Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
Resenha Cinema: Clube de Compras Dallas
Imagine-se ouvindo de seu médico, que teus exames de sangue dizem que tu é soropositivo. Imagine-se ouvindo isso em 1985, quando o HIV e a AIDS eram sentenças quase certas de morte, e havia pouca, ou nenhuma, informação a respeito da doença e do vírus que a causava.
Imagine-se recebendo essa notícia sendo um heterossexual convicto, em uma época em que a AIDS ainda era chamada de "câncer gay".
Foi o que aconteceu a Ron Woodroof (Matthew McConaughey), eletricista "viciado em xota", que se descobriu um portador do HIV após um pequeno acidente de trabalho levá-lo ao hospital onde seus exames constataram que sua contagem de células T estava em 9, quando a contagem média de uma pessoa saudável flutua entre 500 e 1500.
"É uma surpresa que você ainda esteja vivo.", é o que Ron ouve de seus médicos, que estimam sua sobrevida em 30 dias.
Ron Woodroof não é nenhum santo. Longe disso.
Ron contraiu o HIV usando drogas injetáveis e fazendo sexo desprotegido até por dentro dos olhos. Um sujeito de moral duvidosa, tipo francamente repulsivo, viciado em rodeios que complementa sua renda aplicando pequenos golpes e traficando drogas enquanto espera a próxima orgia com piranhas em seu trailer e a próxima cervejinha gelada no boteco mais próximo.
Ron não é um santo. Mas é um sobrevivente.
Após aceitar a verdade de sua doença e pesquisá-la, ele passa a contrabandear AZT, então o único medicamente sendo testado com a aprovação do FDA (órgão federal norte-americano responsável por administração de comida e remédios), mas os efeitos colaterais são tão ruins ou piores do que os sintomas da AIDS, após tornar-se impossível para Ron obter a droga de suas antigas fontes, ele descobre que pode obtê-la no México, mas não.
Lá ele descobre o doutor Vass (Griffin Dunne), e sua posição extremamente contrária à administração de AZT.
Tratado com DDT, babosa, vitaminas e um complexo proteico que aliviam os sintomas da doença, bem como as infecções provenientes do enfraquecimento do sistema imunológico causado pelo AZT, Ron descobre, mais do que uma forma de sobrevida, uma maneira de viver do coquetel mexicano.
Após vender o remédio a outros doentes com a ajuda do travesti Rayon (Jared Leto), Woodroof funda o Clube de Compras Dallas, onde não trata pacientes, mas fornece drogas para que eles possam tratar a si mesmos.
Mas com laboratórios, médicos e o FDA descobrindo a sua nova forma de abordar o tratamento da AIDS, Ron pode não ser capaz de seguir com seu tratamento alternativo sem lutar.
Muito bom.
Clube de Compras Dallas funciona que é uma beleza. A abordagem do diretor Jean-Marc Vallé para o roteiro de Craig Borten e Melisa Wallack (baseado na história verdadeira de Ron Woodroof) é leve, uma decisão acertada uma vez que o drama já está encerrado na própria doença. Com esse lastro dramático suficientemente edificado, Vallé pode centrar fogo em seu elenco, e mostrar a forma como Ron resolve que não vai cair sem lutar.
O elenco, diga-se de passagem, está ótimo.
Matthew MacConaughey, em seu melhor trabalho desde Amistad (e que o colocou como favoritaço ao Oscar), consegue encontrar o tom exato para seu Ron Woodroof, a antipatia natural pelo personagem no início do filme se dissolve conforme a experiência pela qual ele passa o modifica, sem, no entanto, que a transformação seja abrupta ou soe gratuita.
Além de MacConaughey há ainda Jared Leto, ótimo como o travesti Rayon, que equlibra tão bem sua interpretação entre o drama e o humor que consegue funcionar como o alívio cômico do filme sem se fazer de palhaço ou perder o foco na situação de seu personagem, e a gracinha Jennifer Garner como a doutora Eve Saks, médica que entende e se condói da condição de Ron e Rayon. Além desses, há ainda participações de Steve Zahn, Dennis O'Hare, Michael O'Neill e Dallas Roberts.
