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segunda-feira, 12 de junho de 2017

Resenha DVD: Um Limite Entre Nós


Se ao assistir Um Limite Entre Nós tu tiver a impressão de estar vendo teatro filmado, não se alarme.
Provavelmente era a intenção do diretor/protagonista Denzel Washington ao revisitar a peça que ele próprio estrelou em mais de cem apresentações em 2010, levar o trabalho do dramaturgo August Wilson, responsável pelo script do espetáculo, para uma audiência mais ampla.
Dito isso, Washington faz um ótimo trabalho de direção ao não adulterar a experiência de assistir à uma peça em sua adaptação. Excetuando-se um punhado de cenas, quase toda a história de Um Limite Entre Nós (Estúpido título em português para o original Fences, que em bom português significa "cercas", um conceito recorrente na trama) se passa dentro da casa de Troy Maxson (Denzel Washington), ou no quintal da mesma.
O longa narra como Maxson, um lixeiro de Pittsburgh, tenta criar sua família nos anos cinquenta. Ele está há anos no departamento sanitário, e sua rotina se tornou bastante repetitiva. Todos os dias Troy se levanta de manhã e toma o rumo da capatazia, onde se pendura na traseira do caminhão e percorre a rota jogando o conteúdo das lixeiras na caçamba enquanto conversa com seu bom amigo Bono (Stephen Henderson), ele segue essa rotina até a sexta-feira, quando recebe seu salário semanal, compra uma garrafa de gim e vai pra casa jogar conversa fora com o colega no quintal enquanto bebe no final da tarde.
Troy ama uma plateia e ama contar histórias, seja sobre como fez um pacto com o diabo para mobiliar a casa, seja como ele lutou com a própria Morte enquanto jazia com febre em uma cama de hospital, seja sobre a maldade de seu pai, um catador de algodão do Alabama.
Outra coisa que Troy ama é o beisebol, esporte no qual fora um prodígio das ligas negras que, devido à segregação racial, jamais teve a oportunidade de jogar como profissional, e Rose (Viola Davis), sua esposa e companheira pelos últimos dezoito anos.
Sempre que as narrativas de Troy começam a se tornar excessivamente divergentes da realidade, Rose surge na varanda e endireita o rumo da história.
Troy tem um irmão mais novo, Gabe (Mykelti Williamson), um veterano da Segunda Guerra que voltou do fronte do Pacífico com um ferimento na cabeça que o tornou deficiente, mas que se mudou recentemente da casa de Troy numa demonstração de independência que o irrita profundamente, um filho de outro casamento, Lyons (Russell Hornsby), que eventualmente aparece para tomar algum dinheiro emprestado já que sua carreira como músico não anda muito bem, além de um filho mais jovem, Cory (Jovan Adepo), que aos dezessete anos de idade sonha em obter uma bolsa de estudos universitária jogando futebol americano, algo que Troy não vê com bons olhos.
A vida de Troy é aguardar pela sexta, quando ele pode ir ao bar com seus amigos, flertar com mulheres e beber sem precisar se preocupar em acordar cedo na manhã seguinte.
Essa rotina emoldura uma história sobre relações familiares nas classes trabalhadoras, numa realidade que, nos EUA pode parecer dura, mas para os padrões brasileiros é uma boa vida.
Troy trabalha como lixeiro e nunca tem dinheiro sobrando, mas ele consegue colocar comida na mesa, eventualmente afiançar o irmão que é preso por perturbação da paz, vive em uma casa de três andares com um pequeno quintal que comprou graças à pensão do irmão deficiente, é verdade, mas que é sua, e seu filho tem a chance de ir à universidade.
A dureza da vida de Troy é sopa no mel pra maioria dos brasileiros.
Não.
A verdadeira carga de Um Limite Entre Nós é o legado que Troy está deixando para seus filhos, o peso dos sonhos não realizados e das chances que jamais se consumaram.
O dano que a fuga da rotina que assombra Troy causa em sua vida familiar. E isso independe de classe social.
O longa é sobre como cada pessoa é um produto de seu ambiente, e de como esse ambiente é a grande contribuição de nossos pais à formação de nossa personalidade. Algo que fica dolorosamente claro quando Rose sentencia a Cory que ele é igualzinho ao pai.
É tudo o que Cory não queria. Mas a sombra de Troy, que o perseguia em cada cômodo da casa, o apunhalou e se alojou nele, moldando seu caráter.
A última cena do filme deixa isso bastante claro de uma maneira tão bela quanto devastadora.
Obviamente um drama familiar desse calibre é tudo o que atores como Denzel Washington e Viola Davis podiam querer.
Os dois reprisam os papéis que interpretaram no teatro (à exceção de Cory e Raynell todos os atores são egressos da versão da Broadway) e simplesmente destroem nas interpretações.
Troy Maxson é um papel sob medida para os maneirismos de Washington, que suaviza as facetas mais pérfidas do personagem de modo a mantê-lo charmoso, divertido, com sua fala mansa e seus maneirismos ajuda a entender porque Rose permanece com ele a despeito de suas falhas de caráter.
Viola Davis é outra monstra, ela, que trapaceou bonito ao se candidatar como "atriz coadjuvante" e aumentar exponencialmente suas chances de vitória no Oscar é magnética. A cena do choro no trailer, sozinha, já era melhor que atuações de outras atrizes em filmes inteiros, e Viola Davis vai muito além do choro. Ela é terna quando tenta suavizar as arestas de Troy, austera quando cria seus filhos, e parece uma mulher de gelo quando Troy a desaponta.
E se Washington e Davis têm mais tempo na ribalta, não se engane, há espaço para todo mundo brilhar, ao menos uma cena onde cada um dos personagens, do afável Lyons de Hornsby ao rebelde Cory de Adepo, passando pelo sábio Bono de Henderson e o complicado Gabriel de Williamson, que poderia facilmente virar uma caricatura, todos os personagens ganham a atenção da câmera de Denzel Washington para entregar ao menos um grande momento.
Com a cinematografia esperta de Charlotte Bruus Christensen, trabalho seguro de Washington em seu terceiro longa como diretor, e um esforço de elenco espetacular, Um Limite Entre Nós perde um pouco de seu potencial de crítica social quando visto por uma audiência habituada às agruras da vida em um país de terceiro mundo, mas o peso do drama humano permanece intacto, garantindo 138 minutos de pujança emocional em um longa que merece audiência.
Assista. É um belíssimo filme.

