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sexta-feira, 8 de abril de 2016

Resenha Cinema: Rua Cloverfield, 10


Em 2008, a produtora Bad Robot de JJ Abrams lançou o que foi um dos primeiros bons filmes do tipo "filmagem encontrada" a fugir do gênero de horror sobrenatural.
O longa Cloverfield (que no Brasil ganhou o mentecapto subtítulo ":Monstro".), de Matt Reeves era um longa de filmagem encontrada de monstro gigante. Um Godzilla encontra Bruxa de Blair, acertadamente mais apoiado nas reações dos personagens ao cataclismo por onde passavam do que no monstro em si, tudo registrado por um dos personagens (interpretado por T. J. Miller, de Deadpool), que, naquela noite, por acaso, estava com sua câmera.
O longa que ainda tinha as gatíssimas Odette Annable e Lizzy Caplan no elenco, foi um filme razoavelmente barato, custando 25 milhões de dólares, e faturou pouco mais de 170 milhões em bilheterias, sendo bem recebido pela crítica em geral.
Agora, oito anos após Cloverfield, a Bad Robot de Abrams nos leva de volta ao universo da gigantesca criatura que arrasou Nova York, mas em outro lugar, contando outra história, e mais importante, de uma maneira completamente diferente.
Mantido em segredo até ter seu trailer divulgado (ninguém sequer sabia que o longa estava sendo realizado até a prévia ser lançada), Rua Cloverfield 10 abre com Michelle (Mary Elizabeth Winstead, a Ramona Flowers de Scott Pilgrim Contra o Mundo) fazendo suas malas apressadamente.
Ela coloca suas roupas e seus esboços de fashionista em uma mala, e sai de casa levando consigo uma boa garrafa de uísque e deixando pra trás sua aliança e as chaves do apartamento.
Enquanto dirige por estradas vicinais tentando ignorar as ligações de seu noivo, Ben (voz de Bradley Cooper), Michelle ouve no rádio notícias sobre apagões no litoral até sofrer um violento acidente de carro, capotar pra fora da estrada, e cair inconsciente.
Ao acordar, sem saber por quanto tempo dormiu, recebendo soro intra venoso e acorrentada à parede de um quarto com cara de prisão, Michelle se desespera ao perceber que não tem sinal de celular.
As coisas só pioram quando surge seu captor, um sujeito enorme chamado Howard (John Goodman), dizendo à ela que a salvou, e que não há mais ninguém para quem ligar.
Howard revela que houve algum tipo de ataque. Ele não sabe precisar de que tipo, se nuclear ou químico, e nem sua fonte. Podem ter sido os russos. Podem ter sido os norte-coreanos. Podem ter sido os marcianos.
Tudo o que Michelle tem é a palavra de Howard de que o mundo lá fora está terminado. E que em um ou dois anos, com sorte, eles poderão sair novamente.
Mais do que isso, Howard lembra à Michelle o quão afortunada ela é, já que foi salva por ele, e levada ao bunker que ele construiu e preparou exatamente para esse tipo de eventualidade.
Michelle logo descobre que não está sozinha no abrigo de Howard. Além deles, há Emmett (John Gallagher Jr.), um jovem que corrobora a versão do anfitrião, e, mais do que isso, lutou para poder entrar no bunker de Howard.
Enquanto é apresentada às regras da vida subterrânea com Howard e Emmett, Michelle não consegue deixar de pensar no que realmente está ocorrendo, uma vez que Howard é controlador em um nível muito além do aceitável, e vigia seus hóspedes mantendo a dinâmica da relação de Michelle e Emmett dentro de um padrão que lhe parece aceitável e jamais além disso, e, pra piorar, Michelle eventualmente ouve a aproximação de carros e helicópteros da propriedade, a levando a pensar se Howard é, de fato um salvador, ou apenas um maluco com quem ela e Emmett estão presos em um calabouço com filtragem de ar e água?
É muito bacana.
O diretor Dan Trachtenberg, estreante em longa-metragens não chega a fazer um trabalho de gênio, mas sua condução do roteiro de Josh Campbell e Matthew Stueken (com participação de Damien Chazelle, de Whiplash) é correta e esperta, se segurando constantemente no menos é mais, e levando a audiência por um passeio de cem minutos em uma pequena, porém honesta, montanha-russa de adivinhações e perspectivas sendo frustradas e confirmadas, mistérios e revelações com pequenos e grandes picos de tensão daqui e dali.
Muito do que funciona em um longa com a dinâmica de Rua Cloverfield 10, porém, é o trabalho do elenco.
Maru Elizabeth Winstead manda muito bem nesse quesito. A gatinha segura a onda com desenvoltura, servindo de peão à audiência, já que nós só podemos ter certeza daquilo que ela sabe, e nada mais, mas o fazendo sem parecer uma vítima bovina frente ao mistério de seu cativeiro. Michelle tem dúvidas e está disposta a agir para saná-las, mostrando-se uma mocinha engenhosa e viva.
John Gallagher Jr. segura a onda no papel de Emmett, um personagem algo inssosso no início, que ganha estofo e se torna mais gostável conforme a trama se desenrola, John Goodman, por sua vez, é um capítulo à parte.
O ator consegue equilibrar Howard de modo a não torná-lo um maníaco, interpretando-o de uma forma que, em diversas ocasiões, ele parece de fato um salvador, em outras tantas, em especial quando assistem filmes ou jogam partidas de Monopólio, um pai ou tio duro, mas bonachão, dando-lhe nuances que ajudam a manter o clima de mistério do filme sem fazê-lo se perder na rotina manjada do "aponte pra um suspeito óbvio" o tempo todo.
Com três atores trabalhando muito bem com o que lhes é oferecido e contando uma história sólida por si só, o momento em que o thriller de Rua Cloverfield 10 deságua na ficção científica de Cloverfield: Monstro pode parecer um pouco abrupto, mas não inesperado, e mesmo então, os personagens sequem funcionando na mesma toada, garantindo que o longa não se perca e seja coerente tanto com o que vinha sendo apresentado nos últimos oitenta e poucos minutos, quanto com o Cloverfield original.
Mudando completamente fórmula e proposta, a Paramount e a Bad Robot de JJ Abrams conseguem mostrar, não um segundo capítulo, mas outra história de uma antologia, de uma maneira digna e divertida.
Se forem sempre boas assim, que venham outras tantas.

"-Meu objetivo na vida era estar preparado... E eu estava."

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