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terça-feira, 25 de abril de 2017

Sabor Amargo


Estavam sentados no sofá da casa dela.
Na verdade, ele estava sentado, ela estava deitada, com as pernas jogadas sobre a mesinha de centro. Ele a havia ajudado a instalar a smart TV que ela comprara. Ele havia acabado de testar os serviços "go" e "play" da TV a cabo no aparelho, e anunciou, orgulhoso, que "a porra toda tá 'funciando', dona.".
Ela riu agradecendo, e disse que se ele estivesse usando um macacão cinza e um boné, ela até daria pra ele, mesmo não tendo esse fetiche de dar pro encanador ou pro instalador, mas por tradição, mesmo. Não vira muitos filmes pornôs na vida, mas vira o suficiente pra saber como as coisas funcionavam.
Ele riu concordando e se levantou, parando em pé ao lado do sofá, num gesto que indicava que ele queria ir embora.
Ela fez uma careta:
-Ai, senta aí, Ned. Tu não vai morrer se esperar eu descansar as pernas uns minutinhos...
-Descansar as pernas do quê, guria? A gente veio de táxi e eu carreguei a TV pra ti o tempo todo...
-Mas eu cansei! - Ela protestou. -Em quantas lojas a gente foi?
-Três. - Ele respondeu. -E eram todas na mesma quadra, uma do lado da outra...
Ela não protestou mais, só bateu com a mão no sofá.
Ele sentou e ela entregou o controle remoto pra ele, que zapeou brevemente, e então colocou na Globonews e largou o aparelho.
-Tu consegue te lembrar da primeira vez em que sentiu atração física por outra pessoa? A primeira? Aquele divisor de águas onde tu olhou uma pessoa e não pensou "que bonita", mas sim, "que tesão", ou então nem sequer teve tempo de pensar, apenas sentiu o tesão e ainda precisou filtrar aquilo por algum tempo, já que o tesão era uma sensação era nova? - Ele perguntou, mas então deteve-se e inquiriu:
-... Aliás, é o tesão ou a tesão?
-Acho que é "o". - Ela disse.
-Eu, também. Mas já ouvi dos dois jeitos. - Ele continuou.
-É, mas tá errado. É substantivo masculino. Certo. - Ela sentenciou.
Ele concordou com um ruído.
-Tu dizia... - Ela encorajou, esticando os dedos dos pés.
-Ah, sim. Bom, e aí? Tu lembra?
-Da primeira vez que senti tesão? Não. Não lembro nem da última. - Ela disse, fazendo uma expressão de tristeza.
Riram.
Ela suspirou e perguntou:
-E tu? Lembra?
-Eu lembro. - Ele confessou. -Eu devia ter uns onze ou doze anos. Tava na praia. Tinha ido com minha avó, meu tio e uma prima, que não era a filha desse meu tio. Ela estava de perna quebrada...
-Sério, Ned? - Ela o interrompeu -Tesão pela prima de perna quebrada? - Recriminou.
-Não... - Ele disse, afastando a ideia com a mão. -Não... quer dizer... Bom... Eu senti tesão pelas minhas primas, claro, mas isso foi mais tarde. Elas não foram o primeiro tesão que eu senti... De qualquer forma, eu estava na praia, e um dia de tarde fui sozinho tomar banho de mar-
-Porque, na praia, tu não pode passar nenhum dia sem ir tomar banho de mar... - Ela interrompeu.
-Exato. - Ele confirmou. -Eu estava na beira do mar ali, tomando meu banho e fingindo que era o Homem-Aranha lutando contra o Homem-Hídrico e, de repente, surgiu um pessoal... Era um bocado de gente, e pareciam ter saído de um ônibus que estacionou junto à praia. E esse pessoal todo saiu do ônibus e foi pro mar. Eu não sei de onde eles vinham, a maioria deles nem usava roupa de banho, eles simplesmente foram entrando no mar com as roupas que vestiam, e uma dessas pessoas era uma moça. - Ele disse, se ajeitando no sofá.
-Era ela? - Perguntou a loira na outra ponta, esticando os pés por cima dele pra ficarem cara a cara.
-Sim. - Ele confirmou. -Ela tava usando uma camiseta branca e um short de brim bege. Era negra, muito negra, a tez bem escura, e tinha o cabelo cortado bem curtinho. E o corpo dela... Bom, se não era o corpo mais bonito que eu vi ao vivo, certamente pega top-3... Ela era escultural, e quando ela entrou no mar, a camiseta branca ficou transparente, e ela não estava usando sutiã, então ela ficava puxando o tecido colado na pele pra não marcar, mas era impossível. A mulher era um feixe de músculos tonificados, nada de volume em excesso, nada faltando, ela era linda, linda, linda. E eu fiquei ali parado, olhando pra ela de um jeito que, provavelmente não era natural, eu devia estar fazendo alguma cara de tarado-mirim, como um Willem Dafoe de onze anos de idade, e ela olhou pra mim e abriu um sorrisão antes de mergulhar numa onda. - Ele disse, coçando o cabelo que se desgrenhava escapulindo do elástico.
-E eu me lembro que fiquei olhando quando ela foi embora... - Ele continuou -Puxando a camiseta com as duas mãos. E as costas dela... A bunda... Tudo tava marcado no tecido molhado. E eu fiquei... Sabe, eu não tinha noção de sexo... Eu não tinha, mesmo. Já tinha visto umas Playboys... Assistia ao programa Cocktail com o Miele no SBT pra ver as mulheres com pouca roupa, mas era muito mais um lance de curiosidade, e tinha aquele afastamento, tanto as garotas tim-tim-
-"Garotas tim-tim"? - Ela interrompeu.
-É. - Ele respondeu. -Eram as ajudantes de palco do Miele no Cocktail. Aquele era um grande programa... Mas enfim, tanto elas quanto as playmates da Playboy eram um lance artificial, as gurias estavam se mostrando de uma maneira propositadamente erótica, eu via a Playboy e o Cocktail pra, deliberadamente, ver mulher pelada, naquela vez, na praia, foi uma coisa totalmente diferente...
-Porque foi espontâneo? - Ela perguntou.
-Exato! - Ele concordou. -Foi espontâneo. Aquela guria só queria tomar um banho de mar. Estava não sei há quanto tempo num ônibus, e resolveu entrar de roupa e tudo na água. O erotismo daquela situação ficou inteiramente por minha conta. Pela primeira vez na vida eu senti atração física por uma mulher de maneira espontânea, sem a inocência de uma coleguinha do ensino fundamental ou o artificialismo de uma revista masculina, ou um programa de strip-tease...
-E tu teve ciência disso na hora? Foi pá-pum, "primeira vez que eu quero comer uma mulher"? - Ela quis saber.
-Não... - Ele respondeu. -Até porque, naquele momento, eu nem queria comer ela. Só fiquei admirado. Admiradíssimo. Só mais tarde eu saquei o que era. Anos mais tarde. - Frisou.
-Eu queria ter isso... - Ela disse, vaga, após alguns segundos de silêncio.
-O quê? - Ele perguntou.
-Essa noção de momento que tu tem. Essa memória. Eu sou incapaz de me lembrar das coisas com essa riqueza de detalhes. Tu tá aí, me narrando uma lembrança dos teus onze, doze anos, e tu te lembra da circunstância, do que tu estava fazendo, da roupa que a guria usava... Tu tem tudo isso no teu HD. Talvez por isso tu consiga ter essa compreensão do momento em que tal coisa acontece. A primeira vez que tu sentiu atração por uma mulher, a primeira vez que tu te apaixonou, a primeira vez em que tu te sentiu um adulto... Tudo isso.
-A primeira vez em que eu usei a expressão "Tá ligado"... - Ele acrescentou.
Ela riu.
Ele continuou:
-Eu me lembro de todas essas informações e momentos, mas sabe, isso nem sempre é uma coisa boa. Tem muito lance que eu gostaria de esquecer. Das pequenas vergonhas às grandes dores... E tá tudo lá, irremediavelmente armazenado no meio da cultura inútil e dos momentos cálidos.
Ela olhou pra ele e sorriu.
Ele continuou:
-E, diga-se de passagem, tem uma porrada de momentos cálidos que, hoje em dia, me trazem mais dor do que conforto.
Pegou a mão dela e continuou:
-Então não faça pouco da tua falta de memória, alemoa. Ela te permite a faculdade de aproveitar o momento de maneiras que eu sou incapaz. - Concluiu sério, para então se endireitar no sofá e prestar atenção ao noticiário.
Ela o fitou por alguns instantes enquanto ele olhava a Leilane Neubarth apresentando o "edição das seis", e então inquiriu:
-Mas sabe o que me intriga dessa história toda?
Ele virou, sobrancelhas erguidas:
-O que?
-Se eu estou naquele top-3... - Ela respondeu, séria.
Ele sorriu, voltou a olhar pra TV e falou, meio de canto:
-Talvez top-10. - Disse. -Talvez...
Ela fez cara de ofendida e o chutou com a sola do pé e ele começou a rir de novo.
Talvez, mais tarde, ele fosse lembrar daquele momento como um dos seus momentos cálidos.
Um daqueles raros que jamais teriam um sabor amargo.

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