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segunda-feira, 20 de junho de 2016

Resenha DVD: A Travessia


Robert Zemeckis é um desses diretores de estirpe, que sempre fazem por merecer a deferência da visita ao cinema. Outros sujeitos nesse patamar, pra mim, são caras como Steven Spielberg e Ridley Scott, sujeitos que fazem filmes de gêneros absolutamente diversos, que são capazes de imprimir seu estilo à qualquer coisa que toquem, e contadores de histórias tão competentes, com assinaturas visuais tão únicas, que são capazes de, sozinhas, sustentar um espetáculo.
Zemeckis, Spielberg e Scott começaram suas carreiras fazendo ficção cientifica, e foram saltando para longas mais elaborados do ponto de vista dramático, se tornando realizadores mais sérios mas que, volta e meia retornam às origens e que, como qualquer ser humano, eventualmente tropeçam no caminho.
Scott teve uma longa série de filme de qualidade duvidosa nos anos recentes de sua grande carreira, Spielberg volta e meia mete os pés pelas mãos e realiza longas que fazem a gente imaginar se ele realmente setou na cadeira do diretor durante as filmagens, e Robert Zemeckis chutou o pau da barraca com O Expresso Polar e A Lenda de Beowulf.
Posto isso, não me lembro ao certo da razão pela qual eu não fui ao cinema assistir A Travessia no ano passado. Realmente não consigo me lembrar, mas é justo conjecturar que talvez tenha sido por causa da minha impaciência com a fala de educação dos frequentadores de cinema em geral, aliado ao fato de que A Travessia é, a grosso modo, a versão dramatizada do documentário O Equilibrista, de 2008, que conta a mesma história de como o equilibrista Philippe Petit fez seu mais ousado número, uma travessia na corda bamba entre as torres gêmeas do World Trade Center em 1974.
Ontem eu assisti ao filme, e é justo dizer que, ainda que não seja ruim, é um longa do qual não me arrependi de não ter visto no cinema.
Conforme o próprio Petit, no longa interpretado por Joseph Gordon-Levitt nos diz, ao início do longa, para ele, andar na corda bamba não é desafiar a morte, mas abraçar a vida.
É esse Philippe Petit de Levitt quem narra o longa do alto da tocha da Estátua da Liberdade com as Torres Gêmeas do WTC ao fundo (num CGI bastante óbvio), desde o seu primeiro contato com o arame, num circo de sua infância, passando pelo seu contato com o dono do circo, o pai dos equilibristas Papa Rudy (Ben Kingsley, esbanjando presença), seu ingresso no mundo dos artistas de rua, seu encontro com a namorada Annie (Charlotte Le Bon), e o momento, no consultório do dentista, em que decidiu qual seria o trabalho de sua vida.
A partir dessa decisão, começa a preparação de Phillipe para tal feito, o que inclui viajar de Paris à Nova York, encontrar cúmplices que pudessem ajudá-lo tanto a se infiltrar no prédio, em fase final de construção, quanto a realizar toda a preparação necessária para o prodígio jamais repetido: Andar pela corda-bamba à uma altura de mais de 400 metros do chão.
Chega a ser estranho que Robert Zemeckis tenha conseguido, junto com o co-roteirista Christopher Browne, tornar A Travessia um filme tão irregular.
Não me refiro nem à monotonia dos dois primeiros atos, quando tudo se trata de conhecer o passado do protagonista e do planejamento do "coup", mas mesmo durante a meia hora final do filme, quando Zemeckis imprime sua assinatura na construção da uma tensão palpável durante toda a operação, terminando na ótima sequência do ato de cruzar o arame entre as torres em si, o longa não funciona como poderia.
A insistência do roteiro com uma narração em off que na maior parte do filme apenas nos diz, em palavras, o que o filme já nos dizia em imagens, e em alguns momentos serve só para quebrar o encantamento da imersão para com o que estávamos vendo.
Os afeitos visuais são OK para um filme de qualquer outro diretor, para Zemeckis, estão um tanto abaixo da média, o trabalho de elenco é tão irregular quanto o filme. Há tanto performances top de linha, casos do já citado Ben Kingsley e de James Badge Dale no papel do franco-americano Jean Pierre, como outras bastante esquecíveis (os cúmplices maconheiros de Benedict Samuel e Ben Schwartz), o protagonista fica no meio do caminho.
Sua performance é convincente sob o aspecto do gênio/louco obcecado por um objetivo, mas seu sotaque francês soa como Pepe Le Gambá e faz pensar porque foi que Zemeckis não escalou um ator francês de verdade no papel...
A Travessia poderia ser um daqueles pequenos grandes filmes que começam de maneira despretensiosa e cresce rumo a um grande clímax, infelizmente, algumas más decisões, e algumas péssimas decisões, o jogam na vala comum de longas meia-boca com uma ou duas sequências memoráveis.
Melhor sorte na próxima, senhor Zemeckis.

"-A maioria dos equilibristas, eles morrem na chegada. les pensam que chegaram, mas continuam no arame. Se você tiver três passos para andar, e andar esses passos com arrogância... Se você pensar que é invencível... Você vai morrer."

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