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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Resenha Mini-Série: O Espião


Quando eu assisti ao trailer de O Espião, eu supus que se tratava de um filme, e fiquei muito ansioso para assistir, tanto por ter me parecido uma história de espionagem adulta e cheia de nuances ao estilo John Le Carré, quanto para ver Sacha Baron Cohen exercitar suas habilidades de camaleão em um filme sério em oposição às suas habituais empreitadas cômicas que, ainda que tenham variados graus de sucesso (Borat é excelente, Brüno é bom, O Ditador é ruim, Ali G é horrível), sempre mostram até onde vai o comprometimento do britânico para com seu ofício.
Ao descobrir que tratava-se de uma mini-série em seis episódios, eu não cheguei a lamentar, se a trama fosse boa, era uma oportunidade de assistir umas boas seis horas dela ao invés de apenas duas. Meu problema foi quando surgiu o nome de Gideon Raff como produtor executivo e diretor do programa.
Raff foi o responsável pelo roteiro e direção de Missão Mar Vermelho, longa da Netflix que conseguiu a proeza de tornar uma empolgante história sobre espiões do Mossad tocando um resort de mergulho na costa da África para levar refugiados etíopes para Israel maçante além de qualquer medida.
Ainda assim, resolvi me arriscar e, em dois domingos, concluí a mini-série que conta a história de Eli Cohen (Sacha Baron), um judeu de ascendência árabe trabalhando em uma loja de departamentos em Tel Aviv que eventualmente se tornaria um espião infiltrado na Síria a serviço do Mossad.
Levando uma vida simples ao lado de sua esposa Nádia (Hadar Ratzon Rotem), Eli se ressente do preconceito dos amigos mais abastados que o veem como "um árabe" e almeja um trabalho mais importante, que possa propiciar algum conforto à sua esposa.
Após ser negado duas vezes pelo Mossad, Eli acaba sendo procurado por Dan Peleg (Noah Emmerich), um recrutador que lhe oferece uma arriscada posição em disfarce profundo para se infiltrar entre autoridades sírias e descobrir potenciais ataques contra a recém fundada nação israelense em 1959.
Ávido tanto por servir seu país quanto por uma chance de ascensão social, Ali agarra a oportunidade com unhas e dentes, se preparando para abandonar a própria identidade e se tornar Kamel Amin-Thabaath, um confiante e bem-sucedido empresário de ascendência síria que deseja voltar ao país de origem de seus pais e ajudar a torná-lo a maior nação árabe do mundo cativando cada um dos grandes nomes da política síria que lhe são indicados seja com puras demonstrações de amor pela terra de seus pais, seja com a ostentação de uma vasta riqueza, ou apenas com charme e amabilidade entre seus "pares".
Ao longo de seis anos, acompanhamos Eli enquanto ele galga paulatinamente os degraus dos mais altos escalões do poder da Síria em uma missão que pode custar, não apenas sua vida, mas seu casamento e sua própria identidade.
O Espião não é tão ruim quanto Missão Mar-Vermelho, e acerta na pinta em diversas decisões.
Eli Cohen dificilmente se envolve em perseguições em alta velocidade, não dispara um único tiro, e não sai na porrada com ninguém ao longo de seis capítulos. São raras as ocasiões em que o vemos realmente espionando coisas ou pessoas, pois o Agente 88 é um operativo discreto cuja maior habilidade é a capacidade de ler todos ao seu redor, e se misturar em praticamente qualquer grupo de pessoas.
Há um elemento de tensão sempre presente quando Kamel se envolve em situações extremamente arriscadas armado com pouquíssimo além de sua esperteza e capacidade de improvisar ao lidar com pessoas que poderiam facilmente matá-lo ou expô-lo acabando com sua missão e, possivelmente, com sua vida, e quando esse é o enfoque de O Espião, a série realmente funciona.
O problema é que Raff (que além de dirigir roteiriza a mini-série) escolhe passar um bom tempo com Nadia, sozinha e grávida sentindo a falta de seu marido e alheia ao perigo de seu trabalho, e com isso a série perde muito de seu impacto, especialmente porque, a despeito de ter um bom tempo em cena e fazer um trabalho sólido durante sua participação, a função de Hadar Ratzon Rotem na série é ser a sofrida esposa de Eli, e frequentemente mudar o foco da narrativa de onde ele é mais interessante, para onde ele é menos.
Não ajuda o fato de, à certa altura, Nadia começar a ser pessoalmente paparicada por Dan, no que começa como uma sugestão de triângulo amoroso, mas logo se prova uma tentativa do recrutador em tentar expiar parte de sua culpa por enviar um homem de família a uma missão potencialmente mortal deixando sua família desamparada.
E, enquanto é ótimo passar tempo acompanhando a atuação de Sasha Baron Cohen, seja na pele de Eli, seja na de Kamel, o roteiro simplesmente não lhe dá o suficiente para trabalhar porque, apesar de ter seis horas para contar sua história, O Espião por vezes parece apressada, sacrificando o desenvolvimento dos personagens em nome de mover a trama adiante a qualquer preço. Mesmo o protagonista começa e termina a série sem uma grande justificativa para seu patriotismo pétreo, que o coloca em posição de se afastar por anos da mulher que ama.
Além disso, o último episódio da série é um tremendo anticlímax, especialmente porque ele é aventado nas sequências de abertura da trama no primeiro episódio, gerando uma expectativa que fica terrivelmente longe de atender, e pra fechar da forma mais equivocada possível, Raff escolhe apresentar recordatórios de encerramento sobre imagens absolutamente inapropriadas do verdadeiro Eli Cohen, no que parece uma tentativa deliberada de chocar a audiência.
A mão pesada de Gideon Raff na condução de sua trama e especialmente em seu desfecho paulatinamente enterram os acertos acumulados no início das quase seis horas de história, e diminuem, e muito, o que começa como uma envolvente narrativa de espionagem madura e bem fundamentada em fatos reais, mas termina deixando um gosto amargo na boca e a sensação de que se eu voltar a ver o nome de Gideon Raff em um filme ou série no futuro, sou capaz pensar duas vezes antes de dar uma chance.

"-Meu filho... Você não sabe quem você é."

Resenha DVD: Máquinas Mortais


Não me lembro ao certo quando foi que assisti o trailer de Máquinas Mortais, que alardeava incansavelmente o envolvimento do roteirista e produtor Peter Jackson, o mesmo de O Senhor dos Anéis e O Hobbit (eu ainda gosto de O Hobbit...), mas me lembro que antes mesmo de a prévia terminar eu já sabia que o filme seria ruim.
Não era difícil de perceber, ainda no trailer que o longa que adaptava o livro de Philip Reeve não estava no mesmo patamar da obra imortal de J. R. R. Tolkien, e que por mais talentosos que sejam Jackson e suas habituais colegas, Phillipa Boyens e Fran Walsh, a verdade é que, sem o lastro Tolkeniano para ampará-los, eles têm um cartel modesto em termos de cinema, provavelmente Almas Gêmeas é o único filme deles que não adapta a Terra Média que é acima da média (e, vi agora no IMDB, ainda não tinha Boyens na patota).
Seja como for, no sábado, resolvi visitar a locadora de que sou sócio, e, como Paulo estava escasso de lançamentos que eu ainda não havia visto, resolvi arriscar Máquinas Mortais e tentar descobrir se o filme era tão ruim quanto parecia.
No longa, após a obrigatória narração em voice over informando que a humanidade destruiu a Terra e que os últimos vestígios de civilização foram cidades transformadas em assentamentos móveis que vagam pelas ruínas da civilização sobre gigantescas esteiras de tanques ou rodas de colossais picapes-monstro (de como esse prodígio de engenharia foi alcançado, nós não recebemos nem um vislumbre) que agora vagam pelas ruínas do mundo procurando pelos últimos resquícios de recursos naturais e, na ausência deles, consumindo umas às outras num sistema chamado de Darwinismo Municipal (sério.).
Logo na sequência de abertura acompanhamos a tentativa desesperada de um vilarejo romeno de escapar da monstruosa Londres, que persegue a cidade muito menor em busca de seu sal.
A perseguição, liderada por Thaddeus Valentine (Hugo Weaving) acaba com a assimilação da pobre cidadezinha romena que, entre seus habitantes, esconde Hester Shaw (Hera Hilmar), uma jovem que nutre um ardente desejo de vingança profundo contra Valentine.
Quando tem o sujeito ao alcance de sua faca, porém, Hester é impedida de desferir o golpe de misericórdia no seu desafeto pelo jovem Tom Natsworthy (Robert Sheehan, uma estranha mistura de Jim Caviezel, Eddie Redmayne e Lee Pace), um historiador do museu Londrino, ex-aspirante a aviador e apaixonado pelo passado que estuda a Guerra dos Sessenta Minutos para entender tudo o que pode a respeito da aniquilação da Terra.
Um fã de Valentine (que é engenheiro energético, arqueólogo, aspirante a prefeito e sabe-se lá mais o que em Londres), Tom impede que Hester mate seu ídolo e a persegue pelas entranhas de Londres.
Eventualmente, Hester consegue escapar, mas não sem antes explicar que deseja matar Valentine para vingar a morte da própria mãe. E, assim que Tom menciona isso para seu ídolo, ele próprio é chutado pelo alçapão de lixo e deixado para morrer no ermo.
O que provavelmente teria acontecido se Tom não despertasse a tempo de encontrar Hester e se juntar a ela em uma corrida para retornar a Londres antes que Valentine seja capaz de encontrar tecnologia antiga em quantidade suficiente para construir uma super arma capaz de aumentar exponencialmente o poderio londrino em sua luta por sobrevivência, já que Hester herdou de sua mãe a chave para impedir que tal arma seja ativada.
Para suceder em impedir os planos de Valentine, Hester e Tom contarão com a ajuda de Anna Fang (a bela Jihae Kim), uma terrorista que luta contra o Darwinismo Municipal (eu não tô inventando, eles usam esse termo no filme) e sua equipe de pilotos ases multi étnicos, mas também terão em seu encalço Shrike (Stephen Lang, praticamente irreconhecível sob toneladas de pixels), o ciborgue zumbi remanescente de um exército chamada de Brigada Lázaro que conhece Hester há anos tem a intenção de matá-la e transformar a guria em um ciborgue zumbi igual a ele.
Se essa premissa não deixou claro o tamanho da bagunça que esse filme é, permita-me afirmar acima de qualquer interpretação que Máquinas Mortais é uma baderna.
É impressionante o quanto essa mistura de Mad Max com romances para jovens adultos consegue ser frustrante em todos os aspectos cinematográficos, da narrativa às interpretações passando pela trilha sonora e (pasmem!) até os efeitos visuais.
O diretor Christian Rivers, diretor de arte de Peter Jackson desde Fome Animal faz seu debute em longas metragens e é difícil discernir quanto dos problemas de Máquinas Mortais é má execução por sua falta de inexperiência e quanto são péssimas ideias de Jackson, Walsh, Boyens e Reeve que confundem contar uma história com inserir elementos de maneira aleatória entre uma sequência de ação gravada diante de uma tela verde não-tão-convincente e a próxima, ou se a culpa deve ser igualmente dividida entre todos, seja como for, o resultado é um filme que não empolga e nem funciona.
Não posso nem dizer que tive sorte de não assistir a esse longa no cinema, pois, como afirmei lá em cima, ainda na primeira prévia já sabia que o filme não seria bom, mas rapaz, nem de longe eu podia imaginar que ele seria tão ruim.
Passe longe se for possível.

"-O que eles estão caçando?
-Nós."

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Rapidinhas do Capita


E após algumas semanas de idas e vindas a Marvel e a Sony surpreenderam absolutamente ninguém e oficializaram um acordo para manter o Homem-Aranha de Tom Holland fazendo parte do MCU e os filmes solo do cabeça de teia sendo produções da Sony chefiadas por Kevin Feige (que foi chamado para tentar manter a cabeça de Star Wars à tona, já que enquanto o MCU vai de vento em popa aquela galáxia bem, bem distante vem fazendo cada vez mais água).
Eu vou confessar que eu não estava particularmente preocupado com isso, primeiro porque todo mundo sabia que um novo acordo seria alcançado. A Sony não ia perder a chance de ter seus filmes solo catapultados pelo colosso que é o MCU e a Marvel não ia desperdiçar a chance de contar com o herói mais popular da editora em seus filmes de equipe por algumas centenas de milhões de dólares, quantia que a casa do Mickey joga pela janela produzindo filmes de Tim Burton, por exemplo.
E segundo porque os atuais filmes solo do Homem-Aranha não são exatamente um sonho de fã pra mim.
Eu já disse mais de uma vez que esse arco com Peter Parker sendo um discípulo de Tony Stark é muito mais proveitoso para o Homem de Ferro do que para o Homem-Aranha que perde muito de sua essência ao ser o sidekick de outro personagem, algo que jamais aconteceu nos quadrinhos. Sem contar que retratar Peter Parker como um millenial típico também é um desserviço ao herói que não era uma adolescente típico dos anos 60 quando foi criado por Lee e Ditko, nem um adolescente típico dos anos 2000 quando foi reimaginado por Bendis e Bagley na série Ultimate, de modo que vejo pouco, pouquíssimo do personagem que amo nos quadrinhos nessa atual versão em celuloide.

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Se é verdade que eu sentiria falta do cabeça de teia nos filmes dos Vingadores, não é menos verdade que, no momento, os Vingadores acabaram. Os heróis com os quais eu me importava se aposentaram ou morreram e a história encabeçada por eles acabou.
A próxima fase da Marvel é basicamente um spin-off, e tudo bem.
Não é como se eu não fosse continuar assistindo esses filmes nos cinemas, eu apenas não estou emocionalmente investido com Doutor Estranho, Capitã Marvel, Homem Formiga e Pantera Negra como estava com Capitão América, Homem de Ferro, Viúva Negra e Thor, de modo que a continuação desse universo é muito menos importante pra mim do que já foi, salvo alguns poucos personagens entre os quais não está o Homem-Aranha de Tom Holland.

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Eu confesso que cheguei a ficar curioso imaginando que espécie de malabarismo a Sony faria para continuar sua série do Homem-Aranha sem usar o resto do Universo Marvel em um eventual terceiro filme. Fiquei me perguntando se teríamos um misto de reboot com continuação ao estilo Evil Dead/Uma Noite Alucinante 2 ou algum remendo descarado onde a história seria mantida e os eventos dos filmes anteriores simplesmente omitidos quando se conectassem ao MCU, ao menos bem mais curioso do que estou com longas solo do Sexteto Sinistro, de Morbius, Kraven, Madame Teia e Silk...


Quando É Bom Estar Errado...


A vida, já disse alguém, é feita de oportunidades.
E parece factível. Nossa trajetória provavelmente pode ser graduada pelos chances que nos foram dadas e que fizeram com que avançássemos em direção ao próximo estágio de nossa existência.
Claro... Há oportunidades que, uma vez desperdiçadas, estão perdidas de maneira perene.
Todos conhecemos as histórias das pessoas que deixaram de tomar uma atitude, fosse por receio ou incompetência, e viram o que mais tarde identificariam como um potencial evento divisor de águas em suas vidas escafeder-se na esteira do tempo tornando-se nada além de uma elusiva sombra do que poderia ter sido projetada em uma parede para a qual evita-se olhar.
Todas as pessoas carregam arrependimentos. Poucos são os que pode dar-se ao luxo de citar Edith Piaf sem pensar "Tá... Quase" em um ponto ou outro da narrativa da própria existência. Porque entre todos os caminhos que a vida oferece, nós geralmente podemos optar por escolher apenas um, e nem mesmo os muito sábios conseguem ver os dois lados, já diria Gandalf, o Cinzento.
E quando o arrependimento de alguém advém de ter errado, mas feito a melhor escolha possível baseado nas informações às quais tinha acesso em determinado momento, suponho que seja mais fácil de conviver com os eventuais rescaldos de más decisões. Afinal, fez-se o melhor que pôde.
Mas quando se deixa de fazer por medo...
Esse é um arrependimento particularmente doloroso.
Ele é não apenas testemunho de mau julgamento, mas também de covardia. E passar o resto da vida sendo confrontado com a própria falta de coragem deve ser dessas coisas que matam o espírito de alguém.
E o tempo é um algoz nefasto na hora de espezinhar aqueles que perderam a chance de fazer a diferença por si próprios.
Não haverá dia em que a sombra do "E se...?" não vá fustigar o incauto que deixou o cavalo passar encilhando e não o montou.
Que deixou a chance de ser feliz escorrer por entre seus dedos e ser levada pela sarjeta até fora de seu alcance.
Que não disse a palavra que estava na ponta da língua, ou que não deu o passo adiante e tomou a atitude que deveria ter tomado.
Há oportunidades que não voltam.
Que se vão e deixam um vácuo que jamais poderá ser preenchido. Que se tornam uma lacuna que jamais será reparada.
Que serão, na melhor das hipóteses, uma penosa advertência para que outrem não deixem passar a chance. Um mau exemplo.
Há oportunidades que não voltam.
E para as quais olharemos sempre com uma ponta de melancolia enquanto pensamos no quão tolos éramos por desperdiçá-las.
Eu pensei, durante muito tempo, que tu era uma dessas oportunidades que não voltam.
A mais linda das decisões não tomadas, a mais perfeita das chances desperdiçadas.
Que bom, meu amor, que eu estava errado.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

O Trailer de Lançamento de The Last of Us 2

E paulatinamente a Naughty Dog e a Sony divulgaram o trailer de Lançamento de The Last of Us 2, mostrando as razões que jogam Ellie em uma violenta luta por vingança contra um grupo de sobreviventes numeroso, bem-armado e moralmente reprovável.
Confira a prévia:



Sequência de um dos melhores games da geração passada, The Last of Us 2 será lançado para Playstation 4 em 21 de fevereiro do ano que vem.

O Trailer de El Camino: Um Filme de Breaking Bad

A Netflix divulgou há pouco o trailer final de El Camino: A Breaking Bad Film, longa que dará sequência aos eventos de Breaking Bad seguindo Jesse Pinkman após ele ser libertado de seu cativeiro por Walter White.
Confira:



Dirigido por Vinge Gilligan o longa traz Aaron Paul de volta ao papel de Jesse, mais Charles Baker (Skinny Pete) e Matt Jones (Badger), e deve mostrar ao menos outros dez personagens de Breaking Bad. O longa tem estréia marcada para o dia 11 de outubro na plataforma de streaming.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Resenha Cinema: A Música da Minha Vida


Eu tinha dez anos de idade quando me apaixonei por quadrinhos.
Eu já lia gibis desde antes disso. Aos oito anos de idade, já devidamente alfabetizado (loas para as professoras Stella e Inelda) eu era capaz de ler gibis inteiros do Conan, Super-Homem, Spectreman e turma da Mônica, mas foi apenas aos dez anos que eu realmente me apaixonei pela nona arte em geral, e pelo Homem-Aranha em particular quando, em um frio mês de julho do ano de 1991, durante um ida ao super mercado Moby-Center com meu pai, ganhei A Teia do Aranha número 22.
A primeira história tinha o desfecho de um caso envolvendo o doutor Octopus e a tia May, mas as outras três histórias da edição, envolvendo o candidato a prefeito Richard Raleigh e um gigante chamado Golpeador... Aquelas foram as que de fato me cativaram, e me fizeram garimpar sebos embaixo do viaduto da Borges (havia dois) e tornaram A Teia do Aranha, nas edições que vinham com o "Arquivo Oficial da Teia" o meu quadrinho favorito em todos os tempos. Aos dez anos de idade, as histórias clássicas do Homem-Aranha escritas por Stan Lee, Gerry Conway e Roy Thomas e desenhadas por John Romita, Gil Kane e Ross Andru foram o veículo que me levou, pela primeira vez, a me tornar fã de alguma coisa. A primeira vez em que eu encontrei algo que eu senti que falava comigo.
A Música da Minha Vida, longa que estreou em circuito relativamente reduzido em Porto Alegre na última quinta-feira e que eu assisti no sábado de tarde, é carregado desse sentimento de pertencimento. De encontrar a coisa certa, aquilo que nos toca, que fala conosco em um nível além do discurso, na hora certa.
No longa conhecemos o jovem Javed (Viveik Kalra), adolescente de origem paquistanesa que vive na pequena cidade de Luton na Inglaterra, com os pais e duas irmãs.
O ano é 1987, e a família de Javed luta para sobreviver em meio à recessão do fim do período de Margaret Tatcher como primeira-ministra britânica. Seu pai, Malik (Kulvinder Ghir), comanda a família com autoritarismo de general, controlando os frutos do trabalho de Javed e de sua mãe, Goor (Meera Ganadra) assim como a vida social do rapaz e de suas duas irmãs, e até mesmo o futuro do primogênito, a quem deseja ver formado em contabilidade, administração ou qualquer carreira que vá lhe garantir empregabilidade no futuro e um bom casamento arranjado com uma desconhecida.
Javed, porém, tem outras aspirações.
Ele deseja frequentar festas, beijar uma guria, qualquer guria, se tornar um escritor, e se mudar para Manchester para cursar a universidade tão longe de Luton quanto possível. Ele se inscreveu em segredo no curso de literatura inglesa da professora Clay (a bela Hayley Atwell), escreve poemas e letras para as canções da banda de seu amigo Matt (Dean-Charles Chapman) enquanto tenta encontrar seu lugar na nova escola e no mundo em meio à ascensão do nacionalismo inglês alimentado pela crise econômica e o racismo sempre presente contra a comunidade paquistanesa na Grã-Bretanha.
Javed finalmente tem a sensação de não estar sozinho no mundo quando um colega de escola, o sikh Roops (Aaron Phagura), lhe apresenta a música de Bruce Springsteen na forma de duas fitas k-7 que o jovem escuta, apropriadamente, durante uma tempestade.
Ao som de Dancing in the Dark e The Promised Land, Javed anda pela vizinhança em meio ao temporal, vendo as palavras de Springsteen saltarem dos fones de ouvido de seu walkman e se materializarem ao seu redor, e perceber que seus medos e aflições podem ser estranhos à sua família tradicional ou ao seu melhor amigo com uma vida perfeita, mas que do outro lado da Atlântico, um roqueiro de Nova Jersey sabe exatamente como ele está se sentindo.
E Javed gosta da sensação.
Ele passa a ouvir todas as músicas de Springsteen, colecionar pôsteres que cobrem as paredes de seu quarto, escrever redações a respeito de seu novo ídolo e até a se vestir com os jeans, camisas xadrez e lenços de Born in the U.S.A.
Não é apenas o gosto musical e o guarda-roupa de Javed que mudam, porém.
O adolescente se torna mais confiante, apresenta seus poemas à senhora Clay, enfrenta os racistas que o destratam por sua origem asiática, não aceita que a rádio da escola toque Prince, Flock of Seagulls e Madonna e se recuse a tocar O Chefe, entra em atrito com seu antigo melhor amigo, começa um namoro com a colega engajada Eliza (Nell Williams), e desafia a autoridade de seu pai em casa.
Embalado pelas canções recém descobertas, Javed encontra a força para parar de sonhar em silêncio e encontrar sua própria voz, e enquanto colhe os frutos de sua rebeldia turbinada pelo rock proletário de Springsteen, o jovem tenta descobrir como conciliar suas próprias aspirações e os anseios de sua família enquanto sai da adolescência rumo à vida adulta.
A Música da Minha Vida é ótimo.
O longa nem sempre encontra o melhor dos equilíbrios entre suas múltiplas facetas. Nem todas as risadas são grandes risadas, nem todos os sorrisos almejados são tirados da audiência e alguns números musicais, daqueles onde os atores irrompem em coreografias e todos em cena entoam juntos as letras de Springsteen são meio bregas, mas ao mesmo tempo são abraçadas com tanta candura pela cineasta Gurinder Chadha que é impossível não bater o pé ou balançar a cabeça ao ritmo das canções.
Mas o roteiro, da própria Chadha, mais Paul Mayeda-Berges e Sarfraz Manzoor (adaptando seu próprio livro biográfico Greetings from Bury Park) não fica apenas nisso, e é particularmente esperto ao explorar as tensões entre as diferentes gerações de famílias imigrantes, com os mais velhos tentando manter sua cultura e tradição vivos à qualquer preço e os mais jovens buscando desesperadamente se encaixar em uma sociedade que nem sempre aceita os diferentes, adicionando uma boa dose de drama e contexto cultural ao filme, e essas qualidades ainda não são tudo o que A Música da Minha Vida tem a oferecer, pois sob todas as suas camadas, o longa ainda encontra tempo para ser um tocante drama a respeito da tumultuada relação entre Javed e seu pai, um homem antiquado e orgulhoso que se vê humilhado quando a vida que tentava oferecer à sua família lhe é tirada com seu sustento, e que não consegue aceitar a desobediência do filho.
Conduzido com candura pela sua diretora, o longa tem um elenco inspirado trabalhando à perfeição. Viveik Kalra é um achado, Aaron Phagura parece ligado em 220, Nell Williams é um doce, e Hayley Atwell é acolhedora sem ser condescendente, ainda assim, a atuação capaz de arrancar lágrimas (e sim, me arrancou algumas) é a de Kulvinder Ghir, que transita por todos os espectros, do cômico ao dramático sempre com a mesma competência.
A Música da Minha Vida é um desavergonhadamente emocionante feel good movie sobre amadurecimento embalado por uma tremenda de uma trilha sonora. Está longe, muito longe de ser perfeito, mas é caloroso, acolhedor, esperto sem ser pretensioso e realmente tocante.
Pra quem já se viu sob o efeito de descobrir algo que ama e não conseguir pensar em outra coisa, certamente vale a ida ao cinema.

"-Você acha que esse homem canta para pessoas como nós?
-Ele fala comigo!"

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Resenha Cinema: Rambo: Até o Fim


É bem possível que se Rambo: Programado para Matar não tivesse tido uma recepção ruim de audiências de teste a seu depressivo final tirado do livro fonte escrito por David Morrell, onde o Cel. Trautman matava John na delegacia após perceber que o veterano não seria capaz de se reintegrar à vida civil, fazendo os produtores do longa optarem por gravar um novo final onde John se rendia e era preso, nós tivéssemos perdido a longeva série que, durante muito tempo, foi o pedal onde Sylvester Stallone se impulsionava para disputar uma guerra de bilheterias musculosas com Arnold Schwarzenegger.
A Rambo: Programado para Matar, de 1982, seguiu-se Rambo II: A Missão, de 1985 co-roteirizado por James Cameron onde Rambo ia ao Vietnã resgatar prisioneiros de guerra, e então Rambo III, de 1988, onde John ia ao Afeganistão resgatar Trautman e lutar contra os invasores soviéticos, e que foi o último longa do atormentado boina verde até que, em 2008, Stallone voltaria ao papel aos sessenta e dois anos em Rambo IV, co-escrito e dirigido por Sly, que colocou o ex-militar em mais uma missão de resgate, dessa vez em Mianmar salvando a vida de missionários religiosos sem noção, e terminava com Rambo retornando aos Estados Unidos, para o rancho de sua família.
Mais onze anos se passaram desde o último Rambo, e ontem Stallone voltou ao cinema com Mais uma aventura de um de seus personagens fundamentais, a primeira acontecendo nós EUA desde o filme original.
Rambo está vivendo no rancho de sua família no Arizona.
Ele tem dividido seus dias entre domar cavalos selvagens, forjar cutelaria, tomar parte em missões de resgate na região como voluntário, e ajudar na criação de sua sobrinha Gabriela (Yvette Monreal), uma tarefa que divide com Maria (Adriana Barraza).
Com dezessete anos, Gabriela está prestes a entrar na faculdade quando descobre a localização do pai biológico que a abandonou, ainda na infância.
À revelia dos conselhos de Rambo e de Maria, Gabriela resolve viajar ao México para encontrar seu genitor.
As coisas, porém, dão errado para Gabriela, e ela acaba nas mãos de uma gangue de traficantes de mulheres chefiada pelos irmãos Martínez ( Sérgio Peris-Mencheta e Oscar Jaenada).
Rambo, então, resolve viajar até o outro lado da fronteira e recuperar a única família que lhe resta, mesmo que isso signifique começar mais uma guerra.
Dirigido por Adrian Grunberg, mesmo diretor de Plano de Fuga, com Mel Gibson, Rambo: Até o Fim é facilmente o filme mais fraco da franquia.
Seus oitenta e nove minutos são extremamente ligeiros e o roteiro escrito por Matthew Cirulnick, Dan Gordon e o próprio Stallone é econômico ao limite, os personagens são mais ou menos apresentados, o fiapo de trama estabelecido e partimos logo pra ação, e não há nada de errado com isso.
Após o primeiro longa da franquia (Talvez com uma exceção ao terceiro), Rambo sempre foi basicamente isso: Uma desculpa para os tiroteios, flechadas e facadas.
E Até o Fim entrega tudo aquilo que os fãs da série esperam.
O longa conta com um repertório de violência que supera até mesmo os píncaros de brutalidade alcançados pelo filme anterior, quando Rambo arrancava a garganta de um homem do pescoço usando as próprias mãos.
Dessa vez, Rambo usa, não apenas sua força quase sobre humana, suas habilidades no uso da faca, do arco e flecha, e de armas diversas, mas também sua astúcia na hora de receber invasores em sua casa, quando ele transforma seu rancho, celeiro e os túneis abaixo deles em armadilhas mortais que fariam Kevin McCallister e Jigsaw ficarem orgulhosos.
Rambo: Até o Fim certamente não irá cativar críticos de cinema pelo mundo, e definitivamente não é pra todas as audiências, mas os fãs da franquia certamente irão se fartar de ver o herói septuagenário matar bandidos absolutamente desprezíveis com todos os requintes de crueldade que a mente humana é capaz de conceber.
Os vilões são desumanos de tão ruins para que a audiência possa celebrar quando eles são brutalmente eviscerados, carbonizados, empalhados e imolados.
Não é bonito, não é particularmente bem filmado ou bem escrito, mas é uma sessão de cinema rápida e divertida para os fãs da série.

"-Eu quero que eles saibam que a morte está vindo. E que não há nada que eles possam fazer..."