Tremendo filme, ótimo trabalho de elenco, e uma história real de superação e sobrevivência que vale demais a pena conhecer.
Assista no cinema.
"Deixe-me dar uma pequena notícia a vocês todos. Não há nada lá fora que possa matar a porra de Ron Woodroof em trinta dias."
Resenha Cinema: 12 anos de Escravidão
Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor, no papel de sua carreira), encara a câmera. Ele olha direto para a lente, com seus olhos carregados de desespero e pavor após anos de abuso.
Ele encara a audiência, como se dissesse, naquele olhar, que todos ali, sentados no cinema, os imbecis que riram durante o filme, num dos rompantes de mestre Epps (um estricnado Michael Fassbender), ou aqueles que cochicharam com o acompanhante após não ter prestado atenção a um diálogo, mesmo aqueles que têm um mínimo de educação e mantiveram o silêncio comendo M&Ms e bebendo suco de uva, ou que comeram Bib's e tomaram Fanta... Solomon está dizendo à cada pessoa sentada na audiência, que eles, que não se comprometeram com a profundidade da sua dor, compactuaram com a obscenidade da qual ele, e muitos outros, foram vítimas ao longo de anos e anos a fio.
É apenas uma cena, mas ela diz muito a respeito de 12 Anos de Escravidão, terceiro trabalho em longa metragem de Steve McQueen (Diretor de Fome, e Shame), que conta a história real de Solomon Northup, um cavalheiro letrado e livre do estado de Nova York que, em 1841, foi trapaceado por golpistas, e vendido a negociantes de escravos que o levaram ao sul dos EUA, região totalmente escravagista, onde ele foi forçado à viver em servidão.
Sob a lente de McQueen(pra ficar claro, esse Steve McQueen é negro e inglês, seu homônimo, o ator Steve McQueen, falecido em 1980, era branco e norte-americano), filmando um roteiro forte de John Ridley (adaptando a autobiografia do verdadeiro Northup, que dá título ao filme), 12 Anos de Escravidão se torna um violento soco no estômago da audiência, especialmente aqueles que viram a escravidão sob a ótica quase leviana de Quentin Tarantino em Django Livre no ano passado.
McQueen não carrega nas tintas dramáticas, mas não enfeita ou pirotecniza.
Decisão espertíssima, já que a maneira crua como mostra a vida de um escravo no sul dos EUA na metade do Século XIX apenas torna a jornada de Northup mais brutal e chocante.
Vendido e emprestado junto com outros trabalhadores escravos de uma fazenda à outra ao longo de anos de degradação, Northup toma conhecimento do que há de pior no ser humano. E não se engane.
Á despeito do que dizem os trailers, não há quantidade reconhecível de solidariedade ou gentileza no calvário do protagonista. Se há pessoas que cruzam seu caminho como o diabo em pessoa, humilhando, espancando, açoitando e acorrentando seus semelhantes, como o carpinteiro Tibeats (Paul Dano), o comerciante de escravos Freeman (Paul Giamatti) e especialmente o fazendeiro Edwin Epps, não é menos verdade que a gentileza do patrão Ford (Benedict Cumberbatch) também encerra um pesado grilhão e um afiado açoite em si.
Essa qualidade de estar ilhado em meio à crueldade, velada ou explícita, torna Northup um herói contido em sua constante e silente luta, não para recuperar a liberdade através de atos de desafio, mas para suportar a penitência à qual é exposto até que a chance de retornar à sua antiga vida se apresente.
O elenco espetacular (que ainda conta com Sarah Paulson, Alfre Woodward e a estreante Lupita Niong'O, dona da cena mais forte do filme, além de uma ponta de Brad Pitt, produtor do filme), o bom roteiro, e a música de Hans Zimmer ajudam McQueen a contar, sem floreios, essa dolorosa história de sobrevivência e perseverança que ilustra de maneira quase brutal, uma das mais sombrias chagas da História da humanidade.
"Eu não quero sobreviver. Eu quero viver."
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Quadrinhos: Demolidor 3
Ah, o prazer de chegar na banca ou na livraria a cada três meses e se deparar com a edição robusta de Demolidor, escrito por Mark Waid... Oh, sim, arrancar o plástico e sentir o cheirinho de gibi novo das 148 páginas de aventuras do Homem sem Medo, provavelmente o melhor quadrinho em série publicado desde que Joss Whedon escreveu Surpreendentes X-Men para a Marvel.
A edição compila sete edições de Daredevil, as primeiras duas partes mostram Matt, ainda mantendo sua postura positiva da vida, e sua abordagem mais light dos problemas, contando com a ajuda dos Vingadores pra se livrar do Omegadrive. O pedaço de uniforme de TMI do Quarteto Fantástico convertido em banco de dados das maiores sociedades criminosas do mundo.
Na sequência, mais duas histórias onde o Omegadrive segue ferrando a vida do demo, o levando, muito a contragosto, à Latvéria, de onde ele pode não conseguir sair sem ajuda após os cientistas a serviço de Von Doom resolverem que seu sentido de radar é algo que deve ser estudado, e, se possível, replicado, não importa o preço do processo para o herói.
A quinta história mostra Os Vingadores ajudando o Demolidor a superar o envenenamento sofrido na Latvéria, e as consequências de uma sinistra descoberta feita por Foggy Nelson no escritório de Murdock enquanto ele estava fora.
Na sexta aventura, Matt relembra um antigo caso em que ele e Foggy assumiram a defesa de um cientista fazendo pesquisas para curar deficiências visuais, e acabaram se vendo na alça de mira do Metaloide.
E, na última história da edição, Nelson e Murdock tentam ajudar, cada um a seu modo, a vítima de uma conspiração mafiosa, enquanto, ao mesmo tempo, Murdock precisa descobrir o que sua ex-esposa, Milla, está fazendo em seu apartamento quando devia estar em uma instituição psiquiátrica.
Todas as histórias são ótimas. Os desenhos, a cargo de Chris Samnee, Khoi Pham e Mike Allred ficam entre bons e excelentes, quase todos funcionando em um estilo que é a cara do Demolidor, mas o grande barato, mesmo, são os roteiros de Waid.
A sua abordagem do personagem é excelente, e mesmo dando um tom mais leve às aventuras do diabo da guarda de Hell's Kitchen, ele não se furta de jogar toneladas de problemas em cima do herói, e mesmo acenar com a possibilidade de atirá-lo no tradicional turbilhão de insanidade que, em muitas sagas anteriores, foi usado descaradamente por dezenas de escritores, mas o faz sem tornar o Demo um deprimido, mantendo-o numa posição ao mesmo tempo frágil e proativa para encarar os problemas que se empilham à sua frente.
O tipo de série que a gente sempre quer ler mais (ótima sacada o lance das edições trimestrais. Deixam o leitor com gostinho de quero mais, mas quando chegam à banca a gente tem seis, sete boas histórias pra ler), Demolidor é facilmente o melhor quadrinho no mercado hoje, e merece ser lida.
Os R$18,90 do preço de capa, por um quadrinho de 148 páginas com capa cartão e papel WTC no miolo vale demais a pena.
Leia com um sorriso no rosto.
"Essa esquina é muito pareicda com a minha vida. Constantemente sendo reconstruída do zero porque está sempre sendo arrasada."
sábado, 22 de fevereiro de 2014
Resenha Cinema: Inside Llewyn Davis - Balada de Um Homem Comum
A predileção dos irmãos Coen por fracassados não é nova.
Larry Gopnik, Harry Pfarrer e Chad Feldheimer, professor G. H. Dorr, Jerry Lundegaard, o glorioso Dude Lebowski... Todos loosers.
Mesmo seus tipos heroicos, como o delegado Rooster Cogburn e o caubói Llewelyn Moss, estão longe de representar tipos bem-sucedidos típicos, tanto por não se darem bem, como por não se comportarem como "vencedores". Por estranho que pareça, essa preferência por loosers ajudou a tornar os irmãos roteiristas/diretores o sucesso que são hoje. Capazes de serem tão autorais quanto possível numa indústria que funciona a base de remakes e franquias.
Em Inside Llewyn Davis - Balada de Um Homem Comum, os Coen contam mais uma história de fracasso.
O looser da vez é o Llewyn Davis do título.
Jovem cantor folk do Greenwich Village dos anos sessenta, era de ouro do folk de cafeteria, Llewyn tenta construir para si próprio uma carreira na música, para tanto, enfrenta obstáculos e percalços em cada esquina.
Não tem nenhum dinheiro, não tem onde morar, não tem um empresário decente ou sequer um casaco de inverno que o ajude a andar menos encolhido no inverno congelante de Nova York.
Llewyn tem talento, mas muito de seus obstáculos e percalços são auto-impostos.
Como um bom "looser Coeniano", o cantor tem que ser um pouco responsável pela própria tragédia, e obviamente não se furta de aproveitar todas as chances que tem de sabotar o próprio desenvolvimento.
Dorme com a esposa do amigo que lhe empresta dinheiro, briga com aqueles que o acolhem e admiram seu talento, rejeita royalties de uma canção que pode virar sucesso comercial para receber adiantado, espezinha o empresário que poderia dar rumo à sua carreira, é incapaz de uma auto-crítica que vá além do "eu sou um idiota"...
Llewyn tem a postura e a atitude de um moleque que é arrastado a contragosto para a festa de aniversário de quinze anos da irmã, com a diferença de que ele está na festa por livre e espontânea vontade.
Como, então, superar os obstáculos, se eles são construídos na medida certa por si mesmo?
Durante uma semana gelada de 1961, nós acompanhamos Llewyn sob a lente dos Coen, e o vemos se fazer a mesma pergunta.
inspirado em Dave Van Ronk, músico folk de verdade do início dos anos sessenta cuja biografia "The Mayor of MacDougal Street" o longa adapta livremente (Van Ronk não era tão bosta quanto o Davis construído pelos diretores/roteiristas), Inside Llewyn Davis é uma joia.
A direção dos Coen segue o alto padrão estabelecido pelos irmãos em seus últimos trabalhos, o roteiro é uma pérola do minimalismo, jamais expondo além do necessário, e em várias ocasiões, deixando a música cantada pelos protagonistas assumir o lugar dos diálogos para explicar o que ocorre com os personagens.
O trabalho do elenco está excepcional.
Oscar Isaac dá show, seu Llewyn Davis é tão verdadeiro, tão vivo e cheio de empatia, que é difícil não sentir junto com o personagem o fardo de suas derrotas e desafios. Eu, que nunca o havia visto em nenhum papel protagonista, fiquei espantado com o talento do sujeito.
Além dele, Carrey Mulligan está ótima como Jean. Sua relação com o protagonista é carregada de raiva e ressentimento, mas sem abrir mão de uma pitada de ternura. Além dela, John Goodman rouba a cena como o arrogante cantor de jazz Roland Turner, e ainda há espaço para boas participações de Adam Driver, Stark Sands, Garrett Hedlund e F. Murray Abraham, além de um discreto Justin Timberlake. Outra participação importante é a produção musical do oscarizado T-Bone Barnett e de Marcus Mumford, que qualificam na medida o teor das canções do longa, elemento crucial em um filme recheado de melodias.
Tremendo filme, excepcional trabalho do goleiro ao ponta-esquerda, garantindo o sucesso de mais um looser dos Coen.
"Se nunca foi nova e nunca envelhece, então é uma canção folk..."
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Quase Cem Por Cento
Quando a Sílvia Maria achou que a vida sexual dela e do Mário Augusto andava devagar quase parando, ela primeiro fez o que qualquer outra mulher faria.
Ficou triste e ensimesmada, acabrunhada pela falta de satisfação nas atividades de alcova, e tentou se concentrar em outros âmbitos da sua vida de modo a esquecer, ou ao menos não lembrar, das suas mazelas íntimas.
O problema é que a Sílvia Maria era uma mulher moderna com um apetite sexual saudável. Ela gostava do esquema.
Ela curtia sexo, curtia ter consigo um homem que soubesse lhe satisfazer as vontades entre quatro paredes, e um homem que tivesse vontades para ela também se desafiar e satisfazer.
Nada de excessivo, nada que fosse bizarro. Nada envolvendo um sistema de roldanas, uma bacia de alumínio cheia de água de coco, um anão vestido de bailarina e um retrato do Sidney Magal.
Não... Nada disso. Só coisa simples.
Coisas como um sexo oral sem pressa. Falar umas putarias durante o ato. Mandar ela gozar enquanto transavam, dar umas palmadas nela enquanto ela estivesse de quatro... Coisa simples, mas pra dar uma apimentadinha.
Ela não se importaria. Na verdade, até gostaria.
Qualquer coisa seria melhor do que o papai e mamãe com cara de vovô e vovó que o Mário Augusto transformara em regra.
Qualquer coisa seria melhor do que a frequência uma por semana e olhe lá que ele instaurara mesmo com os dois dividindo o mesmo teto.
A Sílvia Maria queria ser desejada. Queria ser comida.
E claro que ela queria amor, carinho e atenção do homem em sua vida. E ela prezava o amor, o carinho e a atenção do Mário Augusto, mas um pouquinho de safadeza daqui e dali não faria mal pra ninguém. Especialmente pra um sujeito de... De dimensões reduzidas que nem o Mário Augusto.
Mas, enfim... Justamente por achar que tamanho não era tudo, e por prezar o amor, o carinho e a atenção que o Mário Augusto lhe dispensava, por prezar o que eles tinham construído juntos, foi que a Sílvia Maria resolveu ajudar o Mário Augusto a se soltar um pouco.
Comprou lingerie sensual, óleos aromáticos, velas e um filminho pornô.
A lingerie foi um conjunto de renda, tipo fio-dental, vermelho, quase vulgar de tão provocativo.
O óleo aromático, morango e pimenta, que ela teve um pouco de medo que fosse dar uma ardência nos lugares onde ela passasse, mas apenas até a veemente garantia da dona da loja de que só "dava uma esquentada".
As velas eram todas aromatizadas com fragrâncias afrodisíacas tipo levanta defunto, e, o filme pornô, foi um do selo Private, que tinha duas mulheres lindas se pegando na capa com um sujeito careca fortão segurando ambas pela cintura.
Parecia tudo perfeito.
Quando o Mário Augusto chegou em casa, a Sílvia Maria estava trajando a lingerie sensual, besuntada com o óleo aromático, que de fato a deixara sentindo um calorão.
As luzes estavam apagadas e as velas acesas, enchendo o ar com as fragrâncias afrodisíacas.
A Sílvia Maria se aproximou, exalando o calorão, e disse ao pé do ouvido do Mário Augusto que ele sentasse no sofá pra ela fazer uma massagem nele, e que ele visse TV pra pensar no que iria querer fazer depois.
Quando ele sentou no sofá, ela tirou a camisa dele, passou óleo nas mãos, e ligou a TV com o filme pornô já andando.
Sucesso.
Depois da massagem e do filme, turbinado pelo óleo, o Mário Augusto e a Sílvia Maria não transaram, não fizeram amor... Eles treparam.
Treparam às ganha.
Treparam de jeito.
Treparam tanto que acordaram com os corpos todos doloridos no dia seguinte. Uma dor boa, cheia de endorfina e satisfação.
E não parou por ali.
Todo o dia daquela semana, a Sílvia Maria e o Mário Augusto tiveram uma foda daquelas.
Lance pegado, mesmo. De ralar joelho, de ficar com hematoma.
A Sílvia Maria voltou a sorrir com o sucesso de sua empreitada.
Bom... Sucesso parcial. Quase cem por cento.
A Sílvia Maria achou que faltou um elemento no seu plano:
Pesquisa.
Se ela soubesse que o selo Private de filmes eróticos era europeu, e se ela soubesse da predileção dos europeus por sodomia, ela talvez tivesse pego um filme de marca diferente na sex-shop.
A fixação dos europeus por túnel de vento era preocupante, e, pior, contagiosa...
