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sábado, 7 de novembro de 2020

Resenha Série: O Mandaloriano, Temporada 2, Episódio 2: A Passageira

 



Ah, O Mandaloriano... É tão bom ter esse período em que sabemos que a cada semana poderemos ver Star Wars sem nos preocupar com qual parte da mitologia será vilipendiada pelos diretores e roteiristas contratados pela Lucas Film. É tão bom poder dizer "Hoje tem Star Wars" sem estar com cara de quem vai receber visita da sogra...
Enfim, ontem teve Star Wars, "e dos bons, Chaves", já diria Seu Madruga.
Após ajudar os mineradores de Mos Pelgo e o serife Cobb Vanth a se livrar de um dragão Krayt e recuperar a armadura de Bobba Fett, Mando e o bebê Yoda estão voltando a Mos Eisley quando uma emboscada os faz ter que tomar o caminho mais longo de volta.
Naquela conhecida Cantina, Mando acaba dando sorte, e encontra Peli Motto e um conhecido, Dr. Mandíbula, que, aparentemente, conhece alguém que pode ser capaz de colocá-lo em contato com mais mandalorianos. Após uma breve negociação, Mando descobre sobre uma localização em Trask, uma lua estuária no sistema vizinho, ao redor do gigante gasoso Kol Iben, onde há alguém que pode levá-lo a seu povo, mas, para isso, ele deverá dar uma carona a uma passageira, uma alienígena com aparência anfíbia creditada apenas como "Senhora Sapo", e interpretada por Misty Rosas e dublada por Dee Bradley Baker.
A Senhora Sapo, Peli informa, precisa ser levada até Trask, para que seus ovos sejam fertilizados por seu marido. A questão é que os ovos, mantidos em um recipiente com temperatura controlada, são muito frágeis para viajar em velocidade da luz, então a viagem deve ser feita à moda antiga. Mando não está particularmente satisfeito com a perspectiva de viajar em sub-luz, o que o deixaria vulnerável a piratas e senhores da guerra, mas acaba sendo convencido por Peli Motto.
A viagem em baixa velocidade acaba se provando realmente uma ideia ruim, embora não pelas razões que Mando supunha, e culmina com o trio naufragando com a Razor Crest parcialmente destruída em um planeta congelado, o que leva a um encontro tenebroso com os habitantes locais...
A Passageira mantém o ritmo que se tornou uma tradição na temporada passada, em um episódio o programa acena com o que parece ser o pano de fundo para um arco que ocupará todos os capítulos, no caso a possível presença de Bobba Fett na série, para no seguinte nos jogar em quarenta minutos de aventura basicamente inconsequente.
E quer saber?
Eu gosto.
O segundo episódio da temporada de O Mandaloriano é divertido, tem boas cenas de ação, humor, e flerta de maneira agradável com o horror em seu desfecho, um feito surpreendente já que o episódio é dirigido por Peyton Reed, de As Apimentadas e Homem-Formiga 1 e 2.
Alguém poderá dizer que o episódio é mero filler, mas os eventos que transcorreram aqui podem ter consequências no futuro imediato de Mando, há um elemento temático relacionado a paternidade/maternidade no cerne do episódio, e temos Mando dizendo "Que a Força esteja com vocês" e X-Wings, então, que a série se sinta à vontade para me trazer mais filler desse tipo sempre que quiser... Enfim, semana que vem tem mais Star Wars.

"Coloque uma marca nele e não haverá lugar onde você poderá de se esconder de mim."

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Resenha Filme: Problemas Monstruosos

 



