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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Na descida da General Auto



Ah, Melissa... Não a sandália, que por sinal acho muito feia, Melissa, a vizinha, a doce vizinha, a vizinha que povoava os sonhos de todos os guris do prédio nos nossos doze, treze anos de idade.
Melissa era muito bonita, os cabelos castanhos ondulados emoldurando um rosto com um par de olhos algo felinos, o corpo esguio, atlético, mas era muito mais que isso, a Melissa era mais velha que a gurizada, devia ter uns quinze anos, pelo menos, era dona de um estilo meio grunge numa época em que os estilos demoravam um pouco mais de 24 horas pra desembarcar por aqui via modem, até por que, naqueles dias, quase ninguém do nosso convívio sabia o que diabos era um modem.
Ela usava jeans preto, e ninguém da nossa turma tinha jeans preto, ela também usava blusas de moletom largas sempre preta, azul-marinho, ou cinza, e usava coturnos de cano alto, canos altos para dentro dos quais enfiava a barra da calça jeans preta.
A Melissa, ao contrário das outras gurias da idade dela, que passavam pelo nosso grupo olhando através de nós, como se não existíssemos, nos dava "oi.", ás vezes parava e conversava conosco, uma vez, pasmem, ela jogou uma partida de taco com a gurizada, e mandou a bolinha lá pra Casa do Capita quando rebateu.
Claro, ela usou um ardil feminino, quando o Karlo, o moleque com cara de Michael Schumacher se preparava pra arremessar a bolinha ela pediu com a voz doce:
-Toca ela rasteirinha que eu mando longe.
O incauto Karlo, querendo se aproveitar da inocência esboçada pela jovem, arremessou a bola pipocando pela calçada, uma tolice, Melissa se inclinou, deixando seu torso paralelo à rua, ergueu os quadris, e, com um suingue certeiro, acertou a bolinha já rindo.
Karlo, ouvindo os xingões de seu parceiro, Wagner, o loiríssimo filho do Alemão do açougue, saiu correndo esbaforido atrás da bola, com pelo menos meio quarteirão de vantagem.
Eu?
Eu era o mais que feliz colega de taco da Melissa.
Nós fizemos a contagem de pontos caminhando de maneira zombeteira, e, ao chegarmos em cem, número de pontos que decretava a vitória, ensaiamos uma breve coreografia como se esgrimássemos antes de cruzar os tacos, eu fiquei tão contente que nem sequer tomei conhecimento dos comentários maldosos (Embora plenamente fundamentados.) de que não foi mérito, mas apenas sorte, que me fez ganhar aquele jogo ao lado da bela Melissa.
Melissa era nossa musa, tinha piá na nossa pequena galera que queria casar com ela.
Eu tinha a sorte de estudar na mesma sala de aula que ela no Colégio Paula Soares, ela estava um ano atrasada, eu, um ano adiantado, e esse feliz acaso me colocava sentado logo atrás dela durante toda a manhã.
Eu, que também sou filho de Deus, era apaixonado por ela como todos os fedelhos da rua, mas mantinha meu amor platônico, e acho que isso a agradava.
Não exatamente a coisa de "amor platônico", mas o fato de eu não a idolatrar abertamente (embora o fizesse em particular.), isso a levava a conversar comigo, trocar frases em inglês, que ninguém mais na nossa sala conhecia, e, pra mim o ponto alto da nossa relação, quando, ao final da aula, ela descia de braços dados comigo a General Auto, do Paula Soares até a esquina com a Fernando Machado, onde nossos caminhos se separavam.
Durante todo aquele ano eu fui o guri de apartamento mais feliz do Centro de Porto Alegre e arredores, mas isso acabou quando, num dia ensolarado de verão, após um desencontro com a minha musa, a vi aos beijos com um sujeito (Nas minhas palavras à época.) super velho, de uns trinta anos.
Descobriria mais tarde o nome do sujeito, em confidência da própria facínora que me arrancou o coração, o qual nem sequer fiz questão de lembrar, e o apelido pelo qual ela o chamava:
Cocada.
Durante um período de um ano, adquiri uma aversão patológica à cocada, o doce, talvez por isso ainda lembre. Por isso e por se tratar do co-protagonista da minha primeira, e acho que única, decepção amorosa.
Enfim, eu passei de ano e fui para uma turma, Melissa foi pra outra e perdemos contato. Anos se passaram e toda a vez que eu subia ou descia a lomba da General Auto que liga a Fernando Machado à Duque de Caxias, eu lembrava com uma melancolia doce daqueles poucos passos que caminhava ao lado da musa da gurizada quase diariamente, outro rosto, outra situação do passado que não volta mais.
Até que, nessa semana, parado na fila do mercado com meu sanduíche de frango e meu suco de laranja, deparei-me com ela, a Melissa em pessoa, não havia mudado nada, continuava bonita como sempre embora, para meu alívio, não fosse mais meio grunge.
O mais bacana?
Ela me reconheceu. Á despeito de hoje, aos vinte e oito anos eu guardar muito poucas semelhanças com aquele moleque de doze anos de idade, ela me reconheceu!
Conversou comigo, repetiu uma das frases em inglês que mais dizíamos, me abraçou na despedida, e mencionou nossos passeios de braços dados lomba abaixo.
Eu abanei quando ela olhou pra trás após alguns passos, ainda enternecido, e me dei conta de que, ás vezes a felicidade, ainda que fugaz, está nas coisas mais singelas.
"-Look at those loosers, Rodycan."
"-No, they disgust me Melissacan."

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