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segunda-feira, 28 de julho de 2014

Resenha DVD: Mandela - O Caminho Para a Liberdade


Cinebiografia não é uma seara das mais fáceis de trilhar no cinema. Não é raro ver filmes que prometiam contar a história de vida de uma personalidade se diluir na reverência e se transformar em um incompleto e desonesto veículo de promoção de uma única faceta do biografado. Os recentes Jobs e Somos Tão Jovens são exemplos bem claros desse tipo de biografia chapa-branca xaropona que é recorrente no cinema em geral, e praticamente regra no cinema brasileiro.
Havia uma grande chance de que, na hora de transformar em filme a autobiografia de Nelson Mandela, uma das personalidades mais importantes do Século XX, o diretor Justin Chadwick (A Outra) e o roteirista William Nicholson (Gladiador, Os Miseráveis) ficassem inclinados a adular a lenda do pacifista que transformou a África do Sul do apartheid na Nação Arco-Íris. Foi, afinal de contas, mais ou menos o que Clint Eastwood fez no excelente Invictus, e deu certo pro Clint...
Por sorte, Chadwick e Nicholson resolveram seguir um outro caminho, um pouco mais honesto e que, se não chega a ser controverso, ao menos não é panfletário.
Mandela - O Caminho Para a Liberdade mostra a vida de Nelson Mandela (Idris Elba) desde a suas origens tribais Xhosa, e sua vida como um jovem advogado nos anos 40 e 50.
Nessa fase, temos a oportunidade de ver um Nelson Mandela diferente da versão no inconsciente de todo o mundo.
Ao invés do velho gentil de cabelos grisalhos e fala pausada, vemos um homem vigoroso e divertido, praticante de boxe, sempre atrás de um rabo de saia, interessado em prosperar em seu ofício e deixando o preconceito dos africâneres e bôeres restrito apenas à sua vida profissional. Isso muda após Mandela ter um amigo assassinado pela polícia Sul-Africana ao ser preso por não possuir um passe, documento símbolo do apartheid.
Unindo-se ao Congresso Nacional Africano (ANC na sigla em inglês), Mandela sobre rapidamente na cadeia de comando do partido, o que o afasta de sua esposa Evelyn (Terry Pheto) e de seus dois filhos, o que culmina com seu divórcio e um segundo casamento, com a enfermeira Winnie Mandikizela (o pitéu Naomie Harris).
E se inicialmente Mandela acreditava em formas não-violentas de obter direitos civis para a maioria negra da Africa do Sul, essa crença muda radicalmente após o massacre de Sharpeville, em 1960, quando a polícia abre fogo contra manifestantes desarmados matando 69 pessoas e ferindo quase duzentas.
A partir desse momento, o CNA permite a criação de um braço armado, a Umkhonto we Sizwe, ou Lança da Nação, responsável por atentados a bomba e atos de sabotagem em resposta à violência do governo sul-africano contra os cidadãos negros.
Após anos vivendo na clandestinidade, Mandela é preso em 1962, e em 64, é condenado à prisão perpétua, pena a ser cumprida na prisão da Ilha Robben.
A partir daí, Mandela - O Caminho Para a Liberdade, que havia sido ligeiro, quase apressado, se torna um filme de ritmo bem mais lento.
Dividindo-se entre o crescimento e amadurecimento de Mandela no cárcere, tornando-se um mestre zen na arte de superar as agruras do isolamento do mundo na prisão, e desenvolvendo a persona política conciliadora que se tornaria sua marca registrada após sair da prisão, aprendendo tudo sobre seus captores, da cultura e língua africâner até os nomes dos filhos de seus carcereiros, e a atribulada vida de Winnie Mandela enquanto seu marido estava preso.
Winnie não ficou sentada lamentando o destino de Nelson. Ela própria foi vítima de perseguição racial e política, mas, ao contrário de Mandela, encontrou no ódio por seus opressores a força para se manter viva, tornando-se, ao menos no longa metragem, praticamente o Malcom X do Martin Luther King do protagonista.
Essa diferença de visão se torna uma tensão praticamente palpável quando a prisão de Mandela começa a afrouxar na segunda metade dos anos oitenta, e ele inicia seu processo de negociação com a minoria branca no poder ao se aproximar do presidente Frederik DeKlerk (Gys de Villiers), seu antecessor no comando do país.
Muito do que funciona em Mandela - O Caminho Para a Liberdade, está na atuação do casal protagonista.
Naomie Harris é intensa no papel de Winnie, que o roteiro tenta não demonizar, mas ao mesmo tempo, não se esforça para absolver, de modo que, por mais que a atriz se esforce para tornar a personagem compreensível à audiência (e ela é), ela se torna "malvada" quando comparada ao Mandela de Idris Elba.
Mesmo com Chadwick e Nicholson trazendo à luz momentos menos grandiosos de Mandela, como os casos extra-conjugais durante o seu primeiro casamento, o momento "bon vivant" após o divórcio, a morte de um correligionário durante um dos atos de sabotagem engendrados por ele, e sua relação complicada com a segunda esposa, o homem que passa quase trinta anos preso e sai disposto a perdoar seus captores e construir um país com eles é poderoso demais para ser ignorado, de modo que seus desvios de caráter, servem apenas para torná-lo mais humano, e, por consequência, ainda mais admirável.
E Idris Elba faz um trabalho excepcional no papel de protagonista,
Seu estilo maroto de personificar o político na juventude é particularmente bem sucedido à medida em que, mesmo retratando um Mandela muito distante daquele que todos conhecem, ainda é reconhecível no gestual e na forma de falar, e a maneira como, conforme seu personagem vai envelhecendo na prisão, ele incorpora os trejeitos mais famosos do Mandela real, é particularmente inteligente, ajudando o ator a se sobressair mesmo com um trabalho de maquiagem apenas OK.
No final das contas, Mandela - O Caminho Para a Liberdade é melhor do que a média das cinebiografias, não permitindo que o respeito ou a reverência pelo biografado se torne mais importante do que a história de vida de uma pessoa de verdade, e isso, por si só, já é um êxito.
Felizmente, não é o único.
A direção reverente mas não demais, de Chadwick, o bom roteiro de Nicholson e o trabalho do elenco encabeçado por Elba e Harris (mais Tony Kgoroge, Riaad Moosa, Jamie Bartlett, Lindiwe Matshikiza e Deon Lotz) tornam o longa metragem uma homenagem digna e justa ao herói que retrata.
Assista. Vale a locação, e Nelson Mandela certamente merece a deferência.

"Eu trilhei um longo caminho para a liberdade. Tem sido um caminho solitário, e que ainda está por terminar. Eu sei que meu país não foi feito para ser uma terra de ódio. Ninguém nasce odiando outra pessoa por conta da cor de sua pele. As pessoas aprendem a odiar. Elas podem ser ensinadas a amar. Pois o amor vem mais naturalmente ao coração humano."

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Resenha Cinema: 13° Distrito


Eu reclamo dos cinemas que exibem filmes dublados em horários de adulto(à noite). Reclamo muito. Detesto filmes dublados. Acho que já tivemos a melhor dublagem do mundo mas esse tempo acabou em meados dos anos oitenta. Hoje em dia, a nossa dublagem é medíocre e olhe lá, e mesmo os poucos bons dubladores que ainda temos são mal-escalados em papéis que simplesmente não fazem sentido (Guilherme Briggs dando voz a Han Solo e Indiana Jones?). Por essas e outras, eu simplesmente não assisto mais nada dublado, exceto Os Simpsons, provavelmente a única coisa na TV que eu assisto sem o som original e não fico com a sensação de estar perdendo alguma coisa.
Mas devo dizer que, talvez, eu esteja reclamando de barriga cheia, afinal, se aqui no Brasil, algumas exibidoras de cinema simplesmente abrem mão de exibir filmes legendados (como a rede Cineflix, onde eu nunca, jamais, em tempo algum entrarei), nos EUA, a aversão à leitura de legendas é tão grande, que, quando os estúdios percebem potencial de venda em algum filme de fora do país, simplesmente o refazem com atores que falam inglês no lugar dos originais.
Os escandinavos Deixe Ela Entrar e Os Homens que Não Amavam as Mulheres, por exemplo, ganharam boas versões faladas em inglês, mas que, à bem da verdade, não acrescentam muita coisa aos originais exceto nomes famosos no elenco.
O mais recente exemplo dos famigerados remakes hollywoodianos é esse 13° Distrito, que pega a premissa do divertido B13- 13° Distrito, e transporta a ação dos guetos de Paris, para Detroit (que desde a época de RoboCop precisava ter suas áreas mais pobres devastadas e substituídas por uma cidade do futuro...), troca um dos protagonistas, Cyril Raffaelli por Paul Walker, e a voz do outro protagonista, David Belle, pela de Vin Diesel, e pronto, temos praticamente o mesmo filme, mas mais palatável para a audiência média dos EUA.
Sendo bem franco, B13 já não era grande coisa, um fiapo de história servindo pra justificar as sequências de parkour dos dois protagonistas. Era, porém, divertido, descompromissado, e tinha uma saudável aura de filme B que não se leva a sério.
No remake americano, a história é praticamente a mesma do francês original:
O fora-da-lei de bom coração Lino (David Belle) luta sozinho contra o tráfico de drogas em Brick Mansions (Mansões de tijolos, o apelido dos prédios de tijolo-à-vista dos conjuntos habitacionais dos EUA), uma região pobre e violenta que é isolada do resto da cidade de Detroit por uma muralha, tornando-se uma terra de ninguém onde impera o crime, comandado com mão de ferro por Tremaine Alexander (o rapper RZA).
Lino acaba preso após bater de frente com o traficante de drogas, e tem sua namorada Lola (a deliciosa Catalina Denis) sequestrada pelo bandido, ao mesmo tempo em que as autoridades descobrem que uma bomba de nêutrons foi roubada pelos criminosos, e escondida em algum lugar do bairro onde as autoridades simplesmente não podem entrar.
A alternativa é infiltrar um homem da lei no distrito 13. O homem para o serviço é Damien Collier (o falecido Paul Walker), policial acostumado a trabalhar disfarçado e que tem uma rixa pessoal com Tremaine, que matou seu pai numa das últimas incursões da polícia à região.
Entretanto, como não se pode simplesmente ir entrando no bairro isolado, o plano é unir Damien e Lino, para que, juntos, eles possam impedir Tremaine de destruir a cidade inteira.
É ruim, mas diverte.
13° Distrito está longe de ser uma pérola do cinema, mas ao menos mantém a ideia de não se levar a sério demais, o que funciona pra um filme com premissa absurda, mas apenas até certo ponto.
Se há boas sequências de ação no longa (item de série que qualquer fita do estilo com orçamento razoável), é meio que só isso. Até o parkour, que era a grande estrela do longa original, é deixada de lado pelo diretor Camille Delamarre para dar mais espaços a perseguições automobilísticas, à medida em que Walker não tem a desenvoltura de Cyril Raffaelli no free running, e também precisa de espaço pra brilhar ao lado de Belle.
Belle, aliás, foi mesmo totalmente dublado por Vin Diesel no filme, por não ser fluente em inglês, e falar com um pesado sotaque francês, o que tornava inverossímil que ele morasse a anos nos EUA. Ora, vamos... Arnold Schwarzenegger mora nos EUA desde os anos setenta, foi governador da califórnia, e continua não sendo fluente em inglês e tendo um pesado sotaque austríaco... Pra piorar, o vilão do filme não convence e tem um final que, eu não vou contar pra não ficar passando spoilers, mas me deixou meio "Ei, não estão esquecendo de nada?"... Por mais que um filme não se leve a sério, e que isso seja saudável, há limites.
No fim das contas, 13° Distrito só estreou nos cinemas brasileiros porque Paul Walker morreu de maneira trágica, outrossim, teria seguido o caminho de outras produções estreladas pelo ator e saído direto em DVD. Talvez seja, no final das contas, a mídia certa para o filme. Uma sessão de entretenimento descartável no sofá de casa.
Espere sair em DVD.

"-Está preparado pra um salto mortal?"

