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quinta-feira, 29 de junho de 2017

Resenha Série: House of Cards - Temporada 5


Ano passado eu disse, após terminar de assistir à quarta temporada de House of Cards que seria um longo ano de unhas roídas esperando pela quinta temporada, mas a verdade é que não chegou a tanto. O calendário de seriados e filmes foi generoso o suficiente para que Frank, Claire e companhia não tenham causado pânico enquanto se preparavam para o seu retorno no final do mês passado.
Nesse ano, por sinal, não devorei House of Cards tão rapidamente quanto fizera ano passado. Comportadamente não assisti a mais do que um episódio por dia, e ainda intercalei o seriado com Better Call Saul e Last Week Tonight com John Oliver, de modo que a temporada me durou quase um mês, no qual pude me re-aclimatar aos meandros da política na série, que já foi cabeluda demais pra soar verdadeira e agora, tanto nos EUA quanto no Brasil, deixa os escritores na obrigação de fazer malabarismo pra surpreender como outrora (ainda assim comparar Frank a Trump e Temer é bastante ofensivo ao presidente Underwood).
A quinta temporada retomou de onde a quarta terminara.
Francis e Claire Underwood (Kevin Spacey e Robin Wright) estão em pé de guerra contra o ICO, o dublê do Estado Islâmico na série. Ou ao menos tentam... O congresso não parece particularmente disposto a outorgar a declaração de guerra que Frank pleiteia junto à Casa já que ele está no meio de uma eleição que, francamente, pode tanto ganhar quanto perder para o candidato republicano, Will Conway (Joel Kinnaman), a epítome pública do bom-mocismo.
A ideia do casal é tornar a Casa Branca a casa dos Underwood, com Francis vencendo a eleição, quiçá a reeleição, e Claire o sucedendo, de modo a fazer os dois permanecerem no comando do país mais poderoso do mundo por vinte anos, pelo menos. A questão é que a escalada de Francis até a presidência não foi um caminho suave, e ele fez todo o tipo de inimigos pelo caminho, cometeu todos os pecados possíveis, e agora ele deixou de ser pedra para se tornar vidraça.
Todos os antagonistas estão à espreita, aguardando o momento de tentar destruir Frank por alguma coisa que ele fez, ou deixou de fazer, nos anos anteriores. O editor do Herald, Tom Hammerschmidt (Boris McGiver) se tornou quase obsessivo com Frank, e não cansa de cavar atrás de provas que possam ligar o presidente à morte de Zoe Barnes ou de Rachel Posner, seja diretamente, seja através de Doug Stamper (Michael Kelly).
Acossados por todos os lados, não tarda para que Frank e Claire comecem a desconfiar de todos e cada um ao seu redor, incluindo um do outro. O casal que já fora desgraçadamente unido não tem uma cisão tão definitiva nessa temporada como tivera no ano anterior, mas as coisas certamente não voltaram aos eixos após Claire tentar voar por conta própria anteriormente, e, como já ficou claro, a única coisa capaz de ferir um Underwood, é outro Underwood.
Ou ao menos era o que se acreditava.
Eu já havia percebido que, historicamente, todos os antagonistas em House of Cards parecem formigas que surgem para serem esmagados pelos Underwood. Mesmo os Conway, que apareceram inicialmente como ameaças em potencial ao casal protagonista (Will e Hannah pareciam versões mais jovens, bonitas e antenadas de Claire e Francis) logo deixaram claro que não tinham bala na agulha para competir, o mesmo valendo para o general Brockhart de Colm Feore, ninguém parece capaz de competir com o maquiavelismo ilimitado de Frank e Claire, ao menos até o surgimento do conselheiro político de Conway, Mark Usher (Campbell Scott) e a oficial do Departamento de Comércio Jane Davis (Patricia Clarkson).
Se Usher já havia dado as caras nos episódios iniciais da temporada, deixando bem claro que a verdadeira ameaça a Frank e Claire era ele próprio, e não Will, Jane Davis aparece apenas na metade da temporada, durante uma crise que força o alto escalão do governo a se abrigar em um bunker sob a Casa Branca, e não tarda a percebermos que a personagem é uma víbora manipuladora, uma hábil titereira que não tem o menor pudor em mexer as cordinhas como melhor lhe aprouver.
São esses dois personagens que finalmente dão uma balançada na estrutura de House of Cards e, eu posso estar me precipitando e na próxima temporada os dois podem ser rápida e inapelavelmente comidos por Frank e Claire, mas isso seria realmente desapontador, haja vista que os dois parecem ser adversários à altura para os nossos heróis (?), oferecendo um bem vindo elemento de desconhecido à trama, já que as intenções de ambos jamais ficam totalmente claras para a audiência, e ajudam a manter Frank e Claire na defensiva, algo que nunca é muito saudável já que, o presidente em especial, tem uma veia toda particular para destruir o tabuleiro quando sente que está prestes a perder o jogo e, como fica claro no final de temporada, por mais que Usher, Davis, e mesmo Claire sejam competidores fortes, Frank ainda parece ser a pessoa mais disposta a jogar o tempo todo, mesmo quando faz escolhas erradas.
É bacana perceber que House of Cards segue fazendo um bom trabalho, ainda que não tenha descoberto uma forma de se equilibrar totalmente. As temporadas eventualmente falham na hora de equilibrar algo. No ano 3, por exemplo, o foco nas tramas paralelas desequilibrou a série ao tirar os holofotes do casal protagonista, na quarta temporada, pareceu o oposto, com Frank e Claire tão envolvidos em sua guerra pessoal que o restante da série parecia não andar, a quinta temporada balanceou bem o tempo dado aos protagonistas e aos coadjuvantes, fechando arcos e trazendo reverberações de fatos de toda a temporada para dentro do armário dos Underwood. Se alguma coisa ainda permanece por ser azeitada é a forma como House of Cards vai da política à tragédia grega em um átimo, algo que não chega a ser um problema, haja vista que a série sempre teve como sua principal característica não ser um programa sobre política, mas sim sobre a busca por poder de duas pessoas embalada por atuações acima da média de um elenco muito bom encabeçado por um casal de atores de primeiríssima grandeza.
Vai ser interessante ver, na temporada seis, como as coisas andarão com o cenário como ficou no episódio final.
Aliás, aqui vai um pequeno spoiler para aqueles que não se importam com isso, ou que, porventura estejam curiosos:
Sim.
Nessa temporada Claire Underwood se dirige à audiência da mesma forma que Frank faz desde o início, e é bem bacana.
Vamos lá pra mais um ano de expectativa até o ano que vem e a estréia da sexta temporada...

"-Bem-vindos à época da morte da razão..."

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Resenha DVD: Passageiros


Ao ver o trailer de Passageiros no cinema no ano passado eu tive a impressão de que o longa, que em sua prévia tentava se vender como uma ficção científica, era, de fato, uma comédia romântica passada no espaço.
Uma impressão que me apanhou com tanta vontade que eu passei longe do filme quando ele chegou aos cinemas em meados de janeiro. Eu provavelmente sequer teria assistido passageiros em DVD, ontem, se a única outra opção de filme que eu ainda não havia assistido na prateleira de lançamentos da locadora não fosse Resident Evil 6.
Eu certamente poderia esperar Passageiros passar na TV a cabo, mas acabei alugando o filme, e, ontem de noite, o assisti, confesso, meio a contragosto de início.
O longa nos mostra a espaçonave Avalon, que, em algum período não especificado do futuro, está cumprindo uma viagem de 120 anos rumo ao planeta colônia Homestead II, levando consigo 5000 passageiros e 258 tripulantes em animação suspensa durante o percurso.
Após uma chuva de meteoros, porém, a Avalon sofre uma avaria, e, como resultado imediato, uma de suas cápsulas de hibernação é desativada, e um passageiro é despertado antes da hora.
Ele é Jim Preston (Chris Pratt), um jovem mecânico que viajava a Avalon em busca de um novo começo. Jim estava na "classe econômica" da Avalon, pensando em fazer uma vida em Homestead II onde a colonização está no começo e seus dotes profissionais seriam bem-vindos. O problema é que, conforme vaga pela espaçonave vazia, Jim se dá conta de que foi o único a despertar 90 anos antes da hora.
Pra piorar a situação, a eventualidade de uma falha nos tubos de hibernação é solenemente ignorada pela espaçonave, sendo tratada como impossível por todos os sistemas de ajuda automatizados à bordo, e uma mensagem de socorro levaria 19 anos vagando pelo espaço até chegar à Terra, e uma resposta aos seus apelos cerca de 50 anos para alcançar a Avalon.
Isso deixa Jim absolutamente sozinho na espaçonave, exceto pelos robôs de serviço e pelo androide bartender Arthur (Michael Sheen).
Por mais polido que Arthur seja, porém, não tarda para que as opções de lazer fugazes da espaçonave comecem a parecer pouco para Jim, que durante um ano joga basquete, videogame e assiste filmes sozinho no cinema enquanto come do bom e do melhor na espaçonave já que jamais terá de pagar a conta, mesmo.
Depois de um ano, Jim está prestes a cometer suicídio quando, casualmente se depara com o casulo de hibernação de Aurora Lane (Jennifer Lawrence).
Jim começa a pesquisar nas fichas dos passageiros e descobre que ela é uma jornalista e escritora de Nova York, lê seus livros, assiste seus logs de vídeo, e começa a se apaixonar pela moça.
Um ano sozinho no espaço deixou o sujeito prestes a despirocar, e ele flerta ardentemente com a ideia de despertar Aurora para ter alguém consigo na Avalon além de Arthur.
Ciente, porém, da gravidade da decisão de despertar a guria antes da hora, ele hesita, mas finalmente a necessidade de contato humano fala mais alto, e Jim sabota a animação suspensa de Aurora, acordando-a.
Ele a procura depois de ela se recuperar do despertar químico, explica a ela que ainda faltam 89 anos para a Avalon chegar a Homestead II, e a consola feito um autêntico tarado, sem mencionar que foi ele quem a acordou antes da hora.
Estando sozinho com Aurora na espaçonave, não é difícil para Jim se conectar com a moça, e logo, os dois são um casal.
As coisas seguem tão bem quanto possível, com o filme mostrando de maneira algo tímida o romance de Jim e Aurora, até ela descobrir que seu despertar não foi acidental, e azedar de vez a relação dos dois.
Se as coisas já estavam ruins para o casal, a situação piora consideravelmente quando a Avalon começa a experimentar falhas críticas em seu funcionamento autônomo, despertando um dos tripulantes e deixando claro que a espaçonave não será capaz de chegar a Homestead II sozinha. Isso obriga Aurora e Jim a colocarem suas diferenças de lado e trabalharem juntos para tentar salvar as 5255 pessoas que hibernam dentro da espaçonave além das próprias vidas e, talvez, seu romance.
Passageiros é um filme estranho...
Ele não é um filme ruim, entretém por seus cento e dezesseis minutos, tem um elenco que, apesar de econômico é simpático, bonito e talentoso, e até tem sua cota de bons momentos, mas ao mesmo tempo, eu não posso deixar de pensar que se, no lugar de Chris Pratt, nós tivéssemos, por exemplo, Peter Sarsgaard ou Cillian Murphy, Passageiros seria um filme de horror, e não um romance.
Por que, se pararmos para analisar, o que Jim faz com Aurora é algo desumano.
Ela própria, à certa altura, se refere ao seu despertar forçado como assassinato. E por mais que o roteiro de Jon Spaiths tente nos convencer da inocência de Jim, inclusive oferecendo emendas para seu comportamento abusivo (sejamos francos, o que ele faz é acordar a guria e dizer pra ela "ou tu fica comigo, ou passa os próximos 90 anos sozinha", se isso não é abuso, eu não sei o que é), o único motivo pra audiência não achar que Jim Preston é um psicopata e um criminoso é a cara de cachorro pidão de Chris Pratt. Se houvesse um ator capaz de emular um comportamento minimamente esquisito, toda a dinâmica do longa seria alterada.
O diretor Morten Tylum, do ótimo O Jogo da Imitação conduz a história de maneira distante, mesmo quando Jim está sozinho na nave, só sabemos o que ele está pensando porque ele fala a respeito em voz alta, seja consigo, seja com Arthur, e apesar de Lawrence ser uma atriz com mais recursos, o roteiro pede apenas que ela seja gatinha, o que ela é.
Com um belo design de produção, fotografia OK, e trilha sonora nada memorável, talvez a grande sacada de Passageiros seja a crítica velada que o longa faz à automação corporativa, haja vista que a despeito de todo o seu avanço tecnológico, a Avalon é incapaz de oferecer sequer uma resposta satisfatória à qualquer pergunta que vá um centímetro além de localização dentro de um shopping center.
Ainda assim, isso se perde porque é impossível não perceber que o longa está se esforçando de todas as formas pra disfarçar o fato de que Jim destruiu a vida de Aurora e a condenou a passar a vida ao lado dele. Por mais que, em certos momentos, nós sejamos capazes de nos esquecer disso e até torcer pelo casal, esse elefante espacial está sempre na sala, e é impossível não voltar a notá-lo.
Ainda assim, conforme eu disse antes, o filme não é ruim, e como entretenimento funciona, ainda que a moralidade das ações do protagonista sejam questionáveis demais e questionadas de menos, Passageiros certamente vale duas horas numa noite de domingo.

"-Se você viver uma vida comum, você só terá histórias comuns."

sábado, 24 de junho de 2017

Resenha Cinema: Mulher-Maravilha


Finalmente!!!!!
Desculpem abrir a resenha com um desabafo seguido de tantas exclamações, mas foi inevitável.
Especialmente porque esse desabafo se deu em duas frentes: Ontem eu finalmente consegui assistir Mulher-Maravilha após dar com a cara na porta do cinema não uma, não duas, mas quatro vezes!
Tantas que acabei me convencendo de que o ideal era esperar a febre passar, mais ou menos como ocorrera com Deadpool ano passado. Que eu aprenda a lição e compre ingressos antecipados da próxima vez.
O segundo desabafo é que finalmente a Warner/DC entregou um filme irretocável de super-herói, capaz de rivalizar com as produções do Universo Cinemático Marvel diante de qualquer fã de quadrinhos e de cinema, e não apenas dos fãs inveterados da DC.
Mulher-Maravilha é tudo o que os demais filmes do universo compartilhado DC não haviam sido, e eu digo isso nos sapatos de alguém que gostou de O Homem de Aço e que achou que, em algum lugar de Batman vs. Superman: A Origem da Justiça, há um bom filme arruinado por Lex Luthor e Apocalypse.
Mulher-Maravilha não incorre nos erros de nenhum desses filmes, e nem do desgraçado Esquadrão Suicida, e é acertado, redondinho, e cativante, de uma maneira toda sua.
O roteiro de Allan Heinberg (com história de Jason Fuchs e Zack Snyder) e a direção de Patty Jenkins pegam na veia ao não tentar transformar Mulher-Maravilha em uma história trágica, sombria e carrancuda como seus co-irmãos, mas em narrar um conto de esperança, otimismo e aprendizado.
No longa, após um breve interlúdio no presente, viajamos ao passado para conhecer as origens da Mulher-Maravilha.
Diana nasceu em Themyscira, uma ilha paradisíaca criada com o último sopro de vida de Zeus após ele travar guerra contra Ares e se ver exaurido de toda a sua força. A Ilha Paraíso foi um presente do maior dos deuses do Olimpo às Amazonas, uma raça mística de mulheres-guerreiras que inspiraram os homens e lutaram ao lado dos deuses contra a corrupção do deus da guerra.
Em Themyscira as amazonas mantinham guarda sobre a arma definitiva forjada por Zeus: A Matadora de Deuses, uma espada tão poderosa que poderia eliminar mesmo Ares.
Um idílio oculto dos mortais na Terra, sob o reinado de Hipólita (Connie Nielsen) a ilha permanece segura, com as amazonas treinando arduamente para a batalha da eventual volta de Ares. A única habitante proibida de tomar parte nos treinamentos era a pequena Diana (Lilly Apell), filha de Hipólita.
Ainda assim, ou talvez por isso, Diana era quem mais desejava participar dos treinamentos, especialmente sendo sobrinha de Antíope (Robin Wright), irmã de Hipólita e mais poderosa guerreira da ilha, que percebendo o desejo de Diana, aceita treiná-la em segredo.
Eventualmente Hipólita descobre o estratagema, mas ao invés de pôr fim aos treinos de ambas, ela concorda de maneira relutante, mas ordena que Antíope treine Diana de maneira mais severa do que qualquer outra amazona em toda a História de Themyscira, e assim é feito.
Conforme os anos passam, Diana (Gal Gadot) cresce para se tornar uma guerreira tão exímia que é capaz de igualar Antíope em perícia e superá-la em poder, algo que vem a calhar quando um avião pilotado pelo espião americano Steve Trevor (Chris Pine) cai próximo da Themyscira, inadvertidamente atraindo soldados alemães até a ilha.
A chegada de Trevor e dos alemães à morada das guerreiras interrompe o idílio das amazonas com a notícia da guerra. "Que guerra?" pergunta Diana. "A Guerra", responde Trevor, "A Guerra para acabar com todas as guerras".
Trata-se da Primeira Guerra Mundial, e Trevor é um espião a serviço da Inteligência Britânica que, durante uma missão, descobriu que o general alemão Ludendorff (Danny Houston) e sua química de confiança, doutora Isabel Maru (a gatinha Elena Anaya) estão trabalhando em um novo tipo de gás venenoso, uma versão tão potente do gás-mostarda que mesmo máscaras de gás serão insuficientes para proteger os soldados e civis que forem atacados com tal arma.
Trevor deseja voltar à Inglaterra e entregar essa informação ao alto-comando do exército britânico, mas Hipólita não está disposta a simplesmente libertá-lo. Diana, porém, reconhece um um conflito tão terrível, que está custando a vida de tantos inocentes, uma óbvia influência de Ares, o deus da guerra banido por Zeus. E, como a mais poderosa guerreira amazona, ela entende que é seu dever de nascença deter os planos pérfidos do deus caído.
Assim, Diana se arma com a Matadora de Deuses e parte para Londres junto com Trevor, para, juntos, irem ao encontro de Ludendorff e impedir seus planos de boicotar o armistício negociado pelas nações custe o que custar.
Como eu disse ali em cima: Mulher-Maravilha é um filme de super-herói irretocável.
Mais do que isso, é um bom filme independente de rótulos.
É interessante que, enquanto nos últimos anos as grandes histórias publicadas pela DC e algumas animações sempre tenham escolhido retratar a Mulher-Maravilha pelo seu viés de guerreira amazona fria e vingativa, o longa de Patty Jenkins tenha escolhido vê-la como uma jovem idealista e ingenua.
Isso faz maravilhas pelo filme, pois finalmente oferece à DC um personagem que é sorridente, otimista e poderoso, como o Superman de Henry Cavill poderia ter sido, mas não foi por conta do espetáculo de tristeza e caras amarradas de Batman vs. Superman.
O grande poder da Mulher-Maravilha não é sua impressionante proeza física, seu Laço da Verdade ou sua espada matadora de deuses, mas sua compaixão.
Talvez por isso tenha sido tão impostante ter uma mulher no comando do longa.
Patty Jenkins é capaz de entender os desejos e pensamentos de uma mulher de uma forma que Zack Snyder já deixou bastante claro que não consegue, e isso se reflete na forma como o longa é conduzido, e sua história narrada, carregada de uma sensibilidade que inexiste em outros filmes do gênero.
Não quer dizer que Mulher-Maravilha seja um "chick flick", porém.
Há excelentes cenas de ação, tanto estreladas pela protagonista (a sequência iniciada em Terra de Ninguém é de longe a melhor do filme, evocando o mesmo senso de assombro da primeira aparição do Superman em 1978, ou do Homem-Aranha em 2002) quanto pelas demais amazonas em Themyscira, aliás, maneiro ver mulheres com mais de quarenta anos caindo na porrada. Hollywood pode ser muito injusta com mulheres que ainda não têm idade pra fazer papel de avó e que são "velhas demais" pra papéis de destaque. Connie Nielsen, Robin Wright e companhia mostram quanta lenha têm pra queimar se lhes for dada a oportunidades.
Mas por mais que haja uma bela quantidade de pancadaria no longa, uma produção extremamente caprichada e uma trilha sonora bacana de Rupert Gregson-Williams (o tema da Mulher-Maravilha de Junkie XL ainda é a melhor música do longa) e uma fotografia lindona de Matthew Jensen, o longa pertence de fato, a Gal Gadot e Chris Pine.
Pine consegue se sair muito bem em um papel que tinha tudo pra ser o de "donzelo em perigo". Seu Steve Trevor tem profundidade emocional, uma ironia divertida, não é transformado em um borra-botas para que Diana possa brilhar e a química que ele compartilha com Gadot é absolutamente inegável.
Quanto à protagonista, é hora do meu "mea culpa".
Eu fui um dos muitos que esculhambaram a escalação da atriz israelense para o papel da maior heroína dos quadrinhos, criticando sua aparência, seu físico e seu talento.
Bem, Gadot pode continuar não tendo uma beleza das mais convencionais, e fica até esquisita em certos ângulos, mas ela sem sombra de dúvida abraçou a personagem de maneira convincente e quase comovente.
Ela consegue ser curiosa, piedosa, sincera e casca-grossa sem jamais soar forçada ou parecer estar interpretando personagens diferentes quando faz cada uma dessas coisas, a Mulher-Maravilha interpretada por ela é magnética, evocando um heroísmo clássico comparável ao de Christopher Reeve em Superman e de Chris Evans em Capitão América, que provavelmente era quem tinha chegado mais perto até aqui.
O resto do elenco não recebe a mesma atenção que o casal principal. Saïd Taghmaoui é falsário Sameer, Ewen Bremner é Charlie, um atirador de elite escocês, Eugene Brave Rock é Chefe, um índio americano contrabandeando bens para os dois lados da guerra em nome do lucro. Nenhum deles é particularmente desenvolvido, mas todos têm uma história passada que é abordada de maneira correta, Saleem queria ser ator, mas tem "a cor errada", Charlie é assombrado pelos horrores que presenciou na guerra, e Chefe vê uma guerra onde não está em nenhum dos lados como uma oportunidade financeira após ter sido derrotado em sua própria guerra contra o homem branco.
O discurso político permeia o longa através desses personagens tanto quanto de Diana, vista como incapaz por todos os homens poderosos que lhe cruzam o caminho, e o fato de os atores os interpretarem de maneira comprometida, ajuda a fazê-los mais memoráveis.
Não é, porém, o caso dos vilões. Tanto Ludendorff quando a Doutora Veneno são personagens rasos e unidimensionais, e seus planos genéricos de destruição global são quase sonolentos, existindo apenas para oferecer um alvo à fúria da Mulher-Maravilha. Nenhuma novidade para quem se acostumou aos filmes do universo Marvel, com vilões absolutamente esquecíveis em nove de cada dez filmes, e que não chega a causar danos irreversíveis ao longa da princesa das amazonas.
A despeito de suas pequenas falhas, Mulher-Maravilha é um ótimo filme de origem, equilibrando ação, comédia e romance em uma embalagem bela e colorida, embalada por boas atuações do elenco (que ainda tem David Thewlis, Lucy Davis e James Cosmo) e uma direção segura.
O Homem de Aço pode ter sido o início desse claudicante universo cinematográfico DC, mas a Mulher-Maravilha é quem dá o primeiro passo decidido na direção correta. Que seja o primeiro de muitos.

"-Não é sobre merecer. É sobre o que você acredita. E eu acredito no amor. Apenas o amor pode realmente salvar o mundo."

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Resenha Série: Better Call Saul - Temporada 3


Atenção! Há spoilers de Better Call Saul no texto abaixo.
Ao fazer a resenha da segunda temporada de Better Call Saul, eu mencionei que, em seu segundo ano, o programa havia se desmembrado em duas séries que eram praticamente independentes uma da outra, apesar de se passarem ao mesmo tempo, dentro do mesmo universo, e com os personagens eventualmente se cruzando entre si.
Isso ficou ainda mais evidente nesse terceiro ano do seriado que lança uma luz sobre o passado de Jimmy McGill antes de ele se tornar Saul Goodman e de Mike Ehrtmantraut, antes de ele conhecer Walter White.
Ainda assim, a despeito de manter as linhas narrativas praticamente distintas, as intersecções entre elas pareceram um pouco melhor equilibradas nesse terceiro ano, que, por sinal, foi excepcional.
Partindo do primeiro episódio, Mabel, que retomou exatamente do cliffhanger épico do episódio final da segunda temporada, com Chuck preparando uma indigesta arapuca vingativa para seu irmão caçula, e Mike tentando descobrir como diabos alguém o esteve monitorando sem ser percebido o suficiente para melar seus planos de meter uma bala na cabeça de Hector Salamanca, a terceira temporada foi uma viagem tão divertida sombria, pela mente de todos os personagens, além de mostrar uma série de eventos que serão importantíssimos para o futuro dos personagens da série conforme o programa seguia com suas linhas narrativas paralelas.
Enquanto Jimmy lida com os problemas que ele próprio muitas vezes causa a si mesmo, e com as vinganças de seu irmão mais velho, Mike se enredava cada vez mais profundamente no mundo do crime, em um ramo da história que certamente era o que tinha riscos mais altos, envolvendo assassinato, perseguições, chefões do crime e tráfico de drogas, e carregava consigo mais tensão, senão pelo ex-policial, que sabemos que sobrevive aos eventos da série, mas por personagens que orbitam seu núcleo, como Nacho Varga.
O personagem de Michael Mando, por sinal, foi o dono de alguns dos momentos que mais deixaram a audiência na ponta do sofá ao longo da temporada, mais especificamente a partir do momento em que Don Hector resolveu fazer ouvidos moucos à ordens diretas de don Eladio (Michael Bauer) e usar a estofaria do pai de Nacho para fazer o treslado de suas drogas do México.
As sequências em que o jovem criminoso começa a planejar uma forma de impedir que seu chefe ameace sua família são de suar frio, e Mando foi brilhante, muitas vezes explicitando tudo o que Nacho estava passando sem precisar dizer uma linha sequer de diálogo.
Mike Margolis já deixava claro desde a época da sineta que sabe interpretar um vilão que todos amam odiar, e chega a ser impressionante que, em um par de temporadas, ele tenha conseguido deixar Hector Salamanca ainda mais odioso do que já era.
Apesar disso, Mike também tem suas fichas na mesa, e as está arriscando, especialmente após aceitar uma oferta de Fring que, de certa forma, sacrifica sua liberdade para trabalhar por conta própria.
Mas se Mike tem um grande curso em seu lado de Better Call Saul, e Jonathan Banks é simplesmente brilhante interpretando o personagem, não é menos verdade que a linha narrativa de Jimmy, com muito menos arroubos, é, na maior parte do tempo, mais interessante.
Ao menos emocionalmente.
Isso ficou cristalinamente claro em Chicanery, que era o melhor episódio da série (veja bem, da série, não apenas da temporada) até o advento de Lantern.
O mid season que colocou Jimmy e Chuck em lados opostos do tribunal, com o irmão mais jovem deixando bem claro até onde estava disposto a ir para proteger seu ganha-pão das sólidas noções de moral de Charles McGill foi uma obra-prima.
O capítulo onde finalmente a audiência pôde ver a relação entre os dois, que, no final das contas, tem sido o elemento ao redor do qual toda a série é construído, mudar de panorama após duas temporadas e meia de Chuck manipulando e atrasando a vida de Jimmy foi agridoce.
Pois ainda que tenha sido catártico ver Jimmy no tribunal, levando a melhor sobre Chuck, foi triste perceber o quão alquebrado Charles ficou ao ser confrontado com a natureza de sua condição.
Claro, todos nós sabemos que não existe alergia a campos eletromagnéticos, e Chuck tem se prestado ao papel de vilão em Better Call Saul desde o começo, mas a forma humana como Michael McKean interpreta o personagem consegue sugar empatia de uma audiência que estava ansiosa por vê-lo se dar mal já havia algum tempo.
A tomada final do episódio que foi todo dedicado aos irmãos McGill, com Chuck sentado sob o sinal de saída da sala de audiências foi de partir o coração, por mais que nós estivéssemos felizes por ver Jimmy triunfar sobre o velho advogado.
A segunda metade da temporada seguiu com Jimmy tentando manter o escritório de advocacia junto com Kim a despeito de ter sido suspenso por um ano por conta de sua invasão à casa de Chuck, e a primeira vez que ele se referiu a si próprio como Saul Goodman, ao criar uma produtora de comerciais para tentar fazer algum dinheiro com os horários que já havia comprado nas tardes da TV local para seus anúncios.
Mais do que isso, a partir do momento em que Jimmy se vê incapaz de advogar, nós o vemos voltar aos velhos tempos de "Jimmy Sabonete", retomar os antigos meios e até mostrar uma faceta mais sombria de sua personalidade. O episódio Slip, por sinal, mostra um interessante flashback onde vemos o ponto de vista dele sobre a falência de seu pai nos negócios.
Já havíamos visto Chuck falar a respeito, responsabilizando Jimmy pela desgraça profissional do senhor McGill, mas foi interessante ver que o futuro Saul Goodman lembrava das mesmas coisas sob uma ótica absolutamente distinta, e tomou o que, para ele eram as fraquezas de seu pai, como algo que ele não deixaria acontecer a si próprio. Uma bela explicação para muito do comportamento de Jimmy.
Mas ele foi além da mera falcatrua...
Jimmy, vendo-se prejudicado pelas ações do irmão mais velho, também buscou vingança pessoal. Uma tão bem elaborada que custou a Charles o que ele tinha como mais precioso na vida:
Sua profissão.
Muito mais do que a tramoia para forçar as velhinhas do residencial Sandpiper a apressar o pagamento das indenizações que renderiam a Jimmy uma bolada, seu joguete absolutamente espontâneo para retribuir as perseguições de Chuck tiveram efeitos devastadores sobre seu alvo.
Especialmente porque após a derrota para Jimmy no tribunal, Charles parecia decidido a melhorar e voltar a ser o homem que havia sido. Vê-lo sofrer a recaída inapelável que ele sofre ao final de Lantern, facilmente um dos melhores episódios de qualquer série na TV em muitos anos, é particularmente doloroso, e as consequências de tal recaída constituem um cliffhanger ainda mais poderoso para a próxima temporada.
Especialmente porque Lantern deixou claro que, a despeito de seus desvios de conduta, Jimmy continua sendo, essencialmente, um bom sujeito. Por vezes ele é cegado pelo seu egoísmo e toma más decisões, mas quando a oportunidade se apresenta, ele está disposto a sofrer as consequências para consertar a situação, como fez no caso Sandpiper, e especialmente com Kim, que de tão enterrada em trabalho, quase se matou tentando manter o seu escritório funcionando. Aliás, foi justamente o susto com Kim que ajudou Jimmy a colocar as coisas em perspectiva, e emendar (ou tentar emendar) todas as pontas que deixara soltas desde que perdera sua licença.
Ser confrontado com as consequências de seus atos sobre Chuck podem ter um efeito poderoso sobre Jimmy e talvez, levá-lo a finalmente assumir a persona de Saul Goodman, que, conforme nós pudemos ver nas vinhetas pós-Breaking Bad, onde ele é Gene, o gerente da lojinha de pães de canela, continua à espreita, pronto para assumir o controle.
Em seu terceiro ano, Better Call Saul deu mais uma demonstração de excelência.
O programa segue sendo capaz de evocar a série-mãe sem apelações, quem não assistiu Breaking Bad é perfeitamente capaz de assistir Better Call Saul e aproveitar a mistura perfeitamente equilibrada de comédia, drama e programa policial que a série oferece e se deliciar com um roteiro muito bem escrito, atuações acima da média e uma produção caprichada e sem arroubos de gente que sabe a história que deseja contar.
Novamente:
Dureza vai ser esperar um ano até a próxima temporada.

"-Não diga nada, entendeu? Arrume um advogado! Arrume um advogado!"

terça-feira, 20 de junho de 2017

Resenha Série: Deuses Americanos, Temporada 1, Episódio 8: Come to Jesus


Atenção! Spoilers do episódio abaixo!
E aconteceu. Após dois meses, Deuses Americanos chegou ao final de sua primeira temporada de maneira absolutamente insatisfatória.
O season finale do programa sobre os velhos deuses desafiando a nova geração de divindades criadas pelo Homem chegou na casa de Vulcan, decapitado por Quarta-Feira no episódio 6. Lá, Shadow e Quarta-Feira estavam esperando que Sr. Nancy lhes fizesse ternos para estarem apresentáveis em sua próxima parada, e ouviram uma interessantíssima história do Deus-Aranha africano, a respeito de Bilquis, e de como ela penou em sua ida para a América, e como se deu sua ligação com Technical Boy e os novos deuses. "E podemos culpá-la?", pergunta Nancy durante sua narrativa de como a antiga Rainha de Sabá chegou ao fundo do poço, descobrindo que os EUA tinham seus próprios meios de colocar um deus de joelhos.
Mais do que isso, o interlúdio de Bilquis mostrou que a personagem definitivamente vai ganhar mais espaço na próxima temporada, já que Technical Boy foi atrás dela para cobrar um favor que irá colocá-la na linha de frente da guerra que se anuncia.
Guerra, aliás, é tudo o que Quarta-Feira deseja.
Sua parada seguinte é na casa de Ostara (Kristin Chenoweth), antiga deusa pagã da primavera, da renovação e da vida que se deu bem ao ser ligada a Jesus Cristo e ovos de chocolate, mantendo um pouco de seu antigo status nos tempos atuais.
Todo o segmento na casa de Ostara é um deleite visual, já que é Páscoa, e ela é anfitriã de uma infinidade de Marias e Jesus de todos os tipos, formas, raças e até credos. Quarta-Feira não estava brincando quando disse que, por conta da grande necessidade de Jesus, havia um bocado de Jesus. "Cada pessoa que fecha os olhos e reza vê um rosto diferente", ele explica a Shadow.
O ex-condenado chega a conversar brevemente com o Jesus de Nazaré (Jeremy Davies, ótimo), a própria encarnação da crença, nas próprias palavras.
Mas não são apenas Shadow e Quarta-Feira que passam pela casa de Ostara. Mad Sweeney e Laura coincidentemente também vão ao local. Afinal, lá há, conforme prometido pelo leprechau, alguém capaz de ressuscitar Laura, que está mais cadavérica do que nunca após seu acidente no episódio passado; e Media dá as caras (caracterizada como Judy Garland em Desfile de Páscoa) para ter com Ostara, lançando ainda mais luz em como funciona o tráfico de fé oferecido pelos Novos Deuses.
Parece um bocado de coisa acontecendo ao mesmo tempo, não?
Pois deixa eu te dizer que o episódio ainda fortalece a relação entre Laura e Sweeney, especialmente de parte do leprechau, que chega a admitir, quase cochichando, que não quer mais que Laura esteja morta, para depois adicionar, cheio de razão, que o faz por razões egoístas, o que é uma ótima sacada, haja vista que a improvável dupla protagonizou um dos melhores episódios da temporada e tem uma química inegável, quase tão boa quanto a partilhada por Whittle e McShane.
E, claro, o grande momento do capítulo é quando Quarta-Feira se revela a Shadow, declarando abertamente sua verdadeira identidade como Odin, numa sequência de arrepiar.
Em uma hora e um minuto, a episódio dirigido pela italiana Floria Sigismondi conseguiu ser engraçado, divertido, tenso e apoteótico, reunir todos os principais personagens que deram as caras ao longo da primeira temporada, apresentar mais alguns, e oferecer um ponto de convergência perfeitamente plausível para toda a história até aqui além de deixar sombras sobre o que aguarda Odin na Casa na Rocha em Wisconsin.
Então, porque é que eu disse que o programa alcançou o final de sua temporada de maneira insatisfatória?
Porque foram apenas oito episódios, e agora vai levar um ano até nós podermos ver pra onde as coisas andam a partir daí!
O primeiro ano de Deuses Americanos terminou da melhor maneira insatisfatória possível, deixando a audiência que abraçou o programa roendo as unhas por mais, e amarrando o que fora a grande trama da temporada:
Shadow poderia acreditar?
E a resposta foi um retumbante sim, afinal, após conhecer uma festa cheia de Jesus, ver Quarta-Feira massacrar os homens sem rosto dos Novos Deuses com relâmpagos do céu, e ver uma verdadeira demonstração do poder de Ostara (sem mencionar a esposa voltando dos mortos), ficava difícil para Shadow se manter indiferente aos poderes divinos que rondam seu mundo.
Mas o episódio foi além, pois ao explicar por que Laura morreu, sacrificada em nome de Odin, colocou a Esposa Morta e Shadow em lados opostos.
É interessante imaginar como isso irá funcionar na próxima temporada, já que episódios anteriores haviam deixado bem claro que Quarta-Feira não estava confortável com a volta de Laura do túmulo, e provavelmente teme a influência que ela possa ter sobre Shadow.
Chegar ao season finale amarrando pontas soltas, encerrando arcos da temporada, e aquecendo as coisas para o próximo ano em um dos melhores episódios da série até o momento, não é pouca coisa.
Michael Green, Bryan Fuller, Neil Gaiman e companhia só não estão mais de parabéns porque a temporada foi demasiado curta.
Haja unha até a segunda temporada.

"-Chamo-me Deus das Batalhas, Grim, Impulsor e Terceiro. O De um Olho, também sou chamado de Superior, de Adivinhador. Sou Grimnir e O Encapuzado. Sou o Pai Poderoso, Gondlir. Tenho mais nomes que o vento. Tantas denominações quanto formas de morrer. Meus corvos são Huginn e Muninn. Pensamento e Memória. Meus lobos são Freki e Geri. Meu cavalo é a Forca. Eu sou Odin!"

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Eu Gosto do Frio


Eu gosto de inverno.
Sempre gostei.
Gosto de casacão. De cachecol. De sentir o ar frio no corpo ao levantar de manhã e sair debaixo das cobertas, de sentir o relaxamento da água quente do chuveiro na hora do banho.
Do gelado do chão do banheiro nas solas dos pés ao ter que levantar de madrugada pra ir ao banheiro, e daquela corrida ligeira de volta pra cama, correndo pra se cobrir e enfiar as mãos entre as coxas porque ela gelaram depois de serem lavadas.
Gosto do efeito que a água fria faz quando lavamos o rosto numa manhã de inverno. E gosto de sentar no sol numa tarde gélida pra almoçar numa praça ao invés de no escritório.
Sempre preferi o frio ao calor.
Talvez porque o calor não tem cura, e o frio tem.
O frio se resolve fechando as janelas, colocando mais uma peça de roupa, ou se cobrindo com uma manta, o calor, não.
O calor é universal, perene, e tu pode estar na frente do ventilador com a bunda numa bacia de gelo e ainda assim, sentirá calor.
Calor é muito bom na praia.
Mais especificamente na beira da praia, de preferência com os pés na água do mar.
Muita gente adora verão. Vibra quando os termômetros marcam 40 graus. Se deliciam ante a perspectiva de mais um dia escaldante com sol a pino.
A própria previsão do tempo corrobora isso.
Sempre falam de calor e sol como "tempo bom".
Eu pergunto:
"Bom pra quem?"
Porque não gosto de calor. Não gosto de estar sempre suando, procurando a linha de ação do ar-condicionado até minhas narinas secarem e sangrarem, ou ter o ventilador virado, literalmente, pra minha cara enquanto me espalho pela cama tentando fazer com que nenhuma parte do corpo toque na outra para evitar a sensação pegajosa de uma pele constantemente suada.
Não gosto.
Mas respeito quem gosta.
Façam sua festa quando estiver 40 graus e tu puder sentar numa cadeira de praia à beira mar. Eu mesmo tento fazê-lo na medida do possível, ainda que, pra mim, isso não seja aproveitar o calor, mas sim lidar com ele.
Curtam o calor enquanto eu espero pelo inverno, minha estação favorita do ano, que anda sistematicamente mais curta e menos intensa à cada volta que a terra dá ao redor do sol...
Mas aparentemente curtir o calorão não basta pra quem ama verão, sol e calor.
Essas pessoas não apenas adoram a quentura. Elas têm ojeriza ao frio.
Elas resmungam, tiritam e praguejam cada vez que o termômetro ousa ir abaixo dos dezessete graus.
Tudo bem.
Eu reclamo do calor o tempo todo.
Sei como é não gostar da temperatura.
Conforto térmico é um negócio extremamente pessoal, afinal de contas. Se duvida, pergunte qual a temperatura ideal a um esquimó e a um árabe...
Mas os amantes do calor vão além.
Eles não se satisfazem apenas odiando o frio e resmungando enquanto colocam mais um par de meias, aumentam a temperatura do ar-condicionado e aquecem uma bolsa de água para colocar nos pés durante a madrugada.
Eles tentam fazer quem gosta do frio se sentir culpado.
"Como é que tu podes gostar de frio? Não sabia que muita gente sofre nesse clima?", perguntam. "Os hospitais se enchem de crianças e idosos com problemas respiratórios! Centenas morrem por causa do frio!", declaram. "Pra ti é fácil gostar desse frio, tu não é um desabrigado dormindo com um saco plástico como cobertor nos rigores do inverno!", acusam.
E eu, que sou um misantropo de carteirinha carimbada, mas não um psicopata, de fato, comecei a me sentir culpado por gostar de frio.
Toda a vez que a temperatura baixa e eu sinto aquele estupor leve nas mãos enquanto lavo um prato que sempre me agradou, sou tomado de piedade por pessoas desabrigadas, animais que vivem na rua, idosos e crianças com problemas respiratórios.
E me sinto culpado por gostar do frio.
Ainda ontem, conforme a temperatura caía vertiginosamente com a chuva no meio da tarde, e eu me aconchegava pra assistir um blu-ray com uma coberta sobre as pernas enquanto comia uma barra de chocolate Talento, me flagrei sendo assaltado pelo pensamento nos sem-teto e animais abandonados que passariam por agruras quando a noite chegasse e estivesse tudo molhado e gélido
E me senti culpado por meu modesto conforto.
Mas então um outro pensamento cruzou minha mente...
Será que algum desses cagalhões que se enchem de blusas, mantas, casacos e ceroulas a cada inverno realmente se importam com as necessidades de outrem, ou estão apenas advogando em causa própria invocando as agruras alheias?
E eu cheguei à conclusão de que é o segundo caso.
Ou tu já testemunhou algum desses amantes do calorão, ao ouvir alguém dizer que adorava churrasco na praia, se empolar que nem um pombo e arrulhar "Como é que tu podes gostar de comida quando há milhões de famintos no mundo?"?
Eu acho que não.
Ou ao serem convidados pra um chope depois do expediente declarar que "É até irresponsável tu querer tomar chope depois do trabalho. Tu não sabe quantas pessoas morrem em acidentes de trânsito causados por motoristas bêbados nas nossas estradas, sem contar a incidência de doenças hepáticas que o álcool pode causar?".
Também, não, né?
Já viu algum deles negar uma tarde na piscina no verão porque há milhões de pessoas sem acesso a água potável e tu querer mergulhar num tanque de água tratada é até um insulto às necessidades dessas pessoas?
É...
Nem eu.
Os "anti-inverno" estão lá, com as mãos escondidas nas axilas e cara de bunda, preocupadas apenas com o próprio frio, e não com o dos desabrigados. A larga maioria, por sinal, jamais mexeu um músculo pra ajudar algum desabrigado na vida, e só lembra deles pra justificar a própria frescura.
É por isso que eu me vejo no direito de dizer, com todas as letras, em alto e bom som que sim: Eu gosto de inverno.
Eu gosto de frio.
Eu gosto de roupas pesadas, de caldo de feijão, de meias de lã, de edredom e de levar tempo pra começar a suar na academia.
Eu me apiedo das pessoas que passam necessidades não apenas no inverno, mas em todas as estações do ano, e as míseras contribuições de quê posso dispôr para amainar o sofrimento de crianças e idosos esquecidos pelo Estado, eu faço no calor ou no frio, e não vou me desculpar pelo meu gosto pessoal.
As pessoas arrotam falácia politicamente correta quando ela vai ao encontro de seus interesses pessoais.
Não é apenas hipócrita. É pusilânime.
E pra quem faz tal uso do sofrimento alheio, minha sincera sugestão é que, se está com frio, vá carpir um lote que passa.

Resenha Blu-Ray: A Grande Muralha


Eu vou confessar que, pelos trailers, A Grande Muralha me pareceu um daqueles esforços multi-nacionais para fazer um filme onde a China aparecesse bem, mais ou menos ao estilo do bom Karatê Kid com Jaden Smith e Jackie Chan. Um grande cartão postal da China com elenco majoritariamente local e uma ou duas estrelas ocidentais pra aumentar o interesse do público de olhos redondos.
Por mais que eu tenha sido um dos que gostaram de Karatê Kid com Chan e Smith, eu preciso dizer que um filme que me atinge mais como estratégia de mercado do que como vontade de contar uma história imediatamente se torna meio antipático pra mim, e essa foi uma das principais razões pra eu ter deixado pra ver A Grande Muralha no conforto de um domingo chuvoso em casa, e não no cinema, quando o filme estreou em fevereiro desse ano.
Ainda assim, as prévias e o nome de Zhang Yimou na direção mostravam que, por mais que se quisesse falar mal do filme antes de vê-lo, a produção não deixava a desejar no tocante à parte técnica da coisa, especialmente na direção de arte, que Yimou, de Herói e O Clã das Adagas Voadoras já deixou bem claro, domina com maestria de pintor impressionista.
Então ontem, enquanto a temperatura despencava de 26 para dez graus conforme a chuva avançava sobre Porto Alegre, liguei o Blu-Ray e fui conferir o filme.
Na trama conhecemos William (Matt Damon), um mercenário (talvez) britânico, veterano de muitas guerras na Europa, que agora vaga pelo território oriental tentando encontrar uma forma de ter acesso ao pó negro de fogo, uma arma cuja existência se tornou lendária na Europa, e que pode render uma fortuna a quem for capaz de retirá-la da China e levá-la ao velho mundo.
Após se esconderem em uma caverna para acampar, os quatro homens são reduzidos a apenas dois quando, em meio à madrugada, uma criatura não-identificada ataca o acampamento.
William consegue abater o monstro, e ele e seu companheiro Pero Tovar (Pedro Pascal, o Oberyn Martell de Game of Thrones), seguem viagem, carregando consigo a mão decepada para tentar descobrir suas origens.
Seguindo viagem, os dois ocidentais acabam esbarrando com um dos quadrantes da Grande Muralha da China, onde são recebidos com uma saraivada de flechas do exército conhecido como Ordem Sem Nome.
Capturados, os dois mercenários mentem sobre suas intenções na China, dizendo que são comerciantes em busca de negócios, e têm seus pertences revistados, revelando o braço arrancado da criatura noturna.
Inicialmente os soldados não acreditam que William tenha eliminado o monstro sozinho, mas o Estrategista Wang (Andy Lau) não vê motivos para duvidar, já que as evidências corroboram a versão apresentada por William.
Enquanto o comando da ordem discute qual deve ser o destino dos dois, ressoa um alerta, avisando que o inimigo se aproxima.
William e Tovar são levados à muralha onde acompanham, estarrecidos, a luta que se desenrola, entre a Ordem Sem Nome e medonhas criaturas dracônicas a quem os nativos chamam de Tei Tao. Em meio ao combate, William e Tovar se libertam, e entram na batalha junto aos soldados, ajudando a rechaçar o ataque e ganhando o respeito de seus captores, que os tornam hóspedes ao invés de prisioneiros.
Eles, então, conhecem a comandante Lin Mae (Tian Jing, que parece arrancada de um jogo de videogame), o general Shao (Hanyu Zhang), e Ballard (Willem Dafoe), outro ocidental que, a exemplo de William e Tovar, viajou à China em busca de pólvora, mas falhou em seu intento e está há vinte e cinco anos preso na muralha. Nesse tempo, ele aprendeu chinês e ensinou alguns dos oficiais a falar inglês e latim, tornando-se um hóspede involuntário da Ordem Sem Nome.
É com a ajuda dele que William e Tovar ficam sabendo que os Tei Tao chegaram à China em um meteoro quase dois mil anos antes, e de seis em seis décadas, empreendem um novo ataque, matam dezenas de guerreiros, os devoram, e alimentam sua rainha, que se reproduz trazendo mais e mais Tei Tao ao mundo.
Se as criaturas chegarem à China, e se alimentarem dos milhões de pessoas que vivem lá, se reproduzirão em um ritmo tão inacreditável que serão capazes de consumir toda a humanidade, para impedir isso, o império ergueu a Muralha, e formou a ordem sem nome, a mais impressionante, disciplinada e hábil força de combate da China, que existe com o único propósito de deter os monstros.
Por sua bravura e habilidade, Tovar e William são convidados a se juntar à Ordem, um convite que pode ser a oportunidade perfeita para sair da China com o pó negro, especialmente se contarem com a ajuda de Ballard, que conhece os hábitos e a língua locais.
Mas será que William, que tem passado toda a sua vida lutando por lucro, será capaz de virar as costas à primeira guerra que verdadeiramente vale a pena lutar?
A Grande Muralha não é um filme ruim.
O longa tem uma premissa interessante, misturando elementos caros ao cinemão norte-americano, como o estrangeiro seduzido por um estilo de vida totalmente novo que o encanta, e ao cinemão chinês, nominalmente a disciplina de lutar abrindo mão de todo o egoísmo em nome do bem comum. Os dois motes se encontram de maneira acertada em A Grande Muralha, com o personagem de Damon fazendo as vezes do capitão Nathan Algreen de Tom Cruise em O Último Samurai, ou o personagem de Sam Worthington em Avatar, ou de Richard Harrison em Um Homem Chamado Cavalo, e precisando abrir mão do egoísmo e da desconfiança que o têm mantido vivo ao longo dos últimos anos para se integrar à uma cultura que o encanta e assombra.
Yimou faz um ótimo trabalho ao gerar motivo para encanto e assombro com sua produção de arte de cair o queixo. Cada armadura em tons de dourado, vermelho, preto, roxo ou azul, cada armamento farpado brandido com estilo e graça, cada guerreira que salta pendurada em cabos... Tudo ajuda a apresentar o longa de maneira sólida em seu primeiro ato, mas ele começa a claudicar a partir do segundo.
A grande quantidade de roteiristas envolvidos no script, algo que nunca é um bom sinal, pode ser culpada pela quebra de ritmo do filme a partir do momento em que o personagem de Damon resolve ficar ao lado da Ordem Sem Nome e enfrentar os Tei Tao.
A história começa a dar pequenos pulos, e os personagens passam a se mover em ritmo acelerado porque, aparentemente, o estúdio queria o filme com menos de duas horas (o longa tem uma hora e quarenta e três minutos que passam voando).
Exemplo disso é a invasão dos monstros ao território chinês. À certa altura somos informados de que os monstros conseguiram passar pela muralha.
Não há nenhuma pista de como as criaturas conseguiram fazer isso, nenhuma explicação, e nós nem sequer vemos isso acontecer, apenas somos informados.
A trama precisava desse evento, e então ele foi enfiado no filme de maneira atabalhoada, e nem mesmo o fato de entre o time de roteiristas haver nomes como Edward Zwick e Tony Gilroy (além de Max Brooks, Marshall Herskovitz, Doug Miro e Carlo Bernard) consegue esconder o fato de que o filme passa a correr pro seu desfecho a partir da metade, o que é uma pena.
O elenco é bom e numeroso, há uma história divertida impulsionando o filme, e uma sutileza oriental emana da direção de Zhang Yimou, além da direção de arte embasbacante em cada detalhe tão afeita ao trabalho do diretor, que contrabalanceia o espetáculo de CGI da invasão alienígena que fede a pipoca.
A Grande Muralha não é, nem de longe, tudo o que poderia ser. Mas não é mau filme.
Numa tarde chuvosa de domingo, ele preencheu com graça a tela da minha TV, e me distraiu. Se não valeu uma visita ao cinema, certamente vale a locação.

"-Olhe para esse exército... Você já viu algo assim?
-É incrível."