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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Crônicas do Observador


O observador andava pela rua, indo atarantado para o trabalho. Três minutos era o tempo que faltava para o início do seu expediente, e uma caminhada de dez minutos o separava do seu local de trabalho. A unha de seu pé direito, encravada, doía bastante, fazendo-o mancar. Em sua cabeça, uma sucessão de problemas relacionados a pessoas que lhe eram caras o impediam de se concentrar de maneira minimamente satisfatória em praticamente tudo.
Eram dias doloridos aqueles que se passavam. O observador caminhava sem ouvir música, quando viu, de esguelha, um mendigo abrindo a tampa de um dos contêineres de lixo que existem espalhados pelas ruas de certos bairros da cidade.
O sujeito apanhou algumas embalagens tetra-pack de leite, dois ou três jornais completos, e um relógio-despertador sem pilhas, ou estragado.
Era um relógio estiloso. Com um design futurista, como se fosse uma bola de acrílico branca repleta de botões verde-limão com um enorme mostrador digital apagado em um dos lados.
O mendigo, um homem jovem, de seus trinta, trinta e poucos anos, forte, agarrou o relógio intrigado. Largou os demais itens que resgatara do lixo no chão, e agachou-se com o relógio virado pra si. Tinha o relógio firme entre os dedos, e o virava com cuidado, examinando todos os pontos da esfera de acrílico quase de maneira clínica. Cutucou o mostrador digital com o indicador, tentou girá-lo, e então apertou os botões, primeiro um, por um, depois, todos ao mesmo tempo.
Mirou o relógio por mais alguns segundos, como que ignorando a falta de pilhas ou a possibilidade de o aparato estar avariado, esperando que algo acontecesse após sua breve exploração, mas nada aconteceu, e o aparelho permaneceu estático. O mendigo o pegou com cuidado, e escolhendo uma, entre as dezenas de sacolas que carregava consigo, guardou com cuidado o despertador, e seguindo seu caminho.
O observador se lembrou do Homo habilis. Um hominídeo que viveu a cerca de dois milhões de anos na terra, e foi o primeiro ancestral humano a construir ferramentas de osso, madeira e pedra lascada.
Como será que o Homo habilis teria reagido se encontrasse uma ferramenta construída por um neandertal?
Os neandertais viveram bem depois dos habilis, existia entre eles o homo erectus e quase um milhão e meio de anos.
Será que o homo habilis não teria reagido à uma faca, ou à uma lança, ou um raspador da mesma forma como aquele mendigo reagiu ao estiloso relógio descartado no lixo?
O observador não sorriu enquanto percebeu que o avanço tão veloz da tecnologia aliado à estagnação das condições sociais da modernidade gerou um mundo onde o acaso involui os seres humanos milhões de anos apenas com descaso.

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