se formou em torno de Quatro Vidas de um Cachorro pouco antes do lançamento do filme, quando o site TMZ divulgou um vídeo onde um pastor alemão era coagido a saltar na água contra a sua vontade para uma cena do longa.
Houve divisão na opinião pública, com gente achando normal que, eventualmente o cão fosse obrigado a agir contra seus instintos durante as filmagens (sabemos que praticamente todos os cães domésticos são forçados a agir contra seus instintos todos os dias em maior ou menor grau), enquanto outras pessoas, e especialmente organizações de proteção animal exigiram até mesmo que o longa fosse embargado e boicotado por partidários dos direitos dos animais.
Seja como for, a má exposição pública não pareceu ter afetado a bilheteria do filme, que com orçamento de 22 milhões de dólares fez uma robusta carreira de 193 milhões de bilheterias.
Ontem eu resolvi, a despeito da celeuma, dar uma chance ao longa, agindo contra os meus instintos, haja vista que sou dono de cachorro e um rematado chorão no que tange a películas estreladas por animais.
O longa dirigido por Lasse Hallström, o mesmo miserável que me faz chorar até na academia com Sempre ao Seu Lado a partir do livro de W. Bruce Cameron adaptado pelo próprio mais Cathryn Michon, Audrey Wells, Maya Forbes e Wally Wolodarsky conta a história do cão Bailey a partir do ponto de vista do próprio, dublado por Josh Gad.
Um golden retriever vermelho que, nos anos sessenta, é adotado pelo garoto Ethan (Bryce Gheisar) após sua mãe (Juliet Rylance) resgatá-lo do carro onde ele estava trancado, Bailey é um cão inquieto e brincalhão, e não tarda a se tornar o melhor amigo do jovem Ethan, e a dor de cabeça do pai do menino, um sujeito que não chega a ser mau, mas tem disposições complicadas e um fraco pela bebida.
Alheio aos problemas ao seu redor, Bailey só se interessa em estar próximo de Ethan, o que ele faz com facilidade conforme o garoto cresce.
Já na adolescência de Ethan (agora com a cara de K. J. Apa), Bailey segue ao seu lado enquanto ele se torna um prodígio do futebol americano secundarista, e se apaixona pela gatinha Hannah (Britt Robertson), formando um triângulo amoroso asquerosamente fofo.
Nem tudo são flores na vida de Ethan, porém.
Na mesma noite em que consegue uma bolsa de estudos integral na universidade do Michigan, Ethan recebe uma visita perturbadora do pai bêbado, e entra em uma briga com um colega invejoso, fatos que culminam em uma pegadinha que acaba muito mal.
De uma só vez, Ethan vê seu futuro ser arrancado de suas mãos, e é durante seus anos mais sombrios que Bailey, já velhinho, morre, sem ver seu amigo ser feliz novamente.
O que Bailey não sabia, porém, é que estava destinado a retornar.
E o faz, dessa vez na pele da pastora alemã Ellie, que ainda filhote é colocada sob a tutela do policial da divisão K-9 Carlos (John Ortiz), um homem sério e solitário, mas bom e justo.
Ellie demora a cativar o policial, mas quando o faz, é de maneira total e inapelável. A ponto de Ellie estar disposta a morrer por Carlos.
Em seguida, é a hora de Ellie retornar como o corgi galês Tino, adotado pela solitária Maya (Kirby Howell-Baptiste), uma estudante com dificuldades de relação a quem Tino serve como única companhia por anos.
Os dois vão juntos à toda parte e dividem tudo, tendo apenas um ao outro, ao menos até Maya finalmente se abrir, e Tino ver-se parte de uma família muito maior e ainda mais feliz.
Mas a vida de um cão é fugaz, e não tarda para Tino cumprir sua jornada, e voltar como Buddy, uma mistura de São Bernardo e pastor australiano que tem o azar de ser adotado por uma garota volúvel que vive com um caipira desalmado.
Ele cresce amarrado num quintal cheio de entulho até finalmente ser abandonado numa rodovia.
De lá, ele vaga por lugares desconhecidos até finalmente chegar a um lugar familiar. Uma antiga fazenda que não parece ter mudado muito nos últimos quarenta e tantos anos, e o fazendeiro não é ninguém menos do que Ethan (agora Dennis Quaid).
Bailey percebe, então, que tem a oportunidade de reencontrar seu velho amigo, e ajudá-lo a ser feliz como não conseguira antes, uma oportunidade que ele não está disposto a deixar passar enquanto aprende qual o verdadeiro propósito de um cachorro.
Quatro Vidas de um Cachorro está numa descarada categoria de filmes que parecem planejados pra ordenhar lágrimas da audiência, e o faz ao transitar por todos os sub-gêneros de filmes caninos que existem, do cão policial ao cão que envelhece vendo a família crescer passando pelo cão que vaga pelo mundo sem entender o que se passa, está tudo lá, como assistir Meu Melhor Companheiro, K-9: Um Policial Bom pra Cachorro, Marley & Eu e Sempre ao Seu Lado em uma hora e quarenta minutos de choro copioso com eventuais sorrisos pelo caminho.
Lasse Hallström manja de cinema, tem uma assinatura visual linda e, em seus melhores momentos, joga com as emoções da audiência como se fosse o Homem-Psíquico, filmes como Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador e Regras da Vida são testemunho do talento do sueco, que aqui, usa seu repertório descaradamente para o mal.
Não me entenda errado.
Quatro Vidas de um Cachorro não é um filme diabolicamente ruim, não. Mas é manipulativo além da conta, e o roteiro é um exemplo claríssimo da bagunça narrativa que ocorre quando temos cinco pares de mãos enfiadas em uma receita.
Há diversas chances desperdiçadas na adaptação, exceto a de espremer um pouco mais de choro de quem está sentado diante da tela.
Ainda que não seja um grande filme, e tenha sua cota de problemas narrativos, Quatro Vidas de um Cachorro é uma boa pedida pra quem adora esses amigões peludos de quatro patas e não tem vergonha de chorar feito um desgraçado diante da TV.
Pra assistir com um lenço na mão.
"-Eu tinha um propósito. Eu era necessário de novo e de novo e de novo. E a cada nova vida eu aprendia uma nova lição."
quinta-feira, 1 de junho de 2017
Crueldade
Dói no meio do meu peito. Todos os pelos do meu corpo se eriçam e eu pareço ter sido atingido por um aumento exponencial da minha audição e tato enquanto a minha visão fica turva e meus cotovelos adormecem e eu cerro os dentes até eles quase rangerem...
É sempre assim.
Todas essas coisas acontecem ao mesmo tempo quando eu tomo conhecimento de algum ato de crueldade.
A fúria que me toma é tanta que eu não posso deixar de imaginar como seria se eu, alguma vez, visse algo horrível acontecendo ao vivo, in loco.
Não posso, infelizmente, refutar a ideia de que eu fosse simplesmente congelar. Já me aconteceu em outras situações, de simplesmente travar, como se tivesse sofrido alguma espécie de bug cerebral e fosse incapaz de ir além do registro. Mas isso foi quando eu era jovem, e em situações em que eu estava assustado, e não furioso.
Quando confrontado com a extensão da crueldade que o ser-humano é capaz de perpetrar, eu não sou tomado de medo, mas de ira. Eu me enojo ante a completa falta de consideração que essa raça vil nutre uns pelos outros e pelas outras criaturas que têm o azar de partilhar esse planeta conosco.
Eu não tenho rede social. Uma das razões é tentar passar ao largo daqueles vídeos que sempre são compartilhados no Facebook e afins que mostram gente sendo cruel com gatos ou cães, imolando gado, escalpelando marsupiais vivos... E ainda assim, tais coisas inevitavelmente chegam a mim, por mais que eu não queira e tente não ver, eu sempre acabo exposto a isso e a vontade que eu tenho de esmigalhar o crânio de quem comete tais atrocidades é tamanha que os nós dos meus dedos ficam brancos conforme eu cerro os punhos imaginando a satisfação que eu teria em surrar um desgraçado...
E então eu me dou conta, de quê, se me fosse dada a oportunidade, eu, que não sou partidário consciente da lei de Talião, seria, também, cruel.
Eu não seria capaz de perdoar, nem de tentar reformar... Eu seria um pérfido castigador.
E então me ocorre que a violência e a sede de sangue devem ser fatores comuns a toda a nossa espécie.
A crueldade é o que nos torna humanos.
E por mais que tentemos negar nossos instintos, em algum momento chegamos à fronteira onde nossa humanidade se revela, e nós somos capazes de grande maldade.
