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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O Fim de Demolidor da Netflix


Dia triste para todos os fãs de séries e de super-heróis. A Netflix confirmou o cancelamento de Demolidor.
A série pioneira dos super-heróis da casa das ideias no serviço de streaming pode ter sido a porta de entrada para coisas como Punho de Ferro, Jessica Jones e Os Defensores, mas também pariu a ótima série do Justiceiro e foi, por si só, a melhor série de super-herói jamais feita.
A adaptação dos quadrinhos de Bill Everett e Stan Lee às telas de TVs, PCs e Tablets pelo mundo todo deu uma aula de como se faz uma série de super-herói.
Sem o maior dos orçamentos, o programa do diabo da guarda de Hell's Kitchen investiu pesado em estilo, originalidade e capacidade de condução de história para construir um programa que ficou tão acima dos demais seriados (e de muitos filmes) do mesmo gênero que chega a ser covardia fazer qualquer comparação. Não há nenhuma, Demolidor é única.
A série encontrou um raro equilíbrio para adaptações, onde conseguiu ser fiel ao material fonte e ao mesmo tempo, manter-se inesperada para o público iniciado enquanto desenvolvia seus personagens de maneiras que o leitor de quadrinhos não era capaz de antever.
Eu me lembro do choque de ver Wilson Fisk matando Ben Urich na primeira temporada, ou da forma como, na segunda temporada Elektra morre, não como uma vítima usada para atingir o protagonista, mas se sacrificando para salvá-lo de Nobu, cenários absolutamente diferentes dos que havíamos visto nos quadrinhos, mas honestos para com os personagens e servindo ao desenvolvimento da narrativa que estava acima de qualquer outra coisa...
Demolidor deu um passo adiante ao simplificar. A série não precisou de nada além de um chefão do crime para ter o melhor vilão da Marvel ao tornar Wilson Fisk, o Rei do Crime de Vincent D'Onofrio um personagem complexo, cheio de nuances e profundamente vivo.
Ao tornar o vilão uma pessoa de carne e osso, com motivações além de torcer os bigodes e destruir a humanidade, a série criou o antagonista definitivo porque, em diversas ocasiões, era impossível não ver o bandido da vez como um ser humano que, a despeito dos rompantes de ira e da frieza psicopata, se orgulhava do que fora capaz de construir sozinho, e ansiava por amar e ser amado, um chute nos ovos de qualquer uma das outras quinze ou vinte séries de super-herói que a TV disponibiliza hoje, e que são, sem qualquer apelação, demolidas (rá) por Demolidor.
Não era apenas um grande vilão, porém.
A atuação de Charlie Cox como Matt Murdock/Demolidor é simplesmente fantástica. O ator britânico capturou com perfeição a humanidade e a falibilidade do protagonista. Matt é um bom homem tentando fazer o bem, sim, mas também é alguém lidando com uma raiva profunda dentro de si. Um homem atormentado por uma vida de perdas que encontra tanto sentido em proteger os mais fracos quanto prazer em punir os culpados. Em outra brilhante demonstração de coragem, a série deixou claro que Matt gosta de machucar pessoas.
Orbitando o sistema binário que era a série, com seus dois sóis na forma do Demolidor e do Rei, havia um elenco fixo acima da média com Deborah Ann Woll interpretando uma Karen Page que tinha os mesmos pés de barro dos quadrinhos, mas de formas totalmente distintas, e o Foggy Nelson de Elden Henson, que era o melhor amigos que todos gostariam de ter. Não bastasse tudo isso, na segunda temporada tivemos o Justiceiro e a Elektra, e novamente, acertos em cheio.
A ninja assassina vivida por Elodie Young era tão apaixonante quanto ambígua, toda gosto por sangue, mas verdadeiramente apaixonada por Matt Murdock. Uma sobrevivente nata que estava disposta a morrer pela pessoa a quem amava. A despeito de muita gente torcer o nariz para a trama com Elektra ou para a escalação/atuação de Elodie Young no papel, eu acho as duas coisas sensacionais, e o final da temporada, com uma luta de ninjas nos telhados de Nova York, era exatamente o que eu queria ver.
Antes disso, porém, tivemos o Frank Castle de Jon Bernthal.
E eu só preciso de uma cena para deixar claro o tamanho do acerto na escalação de Bernthal no papel: No quarto episódio da segunda temporada, a cena onde Castle e Murdock conversam no cemitério, quando o Justiceiro, que até então era pouco mais que um saco de ódio alvejando, espancando e apunhalando bandidos abraça toda a humanidade do mundo entregando um monólogo de esmagar o coração ao Demolidor, que, compadecido do homem que até pouco tempo atrás era um inimigo, derrama lágrimas.
Pode-se argumentar que ter um elenco acima da média seja a razão para tanta superioridade de Demolidor em relação a outras séries, e eu não vou discutir, entretanto, ter tido diretores e produtores dispostos a dar espaço para que esses atores brilhassem e roteiros que dessem um passo tão além na esfera emocional é tão fundamental quanto.
E se nada disso foi capaz de deixar claro o quanto Demolidor é melhor que qualquer outra série de super-herói, então eu ofereço a cartada definitiva: A ação.
Nenhum outro programa tem uma coreografia de lutas tão sensacional. Nenhum outro programa tem cenas de ação tão boas com os dois pés cravados na realidade. Nenhum outro programa teve as cenas do corredor.
A primeira delas, no segundo episódio da primeira temporada, é provavelmente a melhor cena de luta da história da TV, sem discussão (e que me desculpe Into the Badlands), e a cena da escada na segunda temporada, e a da prisão, na terceira, podem perder em impacto, mas são visualmente impactantes, tecnicamente desafiadoras e espetaculares cada uma à sua maneira.
Agora, após uma terceira temporada tão boa quanto as outras duas, a Netflix cancelou a série como eu temia, provavelmente porque esses personagens reverterão à Marvel/Disney, que pretende usá-los em seu vindouro serviço de streaming Disney + onde eles todos poderão ganhar versões com censura 12 anos e render dinheiro pra Disney direta e não indiretamente.
Seja como for, eu sou desde já uma viúva de Demolidor. Uma viúva de Charlie Cox, Vincent D'Onofrio, Deborah Ann Woll, Elden Henson e todos os demais atores, roteiristas, diretores e produtores que ajudaram a construir o que ficará marcado como o pináculo das adaptações de quadrinhos para qualquer mídia.
Para a série que demoliu toda a concorrência.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Resenha DVD: Os Incríveis 2


À essa altura, acredito que mesmo as pessoas que partilham meu desdém por animações (Que diminuiu muito nos últimos anos, devo dizer) já devem ter se rendido à Pixar.
O estúdio mudou as animações de patamar com sua fórmula de criar tramas simples o suficiente para agradar às crianças (tal minha sobrinha de quatro anos de idade), mas ao mesmo tempo sofisticadas o bastante para manter os adultos (como eu...) emocionalmente engajados. Filmes como Up - Altas Aventuras, Divertida Mente e Viva: A Vida é uma Festa são, para este humilde nerd que vos escreve, o ponto mais alto desse equilíbrio entre comédia infantil e debulhador de adultos, e se o leitor ou leitora estranhar a ausência de Toy Story nessa relação, perdoem-me, mas Toy Story é um dos filmes da Pixar que eu jamais assisti (Os outros são Carros, Vida de Inseto e O Bom Dinossauro).
Seja como for, a Pixar já se tornou uma marca muito maior do que o rótulo de "animação" é capaz de comportar. Não são meras animações, são "Filmes da Pixar", e, em seus melhores momentos, são apostas certas para o Oscar de sua categoria, afagados pela crítica e estrondosos sucessos de bilheteria, nos piores, são apenas uma dessas coisas.
Os Incríveis, longa de 2004 que eu jamais tive em altíssima conta, foi um representante do primeiro caso. O filme de Brad Bird mostrava um mundo de super-heróis e vilões onde o governo tornara os super-humanos ilegais por conta da destruição causada por suas intervenções contra o crime, forçando ex-super-heróis a esconderem suas identidades e levarem vidas simples ocultando seus poderes.
Uma divertida comédia de super-herói que lidava, à maneira da Pixar, com temas mais complexos abaixo da superfície, de crises de meia-idade à rotina de um casamento desgastado aos problemas da adolescência até o que torna uma pessoa especial, o longa de Brad Bird fez uma legião de fãs, concorreu a quatro Oscars, vencendo em duas categorias e se tornou o filme Pixar favorito de muita gente.
Por isso surpreende que tenha levado longos quatorze anos para que uma sequência fosse lançada, mas, considerando-se o histórico do estúdio, poderia-se supôr que tanto tempo foi necessário para que os escritores encontrassem uma história que justificasse a sequência...
Mas não é bem o caso.
A trama de Os Incríveis 2 se inicia imediatamente de onde o primeiro longa terminara.
Após destruir o robô assassino do Síndrome, a família de heróis é confrontaram pelo vilão Escavador e imediatamente parte para o combate tentando impedir que o bandido leve a cabo seu plano de assaltar bancos com resultados severamente danosos à infraestrutura da cidade.
Pior, embora os Parr tenham aceitado sua vocação heroica, o ponto é que as atividades super-humanas seguem ilegais e como desgraça pouca é bobagem, o programa governamental que amparava e ocultava os super-heróis está sendo encerrado pelo governo e Bob (Craig T. Nelson) está desempregado após sua saída da companhia de seguros e de seu emprego dos sonhos como super-herói remunerado ser parte dos planos de vingança do Síndrome.
Quando Helen (Holly Hunter) e ele se põe a pesar suas opções para o futuro, eles recebem o chamado de Lucius Best, o Frozone (Samuel L. Jackson) que os informa de uma nova chance para os super-humanos saírem da ilegalidade na forma do magnata Winston Deavor (Bob Odenkirk), que, apaixonado por super-heróis, deseja ajudá-los a retornar à ribalta e planeja fazer isso através de uma campanha de marketing encabeçada, não pelo Senhor Incrível, cujo modus-operandi é considerado demasiado destrutivo, mas pela Garota-Elástica, que tem poderes mais controláveis e uma personalidade mais comedida.
Com a ajuda da Garota Elástica e das invenções de sua irmã, Evelyn (Catherine Keener), Winston quer mostrar ao mundo o ponto de vista dos super-heróis na hora de combater ao crime, forçando as autoridades a perceberem quanto bem os super-heróis podem fazer pelas pessoas.
Isso deixa Bob com a tarefa de tomar conta do lar, e dar um jeito de cuidar das crianças, uma tarefa que nem toda a força do Senhor Incrível poderá tornar mais fácil.
Enquanto Helen se vê ás voltas com o trabalho heroico que inclui a caça ao vilão Hipnotizador, Bob precisa ajudar Dash com a lição de casa, Violet a lidar com o fato de sua paixonite do colégio, Tony, ter tido a memória apagada após flagrá-la sem máscara, e Jack-Jack estar manifestando um bocado de poderes de forma aleatória.
Eu não sou um dos maiores fãs de Os Incríveis de modo que o porquê de o filme ser tão cultuado, francamente, me foge um pouco.
Por mais que eu entenda o sub-texto do primeiro longa e sua mensagem para a audiência mais velha, eu acho que muito do hype de Os Incríveis é excessivo, da mesma forma, eu não entendo toda a excitação do público para com esse segundo filme e sua monstruosa bilheteria.
Os Incríveis 2 é uma boa aventura. Um filme divertido e movimentado com o habitual desfile de boas sacadas de Brad Bird na hora de conduzir sequências de ação, um grande trabalho do elenco de vozes e uso esperto dos avanços da computação gráfica nos últimos quatorze anos, mas meio que é isso...
A história praticamente repete a trama do primeiro filme, apenas invertendo os papéis do Senhor Incrível, que dessa vez fica em casa à beira de uma crise de nervos, e da Garota Elástica que é quem sai para se aventurar como nos velhos tempos e aprende uma lição. Violeta meio que precisa repetir seu arco do primeiro filme, Dash segue sendo um pé no saco em alguns momentos e engraçadinho em outros, e Jack-Jack é o minion da vez, com seus poderes aleatórios brotando para dar graça à qualquer momento em que o roteiro precise de uma solução fácil ou um momento cômico. Além disso as tramas narrativas paralelas são tão importantes cada uma à sua maneira que temos a impressão de estar assistindo mais de um filme ao mesmo tempo, o que, ao menos, nos dá a certeza de que eventualmente o filme retomará a nossa linha narrativa preferida (pra mim foi a desventura de Bob em sua luta para ser um dono de casa. Digam o que quiserem, mas eu sou capaz de me compadecer por um homem removido do papel de provedor da família).
Apesar de seus defeitos, Os Incríveis 2 ainda é uma bela sessão de entretenimento, e dá uma surra na maioria das outras matinês despretensiosas semelhantes. Não é qualquer animação, é um "filme da Pixar", e isso é garantia de, no mínimo, um pouco de diversão.

"-Eu perdi o primeiro poder do Jack-Jack?
-Na verdade perdeu os primeiros dezessete..."

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Resenha Game: Marvel's Spider-Man: Turf Wars


Eu achei que seria complicado colocar Red Dead Redemption 2 de lado por algum tempo e voltar a me dedicar ao Homem-Aranha da Insomniac para a segunda parte da trilogia de DLCs A Cidade que Nunca Dorme, intitulada Turf Wars, mas, e isso é um testemunho da qualidade do game aracnídeo, não foi nem um pouco.
Bastaram alguns minutos ouvindo um medley de trilhas sonoras do Homem-Aranha no cinema e eu já estava pronto para vestir o colante azul e vermelho e retornar àquela vibrante e colorida Nova York do game para ver o que aconteceria com o cabeça de teia após o desfecho de The Heist, o capítulo lançado em outubro.
Mas, rapaz, o pessoal da Insomniac entrou de cabeça no negócio de fazer com que o segundo capítulo da trilogia seja o mais sombrio de todos. Pegando na vertente de De Volta Para o Futuro 2, As Duas Torres e O Império Contra-Ataca, Turf Wars quase inteiro se desenrola sob um céu cinzento e com uma chuva incessante enquanto nosso herói une forças com a capitã Yuriko Watanabe para tentar colocar fim à onda de crimes perpetrada pelo chefão mafioso Cabeça de Martelo, que, munido de armamento da Sable Internacional, declarou guerra à polícia e às outras famílias do sindicato criminoso da Maggia para se tornar o único chefão do crime de Nova York.
A ideia de tornar o game mais esmaecido e sombrio nessa segunda incursão extra é bastante esperta.
A ambientação deixa o game com cara das histórias do Homem-Aranha dos anos 80, e eu não pude deixar de sentir reminiscências da saga do Devorador de Pecados enquanto jogava mesmo que as tramas pouco tenham a ver uma com a outra.
O senso de urgência que o desenrolar da trama tenta passar, com todos os eventos transcorrendo ao longo de um único dia é outro elemento bem sacado, com um Peter Parker mais preocupado e, por consequência, menos falastrão do que havíamos nos acostumado (embora, ainda falastrão o bastante para parecer estranho após os eventos de The Heist, ainda que não fique claro quanto tempo se passa entre um capítulo e o outro).
O ponto é que, entre missões de história, desafios e crimes aleatórios, Turf Wars segue basicamente a mesma estrutura de The Heist, levando vantagem em alguns quesitos e desvantagem em outros.
Entre os pontos mais baixos estão os desafios da Screwball, e a vilã/streamer mais irritante do mundo transferiu muito de sua personalidade para os mini-games da vez. Nos quadrinhos eu achava a personagem chata, por causa do game, eu a odeio.
Em The Heist fomos apresentados aos interessantes desafios de engenhocas, mas em Turf Wars surgem os tenebrosos mini-games stealth que são, de longe, a coisa mais irritante que o jogo já nos obrigou a fazer e, por Odin, que eles fiquem de fora do próximo capítulo.
Em compensação, se em The Heist um dos crimes aleatórios era um minigame bobinho de passear com o robô-aranha caçando bombas embaixo de carros, em Turf Wars precisamos escoltar um comboio da polícia protegendo uma testemunha ou, ao invés de caçar as pinturas escondidas pelo ex-sogro, como no capítulo anterior, somos presenteados com a possibilidade de invadir negócios de fachada do Cabeça de Martelo em busca de arquivos encriptados que possam ajudar a incriminá-lo, e ainda que essas missões reciclem descaradamente os esconderijos do Senhor Negativo durante a história principal do game, o nível de desafio é bastante interessante, com uma mistura de inimigos desarmados, com pistolas, rifles, lança-foguetes e chicotes além dos brutos, dos mini-gunners e a inserção de capangas usando mochilas a jato com geradores de escudo.
Pode parecer um pouco excessivo e é. Mesmo os jogadores experientes que já estavam pra lá do nível 50, com cem por cento dos upgrades em todos os equipamentos e limpando o chão com a vagabundagem nos últimos capítulos da história principal vão se sentir desafiados quando estiverem em um espaço exíguo cercado por todos esses tipos de adversários ao mesmo tempo, eu garanto. E com a tendência a transformar cada uma das missões do jogo em uma pancadaria, uma das melhores ideias de The Heist, a inserção de objetivos secundários durante uma luta retorna triunfante, sendo particularmente bem utilizada numa das últimas sequências do game, envolvendo um tradicional misturador de cimento mafioso.
Seja como for, o final de Turf Wars é realmente onde a história se torna mais interessante, com uma divertida luta contra o Cabeça de Martelo que leva a um desfecho bastante dramático e abrupto.
Yuri Watanabe, talvez seja a personagem que sai mais beneficiada desse capítulo, ganhando um background e motivações além de ser um recurso para justificar a relação amistosa entre o Homem-Aranha e a polícia, e é dona de alguns dos melhores momentos nessa pouco mais de uma hora e meia de história.
A conclusão desse segundo capítulo pode não ser a oitava maravilha do mundo, eu sei, especialmente porque a dinâmica entre Peter e Felícia, uma das coisas mais bacanas de The Heist, não existe, mas definitivamente prepara o terreno para Silver Lining tentar trazer a história de volta ao lado da luz.
Tchau, Peter. Nos vemos de novo em dezembro.

"-É hora de trazer o medo de volta."

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Amar o Todo


Nós nunca brigamos...
Eu sei, de fato, que houve mais de uma vez em que eu te desapontei.
Que eu vi decepção nos teus olhos por causa de alguma coisa que eu fiz.
Ou não fiz.
Mas brigar, nunca brigamos.
Mal discutimos.
Me lembro de uma vez em que tu ralhou brevemente comigo.
Falando da tua raiva por eu não ter aparecido quando tu me esperava de calcinha vermelha.
Foram tuas exatas palavras.
E, acredite, tu nem precisava ter ralhado pra eu lamentar não ter aparecido.
Minha ausência não fora voluntária.
E mesmo que fosse...
A história da calcinha vermelha ficou na minha cabeça pra todo o sempre.
De qualquer forma, jamais brigamos.
Mal discutimos.
Eu me pergunto como seria uma briga nossa.
Se nós brigaríamos...
Porque, parando pra pensar, eu acho que não.
Nós não iríamos brigar.
Não haveria motivo.
Talvez, uma vez ou outra, tu ficasse brava comigo.
Eu provavelmente faria alguma coisa pra te irritar...
Não sei bem o que te irritaria a ponto de te fazer brigar comigo.
Mas eu possivelmente descobrisse ao inadvertidamente fazê-lo.
E tu brigaria e eu iria contra-argumentar e eventualmente nós dois cairíamos na risada.
Talvez tu me irritasse?
Acho que não.
Não imagino nada que tu pudesse fazer pra me irritar...
Mas talvez não fosse tu.
Talvez fosse... Sei lá...
Alguma situação ligada a ti, mas fora do teu controle...
Tu provavelmente sabe do que eu estou falando.
Desculpe.
E, alguma coisa me irritasse...
Mas, sabe... Não brigaríamos por isso.
Eu não sou um raivoso explosivo. Sou um raivoso amuado.
Tu me perceberia amuado e, talvez, se aproximasse de mim...
Me estendesse a mão, me acarinhasse...
Me fizesse te explicar desnecessariamente alguma coisa que tu já sabe...
Porque tu me conhece e sabe que eu adoro tecer teses sobre as coisas que amo.
Ou, talvez, brigássemos por causa de Star Wars.
Por uma das paixões que mais nos une.
Porque tu é capaz de relevar o que a Disney fez com a franquia e eu não sou.
E brigássemos porque eu odeio a Rey, o Kylo Ren, o Finn e a Rose (mas gosto do Poe).
E tu é capaz de ver algo de positivo nessa gente detestável toda...
Brigaríamos porque tu foi capaz de gostar de Os Últimos Jedi e eu acho isso inadmissível.
Porque eu fico de olhos marejados ao pensar na grandeza de Luke Skywalker...
Que arrancou, através de sacrifício e abnegação, Anakin das profundezas do lado sombrio...
E tu conseguiu achar algo de bom em ver o mesmo Luke desistir de tudo e se esconder.
E isso me deixaria muito, muito brabo.
Até eu me dar conta que é uma das coisas que eu amo em ti.
Tu ser capaz de sempre encontrar algo de bom nas coisas que tu ama.
De estar disposta a relevar o que há de pior porque tu ama o todo.
E isso, talvez, ser o que pode te fazer me amar.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Resenha Game: Red Dead Redemption 2