Quando eu assisti ao trailer de Love and Monsters (um título perfeitamente bem encaixado na proposta do filme, por sinal, que é sobre amor e monstros), eu fiquei com a sensação de que era quase uma versão de Zumbilândia que trocava zumbis por monstros gigantes e, considerando o quanto Zumbilândia 2 foi ruim, eu não tinha certeza se estava disposto a ver mais uma imitação do longa.
Ainda assim, ontem à noite me deparei com o Problemas Monstruosos em um serviço de aluguel digital, e resolvi esvaziar a carteira digital e dar uma chance ao filme.
O mundo de Problemas Monstruosos nos é apresentado por seu narrador, Joel Dawson (Dylan O'Brien, encontrando um sensível equilíbrio entre neurótico irritante e neurótico gostável). Joel é um dos sobreviventes de um apocalipse que começou sete anos antes, quando um asteroide se aproximava da Terra. Os poderes do planeta se uniram e lançaram mísseis que detonaram a rocha em pleno voo, entretanto, os detritos da detonação, ao retornarem à atmosfera da Terra, causaram mutações em todas as criaturas de sangue frio de nossa fauna, que aumentaram de tamanho a ponto de termos crianças sendo comidas por peixes dourados e tanques de guerra sendo insuficientes para matar baratas.
A humanidade foi quase extinta, 95% da espécie humana foi perdida enfrentando as criaturas, e os cinco por cento restantes se recolheram em colônias subterrâneas onde subsistem de eventuais caçadas e coletas, sempre à sombra de criaturas que também estão famintas e caçando.
Joel não é um grande caçador ou coletor. Ele sofre de um problema de congelamento que o paralisa de medo em momentos de tensão, e faz sua parte no bunker onde vive operando o rádio e cozinhando. Nos últimos anos, Joel se tornou o mascote de um grupo de pessoas que se juntaram em casais enquanto ele perdeu o amor de sua vida, Aimee (Jessica Henwick, de Punho de Ferro) quando a humanidade foi chutada do topo da cadeia alimentar.
A questão é que, ao contrário dos pais de Joel, Aimee não morreu. Ela e ele apenas se separaram quando o apocalipse monstro começou, e, após sete anos de busca, ele finalmente descobriu onde ela está, e, sentindo-se sozinho no mundo, resolve encarar uma jornada de mais de cento e trinta quilômetros pela superfície hostil do planeta para encontrá-la.
Sem ser nada como um exímio sobrevivente, Joel começa sua jornada solitária de maneira atabalhoada, cometendo todo o tipo de erro, e contando com a sorte e a ajuda de desconhecidos que se tornam seus companheiros e aliados de maneira mais duradoura, como o cachorro Boy, ou brevemente, como os sobreviventes Clyde (Michael Rooker) e Minnow (Ariana Greenblatt) para não ser comido vivo logo em seus primeiros dias fora da colônia e tentar sobreviver por tempo o suficiente para reencontrar o amor de sua vida.
Problemas Monstruosos é muito melhor do que deveria ser.
Sério, quando eu comecei a assistir o filme, que se inicia com uma enxurrada de exposição, eu estava me preparando para procurar a duração do filme e descobrir por quanto tempo eu seria obrigado a suportá-lo, mas aí, em poucos minutos, o roteiro Brian Duffield e Matthew Robinson encontra os trilhos de uma maneira muito surpreendente, e muito, muito satisfatória ao dar algumas bolas dentro que me pegaram no contrapé.
Pra começar, a construção de mundo do longa é muito esperta. Nós rapidamente somos levados a temer esse mundo, e esperar qualquer coisa dele. Um trabalho ainda mais competente é feito com os personagens que o habitam, que não são apenas estereótipos peculiares para atrair o olhar da audiência por alguns minutos, mas a soma do que aconteceu com o mundo nesses últimos anos. Em nome de Stan Lee, o cachorro do filme tem mais personalidade, história de vida e profundidade emocional do que os personagens de Tenet todos juntos!
Pra tornar a coisa toda ainda mais inexplicavelmente bem sacada, Joel passa por uma jornada de verdade, seus confrontos e encontros têm peso baseado não apenas em sua inaptidão presente, mas ancorados em seu passado, e seu crescimento não é apenas tentar aprender a matar monstros, mas encontrar seu lugar em um mundo que, inicialmente, parecia não ter mais nada para lhe oferecer...
O diretor Michael Matthews ainda acerta a mão ao conseguir a proeza de tornar cada encontro monstruoso do longa diferente do anterior, mexendo não apenas no grau de perigo envolvido, mas encontrando sempre um novo propósito dramático ou emocional, e em um filme chamado Amor e Monstros (ou, vá lá, Problemas Monstruosos), isso não é um feito pequeno.
Com uma história redondinha, sem nenhum tipo de arbitrariedade narrativa, um elenco carismático e talentoso atuando de maneira honesta, e efeitos visuais competentes, Problemas Monstruosos foi uma das sessões de "cinema" mais prazerosas que eu tive nesse estranho ano de 2020, onde, na mesma semana eu assisti o blockbuster da temporada, dirigido pelo genial Christopher Nolan, e um filme de monstros lançado direto em formato digital, e fui mais cativado pelo segundo do que pelo primeiro.
Abra sua carteira digital e dê uma chance ao filme. Ele certamente vale uma hora e quarenta e nove minutos do teu tempo.

"-Eu vou te encontrar.
-Acho bom."