"-Algumas pessoas erguem cercas para manter as pessoas fora. Outras as erguem para manter as pessoas dentro."

Resenha DVD: John Wick: Um Novo Dia Para Matar


Há uma piada recorrente entre fãs de cinema a respeito das minguadas capacidades artísticas de Keanu Reeves, um astro de cinema sem tirar nem pôr, mas, segundo o senso comum, um ator de médio pra menos.
Eu, particularmente, sempre gostei dos filmes de Reeves, ou ao menos gostei de Reeves em seus filmes, até as porcarias como O Dia em que a Terra Parou, Os Reis da Rua e A Casa do Lago, filmes menores, ou mal executados onde a presença de Reeves, que exala uma qualidade cool que independe de talento dramático, atenua a jornada, por vezes, indigesta.
Reeves não precisa ser bom ator, porque é boa pinta, carismático e tem presença de astro de cinema.
Por isso nós seguimos indo ao cinema para ver coisas como 47 Ronins, e paramos pra ver Matrix toda a vez que está repetindo na TNT.
Mas nesse final de semana, fiz uma maratona de John Wick, os dois longas, de 2014 e desse ano um após o outro, e percebi que chegar aos cinquenta anos, ainda que não tenha mudado a fisionomia de Reeves em nada, o fez amadurecer como ator de uma maneira curiosa.
Keanu Reeves não se tornou Jack Nicholson, acredito que jamais desejou sê-lo, mas ele alcançou uma maturidade e um senso de si mesmo que fazem com que sua expressão corporal diga tudo o que a sutileza de suas expressões faciais eventualmente não diz.
O diálogo de Reeves é escarço nos dois filmes, ainda assim, seus rosnados, acenos e a forma como ele luta dizem tudo o que o anti-herói está pensando, e nos mostram tudo o que ele é.
É difícil não achar espetacular que o diretor (e ex-dublê de Reeves em Matrix) Chad Stahelski, tenha sido capaz de criar uma atmosfera para aproveitar essa faceta do talento de Reeves, além de sua fisicalidade quase bailarina para sequências de ação e, claro, sua presença de tela nos dois longas.
John Wick: Um Novo Dia Para Matar, cretino título em português de John Wick: Chapter 2 abre quase que imediatamente após os eventos do primeiro longa, quando o legendário matador de aluguel vivido por Reeves saiu da aposentadoria após a viuvez para se vingar dos marginais que roubaram seu carro e mataram seu cachorro.
Apesar de já ter matado todos os responsáveis diretos e indiretos pelo crime, Wick ainda precisa recuperar seu cabuloso Mustang.
É nessa sequência de abertura, com a participação de Peter Stormare vivendo o irmão de Viggo Tarasov, personagem de Michael Nyqvist no primeiro longa, que somos lembrados da profundidade da lenda de John Wick.
O bicho-papão do submundo dos matadores de aluguel é uma força tão inexorável que, quando ele quer sua cabeça, tudo o que você pode fazer é sentar no escuro e rezar.
Mas Wick não foi atrás da cabeça de Abram Tarasov. Ele foi atrás de seu carro.
E após eliminar uma dúzia de capangas, ele oferece paz ao mafioso, que, incrédulo, aceita.
John volta para sua casa confortável, para viver entre as lembranças de sua esposa (Bridget Moynahan) ao lado de seu pitbull sem nome.
Ele enterra novamente suas armas e moedas de ouro, e se prepara para voltar à sua aposentadoria.
Mas a aposentadoria parece um objetivo impossível para John, pois ele imediatamente recebe a visita de Santino D'Antonio (Riccardo Scamarcio), um poderoso mafioso que tem uma Promissória de John, após tê-lo ajudado a sair da vida de matador, e a utiliza para pedir um serviço.
Inicialmente, John nega, mas as Promissórias, assim como tudo mais na admirável mitologia desse submundo de matadores do Wickverso, é uma obrigação pétrea, e após ter sua casa explodida, John repensa sua resposta, e aceita o trabalho.
Infelizmente, porém, realizar a tarefa que D'Antonio lhe deu não é o caminho para a paz que John supunha. E ele não tarda a se ver enredado em uma teia de traição que coloca sua cabeça a prêmio novamente, e todos os assassinos de Nova York em seu encalço, o forçando a permanecer em movimento e encerrar o contrato contra si da única maneira que sabe:
Matando todos aqueles que são burros o suficiente para ficar em seu caminho.
