Pesquisar este blog

terça-feira, 1 de abril de 2014

Macarrão


Eles escolheram seus respectivos pratos no restaurante, variedades distintas de macarrão com molhos e acompanhamentos igualmente distintos. Ela pediu nhoque com molho de nata, ele pediu fusilli longo com molgo quatro queijos e iscas de carne incrementado com almôndegas. Ela beberia Sprite, ele beberia Fanta Laranja.
Foram ao caixa fazer o pedido e pagar a conta, ele se ofereceu para pagar o pedido dela, mas ela negou. Se ofereceu para pagar a dele, ele riu, ignorando o que, pra ele, era uma oferta absurda.
Pagaram, apanharam a plaquinha que guiaria o garçom, e escolheram uma mesa razoavelmente próxima.
Ele puxou a cadeira para ela, esperou que ela se ajeitasse, então sentou-se diante dela. Ela apanhou o celular da bolsa e começou mexer no aparelho:
-Adoro wi-fi zone... - Disse.
-É ótimo pra conversas... - Ele retrucou, se escorando no espaldar da cadeira.
Ela ergueu os olhos fazendo uma careta de quem entendeu a reprimenda e a ignorou solenemente.
De súbito, começou a dançar com os ombros e cantarolar em voz baixa conforme tirava os olhos da tela do aparelho e o fitava:
-You're so vain... You probably think this song is about you... You're so vain... I bet you think this song is about you... Don't you, don't you, don't you...
Ele riu do outro lado da mesa, olhando a dança dela, que o encarava com uma expressão repleta de sarcasmo.
-Quié isso, alemoa?
-É uma música pra ti. - Ela disse. -Me pareceu apropriada...
Ele franziu o cenho:
-E de onde tu tirou essa epifania súbita?
Ela sorriu enquanto punha o celular em espera e o guardava novamente na bolsa.
-Coisas que eu li...
-Bernard Cromwell?
-Cornwell. - Ela corrigiu. -Mas não... Não foi lendo nada do Cornwell...
Ficaram em silêncio algum tempo.
Ela perguntou:
-É pra eu abrir o meu whats de novo?
-Faça o que tu tiver que fazer, gentil donzela. - Ele respondeu após se endireitar na cadeira.
Ela riu. Então ficou séria:
-Desculpa. Eu fui estúpida.
-Não. - Ele respondeu.
-Tu não me desculpa? - Ela perguntou.
-Eu te desculpo. - Ele disse. - Mas não. Tu é estúpida. Com a tua estupidez eu já me acostumei. É fácil te aguentar sendo estúpida. Especialmente agora que nós somos só amigos. Quando a gente namorava, sim. Aí era difícil suportar tua estupidez, mas eu suportava. Estupidez é tranquilo. É um traço de personalidade. É do teu jeito de ser. Tu não foi estúpida. Foi má. Fosse em outros tempos e eu teria me levantado e ido embora.
Ela não disse nada. Ficou parada em silêncio por algum tempo. Ele evitou olhar pra ela. Ele suspirou:
-Desculpa ter sido má.
Ele olhou pra ela. Ela continuou:
-Eu fui má. Tem razão. Eu só... Sei lá. Achei que-
-Não tem problema. Eu te desculpo. Mas já passou da hora de tu parar de achar.
Ela continuou em silêncio.
-Eu sei do que tu tá falando. - Ele seguiu. -Mas não sou nem um pouco vaidoso. E certamente não sou tão burro. Talvez tenha sido excessivamente otimista algumas semanas atrás. No lance das fantasias. Achei, de fato, que pudesse ser. Depois percebi que não. Nem precisei ir a fundo. Não sou um imbecil e muito menos um "menino lindo". Então, não. Não pensei que essa canção fosse a meu respeito.
Ela não disse nada. Continuou séria, olhando pra frente, olhos baixos.
Ele abrandou o tom:
-Mas não te preocupa. Também não sou amargo. Sei ficar feliz pelas pessoas que eu amo.
Ela sorriu pra ele.
-Menos por ti. Aquele filhote de Cannigia que tu arrumou pra ti eu queria que morresse decapitado enquanto dormia e tu acordasse com a cabeça dele te olhando no travesseiro.
-Monstro! - Ela disse, começando a gargalhar em seguida.
Logo o macarrão deles chegou, e eles comeram, conversando e rindo, depois ele a levou até em casa, e na volta, percebeu que havia amadurecido, talvez encontrado sua parcela de paz, e aprendido a ser genuinamente feliz por aqueles a quem amava.

Nenhum comentário:

Postar um comentário