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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Top-10 Cinema 2020

 Nem preciso dizer que esse foi o ano da minha vida adulta em que eu menos fui ao cinema desde sempre. Com as salas de exibição fechadas desde meados de março e mais ou menos reabertas brevemente em outubro apenas para fechar de novo quando o pessoal achou que a pandemia era coisa do passado e o sistema hospitalar começou a vergar sob o peso da demanda, os estúdios resolveram adiar a imensa maioria de suas grandes produções, ou tentar estratégias alternativas de lançamento que desagradaram um bocado de diretores e fizeram com que nem todos os filmes pudessem ser vistos por toda a audiência ao mesmo tempo.
Não foi nada fácil chegar à lista de preferidos desse ano miserável, mas ei, com um pouco de esforço, serviços de streaming e um VPN razoável, o capita encontrou dez filmes favoritos em 2020.
À lista:

10 - Resgate


Além de ter criado a franquia John Wick, Chad Stahelski tem outro grande mérito: Criar um ambiente propício para coordenadores de dublês assumirem o comando de longas-metragens em Hollywood.
Sam Hargave seguiu os passos de Stahelski e, em parceria com os irmãos Russo e a Netflix lançou em abril desse ano o ótimo Resgate, onde Chris Hemsworth vive o mercenário Tyler Rake tendo que encarar a operação de extração mais violenta de sua vida ao tentar resgatar o filho de um chefão do tráfico de drogas em Bangladesh.
Não se deixe enganar pela trama básica, Resgate é um longa agressivo e direto a respeito das consequências da violência que eleva seu jogo com coreografias de luta espertíssimas, sequências de ação espetaculares e atuações honestas dos protagonistas criando duas das horas mais divertidas que eu passei esse ano.

9 - Problemas Monstruosos


Pra ser cem por cento honesto, eu ainda me flagro surpreso com o quanto Problemas Monstruosos é bom, ou até em dúvida se o filme é realmente tão bom assim, ou se ele é apenas menos ruim do que a premissa sugeria. Mas eu não preciso ir muito além de um breve exame no longa para chegar à conclusão de que ele é bom sim!
A fita sobre um meteoro e resíduos nucleares causando mutações nas formas de vida invertebradas da Terra que foi lançada direto em VoD pela Paramount tem personagens complexos com motivações bem definidas (até o cachorro do filme entra nessa!!!), sequências de ação plenamente justificadas pelo roteiro e laços emocionais se formando entre os personagens diante dos olhos da audiência em uma aula de como é que se narra uma história através de empatia.
O longa de Michael Matthews é terno, divertido, emocionante, e ainda tem Jessica Henwick em cena.
Sério, esse filme não tinha o direito de ser tão bom...

8 - Parasita


Eu assisti Parasita no início do ano, e novamente há algumas semanas, na TV. Minha impressão inicial a respeito do filme não mudou, porém. Eu continuo não achando Parasita essa maravilha toda que falam, e é possível que em um ano mais recheado de grandes lançamentos, ele não tivesse entrado na minha lista de melhores.
Ainda assim, o longa de Bong Joon Ho a respeito da paupérrima família Kim tentando tirar uma casquinha da fortuna dos Park tem suas qualidades (talvez a principal tenha sido fazer Hollywood olhar para o cinema asiático além do dinheiro da China). Há boas ideias no roteiro, uma edição caprichada e um final bastante pujante, e ainda que eu ache que tudo isso só é muito impactante para pessoas que não sabiam da existência de pobreza no mundo, Parasita fez por merecer seu lugar ao sol.

7 - Joias Brutas


O conto moral destruidor de nervos dos irmãos Safdie pode não ser a grande atuação da carreira de Adam Sandler (pra mim segue sendo Embriagado de Amor), mas é uma das mais tensas e competentes sessões de cinema de 2020.
Desde o início do longa, quando conhecemos o negociador de pedras preciosas viciado em apostas Howard Ratner é impossível não ficar na ponta da cadeira roendo as unhas pelos próximos cento e sessenta e tantos minutos.
Toda a atmosfera do filme é opressiva, o perigo das más decisões tomadas pelo protagonista está presente em cada frame, não há um segundo de paz para a audiência porque Ratner não para de fazer merda, e nós somos mesmerizados pela forma natural com a qual esse sujeito destrói cada recôndito de sua própria vida de uma maneira tão completa que mesmo os momentos de catarse não duram mais do que uma fração de segundo.

6 - Adoráveis Mulheres


Muita gente deve ter se perguntado por que Greta Gerwig resolveu fazer a enésima adaptação do livro de Louisa May Alcott sobre a vida e os sonhos das irmãs March ao invés de qualquer outra coisa... Bem, basta assistir ao delicado drama de época da diretora para entender porque.
Nas mãos de Gerwig o filme se torna menos um drama romântico sobre a rivalidade entre irmãs que se amam mas competem entre si para se tornar um conto a respeito do que felicidade significa para cada pessoa, e de como devemos ser capazes de entender o que a busca por essa felicidade significa para aqueles que amamos.
Sem jamais colocar a sua mensagem na frente da história que narra e contando com o trabalho de primeira de um elencaço na ponta dos cascos, Greta Gerwig entregou uma das mais delicadas e aprazíveis sessões de cinema de 2020, e deixou tremendamente claro que o sucesso de Lady Bird não foi acidental.

5 - Soul


Após passar algum tempo fazendo sequências de seus longas mais bem-sucedidos, a Pixar voltou aos originais em 2020, primeiro com o bom Dois Irmãos: Uma Aventura Fantástica e depois com esse excepcional Soul, a animação que ousa embrulhar perguntas profundas como qual é o sentido da vida e como alimentamos nossa alma em uma aventura divertida para toda a família que, bem à moda da Pixar, contrabandeia lágrimas e questionamentos profundos como o fato de que mesmo a falta de objetividade da existência pode abarcar felicidade, e que a vida, por mais caótica e dolorosa que possa ser ás vezes, é, assim como a morte, uma parte da jornada pela qual todos nós devemos passar...
Trabalho de gênio do co-diretor Pete Docter que vai se juntar aos clássicos fundamentais do estúdio de animação.

4 - Mank


A obra prima em perolado preto e branco engendrada por David Fincher a partir de um roteiro escrito por seu falecido pai é um conto a respeito do preço da criatividade em Hollywood e de como um estranho no ninho precisa lutar para encontrar seu espaço entre pessoas que não o consideram um par que é cozido em fogo baixo sem jamais se apressar ou se desculpar por suas posições.
Ancorado no talento de um esculhambado Gary Oldman, Mank usa o período em que Herman Mankiewicz ficou confinado em um rancho escrevendo o roteiro de Cidadão Kane e pensando nas decisões que o levaram até ali para lançar uma luz, ainda que parcialmente ficcional, sobre os bastidores do poder político e financeiro na Hollywood da era de ouro e a confecção de um dos maiores clássicos do cinema em todos os tempos.

3 - O Som do Silêncio


O longa a respeito de um baterista de punk metal que perde a audição do dia para a noite, nas mãos erradas, ou com um elenco menos competente, poderia ser um dramalhão difícil de assistir.
Sob a batuta de Darius Marder e estrelado por um Riz Ahmed no auge da forma, porém, o longa se torna uma história tão elegante quanto emocionante a respeito de deficiência, vícios e sobrevivência. Um longa simultaneamente agressivo e contido sobre encontrar o seu lugar no mundo após perder algo que amava, que coloca a audiência nos sapatos do protagonista através do uso soberbo do design de som, e mostra a todo mundo que ator Riz Ahmed é capaz de ser.
Uma pérola tardia no catálogo de dezembro da Amazon Prime.

2 - Jojo Rabbit


É provável que nenhum outro diretor além de Taika Waititi fosse capaz de imaginar uma comédia dramática sobre amadurecimento estrelada por uma criança que tem Adolf Hitler como amigo imaginário, mas que bom que ele o fez.
Desde os créditos de abertura Waititi deixa claro que Jojo Rabbit é um filme estranho, mas durante sua metragem de pouco menos de duas horas ele toca a audiência das maneiras mais belas ao narrar uma história sobre como a empatia é o estado natural das pessoas, e sobre como a bondade e o amor ao próximo podem perseverar mesmo em meio aos momentos mais sombrios da humanidade.
Sendo capaz de arrancar gargalhadas e lágrimas da audiência em igual medida, Jojo Rabitt é o filme perfeito para se assistir nos estertores de um ano infernal como 2020.

1 - 1917


Sam Mendes fica com o primeiro lugar da lista em 2020 graças a 1917. O longa que o diretor concebeu como forma de homenagear os feitos do avô, veterano da "guerra para acabar com todas as guerras" é a proverbial obra prima da carreira de um diretor repleto de realizações sensacionais no currículo.
Mostrando a corrida desesperada dos soldados Schofield (George McKay) e Blake (Dean Charles Chapman) para impedir que um batalhão caia em uma armadilha dezessete quilômetros nas entranhas do território ocupado pelo exército alemão, 1917 mostra a guerra como o verdadeiro vilão do filme sem jamais desviar os olhos da bondade que se nega a ser varrida pela brutalidade do conflito.
Tecnicamente soberbo, com atuações excepcionais e uma direção de mestre de Mendes, 1917 foi a mais sensacional sessão de cinema da qual eu desfrutei esse ano, e fica com a medalha de ouro. 

Top-10 Negativo Cinema 2020

 Hoje o ano de 2020 vai nos deixar, e, se alguém quiser saber, já vai tarde. Com as centenas de milhares de mortos, o colapso do sistema capitalista, e o holofote jogado sobre a falta de preparo dos governantes e a ignorância completa do povo parece leviandade reclamar dos cinemas fechados e dos lançamentos adiados, então eu não farei isso.
Apenas irei dizer que 2020 foi um ano atípico também nos cinemas, e que eu nem sempre encontrei ânimo para assistir filmes horrorosos apenas para poder rir deles na hora de escrever essa lista. Com a quantidade limitada de longas sendo lançados esse ano, fosse em salas de exibição, streaming ou aluguel digital, para chegar aos dez da lista de piores, tive que usar critérios diferentes do habitual que colocaram aqui filmes que, em um ano normal, provavelmente teriam escapado, mas essa é minha lista, e eu assino embaixo.
À ela:

10 - Tenet


Até mesmo os melhores diretores de cinema erram a mão quando o conceito se sobrepõe à história. Isso fica dolorosamente claro em Tenet, longa metragem de mais de duzentos milhões de dólares que naufragou nas bilheterias mesmo com a assinatura do deus dos nerds Christopher Nolan, que se apaixonou pela ideia do fluxo invertido do tempo e fez dela a protagonista de um filme que é tão tecnicamente brilhante quanto emocionalmente vazio.
Se não há nada na tela com que a audiência possa estabelecer algum tipo de conexão, nem todas as sequências de ação visualmente geniais do mundo fazem com que o filme funcione. Sem a presença de um Robert Angier, um Bruce Wayne ou um Dom Cobb, Tenet é apenas uma sucessão de diálogos expositivos seguidos de grandes cenas de ação que é tão bonito de olhar quanto estéril.

9 - O Homem Invisível


Enquanto os grandes estúdios de Hollywood se acotovelam pela chance de conseguir sua própria franquia multibilionária de super-heróis, a Blumhouse mostra que se pode fazer muito dinheiro investindo muito pouco (ao menos para os padrões de Hollywood).
Foi esse cartão de visitas que fez a Universal ceder uma de suas propriedades intelectuais mais longevas, para que Jason Blum o tornasse uma dessas máquinas de fazer muito com pouco, e o resultado foi esse O Homem Invisível de Leigh Whannell que transformou o cientista louco no marido abusivo de Cecilia Kass.
Se há alguma decisão correta em O Homem Invisível, é ancorar o filme nas costas de Elisabeth Moss, que tem talento se sobra para vender a imagem de mulher assombrada pelo abuso, infelizmente essa é provavelmente a única boa decisão do longa que é corrido, previsível, inconsistente e descartável...

8 - Era Uma Vez um Sonho


Ron Howard é um cineasta que já deixou sua marca em Hollywood. O homem fez filmes como Apollo XIII, Uma Mente Brilhante, Rush, Frost/Nixon... Ninguém coloca em dúvida a extensão de seu talento como diretor. O que também não deve ser posto em dúvida é que volta e meia ele entra numas e faz uns dramalhões com descarada tendência papa-prêmios que geralmente saem pela culatra.
É o caso desse Era Uma Vez um Sonho, onde nem o trabalho de duas atrizes de grosso calibre é o suficiente para salvar o longa de soar pretensioso e moralista com sua história a respeito de um jovem tentando fugir da areia movediça que é a pobreza do lado mais caipira e branco dos Estados Unidos. Apesar de boas atuações e algumas boas ideias, o longa não consegue evitar de se tornar um novelão de duas horas...

7 - Convenção das Bruxas


Robert Zemeckis já foi uma das grandes promessas do cinemão norte-americano quando surgiu para o grande público com De Volta para o Futuro. Ele alcançaria altíssimos níveis de prestígio com longas como Contato, Náufrago e Forrest Gump e depois se apaixonaria pela ideia de fazer filmes com captura de performance e entraria em um tipo de purgatório criativo de onde tira a cabeça vez por outra.
O desnecessário remake de Convenção das Bruxas não é uma dessas saídas de Zemeckis do purgatório. O longa é infantil demais, alcança seu ápice no começo do segundo ato e se torna tão tedioso e excessivo daí em diante que parece que o diretor estava interessado demais em garantir a qualidade técnica do longa para se preocupar com roteiro ou direção do elenco.

6 - Mulan


A versão em live action de Mulan é mais um exemplo da dificuldade que alguns estúdios têm de entender que força e infalibilidade não são a mesma coisa.
Na tentativa de criar uma "personagem feminina forte" como protagonista, o longa dirigido por Niki Caro rouba de Mulan a tenacidade, engenhosidade e até o livre-arbítrio que a versão animada transbordava. Aqui, Mulan deixa de ser uma jovem que se recusa a ser derrubada e que procura formas de contornar suas óbvias desvantagens físicas para se encaixar no exército imperial chinês para se tornar uma lutadora de kung-fu mágica que chuta lanças e é mais forte e hábil que todo mundo porque nasceu com um chi maior que o dos outros.
O resultado é uma Mary Sue das mais murrinhas em um filme que é tão visualmente belo quanto pobre em sua mensagem de que, pra vencer em qualquer campo, basta nascer especial.

5 - Bad Boys Para Sempre


Olha as caras de Marcus e Mike nessa foto. É mais ou menos a mesma expressão que eu tinha no rosto quando Bad Boys Para Sempre acabou.
O mais novo filme da franquia Bad Boys iniciada no distante ano de 1995 envelheceu como Martin Lawrence, e está tão inchada e sem graça quanto. O longa, apenas produzido por Michael Bay, que deixou a cadeira de diretor para Adil El Arbi e Bilall Fallah, é um amontoado de clichês de gênero temperado com um drama que não se sustenta e uma temática de confronto de gerações que causa bocejos resultando num produto tão barulhento quanto descartável e a recorrente promessa de "uma última vez" que é desmentida ainda no meio dos créditos quando o longa acena com a possibilidade de mais uma sequência se ainda houver alguém disposto a pagar pra assistir a porcaria...

4 - Bloodshot


Eu não faço ideia de como seja Bloodshot enquanto quadrinho. O longa metragem é baseado numa série de gibis publicada nos EUA pela Valiant Comics e seria a pedra fundamental de um Universo Cinemático Valiant, a ser realizado e conduzido pela Sony na esteira do sucesso do longa. 
Mas Bloodshot não fez sucesso. Difícil dizer se pela chegada da pandemia do Covid-19 ou se porque o filme é horroroso. Na trama, um soldado fodão vivido por Diesel é morto por um terrorista junto com sua esposa, e então trazido de volta à vida por um cientista que passa a usá-lo como uma arma após injetar nano-robôs em seu sangue e torná-lo super-humano.
O filme flutua entre fita de ação e de ficção científica sem convencer em nenhum dos frontes, tem atuações canhestras, efeitos visuais meia-boca e um roteiro que mira RoboCop mas acerta no RoboCop de 2014 provavelmente sepultando a franquia sonhada pela Sony.

3 - The Tax Collector


David Ayer só sabe fazer um filme.
Ei, se o cara pode fazer sempre a mesma coisa quando dirige um longa de milhões de dólares eu posso dizer sempre a mesma coisa quando avalio o trabalho dele.
Em Tax Collector o cineasta alcança um novo ponto baixo em sua relativamente bem-sucedida carreira ao não conseguir entregar nem mesmo as coisas que costumavam funcionar em seus outros filmes, como boas sequências de ação e de tensão. 
Mal ajambrado, pobremente escrito e com uma estrutura modorrenta, The Tax Collector é um filme óbvio erigido sobre estereótipos e violência sem substância que provavelmente tem como única qualidade ser relativamente curto.

2 - Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa


Aves de Rapina era uma das galinhas dos ovos de ouro da Warner após o sucesso de bilheteria de Esquadrão Suicida e de Margot Robbie ter se tornado a queridinha de Hollywood por sua acertada atuação como a sidekick do Coringa no longa de 2016. Infelizmente, entre idas e vindas do projeto que foi de um longa estilo Bonnie & Clyde com o casal de palhaços a um longa sobre um grupo de mulheres enfrentando o vilão Máscara Negra na Gotham City mais misógina já imaginada por alguém, o filme se perdeu.
Desejando ardentemente ser o Deadpool da DC, Aves de Rapina entrega um filme que não tem grandes cenas de ação, não é engraçado, e nem fiel aos quadrinhos, morno e aborrecido, o longa de Cathy Yan consegue a proeza de ser pior que o Esquadrão Suicida de David Ayer, e isso, meus amigos, é proeza pra ninguém botar defeito.

1 - Artemis Fowl


Eu confesso que, quando Artemis Fowl foi lançado, eu fiquei me perguntando porque a base de fãs da série literária havia ficado tão ofendida com o filme dirigido por Kenneth Branagh. Mas isso foi apenas até ver o filme e ficar ofendido não apenas como amante de cinema, mas também como ser humano com um cérebro funcional.
A tentativa da Disney de ter seu próprio Harry Potter, uma franquia baseada em livro infanto-juvenis com a qual uma base inteira de fãs pudesse crescer e amadurecer enchendo os cofres do Mickey de bilhões é tão malograda que é difícil saber quais defeitos apontar primeiro.
Com um protagonista desprovido de qualquer carisma, uma mitologia sem sentido e bagunçada e uma trama incoerente e vazia, Artemis Fowl foi a sessão de cinema (em casa) mais excruciante de 2020, e ganha o topo do pódio e o título de pior dos piores.










 







quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Resenha Filme: O Som do Silêncio

 


Vez e outra eu sou lembrado do quanto sou relapso com a minha observação dos catálogos de longas originais da Netflix e especialmente do Prime Video. Eu, por exemplo, sequer sabia da existência de O Som do Silêncio.
É bem provável que se eu tivesse topado com o longa na tela do Amazon Prime Video, eu tivesse parado para assistir, fosse pela cara de coitado de Riz Ahmed, que vem se provando um ator acima da média já faz alguns anos, fosse pelo nome de Darius Marder, responsável pelo script do belo O Lugar onde Tudo Termina fazendo seu debute como diretor de longas-metragens de ficção (ele tem um crédito prévio pelo documentário Loot).
Em O Som do Silêncio nós conhecemos Ruben Stone (Ahmed), um baterista de heavy metal alternativo que se apresenta na companhia de sua namorada, a cantora Lou (Olivia Cooke). Ruben e Lou levam uma vida algo cigana a bordo de um bem-equipado trailer viajando pelos Estados Unidos de show em show.
A existência de Ruben dá uma guinada quando ele acorda uma manhã e percebe que sua audição praticamente desapareceu. Não ouve zumbido nem uma perda gradual. Um dia Ruben acorda quase que completamente surdo. Ele se consulta com um médico que lhe dá a notícia de que ele perdeu quase oitenta por cento da audição em ambos os ouvidos, e pior: Que seu quadro, seja causado pela exposição aos altíssimos decibéis de seu instrumento ao longo dos anos, seja resultado de uma doença autoimune, não deve melhorar.
Inicialmente Ruben age como se isso não fosse um problema. É um período de negação onde ele se recusa a aceitar tanto a gravidade quanto a natureza definitiva de sua situação. Ele acredita que pode gerenciar o problema. Que pode tocar sem ouvir o som que produz. Que pode fazer uma cirurgia e voltar a ouvir... Mas Lou sabe que o problema é ainda mais grave.
Ruben é um viciado em recuperação. Ele está afastado das drogas há quatro anos, mas ter seu tapete puxado de sob seus pés dessa maneira, é o tipo de situação que pode empurrar uma pessoa de volta ao precipício. É quando surge a oportunidade de Ruben se instalar em uma instalação conduzida por Joe (Paul Raci), um alcoólatra que perdeu a audição no Vietnã e tem um programa para ajudar pessoas surdas. Lá, Ruben não irá ser curado de sua perda de audição, ele irá aprender a conviver com ela.
Mas qual é o impacto que se tornar um especialista em algo apenas para ter isso arrancado de si causa na vida de uma pessoa? Como é que alguém pode reaprender a andar com as próprias pernas novamente quando tem a sua melhor muleta roubada?
É essa pergunta que Ruben precisa responder enquanto tenta se adaptar à sua nova realidade.
O Som do Silêncio é um filme soberbo.
É focado, sensível, paciente, e vai direto ao ponto sem jamais correr ou sequer apertar o passo. Não há supérfluos em seus cento e cinquenta e cinco minutos de projeção que jamais se rebaixam às saídas e lágrimas fáceis frequentemente escolhidas por longas-metragens a respeito de eventos que mudam a vida de seus personagens.
Muito desse mérito recai sobre Riz Ahmed. O ator cria Ruben como um modelo de contenção, sempre escolhendo as reações mais sutis e mais suaves, o que ao mesmo tempo mantém O Som do Silêncio longe do melodrama barato, mas também torna Ruben mais crível e genuíno. Ahmed e Marder não apenas escolhem o silêncio, mas se refestelam nele garantindo que os olhos e expressão corporal de Ruben digam tudo o que a audiência precisa saber.
O silêncio, por sinal, é frequentemente utilizado pelo design de som do filme para mostrar de maneira quase opressiva o que o protagonista está experimentando. Há sequências que nós vemos em completo silêncio, e outras que nos são mostradas com sons abafados e indiscerníveis.
Ainda assim, O Som do Silêncio é tanto um drama sobre surdez quanto um drama sobre vícios. Sobre como é difícil se livrar de distrações e da tentação de não abrir mão daquilo que queremos, da forma como queremos, e do preço que podemos pagar por esses desejos.
É um filme sobre a importância de encontrar sentido em meio ao caos, esperança em meio ao desespero e paz, não em outros, mas em nós mesmos.
Darius Marder e  seus co-roteiristas Abraham Marder e Derek Cianfrance encontram o tom perfeito para contar essa história, e a depositam nos capazes ombros de Riz Ahmed, que faz todas as escolhas certas em sua atuação, e torna a experiência de perder a audição relacionável de uma maneira comovente e inspiradora.
Assista.
O longa está disponível no Prime Video.