John Wick: Um Novo Dia Para Matar não é um filme tão redondinho quanto o primeiro longa com sua trama de vingança reta e direta, ainda assim é tão repleto de qualidades que fica difícil não se surpreender.
O longa escrito por Derek Kolstad, mesmo roteirista do primeiro longa (Já notaram que a quantidade de escritores é sempre inversamente proporcional à qualidade do filme?) é audacioso, divertido e violento, equilibrando a brutalidade das geniais cenas de ação com um sarcasmo cheio de personalidade dosado na medida e uma mitologia que dá uma surra de relho em qualquer remake e em muitas das adaptações de quadrinhos e livros que vemos inundando o cinema temporada após temporada.
Mesmo se o longa não fosse tão bem equilibrado quanto é em sua proposta, já seria um deleite poder andar novamente pelos obscuros corredores do labiríntico mundo dos assassinos desse universo cheio de regras, promessas de sangue e casas-seguras onde questões profissionais não devem entrar e pessoas que tentavam explodir a cabeça uma da outra cinco minutos antes podem sentar e cordialmente dividir uma bebida. Salas de informação com computadores que parecem rodar DOS sendo operados por telefonistas meio pin-up meio suicide girl, alfaiates que após perguntar a quantidade de botões do terno, o caimento das calças, e se o traje é para dia, ou noite, mostram o poder da blindagem entre as camadas de tecido, e o sommelier não é versado em vinhos, mas sim em armas que ele recomenda como se fossem as etapas de um banquete.
Sim.
É meio brega e sem sentido, mas é divertido, e, na realidade do Wickverso parece natural. Especialmente quando vemos Reeves usando um fino terno negro para se proteger de disparos de escopeta na cara enquanto atravessa mares de capangas letais como se fosse uma faca cortando um bolo.
O elenco manda bem demais, e todos parecem genuinamente se divertir fazendo seus papéis, dos egressos do primeiro longa Ian McShane, John Leguizamo e Lance Reddick aos novatos Franco Nero, Peter Serafinowicz, Common, Ruby Rose e Laurence Fishburne (Sim, Neo e Morpheus se reencontram em John Wick 2), cada um deles crava os dentes com vontade nesses personagens que são unidimensionais de uma maneira tão franca que não podemos evitar de gostar deles e dos sabores diversos que trazem ao desenvolvimento da trama.
Mas por mais que tudo seja bacana em John Wick: Um Novo Dia Para Matar, o grande diferencial do longa é a ação. E Chad Stahelski manja demais do riscado.
Contando com a visão do cinematógrafo Dan Lausten e o compromisso de Keanu Reeves ele transformm cada sequência de luta em um balé tão gracioso quanto violento que acompanhamos sem cortes excessivos, muitas vezes em belíssimos planos-sequência que transcorrem diante dos olhos da audiência que vê o quão versado é John Wick em seu ofício.
As sequências embaladas pelo som de ossos quebrando e sangue jorrando jamais são repetitivas, Stahelski e Kolstad sempre têm um ângulo diferente, uma abordagem diferente, um estilo diferente para chegar à história que aquela luta em particular conta.
É bacana ver um filme de ação que se preocupa em utilizar a expressão corporal da forma que John Wick faz.
Cada personagem que cai na porrada o faz com sua própria voz. Ares, a personagem de Ruby Rose, luta como uma fera, cheia de movimento exaltado, amplo, quase histérico. Cassian, o assassino vivido por Common, é direcionado, seus golpes são secos e parecem sempre estar tentando terminar a luta o mais cedo possível. E Wick é todo elegância e precisão, saindo das sombras para tragar os malfeitores em seu caminho como um Batman de paletó de dois botões que não pensa duas vezes antes de encerrar cada conversa com uma bala no crânio ou uma facada no peito. E Reeves o torna verossímil, ao menos neste mundo criado por Derek Kolstad, pois além de ser um ator que amadureceu e que usa a fisicalidade como voz, Reeves é um apaixonado pelo gênero que consegue percorrer distâncias que outros heróis de ação não conseguem.
John Wick: Um Novo Dia Para Matar é um programaço, o melhor longa de ação do ano até aqui, e deixa margem para uma sequência pela qual eu já estou ansioso.
Assista, vale demais a pena.

"-Quem quer que venha, eu vou matá-los. Eu vou matar todos."

sábado, 10 de junho de 2017

O Primeiro Trailer de Pantera Negra

E conforme prometido ontem a Marvel divulgou o primeiro trailer de Pantera Negra, identidade super-heroica de T'Challa, rei de Wakanda, que fez seu debute cinematográfico em Capitão América: Guerra Civil na pele de Chadwick Boseman.
Confira abaixo a prévia que mostra Everett Ross (Martin Freeman), Ulisses Klawe (Andy Serkis), Michael B. Jordan (Erik Killmonger), além de Lupita Nyong'o, Forrest Whitaker entre outros em meio à gloriosa nação africana que possui a maior tecnologia do mundo.



Maneiro, né?
Dirigido por Ryan Coogler, de Fruitvalle Station e Creed: Nascido Para Lutar, o longa chega aos cinemas em fevereiro do ano que vem.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Resenha Série: Deuses Americanos. Temporada 1 Episódio 6: A Murder of Gods


Atenção, há spoilers!
Deixe-me abrir essa resenha dizendo que eu acho uma puta sacanagem uma série cuja temporada tem apenas oito episódios se dar ao luxo de ter fillers.
A Murder of Gods, esse sexto capítulo de American Gods só não foi um filler autêntico porque foi um episódio bom, mas a verdade é que não avançou em absolutamente nada a história e não nos deu nenhuma nova informação, exceto que a árvore que atacou Shadow no último capítulo é o senhor Madeira.
Mas, conforme eu disse antes, a despeito de ser um filler, A Murder of Gods ainda foi um bom capítulo. Desde a abertura com a vinheta "Chegando à América" estrelada pelo Jesus mexicano mencionado por Quarta-Feira em Head Full of Snow, um segmento que não tinha como ser mais atual e que, em sua conclusão, se mostrou absolutamente integrado ao restante do episódio.
Após escaparem da delegacia no capítulo anterior, Shadow e Quarta-Feira voltam ao motel e seguem viagem, deixando para trás Laura.
Aparentemente a esposa morta é um obstáculo que Quarta-Feira quer evitar a qualquer custo, tanto que ele literalmente corre pra deixar ela pra trás e seguir sua viagem.
A próxima parada dos protagonistas é a cidade de Vulcan, na Virgínia, onde eles encontram... Bem, Vulcano, ou Hefesto, como ele era conhecido na mitologia grega, antes de ser rebatizado pelos romanos, o deus do fogo e das forjas.
Vulcano vive uma vida confortável na pequena cidade americana, toda construída ao redor da fábrica onde são fabricadas munições e armas diversas.
A cidade, por sinal, é brilhantemente apresentada como uma cidadezinha do meio-oeste americano capitaneada por Leni Riefenstahl, com suas ruazinhas estreitas à sombra das chaminés habitadas por pessoas de todas as idades portando armas de todos os calibres com faixas vermelhas ostentando o logo da fábrica no braço.
Lá, o antigo deus do fogo encontrou seu lugar, "cada bala disparada", diz ele, "é uma oração a mim", "cada troteio em um cinema lotado, um sacrifício em meu nome".
Não fica difícil sacar que Vulcan, que desrespeita Quarta-Feira e fala misturando termos corporativos e religiosos já tem sua lealdade empenhada, e não estará ao lado dos velhos deuses em Wisconsin, especialmente após forjar uma espada para o maquinador de toda a rebelião.
Isso é metade do episódio, a outra metade mostrou um novo grupo se formando, Laura e Mad Sweeney se reencontram, e tentam roubar um velho táxi.
O táxi que Salim herdou do Jinn em Head Full of Snow.
Os três, então partem juntos, já que o leprechau diz à Laura que pode encontrar alguém capaz de ressuscitá-la, para que ela não precise mais da moeda da sorte dele, e diz a Salim que pode ajudá-lo a encontrar o Jinn em troca de uma carona.
Por divertidas que sejam as interações maldosas entre Sweeney e Salim e Laura, vou confessar que esse segmento me parece uma tremenda encheção de linguiça.
Laura procura seu lugar no mundo. OK, entendemos. Mas precisamos de metade de um episódio dedicada à ela?
O arco que ela protagoniza não tem metade do peso do arco de Shadow e Quarta-Feira, então fica a torcida para que Laura, Sweeney e Salim sejam mais do que apenas alívio cômico haja vista o tempo de tela que o trio tem.
Apesar dos pesares, A Murder of Gods foi mais um bom episódio de Deuses Americanos, mostrando que o programa mantém espaço em sua mitologia singular para falar de temas tão atuais como crise migratória, um assunto recorrente em uma série sobre deuses estrangeiros que chegam à América, quanto violência com armas de fogo.
E, pra não dizer que não acrescentou nada ao rol de informações às quais a audiência tem acesso, nos ensinou que não é apenas através do esquecimento de seus fiéis que um deus pode morrer.

"-Deus é ótimo.
-A vida é ótima."

Resenha DVD: Silêncio


Martin Scorsese manja do riscado.
Ponto.
Se o nome do sujeito está ali, do lado da palavra "diretor", isso significa que tu pode ficar tranquilo e ir assistir ao filme porque ele é bom pra caralho.
Ponto.
E a única razão para eu não ter corrido pro cinema e assistido Silêncio na estréia, foi porque ela se deu quando eu já estava de férias na praia, e ele não permaneceu tempo suficiente em cartaz para que eu o visse ao voltar.
Para minha sorte, esse foi um dos filmes que eu ainda não havia visto que estavam pendurados na estante da locadora no sábado de tarde, e eu consegui colocar minhas garras nele.
O longa narra a história de dois jovens padres jesuítas portugueses, Sebastião Rodrigues (o Homem-Aranha Andrew Garfield) e Antonio Garupe (o Kylo Ren Adam Driver), que em 1637 recebem de seu superior, padre Valignano (Ciarán Hinds) a notícia de que o mentor de ambos, o jesuíta Cristóvão Ferreira, após ser exposto aos terrores da perseguição do Estado ao cristianismo no Japão, cometeu apostasia, e abandonou o clero.
Nenhum dos dois jovens consegue conceber a ideia de que Ferreira possa ter enveredado por tal caminho, especialmente quando seu último contato, uma carta que precisou ser contrabandeada até Portugal, não narra absolutamente nada que possa levar os religiosos a acreditar em tal boato.
Imediatamente os dois se voluntariam para viajar ao Japão e lá, aumentar o rebanho de nosso Senhor enquanto tentam descobrir o paradeiro e o verdadeiro destino do padre Ferreira.
Viajando para a China, e partindo clandestinamente de Macau à costa japonesa, os dois jovens clérigos acompanhados de seu guia, o bêbado atormentado Kichijiro (Yôsuke Kubozuka), um cristão que abandonou a fé, chegam à uma terra onde os cristãos são tão devotados quanto perseguidos, e onde o Xogunato Tokugawa não economizou em crueldade para impedir e expansão da fé que chegara importada da Europa.
Uma vez nas terras nipônicas, Rodrigues e Garupe são recepcionados por cristãos japoneses ansiosos por serem arrebanhados por um autêntico pastor de Jesus, essas pessoas, humildes camponeses arriscando sua vida em nome da fé, abrigam e alimentam aos dois jesuítas, que na calada da noite passam a celebrar missas, ouvir confissões e celebrar batizados.
Não tarda para que a vontade de ambos de procurar por Ferreira vá ao encontro das visitas das autoridades locais, que chegam ao vilarejo onde eles se escondem para punir os cristãos.
Após testemunhar os horrores aos quais os fiéis são expostos, Rodrigues e Garupe precisam fugir, e se separam, pois há outras vilas onde os "kirishitan" precisam do apoio de um sacerdote.
Enquanto Garupe fica no vilarejo onde ele e Rodrigues se esconderam primeiro, o segundo parte em uma nova viagem, que culmina com sua captura pelas autoridades locais.
E se Sebastião achava que estava passando por uma provação até ali, a partir de então ele mergulha em um verdadeiro inferno enquanto é confrontado com os tormentos que lhe são preparados pelo inquisidor Inoue-sama (Issey Ogata) para convencê-lo a incorrer em apostasia.
Uma dolorosa jornada que o fará questionar suas convicções, a validade de sua missão no Japão e a sua própria fé.
Espetacular.
Adaptando o romance de Shusaku Endo, Scorsese e seu co-roteirista Jay Cocks criam uma experiência visceral de dor e comprometimento.
O diretor mantém sua câmera à distância do sofrimento dos protagonistas garantindo que a audiência não tenha escapatória exceto encarar o horror e se colocar no lugar de Rodrigues e no de Ferreira antes dele, que além de serem torturados são obrigados a assistir a tortura e a morte dos cristãos que se recusam a cometer sacrilégio, e depois mesmo daqueles que se sujeitam à pisar nas imagens sacras e cuspir em crucifixos.
Scorsese não oferece respostas às perguntas que Silêncio suscita. Apenas dá à audiência ferramentas para escolher suas próprias conclusões.
O roteiro incrivelmente é equilibrado o suficiente para não demonizar os japoneses à despeito das atrocidades que eles cometem.
Os personagens de Ogata e de Tadanobu Asano ganham espaço para expôr seus pontos de vista e por mais que não sejamos capazes de concordar com seus métodos, não podemos negar a legitimidade de sua oposição ao crescimento da fé cristã no Japão.
Scorsese também não santifica seu protagonista.
A jornada de Rodrigues é repleta de falhas, dúvidas e medo.
Ele é um ser humano em terra estranha, passando por experiências que o fazem questionar todo o fundamento do que ele tinha como sua mais constante característica, a fé. Rodrigues é desconstruído por sua experiência, e reage à altura.
A interpretação de Andrew Garfield é acertada, comedida, tão boa ou melhor do que sua performance indicada ao Oscar em Até o Último Homem. Adam Driver tem pouco tempo de tela, mas também manda bem demais, e Liam Neeson dá um tempo em seu momento de action-hero pra relembrar ao mundo que sabe e muito, atuar.
Sua primeira aparição, em uma longa e silenciosa tomada, mostra a face desesperada de um homem alquebrado. E quando ressurge no terceiro ato do filme, vemos a profundidade do trauma das experiências pelas quais passou.
O elenco japonês também tem destaques. Os principais provavelmente são Yôsuke Kubozuka, praticamente um exemplo vivo do que Inoue-Sama tenta explicar à Rodrigues, além de Shin'ya Tsukamoto e Yoshi Oida, os aldeões cristãos que recebem aos jesuítas quando chegam ao Japão.
Com trabalho de primeiríssima categoria do elenco, parte técnica acima da média, trilha sonora minimalista como o título do longa pede, e um roteiro e direção sensacionais, Silêncio é mais uma obra-prima de Scorsese, estranhamente esnobada pela temporada de premiações mais política dos últimos anos.
Não tem problema. Scorsese não precisa de mais láureas, mas Silêncio é um filme que merece audiência.
Assista.
É um dos melhores, se não o melhor filme lançado no Brasil esse ano.