Ainda não tem um mês que eu estou jogando Red Dead Redemption.
Comprei o novo game da Rockstar, primeiro da desenvolvedora para a atual geração de consoles (GTA V, lembrem-se, é um game da geração passada lançado em versão remasterizada...) no dia da estréia, 26 de outubro, após uma pequena peregrinação, pois o game estava esgotado nas primeiras três lojas onde estive, e o joguei desde então com breves intervalos eventuais para me dedicar à minha carreira no FIFA 19.
Após pouco mais de três semanas, eu mal e mal arranhei a superfície da história de Red Dead Redemption 2, cheguei a completar 37% do jogo, mas uma missão opcional que eu não consegui completar martelou na minha mente complecionista de tal forma que resolvi recomeçar e, francamente, não me arrependo.
Red Dead Redemption é uma experiência massiva, sim, com suas 104 missões e sem-número de atividades paralelas, desafios, itens e encontros aleatórios o game pode consumir muito mais de 100 horas da vida de um jogador interessado (apenas terminar o jogo demanda algo entre 60 e 70 horas, segundo a Rockstar informou...), mas é uma experiência massiva da qual tomamos parte com gosto porque um mundo aberto jamais foi tão vivo ou tão lindo em um jogo de videogame.
Nosso avatar nesse mundo em constante movimento é Arthur Morgan.
Arthur é um dos membros mais antigos da gangue de Dutch Van der Linde. Há mais de vinte anos ao lado de Dutch e Hosea Matthews, os dois fundadores da gangue, Arthur é praticamente filho dos dois, e é um dos mais importantes membros do grupo, sendo o braço forte para qualquer necessidade, e, quando encontramos o bando, no início da primavera de 1899, eles estão em um momento de grande necessidade.
O velho oeste está mudando. Os Estados Unidos estão se tornando uma nação de leis civilizadas e não há mais espaço para a bandidagem de outrora. As forças federais se mobilizam para colocar um fim às atividades criminosas das gangues que assolam o país, e um dos principais alvos é a gangue Van der Linde.
Após um assalto dar terrivelmente errado na cidade de Blackwater com consequências trágicas para o grupo que precisa fugir por suas vidas. Com pinkertons e federais em seu encalço, o bando ainda é colhido por uma violenta tempestade de neve, e precisa deixar sua viagem para o oeste de lado, se abrigar em uma cidade de mineração abandonada, reagrupar e pensar em seus próximos passos.
É difícil não pensar nesse primeiro capítulo do game, com suas missões restritas a uma pequena porção do mapa e geralmente encabeçadas por um outro personagem que não Arthur, como um tutorial obrigatório enquanto conhecemos os demais membros da gangue. De caras novas, como o cozinheiro Pearson ou o mestiço Charles Smith, a velhos conhecidos como Javier Escuela e um jovem John Marston, as missões de Arthur Morgan nos levam a conhecer cada um dos membros da gangue Van der Linde enquanto assumimos um papel central na trama e no bando.
Como braço-direito de Dutch, não há missão na qual Arthur não tome partido, não há plano ou maquinação em que ele não se envolva. Arthur inclusive é incumbido de assumir as finanças do grupo após escaparem da nevasca. Se Dutch Van der Linde é o centro da gangue, Arthur é, junto com Hosea, a adjacência mais importante, e isso lhe dá o destaque que o game apresenta.
Esse destaque permite que o jogador faça as coisas em seu próprio passo. As atividades paralelas que o game oferece além da história principal são apresentadas de forma cadenciada, caçar, pescar, cavalgar ou simplesmente cometer roubos ou tomar partido em tiroteios têm mecânicas específicas que consomem várias horas de jogo, e ainda que essas missões sejam óbvios tutoriais, é agradável completá-las já que elas nos levam a conhecer melhor os membros da gangue e criar laços com eles.
Pode parecer supérfluo, mas não é. Red Dead Redemption 2 é a história de Arthur Morgan, sim, mas também é a história da gangue Van der Linde, e de como eles chegaram ao ponto em que os conhecemos no primeiro jogo. Saber como tudo acaba, mas não saber o que levou as coisas a acabarem dessa forma, é um elemento de tensão e tanto, potencializado exatamente pelos laços que o jogador forma com esses personagens ao longo do jogo.
Uma coisa que, ao menos até onde eu cheguei, ás vezes parece um pouco supérflua, é a saúde de Arthur e a forma semi-realista como ela é tratada.
Quando o jogador não come o suficiente, Arthur fica abaixo do peso. Se come demais, ele fica acima do peso.
Não há impacto notável desses aspectos sobre o desempenho do personagem no jogo, porém. Este, está mais ligado às habilidades core de stamina, dead eye e saúde, que pouco flutuam se o jogador consumir tônicos e itens específicos. Não há uma variação visual cartunesca de peso do protagonista como em GTA San Andreas, embora seja visível quando Arthur engorda, então, como ao comer, geralmente desperdiçamos tempo, minha versão de Arthur está sempre abaixo do peso.
"Minha versão", por sinal, não é um eufemismo. Ainda que, em diversas ocasiões fique claro que muito das escolhas oferecidas a nós durante o jogo sejam ilusórias (a história de Arthur é a tragédia de um bando de criminosos, afinal de contas), poucos jogos oferecem tamanha liberdade na hora de customizar o personagem. Prova disso é que, em todas as imagens do jogo que eu vi online, jamais me deparei com uma única que fosse sequer parecida com o visual que escolhi para o meu Arthur Morgan (fisicamente, eu usei o Wild Bill de Jeff Bridges como minha referência, enquanto o guarda-roupa é o de Yul Brynner e Denzel Washington em Sete Homens e um Destino...). Do comprimento e estilo dos cabelos e da barba (que crescem de forma relativamente realista), até as esporas, passando por camisas, coletes, casacos, botas, calças, suspensórios, chapéus, tudo pode ser escolhido pelo player e comprado em uma das inúmeras lojas espalhadas por essa versão dos Estados Unidos da América que é um espetáculo à parte.
Se estendendo de picos gélidos cercados por neve e lagos congelados do norte até pradarias verdejantes nas terras centrais e pântanos lamacentos no sul profundo o mapa é vasto e aberto.
Antes mesmo de começar a realizar missões eu já estava vagando pelo mundo apenas pelo prazer de enxergá-lo. Não é preciso ter um Playstation 4 Pro e uma TV 4K pra perceber a beleza desse mundo, o capricho que a Rockstar aplicou a cada detalhe da vegetação à fauna e a arquitetura. Conforme eu disse ali em cima, jamais houve mundo aberto mais lindo ou mais vivo em um game.
As diferenças entre as localidades não se resumem a geografia. É notável que, quando as colinas gramadas habitadas por cervos e coelhos se tornam brejos úmidos habitados por crocodilos as pessoas que vivem naquele local têm novos sotaques, novos backgrounds e os encontros aleatórios têm motivações distintas. Na bela e civilizada Saint-Denis alguns dos habitantes falam em francês como na Louisiana, e em Rhodes o povo sulista parece não ter superado a Guerra Civil que ocorreu quase 40 anos antes. Esse mundo segue se movimentando e evoluindo independente da vontade ou presença do jogador. Uma casa em construção pode ter sido concluída quando tu voltar à uma cidade visitada muitos capítulos antes, e as pessoas que vivem ali ainda podem lembrar do que Arthur fez a elas, para o bem ou para o mal.
A ausência de um sistema tradicional de viagem rápida (inicialmente não há nenhum, e apenas após um bom investimento no acampamento da gangue, é possível ativar um sistema de ida, mas não de volta) força o jogador a permanecer no lombo do cavalo por muito tempo, explorando o mapa todo à moda antiga. Pode parecer um grande sacrifício com um mapa tão grande, mas eu garanto, Red Dead Redemption 2 não é um game para apressadinhos, lamento. A exploração é uma parte importantíssima do Game, e eu prometo, é a parte onde o jogador tem mais voz ativa nas decisões, escolhendo, genuinamente o curso de ação. Seja uma pessoa perdida na mata precisando de um guia até a cidade mais próxima, seja uma mulher sendo sequestrada por um bandido ou um pobre diabo picado por uma cobra peçonhenta, esses são os momentos que oferecem mais gerência ao jogador sobre a forma como Arthur age e isso influencia diretamente o sistema de honra.
Eu não sei o tamanho que o sistema de honra tem sobre o desfecho do jogo que, segundo li, conta com três finais possíveis, mas ele certamente torna a vida do jogador mais fácil no decorrer da história.
Claro, ser um bandido simples e puramente garante mais dinheiro mais rápido, mas enquanto esse estilo de vida dificulta o trânsito pelo mundo por conta dos homens da lei, e força o player a gastar uma fortuna pagando recompensas para poder andar livremente pelo mapa, ter uma honradez elevada garante ótimos descontos nas lojas do jogo, um melhor trânsito com agentes da lei, e uma disposição melhor de parte da população em geral, além do mais, seguindo a história do jogo, Arthur obtém uma bela quantia apenas com as missões, sem contar caças ao tesouro, eventuais querelas com outros foras-da-lei e pura e simples exploração...
Um aspecto interessantíssimo do jogo é o diário de Arthur. Através dos escritos do caubói nós o conhecemos um pouco melhor, temos acesso a insights que ele jamais verbaliza de seus conflitos internos à sua visão dos demais membros da gangue. Arthur faz rascunhos de lugares que visita e de coisas curiosas que vê pelo mundo (e acredite, há muitas. De esqueletos gigantes à vampiros, passando por alienígenas e viajantes do tempo...) ao melhor estilo Nathan Drake, além de montar um pequeno compêndio dos animais que conhece e das plantas e ervas que descobre, mas essencialmente deixa claro que gostaria de ser uma pessoa melhor, e é difícil, enquanto condutor do personagem nesse mundo, não querer ajudá-lo a conseguir isso, mesmo que cumprir as missões do jogo meio que torne o esforço algo fútil.
Arthur é um criminoso afinal de contas, de modo que, de modo geral, suas missões em nome de Dutch incluem roubo, extorsão e assassinato. Logo no começo, após me esforçar para ajudar nas tarefas do acampamento, ajudar estranhos pelo mundo, ser gentil com animais e dar esmolas aos pedintes fui incumbido de viajar até uma cidade, executar uma fuga da prisão e matar todos os homens da lei num raio de quilômetros. Dificilmente coerente, devo admitir, e, conforme eu disse antes, o tamanho das nossas decisões é ilusório, mas importante para que o arco de personagem de Arthur faça sentido. E, por mais que, à certa altura, nós já saibamos mais ou menos como funciona a estrutura de qualquer uma das missões do jogo, há uma variedade grande o bastante para que, combinado com a exploração livre e atividades secundárias, nada se torne entendiante até porque, a paciência é recompensada por cada avanço no arco de todos esses personagens.
À certa altura, eu, que já havia me afeiçoado a Hosea, Mary Beth, Karen, Tilly, Charles e Lenny, me vi sentado e rindo com Bill Williamson, pescando com Javier Escuela e fazendo piadas com Dutch Van der Linde. Todos vilões do primeiro jogo, e isso diz muito a respeito da qualidade narrativa do game.
Se Red Dead Redemption era a história de John Marston, Red Dead Redemption 2 é muito mais do que a história de Arthur Morgan, é mais do que a história da gangue Van der Linde, é mais, até, do que a história dos estertores do Oeste Selvagem. É a história de uma ideia de comunidade e de como ela não tinha mais espaço em um mundo que se recusou a esperar. E através de Arthur Morgan e de seu jeitão matuto de desejar um mundo melhor mas conhecer seu lugar no mundo possível, nós experimentamos um conto muito mais amplo e reflexivo, ambientado em um mundo sem paralelo que é muito, muito difícil de querer deixar pra trás.

"-Nós somos ladrões em um mundo que não nos quer mais."

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Resenha DVD: Jurassic World: Reino Ameaçado


Eu acho que sou a única pessoa que conheço que odiou Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros de 2015. Eu realmente achei aquele filme tenebroso, o tipo de subproduto da necessidade da Universal de sugar até a última gota de leite da teta de uma franquia não importa a que custo. Mas, como disse, acho que fui o único. Jurassic World fez mais de um bilhão de dólares em bilheterias sendo um dos maiores sucessos do ano de seu lançamento e deixando bem claro que aquele seria apenas o primeiro longa de uma nova franquia.
Três anos se passaram e, em junho desse ano, os dinossauros estavam de volta pra um filme que eu obviamente não iria ver no cinema, mas que apanhei na locadora no sábado e assisti ontem.
O longa abre, como de hábito, com uma sequência envolvendo dinossauros e pessoas que acaba mal para as pessoas. Um grupo de mercenários está na Ilha Nublar para, aparentemente, apanhar amostras genéticas dos dinossauros na localidade, agora, abandonada.
Três anos após os catastróficos eventos de Jurassic World o parque temático foi fechado para o público e, descobre-se que, irresponsabilidade suprema, foi construído sobre um vulcão.
É difícil saber como Jon Hammond ficou tão rico sendo tão burro, mas enfim, o vulcão em questão, após anos inativo, volta a entrar em erupção, ameaçando a existência de cada dinossauro na ilha.
Um comitê do congresso norte-americano é montado com o intuito de decidir se o governo dos EUA deve intervir na questão, e uma das pessoas ouvidas pelos políticos é o doutor Ian Malcolm (Jeff Goldblum, em uma ponta).
Em seu discurso, o doutor Malcolm deixa claro que os dinossauros não deveriam estar aqui em primeiro lugar. Eles tiveram sua chance e foram extintos, evoluíram e a natureza seguiu seu curso. Colocá-los no mundo contemporâneo foi irresponsável e o resultado foram quatro tragédias de grandes proporções. Então, que a natureza siga seu curso, e que os dinossauros voltem a ser extintos.
Apesar de a posição de Malcolm fazer todo o sentido do mundo em seu pragmatismo e ser o suficiente para convencer os congressistas a negarem apoio governamental ao empreendimento privado, nem todos concordam com ele.
Claire Dearing (Bryce Dallas Howard, linda), a "Mulher-só-negócios" do primeiro longa, que ganhava a vida explorando esses animais geneticamente modificados e, inclusive autorizou a criação do Indominous Rex, agora toca uma ONG de proteção aos dinossauros e está lutando com unhas e dentes para encontrar uma forma de salvar as criaturas.
Sua chance de ouro surge na forma do contato de Eli Mills (Rafe Spall), administrador do pecúlio do multi-bilionário Benjamin Lockwood (James Cromwell).
Lockwood foi parceiro de Hammond nas pesquisas que criaram o processo de clonagem que permitiu a criação dos dinossauros em 1993, eles eventualmente romperam relações e seguiram seus caminhos separados, mas agora, para honrar a memória de Hammond, Lockwood e Mills compraram uma grande ilha onde os dinossauros serão deixados para viver por sua conta, sem barreiras, turistas ou corporações, em um idílio natural feito sob medida para eles.
A questão é, eles não podem salvar todos os animais em Jurassic World, então, precisam salvar alguns indivíduos de cada uma das onze espécies clonadas, e precisam fazer isso rápido, pois o vulcão não está esperando por ninguém. Para ter acesso ao sistema do parque, eles precisam de Claire no local para acessar a segurança biométrica e, estão particularmente interessados em Blue, a velociraptor treinada por Owen Grady (Chris Pratt), o ser não-humano mais inteligente da Terra.
Se inicialmente Owen está disposto a seguir a linha de Malcolm e ficar de fora, deixando a natureza seguir seu curso, ele logo muda de ideia e embarca para a Ilha Nublar junto com Claire e dois millennials, a veterinária Zia Rodriguez (Daniella Pineda), e o T.I. Franklin Webb (Justice Smith).
Assim que chegam na Ilha, porém, os quatro descobrem que foram passados pra trás pelo caçador-chefe Ken Wheatley (Ted Levine), e que a operação de resgate não é exatamente o que parecia ser, colocando Claire e Owen novamente em uma posição de precisar lutar por suas vidas e pelas vidas dos animais que tentavam salvar.
O mais irritante em Jurassic World: Reino Ameaçado, é que o filme começa interessante. Eu preciso admitir que, a despeito das óbvias falhas do roteiro de Derek Connoly e Colin Trevorrow, no primeiro ato do filme eu me vi interessado e investido na trama por mais rocambolesca que ela fosse.
Eu gostei da alegoria do aquecimento global, do dilema moral de deixar essas criaturas serem carbonizadas no parque temático mais mal localizado do mundo ser a coisa lógica a se fazer, mas haver uma responsabilidade para com animais que não pediram para ser trazidos de volta, mas foram e agora merecem seu quinhão de cuidado. Eu realmente fiquei com um nó na garganta com a cena do braquiossauro engolido pelas chamas no píer, então, preciso assumir que, até aquele momento, eu estava conseguindo suspender a descrença necessária para que o filme funcionasse e mesmo com todos os absurdos da sequência da erupção vulcânica, que deveria ter matado Justice Smith, Bryce Dallas e especialmente Chris Pratt se qualquer tipo de realismo fosse ser respeitado, eu pensei "Esse filme não é tããããããããããão ruim assim...".
Mas aí, da metade em diante, Jurassic World: Reino Ameaçado vai de um filme que demanda uma boa dose de suspensão de descrença, a um filme que só anda através de conveniências incrivelmente idiotas e decisões imbecis de cada um dos personagens.
De novo.
Veja, sem entrar muito na zona dos spoilers, a ideia do (óbvio) vilão do filme é, novamente, usar dinossauros como armas.
Para isso, ele transporta os animais resgatados da Ilha Nublar até uma mansão na Califórnia, ainda que houvesse uma ilha perfeitamente próxima e pronta para receber dinossauros em confinamento logo do lado: A ilha Sorna de O Mundo Perdido e Jurassic Park 3.
O roteiro faz com que todos os personagens, heróis e vilões, tomem sempre as decisões mais idiotas para fazer a trama andar e deixar a porta aberta para um terceiro filme. Joga as próprias regras pela janela quando convém à trama e bola sistemas absolutamente cretinos para transformar dinossauros em armas. O Indominous Raptor é o melhor exemplo, o dinossauro meio velociraptor, meio Indominous Rex (que já era meio Velociraptor, então, acho que é dois terços raptor, um terço T-Rex...?). O sistema consiste em apontar um dispositivo em forma de rifle, com mira laser de rifle para um alvo, e então apertar o gatilho desse dispositivo, que emite um sinal sonoro e faz com que o Indominous Raptor ataque o alvo em questão. É como um rifle que, ao invés de disparar uma bala, dispara um dinossauro. O ponto é, se tu tem um alvo na mira de um dispositivo em forma de rifle, não dava pra ter um rifle e simplesmente atirar no alvo?
É desse tipo de idiotice que eu falo. Ou do fato de que nem mesmo o dispositivo em questão é usado para justificar a longa sequência de perseguição do Indominous por dentro da mansão no terceiro ato do filme... Ou de que o Tiranossauro-Rex virou um recurso de roteiro estilo Deus Ex-Machina, surgindo, vez que outra, pra resolver qualquer situação...
Por mais que o diretor J. A. Bayona se esforce para criar momentos de tensão e, por vezes, consiga, como na sequência que abre o filme, com o T-Rex surgindo nas sombras iluminado por relâmpagos, a verdade é que à certa altura do filme estamos de novo com portas fechando bem devagar, heróis se esgueirando ao redor de móveis perseguidos por um lagartão, ou corridas desenfreadas e mordidas no ar porque isso funcionou no passado, e Jurassic World se recusa a tentar qualquer coisa de diferente.
Apesar de começar com uma ideia que, a despeito dos problemas de sua execução, poderia render um Jurassic Park um pouco diferente, o longa descamba para justificar mundo dos dinossauros literal no terceiro longa (ainda que apenas uns 40 animais tenham escapado vivos desse filme...), deixando claro que não é o melhor filme que importa, mas o que pode ser mais lucrativo no longo prazo.
Tão ruim quanto o filme anterior, só que mais triste, Jurassic World: Reino Ameaçado é um autêntico filme produto. Desprovido de alma, cérebro ou coração.
Espere passar na TV.

