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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Protesto


A TV brasileira anda um lixo, e não é de hoje. Mesmo a emissora que é referência, vencedora de prêmios internacionais, líder de audiência e tudo mais, a Vênus Platinada Globo, galga a sua grade de programação em novelas que eu nem posso dizer que são chatas pois parei de assistir novelas regularmente já deve ter mais de quinze anos, entretanto, pelo que se ouve falar e se lê, as coisas não melhoraram no mundo do folhetim. E não chega a ser surpresa.
Não é de hoje que vemos horrores como o Zorra Total, o A Praça É Nossa e o Show do Tom (Ainda passa o Show do Tom?) com lugar cativo no horário nobre de todas as redes de maior audiência, e, se tais programas permanecem na ativa, é por que há quem goste e quem assista, o que não chega a ser surpreendente se levarmos em consideração a precariedade da educação no Brasil. Um povo pouco educado e inculto é o maior desejo da classe política imunda que gere a nação a mais de quinhentos anos, logo, não é de se duvidar que a má qualidade da educação e a má qualidade da cultura colocada à disposição da população sejam propositais.
Agora, porém, é o momento de alguém erguer a voz e protestar, pois o que estão tentando tirar das pessoas, agora, é excessivo. Finalmente surge algo de bom na TV, algo que dá prazer a quem assiste, algo capaz de nos prender na cadeira por alguns momentos e nos fazer refletir, e, sem nenhuma razão plausível, uma autoridade arbitrária resolve remover a melhor atração da TV aberta em anos.
Os comerciais da Hope da Gisele Bündchen.
Alguém precisa fazer alguma coisa a esse respeito já! Volta comercial da Hope com a Gisele Bündchen!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Honestidade


A Sônia entrou em casa sem fazer barulho. Eram nove, nove e meia da noite. Ela largou a bolsa sobre a mesa, as chaves no chaveiro perto de um abajour que fora presente de sua mãe, e rumou para o quarto. O Flávio estava lá, sentado na beira da cama, com a luz apagada e a TV desligada.
-Oi, Sô. - Ele disse, sem se mexer antes que ela acendesse a luz.
Ela estremeceu brevemente, como só as pessoas de consciência manchada estremecem.
-Que horror, Flávio... Quase me mata de susto. Tá fazendo o quê aí no escuro? - Perguntou em tom de reprimenda enquanto apertava o botão do interruptor inundando instantaneamente o quarto com a luz branca da lâmpada de cem watts.
O Flávio, ainda sentado, olhava pra janela. Falou casualmente:
-Estava só me preparando...
-Te preparando pra quê, criatura? - Perguntou a Sônia enquanto andava em direção à janela.
-Pra quando tu terminar tudo comigo. - Disse o Fávio.
A Sônia não entendeu imediatamente. Só ao olhar pro Flávio pra perguntar "como é que é?" foi que viu a bolsa de viagem preta e grande aos pés dele.
Estacou no caminho até a janela, onde apanharia sua toalha, e o encarou. Disparou o:
-Como é que é?
Flávio olhava pras próprias mãos, juntas sob suas pernas:
-Tu vai terminar comigo, Sô.
-Não, não vou. - Ela retrucou com a voz cheia de indignação.
-Vai. - Respondeu o Flávio. - Vai porque eu tô te pedindo. Vai, porque tu já não gosta mais de mim. Vai porque, não importa o que tu diga ou faça, esse vai ser o teu segundo banho em um curto intervalo de tempo. Então, me faz esse favor, Sônia... Termina comigo.
A Sônia o encarou brevemente. Medindo que tipo de blefe havia ali.
-Do que tu tá falando?
-Ah, Sônia... Por favor. Eu sou cheio de defeitos, vai, mas idiota eu não sou. Eu não sou, mesmo. Vai. Termina comigo.
A Sônia sentou ao lado dele na cama.
-Eu não quero terminar contigo...
-Mas também não quer mais ficar comigo. - Replicou o Flávio. -Não o suficiente.
-Eu quero! - Ela treplicou.
-Não... Tu não me respeita mais, Sô... E esse é o momento ideal pra terminar com tudo.
Ela olhou pra ele com sincera tristeza nos olhos. Ele sorriu:
-OK... O momento ideal seria um pouco antes de não haver mais respeito, mas enfim...
A Sônia começou a chorar. Lágrimas lhe desciam pelo rosto. Ela ergueu os olhos e perguntou ao Flávio:
-Tu me desculpa?
Ele segurou a mão dela e suspirou:
-Não, Sô... Eu não te desculpo. Tu devia ser a última mulher da minha vida... Era contigo que eu devia ser feliz pra sempre, era do teu lado que eu devia envelhecer. Agora... - Ele riu. - Agora eu vou ter que passar de novo por todo o pesadelo de um começo de relação, vou ter que passar meses tentando ter certeza de que uma nova pessoa conhece todos os meus defeitos antes de me entregar a um relacionamento... E tudo isso sem garantia de que vá dar certo pois tu abalou consideravelmente a minha confiança nesse sistema... Então, não... Eu não te desculpo, lamento.
A Sônia respirou fundo limpando os olhos, na defensiva:
-A culpa não é só minha.
-Não... - Suspirou o Flávio. - É toda minha, na verdade.
Havia alguma coisa na voz dele, uma entonação de sarcasmo, talvez... Mas Sônia não quis manter a discussão:
-Ainda podemos ser amigos?
O Flávio mexeu brevemente no zíper da sua sacola de viagem enquanto fazia um "hmmmmm" de quem pensa:
-Não.... Nós não vamos ser amigos, Sô. Nós não vamos mais conversar, nem nos encontrarmos pra almoçar... Lamento. Eu sou muito mais rancoroso que os teus ex-namorados... Os teus outros, ex-namorados. A gente vai se cumprimentar quando nos encontrarmos na rua, claro, mas é mais provável que... Sabe? A gente nem se veja mais.
A Sônia o encarou brevemente. Sua decepção parecia virar raiva:
-Então é isso. Tu tá todo tranquilo com isso tudo, mas não quer mais falar comigo?
-Quem disse que eu tô tranquilo? - Perguntou o Flávio. -Eu tô arrasado. Cheguei a flertar com a ideia de quebrar o apartamento inteiro, enforcar o teu gato, colocar o teu coelho em uma panela de água fervendo, e te amarrar com silver tape numa cadeira enquanto cortava a tua orelha com uma navalha e te perguntava onde é que tava todo aquele amor. Mas de quê adiantaria, Sô? É tudo tão óbvio... Deixemos assim.
A Sônia bufou:
-E a gente...? E tudo o que a gente tinha imaginado, e as coisas que iríamos fazer?
-Vão ficar pelo caminho. Não vão se tornar realidade. Acontece o tempo inteiro, Sô. Especialmente em casos como esse. - O Flávio respondeu enquanto se levantava.
-E é o melhor que a gente podia fazer? - Perguntou ela, de cabeça baixa.
-Não. - Respondeu o Flávio. -O melhor teria sido nós continuarmos honestos um para com o outro...
Ele ficou parado na frente dela. Até que ela engoliu em seco e disse:
-Flávio... Eu não quero mais ficar contigo... Acho que a gente devia terminar.
Ele disse:
-OK.
E saiu. Se encontraram uma vez, perto do shopping, ela acenou, e ele correspondeu com um movimento de cabeça. Não pararam pra conversar.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Resenha Cinema: Missão Madrinha de Casamento


Sou um fã antigo de Saturday Night Live. O clássico programa de esquetes de comédia que está no ar nos EUA desde 1975 e que revelou alguns dos maiores e mais engraçados comediantes do cinema norte-americano. De lá saíram caras do calibre de Dan Aykroid, John Belushi, Chevy Chase, Eddie Murphy, Mike Myers e Will Farrell.
Quando fiquei sabendo que Kirsten Wiig, fixa no elenco atual da atração e provavelmente a mulher mais engraçada da história do SNL estava no filme Bridesmaids (Damas de Honra), achei que valeria uma espiada quando saísse em DVD. Quando vi que o filme estava sendo produzido por Judd Apatow, o cara de Ligeiramente Grávidos e O Virgem de 40 Anos, achei que, talvez, valesse tentar no cinema. Daí em diante, as notícias foram me atraindo para o filme, o diretor Paul Feig, egresso da TV, não fedia nem cheirava, o restante do elenco, com a também SNL Maya Rudolph, a Mellisa (Molly de Mike & Molly) McCarthy, além da bonitona Rose Byrne (De X-Men - Primeira Classe) era interessante, mas, confesso, fiquei com um pé atrás quando descobri que o roteiro era de Kirsten Wiig.
Nada contra roteiristas mulheres, Diablo Cody fez um trabalho decente em Juno, Tina Fey é uma ótima roteirista e também é egressa do SNL, mas quando me falam em filmes de roteiristas de Saturday Night Live, o que me vem à cabeça são as bombas que naufragaram nas bilheterias dos cinemas americanos e juntam poeira nas estantes das locadoras. Para cada Os Irmãos Cara de Pau e Quanto Mais Idiota Melhor, saem dez O Tigrão, Despenca Uma Estrela e Os Estragos de Sábado À Noite, ainda assim, resolvi conferir o longa, e no sábado, estava na frente da moça da bilheteria escolhendo os lugares de onde assistiria ao filme. O fato de apenas quatro assentos estarem ocupados na sala me deixou apreenssívo, confesso. Fiquei ainda mais apreenssivo quando, ao entrar na sala, percebi que os quatro assentos se transformaram unicamente em seis.
E foi assim, com apenas oito testemunhas dentro da sala, que eu vi Missão Madrinha de Casamento (títulozinho sem vergonha que deve ter colaborado pra afugentar o público), provavelmente a melhor comédia desse ano.
No filme conhecemos Annie (Kirsten Wiig, hilária demais!), ex-confeiteira que perdeu tudo com a recessão e hoje divide apartamento com uma esquisita dupla de irmãos ingleses enquanto trabalha em uma joalheria, emprego que conseguiu graças às conexões de sua mãe no Alcoólicos Anônimos e que não preza nem um pouco. Annie tem um rolo com Ted (John Hamm, em uma engraçada ponta de luxo), um escroto "amigo com benefícios" à quem Annie, por alguma razão se sujeita, mesmo sabendo que não há futuro pro tipo de relação que partilham. Enquanto leva a vida desse jeito, Annie encontra em sua amiga Lillian (Maya Rudolph, também ótima), o ouvido amigo com quem partilhar suas desventuras. Até que o namorado de Lillian, Dougie, a pede em casamento, e Annie, melhor amiga da noiva, é transformada na madrinha que ajudará a organizar o casório, realizará a despedida de solteira e o chá de panela.
Annie, porém, não está sozinha nessa missão. Além das damas de honra Becca (Ellie Kemper), uma virginal amante de desenhos animados que passou a lua de mel na Disney, Rita (Wendy Mclendon-Covey) uma amargurada esposa infernizada pelos três filhos meninos, e Megan (Mellissa McCarthy), a durona irmã o noivo, há Helen (Rose Byrne).
Magra, linda, rica e bem-casada, Helen é a organizadora de festas definitiva. Cheia de contatos, bom-gosto, presença e espírito, a esposa do chefe de Dougie, de maneira taciturna, vai tentando tomar o posto de Annie, que vendo a própria vida pessoal e profissional ir para o vinagre, se torna disposta a lutar até as últimas consequências para não perder sua melhor amiga para a perua.
Se a sinopse que tem circulado nos jornais faz parecer que o filme é uma versão feminina de Se Beber Não Case, não se iluda. Não é.
Se Beber Não Case é excelente, é misógino e baixo calão como exige a cartilha dos "bromances" que querem fazer rir. Missão Madrinha de Casamento pode ser considerado, muito mais que a versão de saias do hit de 2009. É a resposta feminina aos bromances, claro, mas também às comédias românticas que ameaçam deixar o espectador em coma diabético e que costumam mostrar que todos os problemas das mulheres estão ligados ao fracasso de suas relações amorosas. Em Missão Madrinha de Casamento Annie não está na pior por que não tem namorado. Na verdade, estar solteira pra personagem é apenas mais um perrengue pelo qual ela passa, e nem de longe é o mais grave. Aliás, todas as mulheres são críveis em Missão Madrinha de Casamento, e as relações entre elas, também. Sai a camaradagem incondicional dos personagens de Penetras Bons de Bico, Ligeiramente Grávidos e Segurando as Pontas e entram as alfinetadas e a inveja feminina, justificada, ou não, ao qual todos são tão familiares.
Kirsten Wiig e companhia fazem um filme divertido, engraçado, com a acidez das melhores comédias, mas uma colherinha de açúcar pra adoçar o bico da platéia feminina já que em Missão Madrinha de Casamento, as mulheres são quem mandam na festa.
Assista, é hilário.

"É a primeira vez que eu te vejo feia. E isso me faz feliz."

sábado, 24 de setembro de 2011

Banheiros


O pai de Sandoval conhecia todos os banheiros de acesso público da região. Ás vezes, quando Sandoval era mais jovem e saia com seu pai, os dois passavam em frente a algum estabelecimento comercial, e seu pai apontava com o queixo e dizia:
-Tremendo banheiro, aqui. Muito bom. Arejado, limpinho. Bem bom pra largar um barro.
O pai do Sandoval se referia à atividade de ir aos pés assim, "largar um barro". Sandoval achava engraçado. Raramente usava essa expressão, raramente usava "ir aos pés", também. Geralmente ele não dizia o que estava indo fazer no banheiro. De qualquer forma, Sandoval achava impressionante a dificuldade que seu pai tinha pra conter as próprias necessidades fisiológicas.
Claro, não era apenas por curiosidade acadêmica que o genitor de Sandoval conhecia todos os banheiros de acesso público da região. Não. Teobaldo, o pai de Sandoval, conhecia todos os banheiros públicos da região porque entrara em efetivamente todos. Era um sujeito de intestinos excitáveis, o Teobaldo. Isso provavelmente era uma ação do intestino pra copiar as características pessoais de Teobaldo. Que era assim, explosivo, emotivo, chorão em todos os sentidos da palavra.
Sandoval lembrava-se dos incômodos quando estava tomando banho e sua mãe batia à porta do banheiro avisando:
-Sandoval, apura o teu banho que o teu pai tá apertado.
Sim, a mãe de Sandoval precisava avisá-lo, pois o seu Teobaldo já estava perambulando com passos miúdos por dentro de casa enquanto retorcia o tronco como se estivesse sentindo cãibras no abdôme.
Sandoval odiava aquilo. Era uma das coisas que o Sandoval detestava em seu pai, e em que ele lutava pra não se parecer com ele. Sandoval tinha horários pra tudo. Pra ir ao banheiro, tomar banho, dormir, acordar. Achava que era importante saber se controlar. Supunha que controlando seu ambiente, poderia controlar sua vida. Ou ao menos os âmbitos dela que dependessem unicamente de si.
Passaria a vida controlando sua merda, pra que merda alguma controlasse sua vida.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Rapidinhas do Capita


Foi enquanto comia um bife bastante satisfatório no restaurante perto do trabalho que o Antônio teve uma epifania.
Enquanto cortava um pedaço do filé grelhado em seu prato, Antônio esbarrou com um naco de gordura particularmente endurecida no meio da peça de carne. Foi então que ele esfregou com força a lâmina serrilhada da faca no bife, quase rangendo os dentes. E só aí, superou o obstáculo. Uma vez vencida a ilha de gordura e nervo no ponto em que ela parecia estar mais unida ao restante do bife, Antônio se pôs a contornar com a faca a carne ao redor da parte considerada ruim do filé. Com dedicação e esmero, cortou pacientemente o bife, assegurando-se que não estava deixando carne boa ficar presa à peça a ser descartada. Finalmente, após alguns minutos de imersão na tarefa, Antônio viu o bife com um círculo quase perfeito recortado na parte mais alta do bife, e deparou-se com uma parte mais rosa da carne ao ponto, agora exposta.
Salivou de antecipação enquanto o garfo viajava com a carne do prato à sua boca, e expirou o ar quase suspirando enquanto mastigava e sentia o saboroso suco da carne enchendo-lhe a boca. Percebeu que, se não fora aquele obstáculo, ele não teria dado-se ao trabalho de tirar a aponervose do bife, nem visto aquela bela cor da carne, suculenta, macia e deliciosa. Deu-se conta de que, nos últimos anos, muito mais reagira às coisas do que agira. Antônio flagrou-se de que andara fugindo de todos os obstáculos, evitando incomodar-se, evitando ter de lutar contra qualquer coisa que fosse. Era cômodo. Era seguro.
Mas agora, enquanto saboreava aquele bife, não pôde deixar de pensar no que andara perdendo.

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Ela, abraçada nele com força, segurando com firmeza a mão dele por detrás das costas, enquanto esperavam que a sala de cinema se abrisse para que entrassem e vissem a comédia romântica francesa que ela escolhera após procurar por dquase duas horas na internet em fóruns de filmes alternativos.
Viram um poster de filme com a Mila Kunis e o Justin Timberlake. Ela perguntou:
-Amor, tu me trocaria por essa mulher?
Ele, sem pensar muito disse:
-Não.
Ela o encarou fechando um olho como quem não acredita:
-Não, mesmo?
Ele, sério, respondeu novamente:
-Não mesmo.
Continuaram andando. Passaram por um banner do Thor. Ela parou um pouco, e perguntou:
-E pela Natalie Portman?
-Também, não. - Ele respondeu quase de pronto.
Ela pareceu não estar convencida. Viu o teaser-poster de Os Vingadores e quis saber:
-E pela Scarlett Johansson?
-Nah... É bonita, é gostosuda, e tal, mas não. Não trocaria.
Ela ficou olhando pro pôster:
-Mas ela é tão bonita...
Ele ficou, também, olhando pro pôster, e disse:
-É, é muito bonita, mas tu também é, e tu tem a vantagem de que eu sou apaixonado por ti, e não por ela.
Então virou-se pra ela e sorriu. Ela sorriu de volta e eles se beijaram. A sala que eles esperavam se abrir foi liberada e eles se encaminharam pra lá enquanto ele pensava na sorte de não ter nenhum filme com a Megan Fox por estrear.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Rapidinhas do Capita


-Cuidado... - Ela avisou, enigmática. - ...Por mais que tu tente não demonstrar, tu vai acabar te apaixonando por mim, guri.
Ele riu, olhando-a enquanto ela entrava no Orient Express logo atrás de Hercule Poirot e do capitão Arthur Hastings. Só depois que o apito do trem soou e ela acenou da janela com um lenço vermelho e púrpura horroroso foi que ele se deu conta, de que, se Poirot estava no Orient Express, é por que iria ocorrer um crime! Desesperado correu pela linha férrea atrás da composição, mas não foi capaz de alcançá-la. Tentou contato pelo celular, mas não havia área de cobertura, amaldiçoou a Claro.
Acordou suado na cama, e sentiu um breve alívio ao perceber que fora um sonho. Ela não viajara no Orient Express, e, quando ocorreu o assassinato no famoso trem, Hastings não estava junto com Poirot, ele sabia disso, já lera aquele livro inúmeras vezes. Tentou voltar a dormir mas não conseguiu.
Achou melhor mandar uma mensagem de uma forma ou de outra, afinal, estava, de fato, apaixonado por ela, era melhor ter certeza.