"Me sinto tão tentado. Me sinto tão tentado ao desespero. Eu tenho medo. O peso de Seu silêncio é terrível. Eu rezo mas estou perdido. Ou estou apenas rezando pra nada. Nada. Porque Você não está lá."

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Resenha DVD: Assassin's Creed


Assassin's Creed, o game da desenvolvedora franco canadense Ubisoft que deu um respiro aos games estilo sandbox antes de se perder em si própria alguns anos atrás era um jogo tão cinematográfico que, francamente, me surpreende que não tenha virado filme mais cedo.
O primeiro game, de 2008, narrava a história de Desmond Miles, um bartender que era sequestrado pelo conglomerado industrial Abstergo e colocado em um aparato tecnológico chamado Animus para reviver as memórias de um ancestral, o assassino Altaïr Ibn La-Ahad, que durante as cruzadas se envolveu em uma guerra contra os templários para proteger um artefato de grande poder chamado de Pomo do Éden.
O game misturava luta com espadas, parkour, escalada e investigação em um ambiente de mundo aberto e, a despeito de ser um bocado repetitivo, foi o embrião de uma bem-sucedida franquia que se estende por dez anos com, pelo menos, um título lançado anualmente.
Quando foi anunciado que o game viraria filme, eu não fiquei surpreso. Surpreso eu fiquei quando descobri que Michael Fassbender seria o produtor e protagonista do longa.
E quando descobri que ele seria dirigido por Justin Kurzel, de Macbeth: Ambição e Guerra.
Não me lembro ao certo o motivo pelo qual não fui assistir Assassin's Creed no cinema em janeiro. É possível que eu tenha refugado ante a negatividade das críticas, ou que eu simplesmente tenha resolvido deixar pra depois e procrastinei até o filme sair de cartaz já que em janeiro eu acho que só fui ao cinema duas ou três vezes.
No sábado, após duas semanas sem conseguir passar na locadora, apanhei logo três filmes, e um deles foi justamente a adaptação da série dos matadores que trabalham nas sombras para servir à luz.
O longa começa na Espanha, em 1492, com a iniciação de Aguilar de Nerha (Michael Fassbender) na melhor tradição dos games. Em um sombrio quartel da ordem, ele presta seu juramento, e abre mão de seu dedo anular para brandir a lâmina oculta dos assassinos.
Daí corta para os anos oitenta. O pequeno Callum Lynch (Angus Brown) tenta executar proezas com sua bicicleta, saltando entre contêineres e telhados, após algumas tentativas frustradas, ele chega em casa e descobre o corpo de sua mãe, morta à mesa. Ao lado dela, o pai do menino está parado, segurando uma lâmina ensanguentada junto ao pulso. Ele ordena ao menino que fuja conforme utilitários pretos começam a cercar a casa.
O menino obedece.
Estamos no presente. Callum , já adulto (e com a cara de Michael Fassbender) aguarda a injeção letal, pena à qual foi condenado por assassinato. Ele recebe a visita de um padre, e brinca com o fato de que será executado em seu aniversário.
Quando recebe a injeção, ele experimenta breves alucinações antes de perder os sentidos.
Mas Callum não está morto.
Ele desperta em uma instalação industrial, onde a doutora Sophia Rikkin (Marion Cotillard) lhe explica que ele está legalmente morto. Callum, recebe a explicação de que foi sequestrado pela Abstergo, e que em seu DNA está a chave para a localização de um artefato que contém a semente da desobediência do Homem. E que de posse de tal objeto, a Abstergo, empresa que serve de fachada aos modernos templários, poderá, finalmente, acabar com a violência e trazer paz ao mundo.
Callum é levado até um moderno aparato em forma de garra, e lá, é levado a reviver as memórias de seu ancestral, Aguilar de Nerha, assassino espanhol do Século XV, que durante a Inquisição Espanhola precisa impedir que Tomás de Torquemada use o filho do sultão Muhamad XII, príncipe Ahmed de Granada, como moeda de troca para obter o Pomo do Éden.
Callum, então, é exposto a sucessivas sessões no Animus, ao mesmo tempo em que descobre que a instalação para onde foi levado abriga vários outros como ele, pessoas que descendem de assassinos, tais como Moussa (Michael K. Williams), que descende de um envenenador vodu chamado Baptiste, e seu próprio pai (agora vivido por Brendam Gleeson), que tentam convencê-lo a sabotar a busca dos templários, que pode pôr fim ao credo dos Assassinos, e, mais do que isso, ao livre arbítrio da humanidade.
Mas será que Callum, cheio de ódio pelos assassinos por conta do destino de sua mãe, irá acreditar nas palavras dos membros da ordem, ou ele será seduzido por Sophia e seu pai, Allan Rikkin (Jeremy Irons) e entregar a arma definitiva à Ordem dos Templários?
Eu me lembro de, quando as peças todas foram reveladas a respeito de Assassin's Creed pensar que o longa provavelmente seria o filme de videogame a dar um passo além com relação ao bom Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos.
Eu, de fato, imaginei que o longa, com grande elenco, bom diretor e uma fonte genuinamente cinematográfica tinha todas as peças para ser um divisor de águas para as adaptações de videogames para cinema.
Mas não.
Infelizmente Assassin's Creed não decola.
O longa esbarra no mesmo problema que tantas outras adaptações de games:
A ausência da ação mão-na-massa, da interatividade de ter o controle do protagonista nas mãos na hora do vamos ver.
Com isso, o longa se torna um festival de falatório expositivo entrecortado por sequências de ação que, por mais bem intencionadas que sejam, pouco têm a oferecer em termos de novidade, soando sempre requentadas.
Chega a ser incômodo ver Fassbender, Cotillard, Williams, Irons, Labed e Charlotte Rampling perdidos no meio do festival de métodos extravagantes de alcançar suas agendas sinistras que os personagens, todos porcamente construídos e emocionalmente rasos feito pires, vomitam constantemente.
Ninguém parece real, nós não ligamos para nenhum desses simulacros, porque tudo o que eles fazem é avançar a história e dispensar informação narrativa crucial pra manter a audiência mais ou menos inteirada do que está acontecendo, mas a verdade é que, o resultado final é tão embaraçoso que talvez fosse melhor não estar tão por dentro de tudo e poder dar ao filme o benefício da dúvida. "Talvez eu não tenha entendido essa parte, por isso não gostei...".
Não é o caso, porém.
Assassin's Creed não é denso ou complexo, sequer é hermético.
É apenas vazio.
Pena.

"-Onde outros homens seguem cegamente à verdade, lembre-se...
-Nada é verdadeiro.
-Onde outros homens são limitador por sua moralidade ou lei, lembre-se...
-Tudo é permitido.
-Nós trabalhamos nas sombras para servir à luz.
-Nós somos assassinos."

Resenha DVD: Quatro Vidas de um Cachorro


Acredito que todo mundo tenha ficado cinte da celeuma que se formou em torno de Quatro Vidas de um Cachorro pouco antes do lançamento do filme, quando o site TMZ divulgou um vídeo onde um pastor alemão era coagido a saltar na água contra a sua vontade para uma cena do longa.
Houve divisão na opinião pública, com gente achando normal que, eventualmente o cão fosse obrigado a agir contra seus instintos durante as filmagens (sabemos que praticamente todos os cães domésticos são forçados a agir contra seus instintos todos os dias em maior ou menor grau), enquanto outras pessoas, e especialmente organizações de proteção animal exigiram até mesmo que o longa fosse embargado e boicotado por partidários dos direitos dos animais.
Seja como for, a má exposição pública não pareceu ter afetado a bilheteria do filme, que com orçamento de 22 milhões de dólares fez uma robusta carreira de 193 milhões de bilheterias.
Ontem eu resolvi, a despeito da celeuma, dar uma chance ao longa, agindo contra os meus instintos, haja vista que sou dono de cachorro e um rematado chorão no que tange a películas estreladas por animais.
O longa dirigido por Lasse Hallström, o mesmo miserável que me faz chorar até na academia com Sempre ao Seu Lado a partir do livro de W. Bruce Cameron adaptado pelo próprio mais Cathryn Michon, Audrey Wells, Maya Forbes e Wally Wolodarsky conta a história do cão Bailey a partir do ponto de vista do próprio, dublado por Josh Gad.
Um golden retriever vermelho que, nos anos sessenta, é adotado pelo garoto Ethan (Bryce Gheisar) após sua mãe (Juliet Rylance) resgatá-lo do carro onde ele estava trancado, Bailey é um cão inquieto e brincalhão, e não tarda a se tornar o melhor amigo do jovem Ethan, e a dor de cabeça do pai do menino, um sujeito que não chega a ser mau, mas tem disposições complicadas e um fraco pela bebida.
Alheio aos problemas ao seu redor, Bailey só se interessa em estar próximo de Ethan, o que ele faz com facilidade conforme o garoto cresce.
Já na adolescência de Ethan (agora com a cara de K. J. Apa), Bailey segue ao seu lado enquanto ele se torna um prodígio do futebol americano secundarista, e se apaixona pela gatinha Hannah (Britt Robertson), formando um triângulo amoroso asquerosamente fofo.
Nem tudo são flores na vida de Ethan, porém.
Na mesma noite em que consegue uma bolsa de estudos integral na universidade do Michigan, Ethan recebe uma visita perturbadora do pai bêbado, e entra em uma briga com um colega invejoso, fatos que culminam em uma pegadinha que acaba muito mal.
De uma só vez, Ethan vê seu futuro ser arrancado de suas mãos, e é durante seus anos mais sombrios que Bailey, já velhinho, morre, sem ver seu amigo ser feliz novamente.
O que Bailey não sabia, porém, é que estava destinado a retornar.
E o faz, dessa vez na pele da pastora alemã Ellie, que ainda filhote é colocada sob a tutela do policial da divisão K-9 Carlos (John Ortiz), um homem sério e solitário, mas bom e justo.
Ellie demora a cativar o policial, mas quando o faz, é de maneira total e inapelável. A ponto de Ellie estar disposta a morrer por Carlos.
Em seguida, é a hora de Ellie retornar como o corgi galês Tino, adotado pela solitária Maya (Kirby Howell-Baptiste), uma estudante com dificuldades de relação a quem Tino serve como única companhia por anos.
Os dois vão juntos à toda parte e dividem tudo, tendo apenas um ao outro, ao menos até Maya finalmente se abrir, e Tino ver-se parte de uma família muito maior e ainda mais feliz.
Mas a vida de um cão é fugaz, e não tarda para Tino cumprir sua jornada, e voltar como Buddy, uma mistura de São Bernardo e pastor australiano que tem o azar de ser adotado por uma garota volúvel que vive com um caipira desalmado.
Ele cresce amarrado num quintal cheio de entulho até finalmente ser abandonado numa rodovia.
De lá, ele vaga por lugares desconhecidos até finalmente chegar a um lugar familiar. Uma antiga fazenda que não parece ter mudado muito nos últimos quarenta e tantos anos, e o fazendeiro não é ninguém menos do que Ethan (agora Dennis Quaid).
Bailey percebe, então, que tem a oportunidade de reencontrar seu velho amigo, e ajudá-lo a ser feliz como não conseguira antes, uma oportunidade que ele não está disposto a deixar passar enquanto aprende qual o verdadeiro propósito de um cachorro.
Quatro Vidas de um Cachorro está numa descarada categoria de filmes que parecem planejados pra ordenhar lágrimas da audiência, e o faz ao transitar por todos os sub-gêneros de filmes caninos que existem, do cão policial ao cão que envelhece vendo a família crescer passando pelo cão que vaga pelo mundo sem entender o que se passa, está tudo lá, como assistir Meu Melhor Companheiro, K-9: Um Policial Bom pra Cachorro, Marley & Eu e Sempre ao Seu Lado em uma hora e quarenta minutos de choro copioso com eventuais sorrisos pelo caminho.
Lasse Hallström manja de cinema, tem uma assinatura visual linda e, em seus melhores momentos, joga com as emoções da audiência como se fosse o Homem-Psíquico, filmes como Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador e Regras da Vida são testemunho do talento do sueco, que aqui, usa seu repertório descaradamente para o mal.
Não me entenda errado.
Quatro Vidas de um Cachorro não é um filme diabolicamente ruim, não. Mas é manipulativo além da conta, e o roteiro é um exemplo claríssimo da bagunça narrativa que ocorre quando temos cinco pares de mãos enfiadas em uma receita.
Há diversas chances desperdiçadas na adaptação, exceto a de espremer um pouco mais de choro de quem está sentado diante da tela.
Ainda que não seja um grande filme, e tenha sua cota de problemas narrativos, Quatro Vidas de um Cachorro é uma boa pedida pra quem adora esses amigões peludos de quatro patas e não tem vergonha de chorar feito um desgraçado diante da TV.
Pra assistir com um lenço na mão.

"-Eu tinha um propósito. Eu era necessário de novo e de novo e de novo. E a cada nova vida eu aprendia uma nova lição."