Pesquisar este blog

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Santinha


Quando o Cláudio percebeu que havia esquecido os óculos, voltou pra casa para apanhá-los. Ao chegar, percebeu o par de calças jeans masculinas jogados no chão da sala, e o "nhéc-nhéc" malicioso das molas da cama no quarto, abriu a porta e se deparou com a Santinha agarrada no Jeremias. Naquele momento, além de chifres, duas coisas lhe vieram à cabeça:
A primeira era alívio.
Não por ser corno, que ser corno ninguém gosta, exceto, talvez, cantores sertanejos que parecem ver guampa como combustível pra música (?). Mas a verdade é que chifre nunca matou o chifrado (embora possa ter feito alguns cornos bravos matar aquele proverbial amante de cuecas no guarda-roupa e a piranha por quem ele botava a mão no fogo...). Mas a verdade, é que a simples ideia de ter uma razão palpável pra terminar com a Santinha, deixou o Cláudio até feliz.
A Santinha era uma tremenda vaca. Mal-educada, mal-agradecida, grosseira, cheia de manias, pretensiosa e nem sequer era bonita.
Tinha pouco pescoço, pele áspera, mãos de colhedora de batata, e pernas finas. A única coisa que mantinha o Cláudio preso à Santinha, era o hábito, e o fato de que ele por alguma razão, via certa fragilidade em seus motivos pra terminar com ela.
Como chegar numa pessoa e lhe dizer que "Olha, eu vou ser franco, não sou eu, é tu. Tu é muito vaca, mal-educada, mal-agradecida, grosseira, cheia de manias, etc...".
Não cabia. Ficava até feio fazer uma coisa dessas.
Se dissesse o contrário, o tradicional "Não é tu, sou eu", estaria não apenas mentindo a respeito de seus sentimentos, mas também mentindo a respeito dos predicados da Santinha, que poderia continuar levando sua vida com a ilusão de que não havia nada de errado com ela.
O que também não cabia. Era injusto, inclusive.
Mas ali, vendo ela enlaçando com as pernas o Jeremias, o bêbado do prédio, e fazendo cara de pânico enquanto tentava tirá-lo cima de si, o Cláudio via o momento perfeito, não apenas para terminar com a Santinha, mas também para extravasar, dizer à ela as verdades que ela precisava desesperadamente ouvir, e tudo isso dentro de um contexto.
As coisas mais pessoais, e que eram mais um reflexo dos gostos e percepções do Cláudio, como o lance da pele áspera, das pernas finas, das mãos grandes e da falta de pescoço, e que obviamente não incomodavam o Jeremias, eram detalhes que não escapariam ao Cláudio na hora de esbravejar, fingindo tristeza, seu discurso de encerramento da relação. Eram verdades que veriam a luz do dia sem parecer cruéis, ou ao menos sem parecer gratuitas. Ele estaria magoado, e talicoisa, seria esperado que pichasse a Santinha ao menos um pouco...
Já as verdades absolutas, as falhas de caráter de Santinha, essas ele poderia enumerar pra ela, e esperar que ela, em relações futuras, não apenas com um homem, mas na vida em geral, se policiasse, se não se tornar melhor pessoa, de fato, ao menos não ser tão vaca.
Tudo isso foi a primeira coisa que passou pela cabeça do Cláudio, a segunda, foi a consumação da óbvia ironia do nome de batismo da vaca, que de Santinha não tinha nada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário