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segunda-feira, 11 de maio de 2020

Resenha Filme: Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica


Ontem, na hora da janta, eu procurei, sem sucesso, algo para assistir na TV a cabo e abafar o pagode que meu vizinho de baixo ouvia em volume acima do razoável. Após zapear por filmes e programas que não queria ver, abri o Amazon Prime Video e me deparei com esse Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica (Porque "Avante", aparentemente é um título inaceitável para uma animação no Brasil), último lançamento da Pixar que esteve nos cinemas há pouco mais de dois meses e já surgiu no streaming provavelmente por causa da vida curta que os lançamentos cinematográficos tiveram nesse ano por conta da crise sanitária mundial.
À essa altura de sua história, a Pixar já angariou prestígio e realizações suficientes para ser uma legenda em seu campo. O estúdio de animação coleciona Oscars e bilheterias bilionárias e, em dado momento, provou-se uma força tão notável que a Disney, mãe dos estúdios de animação, sentindo a ameaça ao seu reinado, foi lá e comprou a Pixar com todos os seus criadores dentro.
É bem verdade que após anos de estrada o estúdio co-criado por Steve Jobs, tendo alcançado píncaros de excelência como Up, DivertidaMente e Viva, também chegou a uma visão de negócios que a fez embarcar em um sem-número de sequências que, de modo geral, empalidecem ante o material original (aparentemente Toy Story é uma exceção, mas eu jamais assisti nenhum) ainda que eu, pra ser bem franco, prefira Universidade dos Monstros a Monstros S.A., de toda a sorte, a Pixar, em seus anos na ativa, adquiriu a prerrogativa de se sustentar e agradar seus executivos muito bem com revisitas, dando-se ao luxo de lançar originais bissextos, caso de Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica.
O longa se passa em uma realidade habitada por criaturas fantásticas, elfos, ciclopes, fadas, centauros, faunos e sereias. Há muito tempo atrás, esses seres incríveis viviam em seu mundo usando a magia para ajudá-los a superar desde as tarefas mais triviais, até os maiores desafios. A magia, entretanto, era difícil de dominar. Demandava estudo e aptidão natural, de modo que, com o advento da tecnologia, todos os seres viram-se capazes de aproveitar as facilidades que, antes, estavam ao alcance apenas de magos, bruxos e feiticeiros.
O tempo passou, e todos deram as costas à magia que acabou esquecida.
É nesse mundo, habitado por seres incríveis, mas muito parecido com o nosso, que encontramos o jovem elfo Ian Lightfoot (voz de Tom Holland). Ele vive em um subúrbio cheio de casas em forma de cogumelo com a mãe Laurel (Julia Louis-Dreyfus) e o irmão mais velho Barley (Chris Pratt). O pai da dupla, Wilden (Voz de Kyle Bornheimer), morreu quando Barley era muito pequeno, e antes de Ian nascer, de modo que o irmão mais velho tem poucas lembranças do pai e o mais jovem sequer o conheceu.
Enquanto Barley é expansivo, auto-confiante e viciado em um jogo tipo Dungeons & Dragons, Ian é tímido, introspectivo, e deseja apenas ser capaz de tirar a carteira de motorista, fazer novos amigos e conseguir convidar os colegas para a sua festa de aniversário.
Claro, as coisas não funcionam assim, não é possível mudar sua personalidade em um passe de mágica apenas porque se deseja fazê-lo, e Ian falha em todas as suas resoluções. O jovem está arrasado com o fracasso quando Laurel lhe entrega um presente deixado por seu pai. Um presente que Ian deveria receber ao completar dezesseis anos. Um cajado, uma joia e um feitiço que, juntos, seriam capazes de trazer Wilden de volta por vinte e quatro horas.
Durante a execução da magia, porém, algo dá errado, e Wilden é trazido de volta apenas da cintura para baixo. Com a janela de tempo limitada, e o feitiço podendo ser usado apenas uma única vez, Ian e Barley precisam encontrar outra joia e completar o encanto para que eles possam passar o dia ao lado do pai antes de se despedir para sempre.
Os dois pegam a metade de Wilden e, a bordo de Guinevere, a van semi-funcional de Barley, partem em uma jornada que os levará da taverna da Mantícora (voz de Octavia Spencer), uma ex-aventureira transformada em dona de restaurante temático, até encontros com fadas motociclistas e fugas da polícia (incluindo o namorado de Laurel, o centauro Colt Bronco) em uma aventura para tentar encontrar um pouco da mágica perdida do mundo.
Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica está longe de se perfilar aos melhores momentos da Pixar.
O roteiro do longa, co-escrito pelo diretor Dan Scanlon mais Jason Headley e Keith Bunin é episódico em sua estrutura, com os protagonistas saltando de um lugar para pegar uma coisa ao próximo lugar para pegar a próxima coisa em uma série de pequenas "quests" com cara de RPG de mesa que até fazem sentido dentro da narrativa do filme, mas que acabam roubando da audiência a oportunidade de realmente conhecer seus personagens. É uma pena porque quando pisa no freio e permite que eles interajam uns com os outros de maneira significativa, nós temos a oportunidade de ver tudo o que o filme poderia ter sido de fato.
O trabalho do elenco de vozes (originais, não sei como é a versão em português) garante suporte para o longa o tempo todo. Tom Holland e Chris Pratt emprestam verdadeira química aos seus personagens, garantindo que mesmo as porções mais truncadas do texto, e há algumas, soem genuinamente gentis e carregadas de sentimento. O mesmo vale para Julia Louis-Dreyfus e Octavia Spencer, as duas são tão excelentes que me fizeram desejar que a aventura paralela que elas partilham durasse mais tempo e/ou fosse melhor ajambrada para que pudéssemos ter visto mais delas.
Tecnicamente falando o longa é bom, o design dos personagens não oferece nada de muito excitante, é tudo bem normal, a animação deles é boa mas não chega nem perto de ser memorável. A ambientação, porém, é adorável. A mistura dos elementos mágicos do mundo esquecido como os cogumelos gigantes, com as texturas contemporâneas de asfalto, postes telefônicos e lojas de conveniência é muito bem sacada e ganha vida graças ao ótimo trabalho de iluminação, mas competência técnica é algo que encontramos em qualquer animação digital lançada por um grande estúdio hoje em dia, e a Pixar criou a expectativa de dar vários passos além sempre que lança um novo filme. E sim, Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica anda certinho na trilha criada pelo estúdio. Seu durante é divertido e seu final, onde tenta descaradamente puxar as cordinhas emocionais da audiência para arrancar lágrimas, é emocionante, e sim, o longa sucedeu em seu intento comigo na noite de ontem, ainda assim, faltou mágica para a jornada dos irmãos Lightfoot se tornar um clássico da Pixar.
Da maneira como o filme está, me parece que seu lugar é realmente uma aprazível, mas nada memorável sessão de streaming na noite de domingo.

"Existe um poderoso guerreiro dentro de você. Você só tem que deixá-lo sair."