"Estamos diante de uma nova era. Bem vindos ao mundo dos dinossauros."

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Excelsior


Stanley Martin Lieber, um jovem novaiorquino de origem romeno-judaica provavelmente pensou que seu emprego como assistente na Timely Comics nos anos 40 era apenas um trabalho.
Ele dificilmente imaginou que o serviço que incluía apagar o lápis de páginas desenhadas pelos artistas e manter os frascos de nanquim cheios seria o primeiro passo de uma longeva carreira que o levaria a tocar milhões, quiçá bilhões de pessoas ao redor do mundo.
Stanley Martin Lieber provavelmente jamais anteviu o impacto que, o que ele considerava apenas um bico temporário enquanto se preparava para uma "carreira literária séria", teria na indústria em que atuava e na vida dos fãs ao redor do mundo.
Ele mudou a forma como olhamos para os super-heróis.
Ele os tirou de um patamar de pura idealização e os trouxe para o nível dos leitores.
Ele humanizou arquétipos habitualmente idealizados e fez com que cada um de nós fosse capaz de se reconhecer em alguma faceta dos personagens nas páginas.
Ele deu aos seus personagens preocupações além do cientista louco sequestrando a mocinha, do déspota tentando dominar o mundo, ou do ente alienígena tentando obliterar o universo. Ele deu a eles famílias. Doenças. Preocupações com contas, e com isso deu a cada leitor um amigo imaginário com aflições semelhantes às suas próprias.
É fácil ler seus trabalhos sessentistas, hoje, e considerá-los infantis, mas é bem provável que, sem aquelas páginas coloridas cheias de recordatórios de então, nós não tivéssemos visto Thanos chorar a morte de Gamora em Vingadores: Guerra Infinita.
Heróis não choravam nos anos sessenta, até Peter Parker derramar lágrimas ao descobrir que seu tio fora assassinado...
Heróis eram celebrados pela sociedade até os X-Men serem vítimas de preconceito...
Heróis não se descontrolavam até Bruce Banner ser banhado por radiação gama...
Heróis eram solitários até o Quarteto Fantástico ser uma família...
Heróis não tinham deficiências até Matt Murdock ser cego...
De qualquer forma, tudo o que pode ser dito a respeito do trabalho de Stanley Martin Lieber e seu impacto, vem sendo dito há anos, e foi repetido ontem. O que eu posso adicionar a isso, é o impacto que o trabalho dele teve em minha vida.
É o fato de que, talvez, sem as criações de Stanley Martin Lieber, eu não fosse o homem que eu sou hoje.
É o fato de que sem o contato com seus personagens não-idealizados, que cometiam erros, tinham falhas de caráter, mas que tentavam sempre fazer o bem, eu talvez fosse um ser humano pior.
Ontem, Stanley Martin Lieber morreu, aos noventa e cinco anos de idade...
Mas sua verdadeira identidade, Stan Lee... Essa viverá para sempre em cada um dos personagens que ele co-criou, e no coração de cada fã tocado por eles.
Excelsior.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Resenha DVD: Arranha-Céu: Coragem Sem Limite


Não há em Hollywood, atrevo-me a dizer, ninguém fazendo mais dinheiro do que Dwayne "The Rock" Johnson. O carismático e talentoso ex-lutador de luta-livre da WWE já foi chamado até de "viagra para franquias" pela maneira como seu nome em um letreiro é sinônimo de sucesso financeiro. Dos bilhões de dólares arrecadados pela franquia Velozes e Furiosos desde sua entrada no time até as surpresas como a enorme bilheteria de Jumanji: Bem-Vindo à Selva, The Rock chama público ao cinema, especialmente nos EUA.
Outra coisa que eu me atrevo a dizer é que a quantidade de dinheiro feita pelos filmes de The Rock não necessariamente se traduzem em qualidade. Velozes e Furiosos são filmes bem ruins quando minimamente escrutinados, Rampage é um filme muito, muito ruim, S.O.S. Malibu é medonho, Um Espião e Meio é uma bobagem absolutamente descartável. Eu não assisti Moana, e achei Jumanji surpreendentemente simpático considerando a ideia, a questão, porém, é que nos últimos dois anos Johnson esteve em oito filmes e duas séries de TV que provavelmente só existem por causa do carisma do ator que, de tão querido pelo público, vai transformar o vilão Adão Negro da DC em anti-herói...
Seja como for, no sábado fui até a locadora e encontrei este recém lançado em home-video Arranha-Céu: Coragem Sem Limite, e, na falta de algo melhor pra assistir, resolvi dar uma chance ao filme.
O longa abre com um flashback. Dez anos atrás Will Sawyer (Johnson) era um ex-fuzileiro naval e operativo do FBI. Durante uma negociação de reféns que dá errado, Sawyer perde a perna em uma explosão e sua carreira como agente da lei acaba.
Corta para o presente.
Sawyer está casado com Sarah (Neve Campbell), a médica que o tratou quando ele sofreu suas lesões, e tem dois filhos, Georgia (McKenna Roberts) e Henry (Noah Cottrell). Ele toca uma pequena empresa de segurança na garagem de sua casa e está diante do que pode ser um divisor de águas em sua nova carreira, a supervisão de segurança do Pérola, um imenso edifício de mais de 240 andares no coração de Hong Kong.
Considerado o prédio mais seguro do mundo, a iniciativa imobiliária do multi bilionário Zhao Long Ji (Chin Han) precisa apenas de um OK para começar a ocupar cada um de seus andares, e graças a seu amigo Ben (O Mad Sweeney Pablo Schreiber), Sawyer está em posição de avalizar o prédio. Para tanto, ele viaja até Hong Kong com sua família e é alocado em um confortável apartamento no 98° andar da parte residencial do edifício enquanto faz vistorias de segurança.
As coisas se complicam quando o Pérola é alvo de um ataque engendrado por um grupo de terroristas para-militares e começa a se incendiar. Falsamente responsabilizado pelo ataque, Sawyer se vê entre a cruz e a caldeirinha, precisando ignorar suas limitações para fugir das autoridades entrar na torre infernal, resgatar sua família e limpar o seu nome enquanto luta contra mercenários armados até os dentes.
Sabe aqueles filmes que, de tão ruins, são bons?
Não é o caso de Arranha-Céu: Coragem Sem Limite.
O filme é apenas ruim, e ponto.
Evidentemente curto no que tange à história, o longa é mais um veículo para todo mundo ver Dwayne Johnson bancar o super-homem. A ideia de fazê-lo um herói amputado como forma de mostrar à audiência que ele não é indestrutível funcionaria se ele não não fosse um amputado indestrutível ao longo dos 102 minutos de filme.
Will Sawyer escala, salta e luta melhor do que qualquer homem com duas pernas seria capaz, e ainda transforma sua perna protética em ferramenta multi-uso enquanto desce a porrada nos vilões.
A exemplo de Terremoto: A Falha de San Andreas, que era uma versão anabolizada do Terremoto de 1974 estrelado por Charlton Heston com notas dos filmes de desastre de Rolland Emmerich, Arranha-Céu - Coragem Sem Limite é uma versão anabolizada de Inferno na Torre com Paul Newman e Steve McQueen, mas também tem notas de Duro de Matar.
Os resultados são similares, são filmes desalmados, anacrônicos e previsíveis com homens musculosos movendo céus e terras para salvar suas famílias (ainda que em Arranha-Céu a esposa de Will Sawyer, Sarah, seja uma médica militar casca-grossa capaz de chutar sua cota de bundas e que não necessariamente precisa ser salva o tempo todo).
Parcialmente rodado em Hong Kong com um grande contingente de atores locais para garantir a bilheteria do país, o longa escrito e dirigido por Rawson Marshall Thurber é um festival de clichês e CGI total e absolutamente bobo que não se sustenta por meio segundo quando confrontado com qualquer lógica, especialmente porque ele começa tentando manter um pé na realidade mas, da metade em diante, simplesmente manda qualquer compromisso com o mundo real às favas em nome do mau espetáculo (A fumaça é uma ameaça quando o incêndio começa, mas depois deixa de ser... Há um incêndio em um prédio enorme e não vemos nem um único e miserável bombeiro o filme todo...).
Com um elenco que ainda conta com Roland Moller, Noah Taylor, Byron Mann e Hannah Quilivan, Arranha-Céu seria um grande filme em 1985, hoje em dia é o comercial de fita adesiva mais caro já feito, e um programa passável apenas para os fãs mais ardorosos de Dwayne The Rock Johnson, e olhe lá.

"-Se não dá pra consertar com fita adesiva, é porque você não está usando fita adesiva o suficiente."

sábado, 10 de novembro de 2018

Resenha Cinema: Bohemian Rhapsody


Quem me conhece sabe que eu jamais fui uma pessoa das mais musicais. Ainda que eu nutra o que considero um saudável gosto por música, e tenha algumas dezenas de faixas no meu telefone celular além de ter sido um muito, muito moderado comprador de CDs na adolescência, eu jamais fui desses apaixonados por bandas que têm posteres, e usam camisetas da banda preferida. Mesmo que eu tenha minhas bandas preferidas, não tenho conhecimento enciclopédico de suas trajetórias além de um eventual especial pescado ao acaso num canal Bizz ou VH1 da vida.
Ainda assim, com meu modesto conhecimento no tema, considero-me um fã de rock. Minhas bandas favoritas, Led Zeppelin, AC/DC e Beatles, não necessariamente nessa ordem, não necessariamente em nenhuma ordem, são todas bandas de rock, e eu acho que mais de noventa por cento do que eu ouço é rock. Enfim, mesmo com meu conhecimento modesto no tema, eu sempre considerei Freddie Mercury o maior vocalista do rock, e ponto.
Não é apenas pelo alcance monumental de sua voz, mas pelo seu carisma e habilidade de interagir com a platéia. Enquanto Brian May tocava guitarra, Roger Taylor tocava bateria e John Deacon tocava baixo, Mercury tocava piano e a audiência.
De modo que ainda que Queen não seja a minha banda preferida (embora eu tenha na minha playlist diária Don't Stop Me Now, Crazy Little Thing Called Love e Bohemian Rhapsody), Mercury e sua trupe têm um lugar na minha memória afetiva musical, foi por isso que eu resolvi dar um tempo no meu exílio cinematográfico e ver a cinebiografia da banda no cinema, e não no conforto do meu blu-ray.
Bohemian Rhapsody, um filme que sofreu com uma nada desprezível cota de escândalo e drama em seu processo de criação, com o diretor titular Bryan Singer tendo sido demitido do comando da produção no final das gravações e substituído pelo não-creditado Dexter Fletcher, é bastante convencional em sua abordagem da vida, não exclusivamente de Mercury, mas da banda Queen, desde o momento em que o jovem Farrokh "Freddie" Bulsara (Rami Malek) conhece a banda Smile, naquele momento composta apenas pelo guitarrista Brian May (Gwiyim Lee) e pelo baterista Roger Taylor (Ben Hardy), recém abandonados pelo vocalista e baixista original da banda em 1970.
Com o jovem extravagante como seu novo vocalista, e John Deacon (Joseph Mazzello) assumindo o baixo, a Smile se torna o Queen, e de uma banda de pubs e festas universitárias para a qual ninguém ligava, eles se tornam um fenômeno embalado por hit atrás de hit fazendo turnês pelo mundo e gravando discos experimentando com o próprio trabalho e se recusando a abraçar uma fórmula até o momento em que Freddie, afundando-se em influências sombrias, resolve seguir em carreira solo, uma decisão que cobra muito mais caro do que ele poderia imaginar.
A trajetória inicial da banda é uma divertida viagem através dos hits, mas a vida de Mercury é o ponto mais interessante do filme, mesmo que o roteiro de Anthony McCarten e Peter Morgan a retrate de maneira bastante cautelosa e afetiva, poupando o espectador médio de detalhes mais escandalosos e, de forma competente, trabalhando em uma zona segura onde escolhe aludir à vida de excessos que o cantor levou ao invés de efetivamente mostrá-la.
Há escolhas discutíveis (mas compreensíveis do ponto de vista financeiro), como mostrar o relacionamento de Freddie com Mary Austin (Lucy Boynton) como a única relação significativa da vida do cantor enquanto praticamente nenhum romance feliz com outro homem é mostrado. Suas relações homossexuais são vislumbradas brevemente, sem alarde, em montagens silenciosas que deixam claro tanto o polido envolvimento dos membros sobreviventes do Queen quanto a interferência do estúdio na produção para torná-la tão "família" quanto uma cinebiografia de uma estrela de rock setentista poderia ser.
Tudo isso seria um problema se o longa não tivesse uma poderosa arma para dar uma sacudida e manchar, no bom sentido, o que poderia ser uma modorrenta biografia chapa branca:
Rami Malek.
O ator está excepcional como protagonista. Toda a sua performance é um espetáculo por si só. Ele rouba cada cena, cada fala, cada momento do filme com uma atuação brilhante que chuta o longa para cima, elevando-o com a pancada de que ele precisa para não ficar com cara de elegia póstuma. E na sequência final, que recria o legendário show do Live Aid de maneira sensacional, fazendo a audiência se sentir, de fato, em um show do Queen (eu juro, tinha um casal algumas fileiras adiante que balançava os braços no ritmo da música e um bocado de gente que aplaudiu quando a banda deixou o palco...), Malek incorpora Freddie Mercury de maneira espantosa mostrando o tamanho de seu talento e comprometimento para com o papel, indo muito além de uma boa imitação e uma boa caracterização para buscar uma interpretação das aflições de alguém tão desajustado que só sabia se sentir aceito em cima do palco enquanto cantava.
Até onde ouvi, Bohemian Rhapsody foi criticado tanto por ter um personagem central gay que aparece se beijando com outros homens, quanto por não ser "gay o suficiente", mostrando Freddie tendo uma mulher como o amor de sua vida e parecendo funcionar melhor quando cercado por seus colegas de banda heterossexuais e bem ajustados, o longa foi criticado por não ser invasivo o suficiente na faceta mais sombria de Mercury, em sua vida de excessos e seus inúmeros casos sexuais, foi criticado por ser repleto de clichês, por apostar em momentos construídos para agradar determinadas audiências e foi criticado até por Rami Malek não ser suficientemente parecido com Mercury e sua caracterização ter cara de cosplay brega. Mas ainda que o longa não seja, de forma alguma um filme à prova de críticas, muito de suas "falhas" são decisões conscientes. Tão conscientes quanto a decisão de Farrokh Bulsara tomou de mudar seu nome legalmente para Freddie Mercury, de se tornar um músico, uma estrela, e enfim, uma lenda. Tentar tornar Bohemian Rhapsody mais palatável para audiências conservadoras sem efetivamente esconder nada da vida ou das preferências do astro pode não ser uma decisão corajosa ou mesmo inteligente, mas não rouba em nada da genialidade de seu personagem central.
Uma pessoa que compôs produziu e cantou de uma vida cheia de humilhações e inadequações até a posteridade reservada apenas aos grandes.
A despeito da troca de timoneiro, Bohemian Rhapsody não sofre por ter dois tons distintos no mesmo filme, como Liga da Justiça, há um bom trabalho de elenco (que conta com nomes como Tom Hollander, Aindan Gillen, Allen Leech e Mike Mayers), uma trilha sonora cheia de hits (não apenas do Queen) e uma boa produção. Não, não é perfeito. Nem de longe, e como todas as cinebiografias do cinema, dá uma torcida na realidade para gerar emoção, um expediente que, mesmo com sua honestidade discutível, funciona. Mesmo que não tivesse tudo isso, apenas a atuação de Malek já garantiria uma ida ao cinema.

"-Nós acreditamos uns nos outros... Isso é tudo. Nós faremos coisas grandes. É uma experiência. Amor, tragédia, alegria... É algo que as pessoas irão sentir que pertence a elas."

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Resenha Série: Demolidor, temporada 3, episódio 13: A New Napkin


Atenção! Severa zona de spoilers abaixo!
A terceira temporada de Demolidor chega ao fim.
Numa tela dividida, nós vemos Wilson Fisk se preparando para o dia que ele antevê há dois anos: O dia em que se casará com Vanessa Marianna, enquanto o Demolidor usa suas táticas de interrogatório mais convincentes para fazer Felix Manning cantar feito um canário de ponta-cabeça. É hora do acerto de contas definitivo, mas para colocar as mãos em Fisk, Matt precisa entrar em um hotel cheio até o gargalo com capangas armados durante uma festividade que transformou o hotel em uma fortaleza guardada pelo FBI do Rei do Crime.
Matt parece não ter opção, ao menos até ouvir o nome de Julie Barnes.
Enquanto Foggy e Karen lidam com o fracasso retumbante de seus planos para colocar Fisk atrás das grades da maneira correta, dentro da lei, Seema Nadeem precisa lidar com a morte do marido, taxado de corrupto e mentalmente instável pelo bureau.
Mas se, no final, Nadeem foi corrompido pelas chantagens de Fisk, ele jamais foi mentalmente instável, tanto que, em seu auto-sacrifício para salvaguardar Seema e Samy, ele deixou um vídeo com sua declaração ao morrer para ser entregue a Nelson e Murdock.
A declaração de Nadeem pode ser a chave para derrubar o Rei do Crime, mas para Foggy e Karen é a chance de impedir Matt de matar Fisk e perder sua alma, mas à essa altura, o Demolidor já tem seu próprio plano.
Após sua conversa com Felix, Matt descobre onde Fisk armazena os cadáveres que deseja ocultar, e resolve fazer o Rei do Crime provar um pouco do próprio remédio.
Sabendo do destino de Julie Barnes, Matt manipula Poindexter a encontrar o corpo da jovem, e então usa o agente do FBI como aríete para acessar o hotel de Fisk e entrar de penetra no casamento. Ele precisa apenas seguir o caminho de destruição, e impedir Dex de chegar a Fisk antes dele, o que nos leva à (mais) uma sensacional sequência de luta.
Dex versus Fisk versus Demolidor.
Um violento balé a três com Poindexter tentando matar Vanessa enquanto Matt tenta impedi-lo e os três trocam bordoadas cada um com seu estilo. Fisk liberando o monstro enfurecido de pura força bruta que habita em seu interior, Dex, preciso e transformando qualquer coisa em um ptojétil mortal, e Matt usando seu vasto arsenal de artes marciais num sangrento festival de porradaria que culmina com Matt tendo as mãos ao redor da garganta de Fisk, mas escolhendo, conscientemente, não deixar que o Rei do Crime destrua quem ele é.
A catarse de ter Matt rosnando na cara de Fisk "Eu te derrotei!", após arrebentar o vilão de tanta pancada é um desses momentos que elevam Demolidor muito acima de qualquer outra série de super-herói. Atrevo-me a dizer que eleva Demolidor acima da imensa maioria das adaptações de quadrinhos.
Claro, eu sei que há quem vá achar que Matt passar a temporada inteira pronto para matar o Rei, para desistir no último segundo é encheção de linguiça, mas essas pessoas não entenderam o personagem.
Ao longo dos anos nos quadrinhos, Matt é o sujeito que toda a vez que pensa ter chegado ao fundo do poço, recebe uma pá maior para continuar cavando.
Seu principal poder não é o radar, seus sentidos aguçados ou mesmo seu treinamento em artes marciais, mas a habilidade de se manter otimista e fiel aos seus ideais mesmo quando sua vida é virada do avesso e enxovalhada de ponta a ponta. No final das contas, Matt sempre vai fazer o que é certo, ou ao menos o que for mais certo.
Nesse caso, ele força Fisk a fazer um pacto com o diabo.
Além disso, a série garante, não apenas que ainda tenhamos a sombra de Vincent D'Onofrio pairando sobre o futuro de Matt, mas também que Nadeem e sua família não tenham comido o pão que o diabo amassou de graça ao longo da temporada. No final das contas é o vídeo gravado pelo agente do FBI que coloca Fisk de volta atrás das grades.
E, eu sei, após uma temporada que eu categorizei no episódio anterior como "doze horas de niilismo", os minutos finais desse décimo terceiro episódio podem soar demasiado felizes.
Matt fazendo as pazes com Maggie, a tocante elegia que o herói faz para o padre Lantom (essa sim, me deixou de olhos marejados), e a retomada do trio protagonista, apartado desde a segunda temporada fecham a temporada com uma doçura que, ainda que seja mais do que merecida por nossos heróis, pode soar algo fora de lugar após tanta desgraça. Entretanto, quando pensamos na possibilidade de que, com a ruptura entre Marvel e Netflix, essa série não volte para uma quarta temporada (o que seria uma tragédia!), eu acredito que seja melhor nós terminarmos a história com nossos amigos sentados e felizes fazendo planos para o futuro do que com algum cliffhanger macabro que pode jamais se concretizar.
Claro, ainda há um easter egg daqueles para os fãs de quadrinhos, com Poindexter passando por um procedimento cirúrgico nas mãos do doutor Oyama (que os iniciados devem conhecer pelo nome de Lorde Vento Negro, pai de Lady Lethal e criador do processo de ligação de ossos com adamantium nos gibis), e deixando claro que Dex está mais do que pronto para retornar no futuro com o modo Mercenário cem por cento ativado, mas isso é mais uma promessa de que há outras histórias pra contar do que uma ponta solta.
Veja, Demolidor não apenas merece voltar para uma quarta (e quinta, e sexta...) temporada. Precisa voltar.
O seriado do diabo da guarda de Hell's Kitchen é a série de super-heróis fundamental, com um excepcional vilão, um ótimo grupo de coadjuvantes, ótimas cenas de luta e um baita protagonista além de um personagem central cheio de boas histórias pra contar em um universo de super-heróis com os pés cravados no chão.
A terceira temporada de Demolidor consolidou a série na sua posição apartada de todas as outras adaptações de quadrinhos na TV (e de muitas no cinema) em termos de qualidade, por favor, Marvel e Netflix, não nos deixem sem Demolidor.

"Pra mim, pessoalmente, ele passou muitos anos tentando me fazer encarar meus medos. Entender como eles me escravizavam, me apartavam das pessoas que amo. Ele me aconselhou a transcender meus medos, a ser valente o suficiente para perdoar... E ver a possibilidade de ser um homem sem medo."

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Resenha Série: Demolidor, temporada 3, episódio 12: One Last Shot


Atenção! Spoilers abaixo!
Eu preciso dizer que eu fiquei com o estômago revirado nesse penúltimo episódio do ano de Demolidor.
Do primeiro segundo, quando Vanessa (Ayelet Zuhrer, lindona) retorna a Nova York e para Wilson Fisk, andando em câmera lenta saindo do helicóptero, fenda estilosa no vestido, e tudo, até o final quando Matt, Foggy e Karen avaliam o rescaldo de seu plano, One Last Shot foi uma montanha russa cheia de socos no estômago, alguns bons, e outros simplesmente dolorosos.
Quando vemos nossos heróis pela primeira vez, eles estão voltando a ser Nelson e Murdock, abacates jurídicos, e seu plano é assegurar que a família Nadeem esteja fora do alcance de Wilson Fisk para que Ray deponha contra o Rei do Crime.
Mas nesse momento, essa é, por estranho que pareça, a menor das preocupações de Wilson. A maior, sem dúvida, é a forma como Vanessa retorna à sua vida. Não é, nem de longe, a maneira que ele havia idealizado.
As primeiras interações do casal no retorno são frias e distantes. Nada parece impressionar Vanessa. Nada parece animá-la, nem mesmo o omelete à la Fisk é capaz de removê-la de seu estado de tédio e isso claramente faz com que o mafioso fique arrasado. Nós podemos ver em cada expressão de Fisk como ele está se contorcendo de desconforto internamente.
Mas isso vai apenas até o momento em que Dex entrega o quadro.
A cena que nos sugere veementemente que a senhora Falb será encontrada pela empregada com um candelabro cravado na testa nos leva à uma reação deliciosamente dúbia de Vanessa. Ela está com medo de Poindexter e despreza o assassinato cometido em nome da posse da pintura, ou ela está excitada ante a possibilidade de Fisk ter gente matando para garantir qualquer um de seus caprichos?
Naquele momento é impossível dizer. Porque nós sabemos que Vanessa se enamorou de Fisk por conta de seu poder e eficiência, e o mero fato de ela reconhecer essas qualidades nele, é o que torna o amor do Rei por Vanessa tão imenso. Ele sabe que ela é um achado. Uma mulher bonita, instruída e inteligente que é capaz de aceitá-lo do jeito que ele é (Sim, meninos e meninas. A história de amor de Wilson e Vanessa é como O Diário de Bridget Jones).
Mas será que nesses dois anos que os dois passaram apartados algo mudou?
Vanessa esteve cercada de seguranças fugindo da lei por diversos países da Europa, e à primeira vista qualquer um poderia julgar que depois de tantos apuros ela possa estar cansada de tudo isso, tenha chegado à conclusão de que Fisk não vale isso tudo e queira sair dessa.
Mas não...
Vanessa não quer sair. Ela quer entrar de cabeça. Ela não quer ser uma das belas coisas que Fisk exibe. Ela quer estar ao lado dele enquanto ele toma cada decisão, partilhando tudo o que há no prato dele.
E, nesse momento, o prato de Fisk está cheio de Nelson, Murdock, Page e Nadeem.
O plano dos mocinhos envolve o promotor Tower, o conhecimento do agente especial Nadeem, Ellison e o Boletim de Nova York e um Grande Júri de emergência convocado às pressas para garantir o indiciamento de Fisk por cada crime que Nadeem possa relatar.
Há, sim, um pouco de excesso nesse episódio que quebra o ritmo da coisa toda durante a primeira meia hora.
Temos muitas cenas de Foggy convencendo Matt de que eles estão fazendo a coisa certa, muitas cenas com Blake Tower (Stephen Rider) negociando os termos do acordo com Nelson e Murdock, muitas cenas de Nadeem com a esposa... Como a coisa toda caminha quase como um final de temporada existe um bocado de preparação para o desfecho.
Os vinte minutos finais, porém, são espetaculares.
A partir do momento em que o carro onde Nadeem e Matt é atacado pelos capangas de Fisk, resultando em uma espetacular sequência de ação com os dois enfrentando um pequeno exército usando os super-sentidos de Matt para transitar no meio de uma chuva de balas nós realmente pensamos que os heróis vão vencer.
Sim, sob diversos aspectos, seria uma repeteco dos eventos da primeira temporada. Mas tudo parecia tão redondinho que, quando Matt ouve que Felix Manning está manipulando o júri para garantir que eles não aceitem a denúncia, é de partir o coração. Especialmente tendo visto quão otimista Matt e Foggy estavam, e o alívio de Nadeem após o depoimento.
E, pra colocar o último prego no caixão, nós temos outra cena com Vanessa e Fisk. Onde ela deixa claro que não quer ser a esposa troféu do Rei, mas uma rainha governando lado a lado com seu amado.
E seu primeiro ato de comando, é demandar a cabeça de Ray.
Com tão pouco tempo sobrando na temporada, é difícil não lamentar por nossos heróis terem falhado novamente em sua guerra contra Fisk. Mais ainda com o fim de Nadeem, um personagem que, como eu temia, virou o bode expiatório da temporada num movimento que, lá atrás, eu categorizei como covarde (dar bastante tempo de tela a um personagem novo para que a audiência se importe com ele e então matá-lo mantendo os protagonistas habituais vivos), mas que acabou sendo bem sucedido. Eu realmente lamentei a morte de Nadeem, eu me investi no drama do personagem e torci por ele até o último minuto.
Trazer Vanessa de volta aos quarnta do segundo tempo foi mais uma boa sacada da série, assim como reunir Nelson e Murdock, especialmente quando houve uma alteração interessante no paradigma dessa relação:
Dessa vez, Matt tem razão. E o Demolidor pode fazer coisas que o sistema está embotado demais para conseguir.
Enquanto outras séries de super-heróis terminam cada capítulo com um vilão preso, o décimo segundo episódio da terceira temporada de Demolidor encerra quase doze horas de niilismo deixando a audiência na ponta da cadeira e dando show de qualidade.

"-Eu fiz besteira e, não importa o que aconteça hoje, não sei se minha esposa vai voltar. Mas seus amigos continuam voltando. Como consegue?
-Não sou eu. São eles.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Resenha Série: Demolidor, temporada 3, episódio 11: Reunion


Atenção! Spoiler abaixo!
Se houve o proverbial momento de respiro na terceira temporada de Demolidor, foi este Reunion.
O décimo primeiro episódio da temporada foi o momento que, de fato, fez a história dar uma estacionada, mas o fez com a excelência que o programa tem esbanjado ao longo desse ano fazendo com que esse respiro fosse acelerado e o mais silencioso possível ao mantê-lo, em boa parte, restrito à igreja, com Matt e Karen tentando se esconder do FBI e da polícia após o ataque de Poindexter.
Isso leva a um longo jogo de gato e rato, com Nadeem e Poidexter vasculhando cada canto da igreja e da sacristia em busca do vigilante e da repórter enquanto a irmã Maggie tenta afastá-los de todas as formas possíveis.
Enquanto Matt e Karen cozinham na pressão, Fisk segue sua escalada de volta ao trono criminoso de Nova York.
Após ter o caso contra si retirado pela procuradoria, Wilson faz uma declaração pública para dizer que não é e nem nunca foi o vilão da história, mas uma vítima de uma campanha difamatória engendrada pela mídia e pelo Demolidor...
Vincent D'Onofrio é tão naturalmente sinistro em seu retrato do Rei do Crime, que é quase inacreditável que qualquer discurso feito por ele pudesse acalmar uma multidão, eu sei, entretanto seu intento não é acalmar ninguém, apenas apontar o dedo para o Demolidor e garantir que Matt esteja tão miserável quanto possível.
O rei não vai abandonar seu domínio. Ele quer apenas garantir que seu maior inimigo esteja arrasado enquanto ele retorna a seu posto comandando o crime de Nova York de dentro de uma cobertura com Vanessa a seu lado, essa é sua ideia de perfeição, e, para que tudo esteja perfeito, com o Demolidor na lama e Vanessa a seu lado, o único detalhe faltando é a pintura que conectou o rei e a mulher que ele ama, o Coelho na Nevasca, que retornou à sua proprietária por direito, senhora Esther Falb (Lesley Ann Warren, falhando em parecer ter oitenta anos...).
Isso nos leva à uma longa cena entre Fisk e Esther, que vai um pouco além do estritamente necessário especialmente porque parece servir apenas para mostrar tanto a faceta mais humana do Rei, quanto que o povo de Nova York não vai esquecer tão facilmente quem ele é... Não chega exatamente a ser uma novidade ou movimentar a trama, mas ao menos nos leva a mais uma cena onde fica claro o quanto é perigoso andar de carro com Wilson Fisk, especialmente quando ele está frustrado e estabelece a que alturas ele chegou em termos de poder. O mafioso basicamente faz o que quer, na hora em que quer, independente de quem está por perto.
Entretanto, graças à Maggie, Mahoney e à mudança de postura de última hora de Nadeem, Karen consegue escapulir da cena do crime usando o kung-fu jurídico de Foggy Nelson.
Aqui cabe abrir o parentese de que, enquanto Dex foi sendo desumanizado conforme se aproximava de Fisk, Nadeem fez o caminho exatamente oposto. Se a ideia da série era fazer a audiência se importar com ele, então os miseráveis conseguiram mesmo. O personagem que carrega o peso da trama em que foi envolvido nos ombros se redesenhou em uma figura trágica que, à essa altura, não tem mais pra onde se virar em busca de expiação pela baderna que inadvertidamente ajudou a criar.
O ponto derradeiro de Reunion, porém, não é a situação de Nadeem, mas a reunião do título.
Matt, Foggy e Karen estão juntos novamente. E embora Matt ainda acredite que a única forma de deter Fisk seja matando o criminoso, ele fica tão feliz em estar novamente com seus amigos que está disposto a dar uma última chance ao sistema, e trabalhar com eles para tentar colocar fim às maquinações do bandido dentro da lei, antes que seja tarde demais e o alcance dele seja tão grande que ele simplesmente não tenha opositores, e, para fazer isso, eles precisam de um aliado de dentro da operação. Alguém que conheça os pormenores da organização de Fisk mas esteja disposto a se colocar contra o Rei do Crime.
Alguém como Ray Nadeem.
O que nos leva à ótima sequência de ação que encerra o capítulo.
O décimo primeiro episódio de Demolidor se encaminha para os momentos decisivos da temporada, preparando nosso trio de heróis e seus aliados para a batalha definitiva contra Wilson Fisk e seu sindicato criminoso. A despeito de passar uma boa parte de seu desenrolar encaixotado na igreja, em seu terço final o capítulo faz a história andar de maneira agradável, sem martelar na imoralidade das ações de Matt, mas focando na luta dos mocinhos para fazer justiça enquanto se mantém vivos.

"-Se vamos levar sua família pra um lugar seguro você precisa confiar em mim.
-Eu não confio em ninguém.
-Bem, eu confio em você."

Fracasso


É aurora e crepúsculo.
Tem sido já há muito tempo. Nem sei quanto...
Que tu me desperta e me coloca na cama antes do sono.
Que tu só não emoldura meus dias porque não está apenas ao redor, mas entremeada em cada minuto de cada hora.
Antes me incomodava.
A ponto de eu criar sistemas pra evitar a intrusão.
Tentativas vãs de impedir o inevitável.
Todas falharam. Jamais fui a mais sistemática das criaturas, mesmo.
Lutava pra me concentrar nas coisas ruins. Tentando adestrar a mim mesmo como um cachorro.
Me condicionar como Alex deLarge.
Jamais funcionou.
Não tinha como. Todo o pensamento me levava de volta ao sorriso mais lindo que já ganhei.
À boca mais macia que já beijei.
Às pernas mais gostosas que já me envolveram.
Me levavam às risadas cúmplices.
Aos beijos na fila do cinema.
Aos finais de tarde de domingo... Cheiro de salão de beleza e desenho no DVD...
Levavam minhas mãos de volta à tua cintura e à tua bunda.
Minha língua de volta ao teu pescoço, peito e pélvis...
Minha caneta de volta à tua região ilíaca.
Meu sistema estava fadado ao fracasso.
Meu coração condenado à saudade.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Resenha Série: Demolidor, temporada 3, episódio 10: Karen


Atenção! Spoilers abaixo.
Eu sei que, pra quem lê, pode estar ficando chato, a cada episódio eu me desmanchar em elogios a Demolidor, mas eu não posso fazer nada se cada episódio dessa terceira temporada (que, eu repito, não é, até o momento, a minha preferida) dá um show de qualidade.
O décimo episódio do ano nos levou em uma viagem pela alameda da memória ao nos mostrar o passado de Karen Page e mostrar à audiência não-iniciada no mundo dos quadrinhos que a loira é muito, muito, muito mais do que apenas um rostinho bonito (e, se me atrevo, um corpão gostoso).
Eu diria que dois terços desse capítulo são dedicados a nos mostrar que Karen não é apenas uma mocinha em perigo. Sob diversos aspectos, ela é o perigo, e vem sendo desde a juventude na pacata cidade de Fagan Corners, Vermont, onde Karen era uma rata de festas de fraternidade universitárias que namorava o traficante local e brigava para ajudar o pai, Paxton (Lee Tergesen) e o irmão Kevin (Jack DiFalco) a manter o restaurante da família o mais longe possível da falência após a morte da mãe.
O passado sombrio de Karen é a resposta à pergunta que eu ouvi em mais de uma ocasião de detratores da série, sobre como a secretária executiva havia matado o mafioso com tanta facilidade na primeira temporada. Bem, meus amigos, quem lê quadrinhos sabe que Karen Page não é apenas uma secretária executiva. Ela tem um passado sombrio, ela passou muitos anos de sua vida sendo uma vítima, ela é parcialmente responsável pela destruição de sua família e isso despertou nela um desejo de se redimir que supera seu medo e até mesmo seu senso de auto-preservação.
Karen Page é um produto de sua vida lutando por significado.
Deborah Ann Woll dá um show com seu tempo sob os holofotes. Sua versão mais jovem de Karen Page, com má atitude, vício em drogas e o namorado cretino seria fácil tornar a personagem antipática ao lançar essa luz sobre sua vida pretérita, mas Woll e os roteiristas consegue balancear Karen a tornando uma personagem tão dúbia e falível quanto Matt Murdock e Wilson Fisk. Oferecer tantas camadas a personagens em qualquer tipo de mídia já seria digno de elogios, mas em uma série de super-herói, um filão que é compartilhado por coisas como Arrow, Legends of Tomorrow, Inumanos e Agentes da SHIELD é ainda mais sensacional.
Mas nem só de uma grande performance dramática de Deborah Ann Woll é feito esse capítulo.
Matt está no hotel de Fisk disposto a tomar a decisão definitiva a respeito do vilão e realmente matar o Rei do Crime, mas ao ouvir que Karen Page foi localizada pelo vilão na igreja da rua Clinton, e que Fisk quer a cabeça da loira, o Demolidor deixa seus planos para depois.
Segue-se, então, mais uma ótima cena de luta entre o Demolidor e o agente Poindexter na igreja que, sim, é infinitamente superior à luta entre Ben Affleck e Colin Farrell quinze anos atrás.
Dex transforma em arma tudo em que ele coloca as mãos, de contas de rosários à bíblias, passando por velas (o arremesso do prato de coleta é excelente) enquanto Matt tenta cortar a distância para reduzir a vantagem do vilão, uma estratégia que esbarra no traje reforçado construído por Melvin Potter.
A pancadaria é muito boa, carregada de tensão especialmente para quem leu O Diabo da Guarda, de Kevin Smith e lembra como essa luta termina nos quadrinhos, e, também, para quem está habituado ao expediente de dar um grande espaço a um personagem logo antes de matá-lo, seja como for, há um desfecho trágico nessa luta que ainda não é o último round da querela entre Poindexter e Murdock.
Apesar de movimentar pouco a trama no que tange à história que estamos acompanhando no presente da série, Karen se apoiou em um longo e pesado flashback da vida pregressa de Karen Page que contou com uma excepcional atuação de partir o coração por parte de Deborah Ann Woll, ainda assim, encontrou tempo para nos oferecer sacrifícios, decisões importantes e uma baita cena de porradaria num binômio que, em Demolidor, sempre deu certo: Flashbacks e cenas de luta.
Faltando apenas três episódios para o final da temporada de Demolidor a série deixa claro o nível de excelência que é capaz de alcançar.

"-'Tudo ficará bem no final. Se não está bem, não é o final.' John Lennon disse isso. Quem somos nós pra discordar de um Beatle?""