Ou de pequena maldade... Mas maldade.
Porque impôr sofrimento a outro ser vivo é sempre perverso. Não importa se seja algo horrível como decepar as pernas de uma vaca e deixá-la viva em um pasto, ou arrancar a barbatana de um tubarão e jogá-lo de volta ao mar, ou dizer palavras torpes a alguém com a intenção de magoá-lo.
E infelizmente é isso o que nos torna humanos. Não o telescópio espacial Hubble. Não a Quinta Sinfonia de Beethoven. Não a Ilíada de Homero.
Esses são os pontos fora da curva.
Os pontos altos.
Nossa média enquanto espécie é muito, muito, inferior, infinitamente inferior.
E o único alento ao qual me dou o direito, é saber que uma espécie tão empenhada em destruir, eventualmente vai ter sucesso em sua empreitada, e deixará de existir.
terça-feira, 30 de maio de 2017
Resenha Série: Deuses Americanos. Temporada 1 Episódio 5: Lemon Scented You
Atenção! Há spoilers do episódio!
Após uma bela vinheta animada de "Chegando à América" que contou a história de Nunyunnini, um deus que acabou esquecido após perder seus seguidores, Deuses Americanos finalmente saiu do cliffhanger onde nos deixara pendurados por dois capítulos, com Shadow encontrando Laura no seu quarto de hotel, a cena que havia encerrado tanto Head Full of Snow quanto Git Gone.
Foi interessante ver que Laura, que em vida era uma vaca fria que não dava bola alguma pro Shadow, agora é uma criatura que não tem propósito na existência exceto seu amor pela "luz de sua vida". A interação entre os dois foi bem interessante, especialmente conforme Shadow, que andou vendo coisas bem sinistras nas últimas semanas, não ficou tão abismado com o retorno de Laura quanto poderia se supôr, e certamente não o suficiente para esquecer da traição dela, e da circunstância de sua morte.
Laura, por sua vez, parece estar lutando para se importar com Shadow, mas por jamais ter se importado com nada na vida, tem uma atitude artificial que a faz parecer ainda mais vaca do que o habitual, e fica absolutamente desconcertada quando seu "puppy" a rejeita.
A despeito de jamais ter amado Shadow em vida, na morte, a única razão para Laura andar pelo mundo é a presença de Shadow, e o presente que ele lhe deu.
Aliás, o presente de Shadow, a moeda que, segundo Zoraya Polunochnaya era o Sol, leva ao encontro entre Laura e Mad Sweeney.
O leprechau segue tentando recuperar seu amuleto da sorte (quisera eu poder usar esse espaço para dizer "lucky charm" com sotaque irlandês), mas esbarra nas habilidades que a moeda deu à senhora Moon.
As interações entre Sweeney e Laura podem não ter tão pungentes quanto as interações entre Shadow e ela, mas certamente são muito engraçadas, sem contar que, em um programa que parece não ligar nem um pouco para se a audiência está acompanhando a história, ou não, qualquer lugar de onde se possa tirar uma pista das motivações e sentimentos dos personagens com mais poker face é bem vindo.
No caso, toda a conversa de Sweeney com Laura, especialmente suas insinuações de que Shadow não liga mais pra "Esposa Morta" foram o grande indicativo de o quanto Shadow é importante para o pós-vida de Laura, e de o quanto a ausência do viúvo mexeu com ela.
E enquanto Laura e Sweeney resolviam suas desavenças, Quarta-Feira e Shadow tinham seus próprios problemas para lidar.
A despeito de todas as precauções tomadas pela dupla, eles são encontrados pela polícia e presos pelo assalto a banco após cruzarem duas divisas estaduais após uma dica anônima colocar os tiras na porta do motel onde a dupla se escondia.
Óbvio trabalho de inimigos poderosos e com vasto acesso à informação.
E aí chegamos ao que certamente foi o ponto alto do episódio, quando os novos deuses, Technical Boy e Media trouxeram à presença de Shadow e Quarta-Feira Mr. World (o George McFly Crispin Glover).
A despeito de ter mostrado sua cota de forças sinistras ao longo dos últimos quatro capítulos, Deuses Americanos ainda não tinha um antagonista de fato, e Mr. World certamente pode ocupar esse posto com tranquilidade.
