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terça-feira, 1 de abril de 2014

Resenha Cinema: Tudo por Justiça


É engraçado como um único elemento pode fazer a diferença e tornar um filme mais do que ele seria em outra situação.
Falando assim parece que esse único elemento pode ser pouca coisa, mas no caso de Tudo por Justiça, é "só" o elenco.
Não me entenda mal, ó, leitor. Tudo por Justiça não é um mau filme. Muito antes pelo contrário.
O que há no filme do diretor Scott Cooper (de Coração Louco) que poderia ser interpretado como defeitos, como o plot um tanto quanto óbvio (Trama de vingança familiar), uma qualidade de anacronismo (Toda a trama se passa em 2008, mas se nos fosse dito que é um filme de época produzido e transcorrido nos anos setenta ninguém ficaria exatamente surpreso), e uma ponta bastante aguda de machismo (Apenas um papel feminino relevante no filme, e não chega a ser exatamente lisonjeiro) apenas tornam esse thriller operário mais atraente, o removendo do lugar-comum pra onde tendem a ir as tramas de vingança familiares.
Tudo por Justiça mostra os irmãos Russel e Rodney Baze (Christian Bale e Casey Affleck), filhos da cidade de North Braddock, Pensilvânia, uma localidade erigida ao redor de uma usina siderúrgica.
Enquanto Russel seguiu os passos do pai e ganha a vida fazendo aço na usina, Rodney queria mais, e a sua chance de fuga foi a guerra. Veterano de três incursões ao Iraque, Rodney aposta em cavalos, toma dinheiro emprestado de agiotas e não consegue se encaixar na vida mundana dos proletários de North Braddock contraindo dívidas que Russel tenta pagar trabalhando dobrado.
À sua maneira torta, porém, os dois vivem direito. Russel mora com sua namorada Lena (Zoe Saldaña), Rodney vive com o pai de ambos, um homem adoentado que requer cuidados, e, meio aos trancos e barrancos, os irmãos tocam o barco.
Tudo muda, porém, quando Russel toma parte em um acidente automobilístico com vítimas fatais e é preso.
Enquanto cumpre sua pena, seu pai morre, e Rodney vai novamente ao Iraque, uma quarta incursão de onde volta particularmente marcado.
Quando Russel é libertado a vida de ambos mudou.
Enquanto ele tenta colocar as coisas de volta nos eixos, voltando ao seu emprego na usina e consertando a casa do pai, Rodney, afogando-se em dívidas, força o surpreendentemente complacente e amigável agiota John Petty (Willem Dafoe)a arranjar sua participação nas lutas de boxe sem luvas nas Apalaches, organizadas pelo traficante Harlan DeGroat (Woody Harrelson), um caipira psicopata viciado em violência, álcool, metanfetamina e dinheiro.
No cenário desolador de uma cidadezinha operária em tempos de depressão econômica, os dois irmãos se flagram tentando se encontrar enquanto lutam contra uma espiral de dor, arrependimento e desespero personalizada em DeGroat.
Com os nomes envolvidos é fácil perceber por que é o elenco que torna Tudo por Justiça maior do que poderia ser.
É o esforço e o talento dos atores que arranca o longa metragem da mundaneidade.
Se o hillbilly estricnado de Harrelson chega a ser assustador de tão repulsivo e os traumas do personagem de Affleck e a forma como eles o afetam são palpáveis, com o irmão mais moço de Ben Affleck garantindo, com sua interpretação, que Rodney não se torne antipático, Christian Bale continua sendo o grande nome do elenco.
Se o galês já havia sido monstruoso usando a extravagância de seus personagens como no recente Trapaça, nesse Tudo por Justiça ele dá uma elogiável demonstração de maturidade ao repetir a performance magnética, e fazê-lo sem nenhuma mudança física absurda.
Todo o peso dos acontecimentos sobre seu Russel Baze é demonstrado pelo ex-Batman através de sutis mudanças de postura e olhares.
Com uma direção segura, um roteiro simples e sem firulas de Cooper e Brad Ingelsby, bela fotografia em 35 mm de Masanobu Takayanagi (Filmando inteira e orgulhosamente em filme Kodak conforme os créditos), trilha sonora equilibrada e cheia de cordas de Dickon Hinchliffe, e um elencaço (que ainda conta com boas participações de Forrest Whitaker e Sam Sheppard) Tudo por Justiça garante uma visita sem desapontamentos ao cinema.

"-Você tá com algum problema comigo?
-Eu tô com algum problema com todo mundo."

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