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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Minha Vó


Me lembro da última vez que vi minha vó.
Foi há cerca de dois anos... Quando a demência senil que a atacou após um câncer e uma infecção hospitalar permaneceu depois de as outras duas moléstias terem sido curadas...
Ela, aos poucos, foi se tornando uma sombra mais e mais pálida da pessoa que havia sido conforme ia sendo infantilizada pelo tratamento dispensado pelas cuidadoras e perdendo o contato com todas as atividades que a faziam ser quem era.
Minha vó fora uma doutora.
Bióloga, professora, ecóloga (jamais ecologista), especialista em aracnídeos... Ao limpar seu apartamento quando ela passou a viver com minha tia, esbarrei com seus inúmeros diplomas... Inúmeros certificados... Com suas inúmeras anotações... Com todas as lembranças e evidências de uma pessoa de mente e mãos ágeis que pouco a pouco foi sendo substituída pela velhinha que mal falava, e andava em círculos balbuciando na sacada do apartamento.
Nessa última vez que a vi, já havia pouco dela...
Apenas breves fagulhas de uma chama que queimara forte por muito tempo.
Foi, como só podia ser, fazendo uma piada...
Eu disse alguma bobagem e ela reagiu.
Ela riu, e eu a reconheci.
Aquela era a risada da minha vó.
Da minha vó de verdade.
Da mulher que me ajudava com os trabalhos de ciências e de português. Que tinha um Grande Dicionário Aurélio na estante de casa e não tinha o menor pudor em correr para pegá-lo e provar que seu linguajar, por prolixo que fosse, estava correto.
Que me acolhia quando eu precisava de roupas novas, material escolar, ou apenas de um brinquedo novo, mimos e carinhos.
Que me dava a liberdade de ir e vir que eu não tinha em nenhum outro lugar. Que não se furtava em arrastar o colchão de sua cama pro chão da sala me contando histórias quando a insônia me atacava na tenra infância.
A minha vó que se vestia com esmerada elegância, e lutava de todas as formas para encrespar os cabelos lisos. Que não resistia a uma conversa científica, que não tinha nojo nem medo de nenhum inseto ou animal e que era apaixonada por ginástica.
Que adorava o sol, e tinha o mais livre dos espíritos, por vezes, livre até demais, que amava ser o centro das atenções e a alma da festa, mas sempre encontrava espaço pra mim em seu coração, e em sua por vezes inchada agenda de compromissos.
Era dessa mulher a risada que eu ouvi naquele dia.
Aquela foi a última vez.
Dali pra frente... Cada vez havia menos da minha vó naquela velhinha.
Apenas uma vaga semelhança física...
Um semblante ocasional...
Ontem, às três e meia da madrugada, minha vó morreu.
Após uma penosa passagem pelo hospital, ela finalmente foi derrotada em uma batalha que começou há quase quatro anos atrás, e que se estendeu quase três anos além das previsões dos médicos.
Ontem, enquanto o caixão que levava seu corpo se encaminhava para a cremação ao som de Como Uma Onda, na versão de Tim Maia, cujo disco ela quase furara a faixa ouvindo vezes e vezes sucessivas num verão em que eu quase comecei a odiar o Tim Maia... Em meio ao lamento de perder uma pessoa que me deu tanto, eu me dei conta de que jamais havia dito a minha vó o quanto ela era importante pra mim.
O tamanho do papel que ela desempenhou em minha vida.
O quanto eu a amava.
Eu posso racionalizar que, por ser tão sabida, ela certamente deduzia isso tudo. Tendo toda a sua instrução, educação formal e sapiência, ela era capaz de, por A + B, compreender a dimensão do meu afeto e apreço.
Mas é apenas racionalização...
Uma esperança de que a falta dessa verbalização não tenha sido sentida.
Em várias ocasiões minha vó deixou claro que admirava a minha faceta mais racional... Mais fria... Que se orgulhava disso em mim.
Então é confortável pra mim, supôr que a minha vó entendia minha forma de gostar. Entendia minha maneira de não demonstrar afeição de forma mais efusiva.
Ainda assim... Me arrependi de jamais ter verbalizado.
Por que eu amava.
Amo.
E nunca nunca vou deixar de amar.
E nem de sentir saudade.

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