Resenha Cinema: O Grande Hotel Budapeste


Eu sou um admirador contido dos filmes de Wes Anderson, e acho que desde Os Excêntricos Tenenbaums, o único que eu não assisti foi O Fantástico Sr. Raposo (Afora seus curta-metragens).
Gosto do cinema de Wes Anderson, de seu jeito quase estranho de fazer filmes, com aquelas tomadas assinatura de personagens olhando direto pra câmera com cara de quem está confuso, e suas histórias carregadas de sensibilidade e de humor, e, ao contrário de alguns fãs do cineasta, não acho que ele deva mudar sua forma de fazer cinema, pois, pra mim, ela funciona, ainda que não empolgue tanto quanto a crítica especializada, mas eu sou apenas um nerd que adora cinema, e não necessariamente entendo do assunto.
De qualquer forma, eu não sou um fã apaixonado do cinema de Anderson, ou não era, até ver O Grande Hotel Budapeste.
No filme conhecemos a história de monsieur Guastave H. (Ralph Fiennes, brilhante), concierge do Grande Hotel Budapeste do título, uma joia da prestação de serviços de hospedagem encravada nas montanhas da fictícia nação leste-européia de Zubrowka nos anos entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.
As aventuras de M. Gustave, são lidas por uma jovem aos pés da estátua de um celebrado autor (Tom Wilkinson), que nos remete a um documentário gravado e narrado pelo próprio, onde ele relembra sua passagem pelo Grande Budapeste, quando, na juventude (vivido por Jude Law), pôde ouvir o conto da boca do proprietário do hotel, Mr. Moustafa (F. Murray Abraham) em pessoa, numa estrutura narrativa com cara de matrioska, com história dentro da história dentro da história.
História essa que nos remete ao ano de 1932, quando a partida de uma iminente hóspede do hotel, madame Céline Villeneuve Desgoffe und Taxis, uma abastada viúva de 84 anos (Tilda Swinton, irreconhecível) e um dos muitos casos amorosos de monsieur Gustave, um artista na arte de entreter velhas senhoras ricas, faz o concierge notar a presença do novo mensageiro, Zero Moustafa (o estreante Toni Revolori).
Monsieur Gustave toma o jovem Zero como seu protegido, e passa a instruí-lo na arte sutil de ser um mensageiro perfeito, mas a notícia da morte de Madame Céline, e a presença de monsieur Gustave em seu testamento, sendo agraciado com uma notável pintura renascentista, o coloca em rota de colisão com toda a família da falecida, em especial seu impossivelmente malvado filho, Dmitri (Adrien Brody), que com a ajuda de seu capanga Jopling (Willem Dafoe, sensacional), não medirá esforços para impedir que Gustave consiga qualquer migalha da fortuna de sua mãe, dando início a uma série de eventos que formam a deliciosa trama farsesca com cara de cinemão de antigamente temperado com o humor esperto de Anderson que é O Grande Hotel Budapeste.
É excelente.
O longa-metragem talvez seja o trabalho de Anderson que mais se beneficie das obsessões do cineasta na hora de filmar. Dos enquadramentos dramáticos ao trabalho de direção de arte esmerado passando pelos planos-sequência com movimento de câmera pensado em cada milímetro, tudo funciona para dar a O Grande Hotel Budapeste a cara que ele tem, e que é a que precisava, uma farsa tragicômica que esconde em meio ao riso uma homenagem ao cinema dos anos 30 e 40, assim como a todo um capítulo da História da cultura. Um capítulo que seria fechado com a eclosão da Segunda Grande Guerra.
A Europa do início do Século XX.
Oculto entre os vilões que retorcem seus bigodes, às moças camponesas de coração puro e aos improváveis heróis criados pelas circunstâncias estão a Europa oriental sendo subjugada pelos alemães, e depois entregue ao comunismo, a perseguição à minorias étnicas e os refugiados de zonas de conflito. Nada que transforme Wes Anderson em um documentarista, mas que serve para mostrar que o diretor/roteirista é capaz de ir além do núcleo familiar problemático para contar suas histórias.
Ajuda o diretor ter, em mãos, um tremendo de um elenco, que tem atores que já participaram de produções de Anderson (Brody de Viagem a Daarjeling, Dafoe e Jeff Goldblum de A Vida Marinha com Steve Zissou, Swinton, Edward Norton e Harvey Keitel de Moonrise Kingdom), os atores recorrentes de praticamente todos os filmes do cineasta (Bill Murray, Jason Schwartzman, Owen Wilson, Bob Balaban, todos em pontas), além de Mathieu Almaric (o mordomo Serge X), a deliciosa Léa Seidoux, e Saoirse Ronan, todos ótimos mas eclipsados pelo verdadeiro dono do filme, Ralph Fiennes.
É ele o autêntico protagonista de direito em O Grande Hotel Budapeste, esbanjando uma insuspeita veia cômica de fazer chorar de rir em alguns momentos e capaz de emocionar em outros, genuinamente se divertindo com seu trabalho, e sendo a alma do filme com seu inexplicável concierge, amante de poesia que volta e meia pragueja palavrões e xingamentos de fazer corar de vergonha, que não fica sem seu perfume L'Air de Panache, que usa em grandes quantidades, e um apaixonado por velhas senhoras a quem chama, nada sutilmente, de "cortes mais baratos".
Em suma, Wes Anderson acerta em tudo, da estrutura narrativa à direção de elenco, passando pela forma de contar sua história, escondendo suas influências, mensagens e homenagens em meio a uma comédia que diverte e faz rir, mas que não abre mão da nostalgia e da melancolia habituais do trabalho do cineasta.
Bravo, senhor Anderson. Tem um novo fã de seu trabalho.
Um dos melhores filmes do ano. Assista no cinema.

"Veja só, ainda permanecem tênues fagulhas de civilização neste matadouro bárbaro outrora conhecido como humanidade. De fato, isto é o que provemos em nossos próprios modestos, humildes, insignificantes... Ah, que se foda."