Afinal, de todas as coisas que ela e o Mário Augusto vinham experimentando juntos ultimamente, a única de que ela abriria mão, sem pestanejar era o "vira pra eu comer teu brioco, nega".
Aquele era um lance que a Sílvia Maria, francamente passava sem.
Resenha Cinema: Caçadores de Obras-Primas
George Clooney dava pinta, anos atrás, que não ia conseguir ir muito longe na carreira cinematográfica. Quando era apenas o médico bonitão e rebelde de E.R., ou ainda antes quando participava de coisas inomináveis como De Volta à Escola de Horrores ou A Volta dos Tomates Assassinos podia-se imaginar que o máximo a que George Clooney pudesse aspirar como ator fosse unir forças com Arnold Schwarzenegger e matar uma franquia do Batman no cinema em Batman & Robin.
Mas não...
Clooney se endireitou. Ficou amigão de Steven Soderbergh (Com quem firmaria uma parceria bastante proveitosa) em Irresistível Paixão, ao qual seguiria a série Onze Homens, Solaris e O Segredo de Berlim. Trabalhou com Terrence Malick em Além da Linha Vermelha, com David O. Russel em Três Reis, com Joel e Ethan Coen em E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?, e O Amor Custa Caro e com Alexander Payne, em Os Descendentes, entre outros tantos.
Mostrou em mais de uma ocasião que podia ser muito mais do que apenas o galã porra-louca com coração de ouro do seriado médico. Engendrou uma carreira paralela de produtor, e lançou-se como diretor em 2002 com o bom Confissões de Uma Mente Perigosa, com roteiro de Charlie Kauffman. Na sequência dirigiria o excelente Boa Noite e Boa Sorte, em 2005, e os apenas OK O Amor Não Tem Regras (2008) e Tudo Pelo Poder (2011).
Cineasta de três em três anos, Clooney voltou à cadeira do diretor para lançar agora, em 2014 esse Caçadores de Obras Primas.
O roteiro, co-escrito por Clooney (que em sua carreira atrás das câmeras só não esteve envolvido oficialmente no script de Confissões de Uma Mente Perigosa) e seu parceiro Grant Heslov, adapta o livro Caçadores de Obras-Primas - Salvando a Arte Ocidental da Pilhagem de Hitler, de Bret Witter e Robert Edsel.
Como o título do livro deixa bem claro, Caçadores de Obras-Primas conta a história desse insuspeito pelotão formado por diretores de museus, historiadores da arte, curadores e arquitetos escalado para ir à Europa nos estertores da Segunda Guerra Mundial e tentar recuperar as obras de arte roubadas pelos nazistas durante o conflito bem como tentar orientar as ações dos aliados para que não devastem prédios históricos em seus ataques com artilharia pesada.
O grupo formado pelos americanos Frank Stokes (Clooney), James Granger (Matt Damon), Richard Campbell (Bill Murray), Walter Garfield (John Goodman) e Preston Savitz (Bob Balaban), mais o inglês Donald Jeffries (Hugh Bonneville) e o francês Jean Claude Clermont (Jean Dujardin) chegam à Europa continental com sua missão que logo se torna uma corrida contra o tempo conforme Hitler ordena que, com sua morte, todos os arquivos e obras de arte devem ser destruídos.
O problema é que as localizações das obras-primas em questão são secretas, e conseguir descobri-las pode ser impossível, a menos que eles obtenham ajuda de alguém que tenha estado suficientemente próximo dos nazistas a ponto de ter pistas do paradeiro das obras. Alguém como Claire Simone (Cate Blanchett), curadora do museu Jeu de Paume, que pode ter a informação, mas não confia nas boas-intenções dos norte-americanos.
Caçadores de Obras-Primas ainda não é o filme que devolverá a boa forma mostrada por Clooney em Boa Noite e Boa Sorte.
Se está longe de ser mau filme, também não é nenhuma maravilha. O longa alterna bons e maus momentos, mas o início é excessivamente arrastado.
Há alguns problemas de desenvolvimento conforme o grupo se separa e se reúne, a ação dos protagonistas espalhados pelos países retomados pelos Aliados acaba fazendo com que seja difícil se afeiçoar aos personagens ou mesmo se preocupar com eles, especialmente quando, mesmo as relações dentro do grupo, são superficiais.