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Resenha Cinema: Tenet


 Na última década e meia, mais ou menos, Christopher Nolan conseguiu se alçar à condição de deus cinematográfico dos nerds do mundo graças a seu compromisso com uma forma muito esperta de fazer cinema, embrulhando temas em narrativas de múltiplas camadas, ás vezes não lineares, e sempre perfeitas do ponto de vista técnico. Ajudou bastante a carreira do homem o fato de ele ter feito o filme do Batman mais próximo da perfeição, e algumas fitas de ficção científica e ação que estão, todas, na prateleira de cima do que se produziu dentro da proposta nos últimos anos, como Interestelar, A Origem e O Grande Truque, de modo que o status de que o cineasta goza nos dias de hoje não é imerecido, de forma alguma. Nolan é o tipo de sujeito que sempre merece a deferência de uma visita ao cinema.
E foi por isso, e a recomendação de uma morena muito cheirosa, que eu resolvi gastar duas horas e meia do meu feriado na sala de cinema mais próxima de casa e conferir Tenet, o mais recente trabalho do diretor e, segundo o próprio, um roteiro tão complexo que lhe tomou mais de cinco anos para ser concluído.
Tenet começa durante um sítio terrorista na Rússia, quando o protagonista, Protagonista (John David Washington, de Infiltrado na Klan), e não, eu não estou brincando, esse é o nome dele nos créditos, faz parte de um grupo de operações especiais da CIA encarregado de resgatar um agente infiltrado tentando recuperar um artefato misterioso.
A missão porém, dá errado, o artefato cai em mãos inimigas e o Protagonista é capturado e torturado pelos vilões até conseguir comer um comprimido de cianeto e se matar.
Exceto que ele não morre. 
Ao despertar em uma localização secreta, ele descobre que toda a operação foi um teste para verificar se o agente estava apto a encarar a missão de verdade, fazer parte da organização chamada Tenet...
O Protagonista começa a tomar conhecimento de que se trata a coisa toda ao conhecer Barbara (Clémence Poésy), que lhe explica que, no futuro, a humanidade descobriu uma forma de alterar as propriedades dos objetos para que eles interajam com o tempo de maneira reversa. Objetos largados ou jogados no chão, vêm para a mão de quem os arremessou, balas disparadas por uma pistola, são aparadas pelo cano da arma, pilhas vão ganhando mais energia conforme o tempo passa...
Barbara explica que os objetos expostos à essa tecnologia são chamados de "invertidos" e que pessoas más do futuro, estão usando os invertidos para influenciar objetos no passado, o nosso presente, criando uma Guerra Fria Temporal, e Tenet está tentando impedir que essa guerra destrua o mundo.
Investigando as balas invertidas em posse de Tenet, o Protagonista chega a um traficante de armas indiano, que o direciona até o bilionário do contrabando bélico Andrei Sator (Kenneth Brannagh).
Sator, porém, é tão inatingível, que a única maneira de se conectar a ele é através de sua esposa, Kat (a bela e enorme Elizabeth Debicki, uma cabeça mais alta que todo o resto do elenco).
Kat, porém, vem sendo chantageada por Sator a permanecer casada com ele, e em troca de sua ajuda, ela deseja se ver livre do jugo do bandido e garantir que seu filho escape com ela, o que leva o Protagonista e seu parceiro, Neil (Robert Pattinson) a divisar um arriscado e explosivo plano para conseguir acesso ao mafioso e descobrir, de uma vez por todas, como impedir que a inversão do tempo cause danos catastróficos ao planeta.
É estranho dizer isso a respeito de um filme de Christopher Nolan, mas eu francamente não sei se gostei de Tenet.
O longa desafia a análise convencional porque ele se esforça o tempo todo para não sê-lo, e sim, isso é positivo, mas ao mesmo tempo é o tipo de filme que provavelmente precisa ser assistido múltiplas vezes para ser compreendido e apreciado em sua totalidade.
Assistindo ao filme uma única vez, seus defeitos acabam saltando aos olhos mais do que as eventuais qualidades que se escondam nas entrelinhas, então, eu me ressinto do fato de não saber absolutamente nada a respeito d'O Protagonista, exceto que ele é durão e esperto, e que qualquer resquício de personalidade que ele tenha, se deve ao carisma de John David Washington, ou que, ao invés de nos apresentar seu mundo e seus personagens para que nós nos aclimatássemos a eles (como era o caso em A Origem) o longa dispara nos mostrando uma série de eventos mais ou menos explicados porque quer que, no clímax, nós vejamos esses mesmos eventos sob um novo ponto de vista graças à narrativa não-linear.
Não me entenda errado, o filme é movimentado, repleto de sequências de ação interessantes, usa os invertidos de maneira visualmente bem esperta e deixa qualquer pessoa que esteja disposta a pensar nas implicações de longo prazo da utilização das Catracas coçando a cabeça por horas após o fim da sessão.
Aliás, falando em coçar a cabeça, eu fico imaginando como é que os povos que têm inglês como língua nativa conseguiram assistir a esse filme. Em certas cenas o som é tão abafado que, sem legendas, eu não faço ideia de como o público foi capaz de acompanhar o que estava acontecendo, e, lendo a respeito online, vi que isso é proposital, e não um problema da sala do GNC onde eu vi o filme.
O maior problema de Tenet, entretanto, é a maneira como o longa parece ter a cabeça enterrada em seu conceito, mais do que em sua história. Com os eventos parecendo muito mais com uma desculpa para a próxima sequência de tempo invertido que desafia a realidade do que tentativas de movimentar a narrativa adiante.
Os personagens são algo estéreis, como eu disse, o Protagonista mal tem uma personalidade, Kat quer fugir do marido malvado, Sator é malvado... A exceção é surpreendentemente Robert Pattinson, que consegue flutuar entre entendido de ciência e espião durão com uma boa dose de esquisitice e charme britânico, e parece estar realmente se divertindo no papel, o que o torna o ator mais divertido de assistir em um elenco que ainda conta com Dimple Kapadia,, Himesh Patel, Michael Caine, Aaron Taylor-Johnson e Martin Donovan.
Claramente há um bocado de trabalho duro por trás de Tenet, tanto do ponto de vista técnico quanto intelectual, tudo é filmado de maneira mais do que competente e é divertido de ver e até de ficar ponderando depois do fim, mas é difícil não ver o longa da mesma forma que eu vi Projeto Gemini no ano passado, muito mais como um exercício de conceito do que como uma história com a qual a audiência possa se conectar do ponto de vista emocional. O longa, em outras palavras, parece uma guria muito bonita, que parece inteligente e que fala bem, mas com quem tu não quer namorar.
Christopher Nolan continua sendo um cineasta fundamental de nossos tempos, e um cineasta necessário em um momento onde mais e mais os filmes parecem sair de linhas de montagem, entretanto, Tenet prova que apuro técnico e grandiloquência intelectual podem ser aspectos importantes de uma experiência cinematográfica, mas não substituem uma narrativa atraente e personagens bem desenvolvidos.
Em suma, mesmo tendo a impressão de que eu gostaria mais de Tenet ao vê-lo uma segunda vez, eu certamente não o farei no cinema.

"-O que aconteceu aqui?
-Ainda não aconteceu..."


sábado, 31 de outubro de 2020

Adeus, Duplo Zero Sete

 


Hoje deu-se a passagem de um dos grandes ícones do cinema no Século XX e XXI.
Sean Connery, ator escocês que, antes de se aventurar na dramaturgia foi leiteiro, motorista de caminhão, marinheiro, jogador de futebol e fisiculturista morreu aos 90 anos em Nassau, nas Bahamas.
Connery, após alguns trabalhos menores no teatro e televisão alcançaria fama mundial ao se tornar James Bond no primeiro filme da longeva franquia, 007 contra o Satânico Dr. No.
Connery ainda viveria o agente menos secreto da MI6 em outros seis filmes, Moscou Contra 007, 007 contra Goldfinger, 007 contra a Chantagem Atômica, Com 007 Só se Vive Duas Vezes e 007 Os Diamantes são Eternos, além do não-oficial para efeitos de franquia 007 Nunca Mais Outra Vez.
O estrelato continuaria após ele passar as chaves do Aston Martin e a Walter PPK a Roger Moore, embora o ator nem sempre tenha feito as escolhas corretas em sua carreira, participando de filmes importantes como Assassinato no Expresso do Oriente, O Homem que Queria ser Rei, O Nome da Rosa, Indiana Jones e a Última Cruzada e Os Intocáveis, que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante, mas também dispensando os papéis de Morpheus em Matrix e de Gandalf em O Senhor dos Anéis, e embarcando em algumas canoas furadas como A Espada do Valente, Highlander 2, Os Vingadores e A Liga Extraordinária, além de ter usado um dos figurinos mais estrambóticos da história do cinema em Zardoz...
Independente de suas escolhas estranhas, porém, Connery seguiu sendo um dos atores da prateleira de cima do cinema Hollywoodiano até se aposentar da atuação em 2003, um retiro que ele quebraria brevemente em 2012, para participar de dois filmes, Sir Bill e Ever to Excell atuando apenas com voz.
Além do Oscar, Connery venceu o Globo de Ouro, e o BAFTA, e também foi honrado com o Cecil B. DeMille e o Henrietta awards da Imprensa Estrangeira de Hollywood.
Sean Connery viveu uma vida longa e próspera, e embora não esteja mais conosco, seguirá eternamente vivo nos corações e mentes de todos os fãs de cinema que ouviram "shua vosh" em alguns dos clássicos e não tão clássicos de que ele participou ao longo de sua longeva e bem sucedida carreira.
Deshcanche em pash, sir Connery.


Resenha Série: O Mandaloriano, Temporada 2, Episódio 1: O Xerife


 
A Disney comprou Star Wars em meados de 2012, e passou os quatro anos seguintes mostrando que não sabia muito bem o que fazer com a franquia. Entre uma trilogia sequência horrorosa, com três filmes que não conseguiam dialogar entre si, um filme para o qual ninguém ligou, e um filme OK, salvo do fracasso na sala de edição por um diretor salva-vidas, os Star Wars da Disney eram tão ruins que faziam a trilogia prequel parecer um trabalho de Dennis Villeneuve.
Era óbvio que comprar a propriedade intelectual e jogá-la no cinema sem um plano concreto de que direção seguir só não havia sido um tiro no pé completo porque fãs são meio masoquistas, e parecem estar sempre dispostos a levar mais um tabefe no meio da cara, garantindo o lucro à casa do Mickey.
Seja como for, enquanto Star Wars era brutalmente vilipendiado pela Lucas Film com seus filmes comandados por Jar Jar Abrams, Rian Johnson e seja quem for o responsável pelo produto final de Solo, nos bastidores da Disney havia alguém disposto a tentar salvar ao menos uma fração da alma da franquia.
Jon Favreau.
Unindo-se a Dave Filoni, a cabeça por trás das animações de Clone Wars e trouxe à luz O Mandaloriano, o seriado que mostrou aos fãs que o Star Wars da Disney não precisava ser sempre uma bosta, e à Disney, que esse era o caminho.
Após uma excelente primeira temporada de oito episódios com a cara e o jeito de Star Wars, ontem eu estava sentado para assistir ao primeiro episódio da nova temporada (ainda pirateando enquanto a Disney+ não chega oficialmente ao Brasil).
O Xerife abre com Mando (Pedro Pascal) tentando levar a cabo a incumbência que lhe fora dada pela Armeira, e reunir a criança aos demais de sua espécie.
Para encontrar esse grupo de "magos", porém, Mando precisará da ajuda de outros de sua própria estirpe, uma tarefa complicada à medida em que o reduto dos mandalorianos em Nevarro foi devastado pelo restolho do Império a serviço de Moff Gideon (Giancarlo Esposito).
Mando começa a vasculhar a orla exterior da galáxia em busca de informações, e, bem a seu modo, eventualmente descobre que parece haver um mandaloriano em Tatooine.
A bordo da Razor Crest, Mando e a criança chegam a Mos Eisley (onde reencontram a Peli Motto de Amy Sedaris) e partem rumo a Mos Pelgo, o assentamento de mineração no meio do grande oceano de areia.
Lá, Mando conhece o xerife local, Cobb Vanth (Timothy Olyphant), e descobre que as aparências podem ser enganosas, entretanto, antes que os dois possam resolver quaisquer desavenças, ou que Mando possa encontrar o paradeiro do mandaloriano que busca, o surgimento de um dragão Krayt coloca os planos de Mando em pausa, conforme ele aceita ajudar os residentes de Mos Pelgo.
Muita gente torce o nariz para o formato procedural que O Mandaloriano adotou em partes de sua temporada passada, mas eu, francamente, sempre gostei desse tipo de série de TV, com a missão ou o monstro da semana. The Marshall é um ótimo exemplar desse tipo de formato, com uma história auto contida o suficiente para que nós possamos aproveitar um episódio com começo, meio e fim, e ao mesmo tempo acenar com o quadro mais amplo, tanto ao mostrar à audiência o que vem pela frente, quanto com pequenas piscadelas em forma de easter egg ao longo do capítulo.
O episódio, escrito e dirigido por Favreau, volta a caprichar na pegada de faroeste que sempre esteve nos melhores momentos de Star Wars, tem condução acertada, bons personagens, ação divertida e mantém os efeitos visuais surpreendentemente competentes para uma série de TV.
Foi bom voltar à essa galáxia bem, bem distante, conduzido pelas mãos certas, que o restante da nova temporada de O Mandaloriano mantenha o ritmo, e continue nos mostrando que Star Wars ainda respira.

"-Isso não é lugar pra uma criança, sabe?
-Aonde quer que eu vá, ele vai."

 



segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Resenha Cinema: Os Novos Mutantes


Algum tempo atrás, ao fazer a resenha de X-Men: Fênix Negra, eu mencionei como os filmes dos mutantes da Marvel realizados pela Fox eram semelhantes a um relacionamento abusivo, onde os fãs eram a vítima que, a despeito de ser frequentemente destratados, eventualmente voltavam a se colocar em uma posição de risco pensando nos bons momentos que haviam passado juntos.
Nas mãos da 20° Century Fox, os X-Men alcançaram píncaros de qualidade dramática como Logan, momentos de diversão que pareciam extraídos das páginas de gibis, como Deadpool, X-Men 2, X-Men Primeira Classe e Dias de Um Futuro Esquecido, chegaram às profundezas da bazófia com coisas como X-Men III, Wolverine Imortal, e X-Men Origens: Wolverine, e flutuaram por águas de cândida indiferença "nhé" com Fênix Negra, Apocalypse, Deadpool 2 e X-Men: O Filme, que a despeito de sua importância e qualidades, tem o mesmo nível de investimento de um piloto do Syfy...
Seja como for, após quase duas décadas explorando os mutantes criados por Lee e Kirby no distante ano de 1963, a Fox foi comprada pela Disney, tornando-se parte do pecúlio do MCU e deixando fãs ansiosos pela possibilidade de ver os alunos do professor Xavier fazerem parte do multi bilionário universo cinematográfico da Marvel.
Tudo parecia muito bem encaminhado, exceto por um detalhe:
Em suas tentativas de tornar os mutantes, sua grande fatia do mercado super-heróico, mais rentável, a Fox resolvera experimentar com os filmes.
A raposa havia dado sinal verde para filmes até então impensáveis, como o melodramático faroeste de estrada de Logan, e a anárquica comédia de ação censura +18 de Deadpool, ambos sucessos de público e crítica, e, ao mesmo tempo, liberara o diretor Josh Boone (de A Culpa é das Estrelas) e o roteirista Knate Lee para fazer o primeiro filme de horror estrelado por mutantes, esse Os Novos Mutantes.
O longa, teve seu primeiro e interessante trailer divulgado há mais de três anos, em treze de outubro de 2017, com lançamento programado para abril de 2018, mas aí, com a compra da Fox pela Disney, Os Novos Mutantes entraram em um limbo.
Ao contrário dos outros lançamentos mutantes de 2018, o longa não era mais um capítulo de uma série, casos de Fênix Negra e Deadpool 2, mas a tentativa de emplacar uma nova franquia.
Com atmosfera de filme de horror, e escopo diminuto na comparação com outros filmes de super-herói, Os Novos Mutantes foi sendo empurrado com a barriga pela Disney, sofrendo sucessivos adiamentos e chegando até a namorar com um lançamento direto na plataforma Disney + até que, em meio à reabertura parcial dos cinemas em ano de Covid-19, o estúdio do Mickey resolveu apostar com o longa, jogando-o nos cinemas em um momento onde ninguém pode julgar um fracasso de bilheteria.
Ontem, eu era uma das cerca de doze pessoas na sala de cinema para conferir o longa...
Os Novos Mutantes abre com a jovem Danielle Moonstar (Blu Hunt) sendo despertada por seu pai (Adam Beach) em meio ao que parece ser um tornado ou alguma catástrofe natural de grandes proporções. Dani foge, se separa de seu pai, perde a consciência, e quando desperta, está algemada à uma cama em um hospital. Eventualmente a doutora Cecilia Reyes (Alice Braga) surge para explicar à jovem que ela está em uma instalação psiquiátrica que tem por função abrigar jovens mutantes cujos dons representam um risco à segurança deles mesmos, e de outros e ensiná-los a controlar suas habilidades.