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Um Bom (Re)Começo


Olhando em perspectiva, há algo de muito estranho na nossa relação. Ela tem muitos elementos de um casamento arranjado, já que meus pais decidiram quando eu ainda não era capaz de opinar, que eu pertenceria a ti, e tu a mim.
Eu fui, desde muito cedo, tratado como se tudo estivesse acordado, e faltasse apenas consumar o ato e, a verdade é que na minha tenra infância não fazia diferença.
Era tudo algo vago. Nublado. Teórico...
Não havia nenhuma espécie de implicação prática no que havia entre nós. Era apenas algo que eu respondia de maneira compulsória se me fosse perguntado, muitas vezes encorajado por minha mãe e meu pai quando a resposta me faltava, alheio que eu comumente estava ao nosso relacionamento.
Já às portas de tornar-me adolescente foi que me dei conta de que fora empurrado à revelia de minha vontade para ti. E, ao finalmente começar a entender como funcionava esse tipo de ligação, percebi que eu não estava certo de que era contigo que eu queria estar.
E eu experimentei outras companhias.
Não me envergonho de dizer que busquei me envolver e descobrir o que criava uniões como a que deveria ter existido entre tu e eu, que procurei em outros lugares, que tentei em outras companhias, mas jamais descobri.
Tudo parecia tão artificial e efêmero quanto aquilo que minha família tentara forçar entre tu e eu.
E durante algum tempo eu tentei ignorar essa lacuna em minha vida.
Foi apenas aos quatorze anos que resolvi te dar uma nova chance.
Ascendendo aos píncaros da rebeldia púbere, não fora por influência de meus pais, mas de amigos, que resolvi voltar a olhar pra ti.
Hoje, poderiam dizer que eu escolhera um péssimo momento para te reencontrar. Corria o ano de 1995, e tu estavas tão longe de tua melhor forma que, tenho certeza, não teria sido a hora que tu escolheria para tentar seduzir a alguém.
Mas ali, naquele dia, houve um estalo que não houvera quando o que havia entre nós era meramente platônico.
Eu ainda sou capaz de me lembrar da primeira vez em que nos vimos, da eletricidade quando entrei em tua casa e te vi em toda a tua beleza, e pude entender o amor que outros sentiam por ti.
Nosso amor não foi à primeira vista. Foi ao primeiro toque. Foi à primeira vez que senti o que tu, mesmo em teus piores momentos era capaz de proporcionar. E ali eu tomei tua mão e prometi que jamais quereria outra coisa.
E nós tivemos uma bela jornada.
Tu me levou a lugares onde eu não achava que chegaríamos quando te assumi, lá atrás. Como se me recompensando pela fé que coloquei em ti em tua hora mais sombria. A cada nova conquista, eu tinha pra mim que, por mais que elas fossem partilhadas entre todos os que te amam, elas tinham um elemento de cumplicidade que era só entre nós. Quase como se tu me lançasse uma piscadela dizendo "Te falei que valeria a pena".
E valeu.
Tu me deu muito mais alegrias do que dissabores. E ainda que eu tenha fervido de ódio e estado a dois passos de explodir de tensão, em muito mais ocasiões me vi experimentando sensações de felicidade que, sim, eram ligeiras, talvez rasas no grande esquema das coisas, mas como eu poderia demandar mais de ti?
Nós tivemos uma bela jornada...
Não é segredo para ninguém que nossa relação tem estado estremecida. Tu fez coisas que me afastaram de ti. Paulatinamente trilhou um caminho que tornou impossível pra mim te seguir. Fez todas as escolhas erradas que podia ter feito em um curto espaço de tempo... E eu sei, eu sei que não foi tanto tu, quanto as pessoas tomando as decisões em teu nome. Eu sei.
Prova disso é que mantive minha promessa, e jamais quis outra coisa.
Se é verdade que não era tu, também é verdade que não houve nada que assumisse teu lugar.
Tu deixou um vazio.
E sim, vez e outra eu te procurei com fingido desinteresse. Olhei ao redor e acenei, tu acenou de volta, sorrimos e seguimos nossos caminhos. Mas jamais vi novamente aquela piscadela cúmplice de outrora. Jamais senti que tu estava, de fato, tentando me chamar de volta.
Hoje poderia ser um bom momento pra isso.
Eu não quero, de forma alguma, soar volúvel ou interesseiro.
Eu não quero dizer que, se tu for bem-sucedido hoje, eu caio de volta nos teus braços como se nada tivesse acontecido.
Não...
Mas hoje, às 21:30 no Beira-Rio lotado de playboys e patricinhas tirando selfies nas cadeiras que se empilharam sobre as arquibancadas de sagrado concreto, se tu não me decepcionar de novo, se tu fizer tudo certo, pode ser um bom (re)começo pra nós.
Pense a respeito, Internacional.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Resenha Filme: Vingança a Sangue Frio


Se tem uma coisa que eu adoro nessa vida é a descoberta que Liam Neeson fez de que poderia ser um herói de ação da terceira idade e começar a lançar um filme de vingança ou família em perigo onde ele mata a vagabundagem a mãozada na cara por ano sem deixar de fazer filmes "di veRdadi" como o ótimo A Balada de Buster Scruggs ou o soberbo Silêncio entre uma fita policial duvidosa e a outra.
Nesse ano de 2019 o filme de porradaria de Liam Neeson foi um pouco diferente do habitual. O ator norte-irlandês é o protagonista desse Vingança a Sangue Frio, remake do longa norueguês O Cidadão do Ano estrelado em 2015 por Stelan Skarsgård e Bruno Ganz e dirigido por Hans Petter Moland, que também é o diretor dessa versão hollywoodiana.
No filme conhecemos Nels Coxman (Neeson) um dos pilares da sociedade da cidadezinha turística de Kehoe, no Colorado.
Responsável por remover a neve que se acumula na estradas da região gélida ao redor dos resorts de esqui, ele vive em uma cabana confortável afastada dos turistas com sua esposa, a maconheira Grace (Laura Dern) e o filho Kyle (o ator Micheál Richardson, filho de Liam Neeson na vida real), e acaba de ganhar o prêmio de cidadão do ano na cidade.
A vida tranquila de Nels muda quando Kyle é envolvido por seu amigo Dante em um imbróglio envolvendo roubo de drogas no aeroporto onde trabalha carregando bagagem, e acaba sendo assassinado pelos traficantes que tiveram sua mercadoria surrupiada.
O assassinato de Kyle é armado para parecer uma overdose de heroína, e é isso que faz com que Nels tenha certeza de que seu filho foi morto. A morte de Kyle tem um efeito devastador sobre o casamento de Nels, que não consegue mais se comunicar com a esposa enlutada, e é quando está flertando com a ideia de tirar a própria vida que ele tem suas suspeitas confirmadas, e obtém o nome de um dos responsáveis pelo destino trágico de seu filho.
Não tarda para Nels fazer uma visita ao traficante, e matá-lo com as próprias mãos. Enrolá-lo em tela de galinheiro, e jogá-lo de uma cascata no fundo do rio Colorado.
Mas esse sujeito não é o suficiente para a sede de vingança de Nels. E ele vai atrás de outro traficante. E de outro... E a cada nova morte, ele sabe que precisa de mais. E decide que quer a cabeça de Trevor "Viking" Calcote (Tom Bateman), o grande chefão do tráfico de drogas em Denver.
Ao levar sua vingança à alturas impensáveis para um homem de família comum, Nels inadvertidamente inicia uma guerra de gangues e sua contagem de corpos começa a se estender para além do esperado conforme as duas facções rivais começam a fechar o cerco ao seu redor.
Vingança a Sangue Frio é, sem sombra de dúvida, o filme mais estranho estrelado por Neeson em anos recentes.
O longa é extremamente subversivo no que tange ao que se esperaria de um filme com essa premissa estrelado pelo ator de Busca Implacável, e fãs que esperam uma fita de vingança mais tradicional podem se desapontar mesmo que não leve mais de vinte minutos para vermos o protagonista esmurrando um sujeito com metade de sua idade até as portas da morte.
Há muita comédia em Vingança a Sangue Frio e eu francamente não consegui discernir quanto dela é proposital ainda que boa parte efetivamente seja, por exemplo o fato de o grande vilão do filme ser tanto um psicopata violento que comanda um cartel de drogas quanto um pai dedicado à beira da obsessão, ou o fato de que todos os coadjuvantes do longa têm um background de que a audiência toma conhecimento em algum momento, sejam coisas simples como o fato de que um capanga nasceu para voar, um é apaixonado pelos Cleveland Browns, ou que outro tem uma técnica para fazer sexo com camareiras em motéis com taxa de sucesso de 20%, ou o fato de que a jovem patrulheira interpretada por Amy Rossum consegue informações com a polícia de Denver prometendo sexo ao ex-namorado, ou que Búfalo Branco (Tom Jackson) líder da tribo de traficantes indígenas que comanda a venda de narcóticos em Kehoe é um pai dedicado e se ressente da herança de seu povo ser apropriada pelos brancos que exploram o turismo na região...
E, não. Eu não sou politicamente correto a ponto de me sentir mal com o humor negro do filme que abertamente faz piadas com misoginia e estereótipos racistas, mas eu acho que para justificar esse tipo de abordagem o longa precisaria ser consideravelmente melhor do que é.
Por mais que Hans Petter Molland esteja se divertindo muito com o longa, uma impressão reforçada pela presunção de alguma tiradas re-re-repetidas ao longo do filme, a audiência nem sempre se diverte tanto.
Há algumas decisões interessantes, porém, como o fato de que a violência do longa não é tão gráfica quanto poderia se esperar, ou que o longa subverte a expectativa de quem achava que Neeson ia sair matando todo mundo com as próprias mãos como em muitos outros de seus filmes, mas isso tudo é muito pouco para sustentar um roteiro que se acha muito mais inteligente e engraçado do que de fato é.
Ainda assim, Vingança a Sangue Frio vale uma olhada apenas pela tentativa de entregar alguma coisa diferente dos filmes de vingança de sempre, o longa não é bem sucedido em todas as tentativas que faz, mas é em algumas, e por mais que tenha defeitos, é difícil não ficar interessado no que vai acontecer a seguir quando estamos assistindo, nem que seja por curiosidade mórbida.
O longa está no catálogo do Amazon Prime Vídeo.

"-Qual é o lance com todos esses apelidos?"

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Resenha Filme: Upgrade


Domingo de tarde, nada pra fazer, resolvi trair a confiança do Paulo da locadora e alugar um filme para assistir no Google Play Vídeo. O escolhido de ontem foi Upgrade, um raro longa protagonizado pelo bom Logan Marshall-Green, um ator que não consegue muitos papéis protagonistas apesar de ter boa aparência e recurso dramático, eu suspeito, porque é parecido demais com Tom Hardy e o britânico acaba ficando com papéis que Marshall-Green poderia ter por ser mais famoso e ter um nome mais curto e com menos letras repetidas; e um raro filme da produtora Blumhouse que não é um horror de fantasmas ou um thriller de psicopatas, mas uma ficção científica, mais ou menos.
No longa, que toma lugar em um futuro não muito distante, conhecemos Grey Trace (Marshall-Green), um mecânico restaurador de carros antigos que ainda não encontrou seu lugar em um mundo cada vez mais digital.
Habituado a trabalho duro feito com a mão na massa, Grey se ressente de seu ofício não ser mais apreciado, e se pergunta o que lhe reserva o futuro em um mundo de automóveis elétricos guiados por computadores.
O seu raio de luz é a esposa Asha (Melanie Vallejo), que trabalha em uma firma de tecnologia especializada em próteses.
A vida de Grey tem uma curva acentuada para o pior quando, após entregar seu mais recente trabalho, a restauração de um Firebird Trans Am para um bilionário do setor de software, voltando para casa, eles sofrem um acidente após seu carro autônomo ser hackeado e parar em um subúrbio pobre da cidade, onde o casal é atacado por quatro criminosos com próteses biônicas.
O resultado do ataque é que Asha é morta e Grey fica tetraplégico.
Incapaz de se adaptar à sua condição de deficiente e entregue à depressão, Grey está flertando com o suicídio quando o bilionário que comprou seu Firebird, Eron Keen (Harrison Gilbertson), surge com uma proposta:
Sua mais nova invenção, o microchip Stem, é capaz de assumir o lugar dos nervos destruídos de Grey, e fazer a ponte entre o cérebro do mecânico e sua espinha, devolvendo-lhe os movimentos. O processo é absolutamente experimental, secreto, e Grey não poderia contar a ninguém que recuperou os movimentos e nem como, já que ele seria basicamente uma cobaia.
Se em um primeiro momento Grey está reticente com a proposta, ele eventualmente opta por aceitá-la, e passa pela cirurgia realizada na residência de Keen que, realmente funciona, e ajuda o mecânico a recuperar a autonomia de seu corpo.
Se Grey fica maravilhado ao recuperar a habilidade de andar, ele fica um pouco menos empolgado com a faceta do Stem da qual Eron não o avisou:
O microchip é mais inteligente do que lhe fora avisado, sendo, de fato, senciente. O aparelho é capaz até mesmo de conversar com Grey enviando pequenas ondas de choque aos tímpanos de seu hospedeiro que passa a ouvir a voz monocórdica do computador em sua cabeça.
Ao perceber a frustração de Grey com a polícia que, após meses, ainda não foi capaz de encontrar nenhum suspeito pelo ataque que custou a vida de Asha, Stem resolve ajudar o mecânico a encontrar os culpados em uma investigação que logo mostra a mais incrível característica da invenção de Eron:
A capacidade de assumir o controle do corpo de Grey quando recebe permissão, e ampliar suas capacidades motoras a níveis quase sobre-humanos, transformando o mecânico em uma máquina de matar, capacidades que são extremamente úteis quando Grey e seu parceiro invisível saem no encalço de criminosos mecanicamente aprimorados.
Então, sim, em 2018, tanto Logan Marshall-Green quanto Tom Hardy fizeram filmes sobre homens normais que recebem em seus corpos entidades capazes de torná-los mais rápidos e fortes e os ajudam em uma jornada de vingança.
Mas esse não é o ponto...
Upgrade é um filme assumidamente despretensioso.
O longa escrito e dirigido pelo australiano Leigh Whanell (um dos sujeitos presos no banheiro no primeiros Jogos Mortais, e roteirista de uma penca de filmes de horror que vão dos três primeiros Jogos Mortais à franquia Sobrenatural quase toda) acena com diversas questões a respeito da disparidade da relação da humanidade com a tecnologia, mas a verdade é que não está realmente interessado em responder nenhuma delas, mas sim levar a audiência à uma fita de vingança temperada com sci-fi de baixo orçamento.
O segredo para apreciar o filme é não levá-lo excessivamente a sério, estar com a suspensão de descrença em dia e apreciar o filme não pelo que ele falha em entregar, como os questionamentos a respeito do homem sendo usado pela máquina tanto quanto o contrário, mas pelo que ele de fato entrega, no caso, cenas de luta muito bem encenadas onde Grey é apenas um espectador enquanto Stem usa seu corpo para realizar prodígios de artes marciais que parecem uma mistura de coreografia de luta com a dança do robô turbinados por um uso esperto de câmera que mantém o protagonista no centro da tela o tempo todo como se o resto do cenário é que se movesse ao seu redor, e uma dose de violência gráfica que entrega as raízes slasher do cineasta responsável.
Se o espectador for capaz de se divertir com a trama de investigação que tem, de fato, boas reviravoltas apesar de as pistas irem sendo atiradas com algum descaso pra fazer a história andar, e as pancadarias bem construídas, e for capaz de perdoar o descaso com certos personagens, como a mãe do protagonista, Pamela Grey (Linda Cropper), ou a detetive Cortez (Betty Gabriel, de Corra!) encarregada do caso que começa a suspeitar das idas e vindas de sua testemunha tetraplégica, que entram e saem de cena porque sim, poderá se divertir com Upgrade que, apesar de suas escolhas duvidosas e/ou preguiçosas, pode ser definido como um bom filme ruim.
Numa tarde modorrenta de domingo, ele certamente distrai por uma hora e quarenta.

"-Veja, você pensou que eu fosse um aleijado, mas não sabia que eu sou um ninja.
-Embora eu seja de última geração, eu não sou um ninja."

sábado, 14 de setembro de 2019

Era com Ela


Durante toda a vida, nos (poucos) namoros de que participara, considerava-se um sujeito carinhoso e relativamente sensível.
A despeito de todas as piadas que sempre ouvira a respeito da própria economia em suas demonstrações de afeição jamais considerou-se fechado no tocante aos próprios sentimentos. Era, de fato, algo econômico, porque achava que homens deviam agir de certa maneira. Não engolindo tudo até criar uma úlcera gástrica com as proporções da Grande Nuvem de Magalhães, mas tanto quanto necessário para permanecer ao menos um pouco opaco para garantir a própria segurança, mas enfim, considerava-se carinhoso e relativamente sensível, e sempre viu-se como um bom namorado, considerando-se a média.
Uma coisa, porém, que sempre o deixara algo desconcertado em seus relacionamentos eram piadas que evocavam a possibilidade de relacionamentos de longo prazo.
Mesmo quando usados à guisa de pilhéria, de forma descompromissada, aquele era um tipo de brincadeira que o deixava genuinamente desconfortável. Assustado, até.
Brincadeiras que começassem com "quando a gente casar", ou "Nossa filha vai ser assim", ou "Quando estivermos organizando a festa de natal...", ele ficava tão flagrantemente desconfortável que não conseguia sequer fingir que estava bem. Era transparente que ele se sentia acuado pela sugestão de um relacionamento de longo-prazo, com raízes profundas capazes de gerar uma família. Ás vezes mais que ligeiramente acuado. Certa vez ouviu a menina lhe dizer que ele perdera a cor dos lábios, e em outra, anos mais tarde, a guria, entre confusa e constrangida, apressou-se em explicar que era uma piada ao perceber que ele engasgara.
A realidade é que aquela relação visceral era tão aflitivo para ele quanto para as interlocutoras que viam o namorado prestes a deixar um buraco com o próprio formato na porta mais próxima.
Ao ouvir os pedidos de desculpas das gurias, ou as piadas que elas faziam ao percebê-lo embaraçado, ele ficava ainda mais confrangido. Especialmente porque aquele embaraço e angústia diante de meras palavras o fez perceber-se em uma categoria onde jamais imaginara-se: Na dos homens que têm medo de relacionamentos sérios.
Ele sempre supunha-se como uma pessoa relativamente madura, ou tão maduro quanto um adulto fantasiado de super-herói podia considerar-se, mas enfim, alguém capaz de construir uma vida junto de uma pessoa amada.
Descobrir que não era capaz de tal coisa o deixou francamente desapontado consigo mesmo. Triste como se tivesse perdido parte da própria identidade.
Até ela surgir em seu caminho.
A guria.
Que com seu sorriso iluminado, seu jeitinho doce e sua cascata de cabelos negros o colocou de volta no rumo.
Aquela moça linda e inteligente, engajada, de pernas épicas e senso de humor afiado chegou à vida dele e não importasse o tamanho da projeção que ela fizesse, "Quando morarmos juntos", "Quando formos na casa dos teus pais", "Quando a minha mãe for má contigo", "Quando estivermos juntos pra sempre", nada nunca, jamais, em tempo algum o assustava. Parecia apenas natural.
Ele ficou intrigado, porém. Por que ele se sentia tão desacorçoado quando ouvira tais cenários sendo propostos por outras pessoas? Por que é que outros compromissos de longa duração o assustavam antes e a promessa de uma ligação perene, agora, o deixava totalmente à vontade?
Olhando as fotos dela sucederem-se na tela de seu telefone celular conforme as arrastava com o polegar, sorriu ao entender.
Sentira medo, embaraço, pânico até, porque antes, por melhores que fossem aquelas pessoas tentando planejar um futuro ao seu lado, elas não eram a pessoa certa.
Elas não eram ela.
E era com ela, e com ela apenas, que ele queria cumprir cada uma daquelas juras.


sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Top 10 Casa do Capita: Filmes de Terror

Sexta-Feira 13, quando eu era criança, era sinônimo de filmes de terror estilo slasher na televisão. Geralmente Jason Vorhees assumia o facão na Globo, enquanto Freddy Kruegger surgia nos pesadelos de alguma adolescente no SBT, e a Band, antes do advento do Cine Trash, vez e outra dava um espaço para Michael Mayers, e eu, que na infância era um fedelho mórbido com gosto todo particular por filmes de horror, tanto que cheguei a ter meu próprio slasher, (criado em parceria com meu amigo André Crespani e que matou todos os nossos colegas de turma no clássico livro Um Assassino em Terceira Dimensão, que eu francamente não lembro que nota nos rendeu na quarta série) tentava assistir tantos quanto possível.
A minha fase de amor pelo terror não durou além dos onze anos de idade, porém, e eu logo fui deixando Freddie, Jason e Michael para trás e encontrando novas paixões.
Depois de crescido, a construção de um senso crítico não ajudou esse antigo amor a ser revitalizado, já que os filmes do gênero foram se tornando cada vez piores, de modo que hoje em dia, podendo evitar filmes de terror, em geral eu os evito, salvo raras exceções.
Mas hoje é uma sexta-feira 13.
Mais do que isso, é a primeira sexta-feira 13 de lua cheia em vinte e dois anos. E se uma sexta-feira 13 de lua cheira em um dia nublado que ainda guarda o frio do inverno não é dia para relembrar os melhores filmes do gênero, então eu não sei qual outro seria.
Vamos então, a mais um infame Top 10 CAsa do Capita, dedicado aos melhores filmes de terror:

10 - A Volta dos Mortos-Vivos (Dan O'Bannon, 1985)


Mortos-vivos já se tornaram uma parte tão intrínseca da cultura pop que poderia-se fazer uma lista apenas com filmes sobre mortos que se erguem dos túmulos para se alimentar da carne dos vivos. É um subgênero que, hoje em dia, já deve ter empatado com vampiros entre as criaturas de filmes de horror com mais títulos lançados. Embora eu reconheça o impacto e a importância de George Romero para o gênero, o primeiro filme de zumbis que eu vi e amei foi esse O Retorno dos Morros Vivos, co-escrito e dirigido por Dan O'Bannon, ex-parceiro de Romero que, no "divórcio do casal" ficou com a expressão living dead, deixando os dead para Romero.
Seu longa de 1985 não tem a afiada crítica social dos filmes Romeristas, mas é muito mais piadista e roqueiro e, ao contrário da crença popular que credita zumbis corredores a Extermínio, de Danny Boyle, foi o primeiro longa com desmortos velocistas.
Na trama, dois funcionários de um armazém inadvertidamente liberam o gás contido em um tambor do governo dos EUA. Eles reanimam alguns cadáveres com o tal químico e após conseguirem esquartejar o defunto, resolvem incinerá-lo. Quando a fumaça do corpo queimado se junta às nuvens de chuva sobre o cemitério vizinho, tudo vai para o inferno...
Três coisas, além do bom humor de certas sequências e da emoção autêntica de outras tantas tornaram esse filme um favorito pra mim na infância: O "Homem de alcatrão", primeiro zumbi que aparece no filme e a mulher-dividida, morta-viva partida ao meio que é interrogada pelos heróis, duas geniais criações animatrônicas, e a gloriosa nudez total da linda Lynnea Quigley, que povoou meus sonhos muito depois de os zumbis já terem se desvanecido.

9 - A Morte do Demônio/Uma Noite Alucinante 2 (Sam Raimi, 1981/1987)


Eu ainda não havia completado oito meses de idade quando o baratíssimo Evil Dead (ou os Mortos Malvados que no Brasil tornou-se A Morte do Demônio porque alguém da distribuidora não sabia inglês e/ou não viu o filme), longa de horror escrito e dirigido por um jovem, talentoso, entusiasmado e pobre Sam Raimi foi lançado nos cinemas norte-americanos tornando-se um cult de terror.
Seis anos mais tarde, Raimi lançaria Evil Dead II, que, no Brasil, tornaria-se Uma Noite Alucinante 2, mesmo sem existir um Uma Noite Alucinante 1...
Me lembro de, aos oito anos de idade, ir com minha mãe à Stock Vídeo uma locadora na Jerônimo Coelho, do lado do consultório do meu pediatra, para alugar uma fita em uma noite em que dormiria na casa da minha vó, e ter pego quase de imediato a caixa do VHS com a caveira olhando para a câmera.
Mais tarde, assistiria empolgadíssimo ao longa que era tanto uma sequência quanto um remake do filme de 1981.
Tanto em um quanto no outro um grupo de jovens fica preso em uma cabana no meio do ermo e inadvertidamente usam o Necronomicon das histórias de Lovecraft para liberar demônios e mortos vivos em nosso mundo.
Com todos os cacoetes visuais da câmera frenética que se tornaria assinatura de Raimi nos anos vindouros, mais uma mistura brilhante entre horror, senso de humor algo doentio, uma escopeta, e uma moto-serra, é difícil separar A Morte do Demônio e Uma Noite Alucinante II, e esses dois filmes estão, sem sombra de dúvidas, em qualquer lista de filmes fundamentais do gênero.

8 - Tubarão (Steven Spielberg, 1975)


É engraçado pensar que a falta de grana tenha beneficiado o primeiro blockbuster de verão da história do cinema.
Veja, com pouco dinheiro, o tubarão mecatrônico imaginado por Spielberg para adaptar o livro de Peter Benchley (adaptado pelo próprio, mais Carl Gottlieb) simplesmente não convencia, o que obrigou o então novato cineasta a esconder o peixe durante a maior parte da projeção, e contar apenas com uma barbatana, sua câmera e a magistral trilha sonora de John Williams para gerar tensão.
É de se imaginar se o filme teria o mesmo impacto com o tubarão em cena o tempo todo. Sem ele, a sensação de pavor toda a vez que alguém está parcialmente submerso e os dois acordes do oscarizado tema principal começam a soar deixavam todos os seres humanos que têm medo de tubarões (e algum não tem?) uma pilha de nervos.
Ancorado em uma genial dinâmica entre os personagens de Roy Scheider, Richard Dreyfuss e Robert Shaw, o longa era menos sobre uma fera aquática devoradora de gente e mais sobre o medo que esse animal gerava em toda uma comunidade. Há quem diga que Tubarão não é exatamente um filme de terror, mas um longa ancorado em tensão e medos primários certamente se qualifica na minha lista.

7 - Alien, o Oitavo Passageiro (Ridley Scott, 1979)


Além de ter nos proporcionado uma das maiores, senão a maior heroína de ação da história do cinema com a tenente Ellen Ripley de uma estonteante Sigorney Weaver, Alien, o Oitavo Passageiro criou o que possivelmente é a mais sensacional mistura de horror e ficção científica de todos os tempos.
Sete pessoas a bordo de uma nave no meio do espaço, presas junto com um alienígena que começa a matar a tripulação um por um.
Como se esse cenário já não fosse aterrorizante o suficiente por si, o monstro mudava de forma. A audiência não sabia onde o desgraçado estava, e nem como ele seria na próxima vez em que aparecesse, tornando o jogo de esconde-esconde ainda mais triturador de nervos. O roteiro de Dan O'Bannon e Ronald Shusett, a direção de Ridley Scott, o elencaço que ainda contava com John Hurt, Ian Holm e Iaphett Kotto, entre outros, e a aterrorizante criatura desenhada por H. R. Gyger uniram todos os elementos necessários para transforar os estéreis corredores da Nostromo em uma autêntica casa assombrada de onde era impossível fugir, e colocaram toda a audiência na pele da tripulação cada vez que um deles era perseguido, encurralado ou explodido de dentro pra fora.
Eu não devia ter oito anos de idade quando assisti Alien na Sessão de Gala da Globo, e mesmo hoje sou capaz de me lembrar da expressão no rosto do personagem de john Hurt parindo o primeiro xenomorfo. Quantos longas conseguem deixar esse tipo de marca?

6 - Psicose (Alfred Hitchcock, 1960)


Existe uma coisa chamada anacronismo, que me irrita profundamente.
É julgar coisas de outrora com parâmetros de hoje... Quando alguém não quer ler Robinson Crusoé porque o protagonista é um capitão de navio negreiro, por exemplo, ou quando alguém condena Tolkien por todos os seus protagonistas serem brancos, ou acha os efeitos visuais de Superman - O Filme ou Star Wars ruins... Isso é anacronismo.
Muita gente assiste Psicose e acha a história datada ou previsível, mas imagine-se assistindo ao longa em 1960, com uma divulgação propositadamente opaca e liderada pelo próprio Hitchcock, e vendo os primeiros minutos do longa desenrolarem-se como se fosse um suspense noir até o momento em que Janet Leigh entra no chuveiro e a cortina se abre ao som do tema imortal de Bernard Herrmann?
Se até ali Hitchcock era um mestre do suspense, em Psicose ele pela primeira vez colocou um pé no horror (três anos mais tarde ele colocaria os dois no excelente Os Pássaros), e rapaz, que pé pesado tinha o britânico.
A brilhante atuação de Anthony Perkins como o perturbado Norman Bates é apenas a ponta do iceberg entre todas as qualidades de Psicose, e, novamente, se hoje o final parece previsível, imagine-se vendo-o pela primeira vez em um mundo onde Psicose ainda não existia...

5 - O Labirinto do Fauno (Guillermo del Toro, 2006)


Toda a crítica especializada e o Oscar caíram de amores pelo excelente A Forma da Água, mas a verdade é que o trabalho mais intimista, mágico e aterrorizante de del Toro ainda é o espetacular O Labirinto do Fauno.
Tomando lugar em um vilarejo espanhol durante o período de governo do generalíssimo Francisco Franco, o longa de 2006 é aberto a múltiplas interpretações. Nós nunca sabemos com certeza se a pequena Ofélia (Ivana Baquero) está apenas criando um mundo de fantasia onde se refugiar quando os horrores da guerra invadem sua vida pessoal. Serão coisas medonhas como o Homem Pálido e o batráquio gigante sob a árvore apenas reflexos do verdadeiro monstro, o capitão Vidal? Estaria a mandrágora realmente fazendo bem à sua mãe até ser destruída pelo padrasto?
Jamais fica claro. O que está sempre evidente é que a fuga de Ofélia rumo ao mundo subterrâneo de sua imaginação está longe de ser segura, pois nem mesmo o retorcido Fauno que a guia parece ser confiável.
Além das grandes atuações de Baquero, Maribel Verdú e especialmente Sergi López, O Labirinto do Fauno ainda é um dos mais puros exemplares da capacidade de del Toro de imaginar criaturas de linda feiúra e mundos de cair o queixo, e de mostrar que sabe que botões apertar na hora de meter medo na audiência.

4 - Poltergeist: O Fenômeno (Tobe Hooper, 1982)


Poucos foram os filmes que me deixaram sem dormir na minha vida. Poltergeist: O Fenômeno foi um deles.
Eu ainda não frequentava a escola quando assisti ao longa na Globo veraneando com minha família na praia do Pinhal, e me lembro que dormi na cama com a minha vó durante dois ou três dias depois de assistir à história sobre a família que compra uma casa sem tomar conhecimento do fato de que a residência foi construída sobre um cemitério indígena.
Conforme fatos sinistros e inexplicáveis começam a ocorrer na casa, uma equipe de investigações paranormais é chamada quando a pequena Carol Anne é atraída por espíritos malignos e engolida pela TV. lançando a família encabeçada por T. Craig Nelson e JoBeth Williams em uma luta desesperada para recuperar a filha.
O longa produzido e co-escrito por Steven Spielberg é amigável como se imaginaria que um terror produzido pelo diretor de ET seria para os padrões atuais, mas a coleção de objetos flutuantes, vórtices dimensionais e esqueletos na piscina era bem assustadora em 1982, especialmente se tu tivesse seis anos de idade, mas ainda hoje ele deve causar algum efeito em amantes do gênero.



3 - O Enigma de Outro Mundo (John Carpenter, 1982)


Não há lista de filmes de horror sem o nome de John Carpenter.
O sujeito é apenas o homem por trás de Halloween, Christine: O Carro Assassino, Os Aventureiros do Bairro Proibido e do que provavelmente é o filme que mais se aproximou de entender o horror cósmico de H. P. Lovecraft, mesmo que não fosse uma adaptação de Nas Montanhas da Loucura.
Em quem você pode confiar? Quando um terror de outro mundo capaz de mudar de forma se infiltra em uma remota base de pesquisas na Antártica onde todos dependem uns dos outros para sobreviver, a resposta é: Em ninguém.
Ancorado pelo carisma de Kurt Russel e brilhantes efeitos visuais (para a época) assinados por Rob Bottin, O Enigma de Outro Mundo se tornou um clássico cult a exemplo de muitos longas do incompreendido Carpenter. Recheado de sangue, tripas e gosma além de geniais reviravoltas no roteiro de Bill Lancaster e John W. Campbell Jr., o longa deixa a audiência ora coçando a cabeça de suspeição, ora fazendo caretas enquanto um corpo se contorce e distorce revelando sua verdadeira natureza, e provavelmente deixaria Howard Phillips Lovecraft orgulhoso.


2 - O Exorcista (William Friedkin, 1973)


Existem muitos filmes de terror com reputação de amaldiçoados. Nenhum, porém, como O Exorcista, cuja quantidade de ocorrências sinistras no set de filmagens e na carreira dos atores se tornou material de dúzias de lendas hollywoodianas a respeito do filme como se ele tivesse sido tocado pelo próprio Cão...
Tudo balela, claro, haja vista que as carreiras dos melhores atores do elenco (Burstyn e Von Sidow) seguem de vento em popa até os dias de hoje. Mas o longa de William Friedkin estrelado por Ellen Burstyn, Max von Sidow e a jovem Linda Blair fez cinemas nos EUA distribuírem sacos de vômito para clientes. Pessoas eram carregadas desmaiadas pra fora do antigo cinema Cacique em Porto Alegre, e minha tia teve uma paralisia nervosa que durou uma semana após assistir ao longa (sério).
Em meio a tanta celeuma o feito de Friedkin de equilibrar tanto o lado religioso quanto o psicológico das possessões demoníacas em um longa que é, sim, muito assustador, quase passou despercebido.
Quase.
O filme sobre a luta de uma mãe solteira e dois padres para livrar a jovem Regan da possessão do demônio Pazuzu segue sendo o parâmetro para filmes sobre exorcismos mais de quarenta e cinco anos após seu lançamento.
O Exorcista me assustou mais em livro (eu li o volume em uma única noite pois não conseguia dormir de medo aos dez anos de idade), mas assistindo ao longa, já adulto, eu me peguei em mais de uma ocasião, não assustado, mas desconfortável com diversas cenas, e com a trilha... E isso, vindo de um ateu assistindo um filme sobre possessão demoníaca, meus amigos é testemunho da qualidade do longa.

1 - O Bebê de Rosemary (Roman Polanski, 1968)


Eu não lembro quantos anos eu tinha quando assisti O Bebê de Rosemary pela primeira vez, mas eu era pequeno, muito provavelmente pré escolar, assisti na Globo e fiquei francamente apavorado vendo o filme sozinho na sala de casa enquanto minha mãe tomava banho e minha irmã mais nova dormia.
Roman Polanski usou toda a fragilidade de Mia Farrow para contar a história do casal que se muda para um belo apartamento em Manhattan e logo se percebem em meio a uma vizinhança literalmente infernal durante a gravidez da jovem senhora.
Polanski chegou a Hollywood chutando a porta da frente e mostrando toda a sua capacidade narrativa ao jogar com as câmeras para criar um ambiente sempre claustrofóbico de profunda tensão que só aumentava conforme as coisas ficavam mais estranhas, primeiro para o casal, e depois, apenas para a futura mãe.
Eu me recordo ainda hoje do meu pavor conforme Rosemary cambaleava até o berço do recém nascido sob os olhares medonhos de todos os convidados... Ainda hoje, a trilha do longa me causa calafrios e paredes de tijolos à vista em corredores de prédios me deixam nervoso, e nenhum outro filme de horror me assustou tanto em minha vida.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Moção de Repúdio


Todos devem estar cansados de saber sobre a celeuma que se criou na Bienal do Livro no Rio de Janeiro, que se viu no centro de uma discussão que pouquíssimo tem a ver com literatura após o vereador e pastor evangélico Alexandre Isquierdo pedir uma moção de repúdio contra a HQ Vingadores: A Cruzada das Crianças em sessão da câmara municipal do Rio, e ser prontamente acompanhado pelo prefeito e pastor evangélico Marcelo Crivella que saiu ordenando o recolhimento do gibi da Bienal e seu embrulho em plástico preto e advertência de conteúdo sexual porque há dois homens se beijando em um quadro da história e deitados na mesma cama em outro.
Eu não vou entrar no mérito do que se caracteriza como conteúdo pornográfico na cabeça de Crivella e Isquierdo, não vou questionar se qualquer beijo é pornografia ou apenas beijos entre pessoas do mesmo sexo, tampouco irei reforçar que A Cruzada das Crianças, a despeito do nome, não é um livro infantil. Não farei nada disso porque por mais que eu me considere um liberal, me dói admitir que parte de mim entende esses dois seres humanos.
Eu passei muitos anos da minha vida me sentindo desconfortável diante de manifestações públicas de afeto entre pessoas do mesmo sexo. E por muito tempo racionalizei que é uma resposta natural se sentir desconfortável diante de manifestações de intimidade de pessoas de qualquer gênero, mas eu estava sendo desonesto.
Eu me sentia mais desconfortável diante de beijos homossexuais do que de beijos heterossexuais.
Jamais destratei alguém por sua opção sexual, jamais fui cruel ou violento com alguém por tal razão, tampouco considerei alguém inferior por gostar de pessoas do mesmo gênero, mas já teci minha cota de comentários maldosos que não faria novamente hoje, e já fiz mais piadas de mau gosto do que seria aceitável. Posso dizer sem medo de estar sendo hipócrita que sou uma pessoa muito mais aberta agora do que fui há dois, cinco ou dez anos atrás, que ainda não cheguei onde deveria nesse sentido, mas espero seguir melhorando e evoluindo e aprendendo a conviver com as diferenças dos meus semelhantes sem deixar que isso me afete já que, em última análise, a vida sexual e afetiva de terceiros não é da minha alçada.
Então não vou esculhambar Crivella e Isquierdo e seus respectivos eleitorados por suas visões retrógradas e preconceituosas.
Não.
Na verdade, vou pegar carona com esses dois luminares do cenário político brasileiro e sugerir minha própria moção de repúdio a um livro:
A Bíblia.
Quem me conhece sabe que sou ateu, e sabe que eu tenho asco de religiões em geral, das organizadas em particular, e provavelmente minha moção de repúdio poderia ser estendida a outros textos religiosos do mundo, mas eu sou um caucasiano do hemisfério ocidental, fui criado católico, então o cristianismo em suas dezenas de milhares de denominações que abraçam a Bíblia como cânone sagrado é a mitologia com a qual eu tenho mais intimidade e o texto com o qual tive mais contato ao longo da vida.
Ao contrário de Isquierdo, Crivella e seus correligionários e fiéis, que, eu francamente duvido que tenham lido A Cruzada das Crianças, e se leram, parabéns, eu li a Bíblia, e acredito ter bases para a minha moção de repúdio.
O personagem central da Bíblia é objetivamente desprezível.
E essa afirmativa é facilmente comprovável.
Ele regulariza uma série de atividades imorais ao longo da narrativa bíblica.
Ele é um pai ausente que demanda amor e adoração sem jamais dar as caras à guisa do livre arbítrio, mas ele não gosta quando sua criação exerce o livre arbítrio.
Alguns dos que tentam fazer uso dessa prerrogativa ao longo da narrativa têm todos os seus primogênitos assassinados na calada da noite, outros são massacrados até a última criança do sexo masculino enquanto as mulheres são forçadas à escravidão, e, em momentos particularmente temperamentais do raivoso protagonista, todos são afogados praticamente sem exceção, e a única família que sobra recebe a incumbência de repovoar o mundo através de incesto.
Ele aposta a alma dos filhos que alardeia amar em um jogo contra um inimigo que permite existir e cujo resultado Ele já conhece de antemão. Ele possui poderes absolutos que escolhe usar, não para salvar os inocentes, mas para fazer uma lista de bons e travessos como se fosse um Papai Noel com critérios que ora são incompreensíveis, ora não passam pelo crivo moral de ninguém que não seja um pastor de cabras iletrado da Idade do Bronze. Ele incorre em jogos mentais cruéis com seus amigos, fazendo-os pensar que terão de oferecer os próprios filhos em sacrifício no alto de um monte a três dias de distância numa tortura psicológica de fazer Jigsaw corar de inveja.
Ele engravida a própria mãe para que ela Lhe dê à luz em carne e osso e Ele possa ser flagelado, torturado e assassinado para se oferecer em sacrifício a si próprio e perdoar a humanidade por afrontas que Ele já sabia que seriam cometidas.
Na melhor das hipóteses, o protagonista da Bíblia é um trapalhão, na pior ele é um sádico medonho, vaidoso, irascível e orgulhoso que premia credulidade e sanciona escravidão, assassinato, massacre e genocídio.
O personagem central da Bíblia é um ente execrável que incorre em comportamentos absolutamente imorais e as pessoas deveriam saber disso de antemão para poder se precaver a respeito dos horríveis conteúdos desse livro que leva pessoas a quererem limitar as liberdades e direitos de outrem para forçá-los a se comportar de acordo com seus padrões após serem expostas à uma filosofia que demanda adoração à uma figura obviamente maligna que serve como explicação pra qualquer coisa sem explicar coisa alguma.
Por isso e muito mais, eu gostaria de pedir que as autoridades competentes façam com que a Bíblia passe a ser apresentada em lojas, bancas e livrarias embrulhada em plástico preto e adesivada com alertas a respeito dos perigos de seu conteúdo e da terrível influência que ele pode causar em mentes de leitores suscetíveis, capaz de causar pensamentos e comportamentos aberrantes e nocivos à vida em sociedade.
Os exemplos estão em toda a parte.
Nas nossas casas. Nos bairros vizinhos. Nas igrejas. Nos plenários e palácios do mundo.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Resenha Filme: Suspiria


É de se surpreender que após o badalado Me Chame Pelo Seu Nome, o projeto seguinte do diretor Luca Guadagnino fosse o remake de um terror setentista do papa do gênero Dario Argento, mas acredito que após todos os louros colhidos pelo romance entre Elio e Oliver, Guadagnino pudesse fazer o que quisesse e foi exatamente isso que ele fez.
Eu nutro público e notório desprezo por fitas e horror, então passei longe de Suspiria quando ele passou pelos cinemas em abril desse ano, mas ontem, esperando minha pizza e ouvindo o ruído da chuva que se derramava sobre Porto Alegre desde sexta à tarde acabei resolvendo dar uma chance ao filme.
O longa composto de "seis atos e um epílogo" se passa em 1977 na Berlin dividida pelo muro entre capitalistas e comunistas. Já na primeira sequência do longa vemos uma jovem ensopada chegar ao consultório do psicoterapeuta Josef Klemperer (Tilda Swinton, irreconhecível sob uma brilhante maquiagem). Ela é Patricia (Chlöe Grace Moretz), e em meio a seu comportamento instável, ela resmunga a respeito dos horrores que se escondem em um determinado prédio. O doutor Klemperer ouve com afável atenção enquanto toma notas onde afirma acreditar que Patricia sofra de ilusões paranoides.
Simultaneamente conhecemos Susie (Dakota Johnson), uma jovem do interior dos Estados Unidos que chega à Alemanha para tentar uma vaga na prestigiada Escola de Dança de Helena Markos.
Conforme Susie consegue se destacar o suficiente em sua audição para impressionar a coreógrafa chefe da escola, Madame Blanc (Tilda Swinton, fumando feito uma chaminé), descobrimos que Patricia desapareceu, o que as matronas que dirigem a academia explicam devido às posições políticas da jovem, e suas ligações com o grupo de extrema esquerda Baader-Meinhof, uma posição que não é partilhada por todas as alunas, conforme fica claro quando Olga (Elena Fokina) tem um rompante logo no primeiro ensaio de Susie junto com o restante da companhia, e as coisas não acabam bem para a pobre dançarina.
Enquanto se aclimata à sua nova condição no conservatório, Susie se aproxima de madame Blanc, e se torna amiga de Sara (Mia Goth), e ao mesmo tempo em que a jovem ingênua de criação menonita escala os degraus rumo ao posto de primeira bailarina da companhia e protagonista da dança Volk, sua amiga ouve os apelos do doutor Klemperer e passa a questionar os métodos das instrutoras e até mesmo a verdadeira natureza dessas mulheres em uma sinistra jornada à realidade oculta nos porões da Escola de Dança de Helena Markus.
Há elementos muito interessantes em Suspiria (permitam-me omitir o ridículo subtítulo brasileiro "a dança do medo", por favor.) que são particularmente relevantes nos nossos tempos. O papel da mulher em uma sociedade em modificação e no mundo em geral, sexualidade, cumplicidade feminina, o poder da maternidade... Simbologia pra todos os lados, das mais óbvias às mais discretas, e uma brilhante capacidade de gerar tensão sem apelar aos sustos baratos.
Não existem "jump scares" em Suspiria, ou sequer aqueles momentos de falsa tensão usando a trilha sonora. Muito do horror do longa vem da habilidade de Guadagnino e seus colaboradores, nominalmente o cinematógrafo Sayombhu Mukdeeprom (que brinca com as cores mortas de uma Berlin onde chove de maneira incessante) e a edição de Walter Fasano de criar uma atmosfera opressiva mesmo em momentos onde não há nada de aterrorizante na cena, ou criar sequências de pesadelo (literalmente ou não) que realmente são perturbadoras. A trilha sonora de Thom Yorke também ajuda nesse sentido.
O grande problema é que Guadagnino e o roteirista David Kajganish parecem sofrer de uma fixação com o pano de fundo político do longa, todo entrecortado por noticiários a respeito do sequestro de um avião por ativistas do Baader Meinhof ou discussões a respeito do legado do nazismo na Alemanha.
A mistura parece interessante no início, mas conforme a trama caminha e percebemos que a atmosfera sinistra da escola não vai se cruzar com o pano de fundo sócio-político a exposição excessiva começa a se tornar irritante, ofuscando a narrativa principal e deixando o filme inchado e manco feito madame Markus (Também interpretada por Tilda Swinton).
No que tange às atuações, Tilda Swinton está ótima como é seu costume, se fartando em três papéis, incluindo o principal papel masculino do filme, o psicoterapeuta idoso que convive com a agonia de não saber o que aconteceu ao amor de sua vida durante a Segunda Guerra Mundial, e da medonha madame Markus que pouco aparece no filme. Mia Goth também manda bem em seu tempo de tela, mas é Dakota Johnson que surpreende.
A atriz marcada na paleta pela horrorosa trilogia dos 50 Tons impressiona com a mistura de força e ingenuidade de Susie, um papel que abocanha com gosto e dedicação. O destaque dela vai muito além da cabeleira vermelha que durante muito tempo é a fonte primária de cor do filme, ou mesmo das violentas coreografias que precisa executar. As três atrizes provavelmente são a melhor razão para assistir Suspiria.
Não há nada de errado com o terror de Guadagnino, nem em querer passar uma mensagem em um filme, ou contrabandear aprendizado em uma obra de ficção, mas falta um pouco de alegria ao filme mesmo em seu extremamente sangrento desfecho.
Não que o longa seja ruim, mas ele parece vergar sob o peso da importância que confere a si próprio. Existe um brilhante filme de horror de uma hora e meia ou duas em Suspiria, mas as duas horas e trinta e dois minutos do longa, com sua severidade excessiva, quase carrancuda, roubam o elemento fundamental do entretenimento: A diversão.
Ainda assim, vale uma espiada.
O longa está disponível no catálogo do Amazon Prime Video.

"-Por que estão todos tão ávidos por pensar que o pior já passou?"

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Resenha Filme: Querido Menino


Steve Carell é um desses comediantes que, nós descobriríamos mais tarde, são tão eficientes em papéis dramáticos quanto na hora de fazer rir. Filmes como Procura-se Um Amigo Para o Fim do Mundo e Foxcatcher, que inclusive lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator, deixaram isso claríssimo.
Aparentemente, em 2018, Carell teve ânsias de ser indicado novamente, e acabou se envolvendo em dois longa-metragens que pareciam isca de premiações desde os trailers. O primeiro deles, Bem-Vindos a Marwen, eu ainda não vi (talvez no feriadão), mas foi um fracasso de público e crítica. O outro foi este Querido Menino (do qual não recordo do lançamento brasileiro, mas, segundo o IMDB esteve em cartaz por aqui em meados de fevereiro) drama baseado não em um, mas em dois livros autobiográficos, co-estrelado pelo queridinho de Hollywood Timothée Chalamet, narrando a dolorosa história de amor entre pai e filho sendo ameaçada pela drogas, que eu acabei pescando numa sessão dupla de cinema em casa no domingo à noite na Amazon.
No longa dirigido por Felix van Groeningen (do ordenhador de lágrimas Alabama Monroe) conhecemos David (Carell) e Nic Sheff (Chalamet), pai e filho com uma relação extremamente próxima. A primeira cena do longa mostra David visitando um especialista (Timothy Hutton) e dizendo que seu filho é viciado em metanfetamina, e ele gostaria de saber mais a respeito do assunto. É um começo promissor, direto e sem rodeios, mas que infelizmente não se sustenta pelo restante do filme.
David é um jornalista freelancer casado com uma artista (Maura Tierney) com quem tem dois filhos, e Nic é seu rebento de um primeiro casamente com Vick (Amy Ryan), durante anos David e Nic foram extremamente próximos, mas chegando perto dos dezoito anos Nic passou a se desconectar da família e, eventualmente, passou a usar drogas cada vez mais pesadas tornando-se um viciado.
O longa salta entre passado e presente nos mostrando inúmeros pontos da queda de Nic em direção ao abismo da dependência química, e a construção de seu relacionamento com David, que à certa altura passa a se culpar pelo vício do filho, perguntando-se se sua criação liberal foi o problema. Nós os acompanhamos entre as entradas e saídas da reabilitação, as recaídas de volta às drogas, overdoses e quase sucessos, os momentos em que um deles desistiu do outro, e os momentos em que eles voltaram a se procurar em busca de apoio numa estrada tortuosa em busca das coisas que eles perderam pelo caminho.
Querido Menino obviamente almeja ser um filme com uma mensagem, mas falha em diversos aspectos na hora de entregá-la.
As atuações principais, especialmente de Chalamet, que se esforça para escapar de interpretar o viciado em drogas clichê, são bastante interessantes, mas Querido Menino é um filme problemático.
Eu tenho posições com relação à questão das drogas que, talvez, me impeçam de admirar a profundidade do drama que o filme tenta retratar, mas a verdade é que a maneira como o roteiro de Van Groenginen e Luke Davis escolhe narrar sua história flutua entre o intrigante e o frustrante, com as idas e voltas no tempo frequentemente brecando a história quando começávamos a nos envolver com ela.
O fato de faltar sutileza ao longa em diversos momentos não ajuda. A trilha sonora ao invés de apoiar as imagens na tela, é quase uma distração, a exposição do roteiro é irritante ocasionalmente, e as razões para o menino bonito, inteligente, endinheirado e bem cuidado cair no vício são opacas. Não há conflito na vida de Nic, ele apenas é entediado e atormentado sem motivo, ele lê Bukowski e gosta de Kurt Cobain, e provavelmente enveredou pelo mundo das drogas por isso... E a audiência perceber esse fato torna difícil, apesar dos esforços de Chalamet, sentir simpatia pelo personagem.
Da mesma forma, as explosões de raiva de Carell jamais são convincentes, embora seu olhar melancólico e desprovido de esperança acerte o alvo, e é, por vezes, realmente emocionante, mas Maura Tierney e especialmente Amy Ryan são desperdiçadas sem dó nem piedade.
E depois, há a questão do privilégio...
Veja, o vício é uma doença terrível, eu já convivi com viciados, tanto entre amigos quanto familiares, e sei o tamanho do problema, mas Querido Menino vê o problema sob uma ótica tão privilegiada que eu, que não sou uma pessoa adepta do politicamente correto, me flagrei minimizando a tragédia descrita no longa por conta da condição social de seus protagonistas que vivem em belas casas suburbanas na Califórnia e podem pagar entradas e saídas frequentes em clínicas para Nic.
A direção artística de Van Groenginen que parece tentar transformar todas as cenas em painéis com bela iluminação, bela fotografia, e trocando o diálogos por escolhas musicais quase primárias de tão óbvias é outro elemento que glamouriza a condição de um jovem viciado cuja família pode sustentar tantos recomeços quanto ele precise. E Querido Menino tenta alardear que a ajuda está lá fora, mas a verdade é que nem todo o viciado tem como pagar por essa ajuda, não importa o quanto seja querido por sua família, e talvez nem todos queiram...
Ao tratar um tema pesado e sério como um clipe musical artístico Querido Menino erra por muito o alvo, e só não erra mais graças aos esforços de seus protagonistas, que, apesar de serem as melhores coisas do filme, ainda estão muito longe de suas melhores formas.
Querido Menino tem uma mensagem em algum lugar, mas ela acaba perdida em meio à pretensão de seus realizadores.
Pena.

"-Eu pensei que nós fôssemos próximos. Mais próximos do que a maioria dos pais e filhos. Por que?
-Eu me senti melhor do que jamais tinha me sentido... Então continuei usando."