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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Amor de Verdade


Abriu a porta do restaurante e fez sinal para que ela passasse antes dele.
Ela aceitou a gentileza com um sorriso, e passou.
Ele sentia o coração batendo na boca do estômago. Ainda não havia assimilado o surrealismo da situação.
Alguns minutos antes estava olhando os brinquedos na prateleira das lojas Americanas para, na sequência, estar escolhendo uma mesa no restaurante junto com ela... Há quanto tempo não se falavam... Ele nem mesmo sabia precisar.
Na loja, dera um passo pra trás e esbarrara com alguém, se virou pedindo desculpas e a viu.
Ela sorria pra ele, e ele levou uma fração de segundo para se desvencilhar do efeito inebriante que aquele sorriso lhe causava.
Ela disse "oi", e ele correspondeu, imediatamente se inclinando para abraçá-la. Não a beijou, não se sentiu com tal liberdade, e ficou pensando no ridículo de ter melindres para dar um beijo no rosto de alguém com quem partilhara tanta intimidade, mas regras eram regras, e as regras de convívio social e etiqueta se enquadravam na categoria.
Perguntou o que ela andava fazendo por ali. Achou que ela nem morasse mais na cidade.
Ela confirmou que não morava. Saíra do estado, mas viera para resolver algumas questões com documentos.
Ele estava tão nervoso com a situação que não sabia ao certo se eram referentes a um contrato de aluguel ou da faculdade, apenas balançou a cabeça enquanto mantinha pés e braços metafísicos em movimento para evitar se afogar nos olhos dela.
Conversaram amenidades brevemente, até ela perguntar se ele já havia almoçado. Ele reconheceu que não, não havia, e ela disse que estava indo comer e o convidou para se juntar a ela. Ele, olhando em perspectiva, não soube se o convite forma mera cordialidade vazia, mas na hora, não pensou que pudesse ser o caso. Apenas aceitou.
Andaram quatro quarteirões lado a lado falando do clima, do calor ao qual ambos abominavam, do sol ao qual ela era afeita e ele, não, e de outras amenidades. Ele sugeriu o restaurante, especializado em massas, quando passavam em frente, e ela aceitou.
Agora ele estava puxando a cadeira dela, e se perguntando se fazia isso quando namoravam... Não conseguiu lembrar.
Um garçom surgiu com dois cardápios e se gabando dos vinhos disponíveis.
Ele pensou em quem bebia vinho ao meio-dia num calor de 35 graus, e ela sorriu agradecendo delicadamente como quem dá a mais sutil das deixas para o garçom desaparecer.
Olharam o cardápio rapidamente, ele escolheu ligeiro, ciente de suas massas favoritas e pediu espaguete com almôndegas. Ela se demorou um pouco mais, e quando decidiu-se, pediu o mesmo. Ele chamou o garçom com um gesto, o rapaz anotou os pedidos e pareceu resignadamente desapontado quando, esnobando a carta de vinhos, ela pediu Coca e ele Fanta.
Ele a olhou do outro lado da mesa e sorriu. Chegou a ter o ímpeto de pegar a mão dela, que estava sobre a mesa, mas lembrou-se que não tinha tais liberdades.
Ela sorriu de volta, disse "Então", e não falou mais nada.
Era um silêncio constrangedor estilo Tarantino?
Ele não sabia... Era estranho não saber do que falar com ela. Disso jamais puderam acusá-los, sempre tinham assunto.
Até aquele momento.
Ele resolveu falar antes que alguém fizesse "hmmm" e desse uma risada desconfortável.
-Então... Tu... Tu tá namorando?
Assim que a pergunta saiu de sua boca ele percebeu o que dissera e sentiu-se enrubescer. Era óbvio que estava sendo, na melhor das hipóteses, inapropriado.
Resolveu se desculpar de antemão:
-Desculpa... Eu devo ter rompido algum tipo de barreira, nisso...
Ela sorriu de volta, enquanto baixava os olhos e alisava o guardanapo sobre a mesma:
-Tu e as tuas barreiras...
Ele sorriu sem graça. Já havia dito aquilo pra ela? Das barreiras?
-Eu já...?
-Sim - Ela interrompeu. -Tu me perguntou se eu... - Baixou a voz e se inclinou pra frente -Se eu me masturbava pensando em nós.
Ele ruborizou ainda mais.
-E depois - Ela disse, se recostando novamente e em tom de voz normal -Tu me pediu desculpas e falou isso aí... Das barreiras quebradas.
Ele fez um "ah" constrangido de quem entendeu. Ela o olhou nos olhos e o garçom chegou com as bebidas.
Serviu a ambos e saiu novamente. Ele tomou um gole da Fanta enquanto ela bebia um gole da Coca.
-Sim. - Ela disse após sorver a beberagem. -Eu tô.
-Ah. - Ele disse sem definir bem o tom em sua voz. -Que bom... - Disse, sem convicção.
-É. - Ela concordou.
Ele pensou em mudar o rumo da conversa. Seu detector de situações desconfortáveis estava perto de apitar.
-E aí? Já começou tua temporada de cinema 2017? - Perguntou, casual.
Ela confirmou. Começou e elencar os filmes que já havia assistido, empolgando-se mais com uns do que com os outros. Dali começaram a falar sobre a expectativa para os longas que estreariam ao longo do ano, com destaque para filmes de super-heróis e o novo longa de Christopher Nolan.
Ainda estavam enumerando os problemas com as adaptações da DC quando terminaram de comer, e quando ele insistiu para que ela o deixasse pagar a conta ela deu um sorriso reprovador, como quem está presa em um looping temporal.
Saíram andando do restaurante ainda conversando animadamente.
Ele pegou o celular para ver quanto tempo tinha antes de acabar a hora do almoço, e viu, espantado que já estava dez minutos atrasado para voltar ao trabalho.
Explicou a ela que precisava voltar e ela entendeu.
-Quanto tempo tu vai ficar? - Perguntou.
-Volto amanhã. - Ela respondeu. -Meu avião sai seis da manhã.
-Que cedo... - Ele disse.
-É... - Ela aquiesceu.
-Bom... Então, tá... Gostei de te ver. Não fica tanto tempo sem falar comigo de novo, me passa teu telefone. - Ele disse.
-Eu... Eu não sei se é uma boa ideia. - Ela disse.
Ele parou como se tivesse sido atingido por um murro. Minha nossa, ele preferia que tivesse sido um murro. Mas não discordou.
-É... É. Eu acho... Tu tem razão.
-É que... Olha... Eu tô namorando e... Eu não acho que isso fosse...
-Eu entendo. - Ele interrompeu. -Entendo completamente. Tu não quer dizer meu nome sem querer, à pessoa errada. - Sorriu citando Roberto Carlos.
Ela maneou a cabeça:
-Ele não é a pessoa errada. É a pessoa certa.
Outro murro.
-Ele te faz feliz? - Perguntou.
-Faz. - Ela respondeu. -E não me magoa.
Ele lembrou do Justiceiro explicando a Karen Page que só quem está por perto tem poder pra nos magoar, mas entendia o ponto dela.
-Então ele é mesmo a pessoa certa.
A abraçou com delicadeza e enquanto a desvencilhava de seus braços, pousou um beijo de leve no rosto dela.
-Que bom que tu está feliz. De verdade.
Saiu andando, e após alguns passos virou e acenou com um sorriso.
Estava, de fato, feliz por ela.
Talvez isso é o que fosse amor de verdade.

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