Há uma solenidade excessiva no filme que também é um pouco incômoda, mas não chega a ser nenhuma tragédia, ruim mesmo é o flerte com o romance entre os personagens de Blanchett e Damon, completamente inócuo e deslocado.
Blanchett, porém, dá o show habitual de talento, mesmo com o francês esquisito. Bill Murray e John Goodman também se saem muito bem, e Bob Balaban surpreende fora do papel de xarope em que sempre é escalado.
No fim das contas, Caçadores de Obras-Primas é um filme produzido com esmero, com bom elenco e uma história que merece ser contada, mas que peca ao se levar a sério demais e se desenvolver a contento de menos.
Apenas bom. Assista se a única alternativa for Hércules.
"Se vocês destruir suas realizações, sua história, será como se jamais tivessem existido."
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Resenha Game: Assassin's Creed IV - Black Flag
Em meados de 2007 a Ubisoft lançou o game que daria um respiro fresco na cara das aventuras de mundo-aberto dos consoles e PCs mundo afora.
Assassin's Creed era uma mistura de stealth, ação e aventura que usava como pano de fundo eventos históricos e a luta entre duas ordens seculares antagônicas, os heroicos Assassinos, lutando das sombras para dar liberdade à humanidade, e os perversos templários, maquinando dos bastidores maneiras de manter o conhecimento agrilhoado à uma minoria comandando o mundo.
Apesar de um pouco repetitivo em suas missões, Assassin's Creed tinha uma jogabilidade maneira, movimentos de parkour e acrobacias herdados de Prince of Persia (originalmente o game seria um spin-off da série do príncipe persa), e acenava com uma divertida teoria conspiratória, misturando a ação do protagonista Altaïr Ibn-La'Ahad, durante a terceira cruzada com seu descendente Desmond Miles, que vivenciava as experiências de Altaïr através de um maquinário chamado Animus no ano de 2012.
Ao bem sucedido Assassin's Creed seguiu-se o ótimo Assassin's Creed II, o protagonista do passado, Altaïr era substituído por Ezio Auditore, um jovem fanfarrão de uma família nobre da Florença renascentista, que trilhava os caminhos da ordem dos Assassinos após uma conspiração templária culminar com a morte de seu pai e irmão.
Assassin's Creed II era muito superior ao primeiro game, e embora inicialmente fosse difícil se afeiçoar a Ezio, um jovem ptboy, mulherengo mimado e cheio de si, essa má impressão inicial era enterrada tranquilamente em Assassin's Creed - Brotherhood, o terceiro game da série e ainda o melhor de todos.
Brotherhood dava sequência à trajetória de Ezio, agora o mentor da ordem dos assassinos em Roma, e sua luta contra o papa Alexandre VI, o templário espanhol Rodrigo Bórgia.
A Brotherhood seguiu-se Assassin's Creed - Revelations, que dava fecho tanto à linha narrativa de Ezio quanto a de Altaïr, na qual o player tinha oportunidade de tomar conhecimento de eventos até então desconhecidos da vida do mentor levantino.
Se as aventuras de Altaïr e Ezio estavam encerradas em Revelations, o mesmo não se podia dizer da linha narrativa de Desmond Miles.
O veículo pela qual tomávamos conhecimento das vidas dos grandes mestres-assassinos da Terceira Cruzada e da Renascença estava enrolado no ano de 2012.
Desmond se virava com seus companheiros Lucy Stillman, depois revelada uma traidora, Shaun Hastings e Rebecca Crane, e depois seu pai, William Milles para tentar impedir que uma erupção solar destruísse a Terra no dia 21 de dezembro de 2012.
Sem pista de como fazê-lo, Desmond seguiu lutando, se escondendo e utilizando o Animus 2.0 dos Assassinos para procurar em sua memória genética por pistas que o levassem à uma forma de impedir o fim do mundo. Isso nos levou a Assassin's Creed III. Jogo tecnicamente excelente que carecia de um ponto primordial: Um protagonista ancestral com o carisma de Ezio ou Altaïr.
