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terça-feira, 3 de dezembro de 2019

O Teaser de Viúva Negra

E a Marvel divulgou na madrugada de hoje o teaser trailer do filme solo da Viúva Negra, personagem que foi violentamente sacaneada pela Marvel e vai ganhar seu próprio filme apenas depois de morta.
Na prévia do longa que se passa após os eventos de Capitão América: Guerra Civil, vemos Natasha conversando com Thunderbolt Ross sobre parar de fugir de seu passado, e então, reunindo-se com sua "família".
Confira abaixo:



Dirigido por Cate Shortland, Viúva Negra tem no elenco Scarlett Johansson, Florence Pugh, Rachel Weizs, David Harbour e Ray Winstone. O longa tem estréia marcada para 30 de abril de 2020.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Resenha Série: Watchmen, Temporada 1, episódio 7: An Almost Religious Awe


O sétimo episódio de Watchmen, desde seu título, uma citação direta do quadrinho, sugere que teremos um bocado de Manhattan ao longo de seus reveladores cinquenta e oito minutos de duração, mas a verdade é que na maior parte da duração do capítulo, Jon Osterman é uma presença de fundo, já que temos um longo flashback da vida de Angela Abar em Saigon nos anos 80, logo após os EUA vencerem a Guerra do Vietnã e tornarem o país asiático o quinquagésimo primeiro estado da União, então um cenário repleto de infinitas alusões ao semi-deus atômico americano.
É nesse flashback que descobrimos que Laurie Blake estava absolutamente certa a respeito de Angela quando destrinchou as razões da policial para se fantasiar e combater o crime (ainda que o faça dentro da lei). A Freira Noturna da série tirou seu nome fantasia do filme que não tinha permissão apra ver em VHS na infância porque seu pai dizia que pessoas usando máscaras são perigosas e têm coisas a esconder, fruto óbvio de seu trauma com a vida dupla do pai, Will Reeves, conforme vimos em This Extraordinary Being.
Quando seus pais morreram, Angela ficou em um orfanato em Saigon, onde eventualmente teria seu primeiro contato com a polícia, e chegou a conhecer June, sua avó paterna, com quem não havia tido contato, mas a vida da futura detetive Abar não seria fácil, conforme veríamos no decorrer do episódio.
Ainda sofrendo os efeitos da overdose da Nostalgia de Will, Angela passa o episódio sofrendo flashbacks que a levam a revisitar momentos-chave de seu próprio passado temperado pelas lembranças de Will, e a entender que tem muito mais em comum com seu avô do que gostaria de admitir.
Os dois sofreram perdas, os dois sofreram preconceitos e resolveram combater a injustiça assumindo o lado da lei, apenas para descobrirem que as autoridades tradicionais nem sempre servem à justiça. Ao tomar a Nostalgia de Will e reviver as memórias do Justiça Encapuzada, Angela foi confrontada não apenas com as experiências de seu avô, mas também com suas próprias decisões, e as razões que a levaram a tomá-las.
Mas não é apenas a respeito do passado de Angela que An Almost Religious Awe revolve, porém.
Enquanto o Relógio do Milênio de Lady Trieu se prepara para ser ativado, nós descobrimos um pouco mais a respeito da trilionária, sua filha Bian (Jolie Hoang-Rappaport), e da natureza de seus planos conjuntos com Will Reeves.
Mas em termos de planos revelados (ao menos parcialmente), nenhum é mais impactante do que o do senador Joe Keene e a Sétima Kavalaria, que Laurie acaba ouvindo em primeiríssima mão após seu encontro com Jane (Frances Fisher), a viúva de Judd Crawford, não terminar da maneira que ela esperava numa cena particularmente engraçada.
Quem também não está vendo as coisas andarem da maneira como gostaria é Adrian Veidt.
O Ozymandias, vestindo sua fantasia completa, enfrenta o julgamento do Guarda Florestal (que, descobrimos, vem se arrastando há um ano) em silêncio absoluto. Diante de um tribunal inteiramente formado por Srs. Phillips e Sras. Crookshanks, o homem mais inteligente do mundo mantém-se em absoluto silêncio, e, quando tem a oportunidade de se dirigir à corte, não usa a boca para expressar sua opinião a respeito dos trâmites legais em andamento. Aparentemente Adrian apostou todas as suas fichas em um resgate executado pelo Dr. Manhattan e perdeu...
Ou não?
Os minutos derradeiros do episódio são repletos de revelações que estão muito, muito longe de responder todas as perguntas que a série levantou até aqui, mas que, ao mesmo tempo, entregam o destino satisfatório à uma linha narrativa de fundo que vinha sendo aventada desde o começo da temporada, quando vimos Red Scare e Panda falando a respeito das possibilidades de uso dos poderes do Dr. Manhattan, e, eu devo dizer, a revelação final do episódio realmente me pegou de surpresa, ainda que eu não saiba, exatamente, se gosto dos rumos que ela deixa para os episódios finais da série.
Seja como for, no próximo domingo estarei a postos para ver que tipo de consequências as revelações desse episódio trarão para a reta final da série.

"-Homens brancos usando máscaras são heróis. Homens negros usando máscaras... São assustadores."

Resenha Série: O Mandaloriano, Temporada 1, Episódio 4: Capítulo 4: Santuário


O quarto capítulo de O Mandaloriano, Santuário não começa exatamente de onde o anterior, Pecado, que mostrou que Mando não estava disposto a vender sua alma em troca das regras da guilda dos caçadores de recompensa, e após tocar o terror nos stromtroopers decadentes d'O Cliente e recuperar a criança, usou a força dos números de seus irmãos mandalorianos para deitar a bordoada nos asseclas de Greef Kargas e escapulir do planeta com seu pequeno companheiro, havia acabado.
Santuário começa em outro planeta, onde um pacífico grupo de fazendeiros de krill (um camarão azul-brilhante que parece saído de Chernobyl) são acossados por um bando de bandoleiros klatoonianos que, sem a menor cerimônia, invadem a vila, matam, pilham e incendeiam.
É justamente a esse planeta que Mando chega procurando por um lugar onde se esconder com o alvo mais valioso da galáxia no momento. Infelizmente, o protagonista descobre que ele não foi a primeira pessoa a ter essa ideia.
A ex-militar da Aliança Rebelde Cara Dune (Gina Carano), agora uma mercenária procurando um lugar discreto onde ficar por algum tempo teve a mesma ideia, e os dois acabam tendo uma breve altercação que termina com Mando concordando que Cara chegou primeiro, e que ele e o bebê Yoda devem procurar outro lugar para se esconder (planeta pequeno, eu acho...).
Antes que ele consiga voltar ao espaço, porém, Mando é aproximado por dois fazendeiros do vilarejo aterrorizado, e eventualmente concorda em auxiliá-los contra os klatoonianos em troca de abrigo. Junto com Cara, Mando planeja apenas intimidar os criminosos, mas logo fica claro que essa não é uma opção, e que para ter uma chance de se livrar desses criminosos, os dois mercenários precisarão da ajuda de toda a tribo da vila.
Com ecos de Os Sete Samurais, aquela narrativa clássica onde um grupo de mercenários ensinam o povo de um vilarejo a lutar para se defender, Santuário não é o melhor episódio de O Mandaloriano até aqui. Na verdade, é a primeira vez em que um episódio do programa passou a sensação de ser filler, mas ainda assim, mantém o equilíbrio da série.
Dirigido pela gatinha fofucha Bryce Dallas Howard o Capítulo 4 da série consegue balancear humor, ação e momentos de quietude que nos oferecem um vislumbre maior das motivações e do passado de Mando.
Quando a bela viúva Omera (Julia Jones) se aproxima do caçador de recompensas, ouvimos ele próprio contar há quanto tempo vestiu o manto Mandaloriano, e como abraçou O Caminho de sua nova tribo por gratidão após ser resgatado por eles. Aprendemos o que acontece se Mando tirar seu elmo diante de outros, e que realmente, seu maior interesse nesse momento, é a garantia de que A Criança ficará segura, e aqui cabe mais um elogio à série:
Mesmo em seus momentos menos inspirados, o programa ainda é capaz de aprofundar-se na personalidade de seu protagonista de maneiras que (aqui vou eu de novo), os filmes simplesmente não conseguem. À essa altura, nós já sabemos mais a respeito de Mando do que sabemos a respeito de Finn, Rey, Poe e Kylo juntos, e nem sequer vimos seu rosto! E o mais grave de tudo é saber que Jon Favreau provavelmente tem uma sala na Disney e que poderia ter nos salvado dos episódios VII, VIII, IX e de Han Solo.
Não, nem tudo são flores na série, sua execução não é absolutamente irretocável, mas O Mandaloriano parece Star Wars em forma e conteúdo durante cada minuto de seus curtos episódios, e Santuário, com seus eventuais problemas, ainda oferece algumas boas cenas de luta, ao menos uma competente cena de batalha, e a participação de um dos veículos mais emblemáticos de Star Wars com efeitos visuais excelentes, ou seja: Mesmo em seus momentos menos inspirados, a série ainda é muito mais Star Wars do que os filmes atuais.
A primeira temporada de O Mandaloriano chega à sua metade tomando fôlego para o que, eu espero, seja um mergulho nas consequências dos atos de Mando para com Kargas e O Cliente, vamos torcer para que seja tão bom quanto o que veio até aqui, ou melhor.

"-Como isso funciona? Se você tirar essa coisa eles vêm atrás de você e te matam?
-Não. Eu jamais poderei colocá-lo novamente."

sábado, 30 de novembro de 2019

Resenha Game: Star Wars Jedi: Fallen Order


Não é apenas no cinema que os anos recentes têm sido sombrios para a base de fãs de Star Wars.
Após a Disney ter comprado a Lucasfilm (e extirpado a alma de Star Wars no processo) a LucasArts, bem sucedido braço de criação de games da empresa foi sumariamente executado, deixando para trás um currículo que tinha êxitos como Rogue Squad, The Force Unleashed e Knights of the Old Republic, e uma desolada base de fãs. Mal sabiam os amantes de games de Star Wars (entre os quais obviamente me incluo), que isso nem era o maior problema. A Disney, ao vender a exclusividade da produção de jogos eletrônicos de Star Wars, encontrou o pior comprador que poderia ser escolhido:
A Eletronic Arts.
É, a EA que em anos recentes se configurou num tipo de maligno Império Galáctico do mundo dos jogos eletrônicos. A empresa explora marcas e jogadores das piores maneiras, enfia loot boxes e sistemas de monetização em todos os seus títulos e chegou a declarar o fim dos games Single Player em nome dos jogos como serviço (apesar de seguir cobrando o preço tradicional de U$60,00 por seus jogos antes de começar a vender os serviços...) após ficar deslumbrada com o êxito financeiro de seu FIFA Ultimate Team, uma mina de ouro que a empresa californiana tenta reproduzir de qualquer forma.
A EA comprou e dissolveu a Visceral Games (do ótimo Dead Space) e no processo cancelou o game de Star Wars que Amy Henning, roteirista da série Uncharted desenvolvia para a empresa para, em seu lugar, lançar Star Wars Battlefront, um multiplayer de tiro online que nem sequer tinha um modo história, e ainda oferecia aos jogadores a oportunidade de pagar uma grana para comprar heróis e vilões lendários da saga para usar nas partidas contra outros jogadores. Dois anos após a publicação de Star Wars: Battlefront a EA lançaria mais um título de Star Wars.
Outro Battlefront...
Que tinha um curto e mal ajambrado modo história que amplamente criticado e apostou com tanta força em loot boxes que chegou a se tornar alvo de uma investigação nos EUA por ser excessivamente parecido com um jogo de azar.
Enquanto a Disney destruía Star Wars nos cinema (e na literatura, ao "descanonizar" todos os livros da saga, incluindo clássicos como a trilogia Thrawn para dar peso de Escritura à histórias podres como a série Aftermath e Estrelas Perdidas), a EA repetia o processo nos games.
Se nós fôssemos ter um texto subindo pela tela no ano de 2019 ele provavelmente começaria com algo como "São tempos negros para os fãs de Star Wars...", mas eis que chegou o mês de novembro, e no dia 12, houve o lançamento da excelente O Mandaloriano, melhor coisa com Star Wars no título desde A Vingança dos Sith, e, no dia 15, o lançamento desse Star Wars Jedi: Fallen Order, publicado pela EA e desenvolvido pela subsidiária Respawn Entertainment (conhecida pela série Titanfall), e que eu me senti na obrigação de comprar tanto porque os vídeos e gameplay do jogo me trouxeram reminiscências de The Force Unleashed, pra mim, uma das experiências mais divertidas que um fã de Star Wars pode ter jogando videogame, quanto porque eu sempre me sinto impelido a jogar games single player apenas pra que as produtoras continuem sabendo que há público cativo pra games que não são uma festa da uva online.
Após pouco menos de duas semanas, posso dizer que Star Wars Jedi: Fallen Order acertou na mosca.
Na história conhecemos Cal Kestnis (interpretado pelo Coringa da série Gotham, Cameron Moynaghan), que graças ao sacrifício de seu mestre Jaro Tapal, sobreviveu ao expurgo Jedi, exilando-se na orla exterior da galáxia para viver como um mecânico em um planeta ferro-velho onde espaçonaves são desmontadas e recicladas para turbinar a frota imperial.
Cinco anos se passaram desde que a Ordem 66 foi dada por Palpatine, e Cal vive ocultando sua verdadeira natureza, profundamente traumatizado pelos eventos de então, além de viver sob a sombra da culpa que sente por ter sobrevivido ao massacre.
Eventualmente, um acidente obriga Cal a usar a Força, e isso imediatamente atrai a atenção da Inquisidora Imperial conhecida como Segunda Irmã. Quando Cal está prestes a ser capturado pelo Império, ele é resgatado por Cere Junda e seu piloto, capitão Greez Ditrus, que o levam a bordo da nave Mantis e lhe oferecem uma missão: Procurar por relíquias de uma antiga civilização chamada Zeffo, em criptas onde o antigo mestre de Cere, Eno Cordova, ocultou informações capazes de revelar a localização de milhares de crianças sensitivas à Força dos registros dos Jedi, uma informação que precisa ser salvaguardada do Império tanto para proteger tais crianças de se tornarem inquisidores ou serem mortas, quanto para garantir o futuro da Ordem Jedi.
Logo, Cal, Cere e Greez ganham a companhia do dróide BD-1 (uma estranhamente adorável mistura de Wall-e, cachorro e galinha), antigo companheiro mecânico de Cordova, e partem em uma corrida para obter as informações reunidas pelo velho acadêmico Jedi antes que o Império use sua infinita máquina de guerra para fazê-lo, em uma aventura que os levará das profundas florestas verdejantes do planeta wookie de Kashyyyk até os empoeirados desertos vermelhos de Dathomir. Uma jornada que levará tanto Cal quanto Cere a superarem seus traumas e limitações enquanto arriscam tudo para dar à galáxia uma chance de emergir da escuridão do lado sombrio.
Longe de ser particularmente original, a trama de Fallen Order se encaixa muitíssimo bem na proposta do jogo. Cal é um padawan que teve seu treinamento bastante avançado, mas jamais concluído, e Cere perdeu sua padawan durante a execução da Ordem 66, ambos estão incompletos, e juntos têm a oportunidade de se tornarem quem deveriam ser.
Apesar de suas culpas e temores, Cal é essencialmente o mocinho o tempo todo. Ele jamais é perverso ou egoísta a ponto de sequer roçar no lado escuro da Força, e nesse sentido, a trágica história pretérita de Cere é mais interessante, servindo para humanizar a figura tradicional do mentor, e mesmo a principal vilã do game, a Segunda Irmã, tem uma surpreendentemente profunda vida pregressa, que enriquece a divertida trama do jogo, um curioso misto de Star Wars com Indiana Jones que deixaria George Lucas muito feliz se ele estivesse vivo (o que? Ele não morreu depois de assistir Os Últimos Jedi?).
Se à primeira vista cada um dos planetas visitados por Cal e a tripulação da Mantis parece pequeno, não é necessário muito tempo para descobrir que eles são surpreendentemente maiores conforme nós nos dedicamos à exploração (eu me perdi tanto no complexo imperial em Kashyyyk quanto nas cavernas de gelo de Zeffo, um sistema de viagem rápida faz falta em alguns momentos...) de enormes seções ocultas por atalhos ou passagens. A engenharia das fases é particularmente esperta, garantindo que o jogador de imediato saiba que, em um momento inicial, Cal não tem como acessar esse ou aquele lugar, poupando tempo.
Alguns desses cenários mudam dramaticamente de uma área para a outra, como as regiões sombrias sob as raízes da árvore sagrada de Kashyyyk, ou as criptas repletas de puzzles que, vez ou outra, fazem o jogador quebrar a cabeça para entender como fazer um mecanismo funcionar andando por cenários que contrastam de maneira flagrante com o que estamos habituados a esperar das ambientações da saga espacial, algo que se reflete no tipo de quebra-cabeças que surgem nas tumbas dos antigos Zeffo (imagine Nathan Drake usando a Força para congelar objetos em movimento por tempo suficiente para acessar uma área distante da sala, ou para empurrar uma enorme esfera metálica pelo cenário até uma caçapa magnética).
A exploração é a razão de ser desses enormes mapas, e tanto os baús (cheios de itens cosméticos) quanto os ecos da Força (sensações e memórias gravadas em certos itens que Cal é capaz de captar e que enriquecem a história do game) estão espalhados por toda a parte. Isso dá ao jogador razões de sobra para vasculhar cada canto escuro do mapa, frequentemente retornando a planetas já explorados para catar um novo traje, um novo poncho, ou aquela peça que falta para que o sabre de luz de Cal fique exatamente do jeito que nós queremos (há ainda pinturas novas para a Mantis e para BD-1). Além de personalizações e desses pequenos recortes que contam mais sobre o local explorado, eventualmente podemos encontrar até mesmo itens que afetam o gameplay na prática, como cartuchos de cura (BD-1 pode carregar até 10 deles, mas encontrar os dez demanda horas de exploração pelos mapas do jogo), ou um terço de um aumento permanente em sua barra de energia ou de Força.
Desde a cena de abertura, no planeta Bracca onde espaçonaves da trilogia prequel estão sendo transformadas em sucata, tanto a atenção aos detalhes quanto o amor dos criadores do game pelo material-fonte fica evidenciado. O visual de Jedi: Fallen Order é lindo, e transpira Star Wars tanto quanto The Mandalorian (embora seja importante dizer que os gráficos dos Wookies ficaram bastante esquisitos, parecendo bichos de pelúcia baratos). Claro, o altíssimo nível de detalhes do jogo cobra seu preço, e não é raro, ao entrar em uma nova área, haver alguns segundos de congelamento enquanto os pixels do cenários e dos inimigos nele se alinham no lugar, o que, se não chega a ser uma tragédia, por vezes é um pouco irritante. Nós podemos perdoar esses pecados à medida em que não há um imenso HUD de nenhuma espécia poluindo a tela. Até mesmo a barra de energia de Kal é discreta, BD-1, pendurado nas costas do herói geralmente faz as vezes de barra de energia, com as luzes de seu cérebro positrônico (não, essa expressão não é usada no game, mas foi a impressão que me deu), servindo de indicativo da saúde do protagonista, se o jogador se perder, também é através do pequeno dróide que um mapa tridimensional holográfico (que nem sempre é fácil de usar para encontrar o lugar onde queremos ir) aparece em cena e mesmo quando o combate começa, apenas a barra de Força e a de energia, sublinhada pela discretíssima barra de bloqueio, aparecem sobre o que estamos vendo, garantindo que os gráficos do jogo sempre tenham espaço para brilhar.
Em termos de jogabilidade, Fallen Order pega seu combate do modelo baseado em deflexões ou "parry" de Dark Souls, onde o timing dos bloqueios e saber a hora de se esquivar é a alma do negócio para não apanhar até de stormtroopers (eu comecei, cheio de moral, jogando na dificuldade Jedi Master, para após um par de fases calçar as sandálias da humildade e colocar de volta em Jedi Knight), enquanto a exploração é regida pela cartilha de Uncharted, com saltos, escalada, corrida por paredes e balanço em cordas, tudo turbinado pelos poderes da Força, um tempero que deixa tudo mais divertido, especialmente conforme novas habilidades da Força vão sendo introduzidas e ampliadas no decorrer da campanha.
Inicialmente o combate é difícil, mas a recompensa de vencer o mano a mano contra uma horda de inimigos sem sofrer um arranhão vale a curva de aprendizado.
Usando com esperteza todos as melhores facetas da cartilha dos games de aventura Star Wars Jedi: Fallen Order é um tremendo êxito da Respawn, um pedido de desculpas decente da EA, e um bálsamo para os vilipendiados fãs de Star Wars que esperavam há anos por uma volta da série a seus melhores tempos gamísticos.
Novembro de 2019, a Força está com esse mês.

"-Você não estará sozinha.Terá um amigo com você.
-Não. Eu terei um Jedi comigo."

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Resenha Série: O Mandaloriano, Temporada 1, Episódio 3: Capítulo 3: O Pecado


Atenção! Há spoilers abaixo.
Os dois primeiros episódios de O Mandaloriano eram, ao mesmo tempo, tudo o que um fã de Star Wars poderia esperar de uma série, e nada do que um fã de Star Wars esperava da série.
Eu digo isso porque, em um primeiro momento, imaginei que o seriado seria um tipo de aventura espacial procedural, no formato tradicional de episódios tendo começo, meio e fim, cada um tratando de uma recompensa do protagonista em algum canto obscuro da orla exterior.
Mas não.
Uma grata surpresa, o seriado é como um grande longa metragem dividido em capítulos de meia hora, e a cada capítulo ele desenvolve um pouco mais sua trama e seu protagonista.
O terceiro capítulo de O Mandaloriano, intitulado O Pecado, já começa com um elemento brilhante em sua execução: Nós realmente não sabemos o que Mando irá fazer com a criança ao chegar de volta ao planeta onde é aguardado pel'O Cliente.
À essa altura do programa, nós ainda não sabemos o bastante a respeito do protagonista para antever qual será seu comportamento com relação a seu mais recente prêmio.
Mas a verdade é que Mando segue (quase) todas as regras da guilda dos caçadores de recompensas, entrega o contrato, recebe seu riquíssimo pagamento em lingotes de aço Beskar, e retorna ao esconderijo dos mandalorianos local para transformar todo aquele tesouro em utilidade a exemplo do que fizera no primeiro capítulo ao receber sua comissão.
Claro, trabalhar para clientes ligados ao Império, o indiscutível responsável pelo grande expurgo que reduziu os mandalorianos a um pequeno grupo de caçadores de recompensas escondidos nos subterrâneos de antros de escória e vilania não deixa Mando na melhor das posições com seus colegas de clã, e uma altercação acaba acontecendo entre Mando e outro guerreiro (sejamos francos, os demais mandalorianos também podiam estar apenas com inveja da inestimável fortuna em aço Beskar que o protagonista carregava em sua sorveteira). Uma altercação que logo é encerrada calmamente pela Armeira (Emily Swallow) apenas com algumas palavras lembrando aos brigões sua situação, e que a força dos mandalorianos é sua sobrevivência.
É justamente quando a armeira oferece a Mando o mudhorn, o rinoceronte felpudo (cuidado, morena) que lhe deu uma surra no episódio passado, como seu símbolo, ao que ele nega, confessando que não pode aceitar porque não foi uma vitória honrosa, que nosso anti-herói é tomado por uma onda de remorso.
"Eu tive ajuda de um inimigo.", ele diz. "Por que um inimigo o ajudou?" questiona a Armeira. "Ele não sabia que era meu inimigo, então.".
Os constantes flashbacks que remontam à infância de Mando no que parece ser o grande expurgo de Mandalore mostram que ele é um dos enjeitados que foram acolhidos pela ordem guerreira, e aparentemente Mando não consegue evitar de pensar que a criança é um enjeitado a quem ele virou as costas, e essa percepção não está deixando o caçador de recompensas sossegar a cabeça dentro de seu elmo de viseira estreita.
De posse de sua gloriosa armadura (que o deixou com um visual meio Jango Fett, meio Phasma, mas com mais personalidade e ginga do que os dois combinados), Mando volta à cantina para obter novos trabalhos com Greef.
Ele apanha todos os que consegue carregar, ansioso por sair logo do planeta, mas assim que chega à Razor Crest, nós sabemos que Mando não vai à parte alguma.
O que se segue é uma sucessão de sequências de ação que estão entre as melhores da série até aqui, e o ponto em que Mando deixa de ser apenas o protagonista de O Mandaloriano, para se tornar o herói da série, além de dar ao programa seu mote:
A partir de agora, Mando deixa de ser o caçador para se tornar a recompensa, o que certamente colocará todo um parsec de caça-prêmios impiedosos em seu encalço pelos cinco capítulos vindouros.
Capítulo 3: O Pecado foi, disparado, o melhor episódio de O Mandaloriano até o momento. Finalmente o seriado nos deu insights sobre o herói da série (aliás, palmas para Pedro Pascal, que consegue a proeza de lançar olhares hesitantes de dentro de um elmo de viseira fechada, e demonstrar emoções conflitantes apenas com a voz e movimento do pescoço e das mãos), lançar alguma luz sobre o que o restolho do Império deseja com A Criança, que segundo o doutor Pershing (Omid Abtahi, de Deuses Americanos) é um menino. Aparentemente extrair algo dele, midi-chlorians, talvez? Material genético para iniciar uma sanha clonadora em Kamino? Mas com que fins?
Isso descobriremos mais adiante, o importante é que o capítulo dirigido por Deborah Chow (que tem episódios de Better Call Saul, Punho de Ferro e O Homem no Castelo Alto em seu currículo e será a showrunner da vindoura série de Obi-Wan Kenobi) deu um tremendo passo na direção certa, não apenas mantendo a qualidade que tornou O Mandaloriano um oásis de qualidade em meio ao deserto de mediocridade de Star Wars pós-Disney, mas ampliando o lore da série e nos mostrando, mais ou menos, para onde iremos a partir daqui.
Que venham os próximos capítulos.

"-Esse é o caminho."




terça-feira, 26 de novembro de 2019

Resenha Série: O Mandaloriano, Temporada 1, Episódio 2: Capítulo 2: A Criança


Uma Nova Esperança.
É isso que O Mandaloriano representa para Star Wars após Jar Jar Abrams e Rian Johnson aleijarem a franquia sob as mãos de ferro do império, digo, da Lucasfilm de Kathleen Kennedy.
O primeiro episódio da série fora uma aula de como se faz Star Wars sem precisar reciclar histórias já contadas, e nem tampouco jogar a mitologia da série pela janela enquanto sapateia em seus personagens clássicos.
Na verdade, Capítulo Um (o econômico título do primeiro episódio) conseguiu exalar Star Wars por cada poro e ainda ampliar a mitologia da série quando Mando (o "nome" do protagonista a partir de agora, cortesia de Kuill) descobriu que seu alvo de cinquenta anos de idade é um bebê da raça de Yoda, um dos mais poderosos Jedi da história da ordem.
De posse de seu prêmio, o caçador de recompensas ainda precisa enfrentar alguns concorrentes trandoshanos que imediatamente descobrem que não é bolinho tentar tirar o ganha-pão de um mandaloriano, apenas para encontrar sua espaçonave depenada por Jawas (sugerindo que o planeta em questão é Tatooine, talvez?).
Após tentar recuperar suas peças num entreveiro desigual contra um sandcrawler dos obstinados recicladores espaciais, Mando se vê preso em um planeta hostil sem ninguém a quem recorrer, exceto Kuill, que está disposto a intermediar um acordo entre o caçador de recompensas e os larápios.
O preço que os pequenos roedores do deserto demandam para devolver as partes roubadas da espaçonave, porém, pode ser mais do que o mandaloriano é capaz de pagar, a menos que ele receba ajuda, ainda que da mais improvável das fontes...
Capítulo 2: A Criança é outra pequena joia que abarca tudo aquilo que os fãs de Star Wars amam. Os figurinos, a trilha, os personagens e o tom que a série escolheu para si, é tudo Star Wars em seu mais puro estado.
Além de todos esses acertos, a série mostra que seu protagonista não nasceu pronto, e começa a desenvolver sua personalidade a medida em que relação entre o caçador de recompensas e seu prêmio começa a ser erigida.
Mando, após lutar contra os trandoshanos, está ferido, e por duas vezes o bebê tenta curá-lo. Alheio à essa demonstração de gratidão de seu alvo, o caçador de recompensas simplesmente coloca a criança de volta em seu berço, mas ao final do episódio, essa dinâmica parece ter mudado sensivelmente.
Outro elemento que pode ter gerado essa alteração, é Kuill.
O personagem de Nick Nolte (que bom que pudemos voltar a vê-lo) é tudo aquilo que Mando não sabia que havia na galáxia. Honesto, prestativo, generoso e abnegado, ele sai de seu caminho não uma, mas duas vezes para ajudar o mandaloriano. E não deseja nada em troca, exceto um obrigado. Seu bordão "E tenho dito", deveria entrar no vernáculo de fãs de Star Wars toda a vez que fizerem algum gesto desinteressado de gentileza por um estranho. Certamente é possível que o comportamento do velho Ugnaught seja um dos catalisadores em alguma mudança na forma de Mando ver o universo iniciando o que possivelmente seja a jornada do protagonista ao longo da temporada.
Capítulo 2: A Criança não é apenas o veículo de ótimas sequências de ação, mas nos acena com qualificado desenvolvimento de personagem e revelações que podem reverberar por toda a mitologia de Star Wars, enquanto pavimenta caminho para o que deve ser um explosivo terceiro episódio. Iremos descobrir o que o Império quer com o bebê? Mando irá finalizar o acordo conforme o combinado a despeito dos eventos desse episódio?
Com mais um excelente capítulo, que consegue encaixar tanto conteúdo em pouco menos de meia hora, o diretor Rick Famuyiwa faz um trabalho fantástico mantendo o alto nível do piloto.
A série se consolida como o melhor exemplar de Star Wars em mais de uma década, capturando a velha magia da série, do ritmo, ao humor, à aparência e ao sentimento que os antigos filmes criavam. E após apenas dois episódios, eu já começo a me preocupar com o vazio que a série irá deixar quando a curta temporada de oito episódios terminar...
Que venha o terceiro capítulo.

"-Eu sou um Mandaloriano. Armas são minha religião."

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Resenha Série: O Mandaloriano, Temporada 1, Episódio 1: Capítulo Um


Acredito que tenha sido em 2012 ou 13 que a Disney concluiu a compra da Lucasfilm, colocando sob seu guarda-chuva corporativo Indiana Jones e Star Wars (ou 66% da carreira de Harrison Ford).
Se o arqueólogo mais famoso do cinema foi mantido em banho maria, imediatamente a Disney começou a maquinar formas de fazer dinheiro com aquela galáxia bem, bem distante, e em 2015 já estava sendo lançado O Despertar da Força.
Apesar de eu inicialmente ter gostado do Episódio VII, me lembro de ter deixado claro que aquele filme não acabava, mas se interrompia, e que seu verdadeiro potencial só poderia ser reconhecido após termos assistido aos episódios VIII e IX. Não preciso dizer que Os Últimos Jedi, não apenas destruiu O Despertar da Força, mas deixou claro que a Disney não sabia o que estava fazendo com a franquia. A trilogia que deveria encerrar a saga da família Skywalker é uma festa da uva onde cada diretor chega e faz o que quer (basta ver que Rian Johnson massacrou O Despertar e o episódio IX, já que o diretor original do longa, Colin Trevorow, implorou a Johnson que não matasse Luke, pedido que não foi atendido, deixando o diretor de Jurassic World em um mato sem cachorro tão violento que ele eventualmente seria afastado do filme, algo que também aconteceu com Phil Lord e Chris Miller em meio à filmagem de Solo, e com Gareth Edwards nos estágios finais de desenvolvimento de Rogue One), não há uma história definida, não existe jornada para os personagens e parece que a única preocupação da saga é garantir que os protagonistas da trilogia original deixem claro que suas vidas foram miseráveis e seus feitos inócuos antes de matá-los.
Foi por isso que eu não assisti Solo no cinema, é por isso que não assistirei A Ascensão Skywalker no cinema, e é por isso que eu estava pouco me lixando para O Mandaloriano, único produto novo da recém lançada plataforma de streaming digital do Mickey, a Disney+.
Mas eu adoro Star Wars.
Esse universo é importante pra mim, e fazer juízo prévio das coisas não é do meu feitio, de modo que após alguns trailers bem maneiros do seriado idealizado por Jon Favreau, o sujeito que lançou a pedra angular do MCU com Homem de Ferro em 2008, resolvi ver ao menos um episódio da série e ver se, por alguma eventualidade, ela não tinha atrativos que me mantivessem ligado.
No primeiro episódio, intitulado apenas Capítulo Um, conhecemos o mandaloriano do título (Pedro Pascal, o Oberyn Martel de Game of Thrones, que jamais tira a sua máscara). Ele entra em um bar repleto de pessoas terríveis acossando um alienígena azul, Mythrol (o ex-SNL Horatio Sanz), a quem querem matar por suas glândulas, que valem muito dinheiro.
O mandaloriano entra na briga, nocauteia os vagabundos, e, quando Mythrol se prepara para agradecer pelo resgate, descobre que o guerreiro não o salvou por nutrir nenhum sentimento fraterno, mas porque há uma bela recompensa pelo sujeito.
Tomando lugar sete anos após os eventos de O Retorno de Jedi, O Mandaloriano mostra a galáxia no período de transição entre o Império e a Nova República, um momento particularmente cinzento na Orla Exterior, quando o submundo está se rearranjando sob o novo prisma político com a entrada de ex-oficiais imperiais nas fileiras do crime organizado.
Movido unicamente pela pétrea vontade de manter os refugiados da tribo unidos e com uma perspectiva de futuro, o mandaloriano encaixa um trabalho no outro, sempre procurando o corretor de recompensas Greef Karga (Carl Weathers) em busca do próximo alvo.
Quando o seu caminho se cruza com o d'O Cliente, um elemento sombrio ligado ao Império (Werner Herzog, cujo mero sotaque torna tudo o que ele diz ameaçador) que lhe oferece um valiosíssimo carregamento de aço Beskar em troca de um fugitivo, o Mandaloriano não pensa duas vezes antes de aceitar o trabalho, que o leva até um planeta desértico onde o Ugnaught Kuiil (voz de Nick Nolte) o ajuda e ensina a montar um tipo de peixe-dinossauro bípede chamado Bluurgh, antes de levá-lo até o local para onde dezenas de caçadores de recompensa têm ido, tirando o sossego da vida idílica do velho eremita.
Mas encontrar o alvo é apenas metade do problema, a partir do momento que a oposição guardando o alvo do mandaloriano é feroz, e, pra piorar, ele tem concorrência pelo prêmio na forma do dróide caçador de recompensas IG-11 (voz de Taika Waititi).
Jon Favreau é o idealizador e showrunner de O Mandaloriano, e co-escreveu o roteiro da série, da qual este primeiro episódio é dirigido pelo veterano das séries animadas de Star Wars Dave Filoni, e Favreau parece ser o primeiro sujeito ligado à Disney a entender que Star Wars é, em essência, um faroeste.
Sim, ele se passa no espaço, em um tipo de futuro velho, e tem uns magos samurais com espadas laser, mas não se tira de Star Wars suas raízes de bangue-bangue.
Se esse prisma serviu à perfeição para contar a história da rebelião encabeçada por uma princesa, um salafrário e um garoto da fazenda, quando colocamos ela sobre a história de um caçador de recompensas em uma região sem lei, ela alcança píncaros de harmonia comoventes.
Some-se a isso o valor de produção que permite que o seriado tenha direção de arte, sets, efeitos visuais e práticos, e elenco dignos de cinema, mais uma trilha sonora fodelona de Ludwig Göransson, e um protagonista que se despe de qualquer vaidade se escondendo debaixo de um capacete o tempo todo, atuando apenas com a voz e expressão corporal, e O Mandaloriano precisa de apenas meia hora para se tornar a melhor coisa com Star Wars no título desde A Vingança dos Sith.
É muito tarde para apagar os últimos quatro filmes, cancelar o Episódio IX e começar de novo com Favreau no comando?

"-Caçar recompensas é um negócio complicado..."