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Resenha DVD: Need for Speed - O Filme


Filmes baseados em videogames, eu já dizia alguns dias atrás, são sempre ruins.
É difícil saber a causa disso. Videogames recentes como The Last of Us, a série Uncharted, Red Dead Redemption e GTA IV tê histórias excelentes, recheadas de drama e personagens incrivelmente humanos, de modo que não se pode mais culpar a falta de profundidade da fonte pela incompetência da adaptação.
Mesmo a mais longeva e bem sucedida franquia cinematográfica nascida de um videogame, a série Resident Evil, estrelada por Milla Jovovich, é composta por cinco filmes muito ruins, que são inferiores mesmo à pior edição da série gamística.
Atrocidades como Super Mario Bros, Street Fighter, Alone in the Dark, Max Payne e Bloodrayne só servem pra fazer todo mundo lembrar de Mortal Kombat (1995) como a melhor adaptação de um game para cinema, e manter a audiência que valoriza seu dinheiro e tem algum resquício de cérebro funcionando longe dos cinemas quando estreia uma nova pérola da mesma estirpe.
Foi, aliás, o que eu fiz quando Need for Speed - O Filme, estreou nos cinemas alguns meses atrás. Passei longe. Bem longe.
Mas acabou que o filme saiu em DVD, eu estava com uma tediosa tarde chuvosa pela frente, e não tinha nenhum outro filme que eu ainda não tivesse visto na locadora, de modo que pensei em alugar NfS - O Filme, nem que fosse apenas por curiosidade mórbida e pra engrossar a minha lista dos piores do ano em dezembro.
No longa dirigido por Scott Waugh, que tinha no cartel apenas o longa Ato de Valor (exceto por alguns trabalhos como assistente de direção e diretor de segunda unidade), conhecemos Tobey Marshall (Aaron Paul, de Breaking Bad, bitch), um jovem dono de uma oficina de customização de automóveis no interior do estado de Nova York.
Além de ser um ótimo mecânico, Tobey também é um piloto talentoso, que complementa seus ganhos na oficina com corridas de rua.
Após uma dessas corridas, Tobey recebe a visita de seu antigo rival Dino Brewster (Dominic Cooper).
Dino fez fortuna pilotando na Indy e em outras ligas profissionais, e hoje é noivo de Anita (Dakota Johnson), ex-namorada de Tobey, com quem vive em Manhattan. A despeito das animosidades entre os dois, Dino reconhece que Tobey e sua equipe são os melhores customizadores de automóveis, e lhes oferece a possibilidade de concluir o trabalho de restauração de um Ford Mustang que estava sendo trabalhado pelo legendário designer Carroll Shelby, que morreu sem concluir o projeto.
Dino oferece a Tobey e sua equipe 25% do valor do carro, estimado em 2 milhões de dólares. A contrag0osto, mas ameaçado por dívidas, Tobey aceita o projeto, e conclui a restauração do carro, que acaba sendo vendido acima do valor estimado por Dino. Entretanto, após a conclusão do negócio, Dino e Tobey discutem, e apostam o valor integral da venda em uma corrida de rua com carros idênticos, os velocíssimos Koenigsegg Agera de seu tio.
Havendo três carros, o membro mais jovem da equipe de Tobey, Pete (Harrison Gilbertson), pede para participar.
Durante a corrida, enquanto Tobey lidera, Pete e Dino lutam pelo segundo lugar, até Dino desviar o carro de Pete, que gira, capota, e despenca da ponte, causando sua morte.
Dino desaparece após o acidente, e Tobey, tentando resgatar o amigo, é preso, e cumpre dois anos por homicídio culposo.
Ao sair da prisão, ele tem apenas uma coisa em mente:
Provar sua inocência, e se vingar de Dino. Para isso, planeja participar da legendária corrida conhecida como DeLeon, organizada pelo excêntrico Monarch (Michael Keaton, surtado como em Os Fantasmas se Divertem), para isso, porém, ele precisa cruzar o país violando sua condicional, e de um carro veloz, como o Mustang de Carrol Shelby, para as duas coisas ele precisará do apoio de sua equipe, e da ajuda da especialista em carros Julia Maddon (A delicinha Imogen Poots).
E quer saber? Não sei se era por ter as expectativas abaixo de zero, mas eu gostei de Need for Speed - O Filme. Diria, inclusive, que é de longe, a melhor adaptação de um videogame para o cinema. De longe.
Lógico que não é um grande filme, é repleto de defeitos que vão das sequências de ação nonsense à má qualidade das sequências dramáticas, mas, que diabos, é um filme de corridas de carros baseado em um videogame... Eu consegui me envolver com o drama do protagonista, achei a mocinha adorável com seu sotaque britânico excessivo, e desprezei o vilão, torcendo para que ele fosse pego. Se as sequências de corrida não chegam a ser brilhantemente filmadas (há um óbvio excesso de cortes que tira um pouco do tesão da velocidade), os carros são magníficos, e mesmo a insistência com o Shelby mustang, é justificável, afinal, é um puta carro, especialmente a versão vermelha que aparece no final.
Em suma? Eu gostei. Acho que limpa o chão com qualquer um dos Velozes & Furiosos (uma franquia cada vez mais afundada no pastiche.), faz justiça ao game e diverte. Quer gulty pleasure melhor que isso?
Alugue e divirta-se.

"-Pilotos devem correr. Tiras devem comer rosquinhas."

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Resenha DVD: Operação Invasão 2


Quem não viu o primeiro Operação Invasão, bom sujeito não é.
Estamos falando de uma das melhores fitas de ação e artes marciais dos anos recentes. O longa dirigido pelo galês Gareth Evans mostrava uma operação de invasão (dã) da polícia de Jacarta a um edifício que servia de covil a traficantes de drogas. Descobertos pelos bandidos e traídos por seu superior corrupto, o tenente Wahyu, todo o esquadrão era massacrado, á exceção do policial Rama (Iko Uwais), que carregando o colega Bowo gravemente ferido, resolvia partir contra os criminosos até alcançar o chefão do crime Tama, uma tarefa indigesta à medida que, entre o policial e seu alvo, havia dúzias de criminosos armados até os dentes, incluindo aí o psicopata marcial Mad Dog.
Baita filme. Operação Invasão foi um tremendo sucesso entre fãs de longas de artes marciais, e graças ao boca-a-boca dos sortudos que viram o filme, ganhou o merecido reconhecimento que fez com que a sequência se tornasse particularmente esperada pelos fãs do estilo.
Novamente escrito e dirigido por Gareth Evans, Operação Invasão 2 começa imediatamente após o desfecho do primeiro longa.
Rama está frente a frente com o policial Bunawar, seu colega ferido, Bowo, e o tenente corrupto Wahyu. Após encaminhar Bowo para o hospital, e Wahyu para o necrotério, Bunawar faz uma proposta a Rama.
Seu triunfo contra Tama e seus homens, foi pequeno comparado ao grande trabalho de eliminar o crime de Jacarta, mas notável o suficiente para fazer com que Rama entrasse no radar dos sindicatos do crime, repletos de policiais e políticos corruptos e muito acima de Tama e seus homens.
Bunawar faz parte de uma pequena força-tarefa disposta a tudo para derrubar esses homens. Os verdadeiros chefões do crime da Indonésia.
Ele faz uma proposta a Rama:
O grupo de Bunawar pode garantir a segurança da esposa e do filho do policial, mas ele terá que se infiltrar na organização do perigoso Bangun, um dos cabeças do crime organizado local com laços profundos com policiais sujos como o comissário Reza.
Para se infiltrar nesse grupo, Rama precisa abandonar sua identidade como policial, e sua família. Ser preso como um delinquente, e fazer amizade com o filho de Bangun, Uco, também encarcerado.
Reticente no princípio, Rama acaba se convencendo da necessidade de proteger sua família, e aceita a missão.
Após dois anos preso, Rama, agora atendendo pela alcunha de Yuda, se tornou amigo de Uco, e é acolhido na organização criminosa de Bangun, o lançando nas entranhas do mundo do crime de Jacarta, onde a corrupção, a violência e a traição estão em toda a parte, um mundo difícil de se adentrar, e quiçá impossível de abandonar com vida!
Muito mais preocupado com trama e desenvolvimento de personagens do que o primeiro filme, Operação Invasão surpreende pelo andamento muito mais cadenciada, que abre mão da ação vertiginosa e quase ininterrupta do antecessor por uma intricada rede de intrigas e trairagens entrecortada por uma sequência de ação aqui e ali até o adrenalínico final.
Gareth Evans mantém o bom toque pra tensão e porradaria do primeiro filme, mas também abre o leque. Embora as atuações do longa sigam o modelo oriental, muito mais teatral e cheio de caras e bocas do que estamos acostumados, alguns atores conseguem se destacar como Arifin Putra, intérprete de Uco, mas ninguém estraga o filme por não saber atuar, mesmo Yayan Ruhian (intérprete de Mad Dog no primeiro filme, que retorna na sequência em outro papel) se esforça para dar estofo ao seu personagem.
Eu sei, a qualidade das atuações pode parecer irrelevante em um filme de ação indonésio, mas não se engane. Como eu disse antes, Operação Invasão 2 é muito mais cadenciado do que o filme original, se estendendo por duas horas e meia que não são porrada do início ao fim, então, não faz mal nenhum que os atores ao menos saibam quem seus personagens são. Por sorte Gareth Evans já tinha mostrado que consegue fazer isso no primeiro filme, quando, em menos de dez minutos, com mínimo diálogo, já havia estabelecido a identidade de seus heróis e vilões, e se alguns deles eram cartunescos então (Rama, Andi, Tama e Mad Dog eram todos personagens arquetípicos), continuam sendo agora, alguns até mais (como Alícia Hammer Girl, o Homem com o Bastão de Beisebol, Bangun, Uco, Eka e Prakoso, novo personagem de Ruhian), mas isso não importa, nem tira o brilho do longa, que se equilibra entre a trama do tira disfarçado evocando Os Infiltrados, e a ultra violência de uma fita de artes marciais. Se o durante do filme, vez que outra faz a audiência duvidar que está, de fato, vendo uma sequência do primeiro The Raid, o final do longa metragem, regado com sangue, martelos, bastões de beisebol, facas karambit e pancak silat pra tudo que é lado deixa absolutamente claro qual é a linhagem dessa segunda parte.
Alugue e divirta-se, vale horrores a pena.
E que venha Operação Invasão 3.

"-Não... Pra mim, chega."

Resenha Cinema: Sob a Pele


Quem leu a premissa de Sob a Pele, filme de alienígena comedora de gente disfarçada de mulher-sonho-de-consumo-de-qualquer-homem-em-idade-reprodutiva-ou-não, certamente teve lembranças de A Experiência e Garota Infernal, pra ficar nas mais óbvias evocações de o que seria um filme com essa premissa estrelada por Scarlett Johansson, que está na lista de top-10 mulheres gostosas do cinema de qualquer homem (certamente está na minha).
Curiosamente o diretor Jonathan Glazer (do bom Sexy Beast e do péssimo Reencarnação) foi na contramão de tudo o que era óbvio na hora de adaptar o livro de mesmo título escrito por Michael Faber em 2001.
Sob a Pele começa com a construção da pele da alien sem nome de Johansson enquanto ela fala palavras em ordem alfabética para a criação de sua voz. Imediatamente após, vemos seu ajudante (o ex-piloto de corridas Jeremy McWilliams) arrancar uma mulher morta do meio do mato, e colocá-la nos fundos de uma van.
Lá, Scarlett, em sua gloriosa nudez de mulher de verdade, despe a defunta, e rouba suas roupas. Dali, ela faz uma parada em um shopping, compra um casaco e maquiagem, e inicia sua caçada, parando desconhecidos a pretexto de pedir informações, apenas para seduzi-los, e levá-los a seu abatedouro, onde eles são transformados em alimento.
O trabalho da alienígena operária vai bem, com sua beleza, sua vozinha rouca, e seus generosos atributos físicos, até mesmo sem querer ela obtém comida, entretanto, um encontro com uma vítima, acende uma fagulha de questionamento na caçadora, e ela começa a desenvolver empatia e compaixão por sua presa, a levando a uma fuga e a uma jornada para tentar se descobrir.
OK... Eu gosto de cinema... De cinemão espetaculoso, mesmo. Vingadores, O Homem de Aço, O Hobbit... Mas também sou capaz de curtir cinema mais autoral, me agrada a ideia de tentar desvendar um filme, ou de ver um filme que te obriga a pensar para acompanhar o que está acontecendo ao invés de mastigar a trama e regurgitar pra audiência.
Talvez com Sob a Pele, essa fosse a intenção de Glazer.
Criar um filme onde não há exposição excessiva, onde não há mocinhos ou bandidos, nem explosões, correria e perseguições, ou mesmo romances com final feliz.
Sob certa ótica ele consegue.
Não há nada hiper exposto em Sob a Pele. Nem sequer exposto, pra falar a verdade. Deduzimos que a personagem sem nome de Scarlett é uma alienígena pela abertura do filme e pelo pôster estrelado. Supomos que ela se alimenta dos homens, ou que ela alimenta alguém por causa de duas cenas que sugerem isso. Apenas sugerem.
Podemos deduzir que ela tem um tipo de supervisor... E podemos apenas supôr que a personagem central está fugindo dele quando se cansa de levar homens para a casa da sala negra...
Nada disso é explicado. Com cerca de uma hora e meia, há pouquíssimos diálogos em Sob a Pele, reduzidos à conversa fiada que a protagonista utiliza para seduzir suas presas. E se de certa forma é instigante que a primeira metade do filme, enquanto Scarlett caça, seja assim, despida de conversas e explicações (quem é que estaria interessado em mais uma mitologia besta de aliens comedores de gente? Podemos passar sem), a segunda metade, quando ela se rebela contra sua função, chegando a ser acolhida por um terráqueo, poderia e até deveria ter mais diálogos.
Mas não tem.
Tudo recai sobre as imagens.
As cenas são lentas, silenciosas, reduzidas ao som ambiente, à trilha sonora minimalista, ou entrecortadas por falas breves, tomadas contemplativas, e a criação muda de uma atmosfera muito mais agourenta e maçante do que amedrontadora.
Scarlett Johansson, único nome reconhecível do elenco, faz o que pode em um papel sem muito texto nem espectro emocional, sua função é ser atraente em algumas cenas e parecer perdida em outras, ela se esforça mas a verdade é que não salvaria Sob a Pele nem que passasse o filme todo pelada (tá... Talvez salvasse, vá...).
Em seu admirável esforço autoral para criar um retrato de uma humanidade falha, que passa cega às belezas da vida sem assumir o papel de vilão ou herói de sua própria história, Glazer e o roteirista Walter Campbell criaram um filme lento, que parece mais interessado em abrir brechas para a audiência ter ideias, do que em apresentar e desenvolver qualquer ideia própria.
Pra piorar, toda a trama arrastada e simbólica, se estende em sua marcha lenta sem oferecer nada de realmente relevante, e quando termina, o faz em um encerramento algo abrupto que não oferece desfecho à "não" história que acompanhamos nos noventa minutos anteriores.
Uma pena.
Até seria interessante assistir a um filme de alien sedutora devoradora de homens que almejasse mais. Sob a Pele, porém, não é esse filme.
Assista quando sair em DVD se quiser muito ver a Scarlett nua. É, no final das contas, o ponto alto do filme.