O mestiço de inglês e nativo-americano Ratonhnhaké:ton, também chamado de Connor, era um herói bem coxinha, e sem graça, e sua aventura acabava sendo mais pano de fundo do que atração principal, afinal, intercalado com sua luta contra os templários durante a revolução americana, havia a linha narrativa de Desmond, finalmente conseguindo algumas respostas, e tendo direito até mesmo a missões bastante físicas, como a busca por células energéticas em Nova York e no Brasil e uma missão de resgate em Roma, em uma série de eventos que culminava com seu sucesso na tarefa de impedir a devastação da Terra graças à tecnologia dos "Que Vieram Antes", a raça de super-seres precursores da humanidade, e ao sacrifício de sua própria vida.
Com essa resolução para a linha narrativa de Desmond, ficava até estranho pensar em um quarto Assassin's Creed, mas ele veio.
Lançado em novembro do ano passado, Black Flag é um prequel da aventura de Ratonhnhaké:ton "Connor" Kenway.
Ela mostra as aventuras de Edward Kenway, avô de Connor, um famigerado pirata que atuou no Caribe durante os anos de ouro da pirataria, em 1715.
Edward, ao contrário de Altaïr, Ezio e Connor, não é um Assassino ordenado e juramentado, tampouco um templário como Haytham Kenway.
Um mero pirata interessado unicamente em lucrar dinheiro suficiente para retornar à sua esposa na Inglaterra, Edward se vê em meio a uma conspiração de templários procurando por um local chamado O Observatório. Uma localização da civilização precursora de onde, teoricamente, poderiam monitorar toda a humanidade.
Pego ao acaso em meio à guerra entre as ordens após matar um Assassino traidor, Edward torna-se o fiel da balança numa batalha que pode decidir os rumos da humanidade.
O game, dessa vez não contém a linha narrativa de Desmond. A vida de Edward é experimentada por um personagem sem nome ou rosto que vasculha as memórias genéticas de amostras extraídas do corpo de Desmond após sua morte no game anterior com o pretexto de tornar a tecnologia Animus um videogame. Os eventos fora do Animus dão-se em um prédio da Abstergo entertainement (o logo da empresa inclusive aparece no início do jogo, logo após o da Ubisoft, parceira da Abstergo em Québec) onde ele recebe instruções de sua nova chefe.
O game é ótimo.
A mistura de ação e aventura, os elementos de stealth e a exploração marítima, com a abordagem de navios e as batalhas navais (baseadas no mini-game do Áquila, de AC III, o ponto alto do game) funciona que é uma beleza. Os combates são bons e fluidos, as acrobacias e elementos de parkour seguem ótimos e as atividades de caça foram mantidas e ganharam importância.
O grande problema é que Assassin's Creed IV - Black Flag segue boa parte do caminho tendo muito pouco de Assassin's Creed.
Edward é um protagonista razoável no máximo por boa parte do game. Melhor que Connor, mas nada comparado a Altaïr ou Ezio, sua aventura se sustenta sozinha e prende a atenção, embora a linha narrativa empalideça ante a grandiosidade de possibilidades do mundo aberto de exploração naval do game (As vezes quase excessivo. É de enlouquecer ter que procurar em todas as ilhas, de todas as seções separadas do mapa do mundo do game, peça por peça dos objetivos secundários necessários para completar em sua totalidade os objetivos do game).
Fosse unicamente um jogo de piratas sem as raízes de Assassin's Creed, e Black Flag teria sido facilmente um dos melhores games já realizados para as duas últimas gerações de consoles.
Com jogabilidade intuitiva, gráficos excelentes, boas dublagens e possibilidades quase infinitas de diversão, Assassin's Creed IV - Black Flag só decepciona pelo título e, por à certa altura da sua aventura bucaneira, se forçar a voltar à velha rixa templários x Assassinos de uma forma que acaba quase forçada, considerando o andamento do jogo e as motivações do protagonista até ali.
"-Em um mundo sem ouro, nós poderíamos ter sido heróis."
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