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quarta-feira, 9 de abril de 2014

A Maldição de Vandeca


A Vandeca considerava a própria beleza uma maldição.
Não era gênero, não. A beleza já havia causado problemas pra Vandeca mais de uma vez.
Além dos problemas tradicionais que uma mulher bonita sempre enfrenta, como não ser levada a sério por seus colegas de trabalho e estudo, os olhos cobiçosos de homens que a veem primeiro como objeto sexual e apenas depois como ser-humano, a condescendência invejosa de outras mulheres menos dotadas de atributos físicos, havia mais.
E não era o fato de a Vandeca ter percebido que a maioria dos homens se intimidavam ante sua vasta beleza, nem o fato de ter notado que, para a maioria dos que se aproximavam dela e a cortejavam, ela era pouco mais do que um troféu para ser exibido após o "abate"...
Não. A raiz do problema era mais profunda.
Vandeca começou a, de fato, preocupar-se, quando resolveu sair com um rapaz que conhecera na academia, o Inácio.
Inácio conversou com Vandeca de maneira gentil e descontraída, sem sugerir nada com seu sorriso tímido ou com suas palavras escolhidas com cautela.
Vandeca logo percebeu que Inácio não a via como um objeto. E se, a princípio, achou que ele era apenas um sujeito mais esperto que a maioria, tentando uma estratégia inteligente para acessá-la, não tardou em dar-se conta de que o jovem, pasmem, era sincero.
Inácio de fato relacionava-se com Vandeca como uma amiga em potencial.
Vandeca não saberia dizer se fora efeito de descobrir genuína sinceridade em um homem, se fora a delicadeza que Inácio reservava ao tratamento com ela, ou simplesmente o tesão acumulado de uma mulher linda, jovem e saudável que estava a muito tempo ocultando-se de eventuais predadores sob uma carapaça de reserva, mas a verdade é que Inácio tornou-se, de súbito, o alvo das atenções de Vandeca.
Ninguém na academia entendia, nem instrutores, nem frequentadores.
Como uma mulher linda, linda, linda, tão gostosa que não havia de ter carteira de identidade, mas escritura, que rescindia sensualidade, podia se interessar, subitamente, pelo Inácio?
Aquele sujeito modesto, de físico meia-boca, aparência regular, tímido, contemplativo e introspectivo. Não parecia possível.
Mas foi.
Vandeca viu-se praticamente obcecada por Inácio. Passou a tentar, de maneira sutil, dar-lhe abertura. Tocava-lhe o braço enquanto conversavam entre os aparelhos de musculação.
Tocava-lhe a perna quando o via sentado ou deitado levantando pesos.
Quando sentavam lado a lado para desamarrar os tênis ou fazer exercícios com halteres, ela colava sua coxa gloriosa na dele.
E ela via que Inácio a percebia. Percebia o rubor subir-lhe do colarinho e preencher-lhe a face de escarlate.
Mas ele não fazia um movimento, o que a desesperava.
Vandeca não entendia que Inácio, ciente que era de sua aparência e personalidade, não se achava à altura dela.
Para ele, um sujeito insuspeito, de disposições simples, ser amigo daquela deusa maravilhosa era mais do que ele podia almejar. Era um píncaro de realização em termos de relação homem/mulher, ou, naquele caso específico, de relação homem/monumento edificado pelos deuses em honra da beleza feminina.
Mas Vandeca, além de bela (bela, bela, bela, belíssima...), era, também, tenaz.
E, ao dar-se conta de que Inácio não iria tomar a iniciativa, tomou ela a iniciativa.
Um dia, após terminar suas séries de exercícios de glúteos (que provavam sua eficácia sob o tecido das calças e saias de Vandeca, e que durante algum tempo juntaram plateia), ela esperou que Inácio saísse do chuveiro e o abordou, convidando-o "repôr os carboidratos.".
Inácio, aturdido de início, aceitou o convite.
Foram a um restaurante italiano na Cidade Baixa, onde ele comeu pouco, conversando polidamente, mas visivelmente nervoso com a situação. Tomaram uma garrafa de vinho, com Inácio frisando o tempo todo que não era de beber.
Tudo aquilo, o nervosismo dele, a polidez, a deferência com que ele a tratava e mais o vinho, foram deixando Vandeca cada vez mais excitada.
Ao terminarem a sobremesa, um tiramisu particularmente delicioso, Vandeca preparou, apontou, e disparou o convite para que Inácio a acompanhasse até em casa.
Ele, ruborizado além do que parecia possível, aceitou gaguejando.
Durante o trajeto de táxi, Vandeca se segurou para não agarrá-lo sob os olhos do motorista que, como todos os motoristas de táxi que Vandeca podia se lembrar, mirava-lhe as pernas e o colo pelo retrovisor.
Chegaram à casa dela, e, no elevador, Vandeca pôs-se a beijá-lo sofregamente, arrancando-lhe ruídos de afogamento quando descolava seus lábios carnudos dos dele, ao mesmo tempo em que interpunha a mão sedente por dentro de sua calça procurando por sua masculinidade.
Entraram no apartamento aos beijos, Vandeca arrancou-lhe a camisa fazendo botões quicarem com alarido pelo chão, ele largou a mochila e se pôs a desabotoar-lhe o vestido, mas ela não podia esperar, após dois botões o tirou por cima da cabeça deixando os seios que desafiavam a gravidade à mostra, e, ato contínuo, abriu o cinto de Inácio, e o libertou das calças.
Voltou a beijá-lo com luxúria, com lascívia, esfregando a renda da calcinha preta que lhe cobria o púbis contra o membro de Inácio, que pulsava.
Mordeu-lhe o lábio inferior, e sussurrou como se fizesse confidência:
-Quero que tu me pegue por trás.
Dando-lhe as costas, e ajoelhando-se, para então baixar a roupa íntima apenas até a altura das coxas, e inclinar-se para a frente, apoiando-se também nas mãos.
Esperava a aproximação de Inácio, esperava pelo mais básico e bestial dos sexos, pela penetração vinda por trás, enquanto ele a mordia nos ombros e nuca e lambia-lhe as costas.
Inácio, porém, a ver Vandeca de quatro, empinando-se e exibindo-se em toda a sua glória morena-clara, nada pôde fazer, exceto explodir em aplausos, como se acabasse de assistir à um concerto de André Rieu.
Era por essas e outras que Vandeca, volta e meia, pensava em basear sua dieta em pizza e sorvete, e parar de frequentar academia.

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