"-Você quer me tocar?"

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Resenha Cinema: Transcendence - A Revolução


É até surpreendente a quantidade de nomes e rostos reconhecíveis que Martin Pfister angariou para o elenco de seu debute na cadeira de diretor cinematográfico.
Lá estão Johnny Depp, Paul Bettany, Morgan Freeman, Rebecca Hall, Cillian Murphy (esses três últimos egressos de filmes de Christopher Nolan, com quem Pfister trabalhou por anos como diretor de fotografia), além de Kate Mara, Clifton Collins Jr. e Cole Hauser. Esse time nada desprezível se juntou ao cineasta para transformar em filme o roteiro do novato Jack Plagen sobre o cientista Will Caster (Depp), um dos maiores nomes da tecnologia de inteligência artificial, que após um atentado engendrado por um grupo terrorista tecnofóbico, vê-se as portas da morte.
Com um mês de vida pela frente, a esposa de Will, Evelyn, pede ajuda ao melhor amigo do casal, Max (Bettany), para escanear a mente do visionário moribundo, e fazer o upload dela em um poderoso computador, onde ele poderá viver indefinidamente como a primeira inteligência artificial verdadeiramente autônoma da história da humanidade!
Max e Evelyn sucedem em seu intento, e pouco após a morte de Caster, ele ressurge nas telas do computador onde sua consciência foi instalada.
De imediato, Will pede para ser ligado à internet, pois sua consciência expandida lhe permitirá realizar em pouco tempo os mais fantásticos avanços que a ciência jamais viu.
Conforme a sede de conhecimento e poder de Will cresce conforme sua mente evolui para uma entidade onipresente, os piores temores de Max e Evelyn parecem se concretizar a medida em que a única certeza para o evento que eles testemunham é o que pode não haver forma de detê-lo!
É visível a inexperiência de Pfister em Transcendence - A Revolução. Fica muito óbvia a falta de malandragem e traquejo do comandante do projeto para aparar as arestas que estão em toda a parte na fita. O roteiro de Plagen não ajuda. Além de não ser exatamente original, é repleto de uma qualidade meio pretensiosa, se achando mais esperto e relevante do que de fato é.
Não bastasse isso, de pouco vale ter um elenco conhecido e talentoso quando os atores são mal utilizados.
Johnny Depp está intragável no papel do cientista que vira computador, revivendo os maus momentos que parecem ter virado regra na filmografia recente do ator transformado em astro por Jack Sparrow, que tem usado sua influência e status para projetos cada vez piores.
Rebecca Hall, a feia mais gatinha de Hollywood também já viu dias melhores. Morgan Freeman e Cillian Murphy fazem figuração de luxo, só com caras e bocas, e Kate Mara, cuja única qualidade é ser bonitinha, está esquisita com um cabelo descolorido medonho. Se salva Paul Bettany, aparentemente o único ator do elenco que comprou a ideia do roteiro (também premiado por ter o único papel vagamente interessante), tentando atuar sempre que a oportunidade se apresenta, mas nada que salve Transcendence - A Revolução do naufrágio cataclísmico que ele efetivamente se torna.
É uma pena, mas ao menos serve de lição, para que, no futuro, Plagen e Pfister se toquem que para ser inteligente, um filme não precisa ser pedante.
Assista na TV a cabo, ou por curiosidade mórbida.

"-O que você está fazendo, Will? Nãos não podemos lutar com eles.
-Nós não vamos lutar com eles. Vamos transcendê-los."