Há apenas outros quatro pacientes no local, Sam Guthrie (Charlie Heaton), um jovem sulista que causou um acidente em uma mina com seu poder se se ejetar em altas velocidades como um míssil, Rahne Sinclair (Maisie Willians), uma transmorfa escocesa capaz de assumir forma lupina, Roberto da Costa (Henry Zaga), um playboy brasileiro que se inflama e alcança temperaturas comparáveis a uma mancha solar, e Illyana Rasputin (Anya Taylor-Joy), uma jovem russa com a habilidade de transitar para uma realidade paralela de onde é capaz de drenar magia...
Esses cinco adolescentes estão encarcerados com Reyes porque, em algum momento, causaram a morte de alguém, e não estão aptos ao convívio com outras pessoas. Se encarcerar adolescentes que, além dos hormônios comuns à idade, ainda têm habilidades super humanas já não parece uma ideia das mais tranquilas, as coisas começam a ficar ainda mais perigosas conforme a chegada de Danielle desencadeia uma série de eventos sinistros, e todos os internos passam a ser confrontados pelos seus piores temores enquanto questionam quem está, de fato, por trás de seu cativeiro...
Olha, podem me julgar, mas eu gostei do filme.
Eu francamente não entendo porque a Fox enterrou Os Novos Mutantes e lançou Fênix Negra. O filme de Josh Boone pode não ser uma grande maravilha, mas dentro de sua proposta e escopo, ele funciona bem o suficiente para distrair por uma hora e trinta e quatro minutos de maneira muito mais competente do que outras inchadas e equivocadas incursões do universo X nas telonas.
Grande parte do que faz o longa funcionar é justamente a ideia de que o longa existe em um cantinho do X-Verso e está perfeitamente confortável ali, contando uma história centrada nesses cinco jovens estranhos.
Eu gosto de uma história a respeito de párias, do pessoal que senta no fundão da sala de aula não porque é descolado demais pra sentar na primeira fileira, mas porque não sabe se encaixar na ribalta, e Os Novos Mutantes é uma boa trama para esses tipos.
O elenco é bastante interessante, em especial Maisie Willians, que entrega uma atuação terna e honesta para Rahne (eu lia os gibis dos Novos Mutantes e achava que a pronúncia era "rãne", fiquei chocado ao descobrir que era "wrein".), e especialmente a magnética Anya Taylor-Joy como a agressiva e marrenta Illyana (que, quando conjura sua armadura mística interdimensional, recebe o mesmo efeito sonoro da transformação de Colossus nos primeiros longas da série, numa piscadela sutil aos fãs que conhecem a relação dos dois personagens nos quadrinhos.), mas estão todos bem em seus papéis. 
Nem tudo são flores, e o longa tem uma série de idiossincrasias e pequenos furos, mas nada que o torne a bomba inassistível que o período na prateleira da Fox pode levar a crer. A aura de filme de terror claustrofóbico ajuda a justificar a escala reduzida, os efeitos visuais são OK, e as relações entre os protagonistas são bem construídas o suficiente para que a audiência se importe com todos eles muito mais do que com alguns dos antigos personagens dos X-Filmes. Se a primeira metade do filme é excessivamente formulaica, em seu segundo ato o longa abraça a estranheza inerente de sua proposta e entrega uma interessante e bem-intencionada fita de gênero.
Talvez seja efeito do longo período de abstinência, mas eu gostei da experiência de ver Os Novos Mutantes no cinema, e não tenho pudores em dizer que, a despeito das eventuais falhas, valeu o preço do ingresso.

"Isso não é um hospital, Pocahontas, é uma jaula."

sábado, 24 de outubro de 2020

Resenha Filme: Borat: Filme Subsequente

 



Foi no distante ano de 2006 que Sacha Baron Cohen, um comediante já reconhecido na Grã-Bretanha pelos personagens extravagantes que criara para o The 11 O'Clock Show ganhou o mundo ao transformar uma de suas criações em filme.
O sucesso que lhe fora sonegado ao fazer a mesma coisa com o rapper Ali G quatro anos antes foi alcançado com folgas pelo segundo melhor repórter do Cazaquistão, Borat Sagdyev e sua jornada pelos Estados Unidos e América buscando o enriquecimento cultural de sua própria nação.
O longa, com seu humor anárquico e por vezes escatológico que não abria mão da crítica social, foi um grande sucesso de público e crítica, rendendo até mesmo um Globo de Ouro (e um hilário discurso de aceitação) a Cohen.
Quase uma década e meia mais tarde, Cohen, agora um ator que mostrou possuir mais talentos além da capacidade de desaparecer em tipos esdrúxulos para deixar as pessoas desconfortáveis, retorna ao personagem que lhe abriu as portas de Hollywood ainda anárquico, desconfortável e escatológico, mas ainda mais agudo e focado em sua crítica social.
Borat Filme Subsequente: Entrega de Prodigioso Suborno ao Regime Americano para fazer Benefício à Outrora Gloriosa Nação Cazaquistão começa com a narração de Borat nos contando que após suas aventuras nos EU e A quatorze anos atrás, ele caiu em desgraça. Sua viagem levou grande vergonha ao Cazaquistão e ele perdeu todos os seus benefícios, status social, e até seu emprego e sua liberdade, sendo enviado a um gulag onde vem realizando trabalhos forçados.
As coisas parecem mudar quando o premiê Nazarbayev (Dani Popescu) resolve dar a Borat uma chance de se redimir. Ele deverá viajar até os Estados Unidos e presentear o vice presidente Mike Pence com Johnny, o chimpanzé cazaque que é uma das grandes personalidades do país graças à sua carreira de ator e diretor de filmes pornográficos.
Antes de partir em sua jornada, Borat descobre que seu vizinho invejoso Nursultan (Miroslav Tolj) tomou posse de sua casa, de seus pertences e até de seus filhos homens, mas mantém a filha de Borat, Tutar (Maria Bakalova) em um galpão do lado de fora de acordo com os hábitos locais.
Borat se despede de Tutar e segue para os Estados Unidos, apenas para chegar lá e descobrir que Tutar tomou o lugar de Johnny. Em desespero, Borat é convencido por Tutar de que ela pode ser um presente para Pence, matando dois coelhos com uma cajadada só. Borat cumpriria sua missão nos Estados Unidos, e ela seria a esposa de um político rico e poderoso e teria sua própria jaula, como a "princesa" Melania Trump.
Borat aceita a ideia, e então inicia uma operação make over para tornar Tutar digna dos altos padrões de beleza e comportamento norte-americanos, e tentar chegar perto o suficiente do "vice-premier" para fazer sua oferta enquanto ele e Tutar aprendem mais sobre a vida além do Cazaquistão.
Borat: Filme Subsequente é bastante semelhante ao longa original em termos de estrutura. Há uma trama central costurada por interações dos protagonistas com pessoas que não parecem entender muito bem o que está acontecendo em cena e que frequentemente parecem abocanhar com gosto a isca jogada por Cohen e Bakalova, mas dessa vez há um subtexto político e um alvo muito claros na mente dos realizadores:
A direita conservadora dos Estados Unidos e do mundo em geral.
Essa sanha assassina do filme contra os conservadores demanda que o espectador esteja ao menos razoavelmente por dentro da situação política norte-americana, e por vezes enterra o personagem central (que ainda assim tem tempo para realizar alguns movimentos típicos de Borat, como a sequência onde ele descobre todas as funcionalidades das "calculadoras" pelas quais os americanos se tornaram obcecados) ou amputa a coesão narrativa do filme, mas ao mesmo tempo impede que Filme Subsequente seja apenas uma versão estendida do longa original. Outro fator que ajuda nesse sentido, é a troca de parceria de Borat.
Ao substituir o produtor Azamat de Ken Davitian pela filha adolescente do protagonista, o longa se torna capaz de fazer graça com a maneira como homens, especialmente homens de meia idade, se comportam com jovens mulheres. Do pai de debutante que diz a Borat que Tutar valeria 500 dólares ao médico que garante que a atacaria sexualmente se o pai dela não estivesse presente (Os dois acreditando que a atriz é uma adolescente de quinze anos), até o bizarro encontro que encerra o terceiro ato do filme em um quarto de hotel, Maria Bakalova se prova uma agente do caos mais do que à altura de Cohen em sua capacidade de se enfiar em situações embaraçosas levando incautos consigo.
Não é apenas em velhos tarados que Borat: Filme Subsequente bate, porém. O longa ainda critica (e tira sarro) o facismo, anti-semitismo, racismo, da maneira como notícias falsas circulam livremente nas mídias sociais, e a forma como a ciência é destratada em nome de crenças pessoais.
Esse novo Borat não será, de forma alguma, tão memorável e atemporal como seu predecessor, mas é um longa que surpreendentemente importa no mundo em que vivemos e que é, sim, muito engraçado, e, sendo assim, eu não seria capaz de classificá-lo como nada além de um "Grande sucesso!".
O longa está disponível no serviço Prime Video da Amazon.

"-Papai é a pessoa mais esperta de toda a Terra plana!"