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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Resenha cinema: Além da Vida


É estranho ver o nome de Clint Eastwood em cima do título de um filme a respeito de um tema tão água com açúcar como vida após a morte. Há quem possa imaginar que o velho Clint esteja amolecendo, ou, que a idade provecta (Adoro esse termo, "idade provecta") do cineasta octogenário o tenha feito pensar um pouco sobre o fim. Bazófia. Primeiro, por que Clint Eastwood jamais irá amolecer. Segundo, por que Clint Eastwood não tem medo da morte, embora seja melhor a morte pensar duas vezes antes de cruzar a mira de sua Magnum 44, e, terceiro, por que Além da Vida não chega a ser um filme sobre vida após a morte na acepção do tema.
Na trama conhecemos três histórias que se entrelaçam durante a projeção:
Primeiro a da jornalista Marie LeLay (Cécile de France), que após uma experiência de quase morte durante um tsunami na Tailândia tem sua realidade alterada e se torna obcecada com o além-vida; A de George Lonegan (Matt Damon), um médium que encara seu dom de se comunicar com os mortos como uma maldição, e tenta levar uma vida normal como operário, á despeito dos apelos do irmão Billy (Jay Mohr) para que retome a lucrativa atividade; e a de Marcus (George e Frankie McLaren), menino que perde o irmão Jason (George e Frankie McLaren, também) ao mesmo tempo em que sua mãe precisa deixá-lo para se livrar do vício em drogas, e busca desesperadamente por respostas.
Não é um filme ágil, as duas horas e nove minutos do longa ás vezes se arrastam pela tela enquanto as relações dos personagens centrais vão se esfacelando por conta de suas respectivas obssessões com a morte. Matt Damon está excelente como o médium relutante George, quando ele interage com a gracinha Bryce Dallas-Howard nós conseguimos sentir, de fato, a aflição do sujeito que sabe pra onde aquilo vai andar.
Cécile de France não compromete, e é a dona de uma das grandes sequências do filme, o tsunami que varre a Tailândia e quase a mata, enquanto que os gêmeos Frankie e George são boas supresas nos papéis de Marcus e Jason.
Clint Eastwood usa o tema da espiritualidade com parcimônia, impedindo que seu filme se torne uma porcaria panfletária como Chico Xavier, Amor Além da Vida ou Nosso Lar, ele não consegue, no entanto, escapulir de alguns clichês, tanto no texto, quanto visuais, que sempre acabam recorrendo nos longas do tema, o que resulta em um filme que, se não é ruim (e não é), certamente empalidece quando comparado aos trabalhos recentes do diretor de Sobre Meninos e Lobos, Gran Torino, e Cartas de Iwo Jima.
Enfim, Clint Eastwood não precisa ter medo da morte (Nem de nada!), ele só deve se acautelar com roteiros mornos.

"Se você está com medo de ficar por conta própria, não se preocupe: Você não está."

Resenha Cinema: 72 Horas


Paul Haggis é um roteirista dos bons (Os filmes mais recentes de 007 que o digam), e Diretor, idem (Olha o Oscar de Crash - No Limite, aí que não me deixa mentir.). Ele colocou as asinhas de fora novamente fazendo um filme que se aproxima um pouco mais da ação de seus trabalhos como roteirista, e difere de um pouco de seus dramas nos trabalhos como diretor:
O bom thriller de fuga da prisão, 72 Horas, onde Russel Crowe interpreta John Brennan, professor e pai de família que tem sua esposa, Lara (Elizabeth Banks), presa e condenada por assassinato, e que, após esgotar todas as vias legais de apelações para livrá-la da cadeia, percebe que só existe um curso de ação: Planejar uma fuga pra sua esposa.
Mas como um professor de inglês poderia tirar alguém de uma penitenciária de alta segurança? Aí é que a trama se complica, e ganha suas melhores tintas.
É, grosso modo, um show de um homem só. Russel Crowe carrega o filme nas costas durante toda a projeção, a sua atuação mostra de forma extremamente convincente o sujeito comum tentando realizar um prodígio. O John Brennan de Crowe é, ao mesmo tempo, determinado e hesitante, valente e assustado, contido e raivoso.
Enquanto busca desesperadamente o conhecimento necessário pra tirar a esposa da cadeia, Brennan incorre em todos os erros que uma pessoa normal cometeria na mesma situação. Ele se dá mal tentando negociar com criminosos, ele fracassa em tentativas de usar técnicas de fuga extraídas do YouTube, ele titubeia antes de tomar uma decisão drástica, mas sempre se apega á vida que levava antes da prisão de sua esposa, e que está disposto a recuperar não importa o custo.
Se Haggis não chega a mostrar estofo de papa do gênero na direção, não deixa a peteca cair, nos deixando na ponta da cadeira nos momentos de tensão sem jamais esquecer de dar veracidade aos seus personagens. Se Crowe é um daqueles atores de exceção em hollywood já sabemos faz tempo, a interpretação de Elizabeth Banks (A Betty Brant de Homem-Aranha) não deixa de ser uma bela surpresa, além das boas participações de um silencioso e expressivo Brian Denehy, como pai de John, Liam Neeson como um ex-condenado especialista em fugas, e Olivia Wilde, linda de morrer, como uma mãe solteira que pode se tornar peão nos planos de John.
No final das contas, 72 Horas não vai mudar os rumos do cinema contemporâneo, não dará nenhum prêmio de interpretação aos membros do elenco, nem deve ser um estrondoso sucesso de bilheteria, mas cumpre bem a sua função, e distrai bastante bem por duas horas e dois minutos.

"Não há nada mais perigoso do que um homem com tudo á perder."

Coisas simples


O Aristides admirava a engenharia das coisas do dia-a-dia, das coisas simples, das mais simples, até algumas mais elaboradas, ele adorava conhecer o funcionamento de tudo. Embora ele admitisse, tivesse mais apreço pelas coisas simples. Era no mundano que Aristides encontrava mais satisfação, no que parecia mais tosco, mais básico, era onde Aristides depositava seu mais sincero apego, seu mais genuíno deslumbramento.
Um exemplo bem claro, era que Aristides achava telefone celular muito bacana, sim. Achava maneiro até o modo como o nome servia pra designar o sistema de células que tornava as ligações possíveis, mandando o sinal de uma antena pra outra e talicoisa. Mas ele achava dobradiça muito mais bacana. Dobradiça, mesmo. Dessas de porta, sabe? Então. O Aristides achava dobradiça muito maneiro. Ficava pasmo olhando aquelas cartelinhas que vende na parte de ferragem do supermercado com duas dobradiças dentro, manja? Pois é, ele achava aquilo, sei lá, uma demonstração inquestionável da triunfo do intelecto humano. Achava glorioso. Ás vezes, quando ia entrar em algum lugar, olhava a dobradiça das portas, e fazia, baixinho, um ruído de satisfação.
"Eheh... Aaaah."
Ninguém entendia, se bem que quase nunca reparavam. De qualquer forma, dobradiça era uma das coisas que deixavam o Aristides feliz da vida, admirado, maravilhado. Um lance tremendamente simples, mas, ao mesmo tempo, com uma certa sofisticação rude, se é que existe tal coisa.
Tubo de pasta de dente, também. Nossa, cara, tubo de pasta de dente ele achava tudo de bom! De manhã, quando acordava, o Aristides já estava com um sorrisão no rosto, antevendo o prazer de apertar o tubo de pasta de dente bem embaixo, sabe? Na ponta oposta a da tampa, e ver o creme dental branco, com as risquinhas vermelhas sair lentamente de dentro do tubo... Nossa. Era um lance quase erótico pro Aristides, além, claro, de ser outra notável invenção da raça humana. Áfora, claro, toda a engenharia química da produção do creme dental em si, a forma como o creme era inserido dentro do tubo, a maneira exata como ele passava pelo micro recipiente da substância colorida perto da abetura do tubo, pressionado contra as ranhuras que davam aquelas riscas fininhas pra pasta... Caraca... O Aristides ficava estático pensando em como aquilo funcionava. Não tinha outra, era mais uma das grandes invenções humanas. Um troço tão maneiro, e que ainda protegia os dentes de cáries, e deixava o hálito cheiroso? Ah, não... Tipo, o Aristides ás vezes se sentia quase na obrigação de escovar os dentes ajoelhado, agradecendo aos céus e aos homens de ciência que criaram aquela maravilha.
O Aristides era assim. Um sujeito de admirações simples. De ideias simples, de vontades e desejos e sonhos simples. Ele era capaz de curtir as coisas mundanas do dia-a-dia, e de ver milagres de sapiência humana onde os outros são incapazes de ver qualquer coisa. Era seu modo de ser. Talvez por isso, por ser um camarada de pretensões tão básicas, ele andasse tão desconfiado com a felicidade que experimentava naqueles dias.
Felicidade tão em excesso, sem precisar de explicação ou palestra... Sei lá, precisava de alguma explicação ou palestra.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O Lado Sombrio


-O Lado Sombrio, a tudo obscurece.- Disse o Estevão à cabeceira da mesa do bar de sempre, sob o olhar surpreso do Jael e do Lontra.
-Quê? - Perguntou o Jael, tentando entender enquanto levava o copo de chope à boca.
-O Lado Sombrio... Ele obscurece tudo. Nubla os nossos sentidos, embaça nossa visão, nos faz tomar más decisões. - Respondeu o Estevão, enigmático, olhando pra cestinha de rodelas de calabresa diante de si.
-Tá louco, porra? - Inquiriu o Lontra, alterado.
Essa, aliás, era a dinâmica recorrente daquele grupo. O Estevão tinha epifanias, o Jael não entendia, e o Lontra se alterava. No mínimo uma dessas três coisas acontecia sempre que saiam juntos.
O Estevão não respondeu. Apanhou uma das últimas calabresas, empalada em um palito de dentes e a levou perto do rosto, então a mordeu e fechou os olhos enquanto mastigava.
-Que quié isso de Lado Sombrio, Estevão? - Quis saber o Jael, ainda confuso.
O Estevão fez um gesto como quem pede pra esperar enquanto mastigava. O Lontra, impaciente, bebeu um gole de chope e fez um "nhah!" de quem está impaciente.
-Fala duma vez, caceta.
-Calma. Eu vou explicar... - Disse, tranquilo, o Estevão.
-Tenho até medo quando tu diz que vai explicar... - Retrucou o Lontra.
-O medo é um dos caminhos que levam ao Lado Sombrio...
-Ah, te fode, Estevão... Essa porra é do Guerra nas Estrelas. O bagulho lá da Força...
-Ah, esse é aquele que tem o Doutor Spock? - Quis saber o Jael.
-Não. -Respondeu o Estevão. -Esse é no Jornada nas Estrelas, e é "senhor" Spock. O doutor a bordo da enterprise é o Leonard MacCoy.
-Ah...
-Vem com esses papos de nerd aí... E eu ainda dou atenção. - Continuou o Lontra, com pouco caso.
-A tua falta de fé me perturba. - Disse o Estevão, olhando pras calabresas novamente.
-Vai se ferrar. - Respondeu, ríspido, o Lontra.
Focaram em silêncio. Mas o Jael o rompeu após beber mais um pouco de seu chope e fazer "Ah!":
-O que eu queria, mesmo, daqueles filmes eram as espadas. As espadas de laser eram do Guerra, não do Jornada, né?
-Sim. - Confirmaram Lontra e Estevão, juntos.
-Aquelas espadas eram muito fodas. Queria aquela vermelha do Lorde Vader...
-Darth - Corrigiu o Lontra. -Darth Vader.
-Mas Lorde Vader não chega a estar errado. Os militares imperiais á bordo da Estrela da Morte se referiam ao Vader como "Lorde Vader". -Disse o Estevão, bebendo um gole da sua coca-cola, já morna e sem gás.
-Vai tomar no teu cú, Estevão. Para de me retrucar, criatura. - Respondeu o Lontra, de sopetão, antes de beber mais um gole de seu chope.
-O que vocês queriam daqueles filmes? - Perguntou o Jael, enquanto erguia seu copo.
-Eu queria a Princesa Léia. Mas sem aquele penteado fone de ouvido - Disse o Lontra, empilhando várias bolachas de apoio de copo e agarrando uma calabresa. -De cabelo soltinho, que nem ela aparece em Os Irmãos Cara de Pau.
-Ah... - Suspirou o Estevão. -Com o biquíni dourado da versão escrava do Jabba...
-Ah, é... -Lembrou-se o Lontra, admirado, olhando pra cima como um ancião que lembra da juventude. - O biquíni dourado do Jabba...
-Que biquíni é esse? Quem é esse Jabba? -Quis saber o Jael, curioso.
-Jabba era tipo, um verme gordo gigante... -Começou o Lontra. Ele sequestrava a Léia- Mas o Estevão o interrompeu.
-Ele não sequestrava, ela. Ela invadia o palácio dele e era feita prisioneira.
-Puta que o pariu, não vai me deixar contar a história, caralho?
-Não. Tá contando errado, não deixo.
-Então conta, tu, sabe-tudo-de-merda-do-caramba.
Ficaram os dois em silêncio. Estevão bebeu sua coca-cola, Lontra seu chope. O Jael também bebeu, e ficou esperando:
-Tá, e aí? E o Jabba esse, e o biquíni?
O Lontra e o Estevão se olharam. O Lontra fez sinal pro Estevão seguir, e ele começou:
-Então, o Jabba era um Hutt, uma raça de alienígenas que parecem, mesmo, uns vermes gordos e gigantes. O Jabba vai matar um dos personagens do filme, o Han Solo, que é-
-Versão curta, porra, versão curta. - Apressou o Lontra.
-Tá, tá. Então o Jabba vai executar o Han Solo, um dos personagens centrais do filme, e a Leia se infiltra no palácio do Jabba como um caçador de recompensa, mas é descoberta, aí o Jabba faz dela prisioneira, e ela aparece acorrentada pelo pescoço ao trono do Jabba, usando um biquíni metálico dourado com verde-musgo, que... Velho... Tipo, é o píncaro do sex-appeal nerd. É o equivalente sci-fy da tirada de luvas da Rita Hayworth em Gilda, é um lance que, sei lá... Fez uma geração inteira sonhar em ser um verme gigante e gordo vivendo em um deserto...
-Pô, tanto assim? -Perguntou, desconfiado, o Jael.
-Tanto assim. - Responderam, em uníssono, Estevão e Lontra.
O Jael riu e bebeu o último gole de seu chope.
-Se não acredita na gente, coloca no Google. "Bikini" e "Leia", e clica em imagens. Tu vai ver. - Aconselhou o Estevão, matando a sua coca-cola morna em um só gole.
-Tá, então, pra mim é a espada laser-
-Sabre de luz. -Corrigiu o Estevão.
-Isso, era esse o nome. Então, pra mim é o sabre de luz vermelho do Darth Vader, pro Lontra o biquíni da Léia-
-O caralho, rapá, pra mim é a Léia de biquíni, ô.
-Isso, foi o que eu quis dizer, a Léia de biquíni, e pra ti, Estevão?
O Estevão ficou olhando pra cesta vazia de calabresas por um momento, e então disse, como se iluminado.
-O truque mental Jedi!
-Que porra é essa? -Perguntou o Lontra fechando um olho como quem faz força pra lembrar.
-É aquela finta de mão que, acompanhada pela sugestão do jedi e o poder da Força convence pessoas de mente fraca a aceitar qualquer coisa, lembra? O Obi-Wan usa nos Stormtrooper quando chega a Mos Eisley no episódio quatro, depois o Luke usa no guarda gamorreano do palácio do Jabba, no episódio seis... Sabe? Aquele lance assim:
Estevão fez o clássico gesto em forma de arco com a mão direita, os dedos indicador e médio estendidos, o anular e o mínimo encolhidos, da esquerda pra direita enquanto dizia:
-These aren't the droids you're looking for.
-Ah, tá! Tô ligado. Arram. Isso é foda. Boa pedida. -Aquiesceu o Lontra.
Ficaram rindo, com os copos e a cesta de aperitivos vazios sobre a mesa. O garço se aproximou;
-Querem que feche a conta?
O Estevão olhou pro garçom e repetiu o gesto do truque mental Jedi:
-Miguelito, você quer nos trazer mais dois chopes, uma coca e uma cesta de calabrezas.
-É pra já. - Respondeu o garçom, saindo.
Riram mais um pouco.
-Porra - Disse o Lontra. -Devia ter pedido por conta da casa.
-Ah, mas aí o Miguelito ia ter que pagar. - Replicou o Estevão.
-Ah, foda-se. - Treplicou o Lontra, com pouco caso.
Estevão ficou sério e olhou por Jael:
-Eu não disse que o Lado Sombrio a tudo obscurece?

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Pessimismo


Roberval não era lá uma grande pessoa, entende? Não era uma boa pessoa. E nem digo isso baseado na minha crença inabalável, pra não dizerem que não creio em nada, então, nem baseio isso na minha crença inabalável de que as palavras "boa" e "pessoa" jamais casam numa mesma frase. Ele não era uma boa pessoa. Não é que ele não fizesse nada de bom, sabe? Ele até fazia. Mas nunca fazia pensando nos outros. Ele fazia pra se sentir bem consigo mesmo. Sei lá, se essa franqueza o tornava melhor ou pior do que a média, mas baseado na média, de que adianta ser melhor, né? Não chega a ser lá grande coisa.
Então, quer dizer, era esse tipo de coisa, sabe? Essa... Sei lá. Falta de auto-comiseração, talvez? O Roberval sempre achou que as pessoas têm muita facilidade pra sentirem pena de si mesmas. Ele não. Quando alguma coisa ruim acontecia ao Roberval, ele sempre pensava "claro. Faz sentido.". Ele não tinha pena de si próprio. Nem de ninguém, que fique bem claro. Tinha pena dos ursos polares. Muita. Não consiguia passar um dia sem guardar um momento pra sentir dor pelos ursos polares. Não me pergunta por que. Não tinha pena das baleias. Não tinha pena das focas, nem dos outros ursos. É dos polares que ele sentia pena. Quando alguém falava de focas sendo mortas ainda filhotes por causa da pele, das baleias sendo arpoadas pelos japoneses, quando lhe falam de tubarões sendo pescados, tendo as barbatanas arrancadas e sendo jogados de volta ao mar pra morrerem, ele sempre pensava que era nisso que dava dividir o mundo com a humanidade. Os ursos polares não. Os ursos polares o feriam. O entristeciam. Quer acabar com o dia do Roberval, mostre os ursos polares à deriva em uma mínima placa de gelo com nada exceto água ao redor. Aquilo entristecia tanto, mas tanto, o Roberval, que ele ficava pensando "Nah, ele não vai morrer. Ursos polares são exímios nadadores". É. Ele chegava a esse ponto. Ele tentava ser otimista. Quem conhece o Roberval sabe que otimismo não é sua praia. Podem perguntar pra quem o conhece. Pessimismo. Esse é o negócio dele. Em qualquer coisa. Economia, futebol, política, na vida de modo geral. Pessimista nato. Pessimista a ponto de correrem ele da sala durante jogos de futebol. Pessimista a ponto de as pessoas desistirem de discutir com ele, não por que seus argumentos são muito bons, mas por que elas ficam deprimidas. Esse tipo de pessimismo.
Ser pessimista assim, sempre rendeu bons frutos ao Roberval. Ele raramente se desapontava. Ele não era de criar expectativas mágicas a respeito de coisa alguma, nem de deixar de tentar ascoisas esperando que tudo se resolvesse, embora na maior parte das vezes fizesse as coisas pelo prazer de ver dar errado e falar "eu não disse?". Ainda assim, ele não se abstinha de viver. Se abstinha, sim, de algumas coisas que podiam não dar certo, de coisas que ele supunha, não fossem pro seu bico.
Ele tinha certeza de que, ela, por exemplo, era uma dessas coisas. Inalcançável. Inatingível e que, das duas uma:
Ou ele tinha algum problema grave por imaginar o contrário, ou ela tinha um problema grave por não perceber o quão problemático ele era.
Essa era uma daquelas ocasiões em que Roberval gostaria de estar errado.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O segredo da felicidade





















-Arthur -Ela começou. Dizia Arthur com um sotaque britânico tão forçado e tão pesado que parecia uma nativa de Manchester que vivera, sei lá, no Azerbaijão. Saía algo como Ah-ssuãh. No início ele achava engraçado, agora não achava mais. Ele, às vezes, ficava tão bravo com ela, que fingia não ter ouvido o que ela dissera, só pra poder ignorá-la um pouco mais. Não era, entretanto, a regra. Pelo menos, não fora desde sempre. Eram apenas píncaros de brabeza de casal. Perfeitamente natural, ele supunha. Pelo menos até se tornar excessivamente recorrente, como nessas ocasiões em que ela escolhia o lugar onde iam, e o arrastava pra um bar lotado, quente, e repleto de gente que ele não conhecia, e, pior, nem queria conhecer.
Ela repetiu:
-Ah-ssuãh?
Ele permaneceu fingindo não ter ouvido, ou achando que não era com ele. Ela insistiu novamente:
-Ah-ssuãh?
Ele não aguentaria por muito mais tempo, pois, quando ele a ignorava, ela começava a fazer uma voz casa vez mais esganiçada para atrair-lhe a atenção, o que o deixava agoniado e parecia fazer o seu calor aumentar:
-Quié?
-Ah-ssuãh, eu descobri o segredo da felicidade, my dear...
Quando ela começava a ficar "alegrinha" desatava a falar em inglês. Outra coisa que, no princípio, ele achava bonitinho, e que agora, o irritava.
-Ah, é? -Ele respondeu como quem não quer saber, enquanto se abanava.
-Yeah, darling - O sotaque britânico ia se tornando mais e mais pesado. O "Darling" saiu "dãhlen". -O segredo da felicidade é... Chega aqui pertinho pra eu sussurrar, por que é segredo...
Ela se debruçou por cima da mesa, derrubando um copo que se espatifou no chão. Ninguém percebeu, o bar estava cheio, e havia muita gente falando alto ao redor da mesa. Ela riu, riu bastante, pra dentro, como se estivesse fazendo força pra não rir. Pra ele, pareceu a risada do Muttley, o cachorro do Dick Vigarista. Ela continuou se espichando, braços estendidos, por sobre a mesa para alcançá-lo:
-Here, my love - O sotaque subitamente se tornou irlandês. Com um erre bastante pronunciado em "here" e o "my" soando como "me". -Eu vou te contar um "seacrest".
"Seacrest". Ela definitivamente bebera demais. Ele embrabeceu de vez.
-Tá, parou. Te endireita, aí.
Ela não lhe deu ouvidos, alcançou-o, agarrando-o firmemente pelo pescoço e queixo:
-José Cuervo, lovely lad. O segredo da felicidade é Jose Cuervo Special Gold...
Ela sussurrou isso quase lambendo seu ouvido. Outra coisa que, subitamente passara a incomodá-lo. Como ela ficava sexualmente agressiva quando bebia.
-Tá, tá bem, chega.
Ela não parou. Lambeu atrás da orelha dele. Ele suava, tentou afastá-la, mas ela lutou, ainda o segurando, disse:
-Aqui tem sal, cadê o limão?
Ele a segurou firmemente pelos pulsos delicados e a conduziu com decisão de volta à cadeira. Ela sentou, parou de rir e ficou séria, olhando pro próprio colo.
"Ela vai chorar... Puta merda, ela vai chorar." pensou Arthur, arrependido da própria truculência impensada e antevendo uma cena. Mas a cena não se consumou. Ela ergueu os olhos e apanhou o copo que estava do lado de sua bolsa. 
"Bolsa em cima da mesa.", Arthur pensou enquanto ela apanhava o copo. "Tá pedindo pra ser roubada. Não adianta falar.". Suspirou um ruído qualquer.
-Vamo embora? -Perguntou olhando o relógio e erguendo as sobrancelhas fingindo alarme com a hora.
Ela segurava o copo e o mirava com os olhos semi cerrados.
-Sabe qual é o teu problema, Ah-ssuãh?
-Ah, meu Deus...
-Tu é um reprimido, honey.
-Arram.
-E me odeia por que eu sou free.
-Nesse momento eu provavelmente te odeio um pouquinho, sim...
-Não é minha culpa, my love, se tu não sabe viver... Eu sei. Mas ó... Ainda assim, sendo um velho ranzinza preso no corpo de um jovem, eu te amo, viu?
-Tá bem.
Ela meio que tinha razão. Ela de fato, sabia viver. Não o tipo de vida que ele apreciava, mas, que diabos, quem era ele pra dizer como os outros deviam viver? Ele com seus gibis, livros, filmes, video games e colecionáveis Marvel e Star Wars? O que ele sabia de viver? Talvez ela estivesse certa. Talvez ele a odiasse por que ela sabia viver e ele, não. 
Pelo menos algumas vezes. 
Na maior parte do tempo, porém, ele a amava por saber viver. Por ser o que ele não sabia ser. Por complementá-lo como se fora o yin do seu yang. 
Se o preço dessa completude era, vez por outra, fazer papel de velho ranzinza... Ah, que diabos. Ele aceitava.
-Não me odeie, Ah-ssuãh. Don't hate me...
-Tô me esforçando, mas de vez em quando é complicado, viu...?
-Hã?
-Nada. Termina tua tequila e vamo embora. Tô com sono.
Ela lhe mandou um beijo estalado do outro lado da mesa enquanto erguia as mãos para o ar num desajeitado movimento de dança. Ele fez um"tsc" estalando a língua no céu da boca. Mas, por dentro, sorriu.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Rapidinhas do Capita


O Roberval estava decidido:
Daquele dia, não passava. Ou era agora, ou não era mais. Chegara seu momento, era hora de ter olho de tigre, de assumir a responsabilidade, de tomar uma providência, de fazer acontecer, de ser o melhor "ele" possível. Ele tinha que chegar junto na Clotilde e dizer à ela como se sentia. Entre todas as suas resoluções de ano-novo, essa era, sem dúvida, a que ele mais ansiava em cumprir. As outras, beber menos, , ler um livro por mês, parar de pedir coisas emprestadas e não devolver, estudar mais, se dedicar mais ao trabalho... Bom, essas ele não estava, assim, tão interessado em cumprir. Mas dizer à Clotilde como se sentia, ah, isso ele queria. Queria muito. Até por quê, achava que a Clotide se sentia da mesma forma, embora o flerte entre os dois fosse algo bipolar, ás vezes indo muito bem, em outras sendo algo fiasquento. Ainda assim, davam-se bem, tinham interesses semelhantes, ele a achava muito atraente, tanto fisicamemnte quanto sua personalidade, parecia-lhe justo que, naquele começo de 2011, ele dissesse à Clô, como se sentia, e colhesse os frutos, doces, ele esperava, daquela resolução.
Planejou tudo, a encontraria "casualmente" na saída do trabalho, conversariam um pouco, ele perguntaria se ela tinha compromisso, ela diria que não. Ele quase podia ouvir a conversa:
-Clô! Oi, tudo bem?
-Tudo, Roberval, e tu?
-Tudo ótimo. Que tu anda fazendo, guria?
-Tava trabalhando.
-Ah, é... Tu trabalha aqui, né?
-É. E tu? Que anda fazendo pra esses lados?
-Ah, saí pra dar uma volta. Desopilar um pouco... Vem cá, tu tem compromisso agora?
-Não.
E ele a convidaria para jantar, ou dar uma volta, ou ir ao cinema, qualquer coisa, enfim. Então, a entreteria com boa conversa, eles dariam boas risadas, talvez ela tocasse de leve o seu braço quando ele dissesse algo engraçado a respeito de alguma coisa, e então, aquele toque seria elétrico, e ela perceberia que gostava dele, talvez mais do que apenas como um amigo casual, e ele diria, com todas as letras, como se sentia, e voilá. Estariam juntos.
Rá. Não tinha erro.
Naquela segunda-feira dia três, depois do trabalho, tomou um longo banho, aparou as unhas, fez a barba, borrifou refrescante bucal, passou perfume, vestiu-se com esmero, penteou os cabelos, e saiu confiante.
Chegou ao prédio onde Clotilde trabalhava, e imediatamente a viu saindo. Observou sorrateiro enquanto ela se despedia de duas colegas, e então se aproximou, casual, e a viu, fingindo surpresa quando ela o percebeu, também.
-Clô! Oi, tudo bem?
-Tudo, Roberval, e tu?
-Tudo ótimo. Que tu anda fazendo, guria?
-Tava trabalhando.
-Ah, é... Tu trabalha aqui, né?
-É. E tu? Que anda fazendo pra esses lados?
-Ah, saí pra dar uma volta. Desopilar um pouco... Vem cá, tu tem compromisso agora?
-Tenho.
-Ah, bom.
-Por quê?
-Nah... Nada não. Bom, nos vemos por aí. Tchau.
Roberval saiu andando, virou-se brevemente, e viu que Clotilde ainda o olhava. Acenou, ainda casualmente, e com um sorriso quase grande demais no rosto, destoando do coração partido dentro de seu peito.
Enfim... Ano que vem ele tentava de novo.

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Ele acordou com sono, amaldiçoando o ruído do despertador do telefone celular. Seu quadril doía, suas costas, também. Chegou ao banheiro, e foi surpreendido com um presente de grego deixado por seu cachorro. Limpou o banheiro. Lavou o rosto, e, ao abrir o armário, percebeu que acabara a pasta de dente. Lutou com fúria contra o tubo para arrancar um volume mínimo de creme dental e fazer sua escovação. Apanhou seu anti-séptico, e começou o bochecho. Resolveu aproveitar aquele minuto e ver a previsão do tempo. Saiu do banheiro e foi abalrroado pelo seu cachorro, um animal do tamanho de um leopardo e que sente saudades suas enquanto ele dorme. O choque com o cachorrão o engasgou, e ele engoliu o anti-séptico. Tossiu, acalmou o cachorro. Lavou a boca com água. Foi até a janela apanhar seu tênis, que ficara ali pra arejar. Derrubou o tênis na casa da vizinha de baixo, que já saíra para o trabalho. Começava a chover. Não era um bom indicativo pro futuro imediato do seu tênis. Paciência. Apanhou outro tênis, se vestiu. Foi pegar o guarda-chuva. Percebeu que esquecera o guarda-chuva no trabalho. Pensou se tinha como um dia começar pior. Achou que sim, mas demandaria alguma tragédia grega, ou um desastre natural.
Sorriu.
Não que ele acreditasse nessas bobagens, mas, depois de ontem, o karma estava livre pra fazer o que quisesse com a sua manhã.

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TRADUÇÕES:

Ele disse:
-Ih, aquilo é a maior vagabunda, Deus me livre, quero mais é distância daquela mulher, credo...
Mas, na verdade, ele quis dizer:
-Ih, aquilo é a maior vagabunda, Deus me livre, nunca mais chego perto daquela mulher, credo...

Ele disse:
-A Lurdinha? Não, nunca reparei... Quer dizer, ela é bonita, e tudo, mas... Sei lá, acho que não consigo ver ela assim, desse jeito, amor. Ela é nossa amiga, então eu acho que, naturalmente, já vejo ela de outra forma...
Mas, na verdade, ele quis dizer:
-A Lurdinha? Maior gostosa de todas... Tipo, não tem como olhar pra Lurdinha e não pensar em sacanagem, eu até pensei em te propôr um ménagecom ela, mas sei que tu não ia querer, e, sabe? Eu entendo o teu lado...

Ele disse:
-Olha, meu anjo, se tu tem dúvidas a respeito da nossa relação, então a gente deve sentar e conversar sobre isso, e, se for o caso, e eu espero que não seja, a gente tem que lidar com isso da forma mais adulta possível.
Mas, na verdade, ele quis dizer:
-Vai, mala. Me dá um motivo pra te enfiar o pé na bunda e ir pra noite.