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Estavam sentados lado a lado a Jessica e o Rubens, no banco de um shopping qualquer. Ela parecia emburrada, ele não parecia emburrado, mas dava pra ver, pelo modo como balançava insistentemente o pé da perna que pendia cruzada no ar, que ele estava, também, fulo.
Ela mexia na bolsa, casualmente, com fingido desinteresse, mas bufava. Chegou um momento em que não aguentou:
-Sabe qual é o maior problema? Não vou nem dizer todos, vou ficar só no maior, o maior problema é tu ser incapaz de acenar com um sinal, mínimo que seja de reciprocidade, um feedback, unzinho que fosse, já seria bom, mas até isso é pedir demais pra ti, aí fico eu, boiando, sem saber de nada, sem saber o que esperar, e tu aí, com essa cara de paisagem.
-E o que tu queria? - Ele perguntou, olhando pro outro lado. - Que eu passasse o tempo todinho te dizendo coisas românticas? Recitando Pablo Neruda? Cantando canções da Sade, e entalhando corações em todas as árvores do mundo com teu nome junto ao meu?
Sua voz respingava sarcasmo. Ela bufou se levantando.
-Não. Eu nunca esperaria tanto de um retardado emocional que nem tu. Mas, se ao menos a gente combinasse um sinal, pra que quando eu perguntasse "Tu gosta de mim?", eu ouvisse alguma resposta, ou visse uma resposta, nem que fosse um mindinho balançando.
Ela se levantou e saiu caminhando. Ele ficou sentado olhando ela ir embora de cara amarrada, mas depois que ela virou a esquina, ele balançou, quase casualmente o dedo mínimo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Resenha Cinema: Conan - O Bárbaro