Sua visão dos novos deuses combinada com seu tratamento sinistro ao Technical Boy e seu comportamento polido e desarticulado criaram um vilão de estirpe para a série.
Sua proposta de fusão à Quarta-Feira, que, se os espectadores ainda não haviam notado pelo olho de vidro e pelos corvos, é Odin, ilustrada pelo Valhalla cartunesco habitado por unicórnios coloridos criado por Media (que apareceu brilhantemente em forma de David Bowie e Marilyn Monroe no episódio) foi o abraço definitivo de Deuses Americanos à esquisitice, sim, mas também foi a derradeira explanação para a questão de qual o grande conflito do seriado.
Mr. World e os novos deuses substituindo os deuses antigos através de uma visão corporativa e pasteurizada de mundo sem identidade.
O individualismo robusto não tem mais espaço, avisa Mr. World.
Esse é um mundo social e comunitário, onde ninguém existe individualmente, a mídia social, os gadgets, franquias e corporações são a única identidade à qual a humanidade se presta em sua maioria.
Mais do que isso, o encontro com Technical Boy, Media e Mr. World reforçou o papel de Shadow na trama, já que Media deixa bem claro que, nem todo mundo precisa acreditar, apenas pessoas o suficiente, talvez, apenas uma.
O respeito de Mr. World por Quarta-Feira me fez questionar o que aconteceria se o antigo deus dos deuses de Asgard recebesse adoração o suficiente, e, no caso, será que unicamente uma crença, a crença de um incréu como Shadow, poderia fazer toda a diferença?
Outro baita episódio de Deuses Americanos, Lemon Scented You também teve seus percalços.
O pior deles provavelmente foi a cena do interrogatório, que pareceu algo deslocada. Interessante como Audrey serviu, no episódio passado, como um lembrete saboroso da presença de gente normal no mundo de Deuses Americanos, e no episódio seguinte a presença dos detetives fez exatamente o oposto.
E, claro, após lançar uma luz sobre alguns dos mistérios da série, o episódio tinha que enfiar um novo e sinistro elemento na trama, o que diabos (ou deuses) era aquela criatura que agarra Shadow ao fim do capítulo?
A despeito de alguns elementos fora de lugar, o episódio foi bom, e ainda que não tenha alcançado o nível de seus melhores capítulos, manteve Deuses Americanos como aquela série pela qual vale a pena roer as unhas até a semana que vem.
"-Você se meteu em umas merdas bem estranhas, mesmo, Shadow..."
segunda-feira, 29 de maio de 2017
Resenha Filme: War Machine
Quando eu vi o trailer de War Machine, recente parceria entre o serviço de streaming Netflix e a Plan B, produtora de Brad Pitt, eu abri um sorriso satisfeito pensando que, por mais que não fosse original, uma sátira ácida à ocupação militar norte-americana no Afeganistão seria, ao menos, divertida.
Brad Pitt não é mau ator, e quando faz comédia tende a ser ainda mais competente do que quando faz dramas, e o trailer de War Machine acenava com um daqueles palcos perfeitos para Pitt desenvolver um personagem divertido, cheio de tiques e manias, com jeito de falar, andar e olhar característicos em uma história mostrando, de maneira divertida, os absurdos da guerra.
No sábado, acometido de um violento resfriado, e sem ter tido chance de ir à locadora, resolvi assistir ao longa escrito e dirigido por David Michôd, que narra a história do general Glen McMahon (Pitt), que após o início da administração Obama nos EUA, foi chamado para comandar a forças de ocupação da OTAN no Afeganistão.
A ideia é que McMahon fosse até lá para garantir uma eleição presidencial justa, e entregar o país nas mãos de sua nova administração para que os EUA pudessem retirar suas tropas do território afegão.
Com o que os políticos que o convocaram não contavam era com a obstinação pétrea de "Glenimal" McMahon, que não vai ao Afeganistão meramente para comandar uma retirada, mas sim para vencer uma guerra.
Decidido a liderar suas forças à vitória, McMahon precisa entender a realidade da ocupação afegã, com tropas da coalizão dispersas que mal se falam entre si, um exército local absolutamente amador, um presidente sem-noção e uma população que não quer ajuda dos invasores estrangeiros.
Habituado a ser uma referência entre seus pares, General McMahon não se intimida diante das adversidades, e imediatamente começa a planejar sua estratégia para mais um triunfo militar, nem que para isso precise jogar sujo, passar por cima dos colarinho-brancos e até mesmo fazer um tour pela Europa em busca de soldados acompanhado de um jornalista da revista Rolling Stone.
Mas com seu foco tão direcionado à vitória, o carismático general pode esbarrar em um fato que lhe passa despercebido:
A ocupação do Afeganistão é diferente de todas as outras guerras lutadas pelos EUA.
A despeito de não ser um mau filme, War Machine tem um problemas gravíssimo em sua execução: O longa de David Michôd jamais encontra um tom correto para sua narrativa.
Em seu início, o filme corre como uma comédia de erros, apontando a personalidade de McMahon, seus feitos e sua equipe, tudo de maneira cômica, roçando-se no absurdo.
Isso funciona, já que a caracterização de McMahon feita por Brad Pitt se presta ao gênero. O militar de expressão torta, com as mãos retorcidas em uma garra que corre onze quilômetros diários com calções erguidos até o estômago parece um personagem feito pra uma comédia de absurdos.
Um militar à moda antiga jogado em um conflito dos dias de hoje, que é convocado para limpar uma bagunça, mas deseja uma chance de vitória e glória.
O problema é que o filme joga esse personagem, seguido por um séquito composto de militares obtusos e burros, lobistas e relações-públicas, em uma história que jamais decide se quer ser um drama, uma sátira, um documento, ou um filme de guerra e que acaba não sendo nada.
E isso é terrivelmente frustrante.
Especialmente porque a história do filme, baseada no livro de Michael Hastings The Operators: The Wild and Terrifying Inside Story of America's War in Afghanistan, originado de sua reportagem "The Runaway General" para a Rolling Stone, é muito interessante (ainda que não tanto quanto a vida profissional de Hastings, morto em um acidente automobilístico suspeito em 2013, logo após afirmar a amigos que estava trabalhando em uma matéria grande e que os federais estavam interrogando pessoas próximas a ele).
O longa, porém, não consegue aproveitar o potencial do material de origem, e por conta da inconsistência em seu tom, parece uma coleção de recortes onde, casualmente, todas as cenas têm o mesmo elenco.
Em seus melhores momentos, como a discussão de McMahon com o soldado vivido por Lakeith Stanfield, ou sua conversa com o político interpretado por Alan Ruck, War Machine parece pronto pra dar um passo adiante, mas fica apenas na promessa.
Por duas horas o longa tropeça, e a indefinição de como conduzir sua história brocha o elenco (numeroso, com Anthony Michael Hall, Anthony Heyes, Topher Grace, Will Poulter, Meg Tilly, Ben Kingsley, Tilda Swinton, Scoot McNairy entre outros, incluindo uma ponta de Russel Crowe), e a audiência, que jamais vê o filme que War Machine poderia ser.
No terceiro ato do longa, há ao menos uma ótima sequência, que tira um pouco da sensação de coito interrompido do filme, mas ainda assim, é inconsistente para o tom do restante do longa, que de tão incoerente para consigo mesmo, jamais consegue envolver o espectador.
"-Ah, bem, senhor presidente, eu acho que nosso governo simplesmente achou que era hora de nosso esforço tomar uma nova direção.
-E, hã, qual é essa nova direção?
-Ah! É muito importante para mim que nós construamos o Afeganistão. Juntos, tornaremos o Afeganistão em uma nação livre e próspera, livre do medo e do conflito.
-Entendo...
-Sim!
-Entendo... Parece bastante com a "velha" direção."
quinta-feira, 25 de maio de 2017
Não É Para Nós
Eu lamento imensamente informar que não.
Não estamos diante de uma encruzilhada de onde, escolhendo o caminho correto, chegaremos a um Brasil melhor. Não existe Brasil melhor. Pelo menos não no futuro imediato, e quando uso "imediato" falo em gerações, e não em anos.
Nossos filhos e netos não verão o tal "Brasil melhor", lamento informar; nossos bisnetos, tataranetos, talvez, mas apenas se uma mudança muito forte começasse já.
E não falo de reforma previdenciária, ou trabalhista.
Não ouso nem falar em reforma política.
Isso, só não basta.
Nossa classe política, e é nossa, nós os colocamos lá, ninguém chuta a porta pra entrar nessa vida, enfim, nossa classe política vê política como profissão. Carreira.
Não é.
É serviço público.
É uma coisa que ninguém deveria almejar pra sua vida inteira.
É algo que as pessoas deveria se dispôr a fazer por determinados períodos como forma de retribuir o que obtiveram da vida, e então, voltar a tratar de seus assuntos.
Não devia nem ser remunerada. Deveria ser um serviço social voluntários que as pessoas prestariam por períodos sabáticos.
Se candidatou a um cargo público e se elegeu, vai passar o período do mandato, quatro, cinco, oito anos, recebendo o mesmo salário que tu ganha na tua profissão, pago pelo Estado, e nada mais.
Moradia em Brasília, se for o caso.
Ponto.
A partir do momento em que ser político se torna profissão, o político perde o foco. Ele para de advogar pelas causas do povo e passa a tentar manter o emprego. E isso é péssimo.
E a principal razão pela qual não veremos, nem nós, nem nossos filhos e nem nossos netos, um Brasil melhor, é porque o brasileiro vê política como profissão.
Toda a formação prévia ao mandato desaparece. O sujeito deixa de ser advogado, economista, médico ou torneiro mecânico e passa a ser deputado, vereador, presidente, prefeito... E quando está sem mandato ele vira ex-deputado, ex-senador-, ex-governador...
Enquanto as pessoas que fazem parte da classe política seguirem vendo a política como profissão, nós não vamos ter uma classe política minimamente confiável.
Os escândalos continuarão se empilhando, as desavenças políticas continuarão castigando a população que será mantida num aquário de ignorância porque gente burra é fácil de manobrar, e quem tem mais dinheiro seguirá tendo voz enquanto quem não tem nenhum seguirá mudo.
E, sim.
Eu sigo batendo na tecla de que educação é a única forma de mudar nosso país.
E sim, continuo batendo na tecla de que "educação" é infinitamente mais do que instrução formal.
A imensa maioria dos crápulas que mandam no Brasil são instruídos.
Doutores e bacharéis.
E nenhum vale o preço da gravata que usa ao redor do pescoço.
O que faltou a esses vis homens e mulheres foi educação. Não instrução formal, mas aquela educação que trazemos de casa. A fibra moral que famílias são capazes de construir e que a educação formal apenas polirá durante a vida.
A noção de que devemos respeitar a todos igualmente, de que não devemos pegar o que não nos pertence, e que honestidade é obrigação, e não insígnia.
O tipo de educação cada vez mais rara no mundo em geral, no Brasil em particular, onde a fibra moral é tão nula que aí está nossa classe política, um reflexo dolorosamente honesto de um povo que, no geral, é vagabundo, mal-intencionado e preguiçoso.
A grande encruzilhada que estamos não é prender Lula, Aécio, Jucá ou qualquer outro dos sultões do crime organizado que se tornou a política do Brasil.
Porque ano que vem haverá eleições e todos os candidatos serão larápios vagabundos, mal-intencionados e preguiçosos iguais àqueles que porventura tenham sido presos nesse ano.
Nossa melhor alternativa nas eleições 2018 será eleger bandidos diferentes para ao menos ter um rodízio de crápulas.
A nossa encruzilhada verdadeira é começar a abraçar melhores valores morais e passá-los adiante, para que as futuras gerações possam colher os frutos.
Nós, provavelmente não veremos tais frutos florescerem, nem nossos filhos ou nossos netos, mas se começarmos já, talvez nossos bisnetos e tataranetos vejam.
quarta-feira, 24 de maio de 2017
Resenha Série: Deuses Americanos. Temporada 1 Episódio 4: Git Gone
Chegando à metade de sua primeira temporada, Deuses Americanos dispensou a estrutura de episódio com a qual a audiência havia se habituado, das vinhetas com os deuses antigos ao relacionamento entre Quarta-Feira e Shadow, e se concentrou em mostrar um ponto de vista da história que ainda não havíamos visto:
O de Laura Moon (Emily Browning).
Não era difícil saber, após o final de Head Full of Snow, que a falecida ganharia seu espaço ao sol na sequência, o que era difícil de imaginar é que seria num episódio tão bom.
Git Gone nos apresentou a personagem que conhecíamos apenas através da visão idealizada de Shadow como uma mulher infeliz, levando uma vida vazia do trabalho de crupiê em um cassino pra casa, onde vivia com um gato do qual nem sequer gostava, numa existência tão miserável que chegou à uma tentativa de suicídio usando sua hidromassagem e inseticida (da marca "Git Gone", donde o título do episódio).
Quando ela conhece Shadow, ele aparece como um sopro de vida para Laura, um ladrão e trapaceiro charmoso que não liga para as regras e chega a tentar convencê-la a ajudá-lo a roubar o cassino onde ela trabalha, mas não demora para que, conforme a vida com Laura domestique Shadow, ela volte a se sentir infeliz e vazia.
O diretor Craig Zobel, que quebrou a sequência da David Slade, que dirigiu os primeiros três episódios, faz um ótimo trabalho ao mostrar a audiência o tamanho da depressão de Laura e suas consequências, fica bastante claro que Laura se sente amortecida, e que todas as suas decisões são tentando sentir alguma coisa. É por isso que ela leva um ladrão pra casa, por isso ela começa a trair o marido preso com o vizinho, por isso ela resolve participar do roubo ao cassino. Laura era uma variante do adolescente idiota que se corta, ela fazia coisas estúpidas e dolorosas para se lembrar que estava viva porque sua vida não tinha propósito.
Não deixa de ser irônico, então, que após sua morte, quando conhece Anúbis, Laura finalmente ganhe propósito.
E não só isso, como fica claro na sequência que amarra uma ponta solta de The Secret of Spoons, a moeda de Mad Sweeney fez mais do que apenas trazer Laura de volta do túmulo.
Por sinal, a segunda metade do capítulo, que mostra o que aconteceu depois de Laura ter morrido enquanto fazia um boquete em Robbie (Dane Cook) no carro, é menos empolgante do que a primeira, ainda assim, pudemos reencontrar Aubrey, a viúva de Robbie, uma personagem que serve como lembrete de que existem pessoas normais nesse mundo, e o faz de maneira genuinamente engraçada em meio a um episódio pesado, que brecando o andamento da série, deu uma luz importante à Laura, uma personagem que, agora, a audiêcia conhece de maneira muito mais profunda do que Shadow conheceu, e que em Git Gone ganhou um retrato incrivelmente humano e complexo, numa interpretação acima da média de Emily Browning que mostrou que, apesar de ser uma vaca, Laura Moon é uma vaca que somos capazes de entender, mesmo que não sejamos capazes de gostar.
Ao sair do formato utilizado até aqui, Deuses Americanos esqueceu seus protagonistas por um episódio e deixou bastante claro o quão forte é o programa, que não perdeu nada em qualidade, e ainda ofereceu contexto e espetáculo.
Já entrei naquele momento em que estou sofrendo por faltarem apenas quatro episódios pro final da temporada...
"-Eu tentei trepar com Shadow em cima do seu túmulo. Me pareceu justo.
-Era justo..."
terça-feira, 23 de maio de 2017
Resenha Cinema: Rei Arthur: A Lenda da Espada
Alguns anos atrás foi lançado o último filme sobre o rei Arthur de que eu me lembro. Se não me falha a memória, chamava-se apenas Rei Arthur e era estrelado por Clyve Owen, Kiera Knightley, Ioan Gruffud, Mads Mikkelsen... Foi dirigido por Antoine Fuqua e, apesar de diversas boas ideias, não era um bom filme. Ou, ao menos, não era um filme tão bom quanto a lenda do rei Arthur poderia render.
Acho que teve um seriado com a mesma temática entre o Rei Arthur de Owen e Fuqua e esse, de Guy Ritchie e Charlie Hunnam que eu fui assistir ontem, mas, novamente, se minha memória me serve direito, a tal série foi cancelada com uma ou duas temporadas...
Aparentemente a indústria cinematográfica atual não manja de como tornar a lenda de Arthur, Camelot e os Cavaleiros da Távola Redonda um produto atraente para o público consumidor de hoje. Quiçá porque ficam mirando o público consumidor de hoje, composto, em sua maioria, por idiotas.
Mas enfim...
Ontem, com alguns dias de atraso, consegui ir ao cinema ver o novo rei Arthur, não tenho nada contra Charlie Hunnam e gosto dos filmes de Guy Ritchie, por mais que o filme não fosse o rei Arthur que eu sempre quis ver, talvez fosse um rei Arthur temperado com a malandragem rueira inerente aos personagens do cineasta, e resultasse em uma sessão de cinema divertida.
O longa abre nos situando em uma Inglaterra em guerra contra uma nação de magos.
O rei Uther Pendragon (Eric Bana) vê Camelot ser atacada pelas bestas de guerra do mago Mordred (Rob Knighton) e suas tropas bárbaras.
Tudo parece perdido, e o irmão mais novo do rei, príncipe Vortigern (Jude Law), chega a tentar convencer seu irmão de que uma rendição seria aceita pelo mago.
Mas Uther não está interessado em rendição. Ele monta em seu cavalo branco e avança contra os elefantes de Mordred, que têm o tamanho do Godzilla, invade a fortaleza que as grandes bestas carregam nas costas, e, usando a espada Excalibur, presente do mago Merlin ao rei, põe fim à ameaça.
Ou ao menos é o que ele pensa.
Pois toda a provação pela qual Camelot passou não foi em vão, mas sim orquestrada por Vortigern, que convenceu os magos a lançar guerra contra Camelot para tomar a coroa do irmão mais velho. E a morte de Mordred não encerrou os planos nefastos do príncipe.
Com seu plano inicial arruinado, Vortigern se dispõe a arriscar tudo em nome de uma contingência, nem que, para isso, precise sacrificar aquilo que mais ama, e até mesmo sua alma.
O príncipe sucede em seu intento, e elimina Uther e sua esposa, mas o herdeiro do rei, o pequeno Arthur, consegue escapar, e de Camelot, vaga pelas águas do Tâmisa até a cidade de Londinium, antiga capital romana na bretanha, onde é encontrado por uma prostituta, e cresce em um bordel, aprendendo tudo o que as ruas têm a ensinar, se fortalecendo e, à sua maneira, se tornando um líder ao atingir a idade adulta (e ganhar a cara de Charlie Hunnam).
Tudo isso enquanto Vortigern reina soberano sobre toda a Inglaterra, ao menos até as águas ao redor de Camelot baixarem repentinamente, revelando a presença de Excalibur, a qual todos julgavam perdida, a herança de Uther, que pode pode trazer de volta o Rei de Nascença.
E quando todos os jovens da Inglaterra são levados à Camelot para testar sua sorte, isso inclui Arthur que, ao puxar a espada da pedra, vê sua vida virar de cabeça pra baixo.
Imediatamente começa uma corrida, de um lado Vortigern, tentando impedir a ascensão de seu sobrinho perdido, de outro, a rebelião composta por antigos cavaleiros fiéis a Uther, como Bedivere (Djimon Hounsou), Bill Ensebado (Aidan Gillen), Percival (Craig McGinlay) e uma misteriosa maga (Astrid Bergès-Frisbey), que tentam levá-lo ao trono.
Mas o que fazer quando o próprio Arthur não parece interessado no trono, na coroa e especialmente n'A Espada?
Infelizmente Rei Arthur: A Lenda da Espada não funciona.
O longa está repleto de boas ideias, sacadas interessantes e uma interpretação promissora da lenda de Arthur acenando com o que poderia ter sido um divertido longa de espada e magia que acaba soterrado pelo excesso de estilismo que faz a forma ruir pesadamente sobre o conteúdo.
Em certas sequências temos a impressão de que o roteiro (de David Dobkin, Joby Harold, Guy Ritchie e seu colaborador habitual Lionel Wigram) foi filmado sob o efeito de crack porque simplesmente não há justificativa para as coisas ficarem tão aceleradas. A omada do trono da Inglaterra é tratada como um filme de assalto, juntando uma equipe multicultural com habilidades distintas para aplicar o golpe, há monstros gigantes por todos os lados e a edição é surtada enquanto a história é, por vezes, aborrecida, fazendo o filme parecer uma lesma que cheirou cocaína.
E é uma pena.
Há um bom elenco, uma história que ainda carece de sua grande versão na telona, e Guy Ritchie é um cineasta cujo estilo parece feito pro revisionismo, mas as coisas simplesmente não funcionaram em Rei Arthur: A Lenda da Espada, que, cheio de explosões, incêndios, lutas, correria e malandragem é o mais longo filme de duas horas que eu assisto em muito tempo, e que misteriosamente quase desaparece da mente assim que saímos do cinema.
Se estiver muito curioso, espere o DVD.
"-Você me perguntou o que me deu direção... Foi você."
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