"Ruben, como você sabe, todo mundo aqui compartilha a crença de que ser surdo não é uma deficiência. Não é uma coisa pra consertar. É muito importante por aqui. Todas essas crianças... Todos nós, precisamos nos lembrar disso todos os dias."

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Resenha Cinema: Mulher-Maravilha 1984

 


E não pelas razões que seus fãs mais ardorosos gostariam de pensar que é. O longa não é demasiado complexo, cheio de nuances ou intelectualmente desafiador das formas que provavelmente Zack Snyder gostaria que fosse. Ele é um filme com boas ideias que são frequentemente suplantadas numericamente pelas suas más ideias e pela ausência de poder de síntese de seu realizador. Eu já falei a respeito disso em mais de uma vez...
Entre os acertos daqueles filme, porém, está a apresentação da Mulher-Maravilha de Gal Gadot, que foi uma inesperada (ao menos pra mim) bola dentro de Snyder.
A magricela de carinha bonita da franquia Velozes & Furiosos era provavelmente a última atriz de Hollywood, dentro da etnia e faixa etária, que eu imaginaria no papel da princesa das amazonas, mas ei, se eu já acertei em cima da pinta ao imaginar atores em certos papéis (quando assisti Tudo Pode dar Certo disse que Henry Cavill seria um ótimo Superman, por exemplo...), já errei muito, também, e sempre admiti. E Gadot foi um desses meus erros de julgamento.
Não tanto por sua breve aparição em BvS, mas especialmente por seu filme solo, lançado no ano seguinte. Sob a batuta da diretora Patty Jenkins, Gadot provou ao mundo que ela era provavelmente a escolha mais acertada da Terra para o papel ao mostrar força e ternura em níveis estratosféricos no corretíssimo Mulher-Maravilha que faturou mais de oitocentos milhões de dólares em bilheterias pelo mundo e foi o melhor filme do DCUE lançado até então.
Após três anos e um problemático filme da Liga da Justiça, Diana (mais ou menos) volta aos cinemas em uma nova aventura solo.
Mulher-Maravilha 1984 abre com uma lembrança de Diana em Themiscyra, quando ela aprendeu com Antíope (Robin Wright) e Hipólita (Connie Nielsen) a importância da verdade...
Corta para Washington, 1984.
Diana mora na capital dos EUA onde ajuda a manter a paz na cidade da maneira que pode. Salvar uma vida aqui, impedir um assalto ali... Tudo isso enquanto mantém sua existência em relativo segredo e leva uma vida discreta trabalhando como pesquisadora no Instituto Smithsonian.
A paz de Diana é ameaçada quando, após impedir um assalto a uma joalheria em um shopping, o caminho de Diana se cruza com um antigo artefato de natureza misteriosa que acaba parando na mesa de sua colega, a tímida e retraída mineralogista Dra. Barbara Minerva (Kristen Wigg), atraindo a atenção do empresário Maxwell Lord (Pedro Pascal).
E antes que Diana possa investigar a fundo o que está acontecendo, ela é surpreendida quando inexplicavelmente Steve Trevor (Chris Pine) ressurge em seu caminho, dando o pontapé inicial para uma série de eventos cataclísmicos que ameaçam o mundo inteiro...
Mulher-Maravilha 1984 é um filme bastante irregular.
Uma coisa que já deveria ter ficado clara para os cineastas e roteiristas de Hollywood é que filmes de super-herói com múltiplos antagonistas geralmente não funcionam porque nas duas horas que normalmente compõe um longa-metragem é muito difícil apresentar e desenvolver os personagens de forma que a audiência se interesse por todos da mesma forma. Na melhor das hipóteses um deles inevitavelmente irá ser escanteado pela narrativa e se tornará um pastiche ou um acessório. Na pior, serão os dois.
O roteiro do novo Mulher-Maravilha acaba fazendo as duas coisas em algum momento. Durante seu primeiro ato, o relegado é Lord, que mesmo com o carisma de Pascal não consegue convencer como uma ameaça real em nenhum momento, na verdade, o personagem parece muito menos um vilão e mais uma vítima da própria ambição. Durante o terceiro ato, é Barbara quem fica em segundo plano, o que é uma pena pois a personagem tinha um arco que, se está longe de ser particularmente original, funcionava muito bem na proposta do filme, e Wigg surpreende pelo compromisso.
Outra coisa que não chega a convencer em MM84 é a ambientação oitentista. 
Essa tendência entre alguns filmes de quadrinhos, de revisitar décadas passadas apenas por injustificada nostalgia já estava cansando durante a série X-Men. Por mais que haja uma mensagem sobre consumismo exacerbado no longa, algo que a cultura norte-americana abraçou com todo o gás nos anos de Reagan na Casa Branca, não é como se nossos anos 2010 não padecessem do mesmo mal a ponto de a mensagem não poder ser entregue em um filme contemporâneo.
Se por um lado, eu gosto do fato de o longa dar uma piscada aos fãs de quadrinhos ao colocar Diana em Washington na década de 1980 (algo que George Pérez fez quando recontou a origem da personagem após a Crise nas Infinitas Terras), por outro a ambientação é puro confete sem propósito...
Uma outra decisão discutível é a forma como o longa aborda a relação entre Diana e Steve Trevor redivivo.
A química do casal continua firme, mas a presença do piloto de volta à vida de Diana após quase setenta anos é espremida entre corre-corre, falatório expositivo e sequências de ação de uma maneira que rouba a reunião de significado. Ainda assim, eu gosto do fato de que Patty Jenkins respeita o personagem o suficiente para que, mesmo sendo arrastado por Diana de um lado pro outro, ele jamais se torne um palerma como aconteceu com Finn nos Star Wars da Disney ou com todo mundo que contracena com a Capitã Marvel...
De toda a sorte, faltou inspiração ao roteiro (de Jenkins, Geoff Johns e Dave Callaham) para aproveitar melhor o tempo do casal juntos, ou explorar o efeito que os anos 1980 teriam sobre um homem que nasceu no Século XIX além de gags visuais.
No tocante às sequências de ação o longa novamente fica devendo. O assalto ao shopping é algo cartunesco, quase como a sequência de abertura de Superman III, enquanto a luta entre a Mulher-Maravilha e a Mulher-Leopardo do fim do filme é extremamente mal coreografada e aborrecida. A sequência com os veículos de combate no Cairo, porém, é bem intencionada, provavelmente a melhor do filme.
Em termos de efeitos visuais o longa não compromete, mas também não traz nada de novo além das sequências de voo (eu gosto de como Diana aprende a voar praticamente usando o método de Arthur Dent nos livros d'O Guia do Mochileiro das Galáxias), que são boas, mas desnecessárias.
O elenco faz o melhor que pode com o material, e MM84 além de estar longe de ser um primor de script, se espicha além do necessário com quase duas horas e meia de projeção, mas nada que fira a dignidade dos envolvidos.
A exemplo do que ocorreu com o longa onde a amazona debutou em 2016, Mulher-Maravilha 1984 tem acertos e erros em profusão e por vezes as boas ideias são suplantadas tanto pelas ideias ruins, quanto por uma execução desastrada. 
Há um belo recado no cerne de MM84, porém. A respeito da importância de se trabalhar duro para conseguir o que se deseja, de aceitar que tudo na vida tem um preço e que há coisas que estão simplesmente fora do nosso alcance, e que tudo bem. Não é o fim do mundo...
Isso é uma das coisas que os erros de Jenkins e companhia não conseguiram roubar da Mulher-Maravilha: Ela é um símbolo de esperança, mas também de compreensão e de bons sentimentos, e apesar das lambanças na execução, o filme entrega essa mensagem, mesmo que de forma algo atabalhoada.
Em suma: Mulher-Maravilha 1984 não é um desastre total, mas está longe de ser a maravilha que a personagem merecia, ainda assim, com o ano que temos tido, eu teria assistido ao longa nos cinemas sem grandes arrependimentos.

"Nada de bom nasce de mentiras. E grandeza não é o que você imagina."

sábado, 26 de dezembro de 2020

Resenha Filme: Soul

 


Após uma noite de natal solitária e uma ceia composta de Doritos, Coca-Cola e chamadas de Whatsapp das pessoas da família cada um em sua casa, na manhã do dia vinte e cinco eu acordei precisando assistir um bom filme na TV. Enquanto a Mulher-Maravilha não era disponibilizada pela HBO MAX, o Disney+ agiu depressa, e colocou Soul, mais recente filme dos estúdios Pixar em sua grande bem cedinho de manhã.
Munido de um canecão de Toddy e biscoitos amanteigados Stoffel, após um banho revigorante, me ajeitei no sofá e pressionei Play para assistir ao filme co-dirigido por Pete Docter e Kemp Powers.
No longa nós conhecemos Joe (voz de Jamie Foxx).
Joe é professor de música em uma escola pública de Nova York. Ele é dedicado o suficiente a tentar encontrar ritmo numa molecada que, salvo raras exceções, não têm lá muito talento e nem vê a música com os melhores olhos. Mas a diligência de Joe rende frutos, e ele é informado pela diretora da escola que foi efetivado no cargo, e receberá a estabilidade e os benefícios de um professor em tempo integral dali em diante.
Deveria ser uma boa notícia, mas não é. Joe não nasceu para ser um professor de música da escola. Ele é um apaixonado por jazz que deveria estar brilhando nos palcos, gravando discos e sendo reverenciado por sua virtuosidade.
Sua mãe, Libba (voz de Phylicia Rashad), por outro lado, acha que Joe já passou da idade de sonhar com uma carreira musical e deveria se agarrar ao emprego como professor e a estabilidade que ele traz. É quando Joe recebe a ligação de um ex-aluno que hoje toca no prestigiado quarteto de Dorothea Williams (voz de Angela Basset), que precisa de um pianista em cima da hora, e oferece a Joe a oportunidade de tocar com eles em um show.
É a grande oportunidade da vida de Joe! Ou seria se, ao sair do local do ensaio, ele não caísse em um bueiro ficando entre a vida e a morte.
No caminho para o Grande Pós-Vida, Joe se dá conta do que está acontecendo, e acidentalmente cai no Grande Pré-Vida, onde conhece 22 (voz de Tina Fey), uma alma jovem em formação que tem dado um um trabalho danado aos mentores espirituais que não conseguem convencê-la a encontrar a fagulha que a trará à Terra.
Joe 22, então, resolvem ajudar um ao outro, ela fingirá encontrar a tal fagulha, recebendo um passe para a Terra, e então o dará a Joe. Ambos sairão ganhando pois ela pode continuar no Pré-Vida sem ser incomodada por mentores, e Joe terá a chance de voltar ao mundo e viver seu sonho.
Os melhores filmes da Pixar conseguem a proeza de ser um deleite para adultos e crianças ao mesmo tempo (Eu ainda disse isso outro dia ao falar de Convenção das Bruxas). Soul é um raro caso de longa do estúdio que inevitavelmente ressoa mais com os crescidos do que com os pimpolhos.
Não que o filme não tenha momentos engraçados e divertidos capazes de arrancar umas risadas da piazada, mas os temas ambiciosamente abraçados pelo longa de Docter e Kemp (que também co-escreveram o roteiro junto com Mike Jones) certamente encontrarão entre os adultos, ouvidos mais preparados.
Todo o cerne de Soul é a respeito de chances perdidas, sonhos não consumados e a natureza do que, de fato significa ter um propósito na vida. Esses profundos questionamentos são tratados de maneira bela e leve por Kemp e Docter (que está habituado a arrancar lágrimas dos adultos com seus desenhos, vide UP! Altas Aventuras e DivertidaMente), que conduzem a aventura de Joe e 22 com graça até um daqueles tradicionais finais Pixar de esmigalhar o coração da audiência, mas da melhor maneira possível.
Com um elenco (que ainda inclui Graham Norton, Alice Braga, Rachel House, Richard Ayoade, Questlove e outros) comprometido, trilha sonora excepcional de Tretnt Reznor,  Atticus Ross e Jon Batiste e a qualidade técnica que é regra nas animações do estúdio, Soul tem bala na agulha para se perfilar aos maiores clássicos da Pixar e figurar na prateleira mais alta de suas produções em termos de qualidade narrativa.
Um dos melhores filmes do ano.
Assista.
Soul está disponível na Disney+

"-Você não pode destruir uma alma aqui. É pra isso que a vida na Terra serve..."

 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Resenha Filme: Era Uma Vez um Sonho

 


Já faz algum tempo que eu vi no YouTube o trailer de Era Uma Vez um Sonho e, após ver os nomes de Ron Howard, Amy Adams e Glenn Close, pensei "Hm, acho que vou ver esse filme.", e então o esqueci completamente. Até ontem à noite, quando resolvi dar uma espiada na Netflix para ver se O Céu da Meia-Noite já tinha estreado no serviço e, ao constatar que ainda não, dei de cara com o longa e resolvi remediar meu esquecimento.
Era Uma Vez um Sonho abre em 1997 com a narração de J. D. Vance (interpretado na infância por Owen Asztalos, e adulto por Gabriel Basso) que nos conta como sua família vem de uma cidadezinha nas montanhas ao norte do Kentucky onde as pessoas mantém carros destruídos nos quintais e há tartarugas atravessando as estradas, mas ele cresceu em Ohio, para onde sua avó fugiu grávida aos treze anos de idade.
J. D. é um bom rapaz. Ele deu duro na escola, trabalhou desde a adolescência, serviu no exército, se formou na faculdade do estado e conseguiu cursar direito na prestigiada universidade de Yale onde se desdobra em três empregos tentando pagar pelo curso, mas ainda assim vê seu próximo semestre comprometido a menos que ele consiga um dos prestigiados estágios de verão aos quais os alunos da universidade têm a chance de se candidatar.
Além de uma porta de entrada para o mundo corporativo, tais estágios garantem um generoso pagamento que pode resolver o problema de J. D. pelo semestre. É durante um jantar de Yale onde tem a chance de conhecer os figurões das grandes firmas de advocacia dos EUA que J. D. recebe uma ligação de sua irmã Lindsey (Haley Bennett), que o informa que sua mãe, Beverly (Amy Adams) está hospitalizada após uma overdose de heroína, e pede que ele volte para casa para ajudá-la a resolver a situação.
Enquanto encara a viagem de volta a Ohio, J. D. relembra seu passado, a constante luta de sua mãe com o vício, as maneiras como sua avó (Glenn Close) o salvou diversas vezes durante a infância e a adolescência, e todas as decisões que o levaram até onde ele chegou, e as decisões que ele deverá tomar se quiser ter uma chance de uma vida melhor.
Há um bocado de coisas que Era Uma Vez um Sonho faz certo nessa adaptação do livro do verdadeiro J. D. Vance, e outras tantas que o longa faz errado.
O principal acerto do filme provavelmente é a escalação de seu elenco, e o trabalho que dito elenco realiza.
Se os atores que interpretam as duas versões de J. D. são bastante insonsos, isso parece mais uma decisão do script do que um problema com o trabalho dos intérpretes. É improvável que um sujeito menos reativo do que o J. D. do filme fosse capaz de escapar da vida dos Vance da maneira como ele faz. Se J. D. é todo reação, as verdadeiras catalisadoras do longa são Amy Adams e especialmente Glenn Close, que estão ótimas. Adams pode ser criticada pelo excessivo histrionismo de Beverly mas quem conhece algum dependente químico sabe que não são pessoas lembradas por sua sutileza. Close, por sua vez, quase some embaixo da peruca enroladinha, dos óculos gigantes e da maquiagem grosseira de Mamaw e do cigarro perenemente entre seus dedos no que parece uma caricatura até vermos imagens da verdadeira Mamaw nos créditos do filme. Mais do que a caracterização, porém, é a atuação de Close que enche essa velha durona que cospe palavrões em profusão e ainda assim compadecida e terna à seu modo, de notas que alguns de nós serão capazes de reconhecer de nossas próprias avós.
Infelizmente, as atuações de Close e Adams não são o suficiente para livrar Era Uma Vez um Sonho de uma cara danada de novelão caça-prêmios.
Ron Howard não é estranho a esse tipo de filme (eu me lembro bem de A Luta pela Esperança...), que pode ressoar com determinadas faixas da audiência por suas situações, mas jamais se livra da sombra da pieguice pela forma como é apresentado ao público.
Sendo eu mesmo filho de uma família de brancos pobres que lidaram ou lidam com vícios em seu seio, não faltaram momentos em que as situações retratadas na tela me tocaram, e ainda assim, eu jamais senti aquela rasteira emocional que os grandes filmes são capazes de oferecer.
Isso provavelmente ocorre porque Howard e a roteirista Vanessa Taylor têm tanta preocupação em não ofender o tipo de pessoa que o longa retrata (aparentemente sem sucesso, já que quando fui procurar por uma foto do longa para ilustrar essa postagem, encontrei mais de um site da região dos apalaches pedindo o boicote do filme...) que se furtam da possibilidade de abraçar o absurdo de determinadas situações com uma dose de humor negro, ou de ir um pouco além em como os ciclos de pobreza e más decisões afetam as vidas das pessoas que se veem enroladas neles.
A despeito da maneira como o longa acertadamente mostra que as defesas que permitem a uma pessoa sobreviver a um ambiente familiar destrutivo podem ser as mesmas que as prendem a tais situações, falta coragem aos realizadores para oferecer uma abordagem mais valente aos temas que o longa retrata.
Era Uma Vez um Sonho poderia ser um grande filme, mas da forma como é entregue, é um filme medíocre com acertos eventuais.
O longa está disponível na Netflix.

"Qualquer vida melhor que meus avós estivessem perseguindo pela Rota 23, eles nunca encontraram..."

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Resenha Filme: Artemis Fowl: O Mundo Secreto

 


Não foi por mais, senão curiosidade mórbida, que ontem enquanto vagava pelo catálogo do Disney +, resolvi encarar os pouco mais de noventa minutos de Artemis Fowl: O Mundo Secreto, longa lançado pela Disney no meio do ano adaptando uma longa e estimada série de livros para jovens adultos de Eoin Colfer.
Eu jamais li nenhum livro da série. Na verdade, nem sequer sabia da existência da série até começar a ouvir notícias a respeito da adaptação capitaneada por Kenneth Branagh, que aparentemente tomou gosto por dirigir adaptações literárias para tela grande após Assassinato no Expresso do Oriente
O que eu sabia de antemão era que os fãs dos livros de Colfer haviam ficado profundamente ofendidos com a adaptação, e que era provável que, se fosse para seguir os passos de outra série literária infanto-juvenil adaptada ao cinema, Artemis Fowl estava mais pra Percy Jackson do que pra Harry Potter...
Enfim, o longa abre com um frenesi midiático nos portões da mansão Fowl enquanto Mulch Diggums (Josh Gad), preso em um centro de interrogatório do MI6 no estuário do Tâmisa começa a narrar os eventos que levaram até esse cenário.
Ele conta a história de Artemis Fowl (Ferdia Shaw), um jovem e arrogante gênio de doze anos de idade que frequenta uma escola onde é mais esperto do que todos os professores e nas horas vagas gosta de surfar e andar de skate nas colinas que cercam a mansão onde vive com seu pai, o colecionador e negociador de artefatos e antiguidades Artemis Fowl I (Colin Farrell).
O moleque eventualmente descobre que todas as lendas e estórias que ele ouviu enquanto crescia são verdadeiras quando Artemis Sr. é sequestrado por uma fada perversa chamada Opal Koboi. A misteriosa fada mascarada oferece a  Artemis Jr. a tarefa de encontrar um artefato mágico do mundo das fadas chamado Aculos em troca da vida de seu coroa.
Com a ajuda de seu fiel guarda-costas Demovoi (Nonso Anozie) e sua amiga Juliet (Tamara Smart), Artemis divisa o plano de sequestrar uma fada para forçar as demais a lhe indicarem onde está o tal Aculos.
É onde entra em cena Holly Short (Lara McDonnell), uma fada policial do reino subterrâneo para onde as criaturas mágicas se retiraram nos últimos dez séculos. Holly teve seu pai assassinado e acusado de traição por tentar roubar justamente o Aculos, e está sob a supervisão constante da comandante Root (Judy Dench), que não quer vê-la pôr sua vida a perder tentando limpar o nome do pai.
Obviamente Holly é a fada capturada por Artemis, que a usa para atrair um exército de criaturas mágicas para suas portas e manipulá-las a ajudá-lo a encontrar o artefato que lhe devolverá seu pai.
Tem tanta coisa errada com Artemis Fowl: O Mundo Secreto que eu nem mesmo sei por onde começar a reclamar.
O filme é tão pobremente escrito por Hamish McColl e Conor McPherson que é impossível assistir ao longa sem imaginar que no chão de alguma sala de edição por aí, há vinte minutos de filme perdidos que talvez lhe dessem sentido. Os personagens trocam de lado sem aviso ou motivo, longas e chorosas cenas de morte são jogadas na audiência para personagens que mal vimos durante o filme, o longa é sobre a busca de um artefato perdido que está numa sala de casa e o autoproclamado "gênio do crime" titular só comete atos moralmente duvidosos quando tenta salvar o papai e muito mais... Chamar o roteiro de Artemis Fowl: O Mundo Secreto de "inconsistente" é um eufemismo. Assistindo ao filme fica óbvio que houve muitas mudanças de curso durante a produção e que o resultado final atirado na Disney + é muito menos a visão definitiva de alguém sobre o projeto, e mais o que sobrou após uma longa e infrutífera discussão a respeito do que o filme deveria ser, a menos que todos os envolvidos concordassem que Artemis Fowl: O Mundo Secreto deveria ser um filme desprovido de qualquer charme ou coerência narrativa, com sequências de ação mal-ajambradas, atuações que variam de canhestras a constrangidas, e um retrato fidelíssimo de porque as adaptações cinematográficas de séries literárias infanto-juvenis estão respirando por aparelhos já faz algum tempo.
Artemis Fowl: O Mundo Secreto é um daqueles filmes que não funciona em nenhum momento, em nenhum aspecto, e que quando termina, deixa a audiência coçando a cabeça e pensando como foi que ele foi lançado do jeito que foi.
Passe longe, é um dos piores filmes do ano...

"Eu sou Artemis Fowl, e eu sou um gênio do crime."