Me lembro, desde moleque, de ganhar os quadrinhos de Conan, o bárbaro, de meu pai. Seu irmão mais velho, meu tio, lera desde cedo as aventuras d'A Espada Selvagem de Conan passando-lhe o hábito.
As histórias escritas por Roy Thomas e desenhadas com maestria por John Buscema enchiam minhas tardes de lugares exóticos, feiticeiros cruéis, mulheres sensuais em trajes sumários e criaturas bizarras. Aos nove anos de idade era capaz de citar de cor a introdução das histórias, as "Crônicas da Nemédia", e seu poderoso texto que dizia "Saiba, ó, Príncipe, que entre os anos em que os oceanos sorveram Atlântida e aqueles em que se ergueram os filhos de Aryas houve uma era inimaginada, repleta de reinos esplendorosos que se espalharam sobre a terra como miríades de estrelas sobre o manto negro dos céus. Nemédia, Ophir, Brithúnia, Hiperbórea. Zamora, com suas mulheres de cabelos escuros e torres assombradas por aranhas misteriosas; Zíngara e a nobreza; Koth, fronteiriça com as terras pastoris de Shem; Stygia, com suas tumbas vigiadas por fantasmas; Hirkânia, e os cavaleiros vestidos de aço e seda e ouro. Porém, o reino mais orgulhoso do mundo era a Aquilônia, soberana do Ocidente sonhador. Nesta época surgiu Conan da Ciméria, cabelos negros, olhar feroz e mãos sempre crispadas sobre o cabo da espada, ladrão sagaz, saqueador, assassino frio, dono de gigantesca melancolia e gigantesca jovialidade, para pisotear os adornados tronos da Terra sob as sandálias que calçavam-lhe os pés...", era fenomenal.
Muito do que eu sabia de Conan provinha desses gibis, apenas mais tarde foi que tomei conhecimento das histórias de Robert E. Howard, criador do personagem, para as revistas Pulp americanas da década de 30, e dos romances a respeito do personagem.
E, apenas bem mais tarde, foi que assisti aos filmes de Conan estrelados por Arnold Schwarzenegger (Será que escrevi certo?).
As adaptações Conan - O Bárbaro e Conan - O Destruidor ganharam uma legião de fãs, especialmente o primeiro longa, de 1982, dirigido por John Millius e roteirizado pelo próprio em parceria com ninguém menos que Oliver Stone, era co-estrelado pelo Darth Vader James Earl Jones, como Thulsa Doom, e contava a origem do personagem em uma história sólida e violenta. Tinha uma trilha sonora poderosa composta por Basil Poledouris, e agradou fazendo grande sucesso nas bilheterias. O filme de 84 não foi tão bem, apostava em uma história com pegada mais semelhante à dos quadrinhos da Marvel(Não por acaso, já que os escritores eram Gerry Conway e Roy Thomas, dois mestres na matéria), e não recebeu os mesmos louros do antecessor embora fosse, também, uma saudável aventura de espada e magia.
Por muito tempo a criação máxima de Howard vagou em todas as mídias. Virou uma esquecível série de TV, teve sua licença de publicação abandonada pela Marvel após algumas escolhas ruins da Casa das Ideias que acarretaram em baixas vendas da série, e adquirida pela Dark Horse, dando origem à ótima Conan - O Cimério, que infelizmente não manteve a qualidade após a saída do roteirista Kurt Busiek e do artista Cary Nord, que ao lado de Thomas Yaetes produzia ilustrações belíssimas nas páginas do gibi.
Entretanto, nesse tempo de baixa qualidade em Hollywood, repleto de remakes e adaptações, era óbvio que um personagem como Conan não poderia ficar muito tempo longe dos holofotes, e, como a criatividade dos executivos do cinema anda bastante combalida, era previsível que o destino do cimério fosse, mesmo, voltar à telona.
Sábado fui ao cinema assistir Cao filme de Marcus Nispel com baixas expectativas, afinal, quem pode esperar grande coisa de um sujeito que tem no currículo porcarias como os remakes de O Massacre da Serra Elétrica e Sexta-Feira 13, além do bem-intencionado mas descartável Desbravadores? O que eu queria era, ao menos ver uma aventura decente, que me distraísse por um par de horas de uma noite. E surpresa: Nesse sentido Conan - O Bárbaro, não chega a decepcionar.
O longa metragem estrelado por Jason Momoa (O Khal Drogo de Game of Thrones) mostra a vida de Conan desde o momento em que nasce no campo de batalha, com seu pai (o Hellboy Ron Pearlman) ajudando no parto à maneira dos bárbaros. O crescimento do jovem na inóspita vila ciméria onde é preparado pra ser um guerreiro até o momento em que, ainda menino, seu caminho se cruza com o do cruel Khalar Zym (Stephen Lang, de Avatar), que almeja reconstruir uma relíquia para ressucitar sua esposa, uma feiticeira capaz de torná-lo um Deus e lançar o mundo nas trevas, direcionando o jovem cimério à uma jornada de vingança que atravessa os anos.
Não é um roteiro dos mais inovadores, e, quando assistimos ao filme percebemos que ele tem mais buracos que as estradas do Brasil da Copa do Mundo. A direção meia-boca de Nispel não ajuda, e a edição, especialmente no terceiro ato durante o combate na caverna, é confusa. Entretanto, há pontos positivos, o grandalhão Momoa convence como Conan. Ele consegue equilibrar ferocidade e uma certa dose de escárnio, com um roteiro melhor construído e uma direção mais segura, talvez conseguisse um Conan mais do que apenas satisfatório, as locações na Bulgária são lindas, e há uma narração em off de Morgan Freeman que é muito legal. Os demais membros do elenco não chegam a fazer grande diferença, a bonitinha embarangada Rose McGowan como a feiticeira Marique, assim como Stephen Lang parecem estar no piloto automático, e Rachel Nichols não tem muito a oferecer além do rostinho bonito (E do corpinho gostoso). Em termos de atuação o destaque fica mesmo com Ron Pearlman e seu Corin. O pai de Conan é o personagem mais crível e carismático do filme.
Conan - O Bárbaro, porém, ganhou pontos comigo por ser um filme que é ruim por que é ruim, e não por se pasteurizar e suavizar na tentativa de abarcar uma audiência mais ampla. Nispel e companhia não suavizaram a violência do longa, que tem membros e cabeças decepados aos borbotões, sangue (cenográfico e digital) aos litros e peitos de fora pra todos os gostos (Por mais que apareçam seios, ninguém usa um tamanho de sutiã maior que Schwarza).
Pode-se acusar Conan - O Bárbaro de qualquer coisa, menos de não ter convicção. É um bom filme ruim, que deve ficar melhor em DVD ou na TV a cabo.

"Fuja de mim... E eu vou partir montanhas para encontrá-lo. Eu o seguirei até o inferno."