Pesquisar este blog

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A Conversa Que Não Tivemos


Ele segurou as mãos dela entre as suas quando se sentaram. Ela sorri aum sorriso comedido, mas ele só conseguia ver lágrimas metafísicas a escorrer-lhe pela face. Isso o matava por dentro. Começou a falar após respirar fundo brevemente:
-Minha mãe costuma dizer que não se tira dos pés de um santo para colocar nos de outro.
É uma referência bastante católica à promessas feitas da boca pra fora, ou devoções mal-cumpridas. Tu não tira a vela que acendeu aos pés de Santo Antônio para colocá-la aos pés de Santo Expedito, pra te dar um exemplo...
Ela sorriu de novo. Parecia apreensiva, mas sorriu. Ela sempre tinha um sorriso pra ele. Ele respirou fundo, sentindo um gosto metálico na boca. Continuou:
-Alguns de nós fazemos isso... Eu faço. É errado, como minha mãe tentou, em vão, me ensinar com a sua analogia religiosa. E eu sei que é errado. Mas os hábitos mais velhos são os que mais custam a morrer e esse é um hábito particularmente antigo, sabe?
Ele olhou pra ela. E ela o olhava com compreensão. Ela também sempre tinha compreensão pra ele. Ele apertou a mão dela, e seguiu:
-Talvez eu devesse parar de alimentar esses maus hábitos. Eu alimento eles com culpa, sabe? Minha... Minha relação com meu pai, enquanto eu crescia, enquanto eu formava a minha personalidade, ela nunca foi das mais salutares. Meu pai era um mau exemplo. Era o homem que eu não queria ser. E ainda hoje eu tenho mágoa dele por coisas que ele fez com a minha mãe e meus irmãos enquanto eu crescia. Então, não é que eu não goste dele, mas tenho mil reservas com relação a ele. E, por alguma razão torta, o fato de eu ter mais afinidade com a minha mãe me faz sentir culpado. Então, nas datas especiais, os presentes que eu dou ao meu pai são melhores ou em maior quantidade do que os que eu dou à minha mãe... E, de novo... Eu sei que não faz sentido. Nem é justo. Mas é assim que eu ajo... É assim que as coisas funcionam, de sob uma ótica torta, dentro da minha cabeça... Com compensações e precedentes...
Ela apertou os lábios superiores contra os inferiores, e baixou os olhos... Ele entendeu aquilo como um pedido de espaço, e soltou a mão dela. As mãos dele estavam frias. Ele esfregou uma na outra, e as duas nas calças. Tomou fôlego, fechou os olhos um segundo:
-Não é assim que se ama... Eu sei que não é. Não é a forma certa de fazer as coisas. Eu não posso ficar tirando dos teus pés. Não posso me devotar a ti parcialmente porque não é assim que se faz. Não é o jeito certo de se fazer e se não é o jeito certo é o jeito errado e o jeito errado é incômodo pra mim e te fere. Te machuca. Te maltrata. E eu não posso ser o responsável por fazer nada disso. Pra te amar, eu devia te acalentar. Te confortar. Poder ser teu como eu quero que tu seja minha. Inteira, sem percalços, desvios nem barreiras. E eu não posso. Não posso porque eu sei que têm coisas que te ferem e incomodam, de maneira plenamente justificável, que eu não sei se posso mudar. Ao menos, não agora.
Uma lágrima escorreu do rosto dele. Ele pegou a mão dela de novo. E então a largou novamente:
-Eu fui honesto contigo, tá? Mas eu sei que ás vezes honestidade não basta... Que ás vezes a verdade não é o bastante... Mas é só o que eu tenho... Não tenho a capacidade de tergiversar contigo. Aí eu fiquei pensando... O que fazer quando o que eu tenho pra oferecer não é o que ela precisa? Quando não é o que ela merece? E a resposta é óbvia: Sair da tua vida. Te deixar seguir com as tuas coisas... Ser tudo o que tu pode ser. Tudo o que tu merece ser.
Ela ainda o encarava. Muito séria. Os olhos nos dele. Ele pôs o polegar no queixo dela:
-Não precisa começar a soltar foguetes ainda... Eu não vou sumir da tua vida. Quando tu precisar de uma dica pra passar de fase, eu sempre vou estar na PSN. Quando tu precisar saber um endereço, eu sempre vou ter o Google Maps à mão... Quando tu tiver sede à caminho do Centro eu sempre terei uma Coca geladinha no refrigerador. Eu não te mereço porque tu é perfeita demais. É mais do que eu consigo administrar. Muito mais do que o que eu posso equiparar. Tu é tudo o que eu sempre quis e eu não sei o que fazer com tanta felicidade e completude. E, no tempo certo, tu vai encontrar alguém que mereça. Alguém que saiba como agir quando tudo está certo.
Ela se levantou, muito séria. Ele tentou alcançar a mão dela. Ela, delicada que era, deu-lhe a mão. E foi embora.
Enquanto a olhava partir. Ele continuou consigo mesmo:
E eu... Eu vou ficar quietinho... Mantendo a distância mínima pra não te ferir. Te observando partir... Eu nasci pra ficar sozinho... E é exatamente isso que eu vou fazer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário