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segunda-feira, 30 de outubro de 2017
Resenha DVD: Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar
Foi em 2003 que a Disney conseguiu uma proeza que poderia parecer impossível:
Transformar um brinquedo de parque temático em um filme.
Mais do que isso, em um bom filme.
Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra era um deleite. Leve, divertido, descompromissado, o longa transformou Johnny Depp em astro, e o brinquedo da Disneylândia em franquia cinematográfica bilionária.
Juntos, os quatro primeiros filmes da saga, somaram quase quatro bilhões de dólares em bilheterias pelo mundo inteiro, garantindo que a casa do Mickey não sossegaria sem colocar um novo Piratas nas salas de exibição de quando em quando.
Após um hiato de seis anos desde Navegando em Águas Misteriosas, o capitão Jack Sparrow, criação máxima da carreira de Depp ressurge para mais uma aventura.
Henry Turner (Brenton Thwaites), filho de Will Turner (Orlando Bloom) e Elizabeth Swann (Keira Knightley), está viajando pelo mar há anos estudando cada lenda e procurando por cada segredo dos sete mares, tudo para tentar descobrir uma forma de acabar com a maldição que liga seu pai ao Holandês Voador.
Ele procura pelo Tridente de Poseidon, o artefato mais poderoso dos sete mares, com domínio sobre todas as maldições do oceano. Em suas buscas, ele acaba encontrando, na Caverna do Diabo, pelo capitão Salazar (Javier Bardem), antigo caçador de piratas a serviço da coroa espanhola que foi ludibriado por Jack e aprisionado na caverna anos atrás.
Salazar deseja vingança, e ele poderá deixar a caverna e buscá-la assim que Jack se separar de sua bússola mágica que sempre aponta para o que ele mais deseja.
Pode parecer estranho que Jack se desfaça de um artefato tão incrível, mas, após falhar miseravelmente em um assalto, e ser abandonado por sua tripulação, Jack está disposto a qualquer coisa por uma garrafa de rum, até mesmo trocar uma pelo seu mais precioso bem.
Como desgraça pouca é bobagem, Jack sequer consegue beber o rum, já que é aprisionado quase que imediatamente após fazer a troca.
Isso o leva à prisão, a mesma onde está Carina Smyth (Kaya Scodelario), uma jovem astrônoma e horologista autodidata cuja sapiência a fez ser acusada de bruxaria e condenada à morte.
Quando Jack e Carina estão prestes a serem executados simultaneamente, Henry surge para um audacioso plano de fuga, pois apenas com a ajuda de Jack e Carina, ele tem alguma chance de encontrar o tridente e salvar Will da maldição, entretanto, salvar o pirata mais notório do Caribe da morte é apenas um pequeno passo no caminho, já que Salazar está livre para navegar pelos sete mares com sua tripulação de fantasmas e levar destruição a todos os piratas do mar enquanto procura por Jack.
É onde surge o capitão Hector Barbossa (Geoffrey Rush), cuja frota está sendo açoitada por Salazar, e barganha com o capitão fantasma a captura de Jack pela manutenção de seus navios.
Começa então um jogo de gato e rato pelo oceano, com os grupos tentando chegar primeiro ao tridente, que dará domínio sobre o oceano a quem quer que o empunhe.
Conforme eu disse lá em cima, A Maldição do Pérola Negra era um filme muito, muito divertido.
E, dali pra frente, cada longa foi pior que o anterior.
O Baú da Morte foi um filme com bons momentos, mas, no geral, bem inferior ao primeiro. No Fim do Mundo ao menos tinha o Davey Jones de Bill Nighy, e Navegando em Águas Misteriosas tinha Penélope Cruz e Ian McShane, e meio que era só isso.
C ada longa foi parecendo mais e mais com o brinquedo do parque de diversões que originou a franquia, muito divertido para quem está dentro, no caso Johnny Depp, não tanto para quem está só assistindo.
A Vingança de Salazar consegue a proeza de ser consideravelmente pior do que seus quatro antecessores, a despeito da óbvia qualidade da produção, repleta de efeitos visuais (a tripulação de Salazar é muito bem feita, com fantasmas com pinta de afogados em diferentes estágios de decomposição, mas os tubarões que eles usam como cães de caça deixam um pouco a desejar, e o jovem Jack que aparece em um flashback é bem esquisito), cenários e figurinos claramente qualificados, a direção de Joachim Rønning e Espen Sandberg é bastante estéril, e o roteiro de Ted Elliot, Terry Rossio, Stuart Beattie e Jay Wolpert é pouco mais que uma desculpa pra costurar uma série de sequências de ação algo aborrecidas, e Brenton Thwaites é provavelmente o pior coadjuvante que Depp já teve na série, ainda que Scodelario seja muito boa (num sentido amplo) e Geoffrey Rush continue sendo bom demais pra essa franquia.
Bardem, por sua vez, tem pouco o que fazer, exceto sumir sob a máscara de pixels e o vômito escuro que volta e meia lhe escorre da boca enquanto ele amaldiçoa Sparrow. A trilha sonora de Hans Zimmer segue empolgante, e há uma ou outra boa tirada com a ignorância dos bucaneiros, no plano geral, porém, Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar é um produto pra crianças assistirem no domingo de tarde muito pálido na comparação com a excepcional matiné que deu origem à série.
O grande acerto do longa, talvez, tenha sido da Disney do Brasil na hora de batizar o filme para o nosso mercado. O título original, Homens Mortos Não Contam Histórias era bom demais para um filme tão genérico. A Vingança de Salazar, raso, direto, e vazio, faz, com certeza, muito mais justiça ao conteúdo do longa.
Se as crianças gostarem de piratas, alugue para deixá-las ocupadas por umas duas horas, outrossim, espere passar na TV a cabo.
"-Eu não estou procurando por confusão.
-Que maneira terrível de se viver..."
Resenha Cinema: Thor: Ragnarok
Apesar do que o público em geral possa dizer, eu sempre gostei dos filmes do Thor.
O primeiro longa, lá de 2011, era uma correta fita de origem que, se ressentia de mais tempo para desenvolver a relação entre Thor e Jane Foster e para dar um fecho mais redondinho para sua trama, mas que funcionava a contento. O segundo longa, Thor: O Mundo Sombrio, de 2013, a despeito de ser o mais pichado pela crítica e pelo público, me ganhou. Era uma violenta salada de referências, tinha humor, ação e doses de drama, e, pra mim, tinha sido muito mais divertido do que os outros dois filmes de super-herói lançados naquele ano: O Homem de Aço e Homem de Ferro 3, chegando a entrar na minha lista de preferidos de 2013.
Uma coisa que esses dois filmes tinham em comum, além de Tom Hiddleston roubando a cena, era o fato de que Thor funcionava melhor quando o roteiro fazia graça com o deslocamento social do deus do trovão em nosso mundo.
O Thor que quebrava canecas no restaurante e pendurava o Mjölnir no suporte de guarda-chuvas da casa de Darcy era muito mais humano e relacionável do que o furioso deus-guerreiro que ia a Jottunheim matar Laufei porque sim.
A inadequação da divindade bárbara mística/medieval em nosso mundo era sempre uma válvula de escape bacana para histórias que, em um universo habitado por playboys bilionários filantropos em armaduras tecnológicas, soldados da Segunda Guerra com super-poderes e gigantes verdes enfurecidos, conseguiam se sobrepôr em estranheza.
Provavelmente o diretor Taika Waititi via as coisas dessa mesma maneira, e resolveu fazer de Thor uma comédia de ação e aventura cósmica da mesma estirpe de Guardiões da Galáxia, deixando que Chris Hemsworth chafurdasse na comédia física para se tornar, finalmente, o protagonista de seu próprio filme.
Porque previamente, o deus do trovão sempre foi facilmente eclipsado por Anthony Hopkins no tocante a talento dramático, e especialmente por Hiddleston, intérprete de Loki, que esbanja carisma na pele do deus da trapaça.
Entre esses dois, Thor parecia quase um acessório do roteiro de seus filmes, o sujeito que estava ali para salvar o dia por dever de ofício, e não por vontade própria, agindo como um herói agiria porque era seu trabalho e não porque ele queria.
Taika Waititi parece decidido a mudar isso e tornar Thor um herói pela qual a audiência esteja disposta a torcer.
Thor: Ragnarok abre com o deus do trovão encarcerado em Musphelhein, domínio de Surtur (Clancy Brown), o senhor dos reinos infernais. Ele está lá em razão de sua busca, através dos nove mundos, por pistas a respeito de suas visões em Vingadores: Era de Ultron, mas acaba sendo atraído de volta a Asgard após perceber que há algo de errado no comportamento de seu pai, Odin (Hopkins).
Nenhuma surpresa.
Todos nós nos lembramos que, ao final de Thor: O Mundo Sombrio, Loki havia tomado o lugar do Pai de Todos após forjar sua própria morte, e agora rege Asgard sem a mesma diligência de seu pai.
Thor retorna ao lar para encontrar Skurge (Karl Urban) ocupando o posto de Heimdall (Idris Elba) no comando da ponte do arco-íris enquanto Asgard celebra o deus da trapaça em monumentos e peças de teatro (uma hilária representação da morte de Loki no segundo filme, com Matt Damon, Luke Hemsworth e Sam Neil interpretando Loki, Thor e Odin) com "Odin" atendendo ao espetáculo comendo uvas e prenunciando as falas.
Não tarda para que o deus do trovão desmascare seu irmão e volte à Terra para procurar pelo pai de todos.
Após uma breve audiência com o Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch), Thor e Loki vão ao encontro de Odin, que revela que sua ausência no trono de Asgard causou o retorno de Hela, a deusa da morte (Cate Blanchett, linda de morrer).
Hela se alimenta do poder de Asgard, se torna mais forte a cada segundo, e é mais forte do que Thor, Loki e os dois juntos. Ela destrói o Mjölnir como se fosse feito de vidro, e toma o rumo do reino eterno lançando Thor e Loki para um lixão do cosmos: Sakaar.
Em meio a dezenas de portais dimensionais, o planeta Sakaar é domínio do Grão-Mestre (Jeff Goldblum), um déspota cheio de bons modos que organiza grandes torneios de gladiadores e sobrevive de mão-de-obra escrava (apesar de não gostar dessa palavra).
Assim que chega a Sakaar, Thor é cooptado pela catadora 142 (Tessa Thompson), na verdade, uma Valquíria exilada após sofrer a maior das derrotas nas mãos de Hela milhares de anos atrás, e levado ao Grão-Mestre, onde é transformado em um lutador de arena junto com outros exilados, como o kronan Korg (Taika Waititi, hilário), o insetoide Miek, e o grande campeão da arena de Sakaar: O incrível Hulk (Mark Ruffalo).
Preso no reino do Grão-mestre, sem seu martelo, Thor precisa encontrar um jeito de retornar a Asgard e impedir que Hela comece a levar adiante seus planos de dominar todo o universo, mas para isso, ele precisará sobreviver ao seu confronto com o incrível Hulk, e da ajuda de pessoas que não parecem dispostas a abraçar sua causa.
Ao assumir-se como uma comédia de ação, Thor: Ragnarok acerta a mão e entrega o que provavelmente é o filme mais divertido da Marvel desde o primeiro Guardiões da Galáxia. Embora haja muito fanboyzinho com vocação pra fiscal de piada torcendo o nariz para o humor escrachado do longa, é fácil perceber porque a Marvel escolheu essa abordagem para o Thor após as tentativas de levar o personagem mais a sério não terem sido bem-sucedidas.
Se Thor fosse um filme isolado, sem necessidade de se conectar ao restante do universo Marvel, provavelmente seria mais plausível criar o épico de 300 milhões de dólares imaginado por Matthew Vaughn lá atrás. Não é o caso. Não é assim que a Marvel faz cinema, e por mais que haja gente que não goste, o resultado financeiro não acena com necessidade de mudanças, de modo que o importante é encontrar uma forma de tirar a melhor experiência possível do personagem dentro da fórmula Marvel.
Taika Waititi fez isso.
Ele torna o roteiro de Eric Pearson, Craig Kyle e Christopher Yost em um colorido carnaval de referências espaciais/mitológicas numa trama que brinca, de maneira leve, com a ideia do que faz um herói ser um herói, e cada pessoa procurando seu lugar no mundo porque, sob toda a pirotecnia e as piadas de Thor: Ragnarok, esse é o cerne do filme:
Thor, Loki, Valquíria, Hulk/Banner, até mesmo Hela e Skurge, estão todos tentando encontrar seu lugar no plano das coisas. Cada um deles tem uma ideia de quem devem ser, de quem querem ser, mas ainda não sabem ao certo como, ou porquê.
Thor provavelmente é quem melhor ilustra essa busca, ainda que o faça através de comédia muitas vezes pastelão. O Thor de Waititi é um idiota social, e nós gostamos dele por isso. Ele constantemente diz que "isso é o que os heróis fazem" antes de tomar alguma atitude potencialmente suicida e cheia de bravura, embora apenas ao final do longa, ele entenda porque os heróis agem dessa forma. Claro, ainda há tempo para que ele pareça sério ou solitário, mas isso dura pouco, e fica pouco em nossa memória, e nem importa, a mensagem é transmitida de maneira mais do que satisfatória por um elenco extremamente à vontade. Chris Hemsworth obviamente está se divertindo ao tirar sarro sem dó nem piedade de si próprio, Hiddleston sempre deixou claro o quanto é fácil para ele interpretar o deus da trapaça, e Hopkins segue tirando Odin de letra (ganhando até um momento para brincar de ser Loki). A Hela de Cate Blanchett mantém a média da Marvel, é sensacional logo que aparece, e vai se tornando menos e menos interessante conforme a filme anda, e é uma pena que não tenham dado à bela e talentosa atriz mais oportunidades, tanto de explorar o background de Hela e compor uma personagem mais profunda e interessante, quanto para interagir com Hiddleston e Hopkins, ainda assim, é sempre um deleite ver Cate Blanchett em cena.
O restante do elenco também está bem, Mark Ruffalo manda bem tanto como Hulk quanto como Banner, Tessa Thompson é bonita e fodelona, e Jeff Goldblum está ótimo como o afetado Grão-Mestre.
A trilha sonora, como de hábito, é quase invisível de tão discreta, e só se sobressai, mesmo, a Immigrant Song que embalou os trailers e aparece no filme para duas grandes sequências de ação.
Por sinal, quem se preocupava com Waititi comandando sequências de ação, o temor era infundado. O diretor neo-zelandês o faz com galhardia, cenas como a cavalgada das Valquírias montadas em pégasos fazendo uma carga contra Hela, ou todo o combate entre Hulk e Thor na arena de Sakaar deixam claro que não falta estilo ao cineasta, que torna Ragnarok o filme da Marvel com mais assinatura de seu diretor depois de Guardões da Galáxia.
Ao oferecer um respiro e uma nova abordagem ao deus do trovão, Waititi conseguiu o que a Marvel Studios ainda não havia conseguido fazer em seis anos de tentativa:
Tornou Thor a estrela de seu filme, e fez com que a audiência fique ansiosa por vê-lo novamente.
Certamente vale a ida ao cinema. O 3D é absolutamente dispensável. Há duas cenas pró-créditos.
"-Asgard não é um lugar.
-É um povo.
-E Esse povo precisa de você."
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sábado, 28 de outubro de 2017
Resenha Série: Stranger Things, Temporada 2, Episódio 1: MadMax
Assisti ao primeiro episódio de Stranger Things logo que a série foi lançada, em meados de outubro do ano passado.
Me lembro de ter achado a premissa simpática, e ter imaginado que era algo que eu poderia continuar assistindo, mas por alguma razão, não continuei. Vi os três primeiros capítulos e só voltei a assistir à primeira temporada da série na semana passada, quando assisti aos cinco episódios restantes ao longo de dois dias.
Olhando em perspectiva, eu me arrependi de não ter continuado assistindo o seriado na época do lançamento. Apesar de achar que o hype foi um pouco excessivo, e ter a impressão de que muito dele veio da nostalgia oitentista de quem cresceu assistindo Os Goonies, Gremlins, E.T., Conta Comigo e Os Heróis Não Têm Idade, eu realmente gostei do programa, de sua salada de referências nerd aos anos 80, de seu elenco infantil e adulto.
Tanto gostei que de ontem pra hoje já assisti metade da nova temporada, que retoma os acontecimentos estranhos que ocorrem na cidade de Hawkins, Indiana.
MadMax, primeiro episódio da temporada, abre com um grupo de delinquentes juvenis fugindo da polícia após o que parece ser um roubo na cidade de Pittsburgh. O quinteto de jovens marginais tenta sacudir a polícia em uma van que não tem a menor chance na perseguição até que a carona do veículo realiza uma manobra para despistar os tiras, revelando, enquanto limpa um pequeno sangramento nasal, uma tatuagem em seu pulso onde se lê 008.
Claro, todos imaginavam que Onze não era a única criança especial do programa MK Ultra da série, mas saber que existe uma jovem com habilidades semelhantes à solta no mundo, e que podem haver mais, tem um potencial imenso para a mitologia da série e para suas possibilidades futuras.
Mas de volta a Indiana, em Hawikins, as coisas seguem mais ou menos da mesma forma. Quase um ano se passou desde que Will Buyers (Noah Schnapp) foi resgatado por Joyce (Winona Ryder) e Hopper (David Harbour) no mundo invertido, e Onze desapareceu após desintegrar o demogorgon.
Aparentemente, a única preocupação de Will e dos jovens Dustin (Gaten Matarazzo), Lucas (Caleb McLaughlin) e Mike (Finn Wolfhard) parece ser encontrar moedas para torrar no fliperama local jogando Dragon's Lair, Dig Dug e Centopede.
Aparentemente...
Mike segue tentando contatar Onze através dos canais de rádio de seu walkie-talkie, enquanto Will, conforme nós vimos ao final da temporada passada, parece estar sofrendo do que parecem flashbacks que o fazem ter a sensação de ter retornado ao mundo invertido.
Joyce segue levando seu rebento ao laboratório de Hawkins, agora dirigido pelo doutor Owens (Paul Raiser), que faz diversos exames no guri enquanto tranquiliza Hopp e Joyce a respeito de seu estado, aparentemente, apenas da boca pra fora.
Joyce, por sinal, não está apenas com o lado amargo da vida, namorando o senhor cara legal em pessoa, Bob Newby (o Sam Gamgee e ex-Goonie Sean Astin), um ex-colega do ensino médio que trabalha na Radio Shack local, Joyce tenta levar a vida mais normal possível enquanto lida com o trauma de quase perder seu filho mais novo.
O mais velho, Jonathan (Charlie Heaton), segue pajeando o irmão caçula enquanto mantém sua amizade com Nancy Wheeler (Natalia Dyer) que segue namorando Steve (Joe Keery).
Nancy, por sinal, vai sentindo cada vez mais o peso do segredo sobre a verdade a respeito do desaparecimento de Barb, especialmente após descobrir que os pais da sua amiga estão apostando tudo o que tem em tentativas de encontrar a jovem.
Enquanto Onze, conforme nós podíamos imaginar após o desfecho da primeira temporada, está vivendo sob a guarda de Hopp.
Quando dois novos alunos chegam à escola, o radical oitentista Billy (Dacre Montgomery, com direito a mullet e bigode), e a pequena Maxine (Sadie Sink), novos bagulhos sinistros começam a ocorrer na pequena cidade, com as crises de Will se tornando mais e mais frequentes, Hopper passa a receber relatos dos fazendeiros locais a respeito de envenenamentos nos campos.
Algo que pode, novamente, estar ligado aos experimentos do laboratório da cidade.
É bom ver que os irmãos Duffer não tiveram medo de acrescentar novos personagens a um elenco que já era bastante cheio, e o fizeram de maneira acertada.
Todos os novos jogadores no tabuleiro de Stranger Things parecem ter algo a acrescentar, ou ao menos potencial para nos deixar de pulga atrás da orelha. Enquanto Maxine parece uma grande adição ao quarteto de protagonistas nerds, e Billy e o doutor Owens parecem potenciais antagonistas, o Bob de Sean Astin parece gente-boa demais pra ser verdade, e eu não me surpreenderia se ele fosse um agente do Laboratório de Hawkins infiltrado na família Buyers.
A série consegue acrescer esses novos personagens sem deixar os que já conhecíamos no status quo, dando a todos espaço para crescer e se aprofundarem.
ótimo começo.
Que continue assim.
"-Provavelmente vai piorar antes de melhorar..."
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
O Que Eu Aprendi com o Gump
Eu jamais fui dessas pessoas que tratam animais de estimação como se fossem filhos.
Pra ser cem por cento honesto, eu sempre vi pessoas que fazem isso com alguma reserva. Jamais fui capaz de entender o que leva uma pessoa a tratar um cão, gato ou o que quer que seja como se fosse uma extensão de si.
Sempre me dividi entre a piedade e o escárnio ao me deparar com gente tratando um bicho por "meu filho" ou "minha filha".
Mesmo que nos últimos treze anos eu venha sendo um dos milhões de brasileiros que têm um animal de estimação, jamais tratei meu canino, o Gump, como um filho. O pessoal da PETA não precisa se morder, pois também jamais o tratei como uma propriedade.
O Gump sempre foi uma responsabilidade, com sua comida, banhos, remédios e passeios sendo minha obrigação, mas uma obrigação que eu cumpria com prazer, pois aquele bichão peludo sempre foi, acima de tudo, meu amigo.
Não foram poucas as ocasiões em que eu pautei meus horários pelo Gump, marcando idas ao cinema, jogos de futebol ou RPG de acordo com seus passeios. Também não foram poucas as ocasiões em que eu precisei me refrear nos gastos porque ele precisava de medicação, banhos ou ração. E houveram até momentos em que, na falta de uma babá para ele, eu o trouxe a tiracolo pro trabalho, para garantir que ele não ficaria sozinho em casa o dia todo.
Jamais vi tais coisas como sacrifícios.
Sempre vi esses momentos como um preço pequeno a se pagar pelo afeto e lealdade que recebi em troca da minha dedicação.
Vale a pena.
Sempre valeu.
E, confesso, custei a pegar o jeito.
Jamais havia tido um cachorro, jamais morei em casa, e encontrar a dose certa de passeios para facilitar a vida de um cachorrão de grande porte dentro de um apartamento demorou mais do que deveria, mea culpa.
Mas nos entendemos.
Ele, sabendo que não deveria roer os puxadores dos gaveteiros, que o lugar de fazer xixi dentro de casa era perto do box do chuveiro, e que a comida no prato sobre a mesa não está disponível para qualquer um que consiga pegá-la. Enquanto eu descobria que, de vez em quando, a caminha no chão é menos convidativa do que o sofá, que quando o nível de água no prato está baixo é o mesmo que não ter mais água, e que, apesar da voz grave, aqueles latidos não eram uma briga, mas uma conversa.
Em tempo, aprendemos a compreender os gestos um do outro, a ponto de eu poder andar com ele pela rua sem guia, sabendo que, em determinados momentos ele olharia para trás para saber qual era o nosso próximo passo com um simples maneio de cabeça de minha parte, da mesma forma que eu aprendi que o queixo deitado sobre a minha coxa quando eu tentava ver TV era um pedido de permissão para subir no sofá.
Aprendi que o melhor carinho era no pescoço, na barriga, e nos quartos traseiros. Que empurrar o prato pela casa com o nariz era um pequeno ritual antes de comer, e não uma queixa sobre algo errado com a comida. Que comida humana em um pratinho no chão era fórmula eficaz para vários minutos de refestelamento no tapete da sala enquanto espirros de satisfação eram disparados do narigão preto.
Aprendi que a melhor forma de oferecer um comprimido era ocultando-o em uma salsicha. E que embora a maioria dos cachorros tenha pavor de fogos de artifício, ele não ligava. Aprendi que outros cães nem sempre são divertidos, que a amizade canina é tão seletiva quanto a humana, e até fiquei em dúvida se dei sorte de encontrar um cachorro com traços de personalidade iguais aos meus, ou se o convívio fez com que adquiríssemos traços da personalidade um do outro.
Aprendi que animais voadores parecem deliciosos o suficiente para que qualquer coisa com asas convidasse à caça, fosse um pombo ou um mosquito, e que aqueles apontadores de laser são como crack para cães.
Aprendi que, acuado, mesmo um amigo pode te morder, e aprendi a perdoá-lo pelas dentadas como ele me perdoou após eventuais palmadas.
Aprendi que depois do banho, a pele ressecada pode coçar muito, mas que um hidratante resolve o problema. Que a grama em volta do prédio do IPERGS é incrivelmente divertida, e que, apesar de haverem locais de passeio preferidos, variar é sempre bom. Que é importante ter paciência com quem vê o mundo mais com o nariz do que com os olhos, e que cada moita na beira da calçada tem um cheiro diferente da anterior, sendo necessário esperar que cada uma seja devidamente investigada e, se necessário, mijada, antes de seguir o caminho.
Aprendi que gatos não são o inimigo, mas se assustam fácil e é importante fazê-los dar uns pulos de vez em quando. Que bolinhas são divertidas, mas buscá-las não é tão interessante quanto tê-las na boca enquanto alguém tenta tirá-las de ti. Que ninguém jamais está ocupado demais para oferecer um afago e receber um abraço canino, não importa o que esteja fazendo.
Que não há caminho fácil até o coração de um cão, mas, se houvesse, um petisco em forma de bife seria um ótimo primeiro passo.
Aprendi, também, a não julgar aqueles que, confrontados com o sofrimento de um cachorro, se veem diante do dilema de tirar a vida de seu amigo para não deixá-lo padecer.
Aprendi que o cão experimenta muito mais do que nós em muito menos tempo, pois, para eles, as coisas mais simples geram explosões de felicidade e abismos de tristeza. E que talvez, por isso, eles vivam tão menos do que nós.
Em apenas treze anos, o Gump me levou junto com ele por explosivas gargalhadas em momentos de pura bobagem, e hoje, após dois meses de tentativas de tratamento infrutíferas, ele se foi, deixando uma tristeza e uma saudade muito maiores do que o seu felpudo corpanzil amarelo.
E, apesar de tentar medir e pesar as coisas à luz da racionalidade, eu me vejo sofrendo hoje, da mesma forma que sofri quando perdi pessoas de minha família imediata.
Talvez porque, apesar de continuar não vendo o Gump como um filho, eu siga o vendo como um amigo. E, aquela exibição de slides em power point que todos recebemos em algum momento já dizia que, os amigos, são a família que a vida nos permite escolher.
E eu escolhi o Gump.
Ele foi meu amigo.
Meu camarada.
O meu melhor companheiro.
O melhor cachorrão do mundo, e todas essas coisas que eu disse pra ele ao longo dos anos, e repeti hoje, enquanto ele me deixava.
Obrigado pela jornada, amigão.
O espaço que tu deixa no meu coração, jamais vai ser preenchido de novo...
segunda-feira, 23 de outubro de 2017
Resenha DVD: Baywatch - S.O.S. Malibu
Eu me lembro quando Baywatch passava nas tardes da Sessão Aventura da Globo, uma antiga sessão de seriados entre a sessão da tarde e a novela das seis onde, a cada dia da semana, um seriado diferente era transmitido. Claro, com o advento das TVs a cabo e internet, a Globo resolveu abolir de vez os seriados e apostar no que tem hegemonia, as novelinhas, e daí Malhação tomou o espaço que outrora pertencera a Baywatch, aqui chamada de S.O.S. Malibu, Barrados no Baile, Thundercats, Gêmeos de Outro Mundo (Eu acho que esse era o nome da série "They Came from Outer Space, quando passou por aqui), M.A.N.T.I.S, e outras...
Mas a verdade é que eu nunca fui fã de S.O.S. Malibu, quando a série estreou eu era muito pequeno para entender a graça de ver gurias peitudas correndo em câmera lenta, e David Hasselhoff era só o Michael da Supermáquina sem o carro legal, então, era um programa que, para meu eu de onze anos, não tinha grandes atrativos.
Mesmo mais velho, já tendo tomado consciência da importância dos peitos de Pamela Anderson para o imaginário coletivo masculino, e ficado particularmente impressionado com uma cena dela no filme Desejo Fatal num Domingo Maior na minha adolescência, eu havia desenvolvido um gosto por bundas e pernas femininas, de modo que não era particularmente atraído pelo sutiã XXG da loira, e pulava tranquilamente S.O.S. Malibu quando esbarrava com o programa no canal Sony.
Por jamais ter tido nenhum tipo de ligação com o programa, eu realmente não liguei nem um pouco quando anunciaram que seria produzido um longa sobre a série.
Pra mim, era apenas mais uma tentativa frustrada de repetir o sucesso de Missão: Impossível, o que é, com o perdão do trocadilho, uma missão impossível pra maioria dos filmes. Na melhor das hipóteses, o longa conseguiria ser um As Panteras, na pior, um S.W.A.T.: Comando Especial, então, não era algo que eu estava particularmente ansioso pra ver no cinema, mesmo quando o elenco ganhou o carisma de Dwayne "The Rock" Johnson e a beleza peituda de Alexandra Daddario.
Considerando a recepção morna do longa por parte de público e crítica, eu francamente, não achava ter perdido muita coisa, mas, ao passar na locadora e não encontrar nenhum filme que eu quisesse assistir, resolvi, por curiosidade, experimentar a versão cinematográfica de Baywatch, e tirar a prova.
No longa conhecemos o tenente Mitch Buchannon (The Rock), salva-vidas chefe do Posto 1 da praia Emerald Bay.
Sujeito com mais de 500 salvamentos no currículo, Mitch tem água salgada correndo nas veias dilatadas de seus braços de ferro e leva seu trabalho extremamente a sério, mantendo-se em constante estado de alerta e reforçando seu papel de dono da faixa de areia em suas longas corridas onde reencontra pessoas que tirou das garras da morte no oceano.
Apesar da sua vigília incansável, Mitch está vendo o tráfico de drogas avançar sobre seus domínios, em especial o comércio da novíssima droga sintética conhecida como Flakka, e procura por uma forma de reverter essa situação na exata época em que começa a seleção de novos recrutas para se juntarem à sua equipe, formada por C. J. Parker (a gatíssima Kelly Rohrbach) e Stephanie Holden (a bela Ilfenesh Hadera).
Após a bateria de testes, três novos membros são aceitos para um período de treinamento: O nerd Ronnie Greenbaum (Jon Bass), que é absolutamente caído por C. J., a morena Summer (Daddario), e, quase que por imposição dos superiores de Mitch, o nadador olímpico detentor de duas medalhas de ouro, Matt Brody (Zac Efron), um tremendo idiota conhecido por seus excessos que caiu em desgraça após comprometer a participação da equipe de revezamento americana nas Olimpíadas do Rio.
Isso coloca Mitch sendo obrigado a lidar com Matt ao mesmo tempo em que tenta se opor à tentativa de domínio de Victoria Leeds (Pryanka Chopra), uma empreendedora fazendo tudo ao seu alcance para privatizar a praia.
Eu precisei me conter para não terminar essa sinopse com "Agora, esse bando de malucos, vai aprontar as maiores confusões para proteger a praia de Emerald Bay", e espero que isso deixe claro o quanto Baywatch é material de sessão da tarde. Aliás, seria, se não fosse a quantidade de piadas de piroca e tetas que dominam o humor do longa por quase duas horas.
Não me entenda errado, eu sou capaz de rir de escatologia tanto quanto qualquer outra pessoa, talvez mais do que muitas, mas escatologia não pode ser a única muleta de um filme.
Colocar Zac Efron pra mexer no pau de um defunto não é uma piada apenas porque tem um pau na tela e ele não quer tocar, reciclar a piada de pau entalado de Quem Vai Ficar com Mary em um cenário diferente, também, não.
Uma boa piada é ressaltar o quanto é estranho que os salva-vidas fiquem fazendo investigações criminais ao invés de tratar queimadura de água-viva, aconselhar o uso de filtro solar e tirar banhistas da água antes que se afoguem, mas aí os roteiristas Demian Shannon e Mark Swift aparentemente percebem que essa é sua única piada forte (junto com os apelidos que Mitch dá a Matt, mas que foram descaradamente chupados de Scrubs), e a espremem até secar.
O diretor Seth Gordon, o mesmo do OK Quero Matar Meu Chefe e do xaropão Uma Ladra Sem Limites parece ter dirigido uma série de esquetes protagonizados pelos mesmos personagens e os costurado da maneira mais ordenada que foi capaz (não foi um esforço particularmente bem sucedido, já que o filme é tão cheio de erros de continuidade que à certa altura a gente tem que escolher se tenta acompanhar o fiapo de história ou ver se as roupas e cabelos dos personagens estão nas posições que deveriam).
O resultado é que se poderia esperar, mesmo as piadas que, nos trailers, pareciam bacanas, enfraquecem no contexto do filme, já que a edição é totalmente tosca.
Com isso, O longa jamais funciona a contento, reduzindo o que poderiam ter sido eventuais gargalhadas a risinhos, sorrisos e olhe lá.
Por mais que se possa argumentar que quem assiste um filme como Baywatch precisa entender sua proposta de humor pueril, há que se concordar que humor pueril não precisa (em tese) ser absolutamente descerebrado, há comédias pastelão com cérebro por aí, que sirvam de exemplo filmes como Os Outros Caras, O Âncora, O Virgem de 40 Anos, Se Beber Não Case, e outros exemplares de cinema piadista, exagerado e escatológico que não pareciam produto de viagem no ácido.
No final das contas, Baywatch: S.O.S. Malibu é uma lição0 de que nem os músculos e sorriso avantajados de The Rock, o corpo de Atlas visual do corpo humano de Zac Efron, ou as curvas generosas de Daddario, Rohrbach e Hadera em maiôs e biquínis cavados são capazes de tornar um filme ruim um bom programa.
Pode-se perdoar muitas coisas nessa vida, mas uma comédia sem risadas é dessas coisas que deveriam ter seu próprio círculo no inferno.
Assista apenas se for um grande fã da série original e quiser ver as pontas de um acabado David Hasselhoff e de uma repuxada Pamela Anderson, outrossim, passe longe.
"-Eu sou oceânico, filha da puta."
segunda-feira, 16 de outubro de 2017
Resenha DVD: Velozes e Furiosos 8
Quando assisti ao sétimo filme da franquia Velozes & Furiosos eu disse que aquele filme não entraria para a história do cinema de nenhuma outra maneira que não fosse como "o filme divertido mais triste de todos os tempos".
Eu estava enganado.
Velozes & Furiosos 7 também entrou para a história como um dos filmes a arrecadar mais de um bilhão de dólares em bilheteria, o que, eu sei, não chega a ser impressionante hoje em dia como foi na época de Titanic, mas ainda é um marco financeiro que, por exemplo, Batman vs Superman: A Origem da Justiça, não conseguiu alcançar, e que é profundamente celebrado por qualquer filme.
Enfim, V&F7 fez mais de um bilhão e meio de dólares, muito (acho que todo mundo concorda) por conta da comoção em torno da morte prematura de Paul Walker, e tornou o lançamento de um oitavo filme tão financeiramente obrigatório na visão do estúdio quanto dispensável do ponto de vista narrativo, já que o final do sétimo filme seria o fecho perfeito para a "septalogia".
De qualquer forma, se uma coisa ficou clara ao longo de todos esses anos, foi que a narrativa jamais foi o foco central da construção desses filmes, de modo que Velozes e Furiosos 8 estreou em abril desse ano, e, a despeito das brigas públicas entre os membros do elenco, notadamente Vin Diesel e The Rock, o oitavo longa da série arrebanhou mais de um bilhão e duzentos milhões de dólares em bilheteria, e pavimentou o caminho para Velozes 9, 10, e para um spin-off que deverá ser lançado em breve, estrelado por Jason Statham e Dwayne Johnson.
Mesmo assim, eu não fui uma das pessoas a ir ao cinema ver Velozes e Furiosos 8, e, francamente, já tinha visto o filme pendurado na estante da locadora mais de uma vez e não tinha dado muita bola. Mas no sábado a curiosidade e a preguiça venceram o senso crítico, e eu catei o DVD pra tentar assistir no domingo à noite, e, conforme eu esperava, Velozes & Furiosos segue apostando pesado no absurdo em nome da diversão, mas, pra ser bem franco, esse longa é bem mais absurdo do que divertido.
Na trama Dom Toretto (Diesel) e Letty (Michelle Rodriguez) estão curtindo lua de mel em Havana quando o brucutu é abordado por Cipher (Charlize Theron). A loura é uma versão de dreadlocks de um autêntico vilão de filme de James Bond, com recursos, planejamento e ilusões de domínio global que conta com um ás tão poderoso na manga que cata Toretto pelas bolas, colocando-o no cabresto, e o jogando contra a sua família.
Na próxima missão de Dom e Letty com Luke Hobbs (Dwayne "The Rock" Johnson), Tej Parker (Chris Ludacris Bridges), Roman Pearce (Tyrese Gibson) e Ramsey (Natalie Emmanuel), recuperando um protótipo de arma de pulso eletro-magnético de uma fábrica em Berlim, Toretto se volta contra Luke, roubando o dispositivo, e abandonando sua equipe para se juntar à Cipher.
A loira planeja roubar um submarino nuclear russo totalmente armado e operacional, e o dispositivo de PEM é a primeira peça do quebra-cabeça, e com Toretto a seu lado, a única coisa impedindo a hacker de começar a terceira guerra mundial, é a equipe de Dom, que é recrutada pelo Sr. Ninguém (Kurt Russell) e seu ajudante júnior "Ninguémzinho" (Scott Eastwood) para trabalhar ao lado de Hobbs e do criminoso Deckard Shaw (Jason Statham) para realizar sua tarefa mais complicada até hoje.
O diretor F. Gary Gray, de Uma Saída de Mestre e Straight Outta Compton: A História do N.W.A. pouco acrescenta à série, que já deixou claro que independe de cineasta para entregar o que a audiência aprendeu a esperar dos filmes da franquia, e, nesse ponto, o roteirista Chris Morgan não se faz de rogado, e entrecorta uma sequência de ação ridiculamente exagerada à outra com discursos breves a respeito da importância da família, o mantra máximo da série já há bastante tempo.
O resultado, porém, está muito mais próximo do morno Velozes & Furiosos 4, pior filme da franquia exceto por +Velozes, + Furiosos, do que de Velozes & Furiosos: Desafio e Tóquio, e Velozes & Furiosos 5: Operação Rio, certamente os momentos mais divertidos da série.
Não me entenda mal, VeF8 ainda é um programa bastante aproveitável quando comparado com horrores que vemos na temporada dos blockbusters, como os Anjos da Noite, Resident Evil e Transformers da vida, mas a verdade é que a queda de qualidade é tão flagrante quanto o potencial desperdiçado.
Em cento e trinta e seis minutos de filme poderia-se usar um pouco desse tempo para engrossar sua trama além de bravado macho e explosões. Não me entenda errado, eu curto bravado macho e explosões tanto quanto qualquer outro marmanjo criado com heróis oitentistas, mas hoje Velozes & Furiosos é uma franquia que poderia se dar ao luxo de ir além do óbvio já que angariou uma fiel base de fãs e tem recebido mais e mais investimento da Universal, já que virou a galinha dos ovos de ouro do estúdio.
Outra questão que incomoda é o desperdício.
Usar o talentoso Kristofer Hivju como um capanga e nem mesmo torná-lo fisicamente ameaçador é um tiro no pé, escolher Charlize Theron para ser a vilã do longa depois de Mad Max: Estrada da Fúria, e não colocá-la atrás de um volante ou trocando bordoadas com alguém, para tê-la trancada em um avião invisível gritando ordens para uma tela é simplesmente ridículo, e o mesmo se aplica a quase todo o gigantesco elenco de apoio que, na maior parte do tempo, não tem o que fazer exceto lembrar à audiência como Dom é fodão.
Por mais que nós saibamos como esses filmes funcionam, dentro de qual conjunto de regras eles operam, eles não se tornam impermeáveis à crítica. Tome James Bond por exemplo.
A estrutura está sempre lá, mas não faz mal nenhum ter um roteirista capaz de escrever diálogos e um diretor capaz de fazer a audiência prestar atenção à tela quando não há carros explodindo.
Por mais que se fale que a franquia vá se encerrar em seu décimo lançamento, não faria mal nenhum aproveitar os próximos dois longas para oferecer algo além do que temos visto até aqui.
Todo mundo sabe que o destino de Velozes & Furiosos é o sucesso nas bilheterias, não há razão para não tornar o trajeto até lá um pouco mais aprazível.
Apesar dos defeitos, o longa distrai por duas horas e quinze minutos, basta saber que se está entrando numa montanha-russa.
Vale a locação.
"-Tô apaixonado...
-De novo: Não. Não. Esse é um carro de exposição de um milhão de dólares. O ponto aqui é não chamar atenção.
-É psicologia reversa. Dom nunca vai ver isso se aproximando.
-É laranja néon. A Estação Espacial Internacional vai ver isso se aproximando."
sábado, 14 de outubro de 2017
Resenha Cinema: Blade Runner 2049
Eu fui uma das primeiras pessoas a resmungar quando a possibilidade de se fazer uma sequência de Blade Runner foi aventada. Eu não conseguia pensar em nada mais deprimente do que realizar uma sequência tardia para um filme que se tornou cult com todas as suas versões alternativas e cujas frases ainda hoje estampam as mensagens de Whats App de nerds ao redor do mundo.
Bem, um remake, talvez, fosse mais deprimente... Enfim...
Eu não estava colocando fé em Blade Runner 2049 até o nome de Dennis Villeneuve ser ligado ao projeto. A produção de Ridley Scott garantiria que ao menos a atmosfera do longa original fosse mantida, e Villeneuve talvez seja um dos três melhores cineastas em atividade em Hollywood hoje, o que faria com que, ao menos, o filme não fosse uma bomba.
