Pesquisar este blog

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Temporal em Porto Alegre


A tempestade se avizinhava sobre Porto Alegre, grandes nuvens escuras se espichavam sobre o céu da cidade como longos tentáculos á envolvê-la sob uma abóbada de escuridão.
Relâmpagos cortavam o céu, trovões ribombavam com fúria e um vento forte soprava, tirando o lixo do chão para rápidas danças no ar.
Alheio á tudo isso, ele pensava apenas nela. Nas mensagens secretas que recebera naquele dia e no anterior.
Ao mesmo tempo em que não podia conter a vontade que sentia de vê-la, de tê-la nos braços, de sentir o perfume de seus cabelos, pensava se valia a pena se violentar novamente assim que ela fosse embora dois dias depois.
Ele era um pessimista rematado. Como os perus natalinos, morria de véspera. Isso ocorria desde a sua infância, se furtava de pequenos prazeres pensando em poupar-se do sofrimento de não mais tê-los. Era, também, uma escolha consciente. Ele preferia daquele jeito, achava que seria mais prático levar a vida longe de satisfações fugazes, afinal, era melhor viver sem experimentá-las do que conviver com a saudade que ficaria no vácuo de tais satisfações.
"Mecanismo de defesa", era o que dizia quando o confrontavam com suas duvidosas convicções. Em mais de uma vez perdera oportunidades que, se não mudariam sua vida, o teriam divertido muito por algumas horas, ou dias. Não ligava. Quando lhe contavam quanto tal atividade fora divertida ele sorria, comentava, mas jamais se arrependia de não ter ido. Era seu jeito de ser.
Agora, ali estava ele, ouvindo o som insistente da chuva espancando os telhados da vizinhança, observando a iluminação amarela das lâmpadas ligadas de forma precoce nas ruas, e em sua mente, apenas ela e a sua iminente chegada.
Lembrava do que fizera na última vez em que ela viera á cidade. Havia feito proposta de não vê-la. Pouparia-se, assim, do sofrimento da despedida, demasiado penosa para ele quando da penúltima passagem da jovem por Porto Alegre, um ano antes. Era o mais sensato. Ela não voltaria para o velho pago, certo? Mesmo se voltasse, o que ele tinha á oferecer? Não muito. Suas responsabilidades auto-impostas o prenderiam ainda por algum tempo á uma vida que ele não queria forçar ninguém á dividir com ele. Sabia perfeitamente o que aconteceria com ambos se fossem tolos o bastante pra levar aquilo adiante. Tinha exemplos próximos. Não a veria. Não a veria. Não a veria.
Precisava vê-la.
Amaldiçoando a própria estupidez, mandou toda a cautela lá pra casa do Capita e marcou hora e local, e foi. Era de manhã, a luz matutina a deixara ainda mais linda. Ela estava feliz também. As coisas iam bem pra ela em sua nova vida. Novo emprego, animais de estimação, vida social movimentada. Ele ficou feliz por encontrá-la, e feliz por ela, honestamente. E, ao mesmo tempo, sentiu-se tão miseravelmente deslocado que abreviou o encontro não a levando em casa como fazia sempre. Á tarde, não conseguiu abster-se de vê-la novamente. Ela continuava linda, divertida, falando muito, ás vezes bobagens, mas só ás vezes. A presença dela o inebriava de novo. Marcou um terceiro encontro, e tomou sua decisão.
Uma decisão difícil. A de seguir com sua estratégia costumeira. Furtou-se ao prazer da companhia dela. E, de coração partido, não a viu mais.
Passou-se algum tempo, e agora, ali estava ele, regenerando com dificuldade sua carapaça, e ela avisava que estaria novamente na cidade.
Complicado, ele pensava. Complicado demais.
Ela voltaria pra casa depois, e ele? Ficaria em Porto Alegre novamente, pensando no "se...?", não sabia se queria aquela sensação de vazio que sentia toda vez que ela se despedia dizendo á que horas deveria estar no aeroporto no dia seguinte.
Fez proposta de não dizer nada, se fazer de morto, como fazem alguns animais sorrateiros em sua luta por sobrevivência.
Todavia, ainda sentia o cheiro dos cabelos dela. Ouvia o som de sua risada, era capaz de ver a cor de seus olhos, particularmente encantadores em certos dias. E não sabia se poderia resistir para seu próprio bem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário