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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

No banco


Geraldo entrou no banco desanimado. Desanimado com tudo. Com a vida, com a morte, com o amor e com o esporte. Só não estava mais desanimado porque estava com pressa, assoberbado que vivia naqueles últimos tempos pelo peso de suas obrigações e das obrigações de outrem. Caminhou até a entrada exígua do banco, e sacou o relógio do pulso e o celular com os fones de ouvido grandes e laranjas dos bolsos. Largou tudo naquela pequena gaveta de objetos metálicos na entrada do banco e andou com decisão até a porta giratória que se tornou quase obrigatória em agências bancárias. Deu um passo, dois, três, e bateu com a testa na porta quando ela trancou, de súbito.
Trancou na porta giratória mesmo tendo deixado o relógio o celular e o fone de ouvido na cesta.
Voltou, largou a carteira, cheia de moedas, e o cinto. Tentou entrar novamente, e a porta novamente travou. Deu-se conta do quê era. Uma embalagem de papel metálico de comprimidos e um jogo de talheres de camping que sempre carregava na mochila. A mochila cheia de livros e revistas e algumas peças de roupa suja o desencorajaram de entrar no banco. Apanhava suas coisas na cesta de pertences quando a segurança, uma moça simpática do lado de dentro da parede transparente se aproximou da janelinha e bateu duas vezes, fazendo sinal para que entrasse. Ainda sinalizando, mostrou a Geraldo o movimento que devia fazer se quisesse ultrapassar a porta giratória.
Geraldo seguiu a instrução muda da moça, e adentrou a sala de auto-atendimento do banco enquanto sacava dois cartões bancários e meia dúzia de boletos de dentro dos bolsos das calças jeans largas e, enquanto apanhava seus pertences de cima do balcão, sorriu, sinceramente, e agradeceu à moça da segurança, que sorriu de volta dando-lhe uma piscadela.
Após recompôr-se com o cinto, o relógio, o telefone e a carteira, andou agência adentro, passando ao lado da moça de uniforme, sentiu um cheiro agradável, vindo dela. Chegou a diminuir o passo pra identificar o aroma.
Foi quando, em um baque, percebeu que se tratava do perfume que Luana, uma das responsáveis pelo seu desânimo atual sempre usava. O cheiro que Geraldo aprendera a encontrar no pescoço e por baixo dos cabelos dela. O cheiro que preenchia cada milímetro dos espaços que dividiam, pois sempre que ela e ele estavam juntos era fugaz e ele queria que fosse pleno, então, ia contra todos os seus instintos e ficava perto dela. O mais perto possível, Sempre que lhe era possível. Fossem dois minutos, fossem duas horas ou duas noites, ao lado dela sempre lhe eram momentos preciosos.
Agora, só o que ele tinha eram memórias. Igualmente preciosas, mas muito distantes... Distantes como nunca antes, e um calhamaço de contas para pagar.

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