Nomes de peso de juntaram ao elenco, Ryan Gosling, Jared Leto, Robin Wright, o retorno de Harrison Ford foi confirmado, e, de repente, parecia que o novo Blade Runner poderia ser um bom filme, afinal de contas...
Ontem, na minha terceira tentativa, consegui assistir ao filme e, devo começar dizendo, que Blade Runner 2049 é muito mais do que eu poderia ter esperado.
O longa se passa 30 anos após o original (ambientado em 2019), eventos cataclísmicos alteraram a forma de se viver na Terra, que segue sendo um lugar onde ficam apenas aqueles que não podem ir embora. Empresas como a Corporação Tyrell foram à falência após anos tendo problemas com seus replicantes Nexus.
Após o colapso do ecossistema terrestre, a fome varreu o planeta, ao menos até as Indústrias Wallace, de Niander Wallace (Jared Leto), criarem a agricultura sintética e acabar com a escassez de comida tornando-se uma das maiores empresas do mundo. Tão grande, que comprou a massa falida da Tyrell, dando sequência ao programa Nexus, e o aperfeiçoando.
Mesmo com tantas mudanças, porém, ainda existem replicantes que ultrapassaram sua vida programada à solta, e os agentes que os perseguem e "aposentam" ainda são chamados de Blade Runner.
Um desses especialistas é o agente K (Ryan Gosling), um dos melhores do ramo, e quando o conhecemos ele está indo até uma pequena fazenda de proteínas para procurar por Sapper Morton (Dave Bautista, surpreendente), um replicante fugitivo tentando viver uma vida simples de agricultor em paz e longe de todos.
Em sua tentativa de apreender Morton, K faz uma descoberta sem precedentes na História dos Replicantes.
Uma descoberta tão grave que sua chefe, a tenente Joshi (Robin Wright) imediatamente o coloca em uma complexa investigação, um caso com origens tão remotas, e possíveis consequências tão graves, que o fazem viajar ao seu próprio passado, à história dos replicantes, e a questionar seu trabalho, sua missão, o que torna uma pessoa um ser humano de fato.
E para encontrar todas essas respostas, K precisa procurar pelo Blade Runner Rick Deckard (Harrison Ford), uma tarefa que pode ser quase impossível de realizar, já que o veterano policial está desaparecido há mais de trinta anos.
Dennis Villeneuve, Ridley Scott e os roteiristas Hampton Fancher e Michael Green são mais ambiciosos do que poderia se esperar com o novo Blade Runner. Eles não tentam, sob nenhum aspecto, repetir o primeiro filme para ganhar a audiência saudosista, ou pasteurizar o verdadeiro significado de Blade Runner para ganhar uma audiência mais nova e mais burra. Eles partem dos parâmetros estabelecidos pelo filme original, e seguem dali para novos e mais profundos questionamentos, criando uma das mais filosóficas e desafiadoras obras da ficção científica recente com uma grife mais do que estabelecida que se recusa a regurgitar falatório expositivo para audiência que é deixada livre para se juntar a K e tentar desvendar o mistério.
Villeneuve e companhia o fazem em grande parte, através do desenvolvimento dos personagens, começando com Gosling, assumidamente a primeira e única escolha da equipe, já que K foi escrito com o ator canadense em mente, que entrega uma das melhores performances de sua carreira, mantendo uma vulnerabilidade sempre presente sob a fachada de detetive durão, suas emoções estão sempre ali sob a superfície tranquila de K, tornando-o dolorosamente humano.
Mas não é apenas Gosling quem se sobressai.
Ana de Armas oferece uma profundidade inacreditável à Joi, uma personagem que é, no final das contas, uma projeção holográfica, enquanto Sylvia Hoecks quase rivaliza com o conterrâneo Rutger Hauer na criação de Luv, e a doutora Ana Stelline de Carla Juri derrama as mais sinceras lágrimas enquanto observa sonhos alheios.
Esses são apenas alguns dos nomes de um elenco que ainda conta com a gatíssima Mackenzie Davis, Lennie James, Barkhad Abdi, Edward James Olmos, Wood Harris e David Dastlmalchian.
Os visuais seguem de cair o queixo, com megalópoles medonhas repletas de hologramas gigantes e logos em companhias que, nesse universo seguem sendo fortes, como Pan-Am e Atari, paisagens de concreto iluminado por néon que se espicham até onde a vista alcança, abóbadas enferrujadas de abrigos industriais arruinados, desertos laranja ocre por conta da radiação... A fotografia de Roger Deakins mantém o mundo em tons pastéis e as cores vivas existem apenas em anúncios e hologramas enquanto as músicas de Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer uivam e zunem pelo cenário, mesmo que não tenham a força da trilha original de Vangelis.
Blade Runner não tem pressa, e apresenta seu enigma em seu próprio ritmo, ao longo de duas horas e quarenta e três estilosos minutos de melancolia que se, por vezes, parece arrastado, o é garantindo que a audiência não precise apenas assistir ao filme, mas possa vivenciá-lo como uma experiência que possa ser debatida e discutida ao final da projeção ao invés de um amontoado de informação visual para ser descartada antes de sair do shopping.
É difícil saber se Blade Runner 2049 vai ter um efeito tão duradouro sobre a cultura pop quanto o original de 1982 teve. É inegável, porém, que o filme de Villeneuve ambiciona muito mais do que o mero fan service, e apenas por desejar ser mais e ir além, o longa já mereceria a deferência da ida ao cinema mesmo que falhasse em alcançar tudo o que almeja, mas ao suceder em seu intento, e ser tão mais do que poderíamos esperar, Blade Runner 2049 nos torna a todos um pouco como Sapper Morton... Nós todos nos sentimos como se tivéssemos testemunhado um milagre.
"-Eu jamais 'aposentei' alguma coisa que tivesse nascido.
-O que isso quer dizer?
-Nascer, eu acho... Significa ter uma alma.
-Bem, você tem se saído muito bem sem uma."
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