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quarta-feira, 16 de março de 2011

Não desista


Gilberto chegou em casa alguns minutos antes do horário de sempre, seu chefe o aliviara após pedir-lhe que ajudasse no treinamento de um novo funcionário, de modo que, naquela semana, vinha saindo meia hora mais cedo praticamete todo dia. "Deixa o novato trabalhar dobrado nessa meia hora final de expediente, Gilberto.", lhe dizia o patrão às cinco e meia, liberando-o de seus afazeres. "Vai namorar, jogar uma bola, ou ao cinema, só te some daqui.". E Gilberto, embora não quisesse jogar futebol, nem ir ao cinema, e muito meno namorar, ia, não apenas pra não desperdiçar a boa intenção de seu chefe, mas também por que andava cansado, abatido, alquebrado.
Chegou em casa e deparou-se com a faxineira, dona Gerusa, que lhe disse que tinha tomado a liberdade de beber o refrigerante que tinha na geladeira e arrumado umas gavetas que, nas suas palavras, "tavam pedindo pra virar ninho de barata". Ela havia jogado um monte de contas telefônicas velhas e faturas da TV a cabo fora, mas tinha achado umas coisas que talvez ele fosse querer, e, se não quisesse, ela levava agora com o resto do lixo e deixava na frente do prédio com os sacos.
Gilberto, meio a contragosto, foi fazer o inventário. Um álbum de figurinhas da Marvel de 1991, uns gibis da Mônica e do Cebolinha, meia dúzia de polígrafos da faculdade, e uma foto. Na foto, um Gilberto louco de faceiro fazia uma careta pra câmera abraçado em uma moça bonita de cabelos longos e negros. Essa moça era razão que, hoje em dia, lhe tirava a vontade de namorar.
A Fernanda.
O Gilberto era doido pela Fernanda. Era louco por ela, adorava ela de paixão, não sabia conversar sobre mulheres com os amigos sem falar dela, não sabia falar de nada sem mencioná-la, na verdade. Achava recompensador, importante, até, alardear o quanto ela era sensacional, quanto se davam bem, quanto tinham em comum, como ela era fantástica em tudo, especialmente em aguentá-lo com seus maus-humores, melancolias e inconstâncias. Ás vezes, quando um amigo seu dizia que a guria com quem estava saindo era isso, ou era aquilo, outro imediatamente já dizia, "É, mas a Fê...", antecipando o que inevitavelmente o Gilberto diria, mostrando por A + B, que a Fernanda era tão boa quanto a moça em questão, se não fosse muito melhor.
A Fernanda, esperando pelo Gilberto em casa quando ele chegava, ou o esperando na porta do trabalho, ou saindo da faculdade e sorrindo pra ele quando ele a esperava, eram as imagens vivas da felicidade às quais o Gilberto se agarrava pra ilustrar sua ideia de... Bom, felicidade, oras.
Até que aconteceu. Em um determinado momento, a Fernanda e o Gilberto brigaram. Feio. Feio, mesmo.
O mais engraçado, ou o mais triste, é que o Gilberto nem sequer lembrava por quê a briga começara. Mas lembra que acabou com ela dizendo que ele era reprimido, e com ele dizendo que ela era galinha.
"Galinha".
Parecia uma bobagem tão grande, olhando em perspectiva. "Galinha" era xingamento de quarta série, na concepção de Gilberto. A bem da verdade, o "galinha" saiu por que o Gilberto estava muito fulo, e não conseguiu pensar em nenhum xingamento mais violento. Ou, fosse ele mais calmo, tivesse suficiente presença de espírito, teria sido sardônico, teria sido sarcástico, e usado uma ofensa que fizesse justiça à Fernanda. Fernanda não era galinha. Ás vezes era briguenta, eventualmente era avoada. Galinha ela não era. Era orgulhosa. Ele lembra dela arrumando suas coisas sem derramar uma lágrima. Lembra da expressão fechada dela quando lhe entregou sua cópia da chave do apartamento. Lembra de ter pensado em segurá-la pela mão antes que ela saísse pela porta, e dito á ela que não fosse embora. Que não desistisse dele.
Mas ele não disse. Ele ficou lá, olhando ela partir usando uma máscara de orgulho que não lhe cabia.
Pensou em mandar dona Gerusa jogar a foto fora. Mas pensou melhor.
-Não, dona Gerusa. Eu vou guardar. Não tô preparado pra desistir disso.

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