Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
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segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Resenha DVD: Oldboy - Dias de Vingança
Eu não assisti ao Oldboy original.
Confesso. Não assisti. Apesar de ter lido e ouvido críticas positivas, apesar de ter visto o filme passando na TV a cabo em mais de uma ocasião, jamais levei adiante a ideia de assistir ao longa metragem.
O Oldboy original é uma trama de vingança adaptada de um manga, a fita sul-coreana dirigida por Chan-Wook Park fez grande sucesso, inclusive se transformando em uma trilogia que contava ainda com Mr. Vingança e Lady Vingança, e, novamente, não assisti a nenhum deles. É bobagem da minha parte, mas a verdade é que, depois de assistir a O Hospedeiro, eu comecei a olhar todos os elogios que o cinema sul-coreano recebia com alguma displicência, e até desconfiança.
Logo, devo admitir que não foi o hype do filme original que me fez assistir ao remake norte-americano (Ainda falei disso um tempo atrás, na resenha de D-13. Americanos são preguiçosos e xenófobos. Não assistem filmes estrangeiros e odeiam legendas, por isso existem tantos remakes americanos de filmes europeus e asiáticos) de Oldboy.
Foram os nomes de Spike Lee, um diretor cujo trabalho eu admiro muito, especialmente quando deixa a questão racial menos evidente e se concentra em simplesmente fazer filmes (que o diga o divertidíssimo Um Plano Perfeito), Josh Brolin e Sharlto Copley, dois atores que, na minha opinião, são vastamente subestimados.
Foi com os nomes desses três sujeitos em mente que eu aluguei Oldboy - Dias de Vingança na minha locadora preferida, e fui reparar o fato de não ter conseguido ver o filme quando de sua curtíssima passagem pelo cinema.
Oldboy - Dias de Vingança mostra a história de Joe Doucett (Brolin). O ano é 1993, e Doucett, um publicitário de uma firma que passa por um momento delicado, é encarregado de conseguir a conta que pode salvar a empresa.
Em poucos minutos nós sabemos que Joe sofre de um alcoolismo grave, divorciou-se recentemente, é um pai ausente para a filha de três anos de idade e é um escroto de marca maior.
Faltando à festa da filha para jantar com o cliente salvador, Joe consegue ofender o sujeito e perder a conta. Ciente da magnitude da cagada que acabou de aprontar, Joe enche a cara e perambula por Nova York até ser abordado por uma mulher. Horas mais tarde, Joe acorda no que parece ser um quarto de motel, mas logo revela-se um confinamento solitário onde ele é isolado.
Preso, Joe tem como única companhia uma TV onde recebe, horrorizado, a notícia do brutal estupro e assassinato de sua ex-esposa, um crime do qual é o principal e único suspeito.
Conforme o tempo passa, sem que Joe entenda o porquê de seu aprisionamento, ele é confrontado pelo televisor com notícias eventuais de sua filha, Mia, e é por ela que Joe, após uma malfadada tentativa de suicídio, decide viver.
Submetendo-se a um rigoroso regime de exercícios, o inchado Joe se torna um matador esguio e musculoso impelido unicamente pelo desejo de reencontrar sua filha e ser o pai de que ela precisa, e escapar de seu aprisionamento sem sentido limpar seu nome e vingar-se de seu misterioso algoz.
Entretanto, antes de Joe possa escapar, ele é inexplicavelmente libertado após vinte anos em cativeiro, começando uma corrida para descobrir quem o prendeu e por que, um caminho sangrento que vai afundando esse homem alquebrado em uma intrincada trama de intriga e tormento ardilosamente arquitetada pela mente de um louco, o sádico milionário vivido por Copley (caprichando na afetação).
Francamente... Eu não sei porque a crítica especializada pichou tão ferozmente Oldboy - Dias de Vingança, mas suponho que deva ser por causa da qualidade do original coreano, e, nesse caso, o Oldboy original entrou de vez na minha lista de filmes que eu preciso assistir com urgência.
Digo isso porque achei o remake um ótimo filme. Talvez o filme mais bacana e bem arquitetado de Lee desde o já mencionado O Plano Perfeito, e com a melhor atuação de um protagonista desde o samba de Edward Norton em A Última Noite.
Lee ambienta seu filme em uma Nova York vagamente reconhecível que transforma em um cenário algo onírico. Alguns cenários são vagamente reconhecíveis, outros, absolutamente genéricos, e nós nunca sabemos como os personagens chegaram lá. A câmera frequentemente é posicionada de maneira improvável, mostrando os personagens de ângulos inesperados, a fotografia é escura e as cores supersaturadas, nada em Oldboy - Dias de Vingança parece acenar com realismo, exceto a atuação do casal protagonista, Brolin e Elizabeth Olsen, que vive a ex-viciada, agora voluntária de uma clínica móvel, Marie Sebastian. O fato de ambos (e mais Michael Imperioli) atuarem como pessoas de verdade em meio a vilões que parecem saídos de filmes de James Bond (Copley e mais Samuel L. Jackson), torna toda a experiência mais perturbadora.
Josh Brolin ruleia no papel de Joe Doucett, incrivelmente convincente tanto como o bêbado barrigudo e desagradável do início do filme quanto como o obstinado matador de martelo e estilete em punho da segunda metade do longa, o ator deixa claro que merecia mais e melhores papeis principais no cinema. Elizabeth Olsen também vai muito bem no papel da desorientada Marie, e Jackson e Copley dão seu recado cada um à sua maneira, mas ambas plenamente satisfatórias.
No final das contas, Oldboy - Dias de Vingança não vai agradar à todas as audiências simplesmente porque não é história pra agradar audiência alguma. O pesado conto de vingança e danação engendrado por Garon Tsuchiya e Nobuaki Minegishi, autores do mangá que deu origem aos dois filmes, é exatamente o oposto, um conto perturbador e opressivo regado a sangue e pecado, e foi exatamente assim que Spike Lee o filmou.
Ao menos de minha parte, recomendadíssimo.
"-Merda, talvez você queira pensar no que está fazendo aqui.
-Eu tenho pensado nisso pelos últimos vinte anos."
Não se Discute
E as eleições, hein?
Institutos de pesquisa desmascarados de maneira brutal, candidatos que já se consideravam vencedores de fora da disputa ou precisando encarar uma competição indigesta na sequência da campanha política, um mundaréu de candidatos detidos por crime eleitoral Brasil á fora e isso que foi só o primeiro-turno.
A festa da democracia mostrou, novamente, que só o que funciona a contento no Brasil é o sistema eleitoral, imagine só, a votação acabou ontem às dezessete horas, e antes das onze da noite praticamente todos os resultados já eram conhecidos em um processo eleitoral que, à exceção de alguns problemas com a identificação biométrica, pode ser considerado perfeito exceto pela baixíssima qualidade dos candidatos envolvidos e pela absoluta falta de critério do povo na hora de escolher seus representantes.
Quer uma prova?
Pois bem, aqui vai... E já vou avisando que, para oferecer a tal prova, entrarei em uma seara perigosa já que vou discutir dois assuntos que, historicamente, não se discute: Futebol e política.
Um dos candidatos que vai ganhar cadeira na câmara estadual gaúcha é Jardel.
Sim... Jardel. Jardel, o ex-centroavante do grêmio que fez muito sucesso no Sporting e no Porto de Portugal. Jardel que sempre conviveu com a fama de não ser um sujeito de muitas luzes intelectuais, que teve problemas de dependência química e não obteve sucesso ao tentar a carreira de treinador resolveu tentar a carreira política, e, com sua propaganda eleitoral contando com Luís Felipe Scolari pedindo votos, foi bem-sucedido.
Sim... Jardel se elegeu.
Não é o primeiro, diga-se de passagem. Danrlei, ex-goleiro gremista e parceiro de Jardel nos distantes anos noventa também ganhou uma cadeira, mas na câmara federal para a qual foi reeleito.
Nos últimos quatro anos Danrlei protocolou três projetos, dos quais nenhum foi aprovado, mas, ainda assim, alguém achou que ele merecia mais quatro anos. Eu diria que as mesmas pessoas resolveram dar um voto de confiança ao Jardel que, em uma recente entrevista, ao ser perguntado se era de direita ou de esquerda, respondeu que era "de cabeça", cujo primeiro ato como deputado seria mudar a colocação do grêmio no campeonato brasileiro de sexto para primeiro, que se considera de direita por ser "um cara direito demais"... O Jardel, que obviamente não faz nem a mais remota ideia de quais são as atribuições de um deputado estadual, foi eleito. E com ampla margem... Mais de 41 mil votos.
Eu me pergunto o que levou os eleitores de Jardel e Danrlei a votarem nos dois... Paixão clubista? Uma vontade inapelável de "copar" alguma coisa nem que seja a eleição? Eu não sei. Não sou capaz de entender o que leva alguém a votar no Jardel e no Danrlei assim como não sei o que levaria uma pessoa a votar no Fabiano "Uh, Fabiano" (que não se elegeu quando tentou mandato na câmara municipal), ou no Dinho, ou no Tiririca, o que eu sei, é que, olhando os eleitos para as câmaras do estado do Rio Grande do Sul, e até mesmo nosso novo senador, Lazier Martins, a partir de agora, toda a vez que a expressão "estado mais politizado do Brasil" fosse usada na mesma frase que "Rio Grande do Sul, o autor deveria levar uma sumanta de laço.
Enfim... Ainda podemos torcer... Quem sabe Danrlei melhore sua produtividade no segundo mandato... Quem sabe Jardel surpreenda a todos e consiga realizar seus projetos de "saúde, muita saúde" tornando-se um legislador modelo?
Já que estamos na seara dos assuntos que não se discute, vamos fechar a trinca... Que Deus nos ajude.
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
Resenha Cinema: Sin City: A Dama Fatal
Nove anos se passaram desde que Sin City: A Cidade do Pecado, parceria entre Robert Rodriguez e Frank Miller que criou o que era, até então, a mais completa mistura de quadrinhos com cinema em que o público já havia colocado os olhos.
O diretor esqueceu tudo o que podia sobre o conceito de adaptação ao juntar um apanhado de histórias das graphic novels de Miller, e literalmente, apenas tirá-los das páginas dos quadrinhos e jogá-los na tela grande transformando os quadros de nanquim do autor de Batman - Ano Um em tomadas de um longa metragem quase que inteiramente rodado em preto e branco (A exemplo do quadrinho, alguns detalhes eram coloridos, como sangue vermelho e o bastardo amarelo).
Embora tenha agradado pela estética diferente de tudo o que havia sido visto no cinema até então (e que daria origem, entre outras coisas, a 300), Sin City: A Cidade do Pecado não foi um estrondoso sucesso de bilheteria, arrecadando pouco mais de 158 milhões de dólares pelo mundo.
Ainda assim, o filme chamou a atenção, tinha um bom elenco (que contava com Clive Owen, Brittany Murphy, Bruce Willis, Jessica Alba, Benício Del Toro, Rosario Dawson, Elijah Wood e Mickey Rourke), e, tendo sido um filme relativamente barato com seu orçamento de 40 milhões de dólares, logo se falava em uma sequência.
O lance foi que essa sequência começou a demorar uma barbaridade pra sair do papel. Tanto demorou que deu tempo de Rodriguez fazer mais meia dúzia de longa-metragens, e até Frank Miller, autor dos quadrinhos e co-diretor do primeiro Sin City, botar suas asinhas de fora e fazer Will Eisner se revirar na cova com seu Spirit - O Filme.
Mas, após todas essas idas e vindas, elencos sendo montados e desmontados na internet (Angelina Jolie, por exemplo, teve seu nome ligado ao filme desde 2005, mas acabou sendo substituída e muito bem diga-se de passagem, por Eva Green, no final das contas), o filme finalmente saiu do papel, e apesar dos percalços e da longa espera, até que não é o desastre que poderia ter sido.
Sin City - A Dama Fatal (tradução preguiçosa para o original "A Dame to Kill For" novamente é formado por um apanhado de histórias da série de graphic novels de Frank Miller num balaio que acaba parecendo mais aleatório na sequência já que o longa não respeita nenhum tipo de cronologia.
A introdução do longa já mostra Marv (novamente Mickey Rourke com sua máscara medonha) tocando o horror em uns universitários escrotos, na sequência conhecemos Johnny (Joseph Gordon-Levitt), um jovem com um excelente par de mãos para jogos de azar que arrisca sua sorte numa mesa de pôquer contra o todo poderoso senador Roark (Powers Booth), uma decisão pouco esperta que pode tornar sua vida muito, muito difícil.
Na sequência reencontramos Dwight McCarthy, personagem de Clive Owen no primeiro longa, sendo interpretado antes da cirurgia plástica mencionada no original, por Josh Brolin.
Dwight ganha a vida da maneira mais honesta que é capaz, como investigador particular tirando fotos de indiscrições conjugais como a protagonizada por Joey (ponta de Ray Liotta) e Sally (uma insuspeita gostosíssima Juno Temple).
Dwight vai levando até receber o telefonema de Ava (a gloriosa Eva Green), que pede que ele a ajude a escapar de seu marido dominador o milionário Damien Lord (o onipresente Marton Csokas), e seu capanga, o brutamontes Manute (Dennis Haysbert, assumindo o posto do falecido Michael Clarke Duncan).
Incapaz de resistir aos encantos da divina Ava, Dwight acaba envolvido numa intrincada trama de assassinato que envolve além dele e de Ava, os policiais Mort e Bob (Christopher Meloni e Jeremy Piven), o chefão criminoso Wallenquist (ponta de um irreconhecível Stacy Keach), e as garotas da Cidade Velha Gail (Rosário Dawson), Goldie e Wendy (ponta de Jamie King), e Miho (Jamie Chung, interessante upgrade à feinha Devon Aoki) além do tradicional banho de sangue.
Finalizando a trinca de histórias voltamos a encontrar a pequena e magrinha Nancy Callahan (Jessica Alba, gostosa que só), que mantém sua rotina como stripper enquanto é assombrada pelo suicídio de Hartigan (ponta de Bruce Willis) e a presença constante de Roark no clube onde ela trabalha. Nancy eventualmente perde as estribeiras e acaba decidida a encarar o homem mais poderoso do estado, para isso, contará com a ajuda de Marv (quem é que não queria um amigo desses?), e talvez, do único homem a quem amou na vida.
Claro que, quem assiste Sin City esperando alguma seriedade precisa de tratamento médico. O longa é uma grande brincadeira, uma piada machista e machona travestida de "film noir", um mundo onde grandalhões à prova de balas convivem com mulheres fatais dispostas a tudo para se livrarem do estigma de vítimas ou objetos (todas fracassam, porém), e onde mesmo os heróis são moralmente reprováveis em alguma medida. Encarado sob o prisma correto, Sin City é diversão em estado bruto, visual bonito, participações especiais muito bacanas (como as de Christopher Lloyd e Lady Gaga) e até algumas boas atuações (Gordon-Levitt vai bem em seu segmento que, aliás, é facilmente o melhor do filme).
Falando sério... Não se pode esperar mais do que isso de Sin City ou de qualquer obra com envolvimento de Frank Miller.
Assista no cinema se for muito fã de mulheres voluptuosas e homens que sentem mais dor por causa do coração partido do que pela bala entre as costelas, outrossim, espere até sair em DVD.
"Entre na beco certo em Sin City e você encontra de tudo."
sábado, 27 de setembro de 2014
Resenha DVD: O Teorema Zer0
Graças a Odin existe Terry Gilliam. Se não fosse o ex-Monty Python norte-americano, provavelmente nenhum outro diretor/roteirista/produtor teria tido coragem de tirar do papel coisas como Brazil - O Filme, O Pescador de Ilusões, Os 12 Macacos... Gilliam é tão acima da média que perdoamos até mesmo suas escorregadas, ou seus filmes que o destino tratou de avacalhar, como Irmãos Grimm (que sofreu com a mão pesada dos irmãos Weinstein na produção após perder o financiamento da MGM), O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus, totalmente modificado pela morte do protagonista Heath Ledger, e, talvez o mais famoso testemunho do azar de Gilliam, O Homem que Matou Dom Quixote, atrasado em anos por conta de um furacão quando começava a tomar forma(e que agora deve, finalmente, ver a luz do dia...).
Então, esse diretor mezzo cineasta, mezzo cientista louco, continua, meio aos trancos e barrancos, fazendo seus filmes que, volta e meia, o público não tem paciência pra tentar entender, o que provavelmente será o caso desse O Teorema Zer0.
O longa se passa em um futuro não especificado, numa Londres cyberpunk onde Qohen Leth (Christoph Waltz, ótimo como sempre...), funcionário de uma empresa de processamento de dados e recluso antissocial em potencial, leva sua vida de casa (a igreja abandonada onde mora) para seu cubículo na Mancom.
Qohen não está feliz. Trabalhando com um supervisor que parece nem mesmo saber seu nome, o trabalho obriga Qohen a sair de casa, e apenas em casa Qohen pode receber a ligação pela qual anseia. O telefonema de uma esfera superior que lhe dirá qual é o sentido da vida.
Temendo perder esse telefonema fundamental, Qohen tenta, sem sucesso, trabalhar em casa por deficiência, mas seu pedido é indeferido pela (hilária) junta médica.
Resta a Qohen levar seu pedido à Gerência em pessoa, o que ele consegue em uma festa de seu supervisor Joby (David Thewlis, que parece ter nascido pra fazer parte do Monty Python). A Gerência (Matt Damon), inicialmente parece não levar o pedido de Qohen em consideração, taxando-o de insano, mas acaba por lhe passar uma incumbência que ele poderá realizar em casa:
A conclusão do teorema Zero do título.
Uma equação que comprovará que toda a vida é acidental e sem sentido.
Para auxiliar Qohen a não enlouquecer em sua busca pela resolução do teorema, surgem a bela Bainsley (Mélanie Thierry, exalando uma sensualidade de pin-up), e o jovem Bob (Lucas Hedges), filho da Gerência.
Enquanto luta contra seus próprios fantasmas utilizando o programa psiquiátrico (uma hilária e quase irreconhecível Tilda Swinton), Qohen vê sua vida mudar conforme é obrigado a socializar, ao mesmo tempo em que seu trabalho o força a tentar provar seu maior medo.
Não vou mentir.
O Teorema Zer0 não é filme pra todas as audiências, o que, diga-se de passagem, é meio que regra pra filmografia de Gilliam inteira, mas ainda assim, funciona.
Ao mesmo tempo em que brinca com seus tradicionais fetiches, que vão do cenário perdido entre o futurista e o retrô, ao tema da vigilância do Estado sobre o cidadão, e a luta solitária do ente desajustado contra a "máquina estabelecida", Gilliam acrescenta à sua mistura o isolamento que a interconectividade sem intervalos cria (na festa de Joby os convidados dançam e andam pra lá e pra cá sempre carregando tablets, e a bela Bainsley não faz sexo, exceto se for virtual), e piadas ligeiras com ícones pop como Matrix e a Igreja do Batman Redentor, Gilliam conta com um elenco engajado pra mostrar que ainda que a humanidade anseie por isolamento, o faz porque tem a certeza de ser especial e fazer parte de algo maior, exatamente como faz Qohen, que deseja ser absolutamente sozinho enquanto espera um recado de Deus lhe dizendo o sentido da vida, e refere-se a si próprio no plural.
Com mais um trabalho muito acima da média de Waltz, fácil, um dos melhores atores em atividade no cinema, Gilliam pode não ter reencontrado sua melhor forma, ainda, mas certamente deu mais um passo na direção certa.
Quem sabe com O Homem que Matou Dom Quixote?
"Esperando A Ligação. Que outra razão existe para atender o telefone?"
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
Resenha Cinema: O Protetor
Chlöe Grace Mortez é um bom motivo pra ver um filme. Ela é jovem, bonita e talentosa, três qualidades que, ultimamente, andam difíceis de encontrar numa mesma pessoa, e é por essas e outras que fui assistir Se Eu Ficar duas semanas atrás.
Dito isso, vou confessar que não foi o nome da Hit-Girl quem me fez ir ao cinema assistir a adaptação da série The Equalizer (que o pai do Jordan Belfort adorava em O Lobo de Wall Street), O Protetor.
Não...
O motivo pra eu ir ao cinema foi Denzel Washington. E não apenas por que Denzel é baita ator, nomeado a Oscars e parece ser um sujeito gente-boa. Nada disso.
Foi porque Denzel é um dos poucos sujeitos do cinema que sabe interpretar um sujeito fodelão sem perder a ternura ou deixar de ser convincente. Nego tem que passar muita segurança pra andar tranquilamente pra longe de uma explosão de proporções cataclísmicas sem parecer ridículo, e Denzel Washington consegue passar isso à audiência.
Em O Protetor, que reúne Washington e Antoine Fuqua dupla do premiado Dia de Treinamento, Denzel vive Robert McCall, um sujeito tranquilo e modesto que tenta levar uma vida normal trabalhando em uma loja Home Mart, ajudando seus colegas, como o gordinho que sonha em se tornar guarda-de-segurança Ralphie (Johnny Skourtis), e gosta de ler livros tarde da noite bebendo chá em uma lanchonete que funciona 24 horas.
É nessa lanchonete que Robert conhece e inicia uma amizade distante com a jovem prostituta Teri (Chlöe Grace). Teri, na verdade se chama Alina, e se prostitui apesar da pouca idade para um serviço de acompanhantes comandado pelo russo Slavi (David Meunier).
Slavi não é um patrão dos mais compreensivos, e após Alina ter uma altercação com um cliente particularmente repulsivo, ele e seus capangas a espancam violentamente, colocando-a no hospital.
O brutal ataque à jovem, faz com que Robert reviva seu misterioso passado como um operativo da CIA, e use seus conhecimentos e habilidades para, primeiro negociar a liberdade de Alina, e, quando isso falha, obtê-la à força.
O que McCall não sabia é que Slavi e seu serviço de scort eram apenas um ramo do vasto império criminosos de Vladimir Pushkin (Vladimir Kulich), um chefão russo que lucra com toda a variedade de crime nos Estados Unidos, que envia o perverso Teddy (Marton Csokas), um sádico e obstinado ex-operativo Spetsnaz, para descobrir o que houve com Slavi e seus capangas, colocando Robert na mira de toda a máfia russa.
É divertidíssimo.
Embora tenha alguns longos momentos com ritmo excessivamente lento, O Protetor se redime nos momentos em que efetivamente há ação. Além disso, mesmo com ritmo lento é bacana ver Washington atuando, especialmente quando divide a cena com Chlöe Grace Moretz, cuja participação é curta, mas mais longa que as de Bill Pullman e Melissa Leo, que fazem pontas ligeirinhas. Ainda que seu Robert McCall seja basicamente o mesmo personagem que Denzel interpretou em Chamas da Vingança, Protegendo o Inimigo e Dose Dupla, que diabos, o homem tem quase 60 anos e manja, então, deixa ele repetir o papel quantas vezes quiser...
Além da atuação (meio preguiçosa) de Washington, pode-se destacar Marton Csokas, achando um tom bacana para seu vilão mau e horrível, também parecendo se divertir com a afetação do psicopata, mas sem o exagero de seu Ashley Kafka em O Espetacular Homem-Aranha 2.
Juntando Denzel, uma bandidagem escrota pra ele usar como pano-de-chão, um saca-rolhas e um martelo pneumático (oh, oh, oh, oh...), O Prptetor não tem erro. É diversão garantida, e dinheiro do ingresso muitíssimo bem empregado.
Assista no cinema.
"Quando você olha pra mim, o que você vê?"
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
Resenha Game: FIFA 15
Eu não nasci FIFeiro, já disse por aqui, antes. Houve um tempo em que cuspia na cara da franquia da EA Sports e jogava faceiro Superstar Soccer da japonesa Konami com um sorriso no rosto. Apenas quando me vi órfão da franquia futebolística com um Nintendo Game Cube foi que me vi forçado a migrar, e muito, mas muito a contragosto, lá em meados de 2002.
Levei tempo pra me acostumar, e mais ainda pra gostar do jogo, mas a verdade é que, passado o choque inicial, fica fácil se afeiçoar à série FIFA, especialmente porque eu acompanhei de perto o maior salto evolucionário da qualidade da série.
Entre 2008 e 2014, FIFA sapateou em cima de PES de maneira quase absoluta, tanto que, hoje em dia, só quem segue bradando aos quatro ventos que Pro Evolution Soccer é melhor, são os fãs decanos da série, que passaram os últimos anos aprendendo as sequências de botões que fazem os dribles e se afeiçoaram à velocidade supersônica de atacantes imparáveis e a goleiros com graves problemas de labirinto.
A supremacia de FIFA é tão absoluta que em mais de uma oportunidade nos últimos anos, PES chegou a abrir mão de seu perfil arcade tentando abraçar mais características de simulador à exemplo da série da EA Canadá, em games que não funcionaram emulando a realidade do jogo como FIFA e ainda desagradaram os fãs de longa data da série, enquanto FIFA continuava reinando soberano no mundo inteiro.
Dois dias atrás comprei via PSN a versão mais recente da série da Eletronic Arts, FIFA 15, e após duas madrugadas de intensa jogatina, já tenho como fazer um review do game.
A ele.
FIFA 15 é, a exemplo do que vem acontecido nos últimos anos, pouco mais do que uma versão sensivelmente atualizada do game do ano anterior. Sem ter jogado a versão de PS3, não posso afirmar quanto do disparate visual do jogo é efeito unicamente do engine gráfico turbinado do PS4 e quanto é novidade a ser sentida por todos os jogadores de FIFA 15 em qualquer plataforma. A parte gráfica, por sinal, é um absurdo. Os uniformes nunca foram tão vivos, os jogadores nunca foram tão reativos e cheios de expressão, quando se puxa a camiseta do atacante, ela estica, quando o goleiro rola no chão, ele se suja, e, ao rolar de novo alguns minutos depois, ele se suja mais.
Se todos os jogadores estão com uma movimentação mais suave e verdadeira, com centros de gravidade diferentes de um atleta para o outro, e com seu peso influenciando sua capacidade de driblar ou vencer uma disputa corpo-a-corpo, os goleiros são um capítulo à parte.
Todos os arqueiros do game ganharam um vasto rol de movimentos belíssimos e extremamente verossímeis. Esqueça as pontes mecânicas dos últimos anos, quando, independente do tipo de chute ou de onde o goleiro estava posicionado, ele simplesmente mergulhava para um lado. Os goleiros estão tremendamente vivos, dão saltos, mergulhos ou pontes diferentes para cada tipo de finalização, são surpreendidos por chutes à queima-roupa, ou traídos por bolas desviadas, mas reagem a esses percalços com movimentos brilhantemente animados num festival de defesas pra ver em câmera lenta.
Aí, por sinal, pode estar o primeiro problema de FIFA 15.
Os replays...
Obviamente a parte gráfica do jogo foi feita com esmero. Movimentos, caretas, cumprimentos dos jogadores... Tudo isso está perfeito, e os desenvolvedores parecem se orgulhar tanto disso, que encheram o jogo com animações. Antes da cobrança de escanteio, antes da batida de falta, na hora das substituições, até na hora de bater o tiro de meta... Tudo tem uma bela animação antes de acontecer, com o jogador ajeitando a bola, pisando no chão diante dela, sinalizando pra quem recebe... TUDO. E, por mais bonito que o game seja, à certa altura isso enche um pouco o saco à medida em que tira o dinamismo do jogo.
Quando tu está vencendo o Sheffield Wednesday por 5 x 0 pela copa da liga inglesa, tu até pode se dar ao luxo de olhar todas as animações, mas perdendo por 3 x 2 pro Chelsea num jogo encardido da Premier League, tu quer mais é fazer a bola correr e furar o ônibus estacionado na frente do gol do adversário.
Por sinal, a "inteligência emocional" é outro atrativo para a nova versão. Os jogadores sentem a pressão do jogo, e os mais verdes se tornam propensos a cometer erros grosseiros, como errar o domínio, ou perder a passada perto da linha lateral, mas em momentos de grande pressão, até mesmo goleiros experientes podem frangar feio quando o jogo está por um fio e o adversário promove uma blitz no teu campo defensivo, faceta do game que deixou claro, ao menos pra mim, que eu não me defendo tão bem quanto imaginava...
As blitzes, aliás, se tornam frequentes de parte a parte conforme todos os times naturalmente se encolhem quando têm o placar a seu favor, resultando em viradas costumeiras no apagar das luzes pra quem sabe explorar os eventuais espaços, ou consegue furar os bloqueios defensivos, com dez defensores dentro da área adversária se atirando na frente da bola de tudo quanto é jeito num exercício de paciência pra quem se acostumou a ter um atacante ou meia veloz, jogar na frente e sair pro abraço já que, na nova versão, o tempo do drible, e a habilidade de executá-lo em espaço curto, acaba se tornando tão ou mais crucial do que a velocidade dos homens de frente.
Igualmente crucial é manter a posse da bola, fazendo coro com o que dizem todos os treinadores do Brasil, com a bola no pé, tu não é (muito) acossado pelo adversário, e, se tu está no comando de um time que sabe jogar, é até prazeroso acompanhar a troca de passes entre os teus jogadores. Ao perder a bola, porém, o bicho pega, e não é raro ver a tua defesa toda desarrumada não importa o quanto tu te esforce pra mantê-la na linha.
O modo Carreira, meu favorito, continua muito bom, sem grandes alterações com relação à versão passada. Ultimate Team, o preferido dos fãs pelo mundo, ganhou a possibilidade de emprestar jogadores, o que pode ser útil pra quem não tem grana pra comprar um Messi da vida, mas acha que tê-lo no time por um curto período pode fazer a diferença. Em ambas a parte tática foi aprimorada, o adendo mais interessante é a possibilidade de deixar diversas formações de time "engatilhadas", e mudá-las rapidamente durante o jogo, uma mão na roda comparado à versão anterior, onde era necessário preparar os planos de jogo antes de cada partida.
Outra opção maneira é o Match Day Live, que dá notícias e números do time favorito do jogador, deixando todo mundo ainda mais enojado com a decisão da EA (e a ausência de uma liga por aqui pra negociar os acordos) de cortar times brasileiros do game.
Em termos de som, a narração de Martin Tyler e os comentários de Allan Smith seguem ótimos, jogar a Premier League ouvindo a dupla é uma aula de História do futebol inglês, tamanha a variedade de comentários e histórias que os dois partilham, mas isso também ocorre (em muito menor escala) nas demais grandes ligas europeias, pra quem tem paciência de Jó, o animador de auditório Thiago Leifert narra com companhia de Caio Ribeiro na versão em português, e mesmo os dois xaropões têm algumas historinhas pra contar sobre o futebol europeu. Os cantos da torcida são de fazer chorar de tão vívidos, e, diga-se de passagem, a torcida também ganhou um tapa visual espertíssimo, deixando de ser um bloco de bonecos que sentam e levantam para ganhar profundidade, caras e formas novas, tudo muito bonito.
Em suma, FIFA 15 é ótimo, mas não é perfeito, e, por enqanto, segue sendo o melhor simulador/game de futebol do mercado.
Como o DEMO de PES ainda não deu as caras, e o game só será lançado mais adiante no ano, fica a dúvida se a Konami vai cumprir a promessa e entregar um game de futebol com o qual ninguém será capaz de competir, até lá, FIFA ainda é dono do caneco.
"Sinta o jogo"
terça-feira, 23 de setembro de 2014
"Ela" ou "Nós"?
-Mas e aí? - Ela perguntou esticando os braços pra frente. -Como é que tu passou o final de semana?
-Passei bem, e tu? - Ele respondeu, dando um abraço bem apertado nela.
-Bem, também. Fui pra Two Brothers. - Ela respondeu sorrindo e se desvencilhando do abraço dele.
Ele riu. Ela e ele faziam isso. Chamavam todas as cidades do interior por versões traduzidas de seus nomes. As vezes muito mal traduzidas, como Carazinho, que virava "Little Guy", e Espumoso, que virava "Foamy".
Ele continuou a conversa:
-E como estava a parentada?
-Ah... Aquela coisa toda de sempre. Mas bem bom. Eu sinto falta... Tu sabe...
-Zin, Zin, Zalabina... - Ele respondeu enquanto estendia a mão fazendo sinal para ela entrar no do restaurante.
-E tu? - Ela perguntou, após consultá-lo com os olhos a respeito da mesa em que deveriam sentar.
-Tudo na paz. Joguei RPG, videogame e futebol. - Ele respondeu enquanto puxava a cadeira dela. -Não necessariamente nessa ordem. - Acrescentou.
O garçom assomou sorridente, entregando os cardápios a ambos. Ela, de pronto, disse que queria um temaki, ele observou as figuras na folha plastificada por alguns segundos até se decidir por um combinado de salmão médio, escolhido mais pelo tamanho que tornava possível comer o prato em cerca de meia hora, o que garantia que a refeição coubesse no horário de almoço exíguo dele, do que por qualquer outra coisa.
Pediram as bebidas, ela Pepsi, ele Soda Limonada, e se puseram a esperar que os pedidos fossem atendidos.
-Tu tá muito bem... - Ele disse, cenho franzido, após olhar pra ela longamente.
Ela não respondeu. Deu um meio sorriso e fez uma careta de quem achou estranho.
-Sério. - Ele insistiu. -Tu tá muito bem... Tá bonita...
-Ah, normalmente eu sou feia? - Ela perguntou caindo na gargalhada.
-Não, besta... Mas tá diferente... Quase excessivo...
Ela riu.
-Tu não é lá muito bom nisso, mas obrigada pelo elogio. - Ela respondeu com pouco caso enquanto enchia o copo de refrigerante até a borda e pousava o nariz brevemente em cima dele.
Ele continuava olhando pra ela.
-Ai, para, "hôme" bobo! Tá me deixando angustiada... - Ela protestou.
-Tá, desculpa... Mas tu realmente tá muito bonita... Tá... Sei lá... Vistosa. Com um... Viço. Não sei... Tu... Tu tá apaixonada? Tá namorando...?
Ela se incomodou com a pergunta:
-Eu só fico viçosa e bonita quando tô namorando?
-Não... Não... É só... Sei lá. Normalmente quando tu tá apaixonada ou... Enfim... Tu fica mais radiante. Só isso.
-Então - Ela disse, baixando o copo sobre a mesa -Tu quer saber se eu dei pra alguém? É isso?
-Não. - Ele respondeu muito sério. -Não é da minha conta.
Ficaram os dois em silêncio por algum tempo. Ela, sabendo que quando ele se emburrava a coisa ia longe, resolveu ser a melhor pessoa e quebrar o gelo:
-Porque eu não dei...
-Quê? - Ele perguntou, fingindo não ter entendido, mas sabendo exatamente do que ela estava falando.
-Eu não saí com ninguém. Nem tô apaixonada. Nem nada do tipo... Esse viço e essa qualidade radiante devem ser fruto do meu final de semana em família... Não fui pra lá pra encontrar ex-namorados. Isso eu faço aqui. Nem procurar um novo...
-Isso tu faz onde? - Ele perguntou sorrindo, tentando deixar claro que era brincadeira, uma tentativa de deixar a conversa mais leve.
-Eu não faço. - Ela disse. -Não agora. Não tô no pique. Fiquei namorando pelas razões erradas por muito tempo. Não preciso disso. Me viro sozinha. "Eu me basto", como me disse, certa vez, o nerd meia-boca mais autoconfiante do mundo.
Ele sorriu ao reconhecer a frase.
-Bom... Pelo menos quando tu diz que se basta faz sentido...
Ela sorriu. Puxou uma perna pra cima da cadeira e poiou o queixo no joelho.
-É engraçado, não é? A gente fala e faz tanta coisa... Acho que todo mundo, no fundo, acredita que tem um grande amor pra viver por aí... Mas a real é que o amor da nossa vida, no final das contas, é a gente mesmo e só...
O garçom assomou, colocando o cone de algas e peixe cru diante dela, e uma pequena bandeja preta repleta de sushis variados diante dele. As duas tigelinhas para o shoyu, os hashis, e se retirou.
Ele abriu o envelope de plástico dentro da qual estavam os palitinhos, mas parou:
-Sabe... -Eu acho que o senso de auto-preservação é muito forte na gente... E acredito que, pra maioria de nós... Ele fala mais alto. Mas... Sabe... Hoje mesmo, eu vi a notícia de um moleque que entrou na jaula de um tigre na Índia, e acabou sendo comido pelo bicho. Isso, por si só, comprova que nem todo mundo tem esse senso de auto proteção tão desenvolvido... De uma forma ou de outra... A questão que eu quero te expôr é que... Sabe, eu não acho que o amor da tua vida possa ser tu mesmo... Pra mim, o amor da nossa vida, é aquela pessoa que nos encoraja a abrir mão da auto-preservação. É a pessoa que te encoraja a fazer o possível e o impossível pra fazer ela feliz. Que te incita a mover mundos e fundos pra estar com ela, e ser tudo o que ela precisa. Isso é o amor da tua vida.
Ela o encarou.
-Entendi... - Ela mordeu o lábio inferior. -Mas... Deixa eu te perguntar uma coisa: E se o amor da tua vida faz tudo isso... O quê explicaria tu mandar ela embora? Tu ser o amor da vida dela, e ela não ser o da tua?
Ele fechou a cara num bico... As sobrancelhas denunciando o desgosto. Engoliu em seco enquanto pegava os hashis com a mão esquerda e apanhava uma fatia de sashimi. Enquanto levava a peça à boca, deteve-se:
-Talvez tu soubesse que ela era o amor da tua vida, mas ao mesmo tempo entendesse que não era a pessoa de quem ela precisava. Aí, tu faz o sacrifício. Tu entra na cova dos leões, e abre mão da tua felicidade em nome da dela. Tu sabe que ela é o amor da tua vida, quando "ela" é mais importante que "nós".
Ela não disse nada. Ficou séria olhando o temaki. Mas ele não queria deixá-la triste, então ergueu o copo e propôs um brinde "à essa merda toda.".
Ao que ela correspondeu erguendo o copo e sorrindo.
No final das contas, sobreviveriam os dois. Eram bons nisso.
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